terça-feira, agosto 31, 2010

PAPRIKA (Papurika)



Uma das notícias mais tristes da semana passada foi a do falecimento de Satoshi Kon, um dos maiores gênios da animação japonesa. Sua morte se tornou ainda mais dramática depois que foi divulgada na internet uma emocionante carta de despedida do cineasta, que estava há alguns meses lutando contra um câncer no pâncreas. Não vou negar que chorei ao ler a longa carta. Muitos costumavam dizer que Kon seria uma espécie de herdeiro do veterano Hayao Miyazaki, tanto pela diferença de idade dos dois, quanto pela qualidade de suas obras, já mundialmente aclamadas. PAPRIKA (2006), por exemplo, chegou a passar em diversos festivais, tendo estreado mundialmente no Festival de Veneza. No Brasil, o único filme do diretor lançado comercialmente foi TOKYO GODFATHERS (2003), apenas em dvd.

PAPRIKA foi recentemente mencionado em diversas críticas sobre o mais recente filme de Christopher Nolan, A ORIGEM. E realmente as semelhanças entre os dois chegam a ser assombrosas. Inclusive, a imagem do sonhador vendo o mundo (dos sonhos) desmoronar aos seus pés, entre outros recursos visuais que Nolan soube muito bem materializar, aparecem diversas vezes no desenho. A vantagem de PAPRIKA em relação ao filme de Nolan é que ele é mais delirante, enquanto que A ORIGEM é bem racional e lógico. Satoshi Kon prefere optar por deixar as rédeas soltas, soltar a mão do espectador, a ponto de deixá-lo mais confuso e perdido. Assim como em sua obra de estreia, PERFECT BLUE (1998), Satoshi Kon homenageia diversos filmes e usa sequências que simulam travellings, zooms e outros recursos de câmera, a fim de tornar o filme uma viagem dessas que a gente não sabe se vai voltar.

Na trama, há um equipamento capaz de entrar na mente das pessoas, enquanto elas estão sonhando. O equipamento chama-se DC Mini e foi criado para explorar o inconsciente de pacientes numa clínica psiquiátrica. A chefe da equipe de trabalho, a dra. Atsuko Chiba, passa a usar o equipamento clandestinamente, usando o seu alter-ego: a ninfeta Paprika. O filme começa quando Paprika está prestando serviços ao Detetive Konakawa Toshimi, que sofre de sonhos recorrentes. A certa altura, o filme vai ficando mais complicado, rementendo a uma obra anterior de Kon, a minissérie PARANOIA AGENT (2004), inclusive com a utilização da música como agente perturbador. O final é épico ao estilo pop japonês - eles adoram batalhas com gigantes.

Depois de um deleite visual como PAPRIKA, é aguardar que sua última obra, THE DREAM MACHINE, seja mesmo lançada postumamente. Pelo título, a expectativa é de que tenha uma temática parecida com a de PAPRIKA. Será?

segunda-feira, agosto 30, 2010

KARATÊ KID (The Karate Kid)



Muito bom quando a gente é surpreendido positivamente com um filme que aparentemente não tinha muito a oferecer. Afinal, se o KARATÊ KID original de 1984 tem mais valor saudosista do que propriamente por suas qualidades fílmicas e Jackie Chan não está com uma carreira lá muito boa nos Estados Unidos, não havia como esperar que KARATÊ KID (2010), o remake, dessa vez dirigido por Harald Zwart e estrelado pelo pequeno Jaden Smith, o filho de Will Smith, que aparece como produtor executivo, fosse uma pequena joia. Ao que parece, as exigências do papai Smith resultaram numa produção bem caprichada. Melhor do que a encomenda, eu diria. O filme também serve como um ótimo cartão de visitas para a China. Temos a oportunidade de ver a beleza das antigas construções e da geografia do país. Aqui não há espaço para críticas sociais, como nos filmes de Jia Zhang Ke. A China é apenas um lugar belo, longe, muito diferente e de difícil adaptação para um garoto americano recém-chegado.

Sem falar que o menino logo vira saco de pancadas dos garotos perversos da escola, principalmente quando um deles percebe que uma bela garotinha chinesa está de olho no jovem americano recém-chegado. A base do filme é totalmente previsível, mesmo que não fosse uma refilmagem. Mas isso não impede que cada momento seja visto com prazer e com espírito de torcida pelo jovem Dre Parker, que prefere que sua mãe não intervenha em assuntos de brigas na escola. Sua sorte acontece quando, prestes a levar uma baita surra de seis garotos, o zelador do prédio onde ele mora (Jackie Chan) o salva e aceita ser seu mestre para uma competição de kung fu.

É também um alívio ver um filme com cenas de lutas filmadas à moda antiga e emulando a animação japonesa. Assim, pode-se acompanhar todos os golpes e até sentir o impacto, graças ao belo trabalho de som. E é impressionante como um filme que mostra uma moral já manjada, como "a vida vai te derrubar, mas você pode escolher se levantar ou não", pode ainda ser bem significativa para qualquer espectador que esteja passando por dificuldades na vida. Tudo bem que é muito fácil torcer por um personagem bom contra um grupo de garotos maus, chefiados por um professor ainda mais maligno, mas aí é que está a força do filme: tornar o que seria ridículo ou banal em algo apreciável, empolgante, emocionante. E quem diria que Jackie Chan ainda faria uma plateia chorar? Seu personagem ganha contornos mais profundos lá pelo meio do filme, o que o torna mais real. Grande Jackie.

sexta-feira, agosto 27, 2010

I'M HERE



Tempo é artigo raro e de luxo nos dias de hoje. E tenho tentado aproveitá-lo à minha maneira. Pena que nem sempre a minha maneira é a mais saudável. Não que eu tenha o hábito de sair para beber e chegar no trabalho com bafo de cerveja. Mas não tenho mais vinte anos e dormir perto de uma hora da manhã e acordar perto das seis e meia para trabalhar os três turnos não é mole. O ideal seria chegar e dormir logo. Quem sabe ler um trecho da biografia dos Beatles e dormir o mais cedo que puder. Mas eu não me conformo. Não me conformo em chegar em casa tarde e não ter um tempo para mim. Não me dar o direito de ver nem que seja um trecho de um filme ou um episódio de uma série. Aí quando olho para o relógio já passa de meia-noite. Ontem escolhi I'M HERE (2010), curta-metragem de meia hora de Spike Jonze. Para não deixar o blog ficar parado, vou recorrer a filmes curtos de vez em quando.

