Estava na lavanderia botando umas roupas para secar quando terminei de ler o capítulo sobre OS IMPLACÁVEIS (1972), escrito por Quentin Tarantino para seu delicioso livro Especulações Cinematográficas. Fiquei arrepiado com o modo como Tarantino encerra seu texto em homenagem ao filme de Sam Peckinpah, enaltecendo-o como uma história de amor, mais do que como um thriller de assalto e fuga. E ele faz isso fazendo também comparações com o romance de Jim Thompson que serviu de base para a adaptação, a partir de roteiro escrito por Walter Hill. Isso porque, enquanto no romance o escritor busca separar o casal Doc e Carol, inclusive fazendo com que eles terminem sua jornada numa espécie de inferno, Peckinpah e Hill buscam o tempo todo uni-los, apesar de todos os obstáculos que se apresentam em seu caminho, sendo que um deles é extremamente doloroso para o ego de macho ferido do personagem de Steve McQueen. Ou seja, há um amor do realizador por seus anti-heróis, resultando numa conclusão que jamais seria possível na época da velha Hollywood, no tempo do Código Hays.
E falando em velha Hollywood, Tarantino também faz uma excelente alegoria entre o personagem Doc e os diretores do antigo sistema de estúdios, que eram obrigados a trabalharem com quem não gostavam. Segue texto de Tarantino:
Sam Peckinpah é Doc McCoy. Um diretor e roteirista dentro de uma cela da prisão do cinema, incapaz de conseguir um trabalho. Beynon, um executivo de estúdio que ele odeia, quer que Sam faça um filme. O executivo representa tudo que o diretor mais odeia, mas é o único que pode contratá-lo. O único capaz de abrir a porta da cela da prisão em que ele está. A esposa de Doc negocia um acordo para que o filme seja realizado. Doc escreve o roteiro do filme, Beynon o obriga a trabalhar com pessoas que ele não quer (Rudy e Jackson) e deixa bem explícito que o contratado não tem escolha. Devido a esses incompetentes inferiores, o filme acaba sendo um desastre, e o diretor é apontado como culpado pelo executivo, que o colocou, desde o começo, numa posição em que só poderia fracassar.
Havia um bom tempo que não via um filme de Sam Peckinpah– o último foi provavelmente PARCEIROS DA MORTE (1962), seu primeiro longa-metragem para cinema, visto em 2006 e comentado rapidamente aqui no blog. Quem me trouxe de volta para o cinema do realizador foi justamente Tarantino, ao dedicar capítulo especial a OS IMPLACÁVEIS, com os astros Steve McQueen e Ali McGraw. Eu até tentei ler o texto sobre o filme sem vê-lo, mas logo percebi que havia detalhes demais para passar pela leitura do capítulo sem ver a obra cinematográfica.
McQueen foi um de meus heróis da infância, já que no meu período pré-cinefilia adorava quando passava FUGINDO DO INFERNO na televisão. Já Ali McGraw vinha do sucesso de LOVE STORY – UMA HISTÓRIA DE AMOR, de Arthur Hiller, filme que eu lembro de ter uma lembrança vaga na minha adolescência, da experiência de ter chorado o vendo. A química entre os dois atores é tão boa que faz todo o sentido que eles tenham namorado durante as filmagens. E faz ainda mais sentido quando vemos o quanto a trajetória de McGraw se assemelha a de sua personagem, com a questão da traição envolvida.
No caso do filme, nem chega a ser uma traição – teria sido mais um sacrifício, embora haja dubiedade. Lembremos que Peckinpah adora dubiedades em suas personagens femininas, ainda mais se pensarmos numa certa cena polêmica de SOB O DOMÍNIO DO MEDO (1971), seu incrível filme anterior. Mas, na vida real, McGraw estava traindo o chefão da Paramount, Robert Evans, então seu esposo. Foi Evans que desde o começo queria McGraw no elenco. E, curiosamente, McQueen não ia muito com a cara da atriz e não a via como a ideal para o papel.
