quinta-feira, fevereiro 28, 2008

ALGO COMO A FELICIDADE (Stestí)



Continuando a série de filmes ambientados em países do Leste Europeu que um dia fizeram parte do bloco comunista, e também levando em consideração à escassez de outros filmes mais interessantes para comentar por aqui, chegamos a este ALGO COMO A FELICIDADE (2005), de Bohdan Sláma, produzido na República Tcheca, e que eu já vi há cerca de três semanas. Ando sem tempo para ver filme, mas com o pequeno recesso que terei da escola a partir de hoje, já arranjarei um tempinho a mais na minha agenda para ver parte da infinidade de títulos apetitosos que me aguardam em casa.

Quanto a ALGO COMO A FELICIDADE, do jeito que é mostrada no filme - do ponto de vista dos habitantes de um subúrbio de uma cidadezinha do país -, a imagem que fica da República Tcheca para o espectador é de um país de terceiro mundo. (Se bem que parece que essa classificação não existe mais, é termo do passado, mas acho que me fiz por entender.) Tanto que o filme começa com uma cena no aeroporto, com um dos personagens partindo para os Estados Unidos em busca de melhores condições de vida. Ele deixa Monika, sua noiva, na esperança de ir um dia também juntar-se a ele na "terra das oportunidades". Há Toník, amigo de Mônica, que mora no mesmo conjunto habitacional que ela e tem um amor antigo pela moça desde a infância. No mesmo prédio, mora Dasha, uma mulher que tem dois filhos pequenos e mantém um caso com um homem casado. Ela sofre de problemas emocionais e acaba sendo hospitalizada depois de uma forte crise, mostrando-se incapaz de cuidar dos filhos, que passam a ser cuidados por Toník e Monika. O fato de os dois ficarem fazendo papel de papai e mamãe das crianças durante a ausência de Dasha, somado à carência afetiva de ambos, uma maior aproximação torna-se inevitável e o interesse de Toník por Monika, que já era forte, torna-se ainda maior. Para ele, ter uma vida com Monika mesmo ali naquele lugar humilde já seria uma felicidade, um sonho realizado. Quanto à Monika, ela parece divida.

ALGO COMO A FELICIDADE não chegou a me impressionar ou a me emocionar, embora goste mais do filme da segunda metade em diante, que é mais ou menos o tempo que a gente leva para se afeiçoar um pouco aos personagens. Gosto também da última cena do filme, bonita e recheada de esperança, mas faltou algo no filme que o tornasse pelo menos memorável. Porém, levando em consideração a realidade brasileira, que não é muito diferente da dos demais países pobres, e a quantidade de conhecidos que resolveram sair do Brasil e tentar uma vida nos Estados Unidos - já foi um sonho meu, também, confesso - é possível haver uma identificação com alguns dos personagens, mesmo aqueles que aparentemente não parecem tão simpáticos em suas atitudes, como Dasha. Mas o filme não tenta julgar os atos dela, embora a audiência possa não simpatizar com o seu jeito.

P.S.: Depois de muita especulação, a ABC divulgou o calendário de exibição de LOST, cuja quarta temporada terá o seu número de episódios diminuído para 13 por conta da greve dos roteiristas. Ficará assim a agenda da série:
Episódio 5: 28/02
Episódio 6: 06/03
Episódio 7: 13/03
Episódio 8: 20/03
Episódio 9: 24/04
Episódio 10: 01/05
Episódio 11: 08/05
Episódio 12: 15/05
Episódio 13: 22/05 (season finale)

terça-feira, fevereiro 26, 2008

A VIDA DOS OUTROS (Das Leben der Anderen)



Há pelo menos duas semelhanças entre este A VIDA DOS OUTROS (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, e a obra-prima 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS: ambos ganharam prêmios cobiçados. Enquanto o filme romeno ganhou a Palma de Ouro em Cannes esse ano, o alemão A VIDA DOS OUTROS foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado. Demorou um ano pra eu ver esse filme no cinema. Espero que não aconteça o mesmo com o vencedor desse ano, o austríaco OS FALSÁRIOS, que pelo menos já tem título em português. Se bem que já faz tempo que eu não tenho ligado muito pra esses concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro, mas houve uma época, nos anos 90, em que as distribuidoras tinham mais interesse em colocar no mercado de cinema todos os indicados a essa categoria e as indicações eram chamarizes para o público. Agora Oscar não é mais algo que atraia a atenção de pessoas que já não sejam interessadas em cinema. Está perdendo o valor para o público em geral. E o fato de esse ano não ter nenhum filme realmente popular contribui muito para isso. A outra (e principal) semelhança entre A VIDA DOS OUTROS e 4 MESES... é que ambos os filmes mostram um cenário tenebroso nos anos 80, quando os respectivos países faziam parte do bloco comunista.

A VIDA DOS OUTROS mostra a então chamada República Democrática da Alemanha em sua caça às bruxas, aos rebeldes, àqueles que se voltavam contra o sistema. Para isso, o Governo se equipava até mesmo de escultas nos lares de quem era suspeito, em especial os artistas, que eram constantemente policiados e sem permissão de criticar o regime. E é na vida de um casal formado por um dramaturgo (Sebastian Koch, protagonista de A ESPIÃ, de Paul Verhoeven) e uma atriz de teatro (a bela Martina Gedeck) que o filme se desenvolve. O casal é vigiado por um membro ativo do regime, defensor de métodos de tortura objetivando arrancar respostas dos suspeitos para colocá-los numa lista negra, impedindo-os de desempenhar suas profissões. Algo parecido com o que os Estados Unidos faziam na época do macarthismo. Acontece que esse homem, como um espectador de um programa Big Brother, que não respeita nem mesmo os momentos de intimidade do casal, passa a torcer por eles, a sentir um certo carinho por eles e por seus amigos "revolucionários". E assim ele acaba entrando num grande dilema.

Mesmo longe de ser tão bom quanto o premiado filme romeno, A VIDA DOS OUTROS tem o seu valor como retrato de uma época de privação da liberdade, coisa que o Brasil também conheceu muito bem, durante os duros anos de ditadura militar. Além do mais, o filme oferece-nos também o ponto de vista dos vigias, talvez mais até do que dos vigiados. O ator que faz o "vigia" (Ulrich Mühe), inclusive, é um dos destaques do filme, oferecendo riqueza de interpretação ao personagem, que passa de cruel torturador e entusiasta da causa comunista a uma espécie de sub-Schindler, em seu esforço de tentar ocultar as provas do casal. Também gostei muito do desempenho de Martina Gedeck, que brilhou durante o filme inteiro, mas teve que fazer aquela seqüência ingrata no final, que quase deixa A VIDA DOS OUTROS numa espécie de vala comum de tragédias medíocres. Ainda assim, apesar do final "meia-boca", o belo epílogo, mostrado anos depois, quando a Alemanha já está unificada, ajuda a salvar o filme.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

OSCAR 2008



Se levarmos em conta a qualidade dos filmes indicados, o Oscar 2008 foi provavelmente o melhor da década, até o momento. Mas como minha memória da premiação é curta, posso estar equivocado. Mesmo assim, faltou mais criatividade, mais inventividade nas apresentações especiais, que quase não houve. Mas me diverti bastante com a apresentação inicial de Jon Stewart, dei boas gargalhadas com suas piadas sobre os filmes indicados - ele foi mais um que agradeceu pelo fato de haver ao menos um filme mais leve (JUNO) no meio de filmes de assassinos perversos. E também fez piada com a política americana, com a disputa dos candidatos a presidente pelo Partido Democrata. Segundo ele, o filme LONGE DELA, sobre uma mulher que, devido a um problema de memória, esquece o próprio marido, serviria como uma luva para Hilary Clinton. O nome de Obama também foi motivo de piada.

Contou pontos a favor ver Jack Nicholson novamente sentado na primeira fileira, sorrindo feito um demônio do bem (se é que isso existe), mas senti saudades de Billy Crystal como apresentador e das brincadeiras que ele fazia com o Jack. Sentado ao seu lado e feliz da vida estava Javier Bardem, que parecia já prever que ganharia o prêmio de coadjuvante por ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ. Muito legal vê-lo dedicando o prêmio à sua mãe, falando em espanhol. Ele tem a vantagem de, se não conseguir uma carreira bem sucedida em Hollywood, ter um porto seguro na Espanha, onde sempre trabalhou em bons projetos.

Mas o momento mais esperado da festa pra mim era a apresentação de "Falling Slowly", cantada pelo casal Glen Hansard e Marketa Irglova, de ONCE. E foi realmente emocionante. Como se não bastasse a beleza da junção voz, violão e piano dos dois, ainda houve a surpresa da participação da orquestra no final da canção, com direito a uma câmera que valorizou esse momento. E que bom q eles ganharam. Foi o momento mais feliz da noite pra mim. Só não gostei porque interromperam na hora que Marketa ia fazer o seu discurso de agradecimento. Porém, num momento inédito na história do Oscar, ela voltou no bloco seguinte para terminar o seu discurso. Foi definitivamente o melhor momento da noite!

Como o Oscar estava fazendo 80 anos, de vez em quando víamos cenas memoráveis de edições anteriores. Outro momento especial foi a homenagem a Robert Boyle, diretor de arte que já contava com os seus 98 anos de idade. O velhinho começou o discurso dizendo "that's a good part of getting old". E nessa hora, o Renato, com quem estava conversando via MSN, lembrou do cineasta centenário Manoel de Oliveira, que parece que é ignorado por Hollywood. Esse sim, mereceria uma grande homenagem. Na montagem dos filmes vencedores das 79 edições anteriores, Rubens Ewald Filho, mesmo com a rapidez com que os filmes passavam na tela, fez questão de alfinetar os títulos de que ele não gosta, como DANÇA COM LOBOS, de Kevin Costner, e CORAÇÃO VALENTE, de Mel Gibson, dois filmes que eu respeito bastante.

No mais, foi um Oscar sem muitas surpresas. A começar pela premiação de Daniel Day-Lewis. Se ele não ganhasse, seria a maior surpresa da noite. E como falei para o Daniel (o the Walrus, não o Day-Lewis) no MSN, a única maneira de não darem o Oscar pra ele era se a academia adotasse a teoria de que Deus é uma superstição. Quanto à cena de SANGUE NEGRO escolhida para passar na hora do anúncio dos indicados a melhor ator, foi a que a maioria esperava: a cena do "I've abandoned my child!". A surpresa da noite foi a francesa Marion Cotillard passar a perna na favorita, Julie Christie. E como Marion é linda, hein! E a academia adora essas mulheres lindas que se enfeiam para interpretar papéis, como aconteceu com Nicole Kidman em AS HORAS e Charlize Theron com MONSTER. Além de Marion, outra mulher linda da festa era a maravilhosa (e grávida) Cate Blanchet - segundo Jon Stewart, Cate é tão versátil que ela estava até em ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, no papel do cachorro que persegue Josh Brolin. :-) Outras musas da festa: Keri Russell, Ellen Page e Cameron Diaz.

Pra encerrar: como os irmãos Coen são antipáticos, hein!