I'M HERE foi muito citado na época em que eu escrevi sobre ONDE VIVEM OS MONSTROS (2009), que não fez muito a minha cabeça. O curta seria a sua obra-prima, o seu filme mais pessoal. Não sou muito fã do trabalho de Spike Jonze como cineasta, mas curto muito alguns de seus videoclipes, que se tornaram clássicos, como "It's, oh, so quiet", da Björk (meu preferido); "Undone (The Sweater Song)" e "Buddy Holly", ambos do Weezer; "Praise you", do Fatboy Slim (puxa, essa eu dancei muito nos anos 90); "Sabotage", dos Beastie Boys, entre outros de um tempo em que o videoclipe atingiu o seu auge e a MTV era uma emissora bem bacana. E se os vídeos eram trabalhos de encomenda, apesar de se notar uma maior inventividade em seu trabalho, o que ele fez patrocinado pela vodca Absolute é algo bem tocante.

Pode-se ver o filme por pelo menos dois prismas: a) considerar uma bela história de amor sobre o quanto alguém é capaz de se doar pela pessoa amada; ou b) do quanto a pessoa fica cega quando ama alguém, até chegar ao ponto de perder tudo, de chegar ao fundo do poço. I'M HERE é uma história de amor entre robôs, num mundo onde eles e os humanos convivem juntos. Mas os robôs são desprezados pelos humanos, são indignos de sua atenção, até. E com o tempo, eles começam a tentar mostrar que também têm sentimentos e direitos, que podem apreciar uma boa música, ir a festas e até dirigir carros, um ato proibido, transgressor. O filme tem desde o primeiro ao último fotograma uma melancolia que invade o espírito. Só a solidão de ver o robô com cara de CPU velha chegando em seu quarto e ligando a tomada para dormir (recarregando as baterias) já aponta um filme triste. Mas quem disse que as coisa não podem piorar? Ou melhorar, se estar ao lado de quem você ama, mesmo em condições não lá muito boas, é a melhor coisa do mundo.

quinta-feira, agosto 26, 2010

UM DOCE OLHAR (Bal / Honey)



Filmes turcos são raros de estrear em nosso circuito, mesmo o alternativo. UM DOCE OLHAR (2010) ganhou espaço graças ao Urso de Ouro faturado no Festival de Berlim deste ano. O filme é o terceiro de uma trilogia do diretor Semih Kapanoglu, que trazem o mesmo personagem, Yusuf, em diferentes momentos de sua vida e que contam com títulos com nomes de alimentos. "Bal" quer dizer "mel", enquanto que os anteriores são chamados YUMURTA (2007), que quer dizer "ovo", e SUT (2008), que significa "leite". E apesar de ter um significado que poderia remeter apenas a uma metáfora, pelo menos no caso de UM DOCE OLHAR, o mel em si também faz parte integrante da história.

A trama é narrada de maneira lenta e contemplativa, com uso de pouca música. Na maior parte das vezes o que ouvimos é o som da densa floresta, onde vive o pequeno Yusuf com seu pai, um apicultor, e sua mãe, plantadora de chá. Nota-se que ele tem uma aproximação bem maior com o pai do que com a mãe, com quem guarda certo distanciamento. O pai, demostrando segurança em seu trabalho de pegar mel das colmeias e de ainda ajudando-o na tarefa escolar, é uma figura de respeito e amor.

E falando em tarefa escolar, alguns dos momentos mais tocantes do filme são os que mostram a dificuldade do garoto em conseguir ler, enquanto os demais colegas ganham medalhas. O modo como o diretor filma o pote de medalhas - do ponto de vista do pote - e longe do alcance do pequeno Yusuf, é de dar dó. O menino também tem uma dificuldade muito grande em se socializar com os demais colegas. Na hora do recreio, enquanto os outros brincam, ele fica dentro da sala, olhando-os pela janela. Num sistema mais humano, o garoto poderia ser diagnosticado com algum tipo de desordem que poderia ser solucionada - o menino, além da timidez e dificuldade de ler, ainda sofre de gagueira.

Esses momentos do menino na escola fazem lembrar alguns filmes iranianos, centrados na inocência das crianças, mas UM DOCE OLHAR se diferencia no uso ambicioso dos efeitos de câmera e de fotografia tanto dos interiores quanto da densa floresta e da paisagem rural. Pena que, mais uma vez, com a cópia digital, o filme, que já tem uma fotografia bastante escura, sofre com essa bitola.

quarta-feira, agosto 25, 2010

A EPIDEMIA (The Crazies)



Radha Mitchell dá sorte quando faz filmes de horror. Não que ela seja uma espécie de scream queen. Sua carreira é bastante diversificada, até. Mas lembro do quanto gostei de TERROR EM SILENT HILL e MORTE SÚBITA e de como ela esteve bem em ambos. E que bom que ela está neste feliz remake de EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO (1973), de George A. Romero, fazendo o papel de uma médica casada com o xerife da cidade. Será que vão jogar pedra em mim se eu disser que gostei mais deste novo filme do que do original? Sem querer tirar o mérito do cultuado filme do pai dos zumbis modernos, o novo trabalho tem bem mais momentos apavorantes, talvez porque os filmes de horror de Romero sejam bem atípicos, enquanto um diretor sem muita personalidade como Breck Eisner faz com competência aquilo que se espera de um bom filme do gênero.