Acho lindo quando Tarantino faz uma declaração de amor à atuação de McGraw, que é a alma do filme, mais que o próprio McQueen. Citando Tarantino novamente:
Ainda que não seja a personificação de uma ladra profissional à mão armada, o que ela representa, minuto a minuto, cena após cena, é a realidade emocional de uma mulher que tenta evitar que seu relacionamento se despedace. O casal atravessa uma série de provações físicas e emocionais, arrastando-se de uma catástrofe após a outra. Enquanto McQueen alterna entre manter e perder a calma, Carol sente, Carol sangra, Carol se machuca, Caron sente medo.
A história de OS IMPLACÁVEIS é bem simples e de certa forma semelhante a de muitos outros títulos de assalto a banco seguido de perseguição. Semelhante, mas com um molho muito especial. McQueen e McGraw são um casal que tem a missão de assaltar um banco e trazer o dinheiro para o contratante. Só que muita coisa dá errado, gente morre no local do crime e a maior parte do bando não sai exatamente vivo da missão.
Lendo o livro do Tarantino, achei muito engraçado o que ele contou sobre a decisão de McQueen não contratar Peter Bogdanovich para a direção do filme: que teria mais a ver com o total desconhecimento por parte de Bogdanovich de tipos de armas de fogo do que qualquer outra coisa. Ou seja, era McQueen disposto a conseguir um parceiro (um diretor) que tivesse ao menos um pouco de afinidade com sua virilidade. E conseguiu, com Peckinpah, que eu diria que é um diretor muito mais terno do que sua fama faz parecer. Basta ver o final de OS IMPLACÁVEIS, basta ver também o lindo e pouco lembrado A MORTE NÃO MANDA RECADO (1962).
+ TRÊS FILMES
MORTE SUSPEITA DE UMA ADOLESCENTE (Morte Sospetta di una Minorenne)
Este misto de giallo com poliziottesco dirigido por Sergio Martino é cheio de surpresas. Começa como um giallo, com a perseguição e posterior assassinato da garota do título, para depois se transformar num filme policial com toques de comédia, em especial quando o protagonista, um policial que usa métodos diferentes, se alia a um ladrão de bolsas. Em MORTE SUSPEITA DE UMA ADOLESCENTE (1975), há espaço para perseguições de carro que fazem lembrar Buster Keaton, e o fato de o herói andar com um carro caindo aos pedaços contribui para esse tom mais leve que passa a ser adotado, mas que é substituído por um tom tipicamente de giallo nas cenas em que o assassino de óculos escuros ataca. Há uma cena que me fez lembrar bastante DUBLÊ DE CORPO, um dos filmes do De Palma que mais parece devedor do giallo. Martino mais uma vez manda muito bem. Depois de cinco gialli essenciais entre os anos de 1971 e 1973, ele já podia fazer filmes medianos despreocupado. E nem é o caso deste aqui, não.
EDDINGTON
Depois de um filme longo, pretensioso e de difícil digestão como BEAU TEM MEDO (2023), Ari Aster faz o quê? Faz algo parecido, e novamente repetindo a parceria com Joaquin Phoenix. No entanto, seu novo trabalho, ainda que muitas vezes pareça delirante, é bastante calcado na realidade. Este mundo da pós-verdade é que virou um espaço de delírio. E Aster, ao colocar a ação em plena pandemia, numa pequena cidade do Novo México, em 2020, nos introduz a um universo habitado por negacionistas do coronavírus, pessoas habituadas a passar o dia vendo vídeos de teorias da conspiração e já há aqueles que rejeitam a vacina antes mesmo de sua chegada. Logo no começo de EDDINGTON (2025), Phoenix é esse xerife que se recusar a cumprir a ordem do governador, de ter que usar máscara estando fora de casa. Como se já não bastasse haver um cenário de embate entre progressistas e fascistas, havia também uma richa de etnias: brancos, negros e indígenas. Gosto mais da segunda parte do filme, já que o personagem de Phoenix demora a sair de algum tipo de paralisia, e começa a agir. Há quem diga que um dos problemas do filme seja tornar o personagem de Phoenix um tanto simpático ao público, sendo ele o que é, e fazendo o que faz; e fazendo isso o diretor estaria concordando em parte com seus posicionamentos. Mas acho pouco provável, embora os ativistas de esquerda também apareçam um tanto ridicularizados, em sua fala repetitiva. Mais ou menos como Paul Thomas Anderson faz em UMA BATALHA APÓS A OUTRA. O que mais assusta em EDDINGTON é o quanto ele me traz lembrança de amigos que entraram nessa de ouvir as vozes dos malucos de plantão e se tornaram outras pessoas.