Agradecimentos aos amigos Renato, Daniel The Walrus e Milton pela companhia na hora da premiação. O Milton, inclusive, organizou um bolão, mas eu errei tanto os meus palpites que devo ter saído com pontuação negativa. :-)



Lista dos vencedores

Melhor Filme : ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ
Melhor Diretor: Ethan Coen e Joel Coen (ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ)
Melhor Ator: Daniel Day-Lewis (SANGUE NEGRO)
Melhor Atriz: Marion Cottilard (PIAF - UM HINO AO AMOR)
Melhor Ator Coadjuvante: Javier Bardem (ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ)
Melhor Atriz Coadjuvante: Tilda Swinton (CONDUTA DE RISCO)
Melhor Filme Estrangeiro: OS FALSÁRIOS (Áustria)
Melhor Figurino: ELIZABETH - A ERA DE OURO
Melhor Animação: RATATOUILLE
Melhor Maquiagem: PIAF - UM HINO AO AMOR
Melhor Fotografia: Robert Elswit (SANGUE NEGRO)
Melhor Efeitos Especiais: A BÚSSOLA DE OURO
Melhor Direção de Arte: SWEENEY TODD: O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET
Melhor Roteiro Adaptado: Joel e Ethan Coen (ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ)
Melhor Roteiro Original: Diablo Cody (JUNO)
Melhor Edição de Som: O ULTIMATO BOURNE
Melhor Mixagem de Som: O ULTIMATO BOURNE
Melhor Montagem: O ULTIMATO BOURNE
Melhor Canção: "Falling Slowly", de Glen Hansard e Marketa Irglova (ONCE)
Melhor Trilha Sonora: Dario Marianelli (DESEJO E REPARAÇÃO)
Melhor Documentário em Longa-Metragem: TAXI TO THE DARK SIDE
Melhor Documentário em Curta-Metragem: FREEHELD
Melhor Curta-Metragem: LE MOZART DES PICKPOCKETS
Melhor Animação em Curta-Metragem: PEDRO & O LOBO

domingo, fevereiro 24, 2008

SENHORES DO CRIME (Eastern Promises)



É sempre complicado pra mim falar dos filmes de David Cronenberg, pois eles freqüentemente me trazem reações estranhas. Lembro de ter voltado pra casa com uma espécie de depressão depois da sessão de GÊMEOS: MÓRBIDA SEMELHANÇA (1988), de ter ficado com uma angústia tremenda, quase ao ponto de não conseguir ver até o fim MISTÉRIOS E PAIXÕES (1991) e de ter ficado estranhamente excitado com CRASH - ESTRANHOS PRAZERES (1995). O fato é que ver os filmes de Cronenberg é sempre uma experiência única, por mais que alguns pensem que depois de MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) ele passou a fazer um cinema mais comercial. Mas se todo filme comercial fosse assim, o comércio nunca seria encarado como algo quase desonroso. Com SENHORES DO CRIME (2007), sua segunda parceria com Viggo Mortensen, ele faz um filme irmão do anterior, também centrado na máfia, mas com uma caprichada ainda maior no quesito "violência". A começar pela seqüência inicial, com um homem tendo sua garganta cortada à navalha numa barbearia.

O eixo da trama é um diário escrito em russo que estava nas mãos de uma jovem adolescente ucraniana grávida que morreu de hemorragia, mas cujo filho sobreviveu. A enfermeira inglesa Anna (Naomi Watts), de família russa, mas que não domina o idioma, fica com o diário e pede para o seu tio traduzir. Dentro do diário, ela também encontra um cartão de um restaurante russo e acaba entrando na toca do lobo, ao visitar o lugar. Lá está havendo uma festa e ela conhece o patriarca da família, vivido por Armin Mueller-Stahl, o único ator realmente russo do cast principal. Mas vale dizer que os outros atores não-russos desempenham seus papéis com força e intensidade, não importando de que nacionalidade sejam - americana (Mortensen), inglesa (Naomi Watts) ou francesa (Vincent Cassel).

O personagem de Cassel, aliás, é um prato cheio para quem acredita na teoria de que há sempre um contexto homossexual implícito em todos os filmes de Cronenberg. Seu personagem, Kirill, filho do patriarca, mantém uma relação bem próxima com o seu motorista particular, vivido por Mortensen. E Mortensen é um sujeito estranho, de olhar estranho, pouco confiável, ambíguo, mas que se aproxima da família russa bem rápido, graças à sua inteligência e esperteza. Lá pelo final do filme é que saberemos mais um pouco sobre quem realmente ele é, embora suas intenções continuem ambíguas. Nesse ambiente sombrio, Anna, à medida em que procura a família da jovem de identidade não identificada, vai se afeiçoando à criança e pondo em risco a si mesma e à sua família, depois que descobre quem é o pai biológico do bebê e dos maus tratos sofridos pela pobre mãe da criança.

Dizem que Viggo Mortensen é praticamente co-autor do filme, ao lado de Cronenberg, já que foi graças a ele, que foi a campo pesquisar na própria Rússia sobre como funcionam as famílias mafiosas, que o filme ganhou vida. Foi lá que ele descobriu sobre as tatuagens no corpo dos criminosos, tatuagens que contam a história de vida da pessoa. A partir dessas informações, o roteiro foi reescrito e o filme se tornou essa maravilha que é. E também foi idéia do próprio Mortensen lutar nu na cena mais importante e impactante do filme, numa sauna, para dar mais veracidade e crueza à seqüência. Na cena, ele combate dois homens que chegam com armas afiadas para matá-lo. (Lidar com a máfia definitivamente diminui a expectativa de vida dos envolvidos.)

A brutalidade de SENHORES DO CRIME faz com que o drama da personagem de Naomi Watts não tenha a dramaticidade que normalmente seria comum, levando em conta o tema da maternidade, que supostamente seria motivo suficiente para aquebrantar o coração dos mais sensíveis. Mas esse tipo de sensibilidade não combina com Cronenberg, que sempre foi um cineasta visceral e que trata o corpo muitas vezes como carne. E essa carne, como um objeto estranho. O universo do diretor é o das sensações corporais, não o dos sentimentos. Por isso que dificilmente a cena que envolve Mortensen, Watts e o bebê vai levar alguém às lágrimas. O próprio bebê, na cena em que ele é retirado, é mostrado de maneira bem realista. Tanto nascer quanto "carregar" este corpo até o dia da morte é um negócio muito estranho. E essa consciência da estranheza do corpo, e das dores e dos prazeres que ele é capaz de trazer, é que é o forte e a marca do cinema de David Cronenberg.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

OS INDOMÁVEIS (3:10 to Yuma)



Em setembro de 2006, assisti em dvd GALANTE E SANGUINÁRIO (1957), de Delmer Daves. Na época, já circulava a notícia de que James Mangold estaria preparando um remake do filme, baseado num conto de Elmore Leonard. Essa nova versão recebeu no Brasil o título OS INDOMÁVEIS (2007). Se em alguns aspectos, a nova versão supera o original, como fato de Russell Crowe ser mais malvado e cínico que Glenn Ford, senti falta do lirismo, da poesia da obra de Delmer Daves, que tem um clima todo especial e uma trilha sonora linda. Mangold, não sei se por vontade própria ou pela pressão dos produtores, acabou fazendo um faroeste mais convencional e centrado na ação, feito para entreter o público médio, que tem mais chances de sair do cinema satisfeito por conta da ação. E quanto a isso, o filme tem o seu crédito - a seqüência de tiroteio no final ficou boa, embora não seja muito diferente dos filmes policiais contemporâneos.

Outro mérito de OS INDOMÁVEIS é o de homenagear a obra original e de promover mudanças significativas no personagem de Dan Evans (Christian Bale), o fazendeiro decadente e pobre que, num ato de heroísmo para salvar a sua família e sua propriedade, aceita o dever de escoltar o perigoso bandido Ben Wade, o personagem de Russell Crowe. Ambos os atores estão muito bem em seus papéis e é interessante notar que Crowe aos poucos vem se tornando mais simpático à audiência, mesmo fazendo papel de pistoleiro cruel. Claro que há os tons de cinza e Ben Wade carrega em si uma aura de fascínio, até por demonstrar certas atitudes nobres de vez em quando.

Quanto a Christian Bale, ele parece o típico herói dos filmes de Mangold. A exemplo do policial meio surdo interpretado por Sylvester Stallone em COP LAND (1997) e por um Johnny Cash assombrado pelo passado em JOHNNY & JUNE (2005), o Dan Evans de OS INDOMÁVEIS é um homem sofrido. Desrespeitado pela família e pela sociedade, com um pé amputado, e sem condições de pagar o aluguel da propriedade onde mora, Evans vê como uma chance de quitar suas dívidas os 200 dólares de recompensa para executar o difícil trabalho de escoltar o pistoleiro até uma cidade vizinha, onde ele pegará um trem que o levará para uma prisão em Yuma. O problema é que todo o bando de Wade está a caminho para resgatar o seu chefe e matar aqueles que ousaram prendê-lo.

Apesar de ter os seus méritos, diria que OS INDOMÁVEIS é um dos filmes menos interessantes de Mangold, que ainda tem trabalhos muito melhores no currículo, como o já citado COPLAND, IDENTIDADE (2003) e JOHNNY & JUNE. Ainda assim, a possibilidade de ver um western à moda antiga na telona nos dias de hoje é sempre uma alegria para os fãs do gênero. Outra coisa que me chamou a atenção no filme foi numa cena que se passa dentro da construção de um túnel, na qual um grupo de chineses auxiliam na execução do trabalho. A importância dos chineses como mão-de-obra para a construção das ferrovias foi mostrado de forma didática em O CAVALO DE FERRO, de John Ford. Não lembro se em GALANTE E SANGUINÁRIO os chineses aparecem.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

VOCÊ GOSTA DE HITCHCOCK? (Do You Like Hitchcock?/ Ti Piace Hitchcock?)



Com a morte de Lucio Fulci e de Mario Bava e a ausência de Michele Soavi do gênero horror, Dario Argento se tornou o único dos mestres do horror gótico italiano a manter uma carreira estável em número de produções. O que não quer dizer que seus últimos trabalhos sejam tão bons quanto os de seu auge, nas décadas de 70 e 80. Mesmo assim, ainda que em obras menores, os filmes de Argento continuam sendo avidamente aguardados por seus fãs, apesar de continuarem sendo esnobados pelo circuito de cinemas brasileiro. No máximo, alguns de seus trabalhos são lançados em dvd, como foi o caso de SLEEPLESS (2001), JOGADOR MISTERIOSO (2004) e JENIFER: INSTINTO ASSASSINO (2005), da série da Showtime MASTERS OF HORROR.

DO YOU LIKE HITCHCOCK? (2005) continua, por enquanto, inédito no Brasil em dvd e me deu um pouco de trabalho para conseguí-lo em um arquivo .avi que sincronizasse com a legenda disponível na internet. Primeiro peguei uma horrível cópia dublada em alemão; depois uma boa, dublada em inglês, mas que não batia com as legendas. Aí apelei para o velho emule e achei uma versão dublada em italiano com excelente qualidade de imagem e que sincroniza perfeitamente com as legendas em português-br que eu tinha. E até que enfim deu certo!

