sexta-feira, setembro 30, 2005

ZATOICHI



Takeshi Kitano é um cineasta que eu considerava chato pra caramba, até o dia que vi BROTHER (2000) e mudei minha opinião a seu respeito. Na verdade, pela minha memória, dos filmes de Kitano, eu só gosto mesmo de BROTHER e DOLLS (2002). ZATOICHI (2003), visto há uns dois meses, me decepcionou um pouco. Ainda assim, minha expectativa em torno de seu novo filme, o premiado TAKESHIS'(2005), é grande. Trata-se de uma sátira onde Kitano faz o papel deles mesmos. Digo deles mesmos porque ele tem a mania de se dividir entre o Takeshi ator, assinando Beat Takeshi, e o Takeshi diretor, assinando Takeshi Kitano. Ele diz que TAKESHIS' é o filme que encerrará o tipo de trabalho que ele vem fazendo há doze anos, e que agora ele quer fazer "um filme muito clássico". Só não sei o que ele quer dizer com isso.

Pois bem. Eu tou enrolando antes de falar sobre ZATOICHI porque faz tanto tempo que vi o filme que preciso buscar na memória as minhas impressões. Não consegui ver o filme de uma tacada só. Começava a ver e batia um sono daqueles. Aí, eu dormia, retomava o filme e ficava com sono de novo. Isso deve ter acontecido umas quatro vezes. Mas quero deixar claro aqui que não estou botando a culpa no filme, não. Tenho um problema de garganta que às vezes me deixa em estado de sonolência. Mas curiosamente, isso também aconteceu comigo na última vez que vi dois filmes de Akira Kurosawa. Logo, tem alguma coisa nesses filmes japoneses, especialmente nos de samurai, que me fazem dormir.

Uma das coisas que me incomodou em ZATOICHI foi o artificialismo das cenas de ação com uso exagerado de CGI. Também senti falta de mais violência, característica presente em BROTHER e em DOLLS - ainda que nesse último de forma não-explícita - e elemento importante para que eu gostasse desses filmes. Sei que Takeshi Kitano é também um comediante de televisão no Japão, portanto, é possível que me falte uma maior intimidade com o seu trabalho. Aliás, disso eu tenho certeza.

Na trama de ZATOICHI, Kitano é um homem cego que ganha a vida jogando e dando massagens. Mas isso é só uma fachada. Na verdade, ele é um poderoso mestre espadachim. Ele chega em um vilarejo dominado por gangues e encontra duas gueixas que pretendem se vingar da morte de seus pais. Na verdade, uma das gueixas é um travesti, um dos personagens mais interessantes do filme.

Como de praxe na filmografia de Kitano, ZATOICHI tem uma beleza plástica de dar gosto. Ele sempre capricha na fotografia, direção de arte, figurino. O DVD nacional está em widescreen 1,85:1, fazendo jus à bela imagem do filme.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O PROSCRITO (The Outlaw)



Ver O PROSCRITO (1943) significou pra mim matar três coelhos com uma só cajadada: 1) o filme faz parte de minha mini-peregrinação pela obra de Howard Hawks, embora Hawks tenha dirigido apenas algumas poucas cenas; 2) depois de O AVIADOR, de Scorsese, meu interesse pelo universo de Howard Hughes cresceu bastante; 3) especialmente depois de PAT GARRETT & BILLY THE KID, de Sam Peckinpah, e MATEI JESSE JAMES, de Samuel Fuller, também passei a me interessar mais pelos filmes que contam histórias dessas figuras mitológicas do velho oeste.

Não gostei muito de como são mostrados Billy the Kid e Pat Garrett no filme de Hughes. Especialmente Garrett (Thomas Mitchell), mostrado como um xerife velho e barrigudo, bem mais velho que o jovem Billy (Jack Buetel). Já tinha me acostumado com a idéia de eles terem uma idade aproximada e com o fato de eles terem sido amigos de longa data, como é mostrado no melancólico filme de Peckinpah.

A trama de O PROSCRITO junta essas duas lendas do oeste com o não menos famoso Doc Holliday, interpretado no filme por Walter Huston. No filme, Doc é amigão de Garrett. Mas quando Billy surge na cidade, Doc esquece um pouco o amigo Garrett para estabelecer um vínculo de amizade com o jovem pistoleiro. Em certos momentos, dá a entender que há uma espécie de atração entre os dois. Isso, vindo de Hughes, é até normal - dizem que ele era bissexual. Talvez pra não desconfiarem muito, o filme foca a atenção na personagem de Jane Russell, atriz que foi escolhida por causa de seu busto grande. Ela interpreta a mulher de Doc Hollyday, que acaba por se apaixonar por Billy.

Hughes chegou a desenhar um modelo de sutiã para levantar e ressaltar ainda mais os já generosos seios da moça. A polêmica gerada em torno da sensualidade do filme e dos seios de Russell pôde ser vista em O AVIADOR, com Hughes rindo da hipocrisia e do puritanismo dos americanos. O lançamento do filme demorou três anos por causa dessa briga de Hughes com a censura. A briga durou tanto que Hughes finalmente decidiu lançar o filme sem o selo de aprovação do Motion Picture Code, marcando o início do fim da censura em Hollywood.

Mesmo com toda a importância, O PROSCRITO não chega a ser um grande filme. Acho irritantes as seqüências de humor, que não parecem combinar com a música do filme, quase sempre em tom épico. Parece que Hughes não tinha mesmo talento para o humor como Hawks ou Ford. O filme também parece não se levar a sério em tempo nenhum, perdendo o impacto que poderia ter.

Próximo filme de Hawks que pretendo ver: UMA AVENTURA NA MARTINICA (1944), com o ilustre casal Humphrey Bogart e Lauren Bacall.

terça-feira, setembro 27, 2005

MR. VINGANÇA (Boksuneun Naui Geot / Sympathy for Mr. Vengeance)



Quem está no Rio de Janeiro está tendo a chance de conferir no Festival Internacional de Cinema desse ano alguns exemplares do novo cinema sul-coreano, entre eles os dois filmes que completam, junto com OLDBOY (2003), a chamada trilogia da vingança de Chan-wook Park. Estão na programação do festival os filmes MR. VINGANÇA (2002) e o novo LADY VINGANÇA (2005). Park também está presente no festival em TRÊS EXTREMOS (2004), o filme em episódios que Park dirige em conjunto com o japonês Takashi Miike e o chinês Fruit Chan. É a vez da cinematografia oriental que está cada vez mais encontrando espaço no mercado mundial. Na Contracampo desse mês, os artigos principais são sobre o cinema da Coréia do Sul.

Não estou no Rio, mas tive a chance de ver nesse fim de semana, graças às maravilhas do mundo digital, uma cópia em divx de ótima qualidade de MR. VINGANÇA. O filme tem uma trama melhor e mais intrincada que a de OLDBOY, ainda que não cause o mesmo impacto e o mesmo choque na gente. É até um filme um pouco frio, mas nem por isso menos prazeiroso de se ver, pelo seu apurado senso estético e pelo modo criativo como se costura a trama.

A trama inicial de MR. VINGANÇA envolve um surdo-mudo que tem uma irmã doente e necessitando com urgência de um transplante de rim. Desesperado, ele pega todo o dinheiro que tem e entra em contato com uma família de traficantes de órgãos. Mas a falta de sorte do rapaz é tão grande que os mafiosos lhe roubam o dinheiro e ainda tiram um de seus rins, deixando-lhe nu num local deserto. E isso é só o começo de seus infortúnios: o pobre rapaz depois fica sabendo que sua irmã estava na primeira fila para o transplante de rim. Mas e agora? Ele tinha perdido todo o dinheiro com os criminosos. A solução veio de sua namorada, uma das personagens mais interessantes do filme. A solução seria seqüestrar a filha de um rico empresário e pedir dinheiro suficiente para pagar o transplante. Mas como desgraça pouca é bobagem, as coisas não vão sair como planejado.

Lendo uma entrevista de Chan-wook Park, fiquei sabendo que ele teve o impulso para se tornar cineasta assim que assistiu pela primeira vez UM CORPO QUE CAI, de Hitchcock. Acho muito interessante isso. Dia desses fiquei sabendo que Shyamalan quis fazer cinema depois de ter visto CAÇADORES DA ARCA PERDIDA, do Spielberg.

Outra coisa que ele fala na entrevista me levou a comparar a questão da culpa em seus filmes em relação aos filmes de Hitchcock. Park fala que seus filmes são estórias de pessoas que põem a culpa nos outros porque se recusam a acreditar que são elas as culpadas. É bem o oposto da transferência da culpa nos filmes de Hitchcock, onde pessoas inocentes levam a culpa dos criminosos. A influência dos filmes de Brian De Palma, com o uso criativo dos espelhos aparece também em MR. VINGANÇA, dessa vez, até evitando o uso do campo e contracampo, na cena da conversa do rapaz surdo com sua namorada em frente ao espelho.

Agora é esperar que esses filmes de Chan-wook Park recebam uma distribuição comercial decente no Brasil. De preferência, nos cinemas.

segunda-feira, setembro 26, 2005

OS GATÕES - UMA NOVA BALADA (The Dukes of Hazzard)



Das duas uma: ou eu ando muito mal humorado ou OS GATÕES - UMA NOVA BALADA (2005) é mesmo o pior filme que eu vi esse ano no cinema. Aliás, filme ruim nos cinemas tem sido uma constante nessas últimas semanas. Nesse mês de setembro, por exemplo, eu só vi um título realmente ótimo, que foi AMOR EM JOGO, dos irmãos Farrelly. Infelizmente, o melhor do cinema não está no cinema, mas nas locadoras, onde pérolas de épocas melhores pipocam a cada dia para alegria dos cinéfilos mais exigentes.