O VESTIDO
Alguns filmes têm um significado tão pessoal que parece que dialogam conosco, que falam diretamente a nós. O VESTIDO (2003) é um pouco assim; não comigo, mas com a Giselle, que sempre o mencionava e acabamos encontrando para ver no YouTube, copiado do Canal Brasil. E só então eu entendi o significado, que não é apenas sobre ela, mas sobre nós dois, sobre nossa relação de décadas atrás também. Quanto ao filme de Paulo Thiago, se analisado em separado, vejo como uma espécie de fábula, quase uma versão da parábola do filho pródigo, só que com um problema de casting que prejudicou um pouco minha apreciação. Gabriela Duarte, não sei se ficou tão boa assim como femme fatale, mas por isso mesmo gosto de quando acontece uma mudança de narrador e podemos vê-la mais vulnerável, mais humana, e por isso mesmo mais passível de ganhar nossa solidariedade. Mais até do que o sujeito (Leonardo Vieira) que larga a esposa (Ana Beatriz Nogueira) para ficar com ela. O vestido do título funciona como uma espécie de objeto capaz de causar gatilhos nos envolvidos. Não como o espelho de ESPELHO DE CARNE, de Antonio Carlos da Fontoura. Não tão presente e não tão amaldiçoado, mas ainda assim o é, para a história daquele casal e daquela jovem mulher. Gosto muito de como Paulo Thiago utiliza duas obras-primas para dialogar com seu filme: o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, para falar de ciúme, e o filme O PAGADOR DE PROMESSAS, de Anselmo Duarte, para falar do sagrado e do profano. E para deixar claro o passado de atriz da personagem de Gabriela Duarte.
Acho lindo quando Tarantino faz uma declaração de amor à atuação de McGraw, que é a alma do filme, mais que o próprio McQueen. Citando Tarantino novamente:
Ainda que não seja a personificação de uma ladra profissional à mão armada, o que ela representa, minuto a minuto, cena após cena, é a realidade emocional de uma mulher que tenta evitar que seu relacionamento se despedace. O casal atravessa uma série de provações físicas e emocionais, arrastando-se de uma catástrofe após a outra. Enquanto McQueen alterna entre manter e perder a calma, Carol sente, Carol sangra, Carol se machuca, Caron sente medo.
A história de OS IMPLACÁVEIS é bem simples e de certa forma semelhante a de muitos outros títulos de assalto a banco seguido de perseguição. Semelhante, mas com um molho muito especial. McQueen e McGraw são um casal que tem a missão de assaltar um banco e trazer o dinheiro para o contratante. Só que muita coisa dá errado, gente morre no local do crime e a maior parte do bando não sai exatamente vivo da missão.
Lendo o livro do Tarantino, achei muito engraçado o que ele contou sobre a decisão de McQueen não contratar Peter Bogdanovich para a direção do filme: que teria mais a ver com o total desconhecimento por parte de Bogdanovich de tipos de armas de fogo do que qualquer outra coisa. Ou seja, era McQueen disposto a conseguir um parceiro (um diretor) que tivesse ao menos um pouco de afinidade com sua virilidade. E conseguiu, com Peckinpah, que eu diria que é um diretor muito mais terno do que sua fama faz parecer. Basta ver o final de OS IMPLACÁVEIS, basta ver também o lindo e pouco lembrado A MORTE NÃO MANDA RECADO (1962).