Quanto ao filme, trata-se de uma grande brincadeira em cima dos trabalhos mais importantes de Alfred Hitchcock. Nem é preciso ser muito fã do mestre do suspense para notar as várias referências a PACTO SINISTRO, JANELA INDISCRETA, DISQUE M PARA MATAR, PSICOSE e UM CORPO QUE CAI. A trama do filme, aliás, gira em torno de Giulio, um jovem estudante de cinema que nos intervalos de sua tese sobre o expressionismo alemão gosta de bisbilhotar a janela do prédio vizinho, onde vê uma bela jovem nua. Ela percebe que está sendo observada, mas não se importa. Aliás, parece gostar disso. No dia seguinte, Giulio se encontra acidentalmente com essa moça, de nome Sacha, numa videolocadora. Ela conversava com uma garota loira a respeito de PACTO SINISTRO. Quando a mãe de Sacha é assassinada, Giulio logo liga os pontos e acredita que as duas moças fizeram a si mesmas favores, matando as pessoas que elas mais odiavam. Como em PACTO SINISTRO, que em italiano é chamado "Delitto per Delitto". Agora, para Giulio, resta investigar quem seria a segunda vítima.

Como não é um filme a se levar muito a sério, DO YOU LIKE HITCHCOCK? pode até ter os seus problemas de dramatização e de roteiro relevados em prol da diversão que é conferir as referências hitchcockianas e as referências à própria obra de Argento. Inclusive, na videolocadora tem um cartaz bem chamativo de JOGADOR MISTERIOSO, além de outro, um pouco mais escondido, de SCARLET DIVA, de sua filha, Asia Argento. Talvez a péssima dublagem - a que eu devia já ter me acostumado nos filmes italianos de gênero - atrapalhe o pouco que há de boas intenções nas atuações do elenco. O filme foi produzido pela televisão italiana, mas tem mais sangue do que JOGADOR MISTERIOSO, que tem bem mais cara de produção televisiva. Ainda assim, se comparado às obras mais famosas do "maestro", o filme até que pega leva na violência, dando até pra imaginar que Argento se cansou um pouco do gore. Mas essa teoria cai por terra se nos lembrarmos de JENIFER e PELTS (2006), que têm verdadeiros banhos de sangue. Agora é conferir o tão aguardado LA TERZA MADRE (2007), o filme que finaliza a trilogia das bruxas, iniciadas com SUSPIRIA (1977) e A MANSÃO DO INFERNO (1980). Já teve gente boa e apreciadora do gênero aí nos blogs amigos ao lado que viu e gostou.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

PRISON BREAK - A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (Prison Break - The Complete Third Season)



E chega ao fim, bem antes do esperado, a terceira temporada (2007-2008) dessa série que eu aprendi a amar e a respeitar quase na mesma medida em que alguns fãs da primeira temporada iam desistindo e desgostando da segunda e que tinha tudo para ser um completo fracasso na terceira, ao trazer Michael Scofield novamente para dentro de uma prisão. Algo que nem eu gostei. E quando a nova temporada começou e eu não vi o nome de Sarah Wayne Callies nos créditos fiquei logo desapontado, já que ela era uma das personagens que eu mais gostava, além de ser belíssima, um colírio para os olhos. Mas com o tempo, assim como o próprio Michael, eu fui aceitando a sua ausência e me acostumando com aquela prisão nojenta lá no Panamá, de nome Sona, um lugar governado lá dentro por Lechero, um presidiário que construiu para si uma espécie de ditadura. O que os guardas do presídio fazem é apenas impedir que os presos saiam, estando sempre armados em suas torres de vigília. E ninguém nunca havia saído de Sona. Mas Scofield não é um zé ninguém. O cara é um gênio. E ele, com certeza, vai arrumar um jeito de sair do lugar. E começa a brincadeira de novo.

Acho que eu já devo ter falado aqui da minha admiração por PRISON BREAK ter resistido tanto tempo e ainda ser capaz de produzir episódios tão eletrizantes quanto os últimos, em especial o penúltimo, "Hell and High Water", coisa que muito raramente se vê no cinema de ação policial. E finalmente nessa série, Lincoln, o irmão de Michael, faz as vezes de herói de verdade, tentando de tudo para tirar o irmão da prisão e salvar Sarah e seu filho L.J., que se tornaram reféns de uma corporação que quer que Michael tire da prisão um sujeito chamado Whistler, um cara que a gente não sabe bem se ele é mocinho ou bandido, mas que tem o seu charme e se torna parceiro de Michael no plano para fugir da penitenciária. Quanto àquela turma das temporadas passadas, como o T.Bag, o Mahone e o Bellick, arranjaram um jeito de colocá-los na prisão junto com Michael, com o Sucre dando uma forcinha ao Lincoln do lado de fora.

A grande e chocante surpresa da temporada acontece logo nos episódios iniciais: a notícia da morte de Sarah, que tem sua cabeça arrancada pela grande vilã da temporada, Gretchen (ou Susan, ela usa dois nomes). No mais, claro que de vez em quando a sensação de deja vu é inevitável, mas nota-se sempre um esforço pra não deixar a peteca cair. E se na segunda temporada a intenção dos heróis era conseguir a paz, mesmo sendo procurados pela polícia, e de Michael e Sarah quererem ficar finalmente juntos, nessa terceira, as intenções de Michael mudam. Sua intenção passa a ser fugir da prisão para liquidar com a vida dos caras que mataram Sarah. E por isso o final da temporada - ou da série, se resolverem cancelar - é dos mais bonitos, ao som da versão em espanhol de "Crying", a mesma tocada em CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch, o que me deixou satisfeito e emocionado. Parece que a série terminou com apenas 13 episódios por causa da greve, mas acredito que isso ajudou os roteiristas a não enrolarem muito e fazerem uma obra mais compacta e com um final com cara de final, embora muitas perguntas tenham ficado no ar. Por isso acredito que haja fôlego para pelo menos mais uma temporada.

Falaram que a Fox pretende fazer uma versão feminina de PRISON BREAK, uma espécie de spin-off da série. A julgar pelas notícias iniciais, a série iria focar numa personagem que supostamente apareceria na terceira temporada, mas se ela apareceu, eu não vi. E nem me animei muito com a idéia, apesar de achar interessante o subgênero "W.I.P". O negócio é que com todo esse problema causado pela greve dos roteiristas as informações estão soltas. A greve fez com que a série mais importante da Fox, 24 HORAS, só voltasse em 2009! Sem falar que Kiefer Sutherland teve também o seu momento "prison break", ficando atrás das grades durante alguns dias por dirigir bêbado. E falando em prisão, um dos atores de PRISON BREAK, que fazia o personagem Tweener das duas primeiras temporadas, foi condenado a mais de três anos de prisão por matar uma pessoa num acidente de carro, ao dirigir alcoolizado. Nos Estados Unidos, esse negócio de beber e dirigir é levado muito a sério.

P.S Spoiler.: Genial o T.Bag tomando o poder asssumindo uma suposta democracia na prisão, substituindo Luchero!! Esses americanos sabem como sacanear a si mesmos quando o assunto é política.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

SANGUE NEGRO (There Will Be Blood)



Do primeiro ao último fotograma, SANGUE NEGRO (2007) é um filme perturbador. A música de Jonny Greenwood, membro do Radiohead, quase não nos dá trégua, causando uma expectativa de que algo de muito ruim está prestes a acontecer, gerando um certo mal estar. A fotografia, assinada por Robert Elswit, parceiro de Paul Thomas Anderson desde BOOGIE NIGHTS (1999), é extremamente escura, quase se fundindo ao preto do petróleo e à escuridão da noite de uma civilização que ainda não usufruia dos benefícios da energia elétrica. Tanto a música quanto a fotografia são elementos ameaçadores, totalmente coerentes com o protagonista, Daniel Plainview, vivido com uma intensidade fora do comum por Daniel Day-Lewis, provavelmente o maior ator vivo do mundo.

No início do filme, Plainview encontra num buraco no meio do deserto uma pepita de ouro, que lhe serve como veículo de implantação de um novo negócio: a extração de petróleo. Assim, ele vai comprando aos poucos os terrenos secos onde há petróleo por uma ninharia, já que a terra é seca e a população é carente. Numa cena em que ele e o filho H.W. visitam um dos donos de terra, nem mesmo pão eles têm para oferecer, apenas um pouco de leite de cabra e umas batatas. H.W., o garoto, é o único elo de ligação de Plainview com a humanidade, a única pessoa em quem ele confia e tem algum sentimento de carinho. Quando acontece um acidente com o garoto que dificulta a comunicação entre os dois e ele se torna ainda mais sozinho, seu sentimento de desdém e ódio aos homens só tende a crescer e a transformá-lo ainda mais num monstro, numa criatura que se sente mais confortável na escuridão, nas sombras. Nem mesmo há espaço para mulheres na vida de Plainview e o próprio filme é essencialmente masculino, trazendo até o simbolismo fálico da enorme torre de perfuração jorrando petróleo.

Mas embora o filme seja 90% Day-Lewis, há um personagem de grande importância para a estória. Trata-se do jovem pastor evangélico Eli Sunday, vivido por Paul Dano (de PEQUENA MISS SUNSHINE), o único a rivalizar com Plainview em ambição. No caso de Eli, ele se utiliza da mentira para enganar os fiéis, que acreditam ser ele um profeta que tem visões divinas e é guiado por Deus. Há também um outro personagem importante, ainda que apareça pouco, que é o homem que diz ser meio-irmão de Plainview, filho do mesmo pai, e que é recebido com um misto de receptividade e desconfiança pelo já enriquecido homem.

Paul Thomas Anderson disse em entrevista que durante a realização de SANGUE NEGRO o seu filme de cabeceira, que ele sempre assistia um pouco antes de dormir, era O TESOURO DE SIERRA MADRE, de John Huston. Provalvemente para capturar o espírito de ambição que impregna o filme. Mas há outro clássico do passado que SANGUE NEGRO faz lembrar de imediato: ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE, de George Stevens, que também narra a saga de um grande empresário da indústria de petróleo do início do século XX.