Uma das características dos filmes de horror, ou pelo menos da maioria deles, é que sempre no começo as coisas estão muito bem na vida das pessoas. A vida parece quase perfeita. No caso de A EPIDEMIA (2010), esse bem estar dura muito pouco. Logo que o filme começa, a imagem de um grupo de pessoas assistindo crianças jogando beisebol num dia de sol é brutalmente interrompida pela aparição de um homem com uma espingarda na mão e um olhar demoníaco no semblante. Para o xerife da cidade, vivido por Timothy Olyphant (de A TRILHA), não resta outra alternativa a não ser atirar no sujeito. Para uma cidadezinha onde todo mundo se conhece, a morte de um homem nessas circunstâncias não deixa de ser uma tragédia. Mas isso não é nada diante do que estaria por vir. E a contaminação que tomará a cidade será tão aterrorizante para seus habitantes quanto a violenta intervenção militar, tentando conter o vírus ou bactéria. Nisso, o filme até lembra um pouco VÍRUS, de Àlex e David Pastor, visto recentemente nos cinemas. Mas com a diferença que vemos o início do processo de contaminação.

O diretor Breck Eisner ainda não tem muita coisa interessante no currículo. No território do terror, até então sua maior contribuição havia sido o episódio THE SACRIFICE (2008) para a fracassada série/antologia FEAR ITSELF. Pode-se dizer que seu filme é um dos melhores da série, o que não quer dizer muito, já que a série teve muitos episódios fracos. Mas A EPIDEMIA reacende a esperança de que Eisner se torne um dos nomes importantes do gênero. Até porque já surgiu uma notícia de que ele dirigirá um filme de Drácula versus Jack, o Estripador (!). Fora isso, seu nome está envolvido com remakes de THE BROOD, FLASH GORDON e FUGA DE NOVA YORK. Quer dizer, se a onda das refilmagens veio para ficar e se já vimos alguns exemplares bem interessantes pipocando aqui e ali, não custa torcer pelo sucesso desses projetos.

terça-feira, agosto 24, 2010

O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS (The Imaginarium of Doctor Parnassus)



Daria para fazer uma enquete: qual o diretor mais azarado? Terry Gilliam ou John Landis? (Se bem que José Mojica Marins ganha se entrasse na enquete.) O caso de John Landis é bem mais grave e tem afetado a sua carreira até agora, mas não dá para deixar passar as desventuras que Terry Gilliam tem passado nos últimos anos. Seu último sucesso foi OS 12 MACACOS (1995) e lá se vão quinze anos. Depois de alguns filmes que renderam muito pouco nas bilheterias e foram recebidos com frieza pela maior parte da crítica, ele tentou fazer um filme sobre Don Quixote. Que naufragou. Foi uma novela que até virou um documentário sobre o desastre das fiilmagens - LOST IN LA MANCHA. E quando as coisas pareciam estar bem com O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS (2009), Heath Ledger, o protagonista, faz o favor de morrer no meio das filmagens.

Mas Gilliam não se deu por vencido. Ele deve ter seguido a filosofia de vida de um personagem de A VIDA DE BRIAN, filme do célebre grupo de comediantes do qual fazia parte. No final de A VIDA DE BRIAN, um dos sujeitos que estava crucificado dizia para olhar as coisas sempre pelo lado bom. Há sempre um lado bom. E assim ele usou de criatividade e de limões fez uma limonada. E do jeito que ficou, O MUNDO IMAGINÁRIO DO DR. PARNASSUS nem parece ter sofrido a falta de Heath Ledger, já que as vezes em que Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell aparecem no lugar do personagem de Ledger ficaram perfeitas dentro do enredo. Tudo bem que na maioria das vezes o filme desce quadrado, mas acredito que esse é um problema da maior parte dos trabalhos de Gilliam.

A trama envolve um pequeno grupo de circo intinerante, que sofre com a falta de dinheiro e de mais atrações. Por outro lado, eles possuem algo de realmente mágico. Detrás do palco, há um universo mágico incrível, mas que o patriarca Dr. Parnassus, vivido por Christopher Plummer, prefere que não seja usado e muito menos abusado. É algo perigoso demais. Um dia, dirigindo-se a outra cidade, eles se deparam com a figura de um homem enforcado. E não deixa de ser bem mórbido ver Heath Ledger como o enforcado. Parece algo profético. Os mais supersticiosos podem dizer que filmar aquilo foi de mau agouro, pode ter contribuído para a morte real do astro. De qualquer forma, Gilliam oferece mais uma obra de resistência. Ainda que utilize efeitos de CGI, ele ainda prefere um elaborado trabalho de direção de arte, que muitas vezes remete a um de seus melhores filmes, AS AVENTURAS DO BARÃO MUNCHAUSEN (1988).

P.S.: Como Gilliam é teimoso, o trabalho sobre Don Quixote foi retomado. THE MAN WHO SHOT DON QUIXOTE está previsto para o próximo ano, com Robert Duvall como o personagem-título. Será que agora vai?

segunda-feira, agosto 23, 2010

O ÚLTIMO MESTRE DO AR (The Last Airbender)



M. Night Shyamalan é o cineasta que todo mundo aprendeu a odiar. Ou quase todo mundo. Mas enquanto ele é brutalmente criticado nos Estados Unidos, na França geralmente seus filmes são aclamados entre os melhores do ano. Não se sabe ainda se vai ser o caso de O ÚLTIMO MESTRE DO AR (2010), um projeto que até os fãs mais ardorosos temiam. Um dos cineastas mais interessantes surgidos nos últimos anos teria se rendido ao cinema mais comercial? E, ainda por cima, a fantasias infanto-juvenis com direito a 3D picareta? Vale pagar pra ver, ainda que o 3D seja realmente picareta. Portanto, quem puder ver legendado em cópias 2D, em 35 mm, que o faça, para economizar uns trocados. Mas se por um lado o 3D nada acrescenta, também não incomoda. E ver um cineasta do porte de Shyamalan à frente de uma fantasia juvenil não deixa de ser uma experiência curiosa.

