segunda-feira, março 31, 2008

A ESPIÃ (Zwartboek)



Como é bom ver novamente, depois de quase oito anos, um filme de Paul Verhoeven no cinema. Principalmente quando se trata de um trabalho tão prazeroso, empolgante e cheio de reviravoltas. É comum vermos filmes sobre a ocupação alemã na França ou na Itália, mas são poucos os que mostram a ocupação alemã na Holanda durante a Segunda Guerra e o esforço daqueles que fizeram parte da resistência. A trama de A ESPIÃ (2006) se inicia no ano de 1944, faltando ainda alguns meses para a rendição das tropas alemãs. O filme acompanha a trajetória de uma judia chamada Rachel (a bela Carice van Houten), que vive escondida na casa de uma família holandesa. Um dia, enquanto ela toma sol perto de um lago, ouvindo as então proibidas canções inglesas numa vitrola, um avião despeja uma bomba em plena casa onde ela mora, o seu esconderijo. Uma série de eventos e tragédias vai fazer com que ela trabalhe para um bloco da resistência e seja "convidada" a seduzir um oficial da SS, Ludwig Muntze (Sebastian Koch), com o objetivo de se infiltrar na Gestapo e trazer informações para o seu grupo, não importando até que ponto ela seria capaz de ir para ajudar a resistência e para vingar a sua família, morta pelos alemães.

Assim como ocorre em SOMBRAS DE GOYA, de Milos Forman, vemos em A ESPIÃ como as regras da sociedade se modificam e se adaptam a partir de eventos ocorridos, seja através da invasão ou da rendição de determinados povos em uma nação. Se há uma surpresa nesse novo trabalho de Verhoeven é a menor intenção em causar choque na audiência. Tanto que eu já estava achando que a platéia da sala em que assisti o filme, em sua maioria composta de senhoras, sairia do cinema chocada com a costumeira brutalidade do diretor. Claro que de vez em quando há sangue espirrando, nudez frontal, tanto masculina quanto feminina, e uma brutalidade acima do que se vê normalmente nos filmes de guerra. Porém, se compararmos com outros trabalhos de Verhoeven, até que ele pegou leve nesse filme.

O Cristianismo, mostrado quase sempre com um misto de desdém e reverência, é visto logo no início do filme, quando Rachel é obrigada a decorar um versículo da Bíblia para recitar para a família antes do almoço. Mas no fim das contas, como acontece em outros trabalhos do diretor, A ESPIÃ é sobre a luta pela sobrevivência. Não interessa se ela vai ter que fazer sexo com um oficial nazista, fingindo gostar dele. Aliás, o jogo de aparências, que também é outra das características do cinema do "holandês maluco" e que talvez tenha atingido o seu ápice em INSTINTO SELVAGEM (1992), nesse filme é mostrado com um toque ainda mais sutil e belo, já que a dissimulação e a sinceridade de Rachel, ou de Ellis - que é o nome que ela usa para se infiltrar na Gestapo - se confundem e nos surpreendem. E quem diria que de uma hora para a outra, passaríamos a simpatizar com um oficial da SS.

Uma das frases do filme que sintetiza não apenas essa obra em si mas quase toda a filmografia de Verhoeven ocorre quando Rachel/Ellis vai visitar um homem que poderia ajudá-la a sobreviver naquele mundo. Quando ela recebe um dinheiro para se manter durante mais ou menos um ano, o doador pergunta se ela não vai conferir a quantia. Ela responde: "não, eu confio no senhor". "Não confie em todo mundo, minha jovem", é mais ou menos o que ele diz a ela.

Agora eu fiquei ainda mais entusiasmado para ver SOLDADO DE LARANJA (1977) e para rever ROBOCOP (1987), duas das obras mais importantes da carreira de Verhoeven. Mas suspeito que A ESPIÃ aparecerá com freqüência entre os favoritos de muitos fãs do cineasta. Eu, inclusive. E desde já o filme é sério candidato ao posto de melhor do ano, na minha humilde opinião.

sexta-feira, março 28, 2008

TRATAMENTO DE CHOQUE (King of the Ants)



Meu interesse pelo cinema de Stuart Gordon chegou tardio. Veio com o prazer proporcionado pelo seu trabalho na antologia MASTERS OF HORROR, com os títulos SONHOS NA CASA DA BRUXA (2005) e THE BLACK CAT (2007). O meu interesse se potencializou com a apreciação de SUBMUNDO (2005), o belo trabalho que Gordon fez a partir de um roteiro de David Mamet. Se bem que esse filme é uma exceção na carreira de Gordon, mais especializado em filmes tradicionalmente de horror. Inclusive, Gordon é considerado o melhor adaptador da obra de H.P.Lovecraft para o cinema. E recentemente consegui via torrent uma cópia da "versão do diretor" do clássico DO ALÉM (1986), que em breve estarei vendo e comentando por aqui.

Quanto a TRATAMENTO DE CHOQUE (2003), foi uma trabalheira pra eu conseguir um arquivo e uma legenda que sincronizassem. Aí, quando soube que o filme havia sido lançado no Brasil em dvd, resolvi desistir do divx e ir atrás da cópia nacional, lançada pela Casablanca Filmes. E pra mim foi uma surpresa, já que eu esperava um filminho mais despretensioso e de pouco impacto, mas Gordon fez um trabalho sombrio e perturbador, no qual nos vemos em contato com o nosso próprio lado negro, ao torcer por um assassino frio que cometeu a besteira de matar um homem de família inocente por uma quantia pequena em dinheiro. Mas como ele é um sujeito liso, ele aceita a tarefa, ainda que seu desempenho na hora do assassinato tenha sido um pouco desajeitado. Natural, em se tratando de um iniciante. O problema é que os caras que sugeriram o assassinato do homem não querem pagá-lo, preferindo que ele saia da cidade sem um tostão no bolso. Ele se recusa e acaba comendo o pão que o diabo amassou nas mãos dos criminosos. Contar mais seria estragar as várias surpresas que o filme vai trazendo.

Assim como Hitchcock nos fazia cúmplices de seus criminosos, Gordon também o faz em TRATAMENTO DE CHOQUE, só que com muito mais violência gráfica em um filme enxuto e que não deixa o espectador desgrudar os olhos da tela em momento algum. TRATAMENTO DE CHOQUE é o típico filme que costuma ser desprezado nas prateleiras das locadoras. A capa do dvd não é atraente, o filme não conta com nenhum ator conhecido e o título nacional genérico também não chama a atenção. Mas o filme é a prova de que no meio de tanta tosqueira existente na seção de filmes de terror das locadoras é possível encontrar algumas pequenas pérolas, como essa do Stuart Gordon. Claro que o nome do diretor ajuda na busca por certas obras.

E para os que têm saudade da série-antologia MASTERS OF HORROR, vem aí FEAR ITSELF, outra série contendo 13 episódios de uma hora dirigido por cineastas especializados em cinema de terror: Stuart Gordon está confirmado para abrir a série, com o episódio EATER, previsto para estrear na NBC no dia 29 de maio. Outros diretores confirmados: Brad Anderson, Mary Harron, Breck Eisner, Darren Lynn Bousman, Ronny Yu, Ernest Dickerson e John Landis! Exceto por Landis e Gordon, não é lá uma super-seleção de diretores e ainda faltam nomes a ser confirmados, mas pode ser que haja algumas boas surpresas.

quinta-feira, março 27, 2008

SOMBRAS DE GOYA (Goya's Ghosts)



Essa semana começou hardcore. Trabalhando os três expedientes (as aulas à noite começaram com todo gás) não tem dado mais tempo pra ver nenhum filme durante a semana. No máximo, dá pra ver um episódio de meia hora de uma série ou ler uma estória em quadrinhos antes de dormir. Pelo menos ainda tenho alguns títulos no estoque para manter o blog atualizado nos próximos dias, já que a última semana foi de descanso e de muitos filmes. Um que eu vi há mais de dez dias e que me causou muito boa impressão foi SOMBRAS DE GOYA (2006), o mais recente trabalho do sempre confiável cineasta tcheco Milos Forman.

Com uma excelente reconstituição de época e um elenco notável, o filme tem tudo para agradar gregos e troianos. Só pode não agradar muito os católicos xiitas. O destaque mais uma vez vai para Javier Bardem, como o odioso padre Lorenzo, membro da Inquisição, que na época do pintor Francisco Goya (Stellan Skarsgård) estava em momento mais "light", levando menos vítimas para a fogueira ou outros tipos de morte ainda mais cruéis. Apesar de defender o pintor, que quase entra para a lista negra dos inquisidores por causa de suas gravuras denunciadoras, o padre Lorenzo era adepto do retorno aos "bons tempos" da Inquisição, isto é, da "caça às bruxas". É nesse momento, que a bela Inés (Natalie Portman), depois de recusar um porco assado num jantar numa taberna, é "convidada" a comparecer a um interrogatório da Inquisição, sob a suspeita de ser uma judaizante. Inés era uma jovem cuja beleza havia inspirado Goya a pintar os rostos dos anjos nas igrejas.

Nessa situação, a família de Inés fica bastante preocupada quando depois de dias a pobre moça não volta mais para casa. Como os familiares de Inés são amigos de Francisco Goya, pedem-lhe que convide o padre Lorenzo para um almoço em sua casa e ainda oferem ao membro do clero uma bela "doação espontânea" para a Igreja em troca do retorno de sua filha, que a certa altura estava trancafiada num porão sujo, junto com outros "hereges", depois de ter sofrido tortura para que fosse arrancada uma confissão. O sentimento de revolta perante tal situação é inevitável e o ódio que eu já tenho pelo passado negro da Igreja Católica só foi potencializado durante a sessão. Por isso, a seqüência do almoço com o padre Lorenzo é uma de minhas favoritas de um filme que tem inúmeras seqüências memoráveis e empolgantes. Como a cena em que as tropas de Napoleão Bonaparte invadem a Espanha, depõem o Rei Carlos IV, parente do rei guilhotinado da França, e ainda tiram os poderes da Inquisição, ordenando a soltura de todos os prisioneiros, entre eles a jovem Inés, que já não era mais tão bela ou tão jovem, pois quinze anos já haviam se passado.

A estória não acaba por aí, embora eu suspeite que já tenha oferecido vários spoilers, mas como se trata de um filme que passou nos cinemas do sudeste no final do ano passado, muitos cinéfilos já tiveram o prazer de conferir essa obra, que serve não apenas como um excelente retrato histórico de um período, sendo, portanto, enriquecedor para o nosso conhecimento de História, como também é narrado com a sempre precisão de Milos Forman, que dessa vez conta com o auxílio do lendário roteirista Jean-Claude Carrière, antigo colaborador de Buñuel. Interessante que Francisco Goya, por mais que seja o protagonista da história - é pelos seus olhos que vemos o filme -, parece servir apenas como o elo de ligação para o espectador, pois ele evita interferir na política e na religião da Espanha, fazendo o possível para sobreviver e pintar as suas telas em paz. E por mais que reis cruéis sejam depostos, a tendência parece sempre ser a de que a crueldade e a vilanesa já fazem parte do espírito dos homens poderosos, tornando os mais fracos, os cidadãos comuns, meros peões, vítimas de suas atrocidades.

quarta-feira, março 26, 2008

BLOOD AND BLACK LACE (Sei Donne per l'Assassino / Six Women for the Murderer / Blutige Seide)



Tenho o costume de gostar mais dos filmes sobrenaturais dos cineastas góticos italianos do que dos filmes de assassinos seriais. Em se tratando de Dario Argento, por exemplo, prefiro SUSPIRIA e A MANSÃO DO INFERNO a PRELÚDIO PARA MATAR. Do mesmo modo, tenho gostado mais dos trabalhos essencialmente de horror de Mario Bava, como BLACK SUNDAY (1960) e BLACK SABBATH (1963), do que de seus gialli. Mas talvez seja tudo questão de se acostumar com o estilo. O primeiro giallo de Bava que estou tendo contato é este BLOOD AND BLACK LACE (1964), obra que influenciou dezenas de outros filmes, inclusive os do próprio Argento. Tendo em vista a trama cheia de personagens num enredo bem complexo - são personagens demais para um filme de uma hora e meia - trata-se de uma obra que deve se beneficiar de revisões, pelo menos no que concerne à trama.