E exigência é uma coisa que você não deve ter nem em pequena quantidade, se você quiser curtir OS GATÕES - UMA NOVA BALADA. A começar pelo título, bastante constrangedor pra se pedir na bilheteria do cinema - eu nem lembro da série de TV que inspirou o longa. Falando em situação constrangedora, na sala vizinha, estava passando COISA DE MULHER, um tipo de filme que você, se for asssitir, não vai querer ser visto por ninguém conhecido.

Na mal amarrada e confusa estória do filme, Johnny Knoxville e Seann William Scott são dois primos que entregam bebiba fabricada pelo tio (Willie Nelson) na cidade. Knoxville é do tipo mulherengo e garanhão; Scott já é mais "sensível": chega até a desmaiar quando uma mulher bonita o beija. os dois tem uma prima muito gostosa que trabalha de garçonete num bar (Jessica Simpson). Eles ficam sabendo que um rico homem de negócios da região (Burt Reynolds) quer comprar boa parte do terreno da cidade para transformar numa mina de carvão.

A melhor coisa desse OS GATÕES é mesmo a presença radiante de Jessica Simpson, sempre aparecendo com shortinhos minúsculos e decotes generosos. Numa cena, ela até aparece de biquini para a alegria dos marmanjos. Mas isso não é lá motivo pra você sair de casa para ver esse filme, a não ser que você esteja com uma turma bem divertida. Na sala em que eu estava, só tinham alguns poucos gatos pingados e eu não ouvi sequer uma risada. Talvez pela minha contabilização, eu tenha rido (silenciosamente) uma vez. Quem se liga em corridas de automóvel - como o meu sobrinho de 12 anos, por exemplo - é possível que curta o filme. Pra mim, é despretensioso até demais. Eu deveria ter ficado em casa.

P.S.: No ar, no Cinema com Rapadura, nova coluna sobre o fenômeno LOST.

domingo, setembro 25, 2005

GÂNGSTERES DA WARNER PARTE 2



O fim de semana não foi dos melhores. Um de meus consolos foi a chance que tive de ver duas obras-primas de Raoul Walsh, estreladas pelo grande James Cagney. Os dois filmes fazem parte do excelente box Gângsteres lançado pela Warner. HERÓIS ESQUECIDOS (1939) e FÚRIA SANGUINÁRIA (1949) são os dois mais importantes trabalhos de Cagney com o "cineasta aventureiro". Além desses dois, Cagney ainda trabalhou com Walsh em UMA LOURA COM AÇÚCAR (1941) e UM LEÃO ESTÁ NAS RUAS (1953). Os DVDs desses dois filmes estão tão bons que, dessa vez, até os curtas-metragens são legais. Os dois mini-documentários de cerca de 16 minutos, presentes nos dois discos, trazem a presença sempre bem vinda de Martin Scorsese, entre outros especialistas em cinema. Depois desses dois filmes, Walsh passou a entrar na minha lista de diretores preferidos.

HERÓIS ESQUECIDOS (The Roaring Twenties)

Esse filme é um verdadeiro documento das primeiras décadas do século XX. HERÓIS ESQUECIDOS mistura um estilo documental, imitando os cine-jornais da época ao descrever dez anos da história americana - do fim da 1ª Guerra Mundial à Grande Depressão de 1929 -, com o estilo característico dos filmes de gângster do início da década de 30. Nesse filme, James Cagney não é um psicopata como em INIMIGO PÚBLICO Nº 1 e FÚRIA SANGUINÁRIA. Ele fica no meio termo entre os seus outros dois amigos que lutaram na guerra e voltaram pra casa e não encontram uma alternativa de emprego por causa da terrível recessão que o país atravessava. Um dos seus colegas no exército era Humphrey Bogart, que desde o início se revela um sujeito perverso, que se diverte atirando nos soldados inimigos. O outro de seus amigos estuda e se torna um advogado honesto. Já Cagney, depois de tanto levar porta na cara, resolve entrar no comércio ilegal de bebidas. Sua perspicácia acaba por transforma-lo num grande líder do crime. Ainda assim, o final traz uma chance de redenção para ele. O final de HERÓIS ESQUECIDOS é catártico e emocionante. E Humphrey Bogart morre pela segunda vez pelas mãos de Cagney - a primeira tinha sido em ANJOS DE CARA SUJA (1938). Bogart não havia alcançado o estrelato ainda, mas estava bem próximo. Uma das diferenças entre Cagney e Bogart era que o primeiro levava a sério a carreira de ator, esforçando-se para diversificar os seus papéis, dando tudo de si. Ele considerava o cinema uma arte, enquanto que Bogart achava que era apenas um meio de se ganhar dinheiro.

FÚRIA SANGUINÁRIA (White Heat)

A versatilidade de James Cagney encontra em FÚRIA SANGUINÁRIA uma espécie de ápice. Quando eu achava que não veria filme melhor que HERÓIS ESQUECIDOS tão cedo, eis que me deparo com essa pérola que me conquistou desde o início, com aquela memorável seqüência do assalto ao trem. Cagney volta a desempenhar o papel de um psicopata nesse filme que antecede em alguns anos o Norman Bates de PSICOSE. Cagney interpreta um gângster mentalmente perturbado que sofre de terríveis dores de cabeça e morre de amores pela mãe. A cena em que ele está na cadeia e fica sabendo que a velha está morta é de arrepiar. Cagney grita, esmurra a mesa, sai derrubando tudo, socando os guardas de um por um, até ser detido e ir parar na camisa de força. FÚRIA SANGUINÁRIA pode ser dividido em três atos: o primeiro, anterior à prisão; o segundo, na prisão; e o terceiro, com a fuga. A personagem de Virginia Mayo é outro grande destaque do filme. Ela interpreta uma mulher totalmente vil, desleal e vulgar. Walsh adorava mulheres desse tipo em seus filmes. Em HERÓIS ESQUECIDOS já havia a personagem de Gladys George, que não era exatamente desleal, ao contrário, mas que não tinha, digamos, modos de moça de família. A primeira aparição de Virginia Mayo já chama a atenção: ela aparece dormindo e roncando. Uma mulher linda como Virginia nunca era mostrada dessa maneira naquela época. Raoul Walsh gostou tanto de Virginia que trabalhou com a moça novamente em dois filmes em seqüência: EMBRUTECIDOS PELA VIOLÊNCIA (1951) e O FALCÃO DOS MARES (1951). Um dos meus diálogos favoritos de FÚRIA SANGUINÁRIA é quando Cagney leva um sujeito que tinha tentado lhe matar e o sujeito lhe pergunta: "você vai me matar assim, a sangue frio?". E ele diz: "não, eu vou lhe esquentar um pouco antes". Perversamente engraçado.

Curtas-metragens presentes no DVD de HERÓIS ESQUECIDOS:

ALL GIRL REVUE (8 min). Comédia musical sobre mulheres que assumem uma prefeitura e deixam a cidade bem arrumadinha. É simpático, ainda que meio sexista.

THE GREAT LIBRARY MISERY (11 min). Divertida comédia sobre um sujeito que se candidata ao clube dos ranzinzas por causa de um cartão de biblioteca pública.

THUGS WITH DIRTY MUGS (7 min). Desenho animado que satiriza os filmes de gângster da Warner, inclusive com uma versão em desenho de Edward G. Robinson e divertidas brincadeiras metalingüísticas.

Curtas-metragens presentes no DVD de FÚRIA SANGUINÁRIA:

SO YOU THINK YOU'RE NOT GUILTY (10 min). Comédia sobre sujeito que se recusa a se considerar culpado por causa de uma multa no trânsito e chega a ir para a penitenciária por causa disso.

HOMELESS HARE (7 min). O Pernalonga velho conhecido da gente, sob direção do mestre Chuck Jones.

Próximos filmes do box da Warner que pretendo pegar em breve: ALMA NO LODO (1931) e A FLORESTA PETRIFICADA (1936).

sábado, setembro 24, 2005

PROVOCAÇÃO (The Door in the Floor)



Não sei o que está acontecendo com a programação dos cinemas nas últimas semanas. É impressionante como parece que os programadores têm escolhido a dedo os piores filmes para serem lançados. Pode ser que eu esteja exagerando, mas é isso que eu sinto no ar. Pode ser que seja por causa dos festivais internacionais de cinema do Rio e de São Paulo, que acabam deixando alguns filmes importantes de molho.

Outra observação que eu não vou resistir e fazer diz respeito aos títulos brasileiros. Um título belo e poético como THE DOOR IN THE FLOOR recebeu um título ridículo e totalmente equivocado aqui no Brasil: PROVOCAÇÃO (2004). Quer dizer, só pode ser provocação. Taí. Acabei de encontrar um sentido para o título brasileiro.

PROVOCAÇÃO é um filme que vale mais pela boa performance do elenco (Jeff Bridges, Kim Basinger e o jovem Jon Foster) do que por suas qualidades fílmicas. No elenco, tem uma garotinha que é uma gracinha, que eu iria chamar de versão genérica da Dakota Fanning, se eu não ficasse sabendo há pouco que a menina (Elle Fanning) é irmã caçula da Dakota. Parece mesmo com ela. E continuando as observações superficiais (e um tanto maldosas, dessa vez), o filme também traz Mimi Rogers, que já foi Sra. Tom Cruise no passado. Considerando que ela aparece nua no filme (e já está meio caída) e Tom Cruise agora está com uma garota muito mais jovem e bonita (Katie Holmes), diria que esse negócio de trocar freqüentemente as parceiras por "novos modelos" parece ser um excelente negócio. Ok, eu sei. Fui muito cafajeste com essa observação. Mas vamos em frente.

