sexta-feira, setembro 28, 2007

O VIGARISTA DO ANO (The Hoax)



O que mais me incomodou - ou me chamou a atenção - em O VIGARISTA DO ANO (2006) foi a coragem - ou a cara de pau - do protagonista de armar uma farsa tão fácil de ser descoberta. Não se trata aqui de roubar dinheiro na surdina e sair ileso, mas de forjar uma autobiografia de um homem muito famoso e ainda vivo (na época) como Howard Hughes para ganhar uma fortuna com os editores. Nesse sentido, o filme de Lasse Hallström, apesar de ser um pouco insosso como geralmente são os filmes do diretor, até que tem a sua força. Entre os pontos positivos, está a escolha do canastrão Richard Gere no papel do farsante escritor Clifford Irving, que para levantar sua carreira decadente finge que foi contratado pelo "aviador maluco" para escrever a sua biografia. Naquela época, Hughes já tinha se tornado um mito por sua história e sua misteriosa reclusão. O milionário não concedia entrevistas a nenhum jornal ou revista há muito tempo.

A história de Irving é tão incrível que a gente até duvida que um homem de verdade tenha mesmo conseguido ir tão longe numa farsa dessas. Não sei o quanto foi enfeitado para a realização do filme, mas acredito que boa parte do que é contado seja verdade. Muito do interesse do filme está na figura mítica de Hughes, que se tornou ainda mais popular às novas gerações graças a O AVIADOR, de Martin Scorsese. Com certeza, se O VIGARISTA DO ANO tivesse sido produzido antes do filme de Scorsese não teria tido metade da repercussão. Se bem que "repercussão" é força de expressão nesse caso, dado a trajetória discreta do filme nos cinemas.

Entre os personagens coadjuvantes, bom mesmo é ver Julie Delpy em trajes sensuais, no papel de Nina Van Pallandt, a amante de Irving. Quem é fã da atriz vai gostar. Fuçando sobre o filme no IMDB, fiquei surpreso ao saber que Richard Gere contracenou com a própria Nina Van Pallandt em GIGOLÔ AMERICANO (1980), de Paul Schrader. A história da farsa de Irving havia sido contada de maneira bem mais breve em VERDADES E MENTIRAS (1974), de Orson Welles.

P.S.: Chegou ontem o meu exemplar da Paisà! A surpresa foi ver a participação do nosso amigo Leandro Caraça no ensaio "Por dentro da Grindhouse". Ainda bem que chamaram a pessoa certa para escrever sobre o assunto. Outros destaques: entrevistas com João Batista de Andrade e Carlos Cortez, matéria sobre André Techiné com filmografia comentada, tops França 1982-2007, o centenário de John Wayne, entre outras coisas. Na seção de lançamentos em dvd, fiquei bastante interessado em O ÚLTIMO BRILHO DO CREPÚSCULO, do Robert Aldrich, lançado pela Ocean. Será que o dvd já apareceu no saldão das Americanas e a gente pode adquirí-lo por uma dez pilas, hein?

quinta-feira, setembro 27, 2007

SANEAMENTO BÁSICO, O FILME



Uma bela surpresa este SANEAMENTO BÁSICO, O FILME (2007). Não que eu duvidasse da capacidade de Jorge Furtado de fazer bons filmes. Não é isso. Acompanho o trabalho dele desde o curta ILHA DAS FLORES (1989) e curto muito os seus três primeiros filmes para cinema e o telefilme LUNA CALIENTE (1999). A surpresa que eu tive com esse novo trabalho foi mais relacionada ao andamento diferenciado, ao fato de Furtado não dispensar os tempos mortos e de fazer uma comédia sem a pressa habitual, o que pode até aborrecer o público mais impaciente, coisa que eu senti durante a sessão em que estive, com gente conversando durante o filme e reclamando no final. Ainda por cima, a última seqüência do filme é totalmente atípica, bem diferente do que se esperaria.

Talvez o principal ponto em comum entre esse novo trabalho de Furtado e sua "trilogia do amor e do dinheiro" - HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES (2002), O HOMEM QUE COPIAVA (2003) e MEU TIO MATOU UM CARA (2004) - seja justamente o dinheiro. O dinheiro é sempre uma necessidade básica para o bem estar social, para se sair de uma encrenca ou para a realização de um sonho. No caso de SANEAMENTO BÁSICO, O FILME, o dinheiro é necessário para a construção de uma fossa - ou um fosso, como prefere dizer o personagem de Lázaro Ramos. Mas para que essa fossa seja construída, é necessário primeiro produzir um filme. Mas por que isso? Por que a prefeitura de uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul não dispõe de verba para saneamento básico, mas há um dinheiro disponível para a realização de um filme. O jogo, então, é pegar esse dinheiro, fazer o filme e depois usar o restante para fazer a fossa - ou o fosso.

O filme traz momentos bem divertidos, principalmente quando os personagens de Wagner Moura e Fernanda Torres não sabem o que seria um filme de ficção. Ficção Científica? Tem que ter nave espacial ou monstro? Na dúvida, eles acabam fazendo mesmo um filme de monstro. O monstro da fossa. Confusões como essa tornam o filme bem engraçado e a luta deles para conseguir finalizar o filme dá uma idéia da dificuldade de se fazer cinema no Brasil e, principalmente, do quão dispendioso pode ser. Pra completar, SANEAMENTO BÁSICO, O FILME, ainda presenteia os marmanjos com uma pequena surpresa, cortesia da beleza e da gostosura de Camila Pitanga. Pra sair do cinema com um sorriso no rosto.

quarta-feira, setembro 26, 2007

TRÊS FIASCOS



Quando não se está com inspiração para escrever bons textos sobre bons filmes, nada como escrever textos rasteiros sobre filmes fracos. E por coincidência, acabei vendo, muito perto um do outro, três títulos que foram verdadeiros fiascos, levando-se em consideração o que se esperava dos diretores ou da fonte inspiradora.

O ÁLAMO (The Alamo)

Acabei vendo O ÁLAMO (1960) depois de ter sabido que John Ford dirigiu algumas cenas desse filme dirigido por John Wayne. Infelizmente, o filme foi uma decepção até para o próprio Wayne. Até porque deve ser algo muito cansativo ter que dirigir, produzir e ainda atuar num filme de ação. Não é pra todo mundo não. (E por isso devemos tirar o chapéu para gente como Kevin Costner e Mel Gibson.) O ÁLAMO foi o projeto dos sonhos de John Wayne, um fã assumido da heróica história dos homens que morreram defendo a liberdade no estado do Texas. Naquela época, o estado era um território pertencente ao México, mas que tencionava tornar-se independente. Acredito que se O ÁLAMO não fosse tão longo, até que seria um bom filme. Mas além da duração excessiva (quase três horas) ainda temos que aturar diálogos açucarados sobre heroísmo, bravura etc. Se fosse um John Ford, tenho certeza que esse patriotismo seria tratado de maneira menos superficial, mas infelizmente o Duke era bom mesmo era na frente das câmeras. No dvd da MGM, vem um documentário legendado em português sobre as filmagens, com duração de 40 minutos. Bom, o documentário.

PERGUNTE AO PÓ (Ask the Dust)

Quando PERGUNTE AO PÓ (2006) estreou nos cinemas brasileiros, eu, como ainda não tinha lido o romance de John Fante, resolvi só assistir a adaptação de Robert Towne depois da leitura. Terminei de ler o livro em julho e só agora aluguei o filme para assistir. Já estava esperando algo muito aquém da beleza do livro, mas não esperava que o resultado final tivesse sido tão ruim. Pra começar, Colin Farrell como o escritor em crise Arturo Bandini não foi uma escolha muito acertada e nem a narração em off ajuda a aproximar o filme do personagem. A melhor coisa acaba sendo as cenas em que Salma Hayek aparece, principalmente a cena da praia, que a mostra nua. A cena dos dois "pegando onda" é boa, dá um frio na barriga até, mas é uma exceção num filme morno. A seqüência do terremoto, como pareceu não ter nenhuma relação com o restante do filme, bem que poderia ter sido excluída. Enfim, pelo visto, a própria decisão de fazerem essa adaptação foi um erro.

OS MENSAGEIROS (The Messengers)

Depois de THE EYE - A HERANÇA (2002), VISÕES (2004) e ASSOMBRAÇÃO (2006), a impressão que se ficou do trabalho dos irmãos Pang foi a de cineastas com um especial cuidado com a imagem - a fotografia, a luz, a direção de arte. E isso era o mínimo que se esperava da estréia dos diretores gêmeos em Hollywood. Infelizmente, OS MENSAGEIROS (2007) só recicla os velhos sustos herdados do cinema oriental e não traz absolutamente nada de novo. Tudo bem que não é nem necessário uma estória muito boa para se fazer um filme bom, mas a falta de criatividade para se construir um bom roteiro é sentido do início ao fim nesse filme. Na trama, Kristen Stewart muda-se com seus pais (Dylan McDermott e Penelope Ann Miller) e seu irmãozinho pequeno para uma cidadezinha no interior. O que eles não sabiam é que a casa era mal assombrada. Mais feijão com arroz que isso não existe. Talvez o único momento de susto tenha sido a cena do close no rosto de Kristen, enquanto ela segura o seu irmãozinho que consegue olhar para o fantasma. E só.

