domingo, fevereiro 22, 2026

SÉTIMO CÉU (7th Heaven)



Logo que SÉTIMO CÉU (1927) começa fica muito claro o drama de seus dois protagonistas, bem como suas principais qualidades. Diane (Janet Gaynor, no mesmo ano que fez AURORA, de Murnau) é uma jovem que sofre agressões domésticas de sua irmã alcoólatra. As duas vivem numa casa muito humilde, numa espécie de favela de Paris. Já Chico (Charles Farrell) é um homem que ganha a vida limpando o esgoto da cidade. No meio da água fétida dos subterrâneos da cidade, seu principal desejo é subir ao posto de limpador de rua. Confesso que as lágrimas já começaram a cair neste admirador de melodramas logo nesses primeiros momentos do filme. E mal sabia eu que era só o começo.

Vale lembrar que tanto Gaynor quanto Farrell trabalharam juntos com Frank Borzage em outros dois filmes, O ANJO DAS RUAS (1928) e o maravilhoso ESTRELA DITOSA (1929). Tanto SÉTIMO CÉU quanto ESTRELA DITOSA" estabelecem o melodrama, ou pelo menos o melodrama de autoria de Borzage, como o gênero do milagre. Solidarizamo-nos tanto com as crises e as aflições de seus heróis, quanto festejamos suas vitórias, sendo que algumas delas se constituem milagres, uma espécie de compensação para a ficção diante da dureza da vida.

O dia que Chico traz o vestido de noiva para Diane é justamente o dia em que todos os homens da França são convocados para a guerra. Chico, sentindo que ficará longe e poderá até morrer naquele conflito, finalmente tem a coragem de dizer "eu te amo" para Diane, que chora emocionada, dizendo que nunca sentiu tanta alegria em sua vida, que nunca se acostumou a ser feliz. Eu fico completamente devastado com essa cena. E depois disso, o filme vai ganhando ainda mais força, pois é nos obstáculos que esse tipo de história se fortalece, mesmo que vá nos entregar um final infeliz ou trágico, o que pode muito bem acontecer. Por mais que o final seja exatamente totalmente feliz, há algo que nos faz festejar, uma espécie de milagre que o deus Borzage, um deus bondoso, é capaz de fazer, como se quisesse provar que a dura realidade pudesse ser atenuada como num passe de mágica, como na ressurreição de um homem.

Talvez SÉTIMO CÉU não seja tão poderoso quanto ESTRELA DITOSA, mas é certamente um exemplar maravilhoso desse cinema do sentimento exacerbado, bem como do cinema em que o mundo espiritual invade o mundo físico para a alegria de todos os envolvidos, inclusive nós, espectadores e torcedores.

+ TRÊS FILMES

A VOZ DE HIND RAJAB (Sawt Hind Rajab)

A academia tem dado visibilidade a Kaouther Ben Hania. Já é o terceiro filme da diretora tunisiana que ganha espaço no O Oscar. Os outros dois, para quem não lembra, foram O HOMEM QUE VENDEU SUA PELE (2020) e o tocante AS 4 FILHAS DE OLFA (2023), talvez ainda seu melhor trabalho, sabendo borrar muito bem as fronteiras entre ficção e documentário. Seu novo filme, A VOZ DE HIND RAJAB (2025) talvez tenha conseguido espaço nas concorridíssimas vagas de filme internacional pela importância temática, por ser demasiado urgente o cinema ser também esse agente de denúncia, de revolta e, por que não?, de mudança na política mundial, ao trazer mais uma obra sobre a violência, a brutalidade, os crimes, o absurdo das ações do estado de Israel ao dizimar o povo palestino, e com ajuda dos Estados Unidos. A academia de Hollywood trazer mais uma vez um filme sobre esse momento de terror e dor não deixa de ser um mérito, por mais que tenhamos um filme cuja estrutura já havia sido vista antes, mas há aqui um diferencial: o registro da voz real da menina Hind Hajab. A partir desses registros, busca-se contar a história do que aconteceu no escritório do Crescente Vermelho no dia que receberam a ligação de uma garotinha aterrorizada por estar sozinha dentro de um carro, ao lado dos cadáveres de seus familiares. A maldade humana não tem limite, pelo visto.