BLOOD AND BLACK LACE se desenrola numa chique casa de moda de propriedade da Condessa Cristina (Eva Bartok), recentemente tornada viúva e novamente casada com um sujeito de caráter ambíguo. O enredo se inicia com o assassinato de uma das modelos da casa por um misterioso homem vestido de capa e luvas pretas e uma máscara que cobre todo seu rosto. A partir da morte da primeira vítima (pelo título italiano, seriam seis as vítimas), começa uma investigação em torno da morte da modelo e dos prováveis motivos de seu assassinato. Tudo fica ainda mais complicado quando outras mulheres também aparecem mortas e o detetive vai aos poucos percebendo que naquela casa onde aparentemente impera a beleza existe uma rede de intrigas e morte mais complexa do que ele jamais imaginaria. O filme não entrega o assassino logo de cara, fornecendo aos poucos as pistas que levarão a um final surpreeendente. O ator mais conhecido do filme é o americano Cameron Mitchell, no papel do ambicioso marido da Condessa.

Como é de praxe na filmografia de Bava, a utilização das cores é uma de suas mais fortes marcas. Em BLOOD AND BLACK LACE, o vermelho é uma das cores que mais se destacam, embora o filme não seja exatamente sangrento ou violentamente gráfico. As mortes são efetuadas de maneira diferente, como na cena em que uma das mulheres tem o seu rosto "fritado" numa chapa de aço quente. A elegância dos enquadramentos, a beleza da fotografia e das cores e o modo como somos levados a não simpatizar com nenhum dos personagens, tornando-nos até um pouco sádicos nas seqüências das mortes, faz com que o filme se torne uma das obras mais especiais de Bava. Entre as várias seqüências-chave do filme, destaca-se a cena em que uma das mulheres encontra o corpo de uma colega no porta-malas de seu carro e, em vez de contar à polícia, tenta esconder o corpo dentro de sua própria casa.

terça-feira, março 25, 2008

UM AMOR DE TESOURO (Fool's Gold)



Em ano de retorno de Indiana Jones, parece natural a volta das aventuras movimentadas, como aconteceu nos 80, com filmes como TUDO POR UMA ESMERALDA e A JÓIA DO NILO, que fizeram grande sucesso, tanto nos cinemas quanto nas inúmeras reprises na televisão. UM AMOR DE TESOURO (2008) marca o retorno da parceria de Kate Hudson e Matthew McConaughey - nunca vou aprender a escrever o nome desse infeliz - depois do sucesso da comédia romântica COMO PERDER UM HOMEM EM 10 DIAS, que apesar de meio boba tinha algum charme. Para a direção do novo filme, foi escalado Andy Tennant, diretor de HITCH - CONSELHEIRO AMOROSO (2005). O resultado é uma sessão da tarde descerebrada que não tem a menor pretensão de fazer algo que não seja entreter a platéia. E até que nesse sentido o filme cumpre seu papel, embora o sentimento de vazio depois da sessão seja praticamente garantido.

Mesmo assim, para os fãs de Kate Hudson, de sua beleza, simpatia e graça, UM AMOR DE TESOURO até que é atraente. O ideal seria, claro, que Kate trabalhasse em projetos mais interessantes, fizesse melhores escolhas para sua carreira, antes que ela vá definitivamente para o brejo, já que beleza e juventude são coisas efêmeras e passam voando. Desde a sua revelação em QUASE FAMOSOS ela não esteve em nenhum trabalho realmente digno de nota. Seria falta de um bom agente? O filme, apesar de se passar no tempo atual, poderia se passar no século XVIII ou em qualquer outra época, já que se trata de uma variação em torno do tema da caça ao tesouro misturado com o açúcar das comédias românticas contemporâneas. O que é o tal tesouro, não importa muito, é um mcguffin, uma desculpa para o andamento da trama. O que importa nesse tipo de filme é a aventura, o humor e o romance. Dos três quesitos, o filme não é bem sucedido de verdade em nenhum, mas como não estou aqui para atacar o filme, tentemos lembrar dos aspectos positivos. (...) Ok, além da beleza da Kate Hudson com pouca roupa e do cenário paradisíaco, não há outros aspectos positivos. E ainda por cima, dentro da trama, tem aquele pequeno detalhe: se a ilha pertencia ao rapper perverso, então, o tesouro seria legalmente dele, não importando quem o encontrasse, não? Mas como questões legais não são a minha praia, deixo a pergunta no ar.

O que se tem notado nesses lançamentos pós-Oscar é que a falta de qualidade predomina. Será que com a repercussão retardada nos cinemas do problema da greve dos roteiristas, a tendência é piorar durante o ano? Talvez a salvação esteja mais uma vez nas mãos dos cineastas já consagrados. O que está salvando os lançamentos atualmente são os filmes do circuito alternativo, pois ver um filme tão fraco como esse traz a impressão de que o cinemão anda mal das pernas. Apesar disso, UM AMOR DE TESOURO foi o campeão de bilheteria em seu final de semana de estréia.

Enquanto isso, eu não me conformo como o descaso da distribuidora Europa e o não-lançamento nos cinemas de À PROVA DE MORTE, de Quentin Tarantino, que já foi adiado diversas vezes e até já saiu da lista de próximos lançamentos. Parece que o destino final do filme vai ser mesmo a telinha.

segunda-feira, março 24, 2008

NÃO ESTOU LÁ (I'm Not There)



Falar de NÃO ESTOU LÁ (2007) talvez seja tão difícil quanto falar de um filme de Godard, cineasta com quem, aliás, ele vem sendo comparado. E assim como vários filmes de Godard, a homenagem nada convencional que Todd Haynes preparou para seu ídolo Bob Dylan não é de fácil assimilação. Principalmente para quem não conhece nada do cantor e compositor. Mesmo para os que conhecem, algumas das personas do cantor e compositor talvez resultem confusas, se comparadas com fatos da sua vida. A maior vantagem de NÃO ESTOU LÁ em relação a VELVET GOLDMINE (1998), outro filme-homenagem do diretor, está justamente no fato de que David Bowie não cedeu os direitos de suas canções para o filme, o que resultou numa obra frustrante. Diferente de Bowie, até que Dylan foi bem gente fina com Haynes, dando liberdade para que o cineasta utilizasse suas canções não apenas em sua própria voz, nas gravações originais, mas também na voz de outros intérpretes.

Eu diria que as passagens do filme em que ouvimos o próprio Dylan cantando, enquanto vemos imagens passando na tela como num videoclipe (como em "I want you") são seqüências de puro prazer, que me deixaram mais relaxado e menos preocupado em tentar entender o quebra-cabeças temporal da história de Dylan. A escolha de seis intérpretes para o papel do cantor em diferentes momentos de sua vida foi muito feliz, mas ao mesmo tempo tornou o trabalho de Haynes bem irregular. O que era de se esperar. Eu, por exemplo, gostei muito das partes em que Cate Blanchett imita o Dylan num momento dos mais conturbados e revolucionários de sua carreira, que foi quando ele deixou de ser um tímido cantor de folk para se tornar um arrogante cantor de rock, o que assustou e revoltou centenas ou milhares de fãs do artista, que o acusavam de traidor. Tudo isso é mostrado no documentário NO DIRECTION HOME, de Martin Scorsese, mas ver Cate imitando Dylan num clima de filme de Fellini é muito divertido, com direito até à participação dos Beatles. Essa era a época em que Dylan estava viciado em anfetaminas, o que pode justificar a mudança drástica de personalidade, numa transformação tipo Dr. Jekyl e Mr. Hyde.

Também gostei bastante do Dylan personificado por Heath Ledger, nos anos 70, momento em que ele estava se separando da esposa e que possivelmente gerou o clássico e doloroso álbum "Blood on the Tracks". Já o Dylan vivido por Christian Bale é aquele pré-rock, das canções de protesto. Nessas seqüências, o filme se utiliza do recurso de pseudo-documentário, com Julianne Moore fazendo as vezes de Joan Baez, uma das mulheres que passaram pela vida de Dylan e que não agüentaram o tranco - ou foram deixadas de lado pelo artista de temperamento difícil. Por outro lado, não gostei da encarnação mirim de Dylan, nem da maneira enigmática como Dylan é mostrado, como um Billy the Kid velho (Richard Gere), numa referência clara ao western melancólico PAT GARRET & BILLY THE KID, no qual Dylan contribuiu com a trilha sonora. Já a pouca participação de Ben Wishaw, como o Dylan que adotou o nome do poeta Arthur Rimbau, não pareceu acrescentar muito ao coquetel de Haynes.

sábado, março 22, 2008

NÚPCIAS DE ESCÂNDALO (The Philadelphia Story)



Não é porque os filmes antigos não dão "ibope" aqui no blog que eu vou deixar de falar deles. Até porque esse é mais um do George Cukor. Eu tinha me comprometido a tentar assistir a pelo menos um filme do diretor por semana, mas os últimos que peguei demoraram bastante para degustar o pacote completo. E O VENTO LEVOU (1939) levou mais de duas semanas, já que tinha muitos extras pra conferir. E NÚPCIAS DE ESCÂNDALO (1940) não foi muito diferente, já que eu fiz questão de comprar a edição especial de luxo, que vem com um disco extra, do que alugar aquela versão pobrinha da ClassicLine. E não me arrependi nenhum pouco, já que os extras contidos no disco 2 são tão bons quanto o filme, que eu sinceramente achei um pouco superestimado. Afinal, assim como SINDICATO DE LADRÕES que eu falei logo abaixo, NÚPCIAS DE ESCÂNDALO também consta na relação dos melhores de todos os tempos da AFI. Pra começo de conversa, o filme nem é tão bom quanto O BOÊMIO ENCANTADOR (1938), que tem uma estorinha mais batida, mas emociona e envolve muito mais. Sem falar que por enquanto, A DAMA DAS CAMÉLIAS (1937) permanece sendo o meu favorito do Cukor - levando em consideração que E O VENTO LEVOU não é propriamente dele, claro.

NÚPCIAS DE ESCÂNDALO chama a atenção por ter o encontro de Katharine Hepburn com os dois atores favoritos de Hitchcock: Cary Grant e James Stewart. Eu achei o personagem do Grant ótimo, mas não gostei tanto assim do jornalista interpretado pelo Stewart. Talvez ver os dois atores juntos não tenha combinado muito - não sei se os dois voltaram a fazer filmes juntos outra vez. NÚPCIAS DE ESCÂNDALO é a adaptação de uma peça de sucesso que já havia sido encenada dezenas de vezes pela própria Katharine Hepburn e como ela era assediada pelo milionário Howard Hughes (vide O AVIADOR, de Martin Scorsese), o "aviador" fez questão de comprar os direitos da peça para o cinema para que nenhuma outra atriz a não ser Kate interpretasse a protagonista, de nome Tracy Lord - aliás, esse nome lembra muito o nome daquela atriz famosa, não? :-) E assim, quando chegou a hora de trazer a peça para o cinema, ela escalou o amigo George Cukor para dirigir e a MGM fechou com os dois atores mencionados. A produção ficou a cargo de Joseph L. Mankiewicz. E Cukor fez um trabalho tão bom que o filme nem parece que foi adaptado de uma peça de teatro.

Na trama, Tracy Lord é uma mulher da alta sociedade, recém-divorciada do também rico Dexter Haven (Cary Grant), e que agora está de casamento marcado com outro sujeito, um homem que não faz parte da alta sociedade e que todos dizem não ser ideal para Tracy. James Stewart é o jornalista que é enviado disfarçadamente para a mansão dos Lords para fazer a cobertura dos preparativos para o casamento sem deixar passar nada. Ele e sua parceira, fotógrafa, entram na casa com a ajuda de Dexter, que diz que os dois são amigos da família. O disfarce não dura muito, mas Tracy aceita a presença dos dois assim mesmo. Até porque ela nutre uma certa simpatia pelo repórter e ele fica apaixonado por ela. Enquanto isso, Dexter fica de vez em quando visitando a casa e vendo como as coisas estão indo, com aquele jeito hiperconfiante que só Cary Grant é capaz de passar. E à medida que vai chegando perto o dia da cerimônia, mais Tracy vai descobrindo que o casamento é um erro.

Achei curioso o fato de que NÚPCIAS DE ESCÂNDALO, mesmo sendo um dos filmes mais famosos e elogiados tanto da carreira de Cukor quanto da de Hepburn não foi sequer mencionado na entrevista que o diretor fez para Peter Bogdanovich. Talvez por pura falta de atenção, já que a entrevista mais parece um bate-papo informal. Quanto aos documentários presentes no dvd, dois deles são bem especiais: uma biografia da Kate Hepburn narrada pela própria, se eu não me engano no ano de 1992, quando ela estava velhinha, mas ainda bem sóbria. Kate teve uma das carreiras mais longas de Hollywood e o documentário de pouco mais de uma hora hora mostra desde sua infância até o seu último título importante, ao lado de Henry Fonda em NUM LAGO DOURADO (1981), uma bela estória sobre o amor entre dois idosos. Mas o grande astro do documentário é mesmo Spencer Tracy, o grande amor da vida dela, com quem ela teve um caso abafado pela imprensa até a morte de Tracy, que ocorreu pouco dias depois das filmagens de ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR (1967). Kate disse que nunca teve coragem de ver o filme, pois pra ela seria muito doloroso. Já o documentário sobre Cukor, também com cerca de uma hora de duração, pula alguns filmes do diretor e só vai até NASCE UMA ESTRELA (1954). É como se a carreira dele atingesse o auge ali e o resto não tivesse mais importância. Nem mesmo MY FAIR LADY (1964) é citado.