P.S.: Depois de meses na geladeira, saiu a nova edição impressa da Paisà! Reparem na bela capa.

terça-feira, setembro 25, 2007

LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS (Knocked Up)



Não chega a ser a salvação da comédia americana como muitos andam dizendo, mas esse segundo longa-metragem de Judd Apatow me agradou bastante. Em LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS (2007), temos dois personagens totalmente diferentes unidos pelo acaso. De um lado, um sujeito gordo, preguiçoso, meio burro, maconheiro, desempregado e sem dinheiro, interpretado por Seth Rogen; de outro, temos Katherine Heigl no papel de uma loira bonita que trabalha como repórter no canal E! e que acabou de receber uma promoção no trabalho. Eles se conhecem numa danceteria, enchem a cabeça de álcool e acabam fazendo sexo. Com aquele negócio de "vai logo", ele acabou "indo" sem a camisinha mesmo, o que resultou numa gravidez inesperada.

A premissa me pareceu bastante simples e o filme não tem tantas situações engraçadas assim. O que acaba conquistando o espectador é a boa construção dos personagens principais, que se relacionam bem com o casal coadjuvante, vivido por Paul Rudd e Leslie Mann, esposa do diretor. As duas crianças do filme também são filhas de Apatow, o que só contribui para o clima "familia", confirmado nos créditos finais, com fotos de integrantes do elenco e da equipe de filmagens em momentos flagrantes da alegria familiar.

O filme também fornece reflexões sobre a atual sociedade que valoriza excessivamente a juventude e maltrata aqueles que já passaram dos trinta anos, como pode ser visto na cena em que as duas irmãs - Katherine Heigl e Leslie Mann - são barradas numa danceteria. Uma por ser "velha", outra por estar grávida. Diferente de O VIRGEM DE 40 ANOS (2005) que primava por cenas extremamente engraçadas, associadas a momentos constrangedores, LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS, por não ter muito desses dois elementos, acaba se tornando uma diversão ainda mais leve. Até porque, para o personagem de Seth Rogen, engravidar uma mulher tão adorável como a típica sagitariana do filme não é nenhuma tragédia. Muito pelo contrário. Além do mais, o filme não se restringe aos problemas iniciais da descoberta da criança que está chegando. Há também os problemas relacionados às relações sexuais durante a gravidez e às visitas aos obstetras.

A julgar pelo trailer, tudo indica que SUPERBAD - É HOJE, produzido por Apatow, escrito por Seth Rogen e com parte do elenco de apoio de LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS, é bem mais engraçado que o anterior, tendo alcançado também o topo das bilheterias americanas.

segunda-feira, setembro 24, 2007

BEM-VINDO A SÃO PAULO (Welcome to São Paulo)



Diferente de PARIS, TE AMO, que é um filme mais caprichado e com dinheiro envolvido, com segmentos de ficção e uma homenagem de fato à cidade em questão, BEM-VINDO A SÃO PAULO, o projeto idealizado por Leon Cakoff, tem mais a intenção de fazer uma reflexão crítica sobre a terceira maior cidade do mundo. Cakoff convidou diversos cineastas presentes em algumas das edições da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para apresentar a sua visão da metrópole de maneira rápida e barata. Alguns episódios resultaram um pouco desleixados, como se pudessem ter sido filmados por qualquer pessoa, como os de Philip Noyce e Mika Kaurismäki. Interessante como praticamente todos os episódios flagaram uma cidade feia e suja. Não que a cidade não seja, mas tenho certeza de que há muitas zonas bonitas em São Paulo. Provavelmente os cineastas se interessaram mais pelo aspecto "exótico" da cidade.

O segmento que eu mais gostei foi, de longe, "Aquário", de Tsai Ming-Liang, o único que apresentou uma característica forte da cidade, que é a chuva. Ming-Liang aponta sua câmera para um edifício decadente e vemos várias pessoas nas janelas de seus apartamentos. Ficou parecendo a visão de um presídio. O som da chuva, as pessoas com seus guarda-chuvas nas ruas, o céu cinzento, tudo é visto com uma certa poesia, ausente da maior parte dos outros segmentos. Falando em poesia, o grande homenageado do filme é Caetano Veloso, que, além de ser o narrador, tem a sua canção "Sampa" aparecendo em dois dos segmentos. Na primeira vez, vemos a letra da canção sendo recitada por Maria de Medeiros no segmento assinado por ela; e na segunda vez, no segmento de Wolfgang Becker.

Como a cultura nipônica é muito importante para a construção de São Paulo, ficamos sabendo um pouco sobre a chegada dos japoneses no início do século XX para trabalhar na cultura do café, substituindo a mão-de-obra escrava e, por isso mesmo tendo sofrido bastante no início. Em seu segmento, o diretor Kiju Yoshida nos apresenta uma entrevista de uma garçonete descente de japoneses. É o segmento que mais destoa dos demais, tanto pela duração, quanto pelo ritmo. Já a cultura negra é apresentada no fraco "Ensaio Geral", do palestino Hanna Elias.

O segmento "Esperança", de Ash, não diz muito a que veio. Aliás, até diz, mas me pareceu incompleto, como se fosse um trecho de uma reportagem televisiva ou um documentário interrompido. Em compensação, Daniela Thomas foi muito mais feliz, ao mostrar o Minhocão em diversos momentos do dia e da noite. Eu gosto muito de ver a câmera do ponto de vista de um motorista. Dá a sensação de que eu estou passeando. "Esperando Abbas" é outro episódio memorável. Dirigido por Cakoff e sua esposa, Renata de Almeida, o segmento emula e cita o cineasta iraniano Abbas Kiarostami, a quem o projeto é dedicado. Kiarostami, inclusive, deu sugestões a Cakoff no que diz respeito à ordem dos segmentos, que foi mudada no lançamento comercial.

P.S.: Gostei da iniciativa dos organizadores do Espaço Unibanco Dragão do Mar de trazerem para Fortaleza um projetor digital. Desse modo, Fortaleza entrou no circuito de exibição dos filmes digitais.

sábado, setembro 22, 2007

INSTINTO SECRETO (Mr. Brooks)



Interessante e estranho thriller com cara de filme direto para vídeo. Mas um bom filme direto para vídeo, vale ressaltar. A estranheza de INSTINTO SECRETO (2007) se deve principalmente à presença do personagem de William Hurt, que aparece como uma espécie de demônio interior e parceiro inseparável do assassino serial interpretado por Kevin Costner. Aliás, como é bom ver Costner fazendo papel de vilão! Costner é o Mr. Brooks do título original, um sujeito que para a sociedade é de conduta exemplar, empresário bem sucedido, bem casado e com uma filha fazendo faculdade. Mr. Brooks tem o costume de rezar, de pedir a Deus que o faça aceitar aquilo que não se pode mudar, o que talvez seja uma maneira de ele se sentir menos sujo, acreditando que seu vício seja algo impossível de ser eliminado. Completando o trio de protagonistas, temos Demi Moore como uma oficial de polícia em processo de divórcio e que conhece o modus operandi do serial killer, conhecido como o "assassino da digital", pelo fato de ele sempre deixar marcado em sangue a digital de uma das vítimas na cena do crime.

Mr. Brooks, depois de passar vários meses sem matar nenhuma vítima, é convencido por seu alter-ego malígno a executar um casal, no momento em que eles estão fazendo sexo. O problema é que ele esquece as janelas abertas e um sujeito que estava assistindo o casal transando o fotografa. O tal sujeito, que se auto-intitula Mr. Smith (Dane Cook), fica alucinado com a cena de assassinato que assistiu e quer se tornar um assassino também. Ele pede a Mr. Brooks que o ensine. E como se já não bastasse dois criminosos e um demônio num único filme, INSTINTO SECRETO ainda guarda mais um assassino na manga. Mas isso eu não vou contar para não estragar a surpresa.