Acontece que Shyamalan pregou uma peça na Indústria novamente. E realizou uma fábula zen-esotérica. Muito perigosa no sentido de que pode se tornar ridícula, mas amparada em sua origem, o desenho animado americano, com influência da animação japonesa, ele conseguiu se sair bem. A trama mistura diversos pontos da cultura asiática (reencarnação, chacras, chi, quatro elementos, meditação etc). Apesar desse clima zen, como o filme é a condensação de toda a primeira temporada de AVATAR: THE LAST AIRBENDER (2005-2010), há muitas informações sendo passadas, mas nada que deixe o espectador perdido. Na verdade, é até simples a base do enredo: a Nação do Fogo invade e domina os demais domínios (Terra, Água e Ar), tendo destruído, inclusive, o templo dos Nômades do Ar, de onde vem o garoto Aang, que num salto temporal vai parar, sem saber, cem anos no futuro. Ele estava fugindo de suas responsabilidades como a reencarnação do Avatar, aquele que domina os quatro elementos. Quem acompanha a série deve sentir falta de um monte de informações que tiveram de ficar de fora por razões óbvias.

Por isso, o que importa não é a história, que pode ser ora simples, ora confusa. O que importa é a beleza e a magia que Shyamalan consegue extrair de uma trama original tão cheia de detalhes. O ÚLTIMO MESTRE DO AR está bem acima dos filmes de fantasia convencionais, pois é possível ver nele um rigor formal e uma beleza nos enquadramentos bem atípicos. Cada domínio mostrado - a Nação do Fogo, o Reino da Terra, a Tribo da Água e os Nômades do Ar - possui uma característica própria, uma cor própria. Os jovens atores que interpretam os personagens principais estão muito bem, mas destaco uma coadjuvante que rouba a cena, graças a uma das sequências mais belas do filme: a Princesa Yue (Seychelle Gabriel). A sua queda na água é o momento em que O ÚLTIMO MESTRE DO AR mais dialoga com os demais filmes da rica obra de Shyamalan.

P.S.: Aproveitei a oportunidade - a falta de cópias legendadas em 2D do filme - para conferir as novas salas no Shopping Pátio Dom Luis. O shopping é bem pequeno e a sala também é pequenininha. Mas é de dar gosto. A imagem está linda. Nem parece a experiência de ver o filme com imagem escura na sala 3D do Iguatemi.

sexta-feira, agosto 20, 2010

TEODORICO, O IMPERADOR DO SERTÃO



"Vocês não têm um automóvel para me emprestar, vocês não têm um cavalo para eu andar. Mas o voto vocês têm. E, se vocês não me dão o voto, por que é que eu vou querer continuar a conversar com vocês?"
(Major Teodorico Bezerra)


Em tempos de eleição, nada como ver um filme em que um político fala com franqueza absurda o que realmente pensa. Algo do tipo, eu só via em programas humorísticos, como o personagem Justo Veríssimo, do programa do Chico Anysio. O Major Teodorico, que disse a frase acima, era um membro da aristocracia do sertão do Rio Grande do Norte. Dono de fazendas de gado e de cana, além de líder político de sua região, trata-se de um representante da era dos coronéis. E uma figura e tanto. Pode até despertar o ódio de muitos, mas eu achei o sujeito tão "sem-noção" diante das câmeras que até cheguei a simpatizar com o velho.

Assim como aconteceu com SEAMS, de Karim Aïnouz, TEODORICO, O IMPERADOR DO SERTÃO (1978), de Eduardo Coutinho, foi um dos onze documentários recomendados por João Moreira Salles no livrinho "Ilha Deserta - Filmes". Tudo bem que só o nome de Coutinho já seria um chamariz para qualquer cinéfilo conhecedor da grandeza de nosso maior documentarista, mas as palavras de Moreira Salles sobre o filme me deixaram bastante interessado em ver com os meus próprios olhos. E foi com muita surpresa que encontrei o filme à disposição na internet. Ainda que a cópia esteja precária, o interesse que o Major Teodorico Bezerra provoca faz com que nos esqueçamos desse detalhe.

No texto de João Moreira Salles, o que mais me chamou a atenção foi a cena do alistamento eleitoral, que eu citei no início do texto. Teodorico fala para seus trabalhadores que vivem lá há anos - alguns deles nasceram na fazenda -, que só fica em sua propriedade quem votar nele. Realizado para o Globo Repórter, o média-metragem de Coutinho antecipa o seu interesse de ir a fundo em seu objeto de estudo, deixando-o à vontade para falar e revelar coisas que seriam até constrangedoras. Como quando Teodorico mostra o seu quarto, rodeado de fotos recortadas de mulheres nuas. Ele aponta algumas com sua bengala, fala da perfeição de seus corpos, da posição etc. Outro momento que eu achei absurdo é quando ele mostra a "felicidade" de uma família humilde, enfatizando a casinha de taipa, o jumentinho, entre outras coisas que poderiam fazer a alegria de quem acha que vida de pobre no sertão é fácil. E não é fácil viver na fazenda de Teodorico. Pois ele impõe várias regras: não se pode jogar baralho, não se pode tomar aguardente, não se pode inventar doença para faltar ao trabalho, entre outras.

O filme praticamente não tem intervenções de Coutinho. Teodorico já dá conta da narração sozinho. E em alguns momentos eu vi que o que ele falava tinha certa razão. Por mais ditador que seja, por mais moralista que seja, e por mais preconceituoso que seja (ele acha os brancos do sul superiores aos índios e aos negros, que geraram os caboclos do sertão nordestino), Teodorico sabe que liberdade demais nas mãos de quem não sabe usar é um perigo. Ainda assim, a certa altura do filme, já estamos fascinados por ele. Principalmente quando vemos o seu lado mais humano, quando o assunto da morte de sua esposa é tocado.

quinta-feira, agosto 19, 2010

PONYO - UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR (Gake no ue no Ponyo)



No fim de semana passado, enquanto estava na fila para comprar o ingresso de DESTINOS CRUZADOS no Iguatemi, ouvi uma conversa entre um menino de cerca de dez anos e sua mãe. Ele se referia à produção de Hayao Miyazaki como ruim, porque, segundo ele, foi "produzida pela PlayArte". Para ele, o bom provavelmente seria ver SHREK ou MEU MALVADO FAVORITO, um desses desenhos animados blockbusters que saem em 3D para capitalizar. Nessa hora me deu vontade de dar uma de Woody Allen em NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA e me intrometer na conversa, explicando a diferença entre uma distribuidora brasileira e uma produtora. Mas fiquei na minha, afinal, esse negócio de ficar ouvindo a conversa dos outros não é muito bonito, embora a gente, estando sozinho, não tenha muitas vezes como evitar. Resultado: PONYO - UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR (2008) só dura uma semana em cartaz em Fortaleza. Uma pena, pois Hayao Miyazaki merecia um tratamento melhor, mais sessões disponíveis, embora seja fácil entender a lógica capitalista. Mas um outro problema é que a fraca bilheteria no Brasil de PONYO pode comprometer o lançamento dos próximos trabalhos do mestre Miyazaki.