Somam-se aos extras dois curtas-metragens bem divertidos: AQUELE SENTIMENTO INFERIOR, comédia sobre um sujeito que tem complexo de inferioridade; e o desenho A PULGA SEM CASA, onde uma pulga tenta se alojar no pêlo de um cachorro. Os dois curtas são ótimos.

sexta-feira, março 21, 2008

SINDICATO DE LADRÕES (On the Waterfront)



Cineasta festejado por muitos cinéfilos, Elia Kazan nunca foi dos meus favoritos. Verdade que vi poucos filmes dele. Apenas UMA RUA CHAMADA PECADO (1951), chato e excessivamente teatral; VIDAS AMARGAS (1955), o que eu menos gosto dos três filmes de James Dean; CLAMOR DO SEXO (1961), que penso em rever só por causa da Natalie Wood; e O ÚLTIMO MAGNATA (1976), o mais chato de todos que vi. Sei que classificar como "chato" não é bem adequado para quem leva cinema a sério, mas foi o primeiro adjetivo que me veio à mente. Depois de ver o título SINDICATO DE LADRÕES (1954) na lista dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos segundo o AFI , resolvi dar mais uma chance para o "cineasta delator", até porque trata-se de um filme bem popular e que eu me sentia na obrigação de ver. Realmente, entre os poucos trabalhos dele que vi, esse é o melhor e o que mais dá o que pensar, principalmente ao estabelecer comparações com a situação de delator de Kazan, já que o próprio filme é a respeito disso. Só que os delatores, no filme, são os caras que têm a coragem de falar a verdade e de se tornarem heróis - ou mártires. E pelo que eu andei lendo por aí, o tema-chave do cinema de Kazan é a traição.

Interessante que quando ele delatou seus companheiros na época do macarthismo aparentemente ele tinha a convicção de que estava fazendo a coisa certa, tendo publicado no New York Times um elogio à delação. O livro "O Cinema Americano dos Anos Cinqüenta", de Olivier-René Veillon, conta isso de maneira sucinta, mas cita um trecho que eu acho bastante sintético e representativo. Ele afirmou no citado artigo: "Os filmes que fiz e as peças que escolhi para montar são o reflexo de minhas convicções". Mas uma coisa é delatar um bando de mafiosos que mandam matar seus próprios membros que ousam abrir o bico, outra é entregar companheiros de trabalho e condená-los à lista negra em Hollywood pela simples suspeita de simpatia ao partido comunista.

Claro que isso não tira o brilho de SINDICATO DE LADRÕES, nem da interpretação magistral de Marlon Brando e do ótimo desempenho de Eva Marie Saint (INTRIGA INTERNACIONAL). Na edição especial do dvd há, entre os extras, uma análise da célebre seqüência em que o personagem de Brando está no carro conversando com o seu irmão, vivido por Rod Steiger. O irmão tenta fazê-lo desistir da idéia de delatar o seu chefe corrupto. Em troca, ele lhe conseguiria um emprego tranqüilo e bem remunerado. A interpretação dos dois atores nessa cena, carregada de amor fraternal, apesar das circunstâncias violentas e de uma arma apontada para o irmão a certa altura da seqüência, é mesmo um dos momentos mais importantes do filme.

Na trama, Brando é um ex-boxeador que vive trabalhando (ou de bobeira) no navio de uma cidade portuária. O local é dominado pelo chefão Johnny Friendly (Lee J. Cobb, de 12 HOMENS E UMA SENTENÇA), que trata os seus empregados como burros de carga, que ainda correm o risco de perderem a vida caso abram o bico sobre os seus negócios desonestos. Sua consciência fala mais alto quando ele participa, ainda que de forma não intencional, da morte de um dos homens mais queridos da cidade, irmão da personagem de Eva Marie Saint, que tinha acabado de voltar de uma escola de freiras para passar uns tempos com seus pais. Seu relacionamento com a garota e as tentativas do Padre Barry (Karl Malden) de buscar a verdade fazem com ele fique tentado a contar tuo para a polícia e para a comunidade.

SINDICATO DE LADRÕES ganhou 8 oscars: filme, diretor, ator (Marlon Brando), atriz coadjuvante (Eva Marie Saint), roteiro, edição, fotografia em preto e branco e direção de arte em preto e branco. Pra quem pensa que a academia estava sendo condencendente com o delator, é sempre bom lembrar que os concorrentes a melhor filme daquele ano não eram muito expressivos: A NAVE DA REVOLTA, de Edward Dmytryk; AMAR É SOFRER, de George Seaton; SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS, de Stanley Doney; e A FONTE DOS DESEJOS, de Jean Negulesco. Bom, não vi nenhum dos quatro, mas não devem ser melhores que o filme de Kazan. Por outro lado, 1955 também foi o ano em que JANELA INDISCRETA recebeu uma indicação de direção para Alfred Hitchcock. JANELA...sequer foi indicado a melhor filme. Fala sério, hein!

P.S.: E LOST acabou com um outro gancho enigmático e só retorna dia 24 de abril. Vai fazer falta durante as próximas seis semanas. Mas valeu esse episódio que explicou direitinho uma dúvida que havia ficado na nossa cabeça desde o final da segunda temporada.

quinta-feira, março 20, 2008

O SOBREVIVENTE (Rescue Dawn)























Quem me conhece ou acompanha o blog há algum tempo sabe da minha fidelidade à série PRISON BREAK, sabe que FUGINDO DO INFERNO é um dos filmes mais importantes da minha infância e que UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU é um dos meus favoritos de Robert Bresson. E como eu já tenho esse gosto por filmes (e séries) que lidam com personagens tentando escapar da prisão, as chances de eu gostar de O SOBREVIVENTE (2006) já eram grandes. Mas não imaginei que fosse gostar tanto assim dessa aventura made in USA do alemão Werner Herzog . Talvez o fato de Herzog estar em Hollywood seja devido ao sucesso do documentário O HOMEM-URSO (2005). Aliás, que bom que O HOMEM-URSO passou nos cinemas brasileiros, já que até alguns anos atrás, era muito difícil ver documentários no cinema. As coisas têm mudado de uns tempos pra cá, embora ainda haja razão para se reclamar de vários docs notáveis que passam batido por terras brasileiras.

O SOBREVIVENTE é baseado num documentário dirigido pelo próprio Herzog sobre Dieter Dengler chamado O PEQUENO DIETER PRECISA VOAR (1997), que passou nos cinemas brasileiros apenas no festival "É Tudo Verdade". Nascido na Alemanha, mas cidadão americano, Dieter se alistou na guerra do Vietnã apenas pelo sonho de pilotar um avião. As primeiras cenas de O SOBREVIVENTE já me agradaram, lembrando os filmes de aviação e/ou de guerra dos anos 30 e 40, dando ao filme um certo ar de saudosismo. Sem falar que a seqüência da queda do avião é muito realista, dando a impressão de que não foi utilizado CGI, mas maquetes à moda antiga - mas quanto a isso, não posso ter certeza.

A trama é bastante simples: Dieter Dengler (Christian Bale) sai junto com outros pilotos numa missão confidencial para destruir munições e suprimentos dos vietcongues. Seu avião é alvejado e ele se recusa a se ejetar, preferindo tentar uma aterrissagem forçada. Por sorte, ele consegue sair ileso da queda, apesar de o avião ter se despedaçado. Mas seus problemas estavam apenas começando, já que basta ele cair e logo os inimigos vão em seu encalço. Não demora muito para que ele se torne prisioneiro e conheça na improvisada prisão um grupo de outros americanos. Diferente dos demais, que já estavam lá há alguns anos, resignados com a situação, Dieter imagina logo um plano de fuga. E é quando o filme fica ainda melhor e mais eletrizante.

Entre os prisioneiros, destaque para o personagem de Jeremy Davies, ator que agora está na quarta temporada de LOST. Engraçado que Davies apresenta os mesmos tiques de seu personagem na série. A impressão que fica é que ele é um ator que interpreta a si mesmo ou estabeleceu uma persona para sua carreira. Quem se apresenta como verdadeiro companheiro de Dieter é o personagem de Steve Zahn, numa interpretação que surpreendeu a muitos. Ao contrário de Davies, ele quer a todo custo sair daquele lugar, nem que morra tentando. Melhor do que apodrecer ali, já que nos dias que não tinha arroz, a eles era dado minhocas para o almoço. Desse jeito, qualquer um "pede pra sair". O tema do homem em conflito com a natureza, tão caro a Herzog, é novamente posto em reflexão nesse belo trabalho. E mais uma vez Christian Bale demonstra uma entrega absurda a um personagem. Ele já havia emagrecido de maneira absurda para dar vida ao perturbado protagonista de O OPERÁRIO e perdeu quase tanto peso para as cenas em que seu personagem passa fome na selva no filme de Herzog.

Tive o prazer de ver O SOBREVIVENTE no cinema. Chegou um pouco atrasado por aqui, já que o filme já pode ser encontrado nas locadoras, distribuído pela Califórnia. Quanto a Herzog, depois de O SOBREVIVENTE, os americanos deram cartão verde para ele dirigir um documentário sobre a Antártica chamado ENCOUNTERS AT THE END OF THE WORLD (2007).

terça-feira, março 18, 2008

BIG LOVE: AMOR IMENSO - A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (Big Love - The Complete First Season)



Com o fim de A SETE PALMOS, senti falta de outra série que mostrasse uma família disfuncional. E essa foi uma das razões para eu ter me interessado por BIG LOVE. Mas a principal delas foi mesmo a premissa: homem de família mórmon é casado com três mulheres com quem mora em casas conjugadas. Cada dia ele fica com uma, seguindo um calendário respeitado religiosamente. Se ele fizer sexo com uma esposa que não esteja na agenda é encarado como traição. Essa premissa é, por si só, suficiente para atrair atenção. Principalmente para quem está interessado em ver a intimidade dos casais. E talvez pelo fato de a série não focar exclusivamente nas relações familiares, mas também nos negócios de Bill (Bill Paxton), vez por outra eu achava a série um pouco chata. Mas a dramaturgia, os diálogos e as situações são muito bem construídos, seguindo o crivo de qualidade da emissora.

Como é característico das séries da HBO, elas costumam ter episódios quase que fechados, sem muitos ganchos, como ocorre nas séries dos canais Showtime, ABC, Fox ou NBC. Talvez por isso que eu tenha demorado tanto a terminar de ver a primeira temporada (2006), mesmo ela tendo apenas 12 episódios. A falta de ganchos não me incentivava a ver outro episódio logo em seguida. Dizem que a segunda temporada é melhor, o que eu acredito. Já até estou com ela prontinha aqui comigo, graças ao amigo Nicolas, que fez o favor de baixar e gravar pra mim.

O que eu mais aprecio na série são as esposas de Bill e seus dramas pessoais. A primeira delas é Barb, interpretada por Jeanne Tripplehorn, atriz que sempre vai habitar o meu imaginário erótico, depois daquela cena fabulosa dela com o Michael Douglas em INSTINTO SELVAGEM. A segunda esposa é outra atriz que também já despertou a minha libido, Chlöe Sevigny - que sempre será lembrada pela cena do blowjob em THE BROWN BUNNY -, mas que na série, no papel de Nicki, passa o tempo todo usando aqueles vestidões longos de religiosa fanática. Sem falar que ela é a mais antipática, mentirosa e traiçoeira das três, o que faz com que ela perca pontos de popularidade com os espectadores. A terceira esposa é a jovem Margene (Ginnifer Goodwin). Simpática e quase sempre alegre, ela se comporta às vezes como uma criança ou uma adolescente. Como ela é a esposa mais jovem, é a que tem mais trabalho para cuidar dos filhos pequenos. Ela é a alegria, o entusiasmo e a ingenuidade da casa.

Entre os coadjuvantes, destacam-se três grandes atores. Harry Dean Stanton faz o papel do "profeta" da comunidade. Ele é pai de Nicki e inimigo nº 1 de Bill. Outros dois conhecidos atores interpretam os pais de Bill: Bruce Dern e Grace Zabriskie, que ficou famosa como a perturbada mãe de Laura Palmer em TWIN PEAKS. O drama dos filhos de Bill e Barb, já adolescentes e tendo que lidar e esconder dos outros o fato de viverem numa família adepta da poligamia, também é bem interessante e explorado.