Uma das minhas cenas preferidas do filme é o momento do tiroteio num hotel entre a personagem de Demi Moore e um casal de bandidos. Eu nunca ouvi sons de tiros num volume tão alto no cinema. Sem falar da boa dose de violência - o filme recebeu censura 18 anos. Quanto à Demi Moore, gosto de vê-la no cinema, não gosto quando ela fica sumida. Ela continua bela e sexy e funciona bem segurando um revólver. Claro que se a sua personagem fosse melhor desenvolvida, o filme teria resultado melhor, mas gostei do jeito que ficou. Pena que eu vi o filme com o coração pesado, devido aos incidentes descritos no post anterior. Mas de vez em quando eu conseguia abstrair e esquecer dos problemas. Mesmo assim, consegui perceber as boas qualidades desse segundo filme de Bruce A. Evans, diretor de KUFFS - UM TIRA POR ACASO (1992) e roteirista de STARMAN (1984) e CONTA COMIGO (1986). Ah, e para aqueles que sentem saudade da Michelle Desller, de 24 HORAS, Reiko Aylesworth está no filme.

quinta-feira, setembro 20, 2007

O SIGNO DO LEÃO (Le Signe du Lion)



Ontem uma bomba explodiu aqui na fundação onde eu trabalho. Sete pessoas iriam ser demitidas hoje. E eu meio que já me achava incluído na lista dos demitidos. Até fui ao cinema ainda ontem para tentar me distrair, mas de vez em quando eu pensava no que seria de mim e de meus colegas a partir de hoje. E a hora chegou. Não fiquei entre os demitidos, mas a expectativa de ser e de ver os meus amigos subindo para receber suas cartas de desligamento foi algo muito triste. Acho que desde a morte de um colega nosso, no ano passado, que o lugar não esteve tão triste. Interessante como a gente é dependente de um emprego para sobreviver, para vestir, para ter um lugar para dormir. Jesus disse: "Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles." No entanto, basta faltar dinheiro que a gente se transforma num mendigo, se isola da sociedade. E isso acontece com diversas pessoas que um dia tem casa, emprego, família e perdem tudo.

É disso que trata O SIGNO DO LEÃO (1959), o primeiro longa-metragem de Eric Rohmer. No filme, vemos a decadência financeira e moral de um homem, que se vê sozinho, sem emprego, sem dinheiro. No início do filme, vemos ele recebendo um telegrama informando do falecimento de sua tia rica. Como ele era pobre, tratou logo de chamar os amigos, prevendo receber milhões de francos de herança da velha. Assim, ele resolveu comemorar com os amigos. O problema é que ele não recebeu dinheiro nenhum, a sua tia preferiu dar tudo para o seu outro herdeiro, e ele desapareceu para não ter que pagar o dinheiro que devia para os amigos, passando a morar num hotel até ser posto para a rua.

Um dos momentos mais tristes é quando o protagonista pega uns trocados e sai para comprar um pão e uma lata de sardinha. Ele leva a comida para casa e acaba sujando a única calça que ele tem com o óleo da sardinha. Eu falando assim, até dá para pensar que o filme é um melodrama. Mas não é o caso. Como Rohmer é um cineasta especializado em comédias que têm a sua marca inconfundível, o filme tem uma certa leveza, apesar do tema difícil. É comum vermos os personagens de Rohmer andando pelas ruas, mas acho que nenhum outro personagem rohmeriano anda tanto quanto Pierre, o protagonista interpretado pelo americano Jess Hahn. Agora quem acaba roubando a cena sempre que aparece, mesmo sem dizer nada, é o jovem Jean-Luc Godard. Naquela época, os cineastas da Nouvelle Vague eram mais unidos, participando do filme dos colegas com mais freqüência.

quarta-feira, setembro 19, 2007

SANTIAGO



O novo documentário de João Moreira Salles me causou desconforto. Senti-me incomodado com a maneira rude do diretor de tratar o seu antigo mordomo, um homem gentil e cheio de cultura que fazia o possível para agradar o seu patrão. Também me incomodou a pretensão de algumas cenas, como a excessivamente prolongada cena da dança das mãos de Santiago, que considero desnecessária. Mas como SANTIAGO (2007) é um filme muito pessoal, não sei se tenho que achar alguma coisa. O que mais gostei no filme foi de algo não dirigido por João Moreira Salles: um trecho de A RODA DA FORTUNA (1953), de Vincent Minnelli. Uma cena que mostra Fred Astaire e Cyd Charisse passeando calmamente por uma vereda. De maneira ao mesmo tempo suave e abrupta eles começam a dançar, quase como se estivessem flutuando. Achei aquilo tão lindo que quis ter o filme comigo, comprar o dvd. Sem falar nas pernas de Cyd Charisse, uma das mais bem torneadas pernas de Hollywood, pernas de fazer marmanjos suspirar, pernas tocadas apenas pela saia que se mexe com os movimentos. A RODA DA FORTUNA era o filme favorito de Santiago. Está aí um homem de bom gosto.

Santiago me fez lembrar do Sr. José, o protagonista do romance "Todos os Nomes", de José Saramago. Tanto por sua solidão, quanto pelo seu hobby de colecionar coisas incomuns. No caso de Santiago, ele colecionava seus próprios textos. Em seu apartamento no Leblon, Santiago tinha cerca de 30 mil páginas escritas sobre 500 anos das vidas de nobres e reis de todo o mundo. Em seus textos, ele gostava de expor suas antipatias e simpatias com esses personagens. Ele acreditava que eles viviam ao seu lado, no apartamento. Por isso ele não se sentia tão só. Ele falou que gostaria de deixar esses escritos com alguém que se importasse com eles, que cuidasse deles. Santiago também se orgulhava de sua incrível capacidade de memorização, mesmo já estando na casa dos 80 anos de idade.

SANTIAGO não é (apenas) um filme sobre um mordomo de gostos e estilo incomum. É um filme sobre a relação de um documentarista rico com seu criado. Salles se expõe no filme, mostrando o quanto era grosso e antipático - pelo menos na época das filmagens, em 1992. O projeto foi abortado e deixado de lado e o resultado final foi algo bastante diferente do que se intencionava na época. Lá pelo final do filme, outro momento incômodo acontece, quando Salles interrompe Santiago no momento em que ele se dispõe a assumir na frente das câmeras a sua homossexualidade, começando a dizer que faz parte de uma linhagem de pessoas malditas etc. Eu até entendo a decisão de Salles, que deve ter tentado evitar certo constrangimento (dele mesmo) com a situação, mas, mesmo assim, não foi algo agradável de se ver. Também achei cansativo ouvir por muito tempo o argentino falando numa mistura de espanhol com português e nesse sentido era sempre um alívio quando ouvia a voz do narrador, na pessoa do irmão do diretor, Fernando Moreira Salles. Também fiquei com um pé atrás nas cenas em que ouvimos uma música suave, ao piano, como que se forçando a emoção, coisa que ele evitava em ENTREATOS (2004). Ainda assim, gostando ou não de SANTIAGO - não gostar é até difícil -, não há dúvida de que se trata de um filme especial.

terça-feira, setembro 18, 2007

TOP 20 ANOS 50



1. A PALAVRA, de Carl Theodor Dreyer
2. A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich
3. UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock
4. LUZES DA RIBALTA, de Charles Chaplin
5. ENSAIO DE UM CRIME, de Luis Buñuel



6. ONDE COMEÇA O INFERNO, de Howard Hawks
7. GLÓRIA FEITA DE SANGUE, de Stanley Kubrick
8. WINCHESTER 73, de Anthony Mann
9. MORANGOS SILVESTRES, de Ingmar Bergman
10. RASTROS DE ÓDIO, de John Ford



11. UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU, de Robert Bresson
12. TARDE DEMAIS PARA ESQUECER, de Leo McCarey
13. CREPÚSCULO DOS DEUSES, de Billy Wilder
14. ESTRANHO ENCONTRO, de Walter Hugo Khouri
15. ASSIM ESTAVA ESCRITO, de Vincent Minnelli



16. VAMPIROS DE ALMAS, de Don Siegel
17. SUBLIME OBSESSÃO, de Douglas Sirk
18. OTHELO, de Orson Welles
19. OS INCOMPREENDIDOS, de François Truffaut
20. AS FÉRIAS DO SR. HULOT, de Jacques Tati

Foi publicado hoje na página da Liga dos Blogues Cinematográficos - que agora está de casa nova - o ranking dos anos 50. Quem quiser saber qual foi o resultado final dos votos, é só dar uma passadinha lá e conferir. Os vinte primeiros filmes estão com textos curtos escritos pelos participantes e eu contribuí com um texto sobre A PALAVRA, que, como vocês podem ver acima, é o meu favorito da década. Eu vejo os anos 50 como a grande década do cinema. Senão, vejamos: nesssa época havia Hitchcock em seu auge, John Ford em seu auge, os westerns noir de Anthony Mann, havia Minelli, Sirk, Welles, Aldrich, Preminger, Nicholas Ray, Fritz Lang, Hawks, Billy Wilder, Leo McCarey. Havia jovens cineastas que fariam história, como François Truffaut, Stanley Kubrick e Alain Resnais. Na Itália havia Roberto Rossellini e Vittorio De Sica; na França, Jacques Tati e Robert Bresson; no Japão, Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu; no México, Luis Buñuel; na Suécia, Ingmar Bergman.