A VIDA DE CHUCK (The Life of Chuck)

Sou fã da Mike Flanagan, mas suspeito que suas parcerias com Stephen King acabam rendendo produtos um tanto tortos. Não gosto nada de DOUTOR SONO (2019), e justamente por isso me surpreendi positivamente com A VIDA DE CHUCK (2024), tanto por suas ousadias narrativas (que vêm do conto de King, imagino), quanto pelo caráter misterioso e sentimental, já caraterístico de seus filmes e séries de terror. Tanto que o que reclamam dele, de fazer menos terror e mais melodrama, eu vejo como algo positivo, e que poderia ter rendido mais neste filme estrelado por Tom Hiddleston. O filme acaba adotando um clima mais épico do que lírico, e quando achamos que vai predominar um tom lovecraftiano, algo barra essa expectativa, o que vejo como algo positivo. Dos três atos, gosto mais do ato III, que é o primeiro a ser contado e que traz um tom meio apocalíptico, só devidamente explicado nos atos seguintes. Gostei de rever atores usualmente presentes em outras obras de Flanagan, como Carl Lumbly, Mark Hammil, Violet McGraw, Kate Siegel e Samantha Sloane.

ENTRE DOIS MUNDOS (Ouistreham)

Como não estou muito acostumado a ver filmes franceses tratando com tanta frequência de temas trabalhistas, acabei vendo este ENTRE DOIS MUNDOS (2021), de Emmanuel Carrère, e me lembrando do cinema de Ken Loach. E digo isso como um elogio. Desde o começo, somos apresentados a personagens numa agência de empregos que os encaminha (a maioria, mulheres) para trabalhos de serviços gerais. É assim que se apresenta uma raivosa (com razão) Hèlene Lambert, que entra em cena quase no mesmo momento que a protagonista, vivida por Juliette Binoche, uma mulher que se diferencia das demais (e dos demais) por ser na verdade uma escritora em busca de vivenciar a experiência de faxineira e outros serviços de limpeza que pagam muito mal e exigem muito bem. Em certo sentido, ela é como um policial infiltrado, que transita entre a amizade que sente ser verdadeira e a atuação para esconder quem de fato é. Acredito que se o filme não tivesse essa trama, se se concentrasse apenas no drama dessas pessoas vivendo trabalhos precarizados por hora trabalhada para sobreviver, talvez até fosse tão ou mais interessante. As melhores coisas do filme, como não poderia deixar de ser, acontecem fora do horário de expediente, como a conversa entre essas pessoas, seus sonhos, suas frustrações, suas dificuldades e suas dores, inclusive físicas, proveniente do trabalho. Gosto das cenas nas balsas e em especial uma com as três amigas, gosto do modo como o momento do trabalho dessas pessoas já se inicia quando o sol ainda não nasceu. Talvez falte um pouco mais de denúncia mais incisiva, mas também entendo o quanto isso também pode ser delicado e passível de se pesar a mão. Juliette Binoche mais uma vez está um encanto.

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

VÉNUS ET FLEUR



“O escritor é o sofredor exemplar porque encontrou tanto o nível mais profundo do sofrimento quanto um meio profissional de sublimar (no sentido literal, não no freudiano) seu sofrimento. Como homem, sofre; como escritor, transforma seu sofrimento em arte. O escritor é o homem que descobre o uso do sofrimento na economia da arte – assim como os santos descobriam a utilidade e a necessidade do sofrimento na economia da salvação.”
Susan Sontag

Hoje não estava com muita disposição para escrever. Falar (no caso, escrever) sobre um filme requer muitas vezes algum tipo de necessidade (quando não trabalhamos exatamente com um tipo de disciplina ou uma obrigação contratual ou profissional). Como não ganho dinheiro escrevendo para o blog e meio que me acostumei com os longos períodos sem escrever para este espaço (o que acho uma coisa triste de se dizer), não me forço tanto assim, não me culpo mais ou fico aborrecido. Mas gosto quando surge algo que faz com que eu sinta vontade de escrever. E às vezes esse “algo” vem não necessariamente do filme em questão.

No caso, escolhi VÉNUS ET FLEUR (2004), de Emmanuel Mouret, menos pelo filme em si, embora eu já tivesse uma intenção de falar sobre ele em específico, até por ter feito isso com quase todos os trabalhos do realizador que vi – só não fiz com TRÊS AMIGAS (2024), seu mais recente longa-metragem, que mais me aborreceu do que me encantou, o que me leva a pensar na possibilidade de revê-lo, pois vivemos às vezes dias ruins, inapropriados para certas apreciações artísticas.