SANGUE NEGRO concorre aos Oscar de filme, direção, ator, roteiro adaptado, fotografia, montagem, direção de arte e edição de efeitos sonoros. Até pensei em fazer um ranking dos candidatos ao Oscar de melhor filme, mas achei uma tarefa ingrata e complicada, levando em consideração o carinho que eu tenho pelos demais candidatos. Mas tudo leva a crer que o grande embate da cerimônica desse ano vai ser entre os filmes que trazem a ambição como mote.

sábado, fevereiro 16, 2008

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (No Country for Old Men)



E depois de duas semanas de atraso em relação aos cinemas do sul, aporta em Fortaleza junto com SANGUE NEGRO, de Paul Thomas Anderson, o festejado ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (2007), dos irmãos Joel e Ethan Coen. Sabia que chegaria nem que fosse no fim de semana do Oscar. E, pra variar, é mais um filme que eu ouço comentários de desaprovação do público ao final da sessão. Deve ser principalmente por conta do final: sem cartase, sem mostrar uma cena que seria crucial num filme mais convencional e fechando com um monólogo enigmático. A falta no corpo do filme do confronto final entre Llewelyn Moss (Josh Brolin) e a "encarnação do mal" Chigurh (Javier Bardem) também causou em mim certa frustração, mas ao mesmo tempo esse sentimento de perda é compensado com o olhar de compaixão do velho xerife Ed Tom (Tommy Lee Jones) para com a esposa de Llewelyn, provavelmente ainda em momento de negação. Bom, sei que esse início do post está cheio de spoilers, além de um pouco incompreensível para quem não viu o filme, mas acho que resolvi começar a escrever sobre o que ficou mais fresco em minha memória. Mas agora me lembro das execuções de Chigurh, de sua arma de ar comprimido (usada para abater gado), das sensacionais seqüências de suspense e ação - há até uma cena de perseguição envolvendo um cachorro num rio -, entre outras cenas e diálogos geniais. Por isso, não resta dúvida: os irmãos Coen cometeram mesmo a sua obra-prima.

Josh Brolin finalmente ganha um papel memorável e dessa vez como protagonista, depois de uma carreira basicamente como coadjuvante. Ele era sempre aquele rosto familiar, o sujeito que a gente conhecia de algum filme e não lembrava de seu nome. Agora as coisas mudaram com ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, onde ele desempenha o papel de um ex-combatente do Vietnã que encontra no deserto do Texas uma maleta com dois milhões de dólares, fruto de uma negociação com drogas que não deu certo e resultou em tiroteio e a morte de todos os envolvidos. E a maleta com o dinheiro sujo e sua repercussão na vida de várias pessoas fez com que o filme fosse comparado a O TESOURO DE SIERRA MADRE, a obra-prima de John Huston e o filme definitivo sobre a ambição. Mas não acho que ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ seja apenas sobre a ambição. O próprio título original - e razoavelmente bem traduzido aqui no Brasil - já diz o tema-chave do filme: a dificuldade de se viver num lugar onde impera o mal.

Esse mal é representado e corporificado com brilhantismo por Javier Bardem, o psicopata que não pára em sua busca incasável pelo homem que está com a maleta e que vai deixando pelo caminho uma pilha de mortos. Bardem dá ao personagem um olhar insano que só comprova a sua genialidade como ator. Até mesmo quando ele está muito irritado, ele tenta falar com calma, embora seus olhos não neguem que há uma ira diabólica ali. Completando a trinca de protagonistas, temos o xerife Ed Tom, um personagem que é a cara de Tommy Lee Jones. Não consigo pensar em outro ator para o papel. Embora nos momentos em que ele aparece aconteça sempre uma quebra de ritmo em relação à ação e ao jogo de gato e rato, é com ele que o filme se inicia, com a sua voz cadenciada de caipira texano e é com ela que o filme se encerra. O seu personagem representaria a sabedoria dos mais velhos e a tristeza em relação ao mundo atual. E por isso tem uma importância decisiva para a mensagem que o filme - e que o livro de Cormac McCarthy, de onde o filme se baseia - pretende passar. E que bom que existem os quotes do IMDB pra gente poder ler as palavras finais de Ed Tom e tentar encontrar um significado para o seu sonho. Não deixa de ser uma ajuda.

Top 10 Coen Brothers:

1. ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (2007)
2. O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ (2001)
3. AJUSTE FINAL (1990)
4. BARTON FINK - DELÍRIOS DE HOLLYWOOD (1991)
5. O GRANDE LEBOWSKI (1998)
6. FARGO (1996)
7. ARIZONA NUNCA MAIS (1987)
8. O AMOR CUSTA CARO (2003)
9. GOSTO DE SANGUE (1984)
10. PARIS, TE AMO (segmento) (2006)

P.S.: Sem querer me ufanar, mas que bom saber que TROPA DE ELITE faturou o Urso de Ouro em Berlim!!!

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (4 Luni, 3 Saptamini si 2 Zile)



Estou dando sorte ultimamente nas minhas idas ao cinema. Tenho visto quase sempre filmes ótimos. Alguns mais do que ótimos. E quem diria que um dos melhores filmes dessa safra tenha vindo de um país que não tem muita tradição de fazer cinema. E também muito bom saber que, depois de alguns anos dando umas bolas fora, dessa vez a Palma de Ouro saiu para um filme merecedor, independente de quais fossem os seus concorrentes. 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007) é um filme que superou todas as minhas expectativas de bom cinema. Por mais que um tema como o aborto sempre desperte a atenção do público, o filme do romeno Cristian Mungiu está muito à frente de obras como O CRIME DO PADRE AMARO, que também aborda essa questão, mas de um ângulo totalmente distinto. 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS é mais ambíguo em sua intenção, seja ela moralista ou apenas uma forma de causar ao mesmo tempo tensão e reflexão na audiência, o que pra mim já é motivo mais do que suficiente para a simples existência desse filme fantástico.

O filme se passa na Romênia de pouco antes do fim do regime comunista. Nos anos 80, os países do Leste Europeu aderiram ao "martelo e a foice", mas perderam muito de sua liberdade por conta disso. Havia uma dificuldade muito grande de conseguir bens de consumo. Cigarros, então, eram conseguidos via mercado negro. Bem como um simples sabonete. Essa era a realidade do país em 1987, a dois anos do fim do governo ditatorial e da queda do muro de Berlim. E isso é mostrado no primeiro ato do filme, que nos orienta sem precisar de "segurar na nossa mão". Quer dizer, o filme é moderno, já começa com a estória andando. Além disso, possui enormes planos-seqüência e uma estrutura narrativa bem pouco clássica. Conhecemos as duas jovens universitárias que dividem o mesmo quarto. Elas estão com um problemão pra resolver: uma delas está grávida e a outra tenta conseguir vaga num hotel para que o apartamento seja usado como local do aborto ilegal e perigoso. Não dá pra dizer mais sob risco de estragar o prazer que é acompanhar, com olhar hipnotizante, esse filme.

4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS tem uma atmosfera que remete um pouco aos filmes dos irmãos Dardenne e aos melhores trabalhos de Michael Haneke, mas há algo de hitchcockiano também na jornada da protagonista. Há um suspense que eu não esperava encontrar no filme. Aliás, se eu trabalhasse numa videolocadora, colocaria 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS na prateleira de suspense e não na de drama. E isso (o suspense) me pegou de surpresa e fez eu curtir ainda mais as quase duas horas de filme, que passam voando. Ao sair da sala, uma senhora me perguntou, provavelmente ainda com dúvida se via esse filme ou MEU NOME NÃO É JOHNNY, que passava na outra sala do Espaço Unibanco: "Esse filme é bom?". Eu respondi, com toda a convicção: "É ótimo". "Então, eu vou ver", ela disse. Espero que ela tenha gostado tanto quanto eu; nunca se sabe a reação das pessoas a determinadas obras. Talvez esse filme seja ainda mais impactante para as mulheres. Ou não, já que os homens é que acham essa coisa de gravidez (feto, placenta etc) um negócio muito estranho. Ah, e eu esqueci de comentar que já tinha baixado esse filme, mas fiz questão de conferí-lo antes no cinema. E não me arrependi nenhum pouco. A experiência de ver certos filmes na telona ainda permanece mágica. Que bom. Meu sonho é que quando eu estiver velhinho e aposentado ainda existam salas de cinema.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

DEPOIS DO CASAMENTO (Efter Brylluppet)



Estou conhecendo o trabalho de Susanne Bier de trás pra frente. Depois de ter visto a sua eficiente estréia em Hollywood com COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO (2007), tive a oportunidade de conferir no cinema, através de uma pequena mostra com os melhores filmes de 2007 organizada pelo pessoal do Cinema de Arte, o excelente DEPOIS DO CASAMENTO (2006). E fiquei impressionado com a maravilha de melodrama que Bier constrói nesse belíssimo trabalho que passou batido por mim no ano passado. Com certeza, teria entrado no meu top 20 de 2007 se o tivesse visto na época em que ele ficou em cartaz aqui. Mas fui bobo e esnobei os escandinavos, que nos últimos anos não tinham mesmo me deixado muito satisfeito, mas com certeza DEPOIS DO CASAMENTO fez eu rever meus conceitos. Vi o filme numa sessão única exibida na quarta-feira de cinzas à noite, junto com um pequeno grupo de outros retardatários.

Fazia tempo que não via um melodrama, no sentido puro da palavra, tão bom, desses de fazer chorar mesmo. O título do filme não entrega do que se trata, embora o enfoque de Bier seja já conhecido: os conflitos familiares e de relacionamento. Na trama, Jacob (Mads Mikkelsen) é um dinamarquês trabalhando como professor numa escola bem pobre na Índia. Ele parece bem satisfeito com seu trabalho e tem um forte vínculo afetivo com as crianças que ele alfabetiza. Uma delas, inclusive, ele tem quase como um filho. Ele recebe a notícia de que a escola estaria prestes a receber uma bela quantia em dinheiro de um mega empresário de Conpenhague, mas a quantia só seria repassada para os cofres da escola depois que Jacob fosse à Dinamarca conhecer pessoalmente o sujeito generoso. O tal sujeito é um bom pai de família chamado Jørgen (Rolf Lassgård), que faz o possível para esticar a estada de Jacob na cidade. Inclusive, convidando-o para a cerimônia de casamento de sua filha, de vinte anos. A primeira surpresa que Jacob tem é saber que a esposa de Jørgen é uma ex-namorada sua, Helene (Sidse Babett Knudsen), que ele não via há cerca de vinte anos. A outra surpresa acho que fica até meio óbvio pra quem está lendo esse parágrafo, mas o filme não se sustenta apenas nesse drama familiar. Há muito mais emoções pela frente.

DEPOIS DO CASAMENTO seria uma espécie de evolução do que se intencionava criar com o Dogma-95, tanto que há até algo em comum como o Dogma #1, FESTA DE FAMÍLIA, e Bier chegou a fazer um filme no esquema Dogma, CORAÇÕES LIVRES (2002), que eu não lembro se chegou a passar nos cinemas daqui ou se saiu em dvd. Mas Susanne Bier se soltou um pouco das amarras do Dogma para fazer um filme cheio de sentimento e com música, ainda que utilizada de maneira discreta, se formos comparar com os melodramas americanos, que a utilizam bastante, como auxiliar para provocar lágrimas da audiência. Bier, ao contrário, o faz com um belo uso da câmera, dos cortes, dos closes no rosto dos personagens em situações de surpresa e perplexidade. Além do mais, os personagens são fáceis de serem queridos, mesmo o milionário, que a princípio parece ser um pouco arrogante, vai se tornando, e com razão, um dos preferidos da audiência. DEPOIS DO CASAMENTO é filme pra sair do cinema com os olhos vermelhos e a alma lavada. Será que vale a pena ir atrás dos outros filme da diretora? Tenho impressão que sim.