Entre os melhores momentos dessa primeira temporada, destacam-se o momento em que Bill começa a apelar para o Viagra para poder dar conta de seus deveres conjugais perante suas três mulheres e o momento que ele começa a ter um caso com sua própria esposa, a Barb. No mais, como o auto-intitulado profeta é uma espécie de chefão que quer uma boa fatia dos lucros de todos os membros da comunidade, a certa altura, a série se assemelha um pouco a filmes sobre a máfia. E como era de se esperar, a série foi criticada por parte da comunidade mórmon que a vê como denegridora da mais americana das religiões.

P.S.: Com um empurrãozinho do amigo Renato, que me enviou um dvd com os 11 primeiros episódios, ontem comecei a ver IN TREATMENT, uma nova e interessante série que a HBO está exibindo atualmente nos Estados Unidos. A série se passa inteiramente num consultório de psicanálise. E cada dia da semana - de segunda a quinta - é dedicado a um dos pacientes do médico, sendo que a sexta-feira é a vez de ver o próprio psicanalista fazendo análise também. Vamos ver se eu vou conseguir dar prosseguimento à série, já que ela tem 45 episódios!

segunda-feira, março 17, 2008

A NOIVA DE FRANKENSTEIN (Bride of Frankenstein)



Talvez por esperar demais de A NOIVA DE FRANKENSTEIN (1935) acabei me decepcionando um pouco. O filme costuma receber de muitos o título de "a obra-prima de James Whale" e como eu já havia gostado bastante de O HOMEM INVISÍVEL (1933), achava que a continuação de FRANKENSTEIN (1931) ia me deixar boquiaberto. Não que o filme não seja realmente ótimo. Pra começar, diferente das obras anteriores de Whale, este filme foi feito a partir de um roteiro original, utilizando-se até mesmo de um pouco de metalinguagem, ao apresentar no início do filme a própria Mary Shelley, autora do romance "Frankenstein", conversando com Lord Byron e Percy Shelley sobre uma possível continuação para a estória do cientista que criou um monstro a partir de pedaços de cadáveres.

Do filme original, está de volta Boris Karloff, no papel da criatura, que não morreu no incêndio do final do primeiro filme, bem como, claro, o Dr. Henry Frankenstein (Colin Clive). Para o papel de Elizabeth, a noiva do cientista, devido a problemas de saúde, a atriz original, Mae Clark, não pôde participar do filme, sendo substituída por uma melhor e mais bela: a inglesa Valerie Hobson. Assim, temos nessa continuação uma Elizabeth mais atraente e com sotaque inglês. E por falar em localidade, o lugar onde se passa o filme ainda é um mistério. Não se sabe se é na Inglaterra, ou na Alemanha ou em outro país da Europa. O tempo também é nebuloso. Mas o grande destaque de A NOIVA DE FRANKENSTEIN é mesmo o personagem de Ernest Thesiger, no papel do diabólico Dr. Pretorius. Ao lado dele, o Dr. Frankenstein fica parecendo um homem frágil e vítima das artimanhas desse homem, conhecedor de magia negra. Achei até estranho um homem que é capaz de criar miniaturas de seres humanos se interessar pelo trabalho de um cientista que fez um monstro pavoroso e imperfeito e que só causou terror ao vilarejo.

E por falar nas miniaturas, mais uma vez James Whale e seus técnicos fizeram milagre com efeitos especiais. Ele já tinha deixado todo mundo admirado com os excepcionais efeitos visuais de O HOMEM INVISÍVEL, um marco para a história do cinema no campo dos efeitos. Dessa vez ele também fez um trabalho impecável. Na trama, depois de sobreviver ao incêndio, a criatura de Frankenstein sai pelo mundo, sendo constantemente atacado pelos homens. Apenas um deles, um eremita cego, o acolhe com carinho, ensinando-o a falar e tratando-o como uma bênção, um amigo que há tanto tempo ele esperava para aliviar sua solidão. Inclusive, uma das seqüências mais belas do filme é a do monstro chorando ao ver o eremita orando a Deus por Ele ter-lhe enviado um amigo. Pra mim, é a melhor e mais sincera seqüência de um filme que se caracteriza pela autoparódia. A primeira aparição do eremita é marcante, tocando "Ave Maria", de Schubert, num violino, acalmando a fera que sorri de satisfação com a música e fica mais feliz ainda com o pão e o vinho oferecido pelo bondoso cego.

Nos comentários em áudio presentes no dvd, fala-se das inúmeras referências cristãs presentes no filme. A cena da criatura comendo do pão e bebendo do vinho seria uma espécie de metáfora grotesca da última ceia de Jesus. Por mais que a censura estivesse de olho na quantidade de citações a Deus e à Bíblia de maneira pouco respeitosa, Whale e o roterista deram um jeito de driblar e fazer uma obra relativamente transgressora, embora eu não ache que o filme falte com o respeito com o Cristianismo em momento algum. Acho até bonita a cena em que o monstro é alçado e amarrado pelos homens como se fosse Jesus no calvário. Mas até o momento eu não falei da suposta estrela do filme, que seria a "noiva", a criação de Henry Frankenstein e do Dr. Pretorius. Na verdade, por mais que o visual da "noiva" seja bem interessante, é meio frustrante quando ela aparece, já bem perto do filme terminar. Também acho que faltou mais criatividade para a finalização da estória. Mas não posso encerrar sem mencionar a brilhante trilha sonora de Franz Waxman, que criou um tema musical para cada personagem, como Leone fez em ERA UMA VEZ NO OESTE e como é feito nas óperas.

Curiosamente, A NOIVA DE FRANKENSTEIN estreou nos Estados Unidos na Sexta-Feira Santa de 1935.

sábado, março 15, 2008

CADA UM COM SEU CINEMA (Chacun son Cinéma ou Ce Petit Coup au Coeur Quand la Lumière s'Éteint et que le Film Commence)



A maior surpresa pra mim no coletivo CADA UM COM SEU CINEMA (2007) foi a inclusão de "Absurda", de David Lynch. Não me lembrava ou não tinha percebido que ele estava na lista dos diretores do projeto. Até já tinha baixado e visto na telinha, mas ver um Lynch, ainda que de três minutos, na telona e com legendas foi ótimo! Com direito a grito da Laura Palmer e tudo mais. Como se trata de muitos curtas fica difícil lembrar de cada um, portanto, vou escrevendo apenas sobre os mais memoráveis e à medida que vou puxando da memória. Alguns são realmente péssimos, como o primeiro, dirigido por Raymond Depardon. Não sei de onde tiraram esse cineasta. É o único nome que eu não conhecia do elenco.

Acho que CADA UM COM SEU CINEMA só não ficou mais interessante porque o tempo de três minutos é muito pouco pra um cineasta desenvolver uma idéia. Alguns parecem ter sido feitos sem o mínimo esforço de fazer algo ao menos bom. Mas podemos dizer que metade dos pequenos filmes são bons e alguns chegam a ser quase que geniais. Como o de David Cronenberg - "At the Suicide of the Last Jew in the World in the Last Cinema in the World". O título já diz tudo, mas o filme, protagonizado pelo próprio Cronenberg com uma arma na cabeça e ameaçando se suicidar foi uma surpresa pra mim e se destaca bastante dos demais. É simples, barato e original. Já alguns diretores preferiram caprichar um pouco mais na produção, gastando com cenário e figurinos de época mas com o resultado ficando um pouco aquém do esperado, como o de Chen Kaige.

Uma das principais diversões para o cinéfilo é advinhar de quem é o curta em questão, já que o nome do diretor só aparece no final. Alguns, a gente saca de primeira de quem é a autoria, como os de Nanni Moretti (ótimo), Abbas Kiarostami (um monte de mulheres chorando no cinema), Takeshi Kitano (ele aparece no curta, ficando fácil de advinhar), Amos Gitai (as imagens sobrepostas) e Gus Van Sant. Engraçado que o que mais fez com que eu identificasse o filme de Van Sant foi a figura do jovem de boa aparência. E como o cineasta tem cada vez mais se dedicado ao mundo dos jovens, ficou na cara que o segmento era dele. Aliás, que imagem bonita a da mulher na praia apresentada na tela do cinema.

Os mais surpreendentes foram os de Wim Wenders, que se passa na África, e o de Roman Polanski, que iniciou uma série de segmentos engraçados. O segmento do Polanski se chama "Cinéma Erotique" e mostra um casal idoso assistindo EMMANUELLE, o original com a Sylvia Kristel, enquanto um senhor sentado nos fundos fica gemendo alto e dando a impressão de que estaria se masturbando. Mas os que mais me divertiram foram os curtas do Manoel de Oliveira (genial) e do Walter Salles. O do Manoel de Oliveira mostrava o encontro entre Krutchov (Michel Picolli) e o Papa João XXIII. Eu ri bastante e me alegrei com a originalidade e inspiração do nosso querido e centenário cineasta. O de Walter Salles, mostrando Caju e Castanha cantando em frente a um cinema que exibe OS INCOMPREENDIDOS também é uma beleza. Outro supostamente engraçado é o de Lars Von Trier. Mas o recurso é de humor negro e Von Trier faz tempo que não ganha a minha simpatia. A violência gráfica me fez imaginar que se tratava de um filme do Cronenberg, mas felizmente não era. O segmento de Alejandro González Iñarritú também é um dos destaques do coletivo, um dos melhores.

Alguns segmentos fazem homenagens a obras maiores da cinematografia mundial e por isso acabam por serem recebidos com um certo afeto pelos cinéfilos, como o de Claude Lelouch. Não vou lembrar bem qual segmento homenageia qual filme, mas lembro que fiquei feliz ao ver na telona trechos de VIVER A VIDA, de Godard; 8 E 1/2, de Fellini; A PAIXÃO DE JOANA D'ARC, de Dreyer. Bom, tem um filme não muito bom que aparece de relance no curta do Wenders, que é o FALCÃO NEGRO EM PERIGO, do Ridley Scott. Outros filmes são apenas mencionados ou tem suas trilhas sonoras usadas, mostrando apenas o público - caso de O DESPREZO, de Godard. Gostei bastante por exemplo, do recurso de Nanni Moretti, que com a sua simpatia habitual conta de suas experiências com seus filhos e o cinema. Parece que, no cinema de Moretti, nada é mais importante do que os seus filhos. Infelizmente, por problemas de direitos autorais, não foram incluídos os segmentos dos irmãos Coen e de Michael Cimino.

P.S.: A foto acima é do segmento do Lars Von Trier.

sexta-feira, março 14, 2008

AS DUAS INGLESAS E O AMOR (Les Deux Anglaises et le Continent / Les Deux Anglaises)



A ótima recepção que eu tive com A SEREIA DO MISSISSIPI (1969) fez com que eu voltasse a lembrar do quanto eu gosto de François Truffaut. Daí, aluguei AS DUAS INGLESAS E O AMOR (1971), que saiu em dvd pela Versátil, para dar prosseguimento ao pouco que resta dos filmes do diretor que falta eu conferir. Agora, por exemplo, ficam faltando apenas três filmes não vistos do cineasta, que infelizmente morreu cedo demais. Bem que poderia estar vivo e fazendo ainda ótimos filmes como seus colegas Chabrol, Godard, Rohmer e Rivette. Mas quis o destino que Truffaut tivesse uma vida curta. E talvez a sua aproximação com a morte e o seu apego aos mortos e aos livros e cartas demonstrado em seus trabalhos mais maduros já indicassem que a sua amiga morte estaria por perto.

Se AS DUAS INGLESAS E O AMOR não chega a ser tão mórbido quanto O QUARTO VERDE (1978) é porque isso seria praticamente impossível. Mas o filme é impregnado de um clima contemplativo diante da vida que beira à estranheza. Até mesmo nos momentos mais felizes os personagens parecem estar pouco à vontade. Apesar de ser, como JULES E JIM - UMA MULHER PARA DOIS (1961), uma adaptação de um romance de Henri-Pierre Roché, ao contrário do filme produzido dez anos antes, que transbordava alegria e desejo de viver, em AS DUAS INGLESAS E O AMOR há a vontade de viver, mas há uma aura mais pessimista, por mais que Truffaut negue. Os personagens, por mais que tentem ajustar suas vidas, alcançar o amor, ele (o amor) parece estar sempre escorrendo por suas mãos, seja por culpa do próprio temperamento dos personagens, seja por circunstâncias que poderiam ser evitadas com um maior esforço por parte dos envolvidos.