Mas deixemos de lamúrias e celebremos mais um trabalho pronto de um resistente da animação tradicional em tempos onde a animação por computador tem se estabelecido como definitiva. Até em termos de sofisticação visual, PONYO é um filme mais simples do que os anteriores, A VIAGEM DE CHIHIRO (2001) e O CASTELO ANIMADO (2004), trabalhos que ajudaram a popularizar o nome de Miyazaki no Ocidente e que tinham traços mais finos e produção mais caprichada. PONYO é também um dos filmes mais direcionados ao público infantil do diretor. Ainda assim, tem o seu interesse para o público adulto, que vê com prazer a história fantástica de uma peixinha com rosto de criança que passa a amar um garotinho de cinco anos.

Como em todo trabalho do diretor, PONYO - UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR possui um universo bem particular, onde o fantástico predomina sobre o real. Assim, vemos ondas com olhos, peixes com cara de gente, um bruxo que vive no mar, entre outras imagens impressionantes para uma criança, mas não menos para um adulto, dada a beleza de como são mostradas. As sequências das tempestades provocadas pela chegada de Ponyo, já transformada em menina, possuem uma mágica toda própria.

No aspecto da consciência ecológica, PONYO é quase irmão de PRINCESA MONONOKE (1997) e NAUSICÄA DO VALE DOS VENTOS (1984), embora um pouco menos engajado. O amor puro entre os dois está acima de tudo. Pode até parecer ingênuo, ainda mais quando aparece a mãe de Pônio no final do filme, mas lembremos que é um filme para os pequenos. E que nós, adultos, temos o privilégio de também partilhar.

quarta-feira, agosto 18, 2010

DESTINOS CRUZADOS (Mother and Child)



O trabalho de Rodrigo García já me chamou a atenção desde a sua estreia nos cinemas, com o delicado COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER SÓ DE OLHAR PARA ELA (1999), um filme-painel conduzido com a segurança de um diretor experiente. Filho do grande Gabriel García Marquez, Rodrigo García foi se mostrando cada vez mais interessado em dramas intimistas, em conversas que vasculham a alma de seus personagens, em geral, mulheres. Tanto que ele fez um longa apenas de depoimentos de quatro belas atrizes interpretando mulheres se confessando para a câmera. CONFISSÕES AMOROSAS (2001) seria o seu trabalho mais radical. O gosto por ouvir e criar um clima de intimidade entre personagem e espectador acabou gerando uma obra-prima, a primeira temporada da série EM TERAPIA (2008), toda dirigida por ele. A partir da segunda temporada, ele entregou a direção para outros, ficando apenas como produtor executivo.

Seu novo filme, DESTINOS CRUZADOS (2009), se aproxima bastante do também ótimo QUESTÃO DE VIDA (2005). Ambos são filmes-painéis. Se em QUESTÃO DE VIDA, temos o perfil de nove mulheres, DESTINOS CRUZADOS diminui para três, tendo mais chances de aprofundar a psicologia das personagens. O título genérico nacional poderia servir para praticamente qualquer filme e o cartaz brasileiro não ajuda a preparar o espectador para o que lhe está reservado. O cartaz americano, além de mais bonito, faz jus ao título original, que lida com o assunto da maternidade.

Três mulheres, seguindo suas vidas de maneiras bem diferentes. Annette Bening é uma cinquentona solteira que vive ranzinza, cuidando de sua velha mãe doente e trabalhando num hospital. Aos quatorze anos de idade, ela engravidou, e a filha foi dada para adoção. Naomi Watts é uma executiva bem sucedida de 37 anos que consegue o emprego e a simpatia (para usar de eufemismo) do dono da empresa, o viúvo vivido por Samuel L. Jackson. A terceira personagem importante é Kerry Washington, que frustrada por não poder engravidar procura com o marido o caminho da adoção.

Aparentemente, o filme seria bem mais lacrimoso, mas García tem direção segura e evita transformar o filme num dramalhão. O que não impede que algumas lágrimas furtivas não possam surgir aqui e ali. Naomi Watts está deslumbrante como uma mulher de personalidade forte e independente. Aliás, todas as mulheres do filme parecem ser fortes à sua maneira. Mas García uma hora deixa as máscaras caírem. E é aí que o filme mostra a sua grandeza. A cena com Annette Bening conversando (e confessando) com o namorado no carro é bem representativa disso. E para os fãs de Naomi Watts, além da grande performance, ela está bem sexy, com direito a cenas de sexo até que ousadas. E não se engane com o nome de Alejandro González Iñárritu como produtor executivo. O filme é de García. Até porque Guillermo Del Toro e Alfonso Cuarón também são produtores executivos.

P.S.: Ontem vi "New Man in Charge", o "epílogo" de LOST disponibilizado na internet. Estrelado pelo Ben e contando com outros dois nomes da mitologia da série, apenas serve para matar um pouco da saudade em seus onze minutos. Ou para vermos que estamos passando muito bem sem ela.

terça-feira, agosto 17, 2010

OS MERCENÁRIOS (The Expendables)



De início, a ideia foi animadora. Sylvester Stallone quis juntar um grupo de action heros dos anos 80 para fazer um filme de ação meio saudosista, com sabor daquelas fitas lançadas aqui pela América Vídeo. Ou um pouco melhor, digamos assim, já que Stallone e Arnold Schwarzenegger eram os dois grandes do gênero de sua época. Seus filmes levavam multidões aos cinemas. Na segunda metade dos anos 80 vieram Bruce Willis e Jean-Claude Van Damme. O primeiro se tornou um pouco mais respeitado que o segundo, que se caracterizou mais pelos filmes B e exclusivamente de ação, enquanto Willis ampliou o leque e nunca saiu do primeiro escalão de Hollywood. Van Damme, porém, não aceitou participar de OS MERCENÁRIOS (2010). Não lembro por quais motivos. Quanto a Jet Li, nos anos 80 ele já era um astro em Hong Kong, mas, assim como Jackie Chan, quando foi para Hollywood só fez trabalhos medíocres. E em OS MERCENÁRIOS ele é o que parece mais deslocado no grupo. Dolph Lundgren, que já havia cruzado o caminho de Stallone em ROCKY IV (1985), e que também teve uma carreira de poucos sucessos, ganhou um papel ingrato, quase como que para mostrar o tamanho de sua importância. Nos anos 80, o que de mais memorável ele fez em projetos-solo foi o filme do He-Man e a primeira tentativa de adaptar o Justiceiro para o cinema.