Os anos 50 também foram anos de definição para a sobrevivência do cinema, com a televisão entrando com força nos lares. Como reação a isso, na metade da década surgiu o cinemascope. Teve cineasta que chegou a dizer que o novo formato de tela só servia para mostrar cobras e funerais, mas hoje é um prazer ir ao cinema e ver um filme nesse formato. Quando bem utilizado, claro.

Da minha lista, A PALAVRA, o atestado de fé de Dreyer, ficou em primeiro lugar, mesmo eu tendo visto numa péssima cópia em dvd. Um dia ainda terei uma cópia de respeito do filme, para rever sem interrupções. Outro filme que eu vi recentemente e fiquei de boca aberta foi A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich. Sem esse filme, provavelmente não haveria o David Lynch que a gente conhece hoje. Alguns de meus cineastas favoritos surgem também com suas obras-primas: Luis Buñuel, Alfred Hitchcock, John Ford, Howard Hawks, Charles Chaplin. Falar rapidamente de cada uma das obras desses mestres não seria justo.

Como bom chorão que sou, destaco os filmes que me fizeram chorar: A PALAVRA, LUZES DA RIBALTA, SUBLIME OBSESSÃO e TARDE DEMAIS PARA ESQUECER. Teve aqueles que me deixaram indignado, como GLÓRIA FEITA DE SANGUE e OTHELO. E aqueles que impressionam por juntarem a falta de recursos com a extrema criatividade, como ENSAIO DE UM CRIME, VAMPIROS DE ALMAS e o brasileiro ESTRANHO ENCONTRO. Engraçado que nessa lista há poucas comédias. Apenas AS FÉRIAS DO SR. HULOT, de Jacques Tati. Mas isso não quer dizer que a década foi fraca no gênero. Pelo contrário, já que foi nessa época que as mais engraçadas comédias estreladas por Jerry Lewis surgiram, as melhores, dirigidas por Frank Tashlin. Mas como esses filmes, eu vi quando criança, preferi não confiar muito na memória. O ideal seria, então, revê-los.

Além de Tashlin, outros cineastas importantes do período que eu sou bastante devedor são Roberto Rossellini, Max Ophuls, Fritz Lang, Samuel Fuller e George Cukor - sobre esse último, prometo uma peregrinação pela sua obra em breve.

segunda-feira, setembro 17, 2007

QUERÔ



Um dos momentos mais tocantes de QUERÔ (2007), o premiado longa de estréia de Carlos Cortez, é aquele em que o protagonista, interpretado por Maxwell Nascimento, chora dentro de uma solitária da Febem, amaldiçoando a sua própria existência, falando com a sua mãe morta e perguntando o porquê de ela tê-lo colocado no mundo, só para sofrer. Mas esse é um dos poucos momentos em que o jovem Querô chora no filme. Em praticamente o filme inteiro, o coração do rapaz é consumido pelo ódio a todos.

O prólogo do filme nos apresenta à sua mãe, interpretada por Maria Luiza Mendonça. Ela é uma prostituta que é mandada embora de um prostíbulo assim que o seu filho nasce. Sem ter condições de criar o menino, ela o deixa numa porta e se suicida tomando querosene. É daí que nasce o apelido que o menino ganha. Ele cresce na rua, ganhando trocados de pequenos favores, como lavar um carro. Preso por tentar roubar, ele vai parar na Febem, o que só aumenta o ódio que ele tem pela humanidade, principalmente depois que ele é estuprado logo na noite de estréia na instituição. O filme passa voando, são 90 minutos que parecem uma hora, o que eu vejo como um aspecto positivo para o filme.

Tem-se comparado QUERÔ a PIXOTE: A LEI DO MAIS FRACO, de Hector Babenco, mas na verdade o filme é a segunda versão do livro de Plínio Marcos, que já foi levado às telas pela primeira vez com o nome BARRA PESADA (1977), dirigido por Reginaldo Faria. Nessa versão, Querô é interpretado por Stepan Nercessian. Mas por mais que o filme de Reginaldo Faria seja bom - eu não cheguei a ver ainda - chamar uma criança da favela para interpretar o menor abandonado dá mais credibilidade à obra. E por isso o filme de Carlos Cortez ganha pontos a seu favor. Só espero que Maxwell Nascimento tenha mais sorte que Fernando Ramos da Silva, o Pixote, teve.

Entre os outros nomes conhecidos do elenco, destaca-se o meu xará Aílton Graça e a magricela Silvia Lourenço, que eu confesso não ter reconhecido no filme. Engraçado que em CONTRA TODOS, ela estava bonita e sexy, mas apareceu magra e esquelética em O CHEIRO DO RALO. Não sei o que se passa com essa menina.

domingo, setembro 16, 2007

A GIRL IN EVERY PORT



Sempre fiquei fascinado pela beleza de Louise Brooks. Quando a vi nua, num ensaio que achei por acaso na internet, fiquei ainda mais abobalhado. Mas nunca vi sequer um dos filmes estrelados pela lendária atriz. Nem mesmo o seu filme mais insensado: A CAIXA DE PANDORA (1929), de G.W.Pabst. Acabei vendo A GIRL IN EVERY PORT (1928) mais por ser dirigido por Howard Hawks do que por tê-la no elenco. Nem sabia que ela estava no filme e fiquei feliz quando vi seu nome nos créditos. Ela é a razão de ser desse filme de Hawks. Sem ela, o filme enfraqueceria, valeria mais para quem quer conhecer melhor a obra de Hawks, cujo estilo, na época, ainda estava em formação.

Talvez o filme de Hawks que tenha uma maior ligação com A GIRL IN EVERY PORT seja o drama de guerra CAMINHO DA GLÓRIA (1936), que também trata de um triângulo amoroso entre dois homens e uma mulher. A GIRL IN EVERY PORT mostra dois marinheiros cuja maior diversão é namorar diversas mulheres que eles conhecem em cidades portuárias mundo afora. Inclusive, uma das cidades mostradas no filme é o Rio de Janeiro, que pra variar é visto mais como uma cidade mexicana de faroeste. Até o nome da rua é escrito em espanhol! Mas como a gente já está acostumado a ver americano dizer que a capital do Brasil é Buenos Aires, melhor deixar pra lá.

Na trama, um dos homens fica bastante chateado ao ver que toda mulher que ele tenta pegar, já tem a marca de outro homem. Sempre o desenho de um coração flechado. Um dia ele conhece esse sujeito que anda pegando as suas mulheres. Só que eles acabam ficando amigos. A virada da estória ocorre com a entrada em cena de Louise Brooks, por quem um deles fica logo apaixonado e pronto para vender todas as suas posses para viver com a mulher numa fazenda no interior. O que eu achei bastante razoável, levando-se em consideração a moça em questão. Inclusive, eu meio que duvido que uma amizade consiga resistir a uma mulher daquelas. Mas como o filme trata de valorizar mais a amizade masculina do que o amor romântico, os dois amigos acabam ficando juntos no final, o que até daria pano pra manga para alguém dizer que o filme tem uma temática gay ou algo parecido. Mas não acho que seja o caso.

sábado, setembro 15, 2007

POR TODA A MINHA VIDA - RENATO RUSSO



Tenho muita saudade do Renato Russo. Acho que nunca nascerá outro artista que fale tão profundamente à juventude de um país. Quando ele morreu, em outubro de 1996, o meu pai havia morrido há poucos meses. E o disco que eu mais ouvia nesse período entre mortes era "A Tempestade", o testamento da Legião Urbana. Não era bem um disco pra se ouvir e ficar bem de vida, mas eu tenho mesmo uma atração pelo mórbido que me persegue desde a infância. No dia que ele morreu, fiquei muito triste, obviamente, mas a ficha só caiu no dia seguinte, quando botei novamente "A Tempestade" para tocar. Ao ouvir a faixa "Música Ambiente", lágrimas rolaram quando eu ouvi os versos "Se um dia fores embora, te amarei bem mais do que esta hora..." E ainda pranteei durante vários dias, ouvindo as canções desse disco quase que diariamente. Eu finalmente entendia o que ele queria dizer com "a febre que não passa", com "doenças incuráveis", com "a paixão já passou em minha vida". Inclusive, para um ariano, dizer que a paixão já passou em sua vida só pode ser mesmo um atestado de morte iminente, já que áries, o signo de fogo por excelência, não pode viver sem paixão. Lembrando que o lado dramático, excessivamente emocional de Renato, também se devia ao seu ascendente em Peixes. Ele costumava dizer em algumas entrevistas que o seu fim talvez fosse parecido com o de Kurt Cobain, outro pisciano depressivo. Aliás, o lado "messiânico" do signo de peixes aparece no disco, quando, ao final de "Aloha", Renato canta: "que se faça o sacrifício e cresçam logo as crianças".

