Não elaborarei agora, mas arriscaria dizer que O ESTRANGEIRO pode ser colocado facilmente num top 5 de François Ozon, esse cineasta incansável, que raramente atravessa um ano sem um filme novo. Nem sempre acerta, mas quando acerta fica uma coisa linda. Diria que seus últimos grandes filmes foram de cerca de uma década atrás, FRANTZ (2016) e O AMANTE DUPLO (2017). Assim como FRANTZ, adaptação de um filme de Ernst Lubitsch, este também é uma adaptação, só que mais complexa, pois literária, de uma novela homônima de Albert Camus, adaptada por Visconti em 1967. E, assim como em FRANTZ, Ozon optou por filmar em preto e branco, e o resultado é estupendo, além de muito coerente com o tempo em que se passa a história e com o caráter documental presente no olhar que ele pretende apresentar do apartheid social da Argélia nos anos 1930, um lugar onde espaços eram destinados apenas a franceses e filhos de franceses e proibidos a nativos. Como a sala de cinema em que é exibida a comédia de Marcel Pagnol, onde se passa determinada cena.
Ozon lança mais uma vez um olhar queer, que me pareceu bem-vindo para que o herói da história se apresente ainda mais “estrangeiro”, ainda mais deslocado frente à sociedade, especialmente quando enfrenta um julgamento que tem mais a ver com sua suposta falta de sentimento durante o enterro da mãe do que com o crime propriamente dito. Fiquei muito impressionado com a caracterização de Benjamin Voisin, que já havia trabalhado com Ozon em VERÃO DE 85 (2020), mas que só me chamou a atenção de verdade aqui. Voisin está perfeito como esse cara indiferente, apático, que não se empolga com a vida, não se comove com a morte da mãe, não se apega a amizades e não se apaixona.
E até poderia ser fácil atuar assim se esse herói também não passasse por uma virada em sua história que trouxesse um momento de percepção maior da existência, de epifania. E, nesse sentido, a cena de embate com um padre que vem falar com ele perto do final é ao mesmo tempo sublime e visceral. Nessa epifania, ele compreende os anos finais da própria mãe e valoriza a relação com Marie, vivida por Rebecca Marder, que havia trabalhado com Ozon na comédia criminal O CRIME É MEU (2023), embora eu prefira lembrar dela no belo A GAROTA RADIANTE em que faz uma personagem um pouco mais próxima da apresentada neste filme de Ozon, ou seja, uma personagem solar para contrastar com o protagonista distante de sentimentalismos.
A cena do assassinato do rapaz árabe ganha contornos de homoafetividade, embora tudo seja visto de maneira muito rápida. A câmera que representa o olhar do protagonista parece desejar o corpo daquele rapaz árabe, antes dos tiros. Não deixa de ser semelhante ao que acontece com os dois soldados de FRANTZ. As cenas do tribunal são igualmente impressionantes, destacando tanto a justiça francesa com tendência a desvalorizar o povo argelino, chamado generalizadamente de árabe, quanto o aspecto incomum da postura do réu, com uma honestidade tal que, mesmo não acreditando em Deus, é a pessoa que mais se assemelha a Jesus no calvário.
A fotografia em preto e branco de Manu Dacosse, o mesmo do coloridíssimo O BRILHO DO DIAMANTE SECRETO, tanto funciona para dar um ar documental ao filme, quanto para enfatizar a revelação do herói, sua percepção quase espiritual da existência. Nesse sentido, O ESTRANGEIRO é uma especie de filme-irmão de um dos meus favoritos de Ozon, O TEMPO QUE RESTA (2005).
+ TRÊS FILMES
O MAGO DO KREMLIN (Le Mage du Kremlin)
Depois de uma obra-prima como PERSONAL SHOPPER (2016), até que seria fácil aceitar filmes menos inspirados de Olivier Assayas. Mas mesmo depois do horrível e esquecível WASP NETWORK – REDE DE ESPIÕES (2019), eu não estava preparado para este O MAGO DO KREMLIN (2025), que até pode parecer interessante, por contar um pouco dos bastidores do governo de Putin na Rússia (o Jude Law está bem, personificando o líder autocrata). Mas quem diria que eu ia concordar com Quentin Tarantino e perceber que Paul Dano é mesmo insuportável? O cara não funciona nem como corno de alma ferida, nem como pessoa associada às artes e muito menos como um estrategista, ainda que um tanto passivo, braço direito de Putin. Assayas segue demonstrando seu interesse em geopolítica ao abraçar esse projeto, mas a cena final e os vários finais falsos são uma prova de que ele estava perdido na adaptação da obra literária. São mais de 2h30 que parecem não ter sentido, o que é uma pena, pois havia elementos muito interessantes a serem explorados (gosto especialmente da parte que fala da Rússia imediatamente com o fim da União Soviética). O próprio personagem do Putin é mal explorado, assim como o interesse amoroso do protagonista, vivida por Alicia Vikander, que esteve muito bem na minissérie de Assayas, IRMA VEP (2022). Fico no aguardo, ainda, do retorno à boa forma do realizador.