PROVOCAÇÃO é baseado no livro "Viúva por um Ano", de John Irving, e conta a história de um casal (Bridges e Basinger) que se separa depois da crise no casamento gerada pelo acidente de automóvel que matou seus dois filhos. Um detalhe que chama a atenção no personagem de Jeff Bridges é a extrema falta de vergonha em mostrar o corpo nu. Ele é escritor e, nas horas vagas, gosta de pintar também, inclusive, mulheres nuas. O personagem do rapaz que se apaixona por Kim Basinger (Jon Foster) é também interessante. O garoto não perde uma chance pra se masturbar pensando na coroa. Ele é chamado para trabalhar como motorista e assistente de revisão de textos para o casal durante a separação e acaba tendo um caso com a patroa.

Tirando o final, que revive um pouco o acidente traumático dos dois filhos do casal, o filme inteiro faz com que nos sintamos dopados. Seria um caso de título recomendado para pessoas com insônia. O filme tem um senso de humor um pouco estranho e meio deslocado em certas ocasiões. Como na cena em que Mimi Rogers corre feito louca atrás de Jeff Bridges. Em vez de uma música alegre de comédia, ouvimos uma canção triste, gerando uma sensação de estranheza no ar. PROVOCAÇÃO é um filme irregular, mas que tem seus bons momentos, como o plano final, digno de nota.

quinta-feira, setembro 22, 2005

BASTIDORES DA COMÉDIA (Comedian)



Pra quem quer saber o que Jerry Seinfeld anda fazendo da vida é bom dar uma conferida no documentário BASTIDORES DA COMÉDIA (2002), que a Europa está lançando em DVD no Brasil. Uma pena que a distribuidora deixou de fora praticamente todos os extras da edição americana, ficando pra gente só o teaser trailer, que por si só já é genial.

Quem acompanhou ou pelo menos viu alguns dos episódios de SEINFELD (1990-1998) tem idéia da importância e do valor dessa sitcom extraordinária. Nunca houve (e talvez nunca haverá) uma série tão boa e tão original quanto essa maravilha criada por Jerry Seinfeld e Larry David.

Ver BASTIDORES DA COMÉDIA contribui ainda mais para aumentar o nosso respeito pelas pessoas envolvidas na série, em especial, Jerry Seinfeld. Isso porque, nesse documentário, vemos o quão difícil é fazer as pessoas rirem, preparar um repertório novo de piadas sobre coisas do dia a dia, azeitá-las até que fiquem perfeitas, ajustar o timing (isso é essencial), e aprender a ter autoconfiança e relaxamento, de modo que o humor pareça natural.

Tenho uma grande simpatia por esse estilo de comédia (stand up comedy) feita nos EUA e que muita gente aqui no Brasil acha sem graça. Os comediantes americanos têm o mérito de trabalhar com um repertório próprio, e não adaptando piadas populares ao seu estilo, como faz a grande maioria dos comediantes brasileiros.

O documentário segue Seinfeld por clubes noturnos onde ele faz os seus shows, mostrando, inclusive, um momento de vacilo do comediante, quando ele esquece completamente uma piada no palco e fica sem jeito tentando se lembrar. O detalhe é que até mesmo com essa errata, ele arrancava gargalhadas da platéia. Ao mesmo tempo, acompanhamos a difícil trajetória do novato Orny Adams, que sonha em ser tão ovacionado e respeitado quanto Seinfeld. Um dos momentos mais memoráveis do filme é quando Orny experimenta uma noite de sucesso e liga para todas as pessoas que conhece contando a boa notícia. Mas logo em seguida, ele volta a ficar triste e a se sentir miserável novamente.

Enquanto Julia-Louis Dreyfus, Michael Richards e Jason Alexander, seus parceiros de SEINFELD, amargaram fracassos tentando spin-offs em carreiras individuais, Seinfeld preferiu ficar na dele, voltando para os clubes noturnos e só aparecendo na televisão de vez em quando. Hoje, os órfãos da série tem que se contentar com as edições em DVD das nove temporadas (o que não é pouco, quem dera eu pudesse comprar todas) e com a nova CURB YOUR ENTHUSIASM, do seu antigo parceiro Larry David, e que hoje passa na HBO (eu, infelizmente, nunca vi nenhum episódio e torço para que seja lançada em DVD). No cinema, poderemos ouvir a simpática voz de Jerry na animação BEE MOVIE. Mas só em 2007.

quarta-feira, setembro 21, 2005

MICKEY ROURKE EM DOIS FILMES



Mickey Rourke era um dos astros mais populares dos anos 80, graças a filmes como 9 E 1/2 SEMANAS DE AMOR (1986), O SELVAGEM DA MOTOCICLETA (1983), O ANO DO DRAGÃO (1985) e CORAÇÃO SATÂNICO (1987). Mas, já a partir de 1987, alguma coisa estranha começou a acontecer com Rourke. Não sei direito o que foi. Talvez por conta de seu espírito rebelde, de seu gosto pelo boxe, ele começou a fazer papéis de personagens marginais, como os dos dois filmes abaixo. Também não sei direito o que aconteceu com seu rosto, que agora está todo detonado. Teria sido uma cirurgia plástica mal sucedida? Sua perda de popularidade nos anos 90 coincidiu com esse rosto novo e ele começou a se posicionar mais como coadjuvante, geralmente no papel de vilão, ou como protagonista de filmes B. Esperava-se que o papel de Marv em SIN CITY (2005) fizesse a Rourke o mesmo que aconteceu com John Travolta em PULP FICTION, mas não foi bem isso que ocorreu.

BARFLY - CONDENADOS PELO VÍCIO (Barfly)

Antes de ver o filme, tinha lido o livro de Charles Bukowski, "Hollywood". O livro do "velho safado" é bem divertido, mas confesso que fiquei um pouco decepcionado, talvez por ter lido um pouco antes uma obra maravilhosa de John Fante ("Sonhos de Bunker Hill") - os dois autores guardam muitas semelhanças. O livro de Bukowsky é um romance baseado em sua experiência como roteirista de cinema. O roteiro que ele fez resultou nesse BARFLY - CONDENADOS PELO VÍCIO (1987), dirigido por Barbet Schroeder, e inspirado em sua vida boêmia. Gostei mais do que esperava, já que não tenho muita paciência de ver bêbado no cinema. É que o filme tem toda uma idéia de desapego à vida e às coisas efêmeras que acabou sendo bastante simpático pra mim. Ainda assim, prefiro CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO (1981), de Marco Ferreri, outro filme baseado em sua vida de escritor alcóolatra. Ainda mais pela presença da maravilhosa Ornella Mutti.

UM ROSTO SEM PASSADO (Johnny Handsome)

Quando eu ouvi a guitarra triste de Ry Cooder enquanto rolavam os créditos iniciais de UM ROSTO SEM PASSADO (1989), fiquei logo animado. O músico já tinha trabalhado antes com o diretor Walter Hill - em A ENCRUZILHADA (1986) e em RUAS DE FOGO (1984) -, mas era a música que ele fizera para a trilha de PARIS, TEXAS que conquistou muita gente e marcou sua carreira no cinema. UM ROSTO SEM PASSADO é um bom filme, mas levando em consideração aquele início empolgante, senti que o filme perde um pouco o fôlego do meio pro final. Na trama, Mickey Rourke é um sujeito que tem o rosto deformado de nascença. Depois de ir preso por participar de um roubo, ele aceita fazer parte de uma experiência do governo. Pra isso, ele se submete a uma cirurgia plástica que faz o milagre de torná-lo bonito. E o mais importante, irreconhecível para os seus inimigos, aqueles de quem ele quer se vingar. Como história de vingança, eu não gostei muito do filme não. Por isso, que prefiro a primeira metade. O elenco é cheio de rostos conhecidos. Além de Rourke, marcam presença: Ellen Barkin, Elizabeth McGovern, Morgan Freeman, Forrest Whitaker e Lance Henriksen.

Gravados da BAND.

terça-feira, setembro 20, 2005

HOTEL RUANDA (Hotel Rwanda)



Se HOTEL RUANDA (2004) tivesse sido lançado no Brasil na mesma época que os outros indicados ao Oscar (MENINA DE OURO, RAY, O AVIADOR etc.), talvez tivesse sido recebido melhor pelo público, com uma bilheteria maior. O que aconteceu nesse ano foi que boa parte dos filmes indicados ao Oscar nem chegaram nos cinemas. Por isso, o filme acabou indo para os circuito alternativo. Bom, pelo menos foi o que aconteceu aqui em Fortaleza. A principal indicação de HOTEL RUANDA foi na categoria de melhor ator, pela brilhante performance de Don Cheadle. Ele faz o papel do gerente de um hotel que salva a vida de mais de mil pessoas, abrigando-as no hotel, como uma espécie de Oscar Schindler africano.

HOTEL RUANDA é um bom filme. Envolvente, trata de um assunto que mexe nos calos dos americanos, que não tiveram interesse em intervir numa das guerras civis mais sangrentas dos últimos anos. Nem eles, nem nenhum outro país da Europa. Nem mesmo a Bélgica, o país diretamente responsável por essa guerra, onde morreram mais de um milhão de ruandenses em cem dias de conflito. Como o país é muito pobre, e não havia muitas armas de fogo disponíveis, o massacre se deu principalmente por meio de facões.

Tudo começou quando a Bélgica, na época em que colonizava a Ruanda, resolveu classificar a população entre hutus e tutsis. Os tutsis seriam geneticamente superiores aos hutus e, portanto, teriam o direito de comandar a país. Essa classificação foi feita levando em consideração a cor da pele, o tamanho e a espessura do nariz. Quer dizer, um absurdo. Principalmente porque nos anos 90 já não se podia distinguir um hutu de um tutsi apenas olhando para ele. Só se distingue com a apresentação de um documento de comprovação. Por causa de tantos anos de dominação, instalou-se um ódio mortal dos hutus aos tutsis. Foi com a alimentação desse ódio que criou-se a idéia de massacrar os tutsis, apelidados de "baratas" pelos hutus, que clamavam a morte de seus inimigos através de uma estação de rádio.