Acontece que não basta ter a ideia de juntar um grupo legal para que o resultado saia satisfatório. É preciso uma boa história, mas principalmente uma direção segura de atores e de sequências, de modo que o resultado seja empolgante. O fato é que mesmo entusiastas do filme pareceram um pouco decepcionados com o resultado. Eu não fiquei só um pouco decepcionado. Fiquei muito. Diria que o filme é um lixo, inclusive. Embora não tivesse gostado de RAMBO IV (2008), estava bem curioso com o projeto. Até porque sou fã de ROCKY BALBOA (2006), o melhor trabalho na direção de Stallone até hoje. Tanto é que imagino que Sly se sairia muito melhor se se dedicasse a dramas intimistas. Filmes truculentos, ainda que tenham sido parte importante de sua carreira, poderiam ser entregues a outros diretores.

Além do mais, se fosse para arregaçar nas cenas de violência, como fez em RAMBO IV, que o fizesse. Nem mesmo o clima de aparente descontração quando o grupo se reúne para falar bobagem e da vida sentimental causa interesse. Até porque eles não têm uma. O que é um aspecto que pode até ser interessante se o filme não fosse tão raso. O único personagem que se vê num envolvimento afetivo, ainda que frustrado, é o de Jason Stathan, o segundo mais importante nome do elenco. A tal missão que o grupo deve fazer é tirar de cena um ditador de uma republiqueta latina, interpretado por David Zayas (mais conhecido como o Sargento Batista, de DEXTER). O general recebe financiamento de um grupo americano, liderado por Eric Roberts, outro nome de filmes de ação B da época, e o grande vilão do filme.

No mais, a fotografia é feia e escura, a montagem é picotada, a imagem de Mickey Rourke em close que tenta remeter a O LUTADOR não tem a menor graça, e a tentativa de dar um interesse romântico para o personagem de Stallone não convence. Aquela história de que se trata de um bom filme ruim não colou. Bom filme ruim é DESEJO DE MATAR 3. Aliás, qualquer filme da fase decadente do Charles Bronson parece uma obra-prima perto de OS MERCENÁRIOS. A única coisa interessante é a piada interna envolvendo o Schwarzenegger. Uma pena, Stallone. Mais sorte na próxima empreitada.

segunda-feira, agosto 16, 2010

À PROVA DE MORTE (Deathproof)



Foram três anos de espera. Culpa da distribuidora Europa Filmes, que se acovardou com a má recepção comercial de PLANETA TERROR e não se decidia se À PROVA DE MORTE (2007) seria lançado no cinema ou direto em dvd. Como ainda acredito que a melhor maneira de se apreciar o filme de um grande cineasta como Quentin Tarantino é no cinema, fiquei aguardando. Até já tinha baixado, só esperando a decisão final da distribuidora. Até que a PlayArte negocia e compra os direitos de distribuição. Ótimo! E o filme ganha uma data de estreia novamente. Acontece que ainda teria que esperar mais algumas semanas, depois que À PROVA DE MORTE estreou em São Paulo. Na sexta-feira 13 última, entra em cartaz a contra-parte de PLANETA TERROR em Fortaleza. Que beleza. Que legal. Mas o que eu não contava era que veria o filme numa horrível cópia digital da Rain, que mutila o filme e deixa a imagem feia, escura. O que não quer dizer que eu não tenha curtido, apesar disso. Mas quero deixar registrada a minha insatisfação. Tanto é que fiz questão de rever o filme em casa, na janela correta, imagem mais bonita. Mas o impacto das cenas de porradaria na estrada são mais fortes no cinema, mesmo. Bem como as cenas verborrágicas ou a sequência da chuva no alpendre, os pingos molhando as pernas das meninas, alcoolizadas e depois de uns baseados.

À PROVA DE MORTE é constituído de duas partes muito bem definidas. É como um disco de vinil, que tem o lado A e o lado B. Aliás, discos não faltam no filme, tocando numa daquelas antigas e charmosas jukeboxes. O filme se passa no universo de Tarantino, onde os anos 70 convivem com os dias atuais. Assim, o gosto de Tarantino é transposto para a boca de suas personagens. A trilha sonora é outro destaque e que dá também esse ar retrô. São dois grupos de garotas vítimas potenciais do maníaco que usa o carro como arma para assassinar mulheres. Seu nome é Stuntman Mike (Kurt Russell), ou Dublê Mike, como foi traduzido aqui. Algumas cenas são bem recorrentes nos filmes de Tarantino, como a imagem de duas ou mais pessoas olhando para dentro de um porta-malas de um carro. A cena das meninas do segundo bloco conversando sobre sexo, carros e filmes remete à cena inicial de CÃES DE ALUGUEL (1992). Essas sequências de longas conversas sobre assuntos "banais", que não têm relação direta com a trama, são como uma prova de fidelidade para o espectador. Quem não tem paciência e não gosta é porque não merece o filme, não merece curtir os seus diálogos e seus piques de violência.

