sábado, janeiro 29, 2005

OS SONHADORES (The Dreamers / Les Innocents / I Sognatori)



Eis que finalmente estréia em Fortaleza OS SONHADORES (2003), de Bernardo Bertolucci. O filme tem um sabor especial para os cinéfilos, esses seres estranhos que adoram uma salinha escura e parecem participar de uma espécie de religião pagã, onde os deuses são os grandes diretores e astros das telas.

Desde que vi o trailer desse filme, com a primeira imagem de Michael Pitt, a nudez de Eva Green e o som de "Hey Joe", que fiquei entusiasmado para vê-lo. Sabia que se tratava de um filme especial. Gostei do fato de Bertolucci ter preferido não se ater muito à política e tratar mais do relacionamento dos três jovens e do fascínio que o cinema exerce sobre eles, quase sempre com rock and roll ao fundo. Fazendo dessa maneira, o diretor fez um filme poético, sem pressa de chegar a algum lugar, sem a preocupação de contar uma história redonda, apenas extraindo imagens de uma beleza hipnótica.

A história acontece na Paris de 1968. Naquela época Henry Langlois, diretor da Cinemateca Francesa, tinha sido demitido pelo Ministro da Cultura do presidente Charles De Gaulle, o que ocasionou protesto entre cinéfilos e cineastas. Inclusive, o célebre ator Jean-Pierre Léaud, que incorporou o mais importante dos personagens da Nouvelle Vague, o Antoine Doinel dos filmes de Truffaut, faz uma ponta no filme, refazendo o discurso de protesto contra a demissão de Langlois. Esse evento marcou o início de uma série de manifestações que culminaram no maio de 68, com muitos estudantes indo às ruas e enfrentando a polícia.

São várias as homenagens a grandes filmes. Ao longo do filme, vemos cenas de PAIXÕES QUE ALUCINAM, SCARFACE, BAND À PARTE, FREAKS, ACOSSADO, LUZES DA CIDADE, A VÊNUS PLATINADA, A RAINHA CHRISTINA, entre outros. Além disso, há a velha discussão sobre quem é melhor: Charles Chaplin ou Buster Keaton?; a famosa esnobada que os americanos davam a Jerry Lewis; e a entusiasmada frase de Godard, que dizia que "o cinema é Nicholas Ray". Ray, aliás, é o primeiro assunto discutido assim que os personagens de Michael Pitt e Louis Garrel se encontram.

Mas chega um momento em que as citações aos filmes são deixadas um pouco de lado (ou pelo menos deixam de ser explícitas) para que o filme possa se concentrar mais no relacionamento entre os jovens irmãos gêmeos Isabelle (Eva Green, em sua estréia no cinema) e Theo (Louis Garrel) com o jovem americano Mathew (Michael Pitt, de A VILA). Desde que se conhecem, Mathew acha estranha a relação entre os dois irmãos, que parece ser incestuosa. Uma das cenas mais memoráveis do filme é aquela que mostra a primeira transa de Isabelle com Mathew, no chão da cozinha, enquanto o irmão frita uns ovos.

A trilha sonora do filme é um espetáculo à parte: Jimmy Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Grateful Dead e no final tem a maravilhosa "Je ne regrette rien", na voz de Edith Piaf, deixando na boca um gostinho de saudade - até mesmo em quem não viveu naqueles anos.

OS SONHADORES é um dos grandes filmes de Bertolucci. Tem um ritmo que até pode incomodar a alguns, o final é meio atabalhoado, e às vezes dá impressão que Bertolucci não sabe o que fazer com tanta coisa junta no mesmo filme, mas dou graças aos deuses do cinema por esse filme existir.

P.S.: Pra quem gostou da linda Eva Green, a moça vai estar em KINGDOM OF HEAVEN, de Ridley Scott, filme sobre as Cruzadas no século XII. Pena que se trata de outro tipo de cruzadas.

P.P.S.: Várias pessoas já leram, mas quem quiser conferir um texto inédito meu intitulado "O amor no cinema - um top 5", é só entrar na sessão de colunas do site Cinema com Rapadura.

P. P.P.S: Pra não dizerem que eu só falo de mim e de mulher gostosa, deixo aqui uma dica de um blog sensacional: O Olho de Hochelaga, de Milton do Prado, direto de Montreal. No topo da página, tem um texto ótimo sobre O AVIADOR, de Martin Scorsese, que já está em cartaz no Canadá.

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