O programa POR TODA A MINHA VIDA - RENATO RUSSO, exibido na última sexta-feira pela Rede Globo em homenagem ao cantor e compositor, apesar de ter os seus problemas ligados à dramatização - não gostei muito do ator que interpreta o Renato - me deixou emocionado. Sou fã da Legião Urbana desde o final dos anos 80 e a minha paixão pela banda não se dissipou e de vez em quando é renovada. O programa tem uma estrutura bem organizada, dividido nas quatro estações do ano. O capítulo "Primavera" mostra a infância de Renato Manfrendini Jr. Comovente ver a mãe de Renato falando sobre o filho e os seus olhos brilhando. Não sabia - ou não me lembrava - do seu problema de saúde durante a adolescência, que fez com que ele tivesse que viver um bom tempo de cadeira de rodas e amuletas. A vantagem desse período, como sua própria mãe disse, foi que foi uma fase extremamente proveitosa para Renato, bastante produtiva no que se refere aos estudos, ao fato de ele ler muitos livros e ouvir muitos discos. Esse período de reclusão de Renato foi responsável para a formação de sua personalidade e para o seu maior enriquecimento espiritual. Lembrei de John Ford e Frida Kahlo, que passaram por situações dolorosas desse tipo e se tornaram grandes artistas.

O ator que interpreta Renato no programa chama-se Bruce Gomlevsky. Achei meio estranho vê-lo nas cenas de dramatização e não gostava quando ele cantava. Mas como não existe nenhum registro de vídeo do Renato cantando "A Via Láctea" (se existe, desconheço), então até que foi válida a dramatização. O ator é o mesmo que interpretou o músico na peça "Renato Russo - A Peça". Alguns dos momentos mais bonitos do programa lidam com a relação de Renato com sua mãe, como na cena em que ele passa os cuidados de seu filho para ela ou quando ele se revela homossexual. Outro ponto positivo do programa está no fato de não esconderem o quanto Renato era uma pessoa difícil de se relacionar, principalmente na fase em que o alcoolismo o consumia. Não há a intenção de transformar Renato Russo num santo ou algo parecido. Muitas da suas falhas são mostradas.

No mais, quando o programa termina, somos lembrados mais uma vez do grande artista que perdemos. Lembro que quando eu comprei o disco "o descobrimento do brasil", ao ouvir canções como "Vinte e Nove" e "Vamos Fazer um Filme" ou "Só Por Hoje", eu tive a certeza de que ele nunca faria um disco ruim em toda sua carreira. E se por acaso ele não estivesse com inspiração para compor, com certeza, um disco de covers como as constantes no maravilhoso "Stonewall Celebration Concert" seria um presente e tanto para os fãs. Infelizmente, "os bons morrem antes".

P.S.: Imperdível a apresentação da Legião Urbana no programa Chico e Caetano. Tanto pela apresentação meio enrolada do Caetano quanto pela dança do Renato :)

sexta-feira, setembro 14, 2007

MARCHA DE HERÓIS (The Horse Soldiers)



Mais um John Ford dos bons. Mas também um Ford considerado complicado. MARCHA DOS HERÓIS (1959) é um filme amaldiçoado em diversos aspectos. A começar pela morte acidental de um dos dublês favoritos do diretor, que caiu do cavalo numa seqüência agitada. Ford ficou tão devastado com o ocorrido que abandonou as filmagens em Louisiana e o filme foi completado depois na California. Ford também não se deu muito bem com William Holden, o que acabou deixando as filmagens um pouco complicadas. MARCHA DE HERÓIS marcou também o primeiro grande acordo de astros de Hollywood. Além de receberem uma quantia bastante generosa, John Wayne e William Holden ainda fizeram uma negociação para receber um percentual de 20% dos lucros. O problema é que o filme foi um fracasso retumbante nas bilheterias e não houve lucro algum para os dois.

Apesar dos pesares, MARCHA DE HERÓIS é ótimo. Trata-se do único fime de Ford que aborda diretamente a Guerra Civil americana. E, diferente dos filmes de guerra do diretor, que acabam sendo excessivamente patrióticos e que valorizam demais o sacrifício, MARCHA DE HERÓIS tem algo de amargo em relação à guerra que dividiu os Estados Unidos e que trouxe a morte de muitos inocentes. E como o filme se passa quase que inteiramente no Sul, é possível ver um pouco dos efeitos da guerra na vida daquelas pessoas menos favorecidas. O título brasileiro, inclusive, soa até um pouco irônico, já que, do ponto de vista dos sulistas, os ianques são mais vistos como homens perversos, como invasores, do que propriamente como heróis.

Na trama, John Wayne é um Coronel da União que é enviado ao sul para destruir uma ferrovia, de maneira que os Confederados da região ficassem impossibilitados de se movimentar. O coronel é um sujeito que não gosta muito de médicos - lá pelo final do filme ficamos sabendo porquê - mas tem que aturar a presença de um major médico, interpretado pelo William Holden. A relação dos dois é um pouco conflituosa. O caldo engrossa com a presença da personagem de Constance Towers, atriz conhecida dos filmes de Samuel Fuller, uma sulista que tem sua casa invadida pelos ianques e que é levada prisioneira por eles por razões de segurança.

Há momentos tão tipicamente fordianos que a sensação de familiaridade me fazia sorrir. Tem a relação de Wayne com Constance e a dolorosa cena da amputação de uma perna, que remete a tantos outros filmes do diretor, mas há também a beleza das imagens, da paisagem que passeia pela tela como uma pintura. Gosto da cena em que John Wayne é visto por detrás da vegetação. Há outra cena que remete ao final de RASTROS DE ÓDIO (1956), com a câmera visualizando a paisagem através de uma porta. Muito bonito.

Estou tentando baixar um dvd de AUDAZES E MALDITOS (1960), mas deve demorar de uma a duas semanas para acabar. Como nunca baixei um dvd completo, não sei se vai dar certo. Espero que dê.

quinta-feira, setembro 13, 2007

ENTOURAGE - A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Entourage - The Complete Fourth Season)



Foram quatro temporadas que eu vi num intervalo de quatro meses. Vou sentir falta das aventuras de Vince, E., Drama, Turtle e Ari, que só voltarão em 2008. A quarta temporada de ENTOURAGE (2007) pode até não ter sido tão boa quanto as duas anteriores, mas continuou sendo um prazer pra mim ver cada episódio. Agora é preciso que o rumo da vida dos cinco seja mudado para que a série ganhe novo fôlego na próxima temporada, já que essa quarta já apresentava sinais de repetição. O que deve acontecer - e eu torço para isso - é a saída de cena do chato do Billy Walsh, o diretor de "Medellin", que se firmou como o principal coadjuvante dessa temporada.

A quarta temporada começou de maneira bem diferente. O episódio "Welcome to the Jungle" é um falso documentário sobre as filmagens de "Medellin" em Bogotá, na Colômbia. Achei o episódio bem interessante para fugir da rotina, embora, claro, prefira o estilo narrativo tradicional da série. Senti falta nessa temporada de Sloan, a namorada de E. na temporada passada, e que só aparece uma única vez na quarta. Mas até que foi bom ver os quatro rapazes solteiros e prontos para novas aventuras, aproveitando as belas mulheres que cruzam com facilidade as suas vidas. O próprio E. acaba esbarrando com a Anna Farris, quando ela bate na traseira do seu carro usando apenas uma toalha!

Quem tem recebido pouco destaque da turma é o Turtle, que não tem feito nada a não ser fumar maconha e ser o motorista do Vince. Quanto ao Drama, legal ver a popularidade dele em Cannes, no divertidíssimo último episódio. O romance dele com a francesinha chega a ser quase comovente. Inclusive, a moça lembra um pouco a Julie Delpy nos filmes do Linklater. Já a esposa do Ari ganhou nome nos créditos iniciais e uma maior participação nos episódios. Interessante a série mostrar o quanto é fácil se perder dinheiro naquele mundo milionário de Hollywood.

Tomara que na quinta temporada, Billy Walsh saia definitivamente de cena e que apareça outro diretor importante como James Cameron para reerguer a carreira de Vincent Chase. Ou então mostrá-lo passando por dificuldades financeiras, pra variar. Além da Anna Faris, as outras participações especiais nessa temporada foram: Stephen Gagham, Dennis Hopper, M. Night Shyamalan, Snoop Dogg, Gary Busey, Peter Jackson e Sydney Pollack. A cena da aparição do Shyamalan foi bem legal, lembrando SINAIS.

quarta-feira, setembro 12, 2007

TRÊS ANIMAÇÕES



Ultimamente não tenho curtido ver muito desenho animado. Geralmente fico com sono. Quem sabe pegando um dos animes do Miyazaki a coisa muda de figura. Abaixo, três animações totalmente distintas na forma e no conteúdo em textos "vapt-vupt".