P.S.: Alguém que é leitor do blog ainda acompanha PRISON BREAK? Só queria deixar registrado que acabei de ver um dos melhores episódios de toda a série, o de número 12 da terceira temporada. Eletrizante como talvez nenhum episódio de 24 HORAS conseguiria ser. E é impressionante como essa série renasce das cinzas e continua me deixando uma pilha de nervos, querendo ver o episódio seguinte imediatamente. Sorte de quem vê a série em maratona. Quem vê um por semana fica sofrendo de ansiedade para ver o próximo.

P.P.S.: Quem quiser dar uma olhada nos meus indicados para o Alfred, o prêmio promovido pela Liga dos Blogues Cinematográficos, eles estão escondidinhos neste link.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

CLOVERFIELD - MONSTRO (Cloverfield)



Impressionante como o público vai ao cinema despreparado. E por conta disso, o péssimo e ridículo subtítulo que CLOVERFIELD - MONSTRO (2008) recebeu no Brasil é até justificável. Assim o povo pelo menos fica sabendo que se trata de um filme que tem um monstro. Mas poucos vão preparados para ver um filme com câmera subjetiva, treme-treme e final brusco, fora dos padrões clássico-narrativos. Mas tudo bem. Ninguém é obrigado mesmo a acompanhar sites ou blogs de cinema ou cadernos de cultura dos jornais antes de ir ao cinema. Mesmo assim, eu ainda acho que um pouquinho de informação não faz mal a ninguém. CLOVERFIELD me fez lembrar da noite em que fui com uns amigos para a pré-estréia de A BRUXA DE BLAIR e a namorada do meu amigo ficou incomodada com o jeito como o filme foi feito e ficou esperando o filme ficar "normal". E como essa normalidade não chegou, ela ficou frustrada e reclamando o tempo inteiro durante a projeção. Ainda assim, acredito que CLOVERFIELD é bem mais acessível e mais pop do que A BRUXA DE BLAIR, ainda que não esteja causando, pelo menos não aqui no Brasil, nem metade da repercussão que o glorioso filme da bruxa da floresta recebeu em 1999/2000.

Mas ao contrário da modesta produção supracitada, CLOVERFIELD tem efeitos especiais dignos de super-produção, essa a cabo de J.J.Abrams. A comparação se dá principalmente pelo fato de o filme também utilizar o recurso da câmera subjetiva para passar uma impressão de documentário. E CLOVERFIELD funciona durante os seus breves oitenta e poucos minutos de duração, que passaram voando pra mim, enquanto meu olhos ficaram grudados o tempo inteiro na tela. O primeiro ato do filme, que serve para apresentar os personagens, também é bastante interessante. Tanto que eu até tinha me esquecido do ataque do monstro e fui surpreendido, assim como os personagens, pelo incrível barulho causado pelo lagartão gigante em seu rastro de destruição. A surpresinha é que dessa vez o "bisneto do Godzila" não veio sozinho, trouxe um monte de monstrinhos menores, que causam ainda mais medo que o grandão. E falando nos "pequenos", apesar de previsível, a seqüência em que um dos personagens resolve colocar o recurso da sua câmera para enxergar no escuro é muito boa, com uma boa carga de tensão. Ainda que seja uma tensão também muito ligada à diversão, já que o filme não chega a assustar de verdade. Mas é um belo exemplo de produção que tenta sair do lugar comum das produções do gênero e consegue bons resultados. Claro que qualquer comparação com a obra-prima coreana O HOSPEDEIRO é totalmente injusta, por isso é melhor nem fazer.

Na trama, assistimos a uma fita confidencial, de propriedade do Governo americano, que serve como documento do impacto causado pelo monstro. Na fita, inicialmente conhecemos Rob e Beth. Depois de uma cena de intimidade dos dois, um mês depois, a mesma fita está sendo reutilizada para documentar a festa de despedida do rapaz, que está indo para o Japão, trabalhar como alto executivo da terra do Gojira. Durante a festa é que conhecemos os principais personagens, para termos pelo menos um mínimo de interesse por eles. Nem sempre o recurso da câmera subjetiva é convicente, já que a imagem que temos é incrivelmente boa e conseguimos ouvir sem nenhum problema o que o elenco fala, mesmo com toda aquela barulheira causada pelo caos na cidade. Mas acredito que isso deva ser relevado em prol da diversão que o filme proporciona. Agora é esperar uma continuação, já que o filme fez bastante sucesso nos Estados Unidos. Só resta saber se vão fazer como fizeram com A BRUXA DE BLAIR, utilizando-se de uma estrutura mais convencional, ou se vão fazer um trabalho visto por um outro ângulo, mantendo a proposta do filme original.

domingo, fevereiro 10, 2008

AS MULHERES (The Women)



E continua minha peregrinação pelo cinema de George Cukor. Dessa vez, consegui por vias alternativas - já que não encontrei na locadora daqui - uma cópia de AS MULHERES (1939), um dos filmes mais importantes do diretor. Afinal, se Cukor é conhecido como o grande diretor de mulheres, um filme estrelado apenas por mulheres tinha que ser dirigido por ele mesmo. Segundo o IMDB, são 130 papéis femininos no filme inteiro. Até os animais mostrados no filme (cães e cavalos, por exemplo) são fêmeas. Nem mesmo vozes masculinas são ouvidas. Quando as personagens falam com seus maridos ou namorados pelo telefone, só ouvimos suas falas e expressões, seja de tristeza ou de alegria. O filme já começa com uma interessante apresentação das personagens principais, que são mostradas em comparação com bichos. Norma Shearer, a protagonista, é apresentada como um cervo, Joan Crawford, como uma onça, Rosalind Russell, como um gato, Mary Boland, como um macaquinho, Paulette Goddard, como uma raposa, Joan Fontaine, como uma ovelha. São comparações que tem tudo a ver com o papel que cada atriz recebeu no filme.

No início, AS MULHERES me incomodou. Afinal, o filme mostra o lado mais superficial do "sexo frágil", começando com um travelling de um grande salão de beleza freqüentado por dondocas da alta sociedade. E é a partir de uma fofoca de uma manicure que surge a principal trama do filme: o marido da personagem de Norma Shearer - que havia feito ROMEU E JULIETA (1936) - estaria tendo um caso com uma balconista de loja de perfumes - Joan Crawford, apresentada como a grande vilã do filme. Quando Norma descobre, sua mãe recomenda que ela releve, não brigue com o marido, que logo logo ele abandonaria a amante e voltaria para os braços da esposa fiel. Mas ela não se conforma, acreditando que as mulheres modernas daquela época não podiam mais admitir esse tipo de comportamento de seus maridos. E o divórcio acaba acontecendo. Mas até chegar ao divórcio, vemos as mulheres como verdadeiras bitches - não via algo parecido desde SHOWGIRLS, de Paul Verhoeven -, brigando por seus maridos e se mostrando fingidas em relação às amigas.

A partir da segunda metade, o filme vai deixando um pouco a comédia e ganha ares de melodrama, por isso fui gostando mais. Inclusive, Joan Fontaine tem uma cena particularmente emocionante no filme. No livro "Afinal, Quem Faz os Filmes", Cukor conta que sua performance na cena do telefonema, quando ela volta para o namorado, depois de ter anunciado que estava grávida, foi surpreendente para todos que estavam no set. E essa cena acabou por influenciar no fato de ela ter sido escolhida para estrelar, no ano seguinte, REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL, a estréia de Hitchcock em Hollywood.

AS MULHERES tem em seu elenco as principais estrelas da MGM. Faltou a Greta Garbo, mas vai ver Greta estava muito acima das demais para participar desse filme que tem um certo ar de vulgaridade que não combina com ela. Ainda assim, trata-se de um elenco notável. Outro grande destaque do filme é uma seqüência de cerca de dez minutos filmada em technicolor. É uma cena de um desfile de moda, onde as mais variadas cores aparecem como que para ilustrar a incrível eficiência daquele belo sistema de cores adotado na época. No mesmo ano, inclusive, Cukor iniciou a super-produção de David O. Selznick E O VENTO LEVOU (1939), mas não chegou a concluir o trabalho, tendo sido demitido. Mas foi ele quem preparou o terreno e o elenco para os vários diretores que passariam pelo filme. E antes de partir para outros filmes de Cukor, pretendo rever esse grande clássico e comentar por aqui. Só que vai levar mais um tempinho, já que também pretendo ver os principais documentários presentes nos extras da edição comemorativa.

Quanto ao filme em questão, AS MULHERES, podemos dizer que, do elenco principal, a atriz que teve uma carreira mais longeva foi mesmo Joan Crawford, que passou a receber quase sempre papéis de mulheres perversas, coisa que só se acentuou na época de sua "decadência", quando ela se tornou uma das grandes damas dos filmes de terror da década de 60. Quanto às outras, um ano depois, Rosalind Russell estrelaria JEJUM DE AMOR, do mestre Howard Hawks. Lembrando que em AS MULHERES, ela faz uma seqüência de briga com Paulette Goddard, com direito até a mordida de verdade na panturrilha. E Paulette ficou com as marcas dos dentes de Rosalind por alguns dias. Parece que havia muito conflito entre as atrizes e Cukor foi um gênio em ter conseguido domar, com sua delicadeza particular, todas aquelas estrelas que brigavam para brilhar mais que as outras. Lembrando que no ano seguinte, Paulette estaria em O GRANDE DITADOR, de Charles Chaplin. Quanto a Norma Shearer, ela se aposentou bem cedo, depois de ter feito apenas mais três filmes.

P.S.: Saiu uma nova edição da Revista Zingu! Que dessa vez conta com listas de melhores de 2007, tanto no cinema quanto em DVD. Eduardo Aguilar, no seu "Cantinho do Aguilar", também comenta os seus favoritos do ano que passou. E continua a matéria sobre as grandes musas do cinema produzido na Boca do Lixo. E falando em musa, Adilson Marcelino homenageia Zezé Macedo, que é mais lembrada hoje em dia pelo papel de Biscoito do programa do Chico Anísio.

sábado, fevereiro 09, 2008

SWEENEY TODD: O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street)



Precisei me preparar psicologicamente pra ver um filme cheio de cantorias dirigido por um cineasta cujos últimos trabalhos não me agradaram de verdade. O último filme de Tim Burton que eu realmente gostei foi PLANETA DOS MACACOS (2001) e lá se vão seis, sete anos. Mas voltando ao fator musical, acho que é necessário um preparo ou pelo menos uma informação da parte do espectador de que SWEENEY TODD: O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET (2007) é um musical, para que ele não se sinta enganado. E pelo que eu tenho notado, na forma como o filme anda sendo vendido, ninguém avisa no trailer, por exemplo, que os atores cantam em cerca de 90% do filme. Lembro de um colega de lista de discussão que contou que alugou desprevenido 8 MULHERES, de François Ozon, e, quando percebeu que se tratava de um musical, teve vontade de jogar o chinelo na televisão. Por outro lado, acho saudável filmes com propostas diferentes sendo exibidos no circuito comercial, ainda que seja normal ouvir da parte de alguns frases como "quero meu dinheiro de volta" - como eu ouvi hoje, ao sair da sessão de CLOVERFIELD, filme que deixarei pra comentar em outra ocasião. É bom saber que existe, vez ou outra, uma tentativa, mesmo dentro de Hollywood, de fugir do lugar comum, de tentar algo diferente.