THÉRÈSE
Minha esposa Giselle há um tempo cita Santa Terezinha. Falou para mim sobre ela, sobre o cheiro de flores e outros aspectos sobrenaturais. E por isso quando vi este filme de Alain Cavalier disponível num fórum de compartilhamento fiquei logo interessado em ver e mostrar a ela. O legal é que mesmo sendo bem arthouse e tendo um tipo de desidratação do sentimentalismo que faz lembrar o cinema de Bresson, é difícil não ficar com a memória de várias imagens da história desta jovem que morreu tão cedo e foi canonizada no início do século XX. Thérèse de Lisieu é apresentada em cenas bem curtas. Ou seja, apesar do minimalismo (também no cenário) totalmente coerente com a vida de extrema simplicidade das freiras carmelitas, há certo dinamismo no filme que nos atrai. Na trama, Thérèse é a terceira das quatro irmãs que bem jovem ingressa no convento, mesmo com toda a dificuldade por causa da idade e pela questão do pai, que ficaria só com uma filha para lhe fazer companhia. A moça é tão firme no que deseja que chega a buscar as instâncias superiores da igreja. Considero um destaque o sorriso da heroína, mesmo nos momentos de dor. É bonito ver sua fé intacta e seus pensamentos sempre ligados ao futuro encontro com seu esposo, Jesus. THÉRÈSE (1986) foi o último filme de Cavalier, ganhando vários César, inclusive de melhor filme e direção, e conquistou o grande prêmio do júri em Cannes. A atriz tem uma semelhança grande com a verdadeira Santa Terezinha. Sobre a semelhança com o estilo de Bresson, a diferença de Cavalier talvez esteja no quanto seus personagens expressam mais explicitamente suas emoções. Pode-se pensar também em A PAIXÃO DE JOANA D’ARC, de Dreyer, por causa das paredes, ou melhor da ausência de paredes (e de portas e de janelas) aqui não brancas, mas esverdeadas. Uma das cenas mais visualmente impactantes é a da irmã fugida que surge no escuro vestida de noiva quando a protagonista já está bem debilitada. É uma cena quase lynchiana, por mais que esse adjetivo talvez não existisse ou fosse popular em 1986.
DESEJO VOCÊ (I Want You)
Por onde anda Michael Winterbottom, um dos cineastas mais mencionados do cinema britânico da virada do novo milênio e principalmente nos anos 2000? Por incrível que pareça Winterbottom está bem ativo, só que seus novos trabalhos não têm chegado a nosso circuito. DESEJO VOCÊ (1998), nem lembro se chegou a passar nos cinemas (acho que não), e tem uma trama um tanto desequilibrada. Acredito que o diretor tenha se preocupado mais com o visual (que é de fato belo, com o verde predominando na paleta de cores) do que com o enredo e seus personagens, ou em como dar a eles profundidade. Aliás, isso não é mesmo o forte do diretor, pelos poucos filmes que vi dele. Seu interesse em explorar o sexo, que seria muito mais explicitado em 9 CANÇÕES (2004), já aparece aqui, embora o sexo apresentado em DESEJO VOCÊ seja sempre frio, uma ferramenta para aplacar o vazio e as angústias, nunca filmado de maneira bonita, por mais que a personagem de Labina Mitevska represente esse sexo mais livre, enquanto que a personagem de Rachel Weisz, a protagonista, seja alguém com uma trava com o sexo, e por isso mesmo acabe fazendo amizade com o adolescente mudo que fica apaixonado por ela e que tem por hábito gravar em fita sons da intimidade de casais. Ele representa o voyeur que, uma vez que se torna protagonista de uma cena pesada, procura se afastar. A trama guarda alguns mistérios entre os personagens, mistérios que só serão revelados lá pela metade da metragem do filme. DESEJO VOCÊ tem a importância de dar mais visibilidade a Weisz, que se tornaria mais famosa nas décadas seguintes, e não só por sua beleza física.
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