APPLESEED (Appurushîdo)

Se é revolucionário na técnica e na beleza gráfica, APPLESEED (2004) não tem as mesmas qualidades na condução da estória, que é até interessante, tinha potencial para um filme melhor. A trama se passa no futuro, depois da terceira guerra mundial, quando uma jovem guerreira conhece uma cidade utópica chamada Olympos, onde os humanos convivem com clones construídos a partir da elite da humanidade. A principal diferença entre os clones - chamados de bioloids - e os humanos é que os bioloids não tem sentimentos. A moça guerreira é convidada a fazer parte da força tarefa da cidade, lutando ao lado do ex-namorado, um rapaz que perdeu o corpo numa batalha e se transformou num robô com orelhas de coelho. A animação de Shinji Aramaki é de dar gosto, trazendo uma bela mistura de animação tradicional com computação gráfica. Mas não adianta ser bonito e não ter uma estória e personagens que nos envolvam. Agradecimentos ao Marcelo Reis pela cópia.

RATATOUILLE

Visto em Natal, na companhia do amigo Marcos Felipe, RATATOUILLE (2007) me deixou até hoje sem entender o seu significado oculto. Fiquei sem ter entender direito o que o filme quis dizer e por isso que demorei tanto a escrever a respeito dele aqui no blog. Não acredito que imaginar um ratinho que se torna chefe de cozinha seja uma idéia que tenha surgido do nada. Existem várias teorias a respeito do filme, mas como eu não cheguei a um consenso com nenhuma delas, fico calado. O importante é que o filme tem essa abertura para várias interpretações, como uma fábula. No que se refere às qualidades técnicas da animação, o filme foi mais um passo a frente na carreira de Brad Bird, embora o meu favorito dele continue sendo O GIGANTE DE FERRO (1999). A minha cena favorita de RATATOUILLE é aquela em que o ratinho e seus companheiros são arrastados por uma "enchente". A seqüência é tão bem feita que eu fiquei de boca aberta.

OS SIMPSONS - O FILME (The Simpsons Movie)

Fiquei um pouco decepcionado com OS SIMPSONS - O FILME (2007). No fim das contas, o filme é apenas uma versão estendida de um episódio da tv. E como eu não sou tão fã assim da criação de Matt Groening - muito raramente vejo um episódio na televisão -, acabei vendo o filme com certa frieza. Senti-me um chato no cinema. Mas claro que eu gostei de muita coisa do filme - as piadas do porco são ótimas, "Harry Porco" é genial -, e nem fiquei tão incomodado com o novo dublador do Homer. A estória é boa, valoriza muito a família e pouco os demais habitantes de Springfield, e tem cenas memoráveis. A cena do Bart andando nu de skate é uma delas. Agora eu tenho impressão de que essa seqüência deve ter surgido de alguma fantasia erótica saída da mente de um dos roteiristas.

terça-feira, setembro 11, 2007

O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man)



Entre os mais conhecidos FRANKENSTEIN (1931) e A NOIVA DE FRANKENSTEIN (1935), James Whale filmou essa adaptação da obra de H.G.Wells. O HOMEM INVISÍVEL (1933) é uma obra revolucionária no quesito 'efeitos especiais', introduzindo técnicas de ilusão da invisibilidade que ainda hoje impressionam. O começo do filme é de uma beleza admirável, com o protagonista atravessando uma nevasca com uma pesada roupa de frio, com o rosto todo enfaixado e com óculos escuros. O personagem de Claude Rains adentra uma taberna à procura de um lugar para dormir. A fotografia de Arthur Edeson impressiona não apenas pelo belo preto e branco - ele é o diretor de fotografia de CASABLANCA e O FALCÃO MALTÊS -, mas também pela eficiência em disfarçar os enxertos dos efeitos visuais de modo que não destoe do tom geral da imagem.

Quanto ao aspecto narrativo, o filme cai um pouco no final, com as tentativas da polícia de capturar o Homem Invisível. Pra mim, o último grande momento do filme é a cena em que o perverso Jack Griffin, o Homem Invisível, assassina o seu rival com requintes de crueldade numa cena em que um carro é jogado ladeira abaixo. A cena ficou tão boa que foi reaproveitada em outros filmes da Universal. Gosto bastante também da única cena em que Griffin encontra-se com sua namorada, interpretada pela Gloria Stuart. Interessante que eu vi recentemente a Gloria em O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES, do John Ford, e fiquei também admirado com sua beleza e candura. No entanto, a alma do filme é mesmo Claude Rains, que ficou mais conhecido por seu papel em CASABLANCA, mas se não fosse por O HOMEM INVÍSIVEL ele não teria se tornado um ator premiado. No filme de James Whale, o ator teve que se virar apenas com a sua voz marcante e exageradas expressões corporais que funcionaram perfeitamente para o papel.

Se A MÚMIA tinha uma estrutura similar a DRÁCULA, O HOMEM INVISÍVEL guarda similaridades com FRANKENSTEIN. E o documentário presente no dvd faz essa correlação entre os dois filmes. Ambos lidam com cientistas loucos, suas noivas preocupadas e o amigo interessado na mulher. O documentário de cerca de 40 minutos é mais sobre a carreira de James Whale do que propriamente sobre o filme em si e há trechos de DEUSES E MONSTROS, de Bill Condon, em vários momentos. Só não sei se cabe o documentário mostrar declarações de Ian McKellen, como se ele fosse algum especialista em Whale. Bom, talvez ele seja.

Assim como aconteceu com A MÚMIA e FRANKENSTEIN, O HOMEM INVISÍVEL também se transformou numa lucrativa franquia para a Universal. Interessante que quem interpretou o Homem Invísivel no filme seguinte foi um jovem Vincent Price. As seqüências se chamaram: THE INVISIBLE MAN RETURNS (1940), THE INVISIBLE WOMAN (1940), INVISIBLE AGENT (1942) e THE INVISIBLE MAN'S REVENGE (1944). Dizem que o sucesso desses filmes se deve ao fato de que eles lidam com a nudez, o que acaba sempre aguçando as fantasias da audiência. Não por acaso, obras mais recentes como O HOMEM SEM SOMBRA, de Paul Verhoeven, e a graphic novel "As aventuras da Liga Extraordinária", de Alan Moore e Kevin O'Neill, associam a invisibilidade com a sexualidade.

segunda-feira, setembro 10, 2007

AMANTES CONSTANTES (Les Amants Réguliers)



A única cópia brasileira de AMANTES CONSTANTES (2005) demorou tanto a aportar em Fortaleza que chegou toda arranhada. Principalmente durante os primeiros minutos. Legal que ficou parecendo uma cópia bem antiga, dos anos 60. E foi uma sessão marcante pra mim, principalmente no quesito "resistência". Várias pessoas não resistiram ao filme e saíram com pouco mais de uma hora de duração. Até mesmo um sujeito que eu sempre vejo nas sessões de arte saiu com uma hora e meia de duração do filme. Com uma hora de filme, eu olhei para o relógio e pensei: caramba!, ainda faltam duas horas! Mas resisti bravamente, corajosamente, como os jovens parisienses que enfrentaram a polícia em maio de 68. Eu só comecei a curtir de verdade o filme quando já tinham passado mais de duas horas de projeção e já havia sublimado as dores do corpo. Até porque o fato de o último terço do filme enfatizar mais a relação entre o casal François (Louis Garrel) e Lilie (a bela Clotilde Hesme) ajuda a aumentar o interesse.

AMANTES CONSTANTES foi o primeiro trabalho de Philippe Garrel a ser lançado comercialmente no Brasil. Alguns dizem que o filme é a resposta de Garrel aOS SONHADORES, de Bernardo Bertolucci, mas a impressão que eu tenho é que não existe de fato uma rivalidade entre os dois cineastas, tanto que o italiano é homenageado respeitosamente no filme de Garrel, na cena em que Clotilde Hesme cita, olhando para a câmera, ANTES DA REVOLUÇÃO, do Bertolucci. Sem falar que o filho do diretor, Louis Garrel, é protagonista de ambos os filmes. Eu até tendo a gostar mais do filme de Bertolucci, já que ele dá uma maior importância ao cinema como estopim da revolução, com a demissão de Henry Langlois da direção da Cinemateca Francesa sendo motivo de revolta para a juventude sair às ruas e ir à luta.

