Jurava que O DESAFIO (1965) integrava a lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da primeira eleição feita pela Abraccine, que resultou num livro que até hoje é referência. Eu mesmo fui até o livro em busca de um texto sobre o clássico-moderno de Paulo César Saraceni. Em vez disso, vi que preferiram (ou melhor, preferimos, já que integrei também essa votação) O VIAJANTE (1999), obra bem mais recente do cinemanovista. Em vez disso, reli o texto (excelente, pra variar) de Andrea Ormond para seu primeiro volume do obrigatório Ensaios de Cinema Brasileiro. Seu texto é uma delícia, com uma linguagem literária que sinto falta na maior parte das críticas de cinema que leio.
Ao ver O DESAFIO pela primeira vez fiquei um tanto incomodado com os protagonistas burgueses extremamente afetados pelo golpe militar de 64, que ainda estava "quentinho", tanto que palavrões e a palavra "golpe" foram inicialmente "deletadas" pela censura e voltaram em cópia nova posteriormente, passada a tempestade, dublados por outras pessoas. Fiquei incomodado, talvez, porque esse sonho de um Brasil mais justo não é apresentado por classes mais desfavorecidas, enquanto numa sala vemos o cartaz de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, como que enfatizando o caráter elitista e intelectual tanto do movimento quanto dos próprios personagens.
A cópia que vi, exibida pelo Canal Brasil, é mais um serviço de utilidade pública prestado pela emissora. Ah, se pelo menos metade de nossos filmes merecessem o mesmo tratamento... Aliás, enquanto buscava títulos brasileiros nos streamings, comecei a perceber o quanto o nosso cinema é marginal. Nem na MUBI, nem no Prime, nem na HBO há uma oferta mínima de filmes brasileiros mais antigos, principalmente esses anteriores aos anos 1990. Ou seja, o negócio é usar o espírito corsário ou aproveitar que há alguns títulos disponibilizados no YouTube, ainda que nem sempre em qualidade decente de imagem. Assim, quem está interessado em conhecer mais do nosso cinema não pode ser preguiçoso.
A primeira cena de O DESAFIO nos apresenta ao casal vivido por Isabella (acho estranho a atriz ser apresentada sem um sobrenome) e Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha, corroteirista do filme junto com Saraceni. Ambos estão dentro de um carro e a câmera (na mão) do lendário Dip Lutfi flagra a conversa e o clima daquele momento. Ele se mostra extremamente deprimido. O Brasil, que antes tinha uma chance de integrar o bloco socialista e talvez chegar a uma revolução, agora vive numa recém-implantada ditadura, apesar de muitos acharem que não duraria muito tempo. Ela, esposa de um industrial, tem um caso com o rapaz e tenta ajudá-lo a levantar seu astral e a ver o quanto a união deles é importante para a felicidade dos dois. Para o rapaz, porém, isso é muito pouco importante diante do cenário político atual.
Aos poucos, principalmente perto do final, essa tendência de cada um optar pelo que mais seu coração persegue vai pesando mais, o que faz com que seja natural a separação. Porém, antes do fim, há muita poesia pela frente. Nos anos 1960, não sei se por influência do Godard, era natural ficar recitando poemas. Aqui, Jorge de Lima é o escolhido e homenageado com A Invenção de Orfeu. Lembro que Carlão Reichenbach também citava o poeta em seu cinema (há citação explícita em O IMPÉRIO DO DESEJO).
Adoro a fotografia em preto e branco de Couto Filho, que, especialmente nas cenas noturnas, dá um ar de Louis Malle ao filme. Gosto da cena de Isabella andando pelas ruas do Rio de Janeiro à noite. Assim como gosto das cenas de Vianninha bebendo com um amigo e falando de poesia e política, indo parar depois na casa desse amigo. É uma das melhores cenas do filme, inclusive com surpresas do ponto de vista narrativo, mas também muito belo enquanto registro formal, com a câmera passeando pelos personagens e escolhendo muito bem o que deseja ou não mostrar.
O DESAFIO é um filme feito com muita coragem. E só por isso já é um baita motivo para ser visto e apreciado. Sem falar no quanto é um documento poderoso de seu tempo, chegando a registrar até mesmo Maria Bethânia e Zé Keti no show Opinião.