Um dos momentos mais chocantes do filme é quando Don Cheadle passa com uma caminhonete por cima de centenas de cadáveres sem se dar conta do que está bloqueando a estrada. O cenário do filme, aliás, lembra uma daquelas ficções apocalípticas sobre o fim do mundo estilo TERRA DOS MORTOS, do Romero. Mas o pior é que aquilo ali foi bem real. Chega a ser assustador imaginar que tudo aquilo é fruto da estupidez do ser humano: de sua vontade de ser superior, da incapacidade de perdoar e da facilidade de se deixar levar pela histeria coletiva.

segunda-feira, setembro 19, 2005

A LUTA PELA ESPERANÇA (Cinderella Man)



Que filminho mais careta esse A LUTA PELA ESPERANÇA (2005). Ron Howard, diretor medíocre e operário padrão de Hollywood, retoma a parceria bem sucedida (financeiramente) com Russel Crowe, o roteirista Akiva Goldman e o produtor Brian Grazer para contar a dramática história de James Braddock, o boxeador que passou por muitas dificuldades na época da Grande Depressão americana. A LUTA PELA ESPERANÇA seria uma espécie de primo de SEABISCUIT - ALMA DE HERÓI, de Gary Ross. Não sou fã do filme do pangaré, mas ele dá de dez nesse filme de boxe.

A LUTA PELA ESPERANÇA sofre de uma falta de inovação tremenda. Tanto na forma como no conteúdo. Até se poderia relevar esse detalhe, afinal, nos dias de hoje, a máxima de que nada se cria tudo se copia está cada vez mais em vigor. Mas, se ao menos o filme conseguisse manipular de forma competente os sentimentos do público, até que seria mais digno de respeito. Mas é tudo muito manjado, tudo já visto em outros filmes de boxe e assemelhados. Um dos motivos do fracasso do filme se dá pelo caráter excessivamente bondoso de Braddock, contrapondo com o lado extremamente vilanesco de seu oponente. Braddock não possui defeitos, é de uma gentileza fora do comum, nem parece humano, o que torna difícil para a platéia uma identificação. Dizem que os roteiristas até pesquisaram sobre o verdadeiro James Braddock, a fim de encontrar algum defeito em sua personalidade, mas não encontraram.

Os pontos positivos estão nos aspectos técnicos, como a bela reconstituição de época, inclusive no que se refere ao tipo físico dos lutadores de boxe, que na época não praticavam levantamento de peso nos treinos e não tinham o corpo tão musculoso quanto os lutadores de hoje. Também gostei da cena em que ouvimos uma canção da época, brincando com a difícil situação econômica dos americanos mais pobres. Nem beber para esquecer as desgraças era possível, já que a Lei Seca tinha entrado em vigor. Há também uma interessante tomada com a câmera rodopiando no ringue e vendo a reação do público durante os socos do oponente. Mas nem é tão boa assim. Logo, tem que se estar bem disposto para agüentar os 144 minutos dessa xaropada. E com direito a Renée Zellwegger de "brinde".

domingo, setembro 18, 2005

GÂNGSTERES DA WARNER PARTE 1



Quando passei pela locadora na última sexta-feira, não resisti e levei pra casa dois títulos da caixa que a Warner está colocando no mercado contendo alguns dos melhores filmes de gângsteres da companhia. Era a especialidade da Warner esse tipo de filme policial que tratava de gente ligada ao mundo do crime. Foram com esses filmes que astros como James Cagney, Edward G. Robinson e Humphrey Bogart solidificaram suas carreiras e entraram para a mitologia de Hollywood. Dos títulos lançados nessa coleção, quatro deles são estrelados por James Cagney. Além dos dois filmes que comento logo abaixo, ainda tenho pra ver, com Cagney, os filmes HERÓIS ESQUECIDOS (1939) e FÚRIA SANGUINÁRIA (1949), os dois dirigidos por Raoul Walsh. Por enquanto, vamos de O INIMIGO PÚBLICO (1931) e ANJOS DE CARA SUJA (1938).

Os DVDs trazem extras bem atraentes, sendo que a melhor coisa são os documentários sobre o filme, que tendem a valorizar ainda mais a obra, uma vez que passamos a entender o filme dentro de um contexto. Além disso, podemos viajar no tempo e ver também os trailers, mini-documentários, desenhos animados e curtas-metragens que abriam a atração principal da noite nos cinemas. Como naquela época não existia televisão, ir ao cinema era também um programa informativo. Ah, os DVDs contêm também áudio de comentário de críticos de cinema. Pena que esse é o único extra que não vem com legendas em português, o que acaba sempre me deixando com preguiça de conferir.

O INIMIGO PÚBLICO Nº 1 (The Public Enemy)

Esse era o filme que Howard Hawks tinha como referência quando fez o seu SCARFACE (1932). Ele tinha a missão de superá-lo. E a tarefa não era fácil. Mesmo com todos os problemas típicos dos filmes do início dos anos 30 - tendência a teatralizar os filmes, os diretores abusavam de diálogos e câmeras fixas etc -, O INIMIGO PÚBLICO Nº 1 é uma obra forte que tem um dos finais mais chocantes da história do cinema. Esse filme, junto com ALMA NO LODO (1930, também presente no pacote da Warner), serviria como modelo para os filmes de gângster que a gente conhece hoje, em especial as obras de Martin Scorsese. O cineasta é uma das principais atrações no documentário "Cerveja e Sangue: Os Inimigos Públicos" (19 min), constante no DVD. Vendo a performance de Cagney, comecei a suspeitar que o personagem de Joe Pesci em OS BONS COMPANHEIROS pode ter sido uma homenagem a Cagney. (Será?) Scorsese mencionou o fato de que Jean Harlow era contratada de Howard Hughes e foi emprestada para a Warner para o seu papel em O INIMIGO PÚBLICO Nº 1. Interessante que ela não tem um papel muito importante na trama (e nem acho a moça bonita), mas ela realmente rouba a cena nas poucas vezes em que aparece. Há uma intrigante cena em que ela trata Cagney como uma criança e lhe oferece o seio para conforto.

Cagney não era um exemplo de cavalheiro para as mulheres. Um dos destaques do filme é a cena em que ele esfrega um grapefruit no rosto de sua namorada. Além do mais, seu cumprimento carinhoso, até com a própria mãe, é sempre um leve murro no rosto. Mas isso não é nada comparado ao que ele faz no filme O MULHERENGO (1933), onde ele arrasta uma mulher pelo cabelo e em seguida dá-lhe um pontapé no traseiro, em cena mostrada no documentário.

A direção de O INIMIGO PÚBLICO Nº 1 é de William A. Wellman, que tem no currículo a obra-prima CONSCIÊNCIAS MORTAS (1943), cujo lançamento em DVD, de acordo com Sergio Andrade, do blog Kino Crazy, está entre os planos da ClassicLine para o mês de outubro. CONSCIÊNCIAS MORTAS é um dos meus dez westerns favoritos.

ANJOS DE CARA SUJA (Angels with Dirty Faces)

Em 1938, o cenário do cinema era bem diferente da época de INIMIGO PÚBLICO Nº 1. O cinema falado havia evoluído bastante na técnica, tanto que ANJOS DE CARA SUJA passaria fácil como um filme dos anos 50. Um outro detalhe importante é que o filme representa uma das retomadas da Warner aos filmes de gângsteres, que foram proibidos durante alguns anos, sob a alegação de que eles glorificavam o crime. Diferente de sua performance em INIMIGO PÚBLICO Nº 1, exageradamente diabólica, em ANJOS DE CARA SUJA, filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, Cagney já tem um desempenho mais humano, com momentos mais suaves. Nesse filme, ele tem um amigo de infância que se torna padre (interpretado pelo amigo Pat O'Brien), ao mesmo tempo em que ele vai se tornando um dos criminosos mais perigosos da cidade. A amizade dos dois é mostrada de forma bem bonita e o caminho que eles escolhem para suas vidas acaba por torná-los quase que inimigos.

Um dos destaques do filme é o par romântico de Cagney, a bela Ann Sheridan, uma graça de mulher. Humphrey Bogart, na época, ainda não era um astro, mas apenas um contratado da Warner. Ele faz o papel do principal inimigo de Cagney. A fotografia do filme é belíssima e lembra, até pela figura do padre e da presença gótica das igrejas, A TORTURA DO SILÊNCIO, de Alfred Hitchcock. Por falar em Hitchcock, no documentário presente no DVD, um crítico de cinema chega a dizer que Michael Curtiz só perdia para Hitchcock em se tratando de quantidade de grandes filmes no currículo. Eu, como nunca fui muito fã de Curtiz, nem de CASABLANCA (1942), ainda estou para conhecer e avaliar melhor a obra do homem. Em ANJOS DE CARA SUJA, senti que algumas cenas poderiam ser menores, como a do jogo de basquete com os "Dead End" Kids, por exemplo. Em vários momentos do filme eu fiquei um pouco cansado. Mas o final é realmente empolgante e deixa uma ótima impressão na gente.

Curtas-metragens presentes no DVD de O INIMIGO PÚBLICO Nº 1:

THE EYES HAVE IT (9 min). Como o cinema falado ainda era uma novidade nessa época, o curta mostra um pequeno quadro com um boneco e um ventríloquo.

SMILE, DARN YA, SMILE! (7 min). Desenho animado musical ainda bem primitivo, mas bastante simpático, protagonizado por um ratinho parecido com o Mickey.

Curtas-metragens presentes no DVD de ANJOS DE CARA SUJA:

OUT WHERE THE STARS BEGIN (19 min). Meio chatinho. Deve ter cansado a platéia que estava esperando pela atração principal em 1938. Ou não. Sei que não tenho muita paciência para musicais com números coreografados. O começo do curta é mais interessante, funcionando como um veículo de propaganda para a Warner. Pelo menos a fotografia em technicolor é lindona e lembra bastante OS SAPATINHOS VERMELHOS, de Powell e Pressburger.