E quem busca algo diferente pode até gostar do novo trabalho de Tim Burton, ainda que esse gostar seja de maneira mais racional do que emocional. Na verdade, desde 1994, quando o cineasta realizou ED WOOD, que Burton não pega a platéia pelo coração. Sua energia é levada mais para a direção de arte, para a fotografia, para a sua obsessão pelo estilo gótico. E para um universo fantasioso, bem longe do realismo. Ver um filme de Burton é entrar em outro universo, com tonalidades e cores diferentes das que a gente está familiarizado. Em SWEENEY TODD, ele se alia novamente ao seu parceiro Johnny Depp e a sua esposa Helena Bonham Carter para compor a estória do barbeiro que volta para se vingar de um homem que lhe tomou sua liberdade, sua mulher e sua filha. Esse homem é um juiz de direito, interpretado por Alan Rickman, um dos que menos cantam no filme. O filme foi baseado numa bem sucedida peça da Broadway, concebida por Stephen Sondheim e Hugh Wheeler. Quer dizer, dessa vez, Burton foi obrigado a abrir mão de sua parceria com o músico Danny Elfman.

Na trama, Depp retorna para Londres com um único objetivo: matar o homem que o encarceirou. Ao chegar na casa onde ele costumava morar com sua esposa e sua filhinha, ainda bebê, quinze anos atrás, ele vê que o lugar agora é habitado, no andar térreo, por uma padaria decadente e suja administrada apenas por uma mulher (Bonham Carter) e um monte de baratas, que ficam passeando pelas tortas que ela prepara. Sozinha no mundo, ela vê na figura daquele estranho um meio de arranjar um marido. Por isso, ela o apóia em seus planos de matar o juiz e ainda tem a idéia de rechear suas tortas com a carne das vítimas do barbeiro. Enquanto isso, o rapaz que chega a Londres no mesmo barco que o personagem de Depp, se apaixona por sua filha, agora uma adolescente bela e triste, que passa os dias trancada dentro de seu quarto, olhando o mundo pela janela, impossibilitada de sair. A intenção do juiz é desposar a garota, num ato quase incestuoso, sem falar no fato de que a menina o odeia.

Assim, a estória transcorre, de maneira até que bastante fluída, mas sem muitas emoções. Há quem se espante com as cenas da navalha cortando os pescoços das vítimas de Sweeney Todd e fazendo espirrar sangue pra todo lado, mas quem já está acostumado com filmes sangrentos vai encarar essas cenas com naturalidade. Ainda assim, fico imaginando o dia em que o filme passar na tv aberta, até porque seria praticamente inútil dublar as poucas partes faladas. Nesse sentido, SWEENEY TODD seria o OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR do cinema americano. O ideal seria que as canções fossem boas, como em alguns musicais de antigamente, mas infelizmente não é o caso das canções do filme, que somente servem como eixo narrativo para a trama. E é por causa da falta de grandes canções nessas peças musicais que esse gênero, provavelmente herdeiro da ópera italiana, ainda seja recebido com resistência pelas novas platéias - eu incluso. Enquanto as canções não emocionam, Burton nos entretém com sua paleta de cores e com uma imagem final que parece saída de uma pintura gótica.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

CÓDIGO DAS RUAS (Sucker Free City)



Ando bem relapso com a filmografia de Spike Lee, cineasta que já provou ser um dos gigantes do cinema americano, mas que ainda tem produções suas saindo direto em vídeo, caso de ELAS ME ODEIAM, MAS ME QUEREM (2004), que dizem não ser muito bom, mas que deve ser melhor do que muita coisa que é exibida na telona. CÓDIGO DAS RUAS (2004) é um caso especial, já que se trata mesmo de uma produção para a tv e o seu lugar é mesmo a tela pequena. Aliás, a aproximação do cineasta com a televisão tem sido uma constante, tanto em longas-metragens como UMA HISTÓRIA DE HUEY P. NEWTON (2001), na direção de um piloto de uma série (SHARK, 2006) e de mini-séries especiais como a recente WHEN THE LEVEES BROKE: A REQUIEM IN FOUR ACTS (2006), um documentário engajado sobre as vítimas do furacão Katrina em Nova Orleans, um tema por si só bombástico. Até já baixei esse documentário, mas estou esperando o momento certo pra assistir.

Sobre CÓDIGO DAS RUAS, dizem que o filme é um piloto que não deu certo. Quer dizer, que não convenceu os executivos de que poderia se transformar numa série de tv, embora o filme sozinho, em seus 113 minutos de duração, dê conta de muita coisa. Principalmente pra quem tem a pretenção de abordar três tipos diferentes de comunidade em três eixos narrativos distintos. O filme mostra os guetos de São Francisco, apresentados de maneira até bastante didática, com direito a utilização de um mapinha de localização nos espaços da cidade e um pequeno histórico de como os grupos de brancos, negros e chineses se encontraram e formaram essa panela de pressão, prestes a explodir. O primeiro bloco a ser mostrado é o dos negros, que acaba mesmo sendo o mais interessante dos três. A presença de César Charlone na fotografia denuncia uma influência clara de CIDADE DE DEUS. Quando o filme mostra as três comunidades em separado, percebe-se que há uma intenção de tornar os tons da fotografia diferentes para cada eixo narrativo, sendo a fotografia do bloco dos chineses muito parecida com a dos filmes produzidos em Hong Kong. Isso não chega a ser novidade - Steven Soderbergh fez isso em TRAFFIC e um outro cineasta já deve ter experimentado algo parecido anteriormente. Mesmo assim, não deixa de ser interessante ver essa mudança plástica sendo esquecida e/ou mesclada à medida que vamos nos aproximando dos personagens e de seus dramas.

Na trama, uma família branca, pressionada pelas dificuldades financeiras, é forçada a morar num bairro mais pobre, de maioria negra. Um grupo de negros não vê com bons olhos a vinda desses "branquelos" para o seu território. O pai de família branco (John Savage), um exemplo de compreensão, até entende o posicionamento deles, já que ele imagina que isso seria uma espécie de defesa de território. O problema é quando os negros começam a entrar na casa deles e roubar os eletrodomésticos e outros bens. Enquanto isso, um grupo de chineses ganha a vida vendendo discos piratas nas ruas. Quando os negros percebem que estão perdendo dinheiro com a pirataria, tendo o disco de um seus rappers sendo vendido bem mais barato nos camelôs chineses, um deles vê o negócio como uma maneira interessante de ganhar dinheiro de uma forma muito mais tranqüila do que ficar se matando no tráfico de drogas. É aí que entra o rapaz branco, com o seu lap top e que passa a piratear alguns discos às escondidas no próprio escritório onde trabalha.

O filme, além de nos mostrar um belo painel de uma sociedade em ebulição, tema chave do cinema de Lee, vide FAÇA A COISA CERTA (1989), também faz questão de mostrar como um negócio a briga por espaço entre essas três raças. O momento mais chocante, no entanto, tem a ver com a relação de uma criança negra com o grupo de traficantes e a maneira como essa criança é tratada lá pelo meio do filme. Um negócio que me deixou extremamente revoltado e querendo justiça. E é por causa de reações como essa que o filme de Spike Lee ganha muito mais pontos nas cenas protagonizadas pelos negros e perde um pouco nas cenas dos brancos e dos chineses, sendo, portanto, um pouco irregular. Ainda assim, há uma seqüência de morte no bloco chinês que deve deixar muito diretor oriental comendo poeira. CÓDIGO DAS RUAS foi produzido pelo canal Showtime e saiu em dvd no Brasil pela Flashstar.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

ONCE



Depois de tanta badalação e maravilhamento por parte de tanta gente que o viu, e depois da indicação de uma de suas canções ao Oscar, eu me rendi e vi ontem ONCE (2006). A primeira pessoa que eu vi falando do filme foi o Renato, em seu blog. No início, não me animei o suficiente para baixar o filme. Mas ainda assim, ele me enviou uma cópia em divx. Só que ainda não haviam saído as legendas na internet e eu fiquei esperando elas aparecerem. E quando elas apareceram, em português, inclusive nas canções, elas não sincronizaram. Aí tive que baixar outra versão do filme, que sincronizasse com as legendas. Mesmo assim, deixo meus agradecimentos antecipados ao amigão Renato pelo empurrãozinho.

ONCE, MY SASSY GIRL, ENCONTROS E DESENCONTROS. O que esses três filmes têm em comum? Talvez o fato de termos personagens que se amam mas que não têm uma aproximação física maior, ficando só na vontade. Isso, no cinema oriental, deve ser comum, mas no cinema ocidental é algo excepcional. Talvez isto seja reflexo do que vem acontecendo na realidade, uma necessidade de exprimir esse tipo de relacionamento, que pode ser considerado frustrado para alguns, mas muitas vezes uma relação dessas é mais importante do que aquele amasso que a gente dá em alguém cujo nome é esquecido depois de alguns dias. Mas antes de ser um romance - ou além de ser um romance -, ONCE é um musical. Talvez uma renovação do gênero musical. Quem gosta de folk rock, estilo Damien Rice, com certeza vai curtir o filme. Desse tipo de música que tanto privilegia o vocal e a instrumentação delicados, como também a vontade de gritar, de deixar explodir o sentimento sufocado, através da música.

ONCE é um filme que aborda o relacionamento entre um cantor de rua (Glen Hansard), que também trabalha como consertador de aspiradores de pó com o pai, e uma jovem tcheca (Markéta Irglová), que simpatiza e curte o trabalho do artista, que não canta na rua só pelos trocados que as pessoas depositam, mas para mostrar o seu talento e suas canções extremamente sentimentais e que, em geral, falam do fim de um relacionamento. A simpática jovem logo pergunta pra quem ele fez essa música. Ele tenta enganar, dizendo que pra ninguém, mas ela sabe que canções assim nascem da dor. Assim começa, com naturalidade, o relacionamento desse casal solitário. A necessidade humana de estar com alguém é tanta que a vontade de exprimir um agradecimento sincero pelo fato de a pessoa ter estado ali ao seu lado por alguns minutos ou algumas horas é explicitada numa cena, também muito natural.