O filme de Garrel tem um aspecto documental, principalmente em sua primeira parte, que enfatiza a luta dos estudantes nas ruas. Essas cenas são mostradas sem a mínima pressa e de um ângulo muitas vezes incômodo para o espectador. As repetidas cenas dos jovens fumando haxixe também contribuiem para o cansaço. Trata-se, enfim, de um filme difícil, mesmo para quem já teve contato com os filmes de Godard. Muitos na sala reclamavam das legendas que desapareciam no fundo branco da fotografia em preto e branco de alto contraste. Mas, ao contrário do que eu temia, AMANTES CONSTANTES não é um filme que dá sono. Fiquei bastante acordado durante as três horas de filme e de certa maneira até bastante feliz por estar participando daquela sessão incomum, embora eu admita que minha preguiça de pensar e minha ignorância político-ideológica prejudiquem e muito a apreciação da obra. Quem sabe um dia eu revejo o filme e apreendo melhor suas idéias, suas motivações e sua beleza estética.

sábado, setembro 08, 2007

O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES (The Prisoner of Shark Island)



Que maravilha que é esse pouco lembrado filme de John Ford. O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES (1936) é mais um título do cineasta que mostra pessoas inocentes sendo presas e que acabam seguindo uma via crúcis semelhante a de Jesus Cristo. Poder-se-ia dizer que o filme completa uma trilogia com O FURACÃO (1935) e MARIA STUART, RAINHA DA ESCÓCIA (1936), embora essa temática de inocentes presos tenha sido explorada de maneira mais sutil em vários outros trabalhos do diretor. Desses três, O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES é, sem dúvida, o melhor. Tanto que foi o único filme de Ford que me fez chorar e por isso mesmo vai logo para o topo dos meus favoritos do diretor.

O filme é baseado na história real do Dr. Samuel Mudd (Warner Baxter), um médico que foi preso sob suspeita de ter participado do atentado que tirou a vida do Presidente Abraham Lincoln. O que aconteceu foi que o assassino do Presidente, John Wilkes Booth, depois de cometer o crime, quebrou a perna e foi pedir ajuda na residência do Dr. Mudd. Não sabendo que estava ajudando um homem procurado pela lei, o bom médico ajudou de muito bom grado aquele estranho homem. No dia seguinte, soldados ianques invadiram a casa do Dr. Mudd e levaram-no preso. Ele não chegou a ser executado como vários outros suspeitos de conspiração, mas foi enviado para uma prisão de segurança máxima situada no Golfo do México. Lá o doutor come o pão que o diabo amassou, tenta fugir e ganha uma chance de redenção a partir de uma desgraça que se alastra pela ilha.

Incrível como esses filmes que mostram pessoas inocentes sendo injustamente incriminadas mexem com a gente, trazendo um forte sentimento de revolta. Nesse filme de Ford essa revolta se torna ainda mais forte ao vermos a expressão de tristeza no rosto da esposa do Dr. Mudd, interpretada brilhantemente por Gloria Stuart, que muitois anos depois seria indicada ao Oscar de atriz coajuvante por TITANIC, de James Cameron.

O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES é cheio de seqüências memoráveis, sendo uma delas o momento da morte do Presidente Lincoln, que, a exemplo do que aconteceu com o Presidente Kennedy, tornou-se quase um santo para os americanos. O próprio John Ford, como bom patriota que é, também era admirador de Abraham Lincoln, como pode-se notar em A MOCIDADE DE LINCOLN (1939), que eu gostaria muito de rever, mas não consegui ainda uma cópia nem em divx nem em dvd nas locadoras. A cópia em divx de O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES que está circulando pelos sites de torrent está bem boa.

quinta-feira, setembro 06, 2007

CIDADE DOS HOMENS



Posso até estar sendo preconceituoso, mas eu tenho medo do Rio de Janeiro. Nas duas vezes que visitei a cidade, sozinho, para fazer um treinamento pelo trabalho, meus passeios por lá foram extremamente tensos. Tinha medo de ser assaltado a qualquer momento. Lembro que saí de um hotel na Praia do Flamengo para ir até um shopping na Barra da Tijuca e o ônibus "deu o prego" em frente à Favela da Rocinha. Fiquei lá esperando que outro ônibus chegasse, mas não consegui ficar à vontade. Até quando cheguei ao shopping, fiquei em estado de alerta o tempo inteiro. Visitei o Pão de Açúcar no outro dia nesse mesmo estado. A culpa desse meu medo talvez seja mesmo dos noticiários, mas filmes como CIDADE DOS HOMENS (2007) contribuem para que esse medo permaneça ou até aumente. Na cena em que Madrugadão (Jonathan Haagensen) e seus homens invadem uma avenida eu me senti um pouco no lugar do sujeito que está dentro do seu carro e vê aquele bando armado invadindo as ruas.

Engraçado como os graves problemas do tráfico e da criminalidade nos morros cariocas acabam eclipsando o que seria o eixo central da trama: os problemas relativos à paternidade de Acerola (Douglas Silva) e Laranjinha (Darlan Cunha), recém-chegados à maioridade. Acerola teve que se casar com uma menina por tê-la engravidado e não é suficientemente maduro para ser um pai; Laranjinha continua solteiro, mas sonha em encontrar o seu pai. Ele conta com a ajuda do amigo para descobrir a identidade e o paradeiro do seu genitor. Imagens dos dois amigos retiradas de episódios da série de tv e do curta PALACE II (2002) ajudam a enriquecer o filme, trazendo verdade para a amizade duradoura desses dois amigos. Os dois rapazes, Douglas Silva e Darlan Cunha, tiveram ótimos desempenhos no filme, de tão íntimos que ficaram com os personagens.

O efeito incômodo de vermos uma criança segurando um revólver, visto em CIDADE DE DEUS (2002), novamente se repete no filme de Paulo Morelli, só que de maneira menos violenta e incisiva. Ainda assim, CIDADE DOS HOMENS enfatiza muito bem o cenário hostil de quem vive nas favelas comandadas por traficantes, um cenário onde a polícia e os governantes não conseguem chegar para intervir. É uma situação tão delicada que uma intervenção mais drástica poderia transformar o Rio de Janeiro numa Ruanda ou num Sudão. Diferente de se ver um filme americano de gênero, onde o espetáculo supera o contexto social, fica difícil ver CIDADE DOS HOMENS como um filme de ação ou uma aventura dramática. Eu, pelo menos, fiquei o tempo todo imaginando como é morar num lugar daqueles. Não sei se isso é um problema ou uma qualidade do filme.

P.S.: Nesse final de semana, Antônio Filho, um amigo de infância, policial, foi assassinado ao tentar impedir um assalto. Quando soube que ele tinha morrido, no domingo, o caixão já havia saído. Outro conhecido meu, anteontem, teve o seu carro roubado por um assaltante armado. As coisas também não andam fáceis por aqui. Talvez a solução seja morar no interior.

quarta-feira, setembro 05, 2007

LICENÇA PARA CASAR (License to Wed)



Sabe aquelas vezes em que você sai do cinema morrendo de vergonha, totalmente constrangido com o que você acabou de ver? Ontem aconteceu comigo. Saí correndo da sala assim que o filme deu pistas de anunciar o seu fim. Saí rapidamente, como se para me livrar de algum efeito venenoso ou como se uma barata tivesse passado pelo meu corpo. Na verdade, eu só resolvi ir ao cinema ontem para não ter que ir logo para casa. O Hulk, o cachorro lá de casa, foi vendido e o vazio da ausência dele estava me incomodando na segunda-feira. O peso que oprimia meu coração, algo que surpreendeu até a mim mesmo, fez com que eu me mantivesse afastado de casa por mais algum tempo e optasse por uma sessão em horário mais conveniente pra mim.

Até que eu havia me interessado um pouco por LICENÇA PARA CASAR (2007) pelo fato de ter o John Krasinski no elenco. Também comparecem outros atores da turma de THE OFFICE, como a Angela, a Kelly e o Kevin - melhor falar o nome dos personagens da série, já que se eu falar o nome dos atores ninguém vai conhecer mesmo. O filme tenta resgatar a verve cômica de Robin Williams, coisa que infelizmente não funciona. Uma pena, já que eu gosto do Williams. Nesse filme, ele interpreta um pastor meio parecido com padre - sempre fico confuso com os sacerdotes mostrados nos filmes americanos e europeus - que é procurado para fazer o casamento do casal de pombinhos vivido por Krasinski e Mandy Moore. A relação dos dois é tão perfeitinha e cheia de dengo que desde o começo eu já fiquei um pouco enjoado, mas até então tudo bem, já que sempre se deve dar uma chance aos filmes. Segundo o pastor, os noivos só poderão se casar naquela igreja se conseguirem sair aprovados num curso ministrado pelo próprio pastor. As tentativas de fazer rir do filme se devem às técnicas do pastor de colocar à prova a relação dos noivos, proibindo-os até mesmo de fazerem sexo. E para que isso funcione, vale tudo, até implantar uma escuta no quarto deles.