PORKY AND DAFFY (7 min). Patolino e Gaguinho numa luta de boxe. Desenho animado em preto e branco que já se aproximava do padrão dos desenhos dos Looney Tunes.

sexta-feira, setembro 16, 2005

OLHOS ABERTOS (Wide Awake)



OLHOS ABERTOS (1998) é o tipo de obra que só ganha um valor maior hoje, se visto como embrião do que se tornaria M. Night Shyamalan nos filmes posteriores. O filme está longe de ser tão bom quanto os seus quatro títulos seguintes - que, pra mim que sou entusiasta do trabalho do homem, são quatro obras-primas -, mas é um bom filme e é um ótimo exercício de verificação dos temas de Shyamalan.

A história também é envolvente. Joshua é um garotinho de dez anos. Quando o seu querido avô morre, ele entra com a missão de falar com Deus, a fim de saber se o avô está bem, lá do outro lado. Como era de se esperar, a busca por Deus não é fácil e no meio do caminho ele se vê desanimado pelo ceticismo. A perda da fé iria ser melhor trabalhada em SINAIS (2002).

OLHOS ABERTOS serviu também como uma preparação para O SEXTO SENTIDO (1999), tanto pelo trabalho excelente com um ator infantil quanto pelo tema da chegada da morte, virando do avesso a vida das pessoas. Se hoje ele é de vez em quando comparado a Steven Spielberg, principalmente por trabalhar tão bem com crianças, é que talvez ele tenha sido mesmo influenciado por Spielberg. Dizem que quando ele tinha 12 anos de idade, Shyamalan foi ao cinema assistir CAÇADORES DA ARCA PERDIDA e isso mudou a sua vida para sempre. Foi a partir daquele momento que ele decidiu se tornar cineasta.

Assim como o garotinho de OLHOS ABERTOS, Shyamalan também estudou em escola católica. E como o roteiro do filme é de sua autoria, fica fácil imaginar que o personagem deve ter algo de autobiografia. Gosto de uma cena em que Joshua pergunta para sua professora se o seu tio irá para o inferno, já que ele não era batizado. Isso agitou a classe e a professora ficou sem saber o que responder. Qualquer resposta que ela dissesse iria comprometê-la. Até lembrei de quando eu era criança, quando lia a Bíblia e ficava me perguntando se o tal lago de fogo ardente mencionado no Apocalipse era mesmo de verdade.

A parte que fala sobre prestar atenção nos sinais nos leva inevitavelmente ao filme SINAIS, o que confirma que Shyamalan tem uma forte crença de que nada acontece por acaso. Em OLHOS ABERTOS, há uma cena interessante, quando Joshua resolve, sem mais nem menos, visitar o seu amigo com a mãe. Outra coisa que liga OLHOS ABERTOS a SINAIS: o filme é todo dividido em capítulos, sendo que um deles se chama justamente "The Signs".

O filme vai ganhando força à medida que vamos conhecendo o avô de Joshua, através dos flashbacks. Lá pelo final, vai ficando fácil pra gente entender porque Joshua gostava tanto de seu avô. Uma das cenas mais emocionantes é uma que mostra seu avô o recebendo de braços abertos, depois de ele ter caído numa brincadeira de corrida com os colegas da escola. A relação pai-filho se tornaria uma constante em todos os outros filmes do diretor, o que faz com que muita gente considere Shyamalan um babaca ou algo do tipo. Eu, já o admiro bastante. E no próximo ano tem LADY IN THE WATER.

quinta-feira, setembro 15, 2005

DOIS FILMES COM LUCÉLIA SANTOS



Lucélia Santos é uma das atrizes brasileiras mais famosas do mundo. Isso, graças ao sucesso internacional da novela ESCRAVA ISAURA (1976), que até hoje é reprisada em vários países. No Brasil, ela esteve presente em vários filmes representativos dos anos 80. No mesmo ano de BONITINHA MAS ORDINÁRIA (1981), ela protagonizou outro filme baseado em Nelson Rodrigues, que foi ENGRAÇADINHA. No cinema, só tive a oportunidade de ver Lucélia em KUARUP (1989), de Ruy Guerra, filme que até hoje guardo com carinho na memória, graças à generosa galeria de celebridades brasileiras que aparecem peladas. O cinema brasileiro dos anos 70 e 80 foi um dos mais generosos nesse sentido e isso pode ser visto nesses dois filmes que eu revi recentemente, graças aos Intercines da Rede Globo.

BONITINHA MAS ORDINÁRIA (OU OTTO LARA REZENDE)

- "Negrooooo!!"

- "O mineiro só é solidário no câncer."

- "A única coisa que presta no mundo é o sexo...desde a punheta!! Hahahaha!"

- "Você é um ex-contínuo"
- "Eu sou um ex-contínuo e você é um filho da puta! Um filho da puta!!"

- "Me fode, Cadelão!"

Poucos filmes brasileiros têm momentos tão memoráveis quanto BONITINHA MAS ORDINÁRIA, de Braz Chediak. Claro que o principal mérito do filme está no texto de Nelson Rodrigues, sujeito que falava sobre a decadência da família e da sociedade brasileira como ninguém. Nesse filme, José Wilker é um empregado de uma empresa que é escolhido para se casar com a filha do dono, que, dizem, sofreu um pequeno acidente e perdeu a virgindade. Contaram pra ele que ela (Lucélia Santos) fora estuprada por cinco negões e a família queria abafar o caso, resolvendo arranjar logo um noivo para a moça. Como ele ia receber uma bolada com o negócio e andava numa liseira dos diabos, a proposta era interessante, apesar da humilhação de ser chamado de ex-contínuo e da insinuação de que ele era tão sem caráter quanto o Peixoto (Milton Moraes), o pau mandado do chefe. O problema é que Wilker é apaixonado pela vizinha (Vera Fischer), que é uma "coisinha". Realmente Vera estava no auge da beleza na época desse filme. Ela tinha protagonizado uma série de filmes de sucesso. Uma das cenas memoráveis do filme é uma que mostra Wilker levando Vera para uma caverna, tira a roupa dela e aparece um mendigo gritando "Eu quero também, eu quero também!"

Por falar em coisas memoráveis, até hoje não entendi a tal frase do mineiro, exaustivamente citada durante o filme. Mas quem liga pra isso? O importante é rever Lucélia Santos sendo currada pelos negões; ver suas falas mais constrangedoras; ver o quanto Vera Fischer era gostosa na juventude; rir com a cena do cara vendo pornô com as três irmãs (uma delas, a Cláudia Ohana) e sua velha mãe louca (Miriam Pires), enquanto masturba uma das meninas, falando que a única coisa que presta no mundo é o sexo; ver a miséria que eram os banheiros sem descarga; ver a cena da orgia e outros momentos de nudez gratuita. Comparando com outros filmes baseados em Nelson Rodrigues, continuo achando OS SETE GATINHOS, de Neville D'Almeida, imbatível. Bem mais trágico, chocante e apelativo. E no elenco de coadjuvantes, não podia faltar o velho Wilson Grey.

AS SETE VAMPIRAS

Se BONITINHA MAS ORDINÁRIA tinha um aspecto ainda de filme dos anos 70, AS SETE VAMPIRAS (1986) é puro anos 80, com direito a seqüência videoclipe de Leo Jaime, um dos principais representantes da new wave brazuca da época. São também a cara da década, aqueles penteados e aquela maquiagem horríveis. É uma típica comédia de horror de Ivan Cardoso, cheia de referências aos filmes preferidos do diretor e de R. F. Luchetti, que fez o roteiro do filme, como PSICOSE, de Alfred Hitchcock, e A PEQUENA LOJA DOS HORRORES, de Roger Corman. Juntando-se isso com os Dráculas da Hammer e os filmes dos Trapalhões, deu nessa divertida comédia, que também faz questão de mostrar mulher pelada, entre elas Simone Carvalho, uma das minha musas na infância. Vendo o filme nos dias de hoje, já não acho ela tão bonita. Na história, homem é atacado por uma planta carnívora. Segue-se, depois, uma série de assassinatos que parecem ataques de vampiros. O filme praticamente não tem protagonistas. É mais um desfile de carinhas conhecidas, brincando com suas próprias personas. Além de Nuno Leal Maia, Andréia Betrão, Lucélia Santos e Nicole Puzzi, AS SETE VAMPIRAS ainda tem a participação especial de Dedé Santana, Colé Santana, Tião Macalé, John Herbert, Zezé Macedo, Ivon Cury, Pedro Cardoso e Wilson Grey (o homem estava em todas).

quarta-feira, setembro 14, 2005

A MISTERIOSA MORTE DE NATALIE WOOD (The Mystery of Natalie Wood)



Acho curioso o fato de o filme que eu mais gostei de Peter Bogdanovich ter sido justamente um trabalho para a televisão. Bogdanovich há algum tempo anda afastado do cinema. Tirando THE CAT'S MEOW (2001), ainda inédito no Brasil, o diretor tem trabalhado apenas na televisão desde 1995. A MISTERIOSA MORTE DE NATALIE WOOD (2004) é uma mini-série em duas partes sobre a vida de uma das mais carismáticas e belas atrizes de Hollywood. Já faz algum tempo que eu sou apaixonado pela beleza e pela graça de Natalie e ver esse filme aumentou ainda mais a minha admiração por ela, só comparável talvez ao que eu sinto por Grace Kelly.

Um dos trunfos do filme é misturar uma narrativa convencional, contando a vida de Natalie desde a infância até sua morte, com entrevistas de pessoas que conviveram com a atriz e imagens de arquivo e de filmes que ela fez. Há depoimentos de familiares, amigos e atores que trabalharam com ela, sendo que alguns eventos são apenas contados e não dramatizados.