Pois bem. O que me deu vontade de escrever foi a leitura de um artigo escrito por Susan Sontag. Estou lendo Contra a Interpretação e Outros Ensaios (Companhia das Letras) e estou absolutamente apaixonado pela escrita dela. O texto que me deixou mais impressionado até agora (ainda estou no começo do livro) foi “O Artista como Sofredor Exemplar”, em que ela trata de como as sociedades pós-cristãs veem o amor, e trata especialmente da vida e da obra de um autor que eu até então desconhecia, o italiano Cesare Pavese (1908-1950). Sontag entrou em contato com os romances de Pavese, escritos nos anos 1940, mas o que mais a deixou impressionada foram seus diários, que mostram não só o artista, seu trabalho de prosa e poesia pensados para publicação, mas principalmente o homem desnudado, o Cesare sem as máscaras presentes em supostos heróis de seus romances, heróis que poderiam talvez ter personalidades parecidas com a sua.

Nos diários os temas do suicídio e da morte estão muito presentes – ele se mataria em 1950 –, assim como são presentes seu profundo desapontamento com sua imensa dificuldade de ter sucesso na vida amorosa, sua inadequação sexual. Ele comentava sobre o caráter predador e explorador das mulheres (era dessa maneira que ele as via), confessava sua incapacidade de proporcionar prazer sexual. As palavras “mulheres” e “morte” costumavam aparecer juntas em seus escritos. É dele a frase “é possível não pensar em mulheres, assim como não se pensa na morte”. Outro trecho forte que ele escreveu: “Você não se mata por amor a uma mulher, mas porque o amor – qualquer amor – o revela em sua nudez, sua miséria, sua vulnerabilidade, sua nulidade...”

Desse modo, acabei achando esse caráter trágico da existência e dos pensamentos e sentimentos de Pavese extremamente interessantes. Como se ele fosse uma espécie de romântico tardio. No mais, Pavese redescobre, com Stendhal, “que o amor é, em essência, uma ficção; não que o amor às vezes cometa erros, mas sim que ele é, essencialmente, um erro.” E daí surge uma teoria do amor, por mais que a citação de um romance como O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, ou o filme OS AMANTES, de Louis Malle, para pegar os dois exemplos ditos por Sontag que ilustram finais felizes ou algo parecido, essa teoria de que o amor é sempre fadado ao fracasso. Mas o próprio Pavese considerava-o necessário. Dizia ele: “A vida é dor e o prazer do amor é um anestésico” ou “O amor é a mais barata das religiões”.

Sontag lembra que essa visão do amor que temos hoje está associada ao cristianismo, que essa visão não existia entre os gregos e os hebreus antigos e os povos orientais, e que o cristianismo é, desde sua fundação (com Paulo) a religião romântica. Sendo que o culto do amor seria um culto do sofrimento. E isso não havia dois mil anos atrás, o que corrobora com minha ideia de que a era de Peixes (e eu entro aqui com a astrologia) fez todo esse estrago nesses mais de dois mil anos. Mas também sentir é algo que é desejado. Há um outro pensador citado por Sontag, Denis de Rougemont, que menciona a preocupação da perda desse sentimento por cada um de nós, como se quiséssemos ser protagonistas de nossos próprios romances incríveis de nossas vidas reais.

Enfim, fiquei de fato fascinado com o texto saboroso de 12 páginas de Sontag, mas posso fazer um link agora com o filme de Mouret, ainda que eu saiba que sobrará pouco espaço para o trabalho do realizador (e por isso eu peço perdão a quem entrou aqui por acaso para ler só sobre o filme). Mouret nos apresenta a duas pessoas que veem a vida de maneira totalmente diferentes, ou pelo menos agem de maneira diferente, o que não quer dizer que a melancolia não possa surgir eventualmente em algum momento na personagem mais alegre, tanto quanto parece ser uma constante na personagem introspectiva.

VÉNUS ET FLEUR nos apresenta a duas jovens de personalidades distintas: enquanto Vénus é muito extrovertida e muito sedenta por viver, Fleur é muito fechada, tímida, vive num mundo mais interior de livros (ela aparece lendo O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa), e também de melancolia, sentindo-se como se não existisse para os outros (ela verbaliza isso em determinado momento em conversa com Vénus). Ela nem mesmo havia se dado ainda a chance de amar alguém.

Fleur é uma jovem russa que, depois de uma desilusão amorosa em Paris, passa a procurar enlouquecidamente por homens, junto com a recém-amiga Fleur. Só que Fleur, claro, quer fugir de certas roubadas, e morre de vergonha do que Vénus faz na cara dura, como entrar dentro do carro de um estranho. Já Fleur, é tão introspectiva que seus ombros estão quase sempre arqueados, como se ela estivesse sempre tensa. Seus seios mais volumosos acabam se tornando não necessariamente um elemento de vantagem para a moça, mas algo que a torna mais parecida com um caracol, por mais bela que seja. Ela é mais bonita que Vénus, inclusive, mas o próprio filme demora um pouco a mostrá-la dessa maneira, pois o sorriso aparece mais em Vénus, e quase nunca, ou de forma acanhada apenas, em Fleur.