Talvez o único momento que arrancou alguma risada de mim foi a cena dos bebês-robôs grotescos. Mas isso é muito pouco pelas intenções do filme. É aí que entra aquela teoria de que a comédia americana está falida, precisando de uma reformulação urgente. Isso em se tratando de cinema, já que as séries de tv ainda conseguem ser criativas e engraçadas, caso da supracitada THE OFFICE. O próprio Robin Williams, nesse filme, parece velho, ultrapassado, pondo em risco até as melhores coisas que ele fez no passado. E olha que eu sou daqueles que gosta até de PATCH ADAMS (1998)! Bom, pelo menos, ao ver as cenas excluídas que passam nos créditos finais, as gravações parece que foram divertidas para o elenco. Mas acho que só para eles.

P.S.: Está no ar a edição de número 12 da Revista Zingu!, que destaca o dossiê Costinha, cuja especialidade eram as famosas piadas de bichinha. Inesquecível. A Zingu! colocou alguns links do youtube pra gente matar a saudade e ainda colocou uma entrevista com o genial humorista. Outros destaques: Marcelo Carrard escrevendo sobre Asia Argento, a filha do maestro; sobre PORNO HOLOCAUST, de Joe D'Amato; e sobre os "The Last House..." movies. Tem também um texto-homenagem ao mestre Michelangelo Antonioni, escrito por Filipe Chamy.

terça-feira, setembro 04, 2007

ONDE COMEÇA O INFERNO (Rio Bravo)























Da primeira vez que assisti ONDE COMEÇA O INFERNO (1959), não curti muito. Tanto que passei um bom tempo sem ver outro filme de Howard Hawks. No entanto, com a leitura de "Afinal, Quem Faz os Filmes", seguida da apreciação de RIO VERMELHO (1948), eu comecei a tomar gosto pelos filmes do diretor, que hoje é um dos meus favoritos. Talvez RIO BRAVO - a partir de agora vou usar o título original, pois o nacional é bem ruim - seja um filme que se precise assistir tendo um pouco mais de familiaridade com o cinema de Hawks. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive ao rever, dessa vez com ar de maravilhamento, essa obra-prima. John Carpenter fala num dos extras constantes do dvd que não é necessário ser um iniciado no cinema de Howard Hawks para gostar de RIO BRAVO, mas eu diria que conhecer outras obras de Hawks ajuda bastante para que a apreciação seja mais completa. Acredito que escolhi rever o filme na hora certa também, já que tive a oportunidade de pegar a edição especial lançada pela Warner, que conta com um delicioso documentário sobre Hawks, que traz cenas de alguns de seus melhores filmes, além de depoimentos do próprio diretor e de Peter Bogdanovich. Recebi um empurrãozinho na revisão, por ocasião do ranking especial dos anos 50, promovido pela Liga dos Blogues.

Em RIO BRAVO, o tempo e o lugar não são tão importantes. Nem a estória é importante. Aliás, de propósito, Hawks quis fazer RIO BRAVO sem uma estória bem definida. Trata-se de um filme de personagens. O diretor, ao ver o sucesso das séries de tv, e o quanto elas eram capazes de conquistar uma grande audiência graças à familiaridade que se cria com os personagens, resolveu fazer um filme meio que nos moldes de uma série de tv, com os seus três atos como se fossem três episódios. John Wayne aparece nesse filme, não como um sujeito amargo e consumido pelo ódio como mostrado em RASTROS DE ÓDIO, de John Ford. Wayne aparece como um sujeito adorável, um herói autenticamente hawksiano, com um grande coração, mas que deve permanecer duro e inabalável diante das dificuldades da vida. Em certo momento do filme, ao falar do amigo alcóolatra interpretado por Dean Martin, ele afirma que é necessário tratar as pessoas sensíveis com uma certa dureza, para que a pessoa não desabe de vez.

Em RIO BRAVO, Dean Martin é um sujeito que ficou dependente do álcool por causa de uma mulher. A separação foi traumática e Dude (o nome do personagem de Martin) nunca mais foi o mesmo. Sua primeira aparição no filme é de dar pena. Com uma camisa rasgada e aspecto cansado e sujo, ele chega ao ponto de pegar uma moeda jogada numa escarradeira por um sujeito que quer humilhá-lo. Porém, no momento em que ele vai pegar a moeda, ele é impedido pelo xerife (John Wayne), que não quer ver o amigo chegando ao fundo do poço e jogando para o ralo o que sobrou de sua dignidade. Nessa confusão, o xerife prende um perigoso bandido no saloon e o leva para a delegacia. Seu único ajudante é um velho manco (Walter Brennan, o velhinho banguela de RIO VERMELHO), mas logo ele contará com o auxílio do amigo alcóolatra e de um jovem rapaz (Rick Nelson, que na época era um famoso ator da tv). Completa o elenco principal, o interesse amoroso do xerife, vivido por uma jovem Angie Dickinson.

O filme ficou mais conhecido pelo seu terceiro ato, no qual um grupo de bandidos tenta de diversas maneiras resgatar o amigo da cadeia antes que ele seja transferido para outra cidade. Esse enredo foi repetido pelo próprio Hawks nos também ótimos EL DORADO (1967) e RIO LOBO (1970), bem como utilizado por John Carpenter nos seus ASSALTO À 13ª D.P. e FANTASMAS DE MARTE. Falando em Carpenter, curiosamente, na cena em que Wayne e Martin saem à noite à cata dos bandidos, nessa cena Hawks criou um suspense e um clima que lembram elementos de um filme de terror. Mas no geral, RIO BRAVO é uma celebração da amizade masculina, que tem entre os seus momentos mais belos a cena em que Dean Martin canta com Rick Nelson e Walter Brennan na delegacia. Essa seqüência é de uma beleza e uma ternura admiráveis. E, por mais que sejam ótimas as cenas de Wayne com Angie Dickinson, e as eletrizantes cenas de tiroteio, acho que se eu fosse escolher uma cena para eu me lembrar do filme seria essa a escolhida.

segunda-feira, setembro 03, 2007

PARANÓIA (Disturbia)



Não tem como não notar o quanto PARANÓIA (2007) é descendente de JANELA INDISCRETA. O trailer já entregava isso. Mas o que eu não sabia e descobri hoje é que o roteiro original do filme foi escrito em 1990 e que devido à óbvia semelhança com o clássico de Hitchcock e por causa do remake estrelado pelo Christopher Reeve foi engavetado. Só em 2004 que o roteiro seria reescrito, trazendo situações mais comuns ao mundo digital contemporâneo. Mesmo assim, a idéia de se assistir um JANELA INDISCRETA teen não me animava muito. Porém, PARANÓIA conquistou o meu respeito logo no prólogo, que contém uma cena impactante e surpreendente.

Depois dos créditos iniciais, o enredo hitchcockiano vai tomando forma, quando o protagonista, depois de socar o seu professor de espanhol, e por conta de outras atitudes agressivas do passado, é condenado a uma prisão domiciliar, com direito a um sensor amarrado na perna com o objetivo de demarcar a área em que ele pode permanecer. Assim como o personagem de James Stewart no filme original, o rapaz de 17 anos interpretado por Shia LaBeouf (de TRANSFORMERS), devido ao tédio, começa a olhar com um binóculo para a vida dos vizinhos. Ele passa a suspeitar que um deles (David Morse) é um assassino. A "Grace Kelly jovem" é a bela Sarah Roemer, o interesse amoroso do rapaz. Claro que não dá pra comparar com a Grace Kelly, mas a menina quebra um galhão. Também no elenco, Carrie-Anne Moss como a mãe do rapaz.

O papel de psicopata combinou muito bem com David Morse. Inclusive, dizem que durante as filmagens ele ficou o tempo inteiro sem falar com os meninos do elenco a fim de que eles ficassem realmente com medo dele. Não chega a ser um papel de deixar a gente se tremendo de medo, mas o filme é bastante eficiente nas seqüência de suspense. Destaque para a cena em que o amigo japa vai até a casa do assassino com uma câmera. O filme até abusa um pouco dos clichês nessas cenas, já que no ápice do filme, até rola as tradicionais trovoadas para ficar aquele clima de filme de terror.

O diretor, D.J. Caruso, é o mesmo de ROUBANDO VIDAS (2004), outro eficiente ainda que exagerado thriller. Caruso já está trabalhando em nova parceria com Shia LaBeouf, num filme chamado EAGLE EYE, com a gracinha da Michelle Monaghan. Quanto à loirinha Sarah Roemer, ela está encabeçando o elenco do novo filme de David R. Ellis, ASYLUM.

P.S.: Nesse final de semana eu fui a um show de blues lá no anfiteatro do Dragão do Mar, com a participação do Andreas Kisser, do Sepultura. O cara até que foi bastante simpático para agüentar aquele monte de fãs com a máquina fotográfica na mão e pedindo pra ele fazer o sinal do demo com a mão. Quanto ao show, foi até bom, blues com versões de músicas dos Stones, Black Sabbath, entre outros, mas o som estava tão alto que eu precisei sair um pouco pra tomar um pouco de ar. I'm getting old...