+ TRÊS FILMES
RUAS DA GLÓRIA
Até acho interessantes os 2/3 iniciais da narrativa de RUAS DA GLÓRIA (2024), de Felipe Sholl, especialmente quando o filme foca no desespero e busca do protagonista Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor de literatura, pelo homem por quem ele se apaixona, um uruguaio que trabalha como profissional do sexo e é viciado em cocaína, vivido por Alejandro Claveaux. Senti falta de uma maior química entre os dois atores e chega um momento, no terço final, que o filme perde sua força ao optar por uma conclusão apressada ou pouco eficiente, do ponto de vista dramático. O que há de interessante no filme é o retrato do submundo da prostituição homossexual no Rio de Janeiro de maneira bem crua e incômoda, sem medo de destacar os desejos e os infernos pessoais de seus personagens. No aspecto formal, gosto da opção da janela scope para contar a história principal (enriquece a paisagem da praia de Copacabana e das praças) e de janelas menos largas para o diálogo do protagonista com a avó falecida ou para vídeos do outro personagem. Há uma semelhança deste filme com BABY, de Marcelo Caetano, mas, na comparação, lhe falta mais carinho e ternura.
A primeira cena de O DESAFIO nos apresenta ao casal vivido por Isabella (acho estranho a atriz ser apresentada sem um sobrenome) e Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha, corroteirista do filme junto com Saraceni. Ambos estão dentro de um carro e a câmera (na mão) do lendário Dip Lutfi flagra a conversa e o clima daquele momento. Ele se mostra extremamente deprimido. O Brasil, que antes tinha uma chance de integrar o bloco socialista e talvez chegar a uma revolução, agora vive numa recém-implantada ditadura, apesar de muitos acharem que não duraria muito tempo. Ela, esposa de um industrial, tem um caso com o rapaz e tenta ajudá-lo a levantar seu astral e a ver o quanto a união deles é importante para a felicidade dos dois. Para o rapaz, porém, isso é muito pouco importante diante do cenário político atual.
Aos poucos, principalmente perto do final, essa tendência de cada um optar pelo que mais seu coração persegue vai pesando mais, o que faz com que seja natural a separação. Porém, antes do fim, há muita poesia pela frente. Nos anos 1960, não sei se por influência do Godard, era natural ficar recitando poemas. Aqui, Jorge de Lima é o escolhido e homenageado com A Invenção de Orfeu. Lembro que Carlão Reichenbach também citava o poeta em seu cinema (há citação explícita em O IMPÉRIO DO DESEJO).
Adoro a fotografia em preto e branco de Couto Filho, que, especialmente nas cenas noturnas, dá um ar de Louis Malle ao filme. Gosto da cena de Isabella andando pelas ruas do Rio de Janeiro à noite. Assim como gosto das cenas de Vianninha bebendo com um amigo e falando de poesia e política, indo parar depois na casa desse amigo. É uma das melhores cenas do filme, inclusive com surpresas do ponto de vista narrativo, mas também muito belo enquanto registro formal, com a câmera passeando pelos personagens e escolhendo muito bem o que deseja ou não mostrar.
O DESAFIO é um filme feito com muita coragem. E só por isso já é um baita motivo para ser visto e apreciado. Sem falar no quanto é um documento poderoso de seu tempo, chegando a registrar até mesmo Maria Bethânia e Zé Keti no show Opinião.
+ TRÊS FILMES
RUAS DA GLÓRIA
Até acho interessantes os 2/3 iniciais da narrativa de RUAS DA GLÓRIA (2024), de Felipe Sholl, especialmente quando o filme foca no desespero e busca do protagonista Gabriel (Caio Macedo), um jovem professor de literatura, pelo homem por quem ele se apaixona, um uruguaio que trabalha como profissional do sexo e é viciado em cocaína, vivido por Alejandro Claveaux. Senti falta de uma maior química entre os dois atores e chega um momento, no terço final, que o filme perde sua força ao optar por uma conclusão apressada ou pouco eficiente, do ponto de vista dramático. O que há de interessante no filme é o retrato do submundo da prostituição homossexual no Rio de Janeiro de maneira bem crua e incômoda, sem medo de destacar os desejos e os infernos pessoais de seus personagens. No aspecto formal, gosto da opção da janela scope para contar a história principal (enriquece a paisagem da praia de Copacabana e das praças) e de janelas menos largas para o diálogo do protagonista com a avó falecida ou para vídeos do outro personagem. Há uma semelhança deste filme com BABY, de Marcelo Caetano, mas, na comparação, lhe falta mais carinho e ternura.