Daí a força que o filme ganha em sua conclusão, quando Fleur começa a ser percebida pelos rapazes, quando sorri, se sente plena, e também quando começamos a ver uma maior complexidade também na figura de Vénus, ao se ver rejeitada e a encarar isso como uma espécie de quase negação, ou de uma “bola pra frente”. Há uma química interessante entre as duas personagens, a amizade que surge entre elas, num tipo de dependência e troca mútua. O erotismo é muito sutil e elegante e achei bem bonita a última cena, com as opções do diretor no que deseja mostrar em close-ups, muito coerente com o ponto de vista de Fleur, principalmente.

Diria que as duas moças, Vénus e Fleur, teriam um pouco da personalidade melancólica de Pavese, mas muito pouco, na verdade. Mouret, embora mais à frente, em sua carreira, tenha feito melodramas e filmes mais carregados, costuma optar em geral pela leveza, o que não quer dizer que a dor não seja sentida, que ela não esteja lá presente, mesmo nas comédias. Mouret, nesse momento de sua carreira, ainda era uma espécie de herdeiro do cinema de Éric Rohmer. Depois disso, evoluiu e hoje caminha com as próprias pernas, com uma personalidade muito própria.

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MEMÓRIAS DE UM CARACOL (Memoir of a Snail)

Do mesmo diretor de MARY E MAX – UMA AMIZADE DIFERENTE (2009), eu não esperava uma história tão triste, tão no estilo "desgraça pouca é bobagem" neste MEMÓRIAS DE UM CARACOL (2024), de Adam Elliot. A protagonista, Grace, começa a história criancinha, e depois chega à idade adulta, ainda sofrendo muito. Se na infância e na adolescência era o bullying, depois outras situações não muito agradáveis, como a morte de pessoas queridas, a solidão, a depressão, a exploração sofrida por um personagem masculino que seria supostamente o homem que a amava (foi a cena que mais me doeu, essa). E o mais curioso é que Grace nem era a mais depressiva da família: ela via a vida como um copo com água na metade; diferente do irmão, que via como um copo vazio, mas esse mesmo irmão era seu herói, aquele que a protegia e estava sempre do seu lado. Gosto das cenas em que os dois irmãos, junto ao pai paralítico, estão lendo clássicos da literatura, e o quanto isso muda quando ela é levada para outro lar. Eu dei os tradicionais cochilos, como acontece com frequência com animações, mas desta vez culpo mais o horário (17h) e principalmente minha crise alérgica (de novo!).

JUNTOS (Together)

O body horror está de volta e está na moda. Deve ter atingido a mais alta escala de popularidade com A SUBSTÂNCIA, mas um certo TITANE já havia ganhado a Palma de Ouro em Cannes. O próprio mestre do subgênero também o fez com CRIMES OF THE FUTURE recentemente. E o grande barato do cinema de horror é o quanto ele pode usar temas políticos, sociais ou de relacionamento, como é o caso de JUNTOS (2025), de Michael Shanks, para revirar tudo do avesso (falando em revirar do avesso, difícil não lembrar de determinada cena de outro exemplar maravilhoso do gênero, A MOSCA). Neste filme que está dando o que falar, e que causa alguns momentos de aflição, Dave Franco e Alison Brie são um casal que ainda não se casou de fato, mas se mudou para uma casa no campo. Acontece que tanto ele quanto ela não estão muito bem. Ele, especialmente, nota-se estar muito incomodado com o relacionamento, ao mesmo tempo que não consegue se ver longe da namorada. As coisas começam a ficar sérias (ou divertidas) quando, depois de estarem numa caverna sinistra, os corpos dos dois passam a se comportar como se fossem se grudar. E de fato se grudam, e há algumas cenas muito boas, como a do sexo, a do cabelo e a do braço. Gosto menos do final do que do início e do desenvolvimento, mas de certa forma ele encerra bem o filme. Não de maneira tão gloriosa quanto poderia, mas o filme em nenhum momento se apresenta de fato genial. Seu principal mérito é trazer uma nova visão para a questão da dependência emocional.