Quanto às canções, a primeira a encantar a audiência é "Falling Slowly", tocada no violão e ao piano, com Markéta fazendo backing vocal, justamente a que foi indicada ao Oscar. Estou torcendo para haver a cerimônia esse ano mais pra poder ouvir e ver novamente os dois atores/cantores interpretando essa canção. Que surge como mágica e, nesse sentido, a relação de construção de canções no filme lembra um pouco o hollywoodiano LETRA E MÚSICA, com Hugh Grant e Drew Barrymore. Mas acho que a minha favorita é "If you want me", cantada apenas por ela, num plano seqüência belíssimo, com a atriz seguindo a grua e descobrindo a mágica de colocar uma letra sua numa música de outra pessoa. Sem falar que essa é a única canção do filme que tem um quê de trip hop, o que acabou atraindo mais a minha atenção.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

A SEREIA DO MISSISSIPI (La Sirène du Mississipi)



Fazia tempo que eu não via um filme de Truffaut. Desde o trauma do horrível A NOIVA ESTAVA DE PRETO (1968) que não peguei outro filme do diretor para ver. Aí resolvi arriscar e ver este A SEREIA DO MISSISSIPI (1969), que já havia baixado há um tempão. E que bela surpresa! Que filme lindo e encantador! Lendo depois a entrevista do diretor no livro "O Cinema Segundo François Truffaut" não acreditei que o filme foi tão criticado pelos próprios franceses e tão vaiado nos festivais. Alguns franceses criticaram o fato de Truffaut ter colocado no elenco dois medalhões do cinema francês: Catherine Deneuve e Jean-Paul Belmondo. Seria como se Truffaut estivesse se rendendo ao esquema hollywoodiano, tentando fazer um filme de grande apelo popular, bem comercial. No entanto, eu colocaria o filme numa posição bem privilegiada se fosse montar agora um ranking dos filmes do diretor. Outra coisa que parece ter acontecido na França foi que os espectadores acharam que o o diretor tinha a intenção de fazer uma paródia de um suspense americano, quando, na verdade, Truffaut quis passar sinceridade ao mostrar o amor de um homem puro (Belmondo) por uma mulher pouco confiável e com muita experiência de vida (Deneuve). E eu achei isso maravilhoso e comovente. Sem falar que o filme é também bastante eficiente no que se refere à construção do suspense, influência clara do mestre e amigo Alfred Hitchcock. Claro que não é nada que deixe as nossas mãos geladas, mas essa capacidade de criar suspense de gelar a espinha, da turma da Nouvelle Vague, acho que só Claude Chabrol é capaz de fazer.

A estória é conhecida de quem assistiu o fraco PECADO ORIGINAL (2001), mas da mesma maneira que o filme estrelado por Antonio Banderas e Angelina Jolie deve ser esquecido, o filme de Truffaut deve ser lembrado e louvado. Na trama, Belmondo é um rico comerciante de tabaco na ilha de Reunión - em vez de Nova Orleans, que é onde se passa a história no romance de William Irish. Reunión é uma das colônias francesas situadas no sul da África. E Belmondo espera a mulher com quem ele vai se casar, que está prestes a chegar de navio. Ele nunca a viu pessoalmente, tendo se correspondido com ela apenas por cartas. A mulher que chega (Deneuve) é bem diferente da foto que ele tinha em mãos. A desculpa da mulher é que ela não estava suficientemente à vontade para enviar uma fotografia de verdade dela e por isso enviou a de uma amiga. Ele também havia mentido, dizendo ser apenas um mero trabalhador numa fábrica de tabaco, quando na verdade ele era o próprio dono. Portanto, supostamente, os dois estariam quites. Depois da cerimônia de casamento, com a beleza e o carinho da mulher, o pobre homem se entrega fácil e logo está fazendo uma conta conjunta no banco e dando total liberdade para que ela movimentasse o quanto quisesse, tanto da conta pessoal quanto da conta da empresa. Quando ele descobre que a mulher não era a mesma com quem ele se correspondera e sim uma falsária, é tarde demais, seu saldo bancário estava quase esvaziado e ela havia fugido. Mas a estória estava apenas começando.

Da mesma forma que JOHNNY GUITAR, de Nicholas Ray - homenageado numa cena do filme -, seria, segundo Truffaut, um falso western, A SEREIA DO MISSISSIPI seria um falso thriller, revelando-se mais um filme de amor de Truffaut, que gosta de apresentar homens frágeis e mulheres fortes. Assim, Belmondo, que normalmente costumava fazer tipos durões e cafajestes, interpreta um sujeito puro, que mesmo tentando executar um ato extremo, que é o de matar a mulher que o enganou, não consegue. Em A SEREIA DO MISSISSIPI, Belmondo se transforma numa espécie de Jean-Pierre Léaud, com direito até a uma cena em que ele conversa com sua própria imagem no espelho, cena bastante familiar para quem viu os filmes do ciclo "Antoine Doinel". E assim como Belmondo não estava acostumado a fazer homens frágeis, Catherine Deneuve sempre interpretou mulheres suaves, mesmo já tendo feito papel de prostituta em A BELA DA TARDE, de Luis Buñuel. Apesar disso, os dois desempenham seus papéis com extrema competência. Durante as filmagens, Truffaut usou muito do improviso, não dando com antecedência o script para o elenco e deixando pra entregar tudo na hora das filmagens para que eles não tivessem que decorar as falas, mas pudessem improvisar em cima das situações apresentadas. Truffaut também filmou tudo na ordem cronológica dos acontecimentos e das locações.

O próximo Truffaut da fila pra mim é AS DUAS INGLESAS E O AMOR (1971), mas vou primeiro ver se consigo em dvd para locar, antes de apelar para a internet.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

HOUSE - PRIMEIRA TEMPORADA (House M.D. - Season One)



No começo achava HOUSE muito repetitivo. Mas depois eu vi que aquilo era uma estratégia para tornar o espectador familiarizado com a série, com a rotina daqueles médicos especializados em encontrar diagnósticos de doenças difíceis de diagnosticar. Assim, quando algo foge dessa rotina, a gente se sente um pouco abalado. E isso funciona, já que lá pelo final da temporada é que as coisas vão começando a ameaçar uma mudança e fatos importantes da vida dos personagens, especialmente do Dr. Gregory House (Hugh Laurie), o chefe da equipe, são revelados. Dr. House é uma pessoa sarcástica e fechada, que toma a todo instante pílulas para dor que ele sente numa perna. Ele anda sempre com uma bengala e é obcecado pelo seu trabalho, até porque ele não tem vida pessoal. Alguma coisa que aconteceu no passado fez com que ele se fechasse para os relacionamentos. Seu amigo mais próximo é o oncologista Dr. James Wilson. Que não faz parte da equipe de trabalho de House, mas que trabalha no mesmo hospital e sempre está ali para conversar com o amigo. O fato de o Dr. Wilson ser interpretado por Robert Sean Leonard faz com que eu simpatize ainda mais com o personagem, pelo fato de ele ter feito na juventude um dos papéis-chave de um dos meus filmes favoritos - SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS. Dentro da equipe de trabalho temos também um jovem australiano, Dr. Chase, um especialista em neurologia, Dr. Eric Foreman, e uma médica lindíssima, Dra. Allison Cameron (Jennifer Morrison).

Aos poucos, vamos nos acostumando à estrutura da série. Que sempre começa com uma cena fora do hospital, onde um futuro paciente se encontrará em dificuldades. O início, aliás, copia A SETE PALMOS, que sempre começava com a morte de uma pessoa. Mas HOUSE ainda tem a vantagem de mostrar esse prólogo antes dos créditos, o que dá ao espectador, ao ouvir aquela música-tema do Massive Attack, um sentimento de empolgação e de amor pela série que só tende a aumentar à medida que vemos mais episódios. Depois, acompanhamos o processo de descobrimento do mal do paciente. Como os casos encaminhados para eles são casos difíceis de diagnosticar, o trabalho deles é como de detetives, chegando até a procurar alguma coisa na casa do paciente ou no local do acidente que possa oferecer alguma pista para a solução do caso.

No começo, achava que a série não ia me fazer muito bem, já que sou um pouco hipocondríaco, tanto que comecei a ver a série bem devagar, mas depois, quando o drama dos personagens passa a ser mais importante que o drama dos pacientes, passei a ver os episódios com mais velocidade e mais voracidade. A primeira temporada (2004-2005) traz dois episódios dirigidos pelo Bryan Singer, que é o produtor executivo da série. Por isso eu costumo dizer que a melhor coisa que Singer já fez foi produzir essa série, não foi ter feito nenhum filme de super-herói ou qualquer outro. Até porque filme nenhum seria capaz de dar uma dimensão tão profunda a um personagem, no caso o Dr. House, principalmente por não ter o tempo de duração de uma série. E HOUSE é uma série de muitos episódios. A primeira temporada tem 22 e diria que todos os casos clínicos apresentados são bem interessantes. Claro que alguns casos se destacam mais. Eu diria que o caso apresentado no piloto é um dos melhores.

A série toma um outro rumo quando surge uma espécie de "vilão", interpretado por Chi McBride, que já fez o papel de um diretor de escola na série BOSTON PUBLIC. Em HOUSE, ele é o bilionário Edward Vogler, um sujeito que doou milhões para o hospital, sentindo-se, assim, dono do lugar. E ele não vai com a cara e com os métodos pouco ortodoxos do Dr. House. E por isso passa a atormentá-lo. Mas o que eu mais gostei mesmo foi do desenvolvimento da relação existente entre House e a adorável Cameron, que é tão linda e meiga que dá vontade de levar pra casa. Por isso, o episódio que mais me tocou foi "Role Model", no qual House tem que fazer um discurso de apresentação de uma medicação de Vogler se não quiser que um membro de sua equipe seja demitido. O final é de cortar o coração. Mas mais emoções estariam por vir, principalmente durante os três ótimos episódios finais. E acredito que a segunda temporada promete, já que um novo elemento estará presente para apimentar o caldo.

Agradecimentos ao amigo Zezão, que me emprestou a primeira temporada completa e que prometeu que vai emprestar a segunda também. :-)

domingo, fevereiro 03, 2008

BOÊMIO ENCANTADOR (Holiday)



"Um dos momentos inefavelmente mais felizes da minha vida foi a tarde de inverno em que assisti ao último filme que veria em 1955 (embora a película tivesse sido lançada em 1938, ano anterior ao do meu nascimento: Holiday (Boêmio encantador), com Katharine Hepburn, Cary Grant, Lew Ayres e Edward Everett Horton (para quem, no verão anterior, eu tinha trabalhado como auxiliar de figurino). (***) Ao voltar para casa a pé depois do filme, percorrendo as ruas escuras de Manhattan, sentia-me eufórico, mais contente do que podia me lembrar que jamais estivera, positivo a respeito das vastas possibilidades da vida. Ao longo da década seguinte, assisti a Holiday mais três vezes, todas com reações emocionais parecidas."

Esse é o depoimento introdutório de Peter Bogdanovich que antecede a entrevista que ele fez a George Cukor e que integra o livro "Afinal, Quem Faz os Filmes". O que mais me chamou a atenção nas palavras emocionadas de Bogdanovich foi a extrema semelhança com o que aconteceu comigo quando saí da sessão de HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO, de Rob Reiner, há cerca de dezessete anos, bastando trocar o título do filme, do elenco e do local pra eu assinar embaixo. Por isso fiquei tão animado pra ver BOÊMIO ENCANTADOR (1938). Queria sentir novamente aquela euforia. Mas embora o filme de Cukor não tenha causado a mesma resposta em mim - prefiro os trabalhos que Cary Grant fez para Howard Hawks e Leo McCarey na mesma época - trata-se, sem dúvida, de um belo filme. E que deve merecer mesmo o título de um dos melhores da filmografia de Cukor. Também não é pra menos: Cary Grant e Katharine Hepburn num mesmo filme já é praticamente garantia de sucesso. Mas essa não foi a primeira vez que os dois trabalharam juntos para Cukor: eles estiveram juntos em VIVENDO NA DÚVIDA (1935), mas dizem que o filme não é tão bom quanto esse de 1938, em que a parceria dos dois estaria mais azeitada.