Do grupo de meninas do primeiro bloco, destaco pelo menos duas delas no quesito beleza e sensualidade: Sydney Tamiia Poitier, que nos créditos aparece como Sydney Poitier - e eu achando que era o premiado ator que estava no elenco -; e Rose McGowan, que já havia brilhado em PLANETA TERROR, de Robert Rodriguez. Inclusive, há outra atriz de destaque no filme de Rodriguez que aparece em À PROVA DE MORTE interpetando o mesmo papel (Marley Shelton, como a Dra. Dakota Block). Há diversas piscadelas de olho para os fãs. E como sempre não dá pra reconhecer tudo. Mas aos poucos vamos reconhecendo os gostos e as taras do cineasta. Os pés de Sydney Poitier, por exemplo, são exemplos de pés lindos, perfeitos, que são destacados. O mesmo pode ser dito dos pés de Rosario Dawson.

Do segundo grupo de garotas, não há como não ficar encantado com a beleza de Mary Elizabeth Winsted. Ela fica de fora das cenas de ação e é a garota bonita e ingênua do grupo. Ela aparece em traje de líder de torcida, com uma roupa amarela nos mesmos tons que Uma Thurman usou em KILL BILL (2003, 2004). Apesar de amiga das outras, ela não se encaixa no papo e na atitude mais agressiva das outras meninas. E isso gera alguns momentos engraçados. Uma das meninas do grupo é Zöe Bell, a dublê de Uma Thurman em KILL BILL, que interpreta a "si mesma". No quesito ação/terror, como a sequência do primeiro bloco é muito rápida, é a do segundo bloco que prende o espectador na cadeira, como se ele estivesse prestes a cair ou ser arremeçado de um carro em alta velocidade.

sexta-feira, agosto 13, 2010

DE SALTO ALTO (Tacones Lejanos)



Mais uma vez minha memória me prega uma peça. Mas é natural que depois de tanto tempo a gente esqueça de alguns filmes. Daí eu ficar muito surpreso com um filme que eu vi há cerca de 18 anos, vendo-o praticamente como se fosse inédito. Do DE SALTO ALTO (1991), só me lembrava, muito vagamente, da cena de sexo de Victoria Abril com o Miguel Bosé travestido. No mais, fiquei surpreso até com o fato de o filme ser bem mais sério do que eu lembrava. Talvez na época eu tenha ido ao cinema preparado para ver mais uma comédia de Pedro Almodóvar. E a encarar as sequências musicais não como dramáticas, mas como cômicas. Talvez quisessem que o filme fosse vendido assim. E isso acabou por provocar reações confusas na audiência.

DE SALTO ALTO é um dos trabalhos mais clássico-hollywoodianos de Almodóvar. Há inspiração nos melodramas de Douglas Sirk e na vida de Joan Crawford, que tinha uma relação complicada com sua filha (ver MAMÃEZINHA QUERIDA). O filme mistura melodrama com trama policial, envolvendo o marido assassinado de Rebeca, a personagem de Victoria Abril. Mulheres que matam seus maridos não são novidade no cinema de Almodóvar: aparecem em QUE FIZ EU PARA MERECER ISTO? (1984) e VOLVER (2006). Problemas relacionados a figuras paternas (ou até maternas) são bastante comuns em obras de diversos cineastas. Mas não deixa de ser curioso o fato de ele querer ver mulheres (e no caso de DE SALTO ALTO, até criancinhas) armando uma maneira de matar seus homens.

Marisa Paredes faz o papel da mãe de Rebeca, uma cantora famosa que volta à Espanha, depois de passar muitos anos longe de seu país e distante da filha. Há um ressentimento da filha em relação à mãe. Mas, apesar dos problemas, a balança pende mais para o amor. Na verdade, o filme aborda um turbilhão de sentimentos conflitantes que provavelmente nenhum outro filme de Almodóvar tenha alcançado. Esse conflito também se apresenta nas três confissões de Rebeca. E como o próprio Almodóvar destacou em entrevista do livro "Conversas com Almodóvar" as tais confissões não acontecem perante Deus ou perante a Lei. Aliás, o grande momento do filme talvez seja a confissão de Rebeca no noticiário - ela é âncora de telejornal.

Outro coisa que Almodóvar conta é que, na Espanha, há um preconceito com o tipo de música mais sentimental, utilizado em seus filmes, o que para mim foi até um surpresa. E eu curto essas canções meio bregas, de dor-de-cotovelo. Em DE SALTO ALTO, gostei especialmente de "Piensa en mi", que é cantada num momento muito emocional do filme, com a filha ouvindo do presídio, no rádio, a mãe dedicando-lhe a canção.

Ainda assim, considero DE SALTO ALTO um dos filmes de Almodóvar menos queridos por mim. Tanto que só voltei a ver outra obra dele no cinema a partir de CARNE TRÊMULA (1998). KIKA (1993) e A FLOR DO MEU SEGREDO (1995), só vi depois, em vídeo.

quinta-feira, agosto 12, 2010

ONDA NOVA



Segundo filme da trilogia de José Antonio Garcia e Ícaro Martins, ONDA NOVA (1983) destoa bastante de seu antecessor, o ótimo O OLHO MÁGICO DO AMOR (1981). Mas há vários elementos em comum, sendo o principal deles a presença sempre luminosa de Carla Camurati, que também estaria presente no trabalho seguinte, A ESTRELA NUA (1984). O outro elemento que não podia faltar neste trabalho é o sexo, aqui visto de maneira muito mais forte e libertária. Há sexo hetero, lésbico e homossexual.

ONDA NOVA tem um espírito de alegria que já começa pelas cores, vibrantes e fortes, como as de um filme de Pedro Almodóvar. Inclusive, o jeitão "new wave", faz lembrar bastante os primeiros trabalhos do cineasta espanhol. Os cortes de cabelo, as roupas, o comportamento pré-AIDS. Tudo é uma festa. Que começa com os créditos de abertura econômicos mas interessantes, com Camuratti e Cristina Mutarelli segurando lençóis pixados com os nomes dos integrantes do elenco e da equipe do filme.

Diferente de O OLHO MÁGICO DO AMOR, que tinha uma trama centrada num único protagonista, ONDA NOVA possui diversas minitramas e vários personagens, o que muitas vezes passa a impressão de que não há uma unidade narrativa. Ainda assim, é Carla Camuratti quem mais se destaca entre todos. Não apenas pela beleza e gostosura, mas porque ela é o elo de ligação para as outras.