NARCISO
Jeferson De já havia trabalhado com o cinema de gênero em M8 – QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA (2019). Volta a fazê-lo neste drama sobre menino negro que não se sente feliz no lar temporário onde vive e aceita o presente do gênio da lâmpada, digo, gênio da bola de basquete. A segunda parte, em preto e branco, é até mais interessante que a primeira, lembrando tanto CORRA!, de Jordan Peele, quanto CORALINE E O MUNDO SECRETO, de Henry Selick, ainda que passe longe de ter a mesma força desses. De todo modo, NARCISO (2026) é um filme cheio de amor que funciona como um bom conto moral. O menino começa a valorizar o que realmente importa a partir da experiência sobrenatural, mas se a primeira parte tivesse a delicadeza forte, para juntar duas palavras geralmente usadas separadamente, o final teria mais impacto. Seu Jorge é ótimo, mas está no automático no papel do Gênio. Já os atores negros, tanto os jovens quanto os veteranos, estão muito bem. Diria que uma das cenas de que mais gosto é uma conversa entre Carmen (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele), as figuras materna e paterna dos meninos. Queria um filme só com eles dois.
LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO
Não me recordo deste filme de Rosemberg Cariry estreando nas salas de cinema nessa época. Provavelmente ficou pouco tempo em cartaz e é uma pena eu ter deixado passar. Mas é muito bom poder rever numa cópia remasterizada e lindíssima. Quase como estar entrando num túnel do tempo e vendo a Dira Paes passando por um processo de rejuvenescimento. Ela está incrível como uma jovem que nasceu fruto do estupro que sua mãe, uma mulher negra escravizada, sofreu de um coronel da região, homem que costumava gostar de açoitar os seus escravos. A personagem é muito interessante justamente por ter um tipo de personalidade pouco afável. Ela é mesmo do tipo que apreende o que há de mal na personalidade do pai e ignora o sofrimento alheio, além de querer fazer tudo para obter o que deseja, mesmo que tenha que mandar matar alguém. LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO (2002) tem menos simbolismos que o ótimo CORISCO & DADÁ (1996), mas a nova parceria com Paes e Chico Diaz faz bem ao cineasta. Fiquei muito curioso para ler o conto de Ronaldo Correia de Brito, que serve de base para a história do filme, que tem mesmo a intenção de trazer à tona as complexidades da formação do povo brasileiro, com esse tipo de "capitão do mato" se tornando aqui uma "coronel" do mato, alguém com o poder e a vontade de mostrar força através da violência e da sede de poder. Cena memorável: W.J. Solha, o coronel, no leito de morte.
Jeferson De já havia trabalhado com o cinema de gênero em M8 – QUANDO A MORTE SOCORRE A VIDA (2019). Volta a fazê-lo neste drama sobre menino negro que não se sente feliz no lar temporário onde vive e aceita o presente do gênio da lâmpada, digo, gênio da bola de basquete. A segunda parte, em preto e branco, é até mais interessante que a primeira, lembrando tanto CORRA!, de Jordan Peele, quanto CORALINE E O MUNDO SECRETO, de Henry Selick, ainda que passe longe de ter a mesma força desses. De todo modo, NARCISO (2026) é um filme cheio de amor que funciona como um bom conto moral. O menino começa a valorizar o que realmente importa a partir da experiência sobrenatural, mas se a primeira parte tivesse a delicadeza forte, para juntar duas palavras geralmente usadas separadamente, o final teria mais impacto. Seu Jorge é ótimo, mas está no automático no papel do Gênio. Já os atores negros, tanto os jovens quanto os veteranos, estão muito bem. Diria que uma das cenas de que mais gosto é uma conversa entre Carmen (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele), as figuras materna e paterna dos meninos. Queria um filme só com eles dois.
LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO
Não me recordo deste filme de Rosemberg Cariry estreando nas salas de cinema nessa época. Provavelmente ficou pouco tempo em cartaz e é uma pena eu ter deixado passar. Mas é muito bom poder rever numa cópia remasterizada e lindíssima. Quase como estar entrando num túnel do tempo e vendo a Dira Paes passando por um processo de rejuvenescimento. Ela está incrível como uma jovem que nasceu fruto do estupro que sua mãe, uma mulher negra escravizada, sofreu de um coronel da região, homem que costumava gostar de açoitar os seus escravos. A personagem é muito interessante justamente por ter um tipo de personalidade pouco afável. Ela é mesmo do tipo que apreende o que há de mal na personalidade do pai e ignora o sofrimento alheio, além de querer fazer tudo para obter o que deseja, mesmo que tenha que mandar matar alguém. LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO (2002) tem menos simbolismos que o ótimo CORISCO & DADÁ (1996), mas a nova parceria com Paes e Chico Diaz faz bem ao cineasta. Fiquei muito curioso para ler o conto de Ronaldo Correia de Brito, que serve de base para a história do filme, que tem mesmo a intenção de trazer à tona as complexidades da formação do povo brasileiro, com esse tipo de "capitão do mato" se tornando aqui uma "coronel" do mato, alguém com o poder e a vontade de mostrar força através da violência e da sede de poder. Cena memorável: W.J. Solha, o coronel, no leito de morte.
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