O filme parece ser dirigido por um diretor velho. E levando-se em consideração o fato de que Roché era um octogenário quando escreveu o livro, a adaptação de Truffaut segue bastante fiel, pelo menos na forma. No conteúdo, ele fez algumas modificações, tornando o filme mais trágico. A morte de uma das irmãs, ele diz que teve a idéia de fazer ao ler sobre as irmãs Brontë. Conta-se que Emily Brontë só aceitou receber a visita de um médico duas horas antes de morrer. E Truffaut achou por bem usar isso no filme. Truffaut também dá um aspecto mais seco e realista ao amor físico, descrevendo com certo naturalismo, por exemplo, o rompimento do hímen na cena de sexo de Claude (Jean-Pierre Léaud) e uma das irmãs. Há até um certo exagero na quantidade de sangue que é mostrada nos lençóis, mas tudo leva a crer que foi por razões puramente dramáticas. Sem falar que fica bonito a cor vermelha no cinema, por mais que Truffaut fosse, na época, um pouco resistente no uso das cores, por se julgar pouco capaz de criar texturas bonitas, como as que seu colega Godard conseguiu em O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS. Para ele, a maioria dos filmes em cores tinha um aspecto feio.

Mesmo assim, a fotografia de AS DUAS INGLESAS E O AMOR, se não é das mais bonitas, tem uma aparência coerente com o clima do filme e com a época em que ele se passa (aparentemente fim do século XIX ou início do século XX). Tanto que para emular a época, Truffaut usou muitos fechamentos de íris, recurso bastante usado no cinema mudo e que nos anos 70 parecia algo antiquado. E por mais que não tenha ficado tão emocionado com esse filme quanto fiquei com A SEREIA DO MISSISSIPI, ainda o considero superior a JULES E JIM. E nem foi preciso Truffaut criar personagens de fácil simpatia. Do triângulo amoroso, quem eu mais gostei foi Ann, a personagem de Kika Markham. O personagem de Léaud tem algo de frio e contraditório que o distancia do público.

P.S.: Saiu a lista dos longas selecionados para a edição desse ano do Cine Ceará. E a julgar pelos títulos escolhidos, esse ano promete. A relação dos longas inclui: O GRÃO, de Petrus Cariry; OS DESAFINADOS, de Walter Lima Jr.; FALSA LOURA, de Carlos Reichenbach; NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA, de Reinaldo Pinheiro; e os estrangeiros TAMBOGRANDE, de Ernesto Cabellos (Peru); POSTALES DE LENINGRADO, de Mariana Rondon (Venezuela); SPECIAL CIRCUMSTANCES, de Marianne Teleki & Héctor Salgado (Chile-EUA); LAS VIDAS POSIBLES, de Sandra Gugliotta (Argentina); LUZ SILENCIOSA, de Carlos Reygadas (México); e VETE DE MI, de Víctor García León (Espanha).

quinta-feira, março 13, 2008

VESTIDA PARA CASAR (27 Dresses)



Depois de algumas semanas em cartaz, só ontem resolvi dar uma chance a VESTIDA PARA CASAR (2008), até porque eu tenho uma queda por comédias românticas mesmo. Claro que algumas fazem a gente sair do cinema com um misto de culpa e vergonha de tão constrangedoramente ruins que são, como foi o caso de LICENÇA PARA CASAR. E um outro filme com o verbo "casar" no título inconscientemente fez com que eu ficasse com um pé atrás e demorasse a me decidir a vê-lo enquanto houvesse opções melhores nos cinemas. Mas a balança pendeu para o outro lado quando pensei em Katherine Heigl, uma atriz adorável, e que eu considero a melhor coisa de LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS (2006) - como eu nunca vi nenhum episódio de GREY'S ANATOMY, estou descobrindo a moça agora. E ela tem um jeito e um sorriso que me lembram muito uma ex-namorada, tanto que fica difícil não lembrar dela enquanto a atriz está em cena - não sei dizer se isso é bom ou ruim.

Quanto ao filme, trata-se de uma comédia romântica genérica e com seus clichês batidos - por que eles têm sempre que mostrar os amantes se declarando em público? -, mas que mesmo assim tem os seus pontos positivos a ponto de torná-la no mínimo agradável. O primeiro deles é a boa química existente entre Katherine e James Marsden, que pela primeira vez fez um personagem que eu simpatizasse. Eu sempre o via como um sujeito meio "pé-no-saco". Dessa vez, entre ele e Ed Burns, eu torcia por ele. Claro que o filme não é neutro e o mostra como um cara legal. E a cena do casal bebendo e cantando num bar é muito boa. No filme, Katherine é uma mulher que tem um especial fascínio por cerimônias de casamento e sempre que pode faz o papel de madrinha de noivas, guardando em seu guarda-roupa todos os vestidos de madrinha. Há anos ela é apaixonada por seu chefe (Ed Burns), que nem liga pra ela - pelo menos, não no sentido romântico do verbo "ligar". Justo na noite que ela decide tomar a iniciativa, a sua irmã, chegando de viagem, "ganha" o seu chefe assim que aparece na festa.

Engraçado que a atriz que interpreta a irmã dela, a sueca Malin Akerman, eu achava bem bonita quando a vi nos poucos episódios de ENTOURAGE, mas depois de ANTES SÓ DO QUE MAL CASADO, parece que colocaram a moça pra fazer personagens com defeitos pouco aceitáveis. No caso de sua personagem em VESTIDA PARA CASAR, ela mente bastante, como forma de encontrar pontos em comum com os gostos do personagem de Ed Burns. E cada notícia boa que ela dá sobre a evolução do romance com Burns só deixa a irmã louca de ciúme e se esforçando pra disfarçar a dor e a raiva. Completando o quadrado amoroso, há o personagem de Marsden, que é um jornalista responsável por uma coluna sobre casamentos de um jornal respeitado, coluna essa, lida assiduamente pela personagem de Heigl. Ele conhece a "super-madrinha" numa noite em que ela teve que participar de duas festas de casamento ao mesmo tempo.

Quanto a Ed Burns, achei interessante a pequena entrevista que ele deu para a revista SET desse mês. Ele foi entrevistado por ocasião do terror UMA CHAMADA PERDIDA, remake do filme japonês do Takashi Miike. Burns me pareceu bastante amargo ao falar da dificuldade de se conseguir fazer cinema independente nos Estados Unidos. Com o encarecimento das produções e o pouco tempo em que elas ficam em cartaz, ele acabou tendo que se render a um cinema de apelo mais popular para sobreviver. Na entrevista, ele não fez questão nenhuma de elogiar o remake e me pareceu também bem pouco esforçado e apagado nesse VESTIDA PARA CASAR. Ele, como um diretor independente cujos filmes não fizeram tanto sucesso comercial, deve se sentir meio frustrado com essa posição de ator de filmes de qualidade duvidosa.

quarta-feira, março 12, 2008

10.000 A.C. (10,000 b.C.)



Nem mesmo a beleza de Camilla Belle ajudou a tornar 10.000 A.C. (2008) uma produção que me deixasse satisfeito, por mais que eu esperasse do filme apenas um entretenimento descompromissado. Até daria pra relevar um pouco se lembrarmos das origens de Roland Emmerich, cineasta que no começo dos anos 90 dirigia filmes B como ESTAÇÃO 44 (1990) e SOLDADO UNIVERSAL (1992). Mas depois de produções milionárias porém ruins como INDEPENDENCE DAY (1996) e o hediondo GODZILLA (1998), Emmerich surpreendeu com um trabalho muito bom: O DIA DEPOIS DE AMANHÃ (2004), um filme que deve funcionar melhor na telona - o efeito das ondas gigantes vistas no cinema é fantástico. Infelizmente, pelo visto, esse filme foi uma exceção na carreira do diretor alemão, já que a breguice e a falta de criatividade dominam o novo filme.

Eu, pelo menos, já comecei a cochilar assim que a narração de Omar Sharif começou. A voz pausada e aveludada do ator, como se estivesse lendo um livro infantil pra fazer criança dormir, só contribuiu pra que eu quase deixasse o sono, muito mais atraente, vir à tona. Só voltei a acordar, esfregando os olhos, na seqüência dos pássaros gigantes, que de tão boa me fez lembrar os melhores momentos de JURASSIC PARK, do Spielberg, em especial a cena dos velocirraptors. Depois disso, o filme dá um gás, mas manter os olhos abertos e a mente acordada só torna as falhas do filme mais visíveis.

A estória e o tempo num passado remoto podem lembrar APOCALYPTO, de Mel Gibson, mas a comparação pára por aí, já que o filme de Mel Gibson é infinitamente superior. Sem falar que uma violência mais explícita - como a vista no filme do "Mad Mel" - é um ótimo estimulante para manter o espectador acordado, com a adrenalina entrando na corrente sangüínea e fazendo o coração bombear mais forte. 10.000 A.C., ao mesmo tempo em que remete ao passado B de Emmerich, com sua estória ruim e interpretações risíveis, tem efeitos especiais de produção classe A, embora esses efeitos não mais impressionem, parecendo às vezes videogame. Aliás, em se tratando de efeitos especiais, qual foi o último filme que realmente impressionou a platéia? Hollywood pode tudo agora e a gente já se acostumou com isso.

Na trama de 10.000 A.C., uma família de bons selvagens vive numa localidade e sobrevivem da caça. Existe no começo uma profecia envolvendo um rapaz que mataria um mamute, mas acho que isso é secundário e muito chato. O que melhora o filme é quando surgem os invasores, que eles chamam de "demônios de quatro patas", que nada mais são do que homens andando a cavalo. Esses homens capturam vários jovens da comunidade, inclusive a bela Evolet (Camilla Belle), o amor da vida do herói D'Leh, que sai à sua procura junto com o amigo Tic'Tic - cujo irmão mais famoso, o Tic'Tac, estranhamente não aparece no filme. A partir da busca por Evolet e da chegada dos raptados no que parece ser o antigo Egito, construindo suas pirâmides, o filme vai melhorando um pouquinho. Interessante são os chefões lá do lugar, que tem unhas maiores do que as do Zé do Caixão - seria uma homenagem ao Mojica? A certa altura, D'Leh e Tic'Tic alcançam o lugar e tentam - ao lado de vários outros homens que tiveram seus familiares seqüestrados - fazer cair o domínio dos perversos vilões. E tudo se encaminha para um final mais ou menos óbvio, besta e com tentativa vã de causar emoção.

Se o filme tem alguma importância, talvez seja como um veículo de maior visualização para a mezzo-brasileira Camilla Belle, que veio para o Brasil depois de um longo tempo distante, e já está escalada para o elenco do próximo filme de Heitor Dhalia, chamado À DERIVA e estrelado por Vincent Cassel. Que bom! Agora temos uma meio-brasileira que começa a carreira nos Estados Unidos e quer fazer filmes no Brasil e uma outra que começou no Brasil e está fazendo sucesso lá fora - Alice Braga. E as duas são gatíssimas. Se depender dessas duas mulheres, mais o sucesso da modelo Giselle Bünchen, a nossa fama de ter belas mulheres está mais do que assegurada.

terça-feira, março 11, 2008

O ORFANATO (El Orfanato)



Apesar de poucos títulos chegarem aos cinemas nacionais, o cinema de horror espanhol tem crescido bastante nos últimos anos. A ponto de ter superado o cinema italiano, em quantidade e qualidade. O ORFANATO (2007) é um dos melhores exemplos de filmes do gênero vindos da terra de Buñuel. O filme tem o dedo do produtor Guillermo Del Toro, que realizou a obra-prima O LABIRINTO DO FAUNO e agora tem se dedicado mais a produzir filmes do que a dirigir. Dando uma olhada no IMDB, vi que ele será produtor dos próximos trabalhos dos colegas Rodrigo García, Alfonso Cuarón e Alejandro González Iñarritú. Como diretor, ele acabou de assinar contrato pra dirigir O HOBBIT, que será produzido por Peter Jackson, e está finalizando HELLBOY II. Quer dizer, da turma hispânica que trabalhou em Hollywood, tudo indica que foi ele quem mais se destacou no mercado internacional, ainda que eu prefira seus trabalhos mais pessoais, falados em espanhol. Mas deixemos de enrolação e falemos de O ORFANATO. À primeira vista, vem à lembrança filmes como OS OUTROS e OS INOCENTES, cujos personagens mirins têm importância fundamental para a trama. Mas, diferente do filme de Jack Clayton, O ORFANATO não oferece dúvida quanto ao sobrenatural. Pelo menos, não quando o filme acaba, de forma até suave, na contramão dos filmes do gênero.

Já virou até lugar comum mostrarem crianças tendo a sensibilidade de ver os mortos e talvez o maior desafio do diretor estreante em longa-metragem Juan Antonio Bayona - ou J.A. Bayona, como aparece nos créditos - seja o de utilizar os clichês do gênero de forma sutil, com uma cara diferente e sem abusar de sustos. Na verdade, quase não há sustos em O ORFANATO. É um filme que valoriza mais a construção do clima fantasmagórico, sem abrir mão do lado humano do drama da mãe (Belén Rueda, de MAR ADENTRO) que tem um filho adotado e que requer cuidados médicos constantes - o menino é portador do vírus HIV e precisa tomar pílulas para controlar a doença todos os dias. O menino, filho único do casal, freqüentemente fala de seus amigos "imaginários". Os pais acreditam que deve ser um problema normal e não desconfiam que esses amiguinhos são mesmo espíritos de crianças.