A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (A Big Bold Beautiful Journey)

Talvez tenha me incomodado no filme a falta de uma química maior entre o casal vivido por Colin Farrell e Margot Robbie, mas o diretor Kogonada (COLUMBUS, 2017) mais uma vez dá destaque à direção de arte (aqui, remetendo aos musicais clássicos de Hollywood) e à melancolia, o que me atrai. Farrell, nesse sentido, está melhor do que sua parceira. Parece trazer consigo ainda um quê da tragédia dos personagens de OS BANSHEES DE INISHERIN e de O LAGOSTA. O espírito depressivo e derrotista de David, seu personagem no filme, se contrapõe em parte ao tom mais cínico de Sarah (Robbie), uma mulher bonita demais para estar sozinha num casamento de um amigo em comum com David. Ambos trazem traumas, medos, arrependimentos, nascidos de suas experiências no passado. Ele guarda lembranças de uma rejeição nos tempos da escola e que repercutiu na vida adulta; ela guarda o remorso de não estar presente quando sua mãe faleceu. Por isso a ideia de lar para cada um deles é diferente: enquanto ele foge para um futuro utópico e inexistente como pai de família, ela foge para a infância, para os braços da mãe. É um dos exemplares mais claros de filme-terapia, embora não veja como obra tão bem-sucedida no que tange ao tocar o espectador (se bem que só posso falar por mim). Ainda assim, é fácil ficar encantado com as cores muitas vezes artificiais de A GRANDE VIAGEM DA SUA VIDA (2025), bem como é fácil também criar alguma identificação com um ou outro personagem, nessa jornada que, para que chegue a um fim satisfatório ou feliz, é preciso enfrentar os demônios do passado, exorcizar a culpa e começar a ter um posicionamento mais decisivo diante da vida. Uns vinte minutos a menos no corte final teriam ajudado? Não sei. Mas talvez o que tenha me incomodado mais tenha sido a opção pela fantasia como meio de ilustrar as angústias dos protagonistas. E quase sempre eu tenho dificuldade de me apegar à fantasia.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (La Casa dalle Finestre Che Ridono)



Há 25 anos eu já ouvia falar (muito bem) deste filme de Pupi Avati, através da saudosa lista de discussão Cannibal Holocaust. E, apesar de geralmente ser classificado como um giallo (embora não um giallo tão tradicional), não havia sido lançado pela Versátil em sua linda coleção amarelinha até então. Eis que foi, mais recentemente, no volume 15. Essa demora se deu principalmente à falta de uma versão remasterizada do filme.

E que bom que agora existe, pois a fotografia de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES (1976) é uma das mais lindas do gênero, a cargo de Pasquale Rachini, que passaria a ser colaborador habitual de Avati a partir de então. Também belíssima é a trilha sonora de Amedeo Tommasi (A LENDA DO PIANISTA DO MAR, SLEEPLESS), que tem um tema romântico do protagonista com uma jovem professora que ele conhece na pequena cidade rural que é muito tocante, chegando a, ao mesmo tempo, contrastar e completar o restante da música original, centrada mais no mistério e no horror. Ah, e falando em coisas lindas, impressionante a beleza de Francesca Marciano, que, ainda que tenha trabalhado com Avati novamente em seu trabalho seguinte, optou por seguir o caminho de roteirista, tendo feito o roteiro de filmes famosos, como EU E VOCÊ, de Bernardo Bertolucci, e O MELHOR ESTÁ POR VIR, de Nanni Moretti.

A trama de A CASA DAS JANELAS SORRIDENTES nos pega mais pela atmosfera de mistério e pela perfeita condução de Avati do que pela história em si, embora ela também seja muito boa, muito ousada e que faz com que fiquemos tão curiosos para descobrir os segredos daquela cidade, daquele pintor, daquela família, que até entendemos ele correr tantos riscos. O final é surpreendente e vai fazer muita gente lembrar de certo slasher oitentista.

Na trama, Lino Capolicchio é um restaurador de afrescos que é contratado para restaurar uma pintura muito estranha de uma cidade do interior da Itália. A figura mostrada na pintura é uma espécie de variação da imagem de São Sebastião, trocando as flechas por facas e compondo um visual ainda mais perturbador com outras imagens no quadro. Ao chegar ao hotel, o rapaz, de nome Stefano, logo recebe avisos anônimos por telefone que precisa sair da cidade o mais rápido possível, se não ia se arrepender.

O filme de Avati tem um interesse genuíno na trama, mas acredito que é um tipo de interesse não tão próximo assim dos tradicionais whodunits. Ou seja, o que mais conta é o que vem sendo trazido aos poucos para o quebra-cabeças, como a gravação do pintor morto e desaparecido, além de declarações de alguns moradores da cidade que ousam falar sobre o assunto, que parece ser um tabu. O tal pintor se especializava em pintar pessoas no momento de suas mortes. Havia esse encanto, essa obsessão pela expressão do moribundo.