Pra quem, como eu, tem interesse na vida das celebridades de Hollywood, A MISTERIOSA MORTE DE NATALIE WOOD é um prato cheio. O filme começa com a noite da morte de Natalie, encontrada morta no mar, perto de um barco. Depois, voltamos no tempo e ficamos sabendo que quando ela era pequena, sua mãe fez uma consulta a uma cigana e esta lhe disse que ela teria uma filha muito famosa, mas que provavelmente morreria afogada. Por isso, Natalie cresceu com esse medo da água, já que sua mãe a deixara temerosa, acreditando piamente na profecia da cigana. E o mais sinistro de tudo é que ela realmente morreu afogada.

Não era apenas da água que Natalie tinha medo. Ela tinha várias outras fobias. Não gostava de ficar sozinha, por exemplo, e tinha um problema em não saber dizer quem ela era de fato, já que confundia a persona pública com quem ela era na intimidade. Provavelmente por ela ter sido uma atriz de Hollywood desde a infância, tendo trabalhado, inclusive, com gente do porte de Orson Welles, Barbara Stanwyck e o diretor Joseph L. Mankiewicz.

Mas o estouro e a transformação em estrela viria com JUVENTUDE TRANSVIADA (1955). Já tinha ouvido falar que o diretor Nicholas Ray havia seduzido a moça. Nesse filme, isso fica bem evidente, inclusive, ajudando a alimentar a fama do diretor de sedutor de suas próprias atrizes. Há uma cena mostrando Ray seduzindo outra garota depois do término das filmagens do título que uniria as vidas de Natalie Wood e James Dean.

As mortes de James Dean e Marilyn Monroe afetaram profundamente Natalie. Quando da morte de Dean, ela chegou a dizer que gostaria de ter estado no carro com ele, de ter morrido com ele. Já a morte de Marilyn fez com que ela refletisse sobre a crueldade do showbizz. Ela havia encontrado Marilyn numa festa, e esta havia dito que estava triste, pois já tinha 36 anos e estava acabada para Hollywood, que havia se tornado uma piada. Natalie se identificou um pouco com a crise de identidade da atriz.

Antes da morte de Marilyn, em 1962, muita coisa aconteceu com Natalie: o estupro sofrido, o acidente de carro com o doidão Dennis Hopper, o casamento com Robert Wagner, a crise no casamento, ela conhecendo Warren Beatty nas filmagens de O CLAMOR DO SEXO (1961), a indicação ao Oscar por AMOR, SUBLIME AMOR (1961), perdendo para Sophia Loren...

Na sua vida, os momentos de maior emoção lidam com o difícil relacionamento com a mãe e o envolvimento amoroso com Robert Wagner, que foi o homem de sua vida. Wagner é mais conhecido por ter protagonizado a famosa série de televisão CASAL 20. Um dos momentos mais bonitos do filme é quando ele está separado dela e encontra-a grávida de outro homem. Sentimos a dor da saudade nesse momento no olhar dos dois.

A atriz que interpreta Natalie (Justine Waddell), pode não ter a mesma beleza da verdadeira, mas empresta força a uma personagem que, paradoxalmente, tinha medo da vida, mas a vivia plenamente. Natalie Wood era uma pessoa que mesmo jovem tinha consciência da transitoriedade da vida. Vale destacar também a seqüência da morte de Natalie - vocês sabiam que Christopher Walken estava no iate no dia da morte da atriz? Mesmo sabendo que se trata de algo de que ela não vai escapar, ainda assim, sentimos sua aflição ao tentar fugir do destino previamente determinado. Bogdanovich, homem que tem um histórico de dores e tragédias na vida pessoal, não nos poupa, compartilhando com a gente um pouco dessa dor. Como se a dor alheia fosse um pouco a nossa dor também.

Gravado do Hallmark.

P.S.: Quem quiser ver uma galeria de fotos de Natalie Wood, eis o link.

terça-feira, setembro 13, 2005

A TALE OF TWO SISTERS (Janghwa, Hongryeon)



Já faz uns dois meses que vi A TALE OF TWO SISTERS (2003), de Ji-woon Kim, um dos maiores representantes desse novo e criativo cinema sul-coreano. Como eu me perdi "um pouco" na história, não entendendo direito as revelações e os flashbacks do final, minha intenção era rever o filme para, só então, falar sobre ele aqui no blog. Pena que nesse fim de semana, ao colocar o disquinho no meu CD-ROM, ele não tocou. Deve estar com algum defeito. Uma pena. Antes que eu faça o download de uma nova cópia, vou logo escrever um pouco sobre o filme, tentando puxar da memória, até pra tirá-lo da minha listinha de obrigações. Numa outra ocasião, eu revejo com mais calma. Quem sabe quando eu comprar o meu DVD player que toca divx - ver filmes na tela do computador dá uma preguiça...

Uma das coisas que mais chama a atenção em A TALE OF TWO SISTERS é a parte técnica. A fotografia é de encher os olhos de tão bonita que é. A trilha sonora, com um belíssimo uso de música clássica, é também digna de nota.

Na trama, pai volta para casa com suas duas filhas adolescentes, depois de um tempo longe de casa. A mãe das meninas está morta e elas começam a entrar em conflito com a madrasta malvada. O bicho começa a pegar quando começam a aparecer estranhos ruídos na casa durante a noite. Ao mesmo tempo, uma das irmãs começa a sofrer violência verbal e física da madrasta. O final é surpreendente, com uma revelação bombástica do pai das meninas. Foi nessa hora que meu cérebro deu um nó e eu fiquei sem entender um monte de coisas. Definitivamente, A TALE OF TWO SISTERS é filme pra se ver pelo menos duas vezes.

Fiquei até mais tranqüilo lendo os comentários sobre o filme de alguns usuários do IMDB que também tiveram dificuldade de entender a trama. Alguns usuários do site ofereceram interpretações para o quebra-cabeças.

Quanto ao diretor Ji-woon Kim, está com filme novo, A BITTERSWEET LIFE (2005), que está sendo comparado aos trabalhos estilosos e violentos de Chan-wook Park, inclusive também se utilizando da temática da vingança.

P.S.: Tem coluna nova no ar no CCR. Dessa vez, o assunto é cinema nos tempos de internet.

segunda-feira, setembro 12, 2005

VÔO NOTURNO (Red Eye)



Depois do desastroso AMALDIÇOADOS (2005), Wes Craven retorna com um filme mais satisfatório. VÔO NOTURNO (2005) é um filme curtinho mas bem tenso e eficaz sobre moça que trabalha de atendente de um hotel - Rachel McAdams, que também está nas telas em PENETRAS BONS DE BICO - que é ameaçada por um terrorista - Cillian Murphy, mais conhecido pelo papel do perturbador vilão Espantalho de BATMAN BEGINS. Ele a chantageia com a ameaça de matar o seu pai, para que ela o ajude a assassinar um importante político que está hospedado em seu hotel.

A maior parte do filme se passa no interior do avião. O início, com Murphy abordando "acidentalmente" a gentil moça, até poderia ser confundido com uma comédia romântica, mas Craven não tem a menor sensibilidade para conduzir um filme desse tipo. Além do mais, Murphy tem o rosto muito estranho para ganhar nossa simpatia.

Em certo momento do filme, a lembrança do episódio piloto de LOST é inevitável. Há também alguma semelhança com PREMONIÇÃO, principalmente nos momentos em que a câmera passeia pela aeronave, mostrando os poucos coadjuvantes que irão, de alguma maneira, fazer parte da trama. Há quem reclame do último ato do filme, que lembra muito a série PÂNICO, com o assassino correndo com uma faca na mão e a heroína fugindo feito louca. Mas eu gostei asssim mesmo, especialmente por conta das cordas vocais do vilão.

Engraçado que hoje em dia não se fazem mais scream queens como antigamente. As mulheres de hoje são muito mais fortes, menos frágeis, como também se pode ver na nova versão de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, com a gostosíssima Jessica Biel, arrancando o braço do "cara-de-couro".

Meu top 5 Wes Craven:

1. A MALDIÇÃO DOS MORTOS-VIVOS
2. PÂNICO
3. QUADRILHA DE SÁDICOS
4. PÂNICO 2
5. O NOVO PESADELO - O RETORNO DE FREDDY KRUEGER

domingo, setembro 11, 2005

FLECHAS ARDENTES / FLECHAS DE FOGO (Broken Arrow)



Esse foi o meu primeiro filme de Delmer Daves, diretor importante dentro do cinema americano clássico, mas geralmente pouco lembrado - nem está na lista de grandes diretores do Senses of Cinema ainda. Mas está entre os 31 cineastas importantes do livro "O Cinema Americano dos Anos Cinqüenta", de Olivier-René Veillon. Daves consagrou a década de 50 quase que inteiramente ao western. Ele resolvera se tornar cineasta depois de passar três meses no deserto do Arizona, em isolamento completo.

FLECHAS ARDENTES (1950) é um western saboroso, desses que contam muito bem uma história e nos apresentam personagens históricos que se tornaram mito, como o líder apache Cochise ou o rebelde Geronimo. O filme se passa em 1870, época dos conflitos entre os apaches e os brancos no território do Arizona. James Stewart é um homem que advoga para si mesmo a missão de entrar em acordo com Cochise (Jeff Chandler), homem temido pelos brancos e tido como um guerreiro perverso. A intenção inicial é pedir aos apaches que deixem passar os carteiros. Ao chegar lá sozinho e tendo aprendido a língua dos apaches, Stewart ganha o respeito do líder, formando ali uma amizade que os brancos não conseguiam entender. Pra completar, ele ainda se apaixona por uma jovem índia, interpretada por Debra Paget.