O prólogo já adianta o tom geral do filme, que mistura brincadeira de criança com um clima opressor, acentuado pela trilha sonora e pela maneira como a câmera é posicionada. E essa brincadeira mostrada no começo será reutilizada num das cenas-chave do filme. Apesar de ter um sabor diferente dos filmes de terror americanos e japoneses, O ORFANATO mantém a tradição de valorizar o amor de mãe. Quem viu O BEBÊ DE ROSEMARY sabe que mesmo nas piores circunstâncias o amor materno segue fiel, podendo levar tanto ao sacrifício quanto à aceitação de situações, digamos, difíceis, para usar de eufemismo. Também não se deve esquecer de outra seqüência-chave do filme, que é a que envolve um especialista em paranormalidade (Edgar Vivar, o Seu Barriga do seriado CHAVES) e uma médium chamada para verificar a existência de espíritos hostis dentro da casa (a excelente Geraldine Chaplin).

segunda-feira, março 10, 2008

ELIZABETH - A ERA DE OURO (Elizabeth: The Golden Age)



Tenho poucas lembranças de ELIZABETH (1998), a estréia do indiano Shekhar Kapur em Hollywood. Mas do pouco que me lembro, achei o filme um pouco frio, pouco marcante. Parece que Kapur se sentiu reprimido em explorar o aspecto mais melodramático e colorido, que deve ter mais a ver com o espírito dos filmes indianos. Mas estou fazendo apenas conjecturas, já que pouco ou nada conheço da chamada Bollywood. E muito menos da carreira pré-hollywoodiana do cineasta. O que me chamou a atenção na continuação, ELIZABETH - A ERA DE OURO (2007), além da sempre brilhante atuação de Cate Blanchett, foi o episódio envolvendo a execução de Mary Stuart, a rainha da Escócia, que foi presa e condenada basicamente por ser católica. Como havia visto um filme pelo ponto de vista de Mary dirigido por John Ford - MARY STUART, RAINHA DA ESCÓCIA -, fiquei interessado em ver a história contada pelo ponto de vista de Elizabeth I, rainha da Inglaterra, protestante. Claro que nem o filme de Ford nem o de Kapur são extremamente fiéis aos fatos históricos e tentam romantizar e modificar os fatos usando de licença poética. Mas quem quiser saber o que há de errado, que procure nos livros de História.

Além do incidente envolvendo Mary Stuart (Samantha Morton), um outro fato importantíssimo para a História da Inglaterra e de toda a Europa é a ameaça de invasão da Espanha ao território inglês. Na época, a Inglaterra era uma das poucas nações a resistir ao domínio da Igreja Católica e, conseqüentemente, da Inquisição. Muitos dos que reclamam do filme questionam o fato de os espanhóis serem mostrados como excessivamente vilanescos, mas como eu também pinto os inquisidores como "demônios", não vi nenhum problema na maneira como eles são mostrados, sempre trajando preto e com cara de malvados. Do filme original, Kapur traz de volta Geoffrey Rush, como Sir Francis Walsingham, o braço direito da rainha. Os outros dois destaques do filme incluem Clive Owen, interpretando o aventureiro Walter Raleigh, o homem que trouxe o tabaco para o Velho Mundo, e a bela Abbie Cornish (de CANDY e UM BOM ANO), no papel de Bess, a dama de confiança de Elizabeth. As duas, tanto Bess quanto a rainha, têm uma "queda" por Raleigh, mas apenas Bess, por ter mais liberdade que a rainha, chega a ter uma relação mais íntima com o jovem navegante.

Aliás, o grande herói do filme é Walter Raleigh, que graças à sua idéia de incendiar navios ingleses e enviá-los pra cima da esquadra espanhola, evitou que os espanhóis alcançassem solo inglês. Ainda assim, não deixa de ser bonito ver a rainha em trajes de guerra, como Henrique V, um rei que chegou a lutar junto com seus súditos no século anterior, numa batalha sangrenta contra os franceses. Houve quem reclamasse da falta de mais cenas de guerra, mas eu acredito que uma das principais intenções do filme é mostrar a solidão de Elizabeth, que morreu sem ter filhos nem nunca se casar, mas que, junto com a Rainha Vitória, fez um dos reinados mais importantes da Inglaterra. Tanto que na sua época a Inglaterra floresceu não apenas financeiramente, mas também no campo das artes. Basta lembrar que foi no período elizabetano que surgiu o grande dramaturgo e poeta William Shakespeare. E talvez Shakespeare esteja presente num possível terceiro filme que encerraria a trilogia da rainha, mostrando os seus últimos dias de vida.

sábado, março 08, 2008

POR TODA A MINHA VIDA - DOIS ESPECIAIS



Talvez por ser de outra geração e de me identificar mais com o pop e o rock do que com a MPB, alguns artistas pra mim não exercem tanto fascínio. Pelo contrário, alguns deles eu não consigo gostar nem um pouco, como Milton Nascimento, por exemplo. Também não sou muito fã de Gilberto Gil, embora algumas canções dele ainda me agradem. Pra mim, nenhum desses artistas da MPB se equiparam a Roberto Carlos, cujos clássicos ficaram atemporais e não representativos de uma época, como foram várias das canções que procuravam criticar a ditadura popular através de metáforas, como as compostas por Chico Buarque. Não que eu não ache que elas tenham a sua importância, longe disso. E é até engraçado eu estar falando isso logo depois de ter comprado o disco de covers da Fernanda Takai, só com canções do repertório de Nara Leão e com composição de vários medalhões da MPB. Além do mais, uma das minhas bandas preferidas acabou virando uma banda de MPB, o Los Hermanos. Talvez o que eu sinta falta nos clássicos da MPB seja algum sentido pra mim: "Águas de Março" não me diz nada. E essa é só um exemplo. Acho que sou como o Morrissey que reclama das canções que não dizem nada sobre a sua vida ("Panic", dos Smiths) e como Renato Russo, que queria ouvir uma canção de amor que falasse da sua situação ("O mundo anda tão complicado", da Legião Urbana). Não sei porque quis começar o texto falando disso, acho que foi só pra esclarecer um pouco sobre meus gostos musicais. Indo direto ao assunto: a Rede Globo recentemente criou um programa que homenageia cantores mortos. O último a ser exibido foi sobre os Mamonas Assassinas, mas eu acabei perdendo. Na verdade, não tive muito interesse em assistir, já que a história dos rapazes é tão recente e conhecida e pouco ia acrescentar pra mim. Assisti recentemente, através de reprise na tv e de download pela internet os especiais da Elis Regina e do Tim Maia e descobri coisas que não sabia da vida e obra dos dois artistas.

ELIS REGINA

Está aí uma artista que eu nunca simpatizei muito. Prefiro a filha dela, a Maria Rita, cuja carreira venho acompanhando e gostando. E acho que o que me puxou para Maria Rita foram as composições do Marcelo Camelo. Mas gosto do estilo da moça, menos gritado do que o da mãe. Quanto ao programa, a parte documental é muito mais utilizada do que as seqüências dramatizadas, com Hermila Guedes interpretando Elis. Engraçado que nas entrevistas que vi de Elis ela parecia sempre estar quimicamente alterada. Parecia tomar muitas drogas. E o programa da Globo sequer mencionou esse fato, talvez vetado pelos filhos da cantora que não queriam ver a sua mãe como uma junkie, ou a própria emissora teve medo de denegrir a sua imagem. Mesmo assim, acho que ficou subentendida a sua morte. A vida de Elis, que casou duas vezes e teve três filhos, é mostrada com certo glamour e como boa pisciana que era, Elis cantava com o coração, chegando a chorar diversas vezes no palco, sentindo de verdade a música. O programa mostra desde sua infância, passando pelo início da carreira, o programa "O Fino da Bossa", ao lado de Jair Rodrigues, seus casamentos, suas parcerias musicais - impressionante como Gilberto Gil e Milton Nascimento afirmam ter sido apaixonados de verdade por ela. A importância de "O bêbado e o equilibrista" durante o período da anistia no final dos anos 70 é destacada no final e a interpretação emocionada da cantora dessa música me fez valorizar e entender um pouco mais aquele período em que vivi, mas que ainda era criança demais para entender.

TIM MAIA

Quanto à Tim Maia, trata-se de um artista com que eu tenho mais simpatia. Acho que sempre tive, desde criança. O problema dele é que o sujeito era muito preguiçoso. E nunca negou isso, tanto que um de seus maiores sucessos é "Sossego", que fala de um sujeito que não quer saber de trabalhar. Tanto que sua ausência aos próprios shows acabou se tornando sua marca. O especial da Globo quase coincide com o lançamento do livro "Vale Tudo", a biografia de Tim Maia, escrita por Nelson Motta. Não cheguei a ficar tão animado pra comprar o livro, tanto quanto fiquei com a biografia, hoje proibida, do Roberto, mas pelo que li no livro do Roberto, já sabia bastante coisa sobre Tim, que foi peça fundamental no início da carreira do Rei. Um dos momentos mais bonitos do especial da Globo sobre o Tim é o momento em que ele, sozinho e rejeitado na casa dos amigos, que sempre arrumavam namoradas e ele ficava só, compôs "Azul da cor do mar", uma de suas canções mais belas. Tim Maia, como mostrado no programa, era um sujeito que gostava de viver intensamente. Tudo dele era exagerado: comia exageradamente, também não bebia pouco e cheirava cocaína bastante. Até na época em que ele se converteu à seita racional, ele exagerou. Parou de beber e usar drogas e só queria cantar as músicas do disco Tim Maia Racional (vol. 1 e 2). Depois que se sentiu enganado pelo guru da religião (Manuel Jacinto Coelho) ficou puto e voltou a fazer tudo que fazia antes. E engordando muito e usando muitas drogas. E acabou morrendo nos palcos como um bom guerreiro, que morre lutando.

sexta-feira, março 07, 2008

SICKO - $O$ SAÚDE (Sicko)



Disseram que SICKO - $O$ SAÚDE (2007) não era tão bom quanto os trabalhos anteriores de Michael Moore - TIROS EM COLUMBINE (2002) e FAHRENHEIT - 11 DE SETEMBRO (2004) -, mas a nova "presepada" do diretor causou em mim reações muito mais emotivas e fez com que eu admirasse ainda mais a sua coragem, seu senso de justiça e até mesmo a sua bondade, ainda que sua persona irritante e pentelha persista. Indicado ao Oscar de melhor documentário em longa-metragem deste ano, o filme não apenas dá uma aula sobre as falhas absurdas e desumanas do sistema de saúde dos Estados Unidos - que o Brasil infelizmente tende a imitar -, como também mostra como funciona o sistema de saúde em países como o Canadá, a Inglaterra, a França e até Cuba. Inclusive, a parte de Moore em Cuba, junto com os heróis doentes da tragédia de 11 de setembro, é ao mesmo tempo engraçada e comovente. Além, claro, de deixar qualquer um indignado. Se bem que a indignação já é um efeito comum em todos os longas do diretor, não chega a ser uma novidade. Mas ela é importante para que possamos ficar revoltados, pois é a partir da revolta que surgem as grandes revoluções, as grandes mudanças nas sociedades.

Mas antes de conhecermos os benefícios do sistema de saúde desses outros países, Moore primeiro nos apresenta alguns casos absurdos de pessoas vítimas de um sistema de saúde que funciona meramente como um negócio de gerar lucros. O processo de privatização do sistema de saúde americano começou com o governo Nixon e hoje funciona como empresas seguradoras que fazem o possível para encontrar uma brecha que impossibilite uma cirurgia ou um exame para um paciente. Existem, inclusive, pessoas que ganham para isso: para encontrar brechas que acabam por matar pessoas vítimas de câncer, por exemplo. Um dos casos mais famosos do filme foi mostrado na festa do Oscar: um homem que teve as pontas de seus dedos cortadas fora num acidente com uma serra elétrica. Ele teve que escolher qual dos dedos operaria, pois ele não teria dinheiro suficiente para pagar a cirurgia nos dois dedos.