A presença de Francesca Marciano, com uma personagem meiga e gentil, em determinado momento da história é essencial para que pensemos em algo ou alguém que é ótimo o bastante para que nos preocupemos, diante daquele cenário de mortes misteriosas e casas mórbidas. Gosto do final, apesar da estranheza que carrega, ou talvez por causa disso, mas o filme vale muito mais do que o final. É como uma cebola que vamos descascando e saboreando lentamente. Uma cebola doce, é bom dizer.

Quanto a Avati, cineasta prolífico e que conheço tão pouco ou quase nada, achei interessante o comentário que ele dá em seu depoimento presente no box da Versátil: ele conta que não assiste filmes de outros diretores e não procura se atualizar sobre o que está sendo feito. E por isso mesmo pode até estar fazendo algum filme com uma história já feita antes. Nesse caso, talvez seja o caso de cineasta que mais se abastecesse espiritualmente com o zeitgeist do que com referências cinematográficas, embora ele tenha citado um par de filmes, sendo um deles, O VAMPIRO, de Carl Th. Dreyer. O segundo, eu me esqueci.

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DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (Dèmoni)

Talvez mais conhecido como o filho do genial Mario Bava, Lamberto Bava não alcançou nem metade da estatura do pai, o que também pode se dever ao fato de ele já ter iniciado sua carreira na última década em que o cinema de horror italiano estava em sua glória plena, os anos 1980. Eu, inclusive, até prefiro MACABRO (1980) a este muito mais celebrado DEMONS – FILHOS DAS TREVAS (1985), que virou um clássico, principalmente por seu sucesso nas vídeolocadoras. Por isso mesmo, é um luxo poder ver o filme não numa cópia surrada em VHS ou num DVD comum, mas numa gloriosa cópia em BluRay, a ótima e caprichada edição lançada pela Obras-Primas do Cinema. Ver DEMONS é também entrar numa espécie de cápsula do tempo, tanto pelo gosto pelo splatter mais raiz típico do horror oitentista, quanto pela trilha-sonora de Claudio Simonetti, acrescida de canções de Mötley Crüe, Scorpions, Billy Idol e outros, que adicionam o hard rock e o heavy metal, gêneros associados ao horror, aos sintetizadores da trilha original, e que já estava em voga nos gialli de Dario Argento e de outros. Aliás, Argento foi produtor de DEMONS, e dizem que foi um produtor bastante presente durante as filmagens. Ou seja, deve ter dedo dele no resultado criativo. Na trama, um grupo de pessoas, a maioria jovens, entra num cinema da Alemanha para assistir a um filme misterioso. Enquanto isso, a maldição do filme dentro do filme começa a repercutir também nessa sala de cinema: uma das moças havia experimentado uma máscara que furou seu rosto (clara homenagem ao clássico A MALDIÇÃO DO DEMÔNIO, de Bava), assim como também fura o rosto do personagem do filme, que se transforma num demônio. Em determinado momento, o filme fica parecendo mais uma aventura de matinê, com as pessoas correndo dos monstros, do que do horror. O que não quer dizer que isso seja ruim. Apenas deixou de ser tão atraente pra mim. Ainda assim, é uma alegria ver DEMONS, pelo que traz de novo e criativo.

ALL THE COLORS OF GIALLO

O documentário ALL THE COLORS OF GIALLO (2019), de Federico Caddeo, pode não trazer muitas novidades para quem já conhece os principais filmes do gênero, mas ainda assim é uma delícia de ver. O formato escolhido é de certa forma óbvio, mas interessante: primeiro fala do giallo como literatura, para depois falar dos krimis, produzidos na Alemanha, da “invenção” do giallo por Mario Bava com seus principais filmes, e depois o momento em que o subgênero ganha filhotes, a partir, principalmente, de O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, de Dario Argento. Em seguida, há um bom momento dedicado a Lucio Fulci, e depois aos cineastas menores, mas essenciais para a manutenção do estilo por mais de uma década. Dos meus gialli preferidos, senti falta de uma menção a O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, de Massimo Dallamano. Em compensação, há situações de trabalhos importantes de Sergio Martino, Umberto Lenzi, Luciano Ercoli, Aldo Lado, Duccio Tessari, entre outros. Além dos cineastas entrevistados, é bom ver atores e atrizes repensando suas experiências. Sei que terminei o doc com um gostinho de quero-mais e uma vontade enorme de ver um monte de giallo. Até já reservei dois boxes da minha querida coleção amarelinha aqui. 

VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (Valerie a Týden Divů)

Há anos sei o quanto VALERIE E SUA SEMANA DE DESLUMBRAMENTOS (1970) é um filme cultuado, mas sempre adiava sua apreciação por algum motivo. Acho que me afastava um pouco o fato de ser um filme narrado do ponto de vista de uma criança e isso às vezes, por alguma razão que não sei bem explicar, me dá um pouco de sono - posso citar vários casos. Outro motivo talvez seja o fato de o classificarem mais como uma fantasia do que como terror. Na verdade, as duas informações são parcialmente corretas: a menina na verdade está numa fase de descoberta sexual aos 13 anos de idade e acaba passando tanto por diversos tipos de violência quanto por um sentimento de paixão romântica; e, sim: considero o filme mais uma fantasia do que terror, mas muitos códigos de terror estão lá, principalmente o fato de contar uma história de vampiros. Gostaria de ter me envolvido mais com a narrativa onírica e surreal do filme, mas isso não aconteceu, mesmo com toda a beleza visual – a cópia presente no box Obras-Primas do Cinema – Horror Internacional está linda. O diretor Jaromil Jireš costuma ser associado à nouvelle vague tcheca, um movimento interessante, que infelizmente conheço muito pouco.

segunda-feira, fevereiro 02, 2026

ONZE CURTAS BRASILEIROS



Ando sem tempo de escrever para o blog, mas não vou deixar de colocar registros dos curtas brasileiros vistos recentemente.

A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO

Este filme de Rodolpho de Barros (ao que parece é o seu quarto curta-metragem) já chama a atenção por sua beleza plástica: a fotografia em preto e branco em janela scope valoriza tanto as tomadas de perto, como a imagem da mosca lutando pela vida ou os close-ups dos dois únicos atores em cena, quanto a visão panorâmica do bar, onde aquele homem estudioso da vida das moscas e aquela mulher aparentemente deprimida estão. Excelente o trabalho de Luiz Carlos Vasconcelos, que é tanto o narrador quanto a pessoa que impulsiona a ação com palavras e gestos. Ele dizer, por exemplo, o detalhe de como as moscas acasalam não é algo gratuito para a conclusão da breve história kafiana que é A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO (2024).

AJUDE OS MENOR

A primeira imagem de AJUDE OS MENOR (2025), de Janderson Felipe e Lucas Litrento, da moto surgindo de uma paisagem desértica ao som de uma trilha que lembra western spaghetti ajuda a dar o tom de uma ambientação tão masculina quanto hostil. O rapaz da motocicleta é um entregador que traz o almoço para um grupo de rapazes que trabalham na construção civil. O ambiente se revela tóxico com a chegada do chefe que quer mostrar que manda na base da humilhação. A semelhança das primeiras imagens com o western acaba se confirmando com a presença de uma arma e de um espírito vingativo. Não me envolvi tanto com o andamento narrativo e com os personagens, mas é um bom filme sobre luta de classes, sim.

AMERICANA

São 20 minutos que passam voando. Muito divertida esta comédia de Agarb Braga que mostra uma situação de confusão entre duas mulheres trans e o pivô da briga seria o namorado de uma delas. O que começa parecendo algo que até lembra algo da comédia cearense (o filme é paraense) ganha força com a montagem muito esperta, que nos fazer ver diversos pontos de vista e conhecer as principais personagens, sendo a mais engraçada a personagem crente. O título do filme, AMERICANA (2025), se refere a uma delas, que gosta de ser chamada pelo apelido "americana" e suspeita que o namorado a está traindo. Destaque também para a fotografia bem colorida e solar.

BOI DE SALTO

Gosto de como BOI DE SALTO (2025), de Tássia Araújo, se inicia de um jeito (um marido tentando satisfazer o desejo de sua esposa grávida) e se transforma em algo totalmente diferente e igualmente interessante, sobre um rapaz que quer desfilar no Bumba-Meu-Boi usando saltos altos brilhosos e isso não é muito bem-visto pelo mestre. Mas talvez por isso mesmo eu tenha achado sua conclusão muito brusca, com impressão de incompletude. De todo modo, acredito que a diretora tenha mandado seu recado, sim, e faz isso com um cuidado visual muito bom, e com personagens bons o suficiente para que queiramos ver mais deles.