O filme é narrado de forma bem tradicional, com direito a narração em off do personagem de Stewart. O que o difere da maioria dos westerns do período é a questão do índio, vista com um olhar mais humanista e romântico. FLECHAS ARDENTES foi o primeiro filme classe A de Hollywood a tratar o índio como gente. James Stewart imprime ao herói do filme toda uma gentileza que já é típica da carreira do ator no gênero, diferindo-o de caubóis durões como John Wayne, Charles Bronson ou Clint Eastwood. Stewart, nos anos 50, estava protagonizando uma série de westerns para o cineasta Anthony Mann. FLECHAS ARDENTES foi feito no mesmo ano da obra-prima WINCHESTER 73, de Mann.

Vi que na locadora onde alugo esses DVDs também tem GALANTE E SANGUINÁRIO (1957), filme tido como ainda mais representativo do cinema de Delmer Daves.

quinta-feira, setembro 08, 2005

HOWARD HAWKS EM DOIS FILMES



Uma pena que Howard Hawks não tenha o mesmo prestígio que Alfred Hitchcock tem no mercado de DVDs. Não há muitos filmes dele disponíveis em vídeo no Brasil. E eu estou gostando tanto dos filmes dele que dá vontade de ver a filmografia completa, enquanto leio a entrevista do livro "Afinal, Quem Faz os Filmes". Fiquei, por exemplo, muito curioso para ver SUPREMA CONQUISTA (1934), uma de suas primeiras comédias malucas, e que recebeu bastante destaque na entrevista do livro. Dessa vez, pude (re)ver duas obras-primas que são a cara de Hawks: LEVADA DA BRECA (1938), talvez a mais famosa das screwball comedies, e O PARAÍSO INFERNAL (1939), drama de aviação considerado um dos mais arquetípicos da filmografia do diretor. Os dois filmes são estrelados por Cary Grant, ator que trabalharia com Hawks em mais três filmes: JEJUM DE AMOR (1940), A NOIVA ERA ELE (1949) e O INVENTOR DA MOCIDADE (1952).

LEVADA DA BRECA (Bringing up Baby)

Não se fazem mais comédias como antigamente. Poucas vezes eu dei risadas tão gostosas quanto nesse fim de semana, vendo Cary Grant todo bobão correndo atrás de um cachorro durante um jantar com a família da personagem de Katherine Hepburn. Por falar em Kate, fica muito fácil lembrar de Cate Blanchett interpretando Hepburn em O AVIADOR. Principalmente na cena do campo de golfe. De acordo com o que Hawks falou na entrevista, as cenas com o cachorro e o leopardo deram um trabalho dos diabos. Mas o diretor não desistiria e ainda faria cenas ainda mais trabalhosas envolvendo bichos em HATARI! (1962).

LEVADA DA BRECA dá de dez no remake de Peter Bogdanovich - ESSA PEQUENA É UMA PARADA (1972). Talvez porque a graça das comédias malucas esteja no clima dos anos 30. Interessante que o título nacional dos dois filmes, o original e a refilmagem, são representativos do tipo de título adotado no Brasil nos anos 30 e 70. A comédia é o gênero que mais costuma se utilizar das gírias da época. Exemplo de título atual: PENETRAS BONS DE BICO.

O PARAÍSO INFERNAL (Only Angels Have Wings)

Impressionante como Cary Grant desempenhava com a mesma excelência papéis cômicos e papéis dramáticos. Em O PARAÍSO INFERNAL, ele é um piloto de aviões que trabalha de entregar correio e mercadoria num pequeno aeroporto de um país da América do Sul. O lugar é muito perigoso por estar com o tempo constantemente nublado. Além do mais, tempestades são uma constante lá. O trabalho de piloto é semelhante ao trabalho de um soldado numa guerra: nunca se sabe se a pessoa vai conseguir sobreviver. Cary Grant só aparece depois de vinte minutos de filme. Antes disso, nós somos apresentados à personagem de Jean Arthur. Assim como Elsa Martinelli em HATARI!, essa mulher chega para ficar no grupo formado em sua maioria por homens. E assim como em HATARI!, ela se apaixona por um dos líderes do grupo. Há semelhanças também entre os personagens durões de Cary Grant e John Wayne.

Nos filmes de Hawks, há uma espécie de ausência do núcleo familiar. A família é o grupo de amigos. A mulher chega de longe e se identifica com o lugar, mesmo ele sendo árido ou perigoso. A mulher nos filmes de Hawks é bastante ativa. No relacionamento amoroso é ela que passa a cantada, é ela que dá o primeiro passo. Hawks achava ridículo homens passando cantada. Outra característica comum dos filmes de Hawks é que dificilmente há espaço para o choro. Mesmo em momentos de extrema tristeza. E há muitos em O PARAÍSO INFERNAL. Hawks, ao matar um dos primeiros personagens apresentados no filme mostra o quão perigoso é o trabalho daqueles homens.

O diretor era fanático por aviação. Antes de O PARAÍSO INFERNAL, já tinha feito três filmes ambientados nesse universo: PATRULHA DA MADRUGADA (1930), HERÓIS DO AR (1935) e PILOTO DE PROVAS (1938). As cenas de vôo, o suspense causado pela iminência do perigo, o som do avião, tudo isso contribui para a excelência do filme. Há uma cena particularmente digna de nota, que é a cena do pássaro atravessando o para-brisa do avião.

O PARAÍSO INFERNAL foi também o primeiro filme importante estrelado por Rita Hayworth, que viraria mito em 1946, com GILDA, de Charles Vidor.

quarta-feira, setembro 07, 2005

PENETRAS BONS DE BICO (Wedding Crashers)



Em UM GRANDE GAROTO, Hugh Grant se infiltrava num grupo de mães solteiras para se aproveitar da fragilidade das mulheres e poder dar uns amassos. Em PENETRAS BONS DE BICO (2005), temos dois homens, interpretados por Owen Wilson e Vince Vaughn, que entram de gaiatos em cerimônias e festas de casamento para se dar bem com as damas de honra, aproveitando-se do clima de romance no ar.

Boa parte da crítica está adorando o filme. Na revista SET deram nota 9 (se bem que eles dão nota boa pra todo filme de destaque) e na Folha de São Paulo de hoje o filme recebeu cotação máxima. Eu já não me entusiasmei tanto assim. Não resta dúvida que é um filme simpático, mas pra quem leu uma matéria dizendo que as platéias riam sem parar, acabei ficando bastante decepcionado ao entrar no cinema e ver o filme recebido com certa frieza pelo público. Algumas risadas surgem, é verdade, mas nada de gargalhadas em volume alto. Sei que isso não é termômetro para se medir a qualidade de um filme, mas é um fator que pesa para esse tipo de filme, que tenta juntar a doçura das comédias românticas com as canalhices das comédias sexistas dos anos 80. De herança desse subgênero, aliás, há uma boa seqüência na mesa de jantar.

Pra quem sempre achou Vince Vaughn sem graça, até que eu gostei dele nesse filme. A cena do rapaz "esquisito" no quarto com ele é um dos destaques. Há uma boa participação de Will Ferrell, não creditado. Ele surge como um bônus surpresa para o público. A moça que faz o par romântico de Wilson é Rachel McAdams, de DIÁRIO DE UMA PAIXÃO. Ela tem um rosto que lembra o de Jennifer Garner, só que um pouco mais bonita (os fãs de ALIAS vão me jogar pedras agora). Falando em ALIAS, há também no filme a participação de Bradley Cooper, como o namorado malvado de Rachel McAdams. O diretor, David Dobkin, é o mesmo de BATER OU CORRER EM LONDRES (2003), com Jackie Chan e Owen Wilson. Bom, melhor eu parar por aqui. Isso está ficando parecido com ficha técnica. Texto sem o mínimo de inspiração, nem o autor agüenta.

segunda-feira, setembro 05, 2005

AMOR EM JOGO (Fever Pitch)



Os irmãos Farrelly estão ficando cada vez mais certinhos. Desde O AMOR É CEGO (2001) que se nota isso. Não há nada de errado com isso, mas para aqueles que eram considerados os reis do politicamente incorreto, não deixa de ser uma mudança estranha.

O fato de AMOR EM JOGO (2005) ser um filme de encomenda ajuda um pouco a entender isso. A idéia dos Farrelly na direção partiu de Drew Barrymore, outra ex-rebelde e chutadora de balde na adolescência que virou mulher de negócios e moça de família. Ainda que seja uma obra de encomenda, AMOR EM JOGO tem momentos tipicamente farrellianos, como a seqüência em que Jimmy Fallon vai ao apartamento de Drew e a encontra doente e vomitando. O cachorro come o vômito dela, mas nada disso é mostrado. Não sei se dá pra considerar como uma cena escatológica. Há também momentos de humor físico dos bons, como a cena da bola de beisebol arremessada na cabeça de Drew. Porém, o tom geral do filme é mesmo de comédia romântica tradicional.

No filme, Jimmy Fallon é um professor de matemática fanático pelo Red Sox, time de beisebol de Boston, que se apaixona por uma executiva (Drew Barrymore). A relação vai bem, mas ele teme que tudo vá por água abaixo quando começar a nova temporada de beisebol e ela perceber o quanto ele é entusiasmado pelo time. Essa foi a razão do fim de muitos namoros. O Red Sox é um time famoso por não ganhar um campeonato desde o início do século. O fato de o Red Sox ser um time de perdedores me despertou uma certa simpatia por eles. Ainda mais porque os seus torcedores nunca perdem a esperança de ver o seu time ganhando um dia. Assim a vitória é mais saborosa.

Apesar de eu não gostar de nenhum esporte - só gosto de futebol e de quatro em quatro anos - e de não entender o que leva uma pessoa a se identificar com a camiseta de um time e adorá-lo irracionalmente, eu, ainda assim, me identifiquei com o personagem de Jimmy Fallon. Afinal, eu também tenho uma obsessão, que é o cinema. E muitas vezes eu já me perguntei o quanto isso pode estar atrapalhando a minha vida sentimental. Inclusive, se um dia uma mulher me botar contra a parede, me fazendo escolher entre ela e o cinema, acho que eu fico com o cinema. A não ser que eu esteja muito apaixonado a ponto de me deixar levar pelas decisões dela. Mas será que eu conseguiria ser feliz? São perguntas que eu às vezes me faço.