Depois de vermos tanta gente sofrida e necessitada tendo tratamento médico negado, Michael Moore nos mostra o que ocorre em países menos abastados que os Estados Unidos, que prefere investir boa parte de seus recursos na indústria da guerra. Claro que a visão que Moore mostra do sistema de saúde desses países pode ser um pouco maquiada e provavelmente tem também seus problemas - como pudemos ver em AS INVASÕES BÁRBARAS, de Denis Arcand, que dá umas alfinetadas no sistema de saúde público do Canadá -, mas ainda assim fiquei comovido em várias partes do filme, especialmente na visita de Moore a hospitais e farmácias da Inglaterra e quando o filme fecha, na tentativa de Moore de chegar até a prisão americana de Guantánamo, território americano em Cuba, e indo parar, depois, nas ruas de Cuba. Inclusive, a brincadeira em torno de como os americanos foram educados para encarar os comunistas, Fidel Castro e sua ilha como demônios que comem criancinhas provoca boas risadas, que servem como alívio cômico para um filme que lida com um assunto muito sério.

quinta-feira, março 06, 2008

LIMITE























Numa das edições virtuais da Revista Paisà, foi feita uma votação entre os colaboradores da revista para eleger os melhores filmes brasileiros de todos os tempos. E LIMITE (1931) ficou com a primeira colocação. Pra mim, LIMITE sempre foi uma espécie de bicho-papão do cinema. Sua fama de ser chato, arrastado e hermético e o fato de ser mudo me afastavam do filme. Até o dia em que ele veio parar em minhas mãos, graças ao amigo Marcos Felipe, que me presenteou com uma cópia. Mas ainda assim, fiquei esperando o momento certo para ver o filme, fiquei adiando. Assim como aconteceu com 2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, foi apenas na terceira tentativa que consegui ver o filme até o final. Nas primeiras tentativas, quando não me me perdia na estória, pegava no sono. E tenho um problema com filmes mudos e ainda por cima com um andamento muito lento, pois costumo me dispersar facilmente.

O que me ajudou a entender melhor a estória e as intenções do filme foi o livro "Limite", de Saulo Pereira de Mello, publicado pela editora Rocco, que a amiga Socorro Araújo me emprestou. Foi quando eu fui começando a pegar gosto pelo filme, embora confesse que lá pelo final tenha ficado um pouco cansado daquela cena de cerca de dez minutos só de ondas. Mas o que mais impressiona no filme são os seus recursos de vanguarda até então inéditos no cinema brasileiro da época, num país onde o cinema ainda não tinha uma tradição. Tanto que o filme foi realizado com os recursos do próprio Mário Peixoto, conhecedor tanto do cinema alemão, encabeçado por Murnau, quanto do cinema americano (Chaplin, King Vidor, Griffith). Peixoto era um jovem burguês que teve o privilégio de estudar na Inglaterra e de nunca ter precisado trabalhar. Quando voltou da Inglaterra para o Brasil, em 1928, entrou em contato com o cineasta Adhemar Gonzaga, estando presente a filmagens e aprendendo muito da técnica cinematográfica. Nas conversas que teve com a turma de Gonzaga, AURORA, de Murnau, era um dos filmes mais discutidos. Em 1931, quando o filme foi exibido, o mundo já conhecia o cinema falado, mas aqui no Brasil poucas salas estavam equipadas com essa nova tecnologia.

O filme seria um precursor de LOST e de UM BARCO E NOVE DESTINOS, de Alfred Hitchcock. A comparação com LOST se deve aos flashbacks dos náufragos e com relação ao filme do Hitchcock, há o fato de boa parte da trama se passar dentro de um pequeno barco. O filme apresenta os três personagens principais: um homem e duas mulheres. Uma das mulheres está sentada na proa do barco, em posição ereta e firme, olhando para o horizonte; o homem mostra-se cansado e desanimado, segurando os remos; a terceira mulher encontra-se deitada no piso do barco, como se estivesse com todas as suas energias desgastadas. De acordo com o autor do livro, Saulo Peireira de Mello, a posição de cada personagem representaria, respectivamente, a resistência, o desânimo e a derrota. Depois que vemos a mulher mais forte tentando ajudar os colegas a abrir uma lata de comida, vamos para o primeiro flashback, que surge a partir do momento em que os três personagens passam a contar suas histórias uns aos outros. No primeiro flashback, antecipando Robert Bresson, Peixoto perturba/intriga o espectador com closes de pés, de mãos, nos deixando meio que perdidos e ao mesmo tempo curiosos com o que está acontecendo. Quem seria esta mulher, a mulher resistente da proa? A lentidão das imagens e dessas estórias que parecem pouco dizer passa uma sensação de angústia poucas vezes vista no cinema brasileiro.

Há uma total ausência de legendas. A única legenda que existe é para esclarecer para o espectador que determinado trecho do filme foi totalmente desgastado e não pôde ser restaurado. A falta de legendas e de diálogos remeteria mais ao cinema de Murnau do que aos filmes americanos, que pareciam necessitar mais das palavras para se darem por entendidos. Acho que eu, por ter crescido e aprendido a entender o mundo através das palavras, sinto falta delas; pra mim, nem sempre as imagens são suficientes. Para sabermos que a "primeira mulher" era uma fugitiva, vemos essa informação através do close de uma manchete de jornal. A segunda estória, da segunda mulher, parece até mais enigmática. A prisão, no caso dela, seria o casamento desgastado. A estória do homem apresenta um dos meus momentos favoritos do filme, que é quando a vegetação, e a natureza como um todo, parece, auxiliada pela ameaçadora música de fundo, trazer uma desagradável sensação de agouro. As idas e vindas no tempo e o freqüente retorno ao barco causam uma espécie de enjôo, ainda mais depois daquela cena da câmera rodopiando. O que mais me deixou confuso foi a cena do cemitério, que só pude entender um pouco mais depois de ler a respeito no livro. Também acho que perdi o ponto em que os três personagens se juntam no mesmo barco - ou será que isso não acontece e o barco seria apenas uma metáfora da prisão, da inutilidade de suas vidas? Afinal, tudo no filme é simbólico mesmo.

LIMITE foi o único filme dirigido por Mário Peixoto. Seu segundo trabalho se chamaria ONDE A TERRA ACABA, que se tornou título do documentário de Sérgio Machado sobre a vida e obra de Peixoto, realizado em 2002.

Agradecimentos especiais aos amigos Marcos Felipe e Socorro Araújo.

P.S.: Saiu a edição de nº 18 da Revista Zingu! E dessa vez, tem texto meu, como colaborador especial. Fiz uma pequena homenagem à deusa Jennifer Connelly. O dossiê do mês é dedicado a Galileu Garcia, realizador dos tempos da Vera Cruz, com críticas e uma ótima entrevista feita pelo Matheus Trunk. Há também um especial sobre os 50 anos de UM CORPO QUE CAI, do mestre Hitchcock, além das já tradicionais seções "Cinema Extremo", "Subgêneros Obscuros" e "Clássicos de Prestígio", que sempre trazem críticas bacanas.

quarta-feira, março 05, 2008

A CASA DE ALICE



Numa das edições do Cine Ceará - que esse ano começa mais cedo, no mês de abril -, tive a oportunidade de conferir um dos primeiros trabalhos de Chico Teixeira, o documentário em curta-metragem CRIATURAS QUE NASCIAM EM SEGREDO (1995), que tratava da vida de cinco anões. Depois de outro documentário, dessa vez em longa-metragem, entitulado CARREGO COMIGO (2000), o diretor estréia no cinema de ficção com A CASA DE ALICE (2007), filme que guarda elementos em comum tanto com o argentino O PÂNTANO, de Lucrécia Martel, quanto com o brasileiro O CÉU DE SUELY, de Karim Aïnouz, embora não alcance o impacto de nenhum desses trabalhos. O filme é mais um representante da nova geração de cineastas brasileiros surgidos nos últimos anos e a presença de Mauro Pinheiro Jr (CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS), como diretor de fotografia, e de Marcelo Gomes, como um dos roteiristas, pode causar uma impressão de uma espécie de "panelinha" formada por essa turma, que também inclui o nome de Sergio Machado (CIDADE BAIXA).

Do filme de Lucrecia Martel, A CASA DE ALICE guarda semelhança com a proximidade dos corpos em um ambiente apertado de uma família relativamente pobre. Alice (Carla Ribas) é uma mulher casada com um taxista e mãe de três filhos adolescentes. O marido a trai com uma adolescente, que tem a cara de pau de pedir à própria Alice uma dica para conquistar um homem que já tem outra mulher. Dentro da casa, há também a velhinha quase cega, mãe de Alice, que passa o dia cuidando dos afazeres domésticos, como lavar a roupa e fazer e servir a comida. Ainda assim, a pobre velha é matratada pelo marido de Alice e pelos garotos. Apesar de viver à margem e quase como uma empregada, ela é a verdadeira dona da casa. Mesmo assim, o taxista pretende levar a coitada para um asilo para idosos. A atriz Carla Ribas, que faz a Alice, me fez lembrar uma Jeanne Tripplehorn mais pobre e sofrida.

Dentro da casa, a velhinha fica sabendo de coisas que a própria Alice não sabe sobre o marido e os filhos. Alice passa o dia fora, trabalhando como manicure num salão de beleza. Há no filme situações que são mostradas explicitamente (um filho michê, o outro, ladrão, a foto ousada da menina encontrada na carteira do taxista) e outras que são vistas como possibilidades, como quando o filme demora no efeito da escuridão, usualmente utilizado para separar uma cena de outra, e que nos faz imaginar que existe uma relação incestuosa entre dois irmãos que dormem próximos um do outro. São apenas segundos, mas que faz a diferença. Se o filme adotasse a tela preta em tempo mais prolongado entre todas as cenas, como acontece em ESTRANHOS NO PARAÍSO, de Jim Jamursch, até que essa suspeita não viria à tona, mas como não é o caso...

Com relação às intenções do filme, de seu realizador, não saberia dizer quais seriam. Uma delas talvez seja mostrar as imperfeições e os pecados dos personagens, a fraqueza humana, restando ao espectador a opção de escolher encará-los com moralismo ou afeição, embora o fato de o filme adotar um registro semi-documental não o isente de adotar um posicionamento próprio, por mais ambíguo que ele pareça. De qualquer maneira, independente de seu aspecto moral, no que se refere às qualidades narrativas, o filme é ótimo.

terça-feira, março 04, 2008

MEDO DA VERDADE (Gone Baby Gone)



Ben Affleck anda passando por uma maré de sorte ultimamente. Depois de ter trabalhado em filmes vergonhosos (DEMOLIDOR, CONTATO DE RISCO, PEARL HARBOR) e de ser ridicularizado por muitos na época de seu casamento com Jennifer Lopez, as coisas mudaram bastante para o astro. Além de ter faturado o prêmio de melhor ator em Veneza por sua interpretação em HOLLYWOODLAND - BASTIDORES DA FAMA, Affleck se deu bem em sua estréia na direção de longa-metragem com o belo drama policial MEDO DA VERDADE (2007). Para a sua estréia, ele escolheu adaptar o seu romance favorito, "Gone Baby Gone" (lançado no Brasil pela Companhia das Letras), de Dennis Lehane, mesmo autor de "Sobre Meninos e Lobos". Há, como no filme de Clint Eastwood, uma preocupação com as tragédias familiares e uma trama complexa e bem desenvolvida, que foge do óbvio.

MEDO DA VERDADE ainda rendeu muitos elogios ao irmão de Ben, Casey Affleck, que também ganhou uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante pelo seu trabalho em O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD. Além da boa performance do "irmão-revelação", Affleck ainda dispõe de atores do porte de Ed Harris e Morgan Freeman, da revelação (indicada ao Oscar) Amy Ryan e da beleza e graça de Michelle Monaghan, que interpreta a parceira de Casey no ramo de investigadores particulares. Como eles moram no mesmo e perigoso bairro da família da garotinha desaparecida, na cidade de Boston, eles são contratados pela tia da menina para investigar o caso. Estranhamente, eles não recebem apoio da polícia, que não vê com bons olhos esses jovens se intrometendo no seu trabalho e a própria mãe da menina (Amy Ryan), viciada em cocaína, parece não querer auxiliar o casal de investigadores.

O filme tem um andamento especial, dividido em três atos e com clímaxes em todos eles, o que dá essa impressão de que ele está se encaminhando para um final, quando na verdade a resolução do caso ainda está para acontecer. Dos coadjuvantes, acredito que o que mais brilha é Ed Harris, um ator que de vez em quando produz desempenhos intensos. Aliás, Harris é o tipo de ator um pouco menosprezado: raramente tem oportunidade de protagonizar filmes e geralmente aparece como um coadjuvante de luxo. O tratamento que ele dá a seu personagem, o detetive Remy Bressant, está entre os pontos altos de sua carreira. Quanto ao filme, dizer mais sobre a trama pode estragar as surpresas. Quanto menos se souber, melhor.