+ TRÊS FILMES
MORTE SUSPEITA DE UMA ADOLESCENTE (Morte Sospetta di una Minorenne)
Este misto de giallo com poliziottesco dirigido por Sergio Martino é cheio de surpresas. Começa como um giallo, com a perseguição e posterior assassinato da garota do título, para depois se transformar num filme policial com toques de comédia, em especial quando o protagonista, um policial que usa métodos diferentes, se alia a um ladrão de bolsas. Em MORTE SUSPEITA DE UMA ADOLESCENTE (1975), há espaço para perseguições de carro que fazem lembrar Buster Keaton, e o fato de o herói andar com um carro caindo aos pedaços contribui para esse tom mais leve que passa a ser adotado, mas que é substituído por um tom tipicamente de giallo nas cenas em que o assassino de óculos escuros ataca. Há uma cena que me fez lembrar bastante DUBLÊ DE CORPO, um dos filmes do De Palma que mais parece devedor do giallo. Martino mais uma vez manda muito bem. Depois de cinco gialli essenciais entre os anos de 1971 e 1973, ele já podia fazer filmes medianos despreocupado. E nem é o caso deste aqui, não.
EDDINGTON
Depois de um filme longo, pretensioso e de difícil digestão como BEAU TEM MEDO (2023), Ari Aster faz o quê? Faz algo parecido, e novamente repetindo a parceria com Joaquin Phoenix. No entanto, seu novo trabalho, ainda que muitas vezes pareça delirante, é bastante calcado na realidade. Este mundo da pós-verdade é que virou um espaço de delírio. E Aster, ao colocar a ação em plena pandemia, numa pequena cidade do Novo México, em 2020, nos introduz a um universo habitado por negacionistas do coronavírus, pessoas habituadas a passar o dia vendo vídeos de teorias da conspiração e já há aqueles que rejeitam a vacina antes mesmo de sua chegada. Logo no começo de EDDINGTON (2025), Phoenix é esse xerife que se recusar a cumprir a ordem do governador, de ter que usar máscara estando fora de casa. Como se já não bastasse haver um cenário de embate entre progressistas e fascistas, havia também uma richa de etnias: brancos, negros e indígenas. Gosto mais da segunda parte do filme, já que o personagem de Phoenix demora a sair de algum tipo de paralisia, e começa a agir. Há quem diga que um dos problemas do filme seja tornar o personagem de Phoenix um tanto simpático ao público, sendo ele o que é, e fazendo o que faz; e fazendo isso o diretor estaria concordando em parte com seus posicionamentos. Mas acho pouco provável, embora os ativistas de esquerda também apareçam um tanto ridicularizados, em sua fala repetitiva. Mais ou menos como Paul Thomas Anderson faz em UMA BATALHA APÓS A OUTRA. O que mais assusta em EDDINGTON é o quanto ele me traz lembrança de amigos que entraram nessa de ouvir as vozes dos malucos de plantão e se tornaram outras pessoas.
O VESTIDO
Alguns filmes têm um significado tão pessoal que parece que dialogam conosco, que falam diretamente a nós. O VESTIDO (2003) é um pouco assim; não comigo, mas com a Giselle, que sempre o mencionava e acabamos encontrando para ver no YouTube, copiado do Canal Brasil. E só então eu entendi o significado, que não é apenas sobre ela, mas sobre nós dois, sobre nossa relação de décadas atrás também. Quanto ao filme de Paulo Thiago, se analisado em separado, vejo como uma espécie de fábula, quase uma versão da parábola do filho pródigo, só que com um problema de casting que prejudicou um pouco minha apreciação. Gabriela Duarte, não sei se ficou tão boa assim como femme fatale, mas por isso mesmo gosto de quando acontece uma mudança de narrador e podemos vê-la mais vulnerável, mais humana, e por isso mesmo mais passível de ganhar nossa solidariedade. Mais até do que o sujeito (Leonardo Vieira) que larga a esposa (Ana Beatriz Nogueira) para ficar com ela. O vestido do título funciona como uma espécie de objeto capaz de causar gatilhos nos envolvidos. Não como o espelho de ESPELHO DE CARNE, de Antonio Carlos da Fontoura. Não tão presente e não tão amaldiçoado, mas ainda assim o é, para a história daquele casal e daquela jovem mulher. Gosto muito de como Paulo Thiago utiliza duas obras-primas para dialogar com seu filme: o romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, para falar de ciúme, e o filme O PAGADOR DE PROMESSAS, de Anselmo Duarte, para falar do sagrado e do profano. E para deixar claro o passado de atriz da personagem de Gabriela Duarte.
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