Chega a ser assustador pensar que já se passaram 30 anos de quando vi pela primeira vez AS PONTES DE MADISON (1995) no saudoso Studio Beira-Mar. Na época, não me envolvi tanto com o drama dos personagens, talvez por ser muito jovem – tanto que no mesmo ano vi no cinema também ANTES DO AMANHECER, de Richard Linklater, e houve uma conexão instantânea, já que eu tinha a idade daqueles personagens. Existem, sim, vários pontos em comum entre os dois filmes: ambos são histórias de um amor que se iniciam quase que instantaneamente e que são ameaçadas pelas circunstâncias. No caso do filme de Clint Eastwood, há um registro menos ingênuo, mais duro com os personagens. O diretor não tem por hábito ser tão gentil assim com seus heróis, geralmente figuras atormentadas.
Na época (anos 90), eu vinha da experiência de ter visto no cinema CORAÇÃO DE CAÇADOR (1990), OS IMPERDOÁVEIS (1992) e UM MUNDO PERFEITO (1993). Ou seja, estava testemunhando o realizador no seu auge criativo, um auge que felizmente duraria ainda bons anos. E nessa época, o que eu tinha de referência de crítica de cinema era basicamente a revista SET, que felizmente ainda era muito boa, e era um veículo que costumava valorizar a obra de Eastwood – a não ser nas derrapadas, como em ROOKIE – UM PROFISSIONAL DO PERIGO (1990).
Mas confesso que rever AS PONTES DE MADISON me pegou de surpresa, pois não esperava um filme tão despreocupado, por assim dizer, com seu andamento. Ou melhor, seu andamento me pareceu tão perfeitamente lento que parecia um filme europeu. Ou um americano da Nova Hollywood, o que faz mais sentido, na verdade, até pela idade do diretor. Mas por que só agora esse detalhe ou essa impressão se apresentou de forma mais intensa? Afinal, adorei cada momento do filme, inclusive as cenas com os filhos lendo as cartas e os diários, que haviam sumido de minha lembrança.
É possível que este seja o filme mais romântico do diretor/ator, e talvez por isso transpareça seu caráter tão excepcional no trato com os personagens e os detalhes apresentados em cada plano, em cada gesto deles. Francesca tocando o colarinho de Richard; em seguida ele tocando sua mão. Essa cena me pegou mais do que a dos beijos, pois foi ali que a tensão erótica chegou ao ponto de eles finalmente se deixarem levar pelos sentimentos e desejos que nutriam um pelo outro. Mas acontece que Francesca é casada e vive numa sociedade mais dura com a mulher, a do interior dos Estados Unidos nos anos 1960, e largar marido e dois filhos é difícil para alguém como ela. Por mais que não esteja mais feliz no casamento e na vida excessivamente calma do campo. Meryl Streep teve que fazer uma outra “escolha de Sophia”: ir embora com um grande e intenso amor ou ficar com o marido e filhos?
Aqui, há pelo menos uma válvula de escape para ela: escrever em diários os dias vividos com o fotógrafo da National Geographic de modo que, naquelas páginas, aquele amor não morresse com a morte deles. Como tenho um apego grande com registros e tentativas de não deixar desaparecer por completo até as lembranças de amores e amigos, achei a opção de Francesca excelente, por mais pouco realista que pareça em sua engenhosidade para chegar às mãos dos filhos somente após sua morte.
Das cenas que ficam e que parecem dignas de um personagem de Os Dublinenses, de James Joyce, há a cena de Francesca na caminhonete com o marido e a seta da caminhonete de Richard piscando para a esquerda, como que um aviso para a última oportunidade de Francesca partir. Como os personagens de Joyce em seu clássico livro de contos, ocorre uma espécie de paralisia. Felizmente, a conexão entre os dois segue, mesmo que à distância e em caráter quase espiritual.
+ TRÊS FILMES
STRIPTEASE
Quem diria que 30 anos depois (ou quase) eu estaria revendo STRIPTEASE (1996), de Andrew Bergman, que foi tão maltratado pela crítica da época. Maltratado com razão, claro, mas também por se tratar de um filme com grande visibilidade, com uma estrela de Hollywood superpopular e um teor altamente apelativo, o que era até normal naqueles tempos pós INSTINTO SELVAGEM, quando os thrillers eróticos viraram moda. STRIPTEASE, apesar de ter uma história envolvendo policiais e assassinatos, está mais para uma comédia da sessão da tarde (exceto pelos peitos de fora), sendo que as piadas não são muito boas. Hoje o filme funciona como um documentário da época, com o visual, as músicas, os equipamentos eletrônicos, o comportamento, o senso de humor, as referências históricas e culturais funcionando como um mosaico daqueles tempos. Demi Moore faz o papel de uma stripper que perde a guarda da filha pequena para o pai biológico trambiqueiro, vivido por Robert Patrick. Enquanto luta pela filha, que só pode ver quinzenalmente, sofre assédios típicos do emprego noturno e exploratório. Na época, o novo corpo da atriz chamou a atenção e foi considerado mais musculoso do que o normal. Para os padrões de hoje, ela é considerada perfeita. Gosto muito da Demi Moore, mas sua escolha para este filme foi infeliz, ainda que seu salário tenha sido na época o mais bem pago a uma atriz. Infeliz pelo fato de o filme não funcionar nem no erotismo, nem no humor. De todo modo, é curioso ver Burt Reynolds num papel tão ridículo e é bom ver o quanto Ving Rhames é um ator carismático.