MEDO DA VERDADE não chegou a ser lançado nos cinemas - eu acho - e está previsto para chegar às locadoras no início de abril pela Buena Vista, de acordo com o site DVD Magazine.

P.S.: Saiu o resultado final da votação para o Alfred. Adivinhem quem ganhou melhor filme do ano? Só checar no blog da Liga.

segunda-feira, março 03, 2008

...E O VENTO LEVOU (Gone with the Wind)



Usando como desculpa a peregrinação pela obra de George Cukor, me presenteei com o prazer de ver pela terceira vez E O VENTO LEVOU (1939), esse tesouro do cinema mundial e talvez o filme mais popular e arrebatador da história do cinema. Cukor nem foi creditado como diretor do filme, já que abandonou as filmagens por não aguentar as pressões e a obsessão em controlar tudo do produtor David O. Selznick, mas foi Cukor quem preparou todo o elenco e filmou as primeiras tomadas do filme, como a primeira cena, que começa com uma jovem e mimada Scarlet O'Hara, cercada de marmanjos babando por sua beleza, dizendo "war, war, war", em tom de descaso. Quando Cukor "pediu as contas" da produção, foi um chororô geral, principalmente das mulheres, que adoravam a gentileza do diretor. Ele foi substituído por Victor Fleming, que Clark Gable gostava mais, já tinha trabalhado junto antes e era seu amigo e que foi quem ganhou o crédito como diretor do filme no final, apesar de Sam Wood também ter sido escalado para a direção quando Fleming abandonou as filmagens a certa altura, não aguentando mais os bilhetinhos e o controle intenso de Selznick. Por isso que muitos estão certos em dizer que Selznick é o grande autor do filme, sendo Scarlett O'Hara um misto de sua personalidade com a de Vivien Leigh, a atriz inglesa escalada para viver uma sulista dos tempos da Guerra Civil americana.

E de todas as histórias envolvendo a realização de E O VENTO LEVOU é a escalação da atriz que viveria a Scarlett a mais interessante. Na época, o romance de Margaret Michell era um dos maiores best-sellers já surgidos. Estava sendo lido no mundo inteiro. Acho que títulos populares de hoje como "O Código Da Vinci" não podem ser comparados à febre que foi o livro nos Estados Unidos na época. E quando Selznick decidiu, em 1936, adaptar o romance para as telas num projeto mega-ambicioso, todo mundo acompanhou pelos jornais e pelo rádio o desenrolar dos bastidores da pré-produção. Quanto ao personagem de Rhett Butler, a escolha de Clark Gable era uma unanimidade. Nenhum outro ator poderia desempenhar tão bem o papel. Na época, Gable era o maior astro de Hollywood, uma espécie de rei. Mas para chegar à atriz que desempenharia a personagem de Scarlett foi uma novela gigantesca. Nomes famosos como os de Bette Davis, Katharine Hepburn e Paulette Goddard foram descartados e Selznick e Cukor já estavam praticamente desanimados com tantos testes feitos em centenas de candidatas. O fato de Vivien Leigh ter ido passar uns dias nos Estados Unidos e de estar no lugar certo e na hora certa ajudou quando ela foi fazer o teste, já devidamente apresentada por alguém que a via como a Scarlett perfeita. E foi praticamente instantânea a decisão de Selznick e Cukor quanto à escalação da atriz ao ver seu desempenho. Quanto aos sulistas, eles diziam: "antes uma inglesa, que uma ianque". Pelo visto, na década de 30, ainda havia uma forte rixa entre o povo do norte e o do sul.

Há outras histórias interessantes nos bastidores, como a da escalação da Olivia de Havilland, que tinha um contrato com a Warner e Jack Warner não a liberaria para o filme a não ser que fosse para o papel de Scarlett. Ela ficou tão desesperada e louca para interpretar a doce Melanie Hamilton que recorreu à esposa de Jack Warner na esperança de que ela convencesse o marido a mudar de idéia. E ela acabou conseguindo. Clark Gable também era contratado da MGM e houve também um pouco de esforço para trazê-lo. O problema é que Selznick queria fazer uma produção totalmente independente da Metro, o que acabou não ocorrendo, já que tanto a mansão símbolo das produções de Selznick quanto o leão da Metro surgem no início do filme, segundos antes de ouvirmos a arrepiante música-tema do filme e o título "Gone with the Wind" passando em letras gigantescas pela tela.

Há tanto a se falar sobre os bastidores e a repercussão de E O VENTO LEVOU que isso daria um livro enorme. A edição comemorativa em dvd do filme vem com quatro discos: dois para o filme e dois para os extras. Entre os principais extras, temos um excelente documentário de mais de duas horas sobre a produção, um mini-documentário sobre o processo de restauração, e documentários sobre os principais astros do filme: Clark Gable, Vivien Leigh e Olivia de Havilland, os dois primeiros feitos como especiais para a tv. Já Olivia de Havilland, ainda viva e lúcida, conta ela mesma, e com entusiasmo e saudosismo, o seu ponto de vista. Ela chegou a dizer que nem queria que as filmagens acabassem e que aquele período foi o melhor de sua juventude. Já Vivien Leigh, como estava apaixonada por Laurence Olivier, estava louca para tirar umas férias das filmagens para ver o seu amado, que estava numa peça em Nova York. Os documentários que contam a vida e a obra de Gable e Vivien foram reveladores pra mim, contando muita coisa que eu não sabia sobre os dois astros e os aspectos trágicos de suas vidas.

Sobre o meu carinho pelo filme, só cresceu nessa terceira vez que o assisti. E talvez tenha até chorado mais dessa vez do que das anteriores. Acho que antes, eu só chorava na seqüência do parto de Melanie e da invasão dos soldados do norte à cidade de Atlanta, mostrada totalmente devastada com uma belíssima panorâmica que mostrava dezenas de soldados feridos ou mortos no campo de batalha. O ponto de vista dos perdedores, a bravura daqueles homens que se sacrificaram por seus ideais, é mostrado de maneira muito respeitadora, até porque a autora do livro é sulista também e muito do que ela escreveu sobre o passado de luxo das cidades do sul, adepta do escravismo, foi de histórias contadas por sua mãe e sua avó. Quanto aos negros mostrados no filme, por mais que eles apareçam como escravos, eles não são tratados de forma agressiva por seus senhores. A empregada gorda de Scarlett, por exemplo, é mostrada quase como uma segunda mãe para ela. Naquela época e naquele lugar, podia-se dizer que havia uma relação até amistosa entre os brancos e os negros, escravos.

O filme é repleto de momentos grandiosos e arrebatadores já conhecidos por várias gerações. A tentativa de Scarlett de recuperar o seu amado Ashley Wilkes (Leslie Howard), prestes a se casar com Melanie, o que já demonstra o seu temperamento forte; a notícia da morte dos soldados na guerra; a fuga de Atlanta; a chegada em Tara e ver a sua família passando por dificuldades. E isso é apenas a metade do filme. A outra metade, no segundo disco, ainda reserva muitas emoções, como a luta dela para sair da pobreza e, mais do que isso, ficar rica, não importando como; depois, o início do relacionamento dela com Rhett Butler e sua dificuldade de amá-lo, já que ela não conseguia tirar Ashley da cabeça, e as mortes trágicas de personagens queridos que tornam o filme o maior melodrama já feito. E pra encerrar, tem aquele final maravilhoso, com aquelas palavras célebres de Butler, ao sair de casa. Arrebatador é um adjetivo que se aplica bem a E O VENTO LEVOU, com todos os seus excessos, tanto no aspecto sentimental, quanto na metragem e na fotografia em technicolor, com suas cores lindas e fortes, valorizadas ainda mais nessa restauração. Enfim, é filme pra rever e se emocionar sempre.

sábado, março 01, 2008

RAMBO IV (Rambo)



Muita gente vê com um certo charme e um pouco de saudosismo o tempo das "super-produções Paris Filmes" e das fitas vhs da América Vídeo, mas eu confesso que eu não era um aficionado pelo cinema de ação oitentista. Achava picareta demais e dava preferência sempre ao cinema "classe A", tanto que nunca vi um filme sequer estrelado pelo Chuck Norris, mais por não ir com a cara dele do que por ele ser uma cópia descarada de Rambo. Aliás, RAMBO: PROGRAMADO PARA MATAR (1982), o primeiro e ótimo filme da cine-série, não trouxe como efeito colateral apenas BRADDOCK, O SUPER COMANDO (1984) e suas continuações. O próprio Schwarzenegger se popularizou na época com um filme na esteira de "exército de um homem só" com COMANDO PARA MATAR (1985). E os italianos, como bons picaretas e copiadores que são, também se aproveitaram dessa febre, com a ajudinha de alguns atores americanos. Por conta disso, sempre que eu ía à videlocadora, encarava a prateleira de filmes de ação como o grande lixão do lugar. Mas as coisas mudaram de um tempo pra cá e atualmente eu sou um pouco menos preconceituoso. Hoje eu até tenho um action hero cuja carreira eu acompanho, apesar de ele estar cada vez mais decadente, que é o belga Jean-Claude Van Damme, cujos títulos nem pelos cinemas passam mais, indo direto para o mercado de vídeo.

Adorei o retorno com força de Sylvester Stallone no sentimental ROCKY BALBOA (2006). Diria que no quesito direção, Stallone nunca esteve tão bem. Não acho que ele vá ter tempo suficiente para se tornar um mestre como Clint Eastwood, mas com um pouco de esforço e sensibilidade, ele pode correr atrás do tempo perdido e se tornar um diretor respeitado. E mesmo com a minha simpatia por Stallone, eu me decepcionei com RAMBO IV (2008). Talvez por eu já não ter gostado de nenhuma das duas seqüências, mas a violência exagerada do primeiro trailer do filme, surgido na internet, me deixou bastante entusiasmado. E por mais que haja em RAMBO IV ação suficiente para nos entreter por uma hora e meia, quando terminou o filme eu pensei: "é só isso?". Tudo bem que os outros três títulos da série não se destacavam pela estória - o que ficava na memória eram mais as frases de efeito e as indumentárias do guerreiro - mas eu esperava mais desse novo filme, nessa nova fase de Stallone, e não apenas um filme preguiçoso e feito para capitalizar em cima desse revival dos anos 80. Sem falar no aspecto um pouco ególatra do ator/diretor/roteirista, cujo nome aparece quatro vezes nos créditos iniciais, já que até em cima do título do filme - pelo menos na versão brasileira, que adicionou o IV ao título original -, aparece escrito Stallone. Lembrou-me os tempos em que ele fez COBRA (1986) e a distribuidora brasileira vendeu o filme como "Stallone Cobra". Como se o cartaz com o rosto e o nome em destaque do ator já não fossem suficientes para vender o produto.

Uma das coisas que eu mais simpatizo em Stallone é que seus personagens são sempre pacíficos, não querem confusão, mas quando são humilhados ou irritados por alguém, sai de baixo. No caso de RAMBO IV, a coisa nem é bem assim, já que o eixo da trama gira em torno do resgate de um grupo de missionários americanos que vão até a Birmânia, uma zona de guerra, levar medicamentos para os necessitados, que sofrem nas mãos dos perversos tiranos. A Birmânia mostrada no filme é uma verdadeira visão dos infernos. A brincadeira preferida dos malvadões é jogar granadas nos lagos (ou seriam pântanos?) e botar pra correr um grupo de vítimas para depois ver um deles pisar numa granada e ter o prazer de ver seus corpos serem desmembrados, destruídos. Tal sadismo já justifica na cabeça do espectador, principalmente de um espectador de um filme de Rambo, que esses caras não merecem piedade. E quando Rambo se junta a um grupo de mercenários para resgatar os missionários que foram ajudar as vítimas e agora se encontram mortos ou enjaulados o que mais a gente quer ver é Rambo estripando os caras, arrancando fora suas cabeças, enchendo os nojentos de bala. E claro que isso acontece, mas chega uma hora que a carnificina vai se tornando banal e a provocar tédio e RAMBO IV se torna quase tão fraco quanto o anterior, principalmente com aquele epílogo toscamente enxertado. Esperava mais do velho Sly.

Entre os personagens, destaque para Julie Benz, que interpreta Sarah, a mulher que convence Rambo a levar o seu grupo de barco da Tailândia até a Birmânia (agora Mianmá). A atriz ficou famosa por interpretar Rita, a namorada do "psicopata do bem" Dexter da série homônima. Julie, curiosamente, vai estar também no novo filme do Justiceiro: PUNISHER: WAR ZONE, que já está em fase de pós-produção e que tem data de lançamento nos Estados Unidos para setembro. A moça parece que gosta mesmo de sangue, hein! Outro rosto familiar em RAMBO IV é o de Paul Schulze, que interpretou o padre Phil na primeira temporada de FAMÍLIA SOPRANO.