Cary Grant interpreta Johnny Case, um rapaz alegre (não no sentido gay do termo, embora todos saibam que o ator era gay) que conhece durante uma viagem de férias Julia (Doris Nolan), uma moça que por acaso é filha de um milionário. Ao voltar das férias, ele chega eufórico para conhecer a casa da moça e fica admirado com tanto luxo. A casa é um palácio com vários andares e que tem até elevador. É lá que ele conhece a irmã de Julia, Linda (Katharine Hepburn), uma moça cheia de vida. A aproximação dos dois é imediata. E ele se sente melhor e mais à vontade com Linda do que com a própria noiva. Aliás, para conseguir a aprovação do pai de Julia para o casamento é uma novela, já que o velho queria para sua filha um homem de posses, um membro da alta sociedade, coisa que Johnny definitivamente não é. Pra completar, e como era de se esperar, Linda se apaixona por Johnny, mas quer rejeitar esse sentimento, com medo de machucar o coração de sua irmã. Uma das cenas mais bonitas do filme acontece numa festa na mansão, numa noite de ano novo, quando Johnny e Linda conversam à janela. Inclusive toca em seguida aquela triste canção tradicional americana de ano novo - que curiosamente também toca numa cena de HARRY E SALLY!

O final do filme, para os dias de hoje, quando estamos tão acostumados com o esquematismo das comédias românticas, pode não mais emocionar tanto quanto em alguns anos atrás, mas isso se deve ao fato de que a fórmula desse gênero foi criada (ou ao menos popularizada) por esses cineastas da década de 30 e continua funcionando até hoje. E não custa lembrar que a fabulosa química entre Kate Hepburn e Cary Grant já havia acontecido, no mesmo ano, elevada à enésima potência na comédia maluca LEVADA DA BRECA, uma obra-prima de arrancar gargalhadas, dirigida pelo nosso querido Howard Hawks. Mas é melhor eu não fazer nenhuma comparação entre os dois diretores e deixar esse espaço apenas para homenagear a beleza de BOÊMIO ENCANTADOR. Até porque o filme é também uma das melhores críticas à ganância do capitalismo que Hollywood já produziu.

sábado, fevereiro 02, 2008

VIAGEM A DARJEELING (The Darjeeling Limited)



O cinema de Wes Anderson não é pra todos os gostos. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, ele tem se tornado cada vez mais popular dentro de um certo círculo de cinéfilos. Meu favorito dele continua sendo OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (2001), filme síntese de sua curta mais importante filmografia e o filme que consegue conjugar beleza plástica com emoção em um conjunto de canções selecionadas de modo a tornar o filme em uma espécie de longo e sofisticado videoclipe. VIAGEM A DARJEELING (2007), talvez pelo fato de não ter Bill Murray como protagonista (ele só aparece rapidamente no início do filme), diminui um pouco o aspecto de estranheza tão comum em seus últimos trabalhos, já que Murray é que é campeão em fazer "cara de pedra". O filme também parece ser mais despretensioso que os anteriores, menos preocupado em tornar cada fotograma uma pintura, um quadro, embora haja vários momentos nos quais os personagens parecem posar para a câmera, como se tivessem consciência de que estão participando de um filme. Essa espécie de consciência faz lembrar, inclusive, os filmes do Godard. Quem procura um filme por causa da estória pode se decepcionar bastante com VIAGEM A DARJEELING. A estória é menos importante do que as imagens, tanto que essa despreocupação, essa falta de pressa em chegar a um ponto está presente desde o início do filme, já que até pessoas atrasadas correndo para pegar um trem em movimento são mostradas em câmera lenta! E isso tem tudo a ver com os indianos, em especial com o hinduísmo, com o fato de desencanar da vida terrena, afinal, quando morremos, iniciamos um novo processo de vida, através da reencarnação.

Assim, VIAGEM A DARJEELING é daqueles filmes pra se assistir bem relaxado, quem sabe até com um incenso queimando do lado. Boa parte do elenco, que se tornou quase uma família para o diretor, está quase todo lá: Owen Wilson, Jason Schwartzman, Angelica Huston, Bill Murray. O principal elemento novo da vez é Adrien Brody como um dos irmãos que aceita o convite de um deles (Wilson) e se junta ao outro (Schwartzman) para uma viagem espiritual até Darjeeling, na Índia. A intenção da viagem, segundo o personagem de Wilson, é torná-los novamente próximos, depois de um tempo distantes um do outro. Depois ficamos sabendo que a intenção da viagem é também rever a mãe, que se tornou uma freira na Índia e sequer foi para o enterro do pai dos rapazes. Brody parece ser o mais normal dos três, o personagem de Owen Wilson aparece com a cabeça toda enfaixada e é cheio de mistérios e Jason Schwartzman (ô nomezinho difícil de escrever) gosta de andar descalço e é bem ativo sexualmente, já que ele dá em cima da moça que atende nas cabines. Ou então, seria uma forma de compensar o trauma do fim de um relacionamento, que para entender melhor é preciso ver HOTEL CHEVALIER (2007), um curta-metragem que funciona como uma espécie de prólogo e que não foi exibido num dos cinemas de Fortaleza que exibiu o filme (Espaço Unibanco Dragão do Mar) e eu só conseguí ver através de download. Vale a espiada, não só pelo fato de trazer Natalie Portman nua, mas porque é um belo trabalho, que muitos dizem ser melhor que o longa. E talvez seja mesmo. Mas tanto o curta quanto o longa trazem belos travellings, belos enquadramentos, belas utilizações da câmera lenta e das cores.

HOTEL CHEVALIER, com seus 13 minutos de duração, nos apresenta um pouco mais à intimidade do personagem de Schwartzman, que recebe a visita em seu quarto de alguém que ele ama muito e que tem se distanciando dele. É uma pequena estória de um coração partido e uma despedida. Mas voltando a VIAGEM A DARJEELING, o filme bem que podia explorar mais a sujeira e a bagunça que é o país, mas como sujeira não faz parte do gosto estético de Anderson, o lugar é pintado com uma beleza multicolorida de encher os olhos. A trilha sonora, sempre muito boa no cinema de Anderson, traz canções de bandas inglesas dos anos 60 (a mais conhecida talvez seja "Play with Fire", dos Rolling Stones) misturadas com temas retirados de filmes indianos de cineastas como Satyajit Ray. O resultado ficou bonito. Mas fica aquela sensação de que podia ter sido melhor.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

A PELE (Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus)



Apesar de não viajar pra lugar nenhum nesse carnaval, estou bastante contente com o fato de ficar em casa e ir ao cinema (ou à praia) ocasionalmente nesses maravilhosos cinco dias de folga. Pena não ter entrado em cartaz aqui ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ. Mas eu preciso desses dias de folga pra me recompor. Essa vida de Jack Bauer, de ficar se virando em dois pra dar conta de tanto trabalho não pode fazer muito bem, embora a adrenalina e outras químicas que mexem com meu organismo façam com que eu me sinta mais vivo. Acho que me transformei num melhor professor dos cinco meses pra cá, por exemplo, e isso é algo a se comemorar. Talvez isso tenha sido desencadeado pela avalanche de mudanças que aconteceram nesse pouco espaço de tempo, a maioria delas ligadas ao aspecto profissional, mas também houve um certo tremor no terreno sentimental, embora agora eu tenha voltado à estaca zero. That's life. E nesse carnaval, vou tentar atualizar o blog diariamente e ir riscando da minha lista alguns títulos vistos, ao mesmo tempo que sei que terei mais tempo para aumentar ainda mais a lista. E como hoje estou cansado, falemos de um filme que eu não preciso me esforçar muito pra pensar, até porque é um filme relativamente fraco, apesar de ter os seus momentos e alguns aspectos positivos. A começar pela presença de Nicole Kidman.

Nota-se que a carreira de Nicole não foi mais a mesma desde a separação com Tom Cruise. Ela deve ter trocado de agente ou algo do tipo. Ou então quis seguir um caminho distinto de seu ex-marido, embora INVASORES tenha um clima parecido com o de GUERRA DOS MUNDOS. Ambos são refilmagens de filmes de ficção científica da década de 50. Mas de uma coisa não se pode reclamar dela: ao contrário de Tom Cruise, que com freqüência procura "portos seguros" na figura de grandes cineastas, ela opta com freqüência por cineastas independentes e por projetos arriscados que vez ou outra dão certo, caso de REENCARNAÇÃO, ou resultam numa porcaria, como foi o caso de A FEITICEIRA. Acredito que o aparentemente "independente" MARGOT AT THE WEDDING, de Noah Baumbach, por enquanto ainda inédito no Brasil, seja no mínimo um bom filme. E prefiro que ela se envolva nesses projetos arriscados do que parecendo pouco à vontade em produções insossas como A BÚSSOLA DE OURO.

Em A PELE (2006), dirigido pelo Steven Shainberg do ótimo SECRETÁRIA (2002), o resultado infelizmente não é satisfatório, como eu já havia dito - e como a crítica e o público em geral tendem a concordar. Shainberg tinha uma idéia excelente nas mãos e não soube torná-la tão atraente quanto parecia. A idéia era recriar a história de uma fotógrafa especializada em fotos de pessoas estranhas. Diane Arbus, se tivesse sido contemporânea de Tod Browning, quem sabe teria sido sua alma gêmea, tal o apego por pessoas esquisitas. Na internet é possível ver alguns trabalhos de Diane e é realmente muito interessante. Quanto ao filme, ele foca na suposta primeira figura estranha fotografada por ela: um homem com pêlos por todo o corpo e que se mostra para ela uma figura fascinante. No sentido de ter um caso de amor, mesmo. O tal "homem-lobisomem" é interpretado por Robert Downey Jr, que só se revela sem os pêlos lá pelo final, que é até bonito, na praia. Aliás, bom mesmo é o epílogo. E não estou falando isso apenas pela nudez envolvida, mas é que esse foi o único momento que eu queria que o filme continuasse. Ou que se tornasse, a partir daquele momento um outro filme. Mas melhor acabar por cima do que voltar à chatice que é o seu desenrolar. Outro destaque positivo do filme é a bela fotografia de Bill Pope, da trilogia MATRIX, que enfatiza os tons de marrom e bege. O marrom, combinando com a cor dos pêlos do personagem de Downey Jr.

Agradecimentos ao amigo Ricardo pela cópia.

P.S.: LOST is back!! Yes! E o primeiro episódio dessa nova temporada é duca!!!! Estou na torcida para que os próximos sigam com a mesma qualidade. Então teremos a melhor temporada da série!