Os momentos finais do filme são emocionantes. Quase me levam às lágrimas. Lembrando que eu fui um dos que choraram na cena dos garotinhos com câncer de O AMOR É CEGO. Acho que no fundo os Farrelly são uns românticos incorrigíveis e isso pode ser notado desde, pelo menos, QUEM VAI FICAR COM MARY? (1998). Há outra seqüência de arrepiar, que é quando toca no estádio "Sweet Caroline", de Neil Diamond, e a platéia canta em uníssono. Há também um momento mais intimista, ao som da linda "Northern Star", do Nick Drake.

P.S.: Entrou no ar hoje no Jornal O Povo uma matéria que destaca alguns blogs de cinema.

domingo, setembro 04, 2005

GAIJIN, OS DOIS FILMES



Caso raro de continuação no cinema brasileiro, os dois filmes GAIJIN, de Tizuka Yamasaki, são duas produções corajosas. A diretora não tinha nenhum filme no currículo quando teve a pretensão de fazer um filme contando a história da emigração japonesa para o Brasil do ponto de vista de uma mulher: Titoe, a personagem principal dos dois filmes e em ambos interpretada por Kyoko Tsukamoto. GAIJIN - CAMINHOS DA LIBERDADE (1980), eu assisti, graças a uma exibição recente na Rede Globo. Já GAIJIN - AMA-ME COMO SOU (2005), acabei de voltar de uma sessão do filme, com apenas outros quatro gatos pingados no Multiplex Iguatemi. É provável que o filme esteja sendo melhor recebido no Espaço Unibanco Dragão do Mar, onde também está em cartaz, já que o público das salas, teoricamente, é diferente.

GAIJIN - CAMINHOS DA LIBERDADE

O drama de ser estrangeiro não está apenas na história de Titoe e do grupo de japoneses que, fugindo da miséria que assola o Japão no início do século XX, vem para o Brasil para reconstruir suas vidas e trabalhar na lavoura, no interior de São Paulo. A intenção deles é ganhar dinheiro para poder retornar em alguns anos para o Japão. Além de sofrerem com uma viagem de barco extremamente cansativa, ao chegar no Brasil, eles ainda são explorados e humilhados pelos latifundiários, que os usam como mão-de-obra escrava, já que dinheiro, que é bom, só depois de um ano de trabalho. Mas, como eu falava no início, o drama de ser estrangeiro não está apenas na história japonesa, mas também na figura do nordestino, representado pelo Ceará (José Dumont), e dos italianos, liderados por Enrico (Gianfrancesco Guarnieri). Uma das cenas mais interessantes do filme é quando José Dumont fala sobre suas crenças nos santos do Catolicismo para um japonês que mal entende a língua, que dirá suas crenças. Pena que o filme, lá pela metade, vai perdendo a força. E o romance entre Tonho (Antônio Fagundes) e Titoe não convence. O não convencer, aliás, é um dos problemas de ambos os filmes. Há várias cenas que parecem interpretadas por um grupo de teatro amador. Mas isso pode ser relevado. Não sei se a Globo fez dublagem do japonês ou se o áudio era daquele jeito mesmo.

GAIJIN - AMA-ME COMO SOU

Essa continuação é melhor do que o filme original, apesar de também ter os seus problemas. É uma obra ainda mais pretensiosa que a anterior, já que cobre uma história de um século. O filme começa no Japão do início do século XX, quando Titoe ainda era uma garotinha e termina com ela velhinha, próximo dos dias atuais. Em todo esse tempo, fatos históricos importantes são citados, como a Guerra do Japão contra a China e a Rússia, a diáspora japonesa devido à crise, a participação do Japão na Segunda Guerra Mundial, com destaque para o ataque a Pearl Harbor e as duas bombas atômicas, o momento de crescimento brasileiro nos anos 50 e 60, o Governo Collor. É muita coisa para um filme só, mas ele ainda se propõe a falar dos relacionamentos amorosos de três gerações de mulheres. Felizmente, dessa vez arranjaram um dublador para o cubano Jorge Perugorría. Coisa que Ruy Guerra devia ter feito quando escalou o ator para o seu ESTORVO. Do elenco do filme anterior, há também a participação de Louise Cardoso. O filme recebeu um monte de prêmios em Gramado, mas a crítica não anda nada generosa. Durante o filme, eu até esqueci que Yamazaki é a diretora da pior experiência que eu tive dentro de uma sala de cinema: o dia em que assisti XUXA POPSTAR (2000). Mas eu juro que vi esse "filme" contra a minha vontade. Melhor não me lembrar pra não ficar com raiva.

sexta-feira, setembro 02, 2005

MATEI JESSE JAMES (I Shot Jesse James)



Filmaço essa obra de estréia de Samuel Fuller. Gostei mais até do que de O BEIJO AMARGO (1963). Assim como O BEIJO AMARGO era uma espécie de anti-noir, MATEI JESSE JAMES (1949) é um anti-western. Fuller apresenta a história pela porta dos fundos. Vemos o drama de Bob Ford, o homem que matou o lendário fora-da-lei Jesse James com um tiro pelas costas. Ele mata aquele que era o seu melhor amigo pelo amor de uma mulher e pela ânsia de liberdade.

Um dos momentos mais impressionantes do filme é quando o irmão de Jesse, Frank James, se aproxima de Ford e lhe diz que não vai matá-lo com uma arma, mas vai lhe dizer algo que vai acabar com a sua vida. O duelo final também é totalmente anti-convencional, com John Kelley atacando o oponente não com um tiro, mas através de seu ponto fraco: a culpa que ele carrega pelo assassinato de Jesse. Outra cena memorável: o encontro de Ford com o violeiro, que canta para ele, em versos, sua triste fama de traidor e covarde.

O filme também é famoso pelo uso abundante de close-ups, chegando a ser comparado a A PAIXÃO DE JOANA D'ARC, do Dreyer. Fuller fazia filmes totalmente diferentes do que se fazia na época. Foi um homem à frente do seu tempo que teve em seu favor o fato de fazer produções de baixo orçamento, tendo, assim, mais liberdade para inovar, para fazer filmes do jeito que desejava, para impor seu estilo e "contrabandear" à vontade. MATEI JESSE JAMES foi filmado milagrosamente em apenas 10 dias! Incrível como em tão pouco tempo é produzida uma jóia dessas. Com certeza, um dos melhores filmes que eu vi nesse ano. Não vai dar para esquecer a dor e o peso da culpa que Fuller imprime a Bob Ford.

quinta-feira, setembro 01, 2005

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS (Must Love Dogs)



A quinta-feira começou até normal. Pra variar, acordei com dor no corpo e indisposição, por conta do velho problema da laringite. A diferença é que hoje resolvi não ir trabalhar, aproveitando que quinta também é o meu dia de folga na escola. O problema é que quando tirei meu extrato e vi que minha conta-corrente estava estourada, sabia que tinha que ligar pro banco pra acatarem o cheque e ir a dois bancos do centro fazer transferência. Acabei ficando estressado do mesmo jeito. Ainda assim, apesar dos aborrecimentos e de eu passar a maior parte do dia meio deprimido, foi um dia tranqüilo. Fui ao cinema ver uma comédia romântica água com açúcar e aluguei uns filmes antigos na locadora, esses, sim, coisa fina.

PROCURA-SE UM AMOR QUE GOSTE DE CACHORROS (2005) não é grande coisa, mas combinou um pouco com o meu estado de espírito, ainda que tenha sido mal sucedido em me alegrar no final. Assim como acontece com a personagem de Diane Lane, alguns amigos já tentaram dar uma de cupido, tentando arranjar namorada pra mim. Em todas as vezes, deu errado.

O filme me fez lembrar do ano de 1999, que foi o ano que eu mais arrisquei e mais me esforcei para arranjar uma namorada. Como no filme, eu usei a internet para atingir meus objetivos: me cadastrei no Almas Gêmeas, entrava em chats marcando encontros, etc. Até que foram divertidos os encontros. Nenhum deles rendeu mais do que um beijo. Mas ao mesmo tempo, eu estava atacando em outros fronts e consegui recuperar minha auto-estima perdida através de uma amiga de uma amiga minha (por quem eu era apaixonado). Uma aventura erótica numa praia fez eu me sentir um Dom Juan. E, no final, acabei arranjando uma namorada numa viagem a uma cidade serrana. Tenho certeza que se eu não estivesse me sentindo tão confiante, isso não teria acontecido. É mais ou menos a situação em que eu me encontro agora. Só que agora eu estou bem mais preguiçoso de ir atrás de alguém, de começar tudo de novo.

Imagino o que não deve ser para alguém que está perto dos seus quarenta e passou um longo tempo casado e se vê solteiro de novo. Para a mulher, então, deve ser ainda mais difícil, já que a nossa sociedade não é muito generosa com as mulheres que passam dos quarenta. Esse é o drama dos personagens do filme. Eles se encontram sozinhos, porque seus parceiros os deixaram e ficar sozinho está fora de cogitação. Estar só é praticamente ser um loser, pelo que o filme dá a entender.

Parece que John Cusack finalmente está parecendo mais velho. Já está mais gordo. E Diane Lane já esteve no seu auge de beleza madura em INFIDELIDADE, mas ainda assim continua uma graça. Pena que o filme é meio bobo e no final ainda tenta imitar HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO, com cenas de casais dando depoimentos para a câmera. Ainda assim, acho que valeu ter visto. Me fez repensar a vida. E ainda tem uma cena legal ao som de "The First Cut Is the Deepest", da Sheryl Crow. Deu vontade de ouvir a canção agora.