MULHERES DIABÓLICAS (La Cérémonie)
Impressionante como certos filmes fogem completamente de nossa memória. Vi MULHERES DIABÓLICAS (1995) em VHS há muito, muito tempo, eu sei, mas talvez só tenha ficado um pouco com flashes das cenas finais das duas mulheres na casa dos burgueses. Ou nada. Como num apagão. O VHS talvez tivesse um poder menor de absorção (será?). Desta vez pude degustar com mais prazer, uma vez que também tenho mais interesse pelo cinema de gênero francês, e gosto de como os suspenses de Chabrol e de outros conterrâneos seus costumam “queimar mais lentamente” no desenvolvimento da ação e no desnudamento dos personagens. A personagem de Sandrine Bonnaire é fascinante: esconde de todos algo que muito lhe envergonha: seu analfabetismo. Tenta compensar com a boa memória, mas muitas vezes precisa fugir quando deve ter que ler alguma coisa. Já Isabelle Huppert tem outros segredos e gosto de como o filme a humaniza perto do final, naquele diálogo no carro sobre a filha e sobre os julgamentos da sociedade. Não esconde o ódio das classes mais ricas, e talvez esse aspecto seja o que mais pode confundir os espectadores, uma vez que retratar os pobres executando ações criminosas nem sempre é agradável, ainda mais quando há um registro mais próximo do naturalista. Atualmente tem se comparado MULHERES DIABÓLICAS a PARASITA, mas gosto mais do Chabrol, de sua classe, de seu elenco de mulheres incríveis e de seu trabalho mais sutil com a câmera e com os diálogos que respiram de acordo com o ritmo do filme.
SANEAMENTO BÁSICO, O FILME
Perdi SANEAMENTO BÁSICO, O FILME (2007) quando de seu relançamento em cópia remasterizada nos cinemas, no ano passado, mas revê-lo na telinha (na Mubi, mas parece também estar no Prime) fez com que ele subisse em meu conceito. Claro que achei divertidíssimo quando o vi em 2007, mas já são quase 20 anos que se passaram e agora ver um filme que traz no mesmo elenco Fernanda Torres e Wagner Moura, só por isso já merece a atenção. Ainda tem, em desempenhos brilhantes, Camila Pitanga, Lázaro Ramos e Bruno Garcia. E tem dois atores veteranos maravilhosos, Paulo José e Tonico Pereira. Ou seja, é muito amor. E a direção do Jorge Furtado traz uma leveza e um senso de humor inteligente que tornam muito difícil não amar cada momento, mesmo aqueles que parecem não contribuir para o fio condutor da história, como a cena de Wagner Moura dirigindo a motocicleta que vai se desfazer ao som de “Io che amo solo te”, na voz de Sergio Endrigo, ou a cena de discussão entre os dois atores veteranos. Há também as cenas quase metalinguísticas em que os personagens de Wagner e Fernanda buscam pensar, de maneira leiga, como transformar um roteiro em narrativa cinematográfica, e vê-los com os olhos brilhando e o sorriso nos lábios a cada solução encontrada é um convite à alegria. Na trama, pequeno grupo de pessoas de uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul busca meios para conseguir verba para resolver os problemas básicos de saneamento. Só que a única verba existente na prefeitura é para a criação de um vídeo. É onde a narrativa começa a se desenvolver com mais força. Há um quê de ED WOOD nas filmagens engraçadas, embora o propósito original não seja fazer uma comédia, mas fazer um terror de monstro, “o monstro da fossa”, ou “do fosso”. A última cena dirigida pelo personagem de Lázaro Ramos é de chorar de rir. Enfim, estou começando a achar que este é o melhor longa-metragem de Jorge Furtado – lembrando que o último filme ótimo dele foi RASGA CORAÇÃO (2019) e já faz um tempinho.