BOIUNA

Que bom que tem chegado, ainda que de maneira tímida, filmes ambientados (e produzidos) na região norte do Brasil. Assim como o sucesso MANAS, este curta BOIUNA (2025), de Adriana de Faria, também lida com dificuldades que as meninas encontram no mundo, e que precisam contar com elas mesmas para venceram (ou não) os obstáculos que surgem. Inclusive, não me lembro de nenhum personagem masculino que tenha surgido na trama (mas posso ter me enganado). Mas BOIUNA também tem algo de misterioso: há uma cobra gigante e há pessoas que aparecem e reaparecem depois de mortas para atazanar a vida das mulheres. Aliás, lembrei de um personagem masculino, o de um homem morto. Gosto do filme, mas imagino que se visto na telona o som funcionaria mais a seu favor.

CASULO

Eis um tipo de curta que funciona como curta em seus 20 minutos, mas que também dá vontade de acompanhar os personagens, como numa série de televisão. Acompanhamos Joana, uma mulher com um filho pequeno sofrendo o que parece ser um distúrbio pós-parto. Ela está preocupada com a visita de uma assistente social e somos convidados a viver um pouco desse seu inferno interior, ainda que saibamos bem pouco de sua história pregressa. Mas por isso mesmo CASULO (2024), de Aline Flores, é brilhante, pois aquilo que é mostrado, naquele universo pequeno que é um apartamento, aquilo parece bastar. Grande desempenho de Aline Flores, que é diretora e atriz principal. Grande talento!

COMO NASCE UM RIO

A animação é um ótimo meio para contar uma história de maneira mais poética, num estado mental próximo ao uso de um alucinógeno, quando é o caso. Em COMO NASCE UM RIO (2025), de Luma Flôres, acompanhamos uma jovem mulher descobrindo uma outra mulher, tão gigante que parece um monte. Um monte que jorra água, como um rio. Mas à frente, as metáforas ficarão mais óbvias e o final é bem bonito em sua representação do amor físico.

CANTO

Um filme que destaca o não-dito, mas que é representado na fala, na fragilidade, no sentimento de cuidado, este CANTO (2025), de Daniel Daher. Uma jovem mãe que se atribui solteira, um menino com o braço quebrado, uma vizinha que ajuda na cama molhada de xixi, o dono de um quartinho que precisa do aluguel, uma agente de empregos exercendo sua função burocrática e um mundo que parece não destinado a cuidar daqueles que mais precisam. O uso do close-up na cena das perguntas na agência de empregos é o ponto alto.

RÉQUIEM PARA MOÏSE

Susanna Lira é uma cineasta incansável. É impressionante o quanto ele tem produzido por ano. Se acham que estou exagerando, basta dar uma olhada em seu currículo no IMDB. Uma diretora que tem trabalhado tanto com a ficção quanto com o documentário. Inclusive sou fã de seu documentário FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024), lindíssimo. Em RÉQUIEM PARA MOÏSE (2025), trabalhando em parceria com Caio Barretto Briso, estreando na direção, apresenta o revoltante caso do espancamento de Moïse Kabagambe, imigrante congolês de 24 anos, num quiosque na Barra da Tijuca em 2022. Infelizmente se trata de um daqueles casos revoltantes, mas que, com o surgimento de outros casos revoltantes neste país, acabou sendo um pouco esquecido. Ter um pequeno filme que traga este assunto novamente e dando voz aos amigos de Moïse se faz necessário.

SAMBA INFINITO

Fiquei encantado com este SAMBA INFINITO (2025, foto), de Leonardo Martinelli. Já começa mostrando o quanto é chique ao anunciar nos créditos a participação especial de Camila Pitanga e Gilberto Gil. Mas depois, quando se revela uma espécie de drama lynchiano, misterioso e cheio de afeto, aí me encantou de vez. Ainda mais quando brinca com a própria forma para alcançar o sublime, como que trazendo uma nova chance de vida para o gari que no passado se perdeu da mãe. A última fala da personagem de Camila Pitanga é muito comovente. Além do mais, que movimentação de câmera elegante e que fotografia linda, feita por João Atala, o mesmo de MEDUSA e NOSSO SONHO.

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

O formato adotado por este filme não é original. Até tem sido usado com frequência, principalmente em curtas, como uma forma de trazer para o espectador um olhar afetuoso causado principalmente pela narração, embora as imagens que passam por nossos olhos também complementem, muitas vezes por causa de um tipo de contraste, aquilo que estamos ouvindo. O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO (2025), de Felipe Casanova, só foi me ganhar já perto do final de seus 20 e poucos minutos. Foi quando o sentimento que eu geralmente carrego quando o assunto é a dor de uma mãe finalmente me pegou. Foi quando o contraste quase perverso do carnaval carioca com a morte de adolescentes e crianças pobres e pretas pelo estado passou a ter um impacto maior em mim.