Quem diria que 30 anos depois (ou quase) eu estaria revendo STRIPTEASE (1996), de Andrew Bergman, que foi tão maltratado pela crítica da época. Maltratado com razão, claro, mas também por se tratar de um filme com grande visibilidade, com uma estrela de Hollywood superpopular e um teor altamente apelativo, o que era até normal naqueles tempos pós INSTINTO SELVAGEM, quando os thrillers eróticos viraram moda. STRIPTEASE, apesar de ter uma história envolvendo policiais e assassinatos, está mais para uma comédia da sessão da tarde (exceto pelos peitos de fora), sendo que as piadas não são muito boas. Hoje o filme funciona como um documentário da época, com o visual, as músicas, os equipamentos eletrônicos, o comportamento, o senso de humor, as referências históricas e culturais funcionando como um mosaico daqueles tempos. Demi Moore faz o papel de uma stripper que perde a guarda da filha pequena para o pai biológico trambiqueiro, vivido por Robert Patrick. Enquanto luta pela filha, que só pode ver quinzenalmente, sofre assédios típicos do emprego noturno e exploratório. Na época, o novo corpo da atriz chamou a atenção e foi considerado mais musculoso do que o normal. Para os padrões de hoje, ela é considerada perfeita. Gosto muito da Demi Moore, mas sua escolha para este filme foi infeliz, ainda que seu salário tenha sido na época o mais bem pago a uma atriz. Infeliz pelo fato de o filme não funcionar nem no erotismo, nem no humor. De todo modo, é curioso ver Burt Reynolds num papel tão ridículo e é bom ver o quanto Ving Rhames é um ator carismático.
MULHERES DIABÓLICAS (La Cérémonie)
Impressionante como certos filmes fogem completamente de nossa memória. Vi MULHERES DIABÓLICAS (1995) em VHS há muito, muito tempo, eu sei, mas talvez só tenha ficado um pouco com flashes das cenas finais das duas mulheres na casa dos burgueses. Ou nada. Como num apagão. O VHS talvez tivesse um poder menor de absorção (será?). Desta vez pude degustar com mais prazer, uma vez que também tenho mais interesse pelo cinema de gênero francês, e gosto de como os suspenses de Chabrol e de outros conterrâneos seus costumam “queimar mais lentamente” no desenvolvimento da ação e no desnudamento dos personagens. A personagem de Sandrine Bonnaire é fascinante: esconde de todos algo que muito lhe envergonha: seu analfabetismo. Tenta compensar com a boa memória, mas muitas vezes precisa fugir quando deve ter que ler alguma coisa. Já Isabelle Huppert tem outros segredos e gosto de como o filme a humaniza perto do final, naquele diálogo no carro sobre a filha e sobre os julgamentos da sociedade. Não esconde o ódio das classes mais ricas, e talvez esse aspecto seja o que mais pode confundir os espectadores, uma vez que retratar os pobres executando ações criminosas nem sempre é agradável, ainda mais quando há um registro mais próximo do naturalista. Atualmente tem se comparado MULHERES DIABÓLICAS a PARASITA, mas gosto mais do Chabrol, de sua classe, de seu elenco de mulheres incríveis e de seu trabalho mais sutil com a câmera e com os diálogos que respiram de acordo com o ritmo do filme.
SANEAMENTO BÁSICO, O FILME
Perdi SANEAMENTO BÁSICO, O FILME (2007) quando de seu relançamento em cópia remasterizada nos cinemas, no ano passado, mas revê-lo na telinha (na Mubi, mas parece também estar no Prime) fez com que ele subisse em meu conceito. Claro que achei divertidíssimo quando o vi em 2007, mas já são quase 20 anos que se passaram e agora ver um filme que traz no mesmo elenco Fernanda Torres e Wagner Moura, só por isso já merece a atenção. Ainda tem, em desempenhos brilhantes, Camila Pitanga, Lázaro Ramos e Bruno Garcia. E tem dois atores veteranos maravilhosos, Paulo José e Tonico Pereira. Ou seja, é muito amor. E a direção do Jorge Furtado traz uma leveza e um senso de humor inteligente que tornam muito difícil não amar cada momento, mesmo aqueles que parecem não contribuir para o fio condutor da história, como a cena de Wagner Moura dirigindo a motocicleta que vai se desfazer ao som de “Io che amo solo te”, na voz de Sergio Endrigo, ou a cena de discussão entre os dois atores veteranos. Há também as cenas quase metalinguísticas em que os personagens de Wagner e Fernanda buscam pensar, de maneira leiga, como transformar um roteiro em narrativa cinematográfica, e vê-los com os olhos brilhando e o sorriso nos lábios a cada solução encontrada é um convite à alegria. Na trama, pequeno grupo de pessoas de uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul busca meios para conseguir verba para resolver os problemas básicos de saneamento. Só que a única verba existente na prefeitura é para a criação de um vídeo. É onde a narrativa começa a se desenvolver com mais força. Há um quê de ED WOOD nas filmagens engraçadas, embora o propósito original não seja fazer uma comédia, mas fazer um terror de monstro, “o monstro da fossa”, ou “do fosso”. A última cena dirigida pelo personagem de Lázaro Ramos é de chorar de rir. Enfim, estou começando a achar que este é o melhor longa-metragem de Jorge Furtado – lembrando que o último filme ótimo dele foi RASGA CORAÇÃO (2019) e já faz um tempinho.
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