O enredo, se é que dá pra chamar assim, envolve um grupo de meninas que jogam futebol, um esporte que na época ainda era encarado como exclusivamente masculino. Mas, embora algumas cenas diurnas e no campo de futebol passem uma alegria de viver que aquece o coração, é à noite que as coisas acontecem pra valer e quando o filme fica mais interessante. As cenas de sexo são em sua maioria durante a noite e há uma ousadia animadora nelas. Até o jogador Casagrande, que já havia feito uma ponta em O OLHO MÁGICO DO AMOR, participa de uma dessas cenas com uma das meninas. Outro nome famoso que aparece no filme é Caetano Veloso, interpretando a si mesmo, dentro de um táxi, dando uns amassos numa garota.

Tantas subtramas e uma vontade de deixar tudo ao sabor do vento dá ao filme um ar jazzístico, de improviso, sem muita preocupação com a coesão entra as cenas. E sabe o que mais eu achei interessante? Em duas vezes a personagem de Camurati pergunta: você conhece Walter Hugo Khouri? O elenco conta com, além das já citadas Camurati e Mutarelli, Cida Moreira, Vera Zimmerman, Tânia Alves, Patrício Bisso, Regina Cazé e Ênio Gonçalves.

Agradecimentos a Adilson Marcelino pela cópia.

quarta-feira, agosto 11, 2010

GIALLO - REFÉNS DO MEDO (Giallo)



Depois da decepção que foi O RETORNO DA MALDIÇÃO - A MÃE DAS LÁGRIMAS (2007), eu tinha ficado até sem vontade de conferir o trabalho seguinte de Dario Argento. Mas eis que tive uma grata surpresa com este GIALLO - REFÉNS DO MEDO (2009). Não que se trate de um dos melhores de sua filmografia, mas é um thriller muito bom e com uma carga de tensão e domínio narrativo de dar gosto. O prazer do filme é semelhante ao de ler uma história em quadrinhos de suspense, como "Julia" ou "Dylan Dog". Argento adota uma maior simplicidade visual. A trama também é bem simples. E ao contrário do que o título sugere, o filme não se enquadra exatamente no gênero giallo. Mas o título tem uma razão de ser; só não pretendo contar aqui, sob o risco de estragar algumas surpresas.

O assassino da vez é um misterioso motorista de taxi, que pega suas vítimas - sempre mulheres bonitas -, as desfigura e joga o corpo em algum lugar público. No encalço desse serial killer, o americano Adrien Brody; como vítima, a bela espanhola Elsa Pataky; e como sua irmã, e que pega no pé do detetive, a francesa Emmanuelle Seigner. Que já não mexe tanto com os nossos corações como nos tempos de LUA DE FEL, mas que tem uma presença de cena muito forte. Se Brody parece um tanto canastrão, Seigner convence em seu desespero em procurar a irmã, que é quem mais sofre, presenciando as torturas que o maníaco realiza em outra vítima.

Lançado no Brasil direto em dvd - como sempre, em se tratando de Argento -, o filme tem o seu público garantido, que já deve tê-lo visto antes do lançamento no Brasil, e há também aquele público que desconhece o trabalho do diretor mas que gosta de arriscar, nas videolocadores. Nesse sentido, a presença de atores internacionais pode ajudar. Na verdade, o filme é uma produção Estados Unidos-Itália e os italianos têm um especial fascínio pelas culturas americana e inglesa, o que justifica o grande número de quadrinhos de western produzidos lá, bem como quadrinhos que se passam em Londres. Com o cinema não é diferente. Não preciso lembrar dos westerns spaghetti e dos épicos produzidos na década de 60, que beberam na fonte de Hollywood. Tudo isso justifica o fato de termos um filme falado em inglês se passando em Roma. A diferença desta para outras produções italianas do passado que tinham como objetivo o mercado internacional é que a dublagem é bem mais caprichada. Os tempos são outros e o público é um pouco mais exigente nesse aspecto.

E ainda que Argento esteja em curva descendente, seus filmes nunca deixarão de ser objeto de interesse pelos cinéfilos fãs de horror. E vem aí dois remakes de obras-primas do cineasta feitos por diretores bem respeitados: PRELÚDIO PARA MATAR, por George A. Romero, e SUSPIRIA, por David Gordon Green.

terça-feira, agosto 10, 2010

A ORIGEM (Inception)



Os apreciadores de A ORIGEM (2010) andam cometendo algumas atrocidades em seus textos, como comparar Christopher Nolan com David Lynch e até a remeter a Alain Resnais e o seu O ANO PASSADO EM MARIENBAD, que eu não vi, é verdade, mas confio. Não nego que existam qualidades em A ORIGEM. Os efeitos especiais impressionam e Nolan tem estilo, mas um estilo que não me agrada, não me empolga, por mais que eu tente. Ao contrário, me aborrece. Em BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008), eu atribuo o grande mérito à interpretação de Heath Ledger, e em BATMAN BEGINS (2005) chega a ser irritante aquele falatório sobre o símbolo do morcego. Em A ORIGEM não chega a tanto, mas a tendência de Nolan de ficar explicando suas ideias espertas e complexas continua. E desta vez em escala muito maior. Praticamente uma hora de filme é uma aula sobre os métodos de se invadir os sonhos de alguém para roubar algo. Claro que não é só conversa. Há ação também, mas uma ação explicativa e introdutória.

O sonho em A ORIGEM é racional, não é onírico. Tem até uma arquiteta (Ellen Page). Tem Leonardo DiCaprio trazendo um pouco de seu personagem atormentado de ILHA DO MEDO; tem Marion Cotillard, cuja personagem andaram chamando de femme fatale, mas não a vejo como tal. Vejo mais como uma espécie de assombração. Que caberia muito bem num bom filme de horror. Cotillard, quando ataca, é como se mudasse o registro do filme.

O restante do elenco estelar se completa com Joseph Gordon-Levitt (elegante em seu terno e talvez o que mais entra em sintonia com o filme); Ken Watanabe, como o financiador; Michael Caine, em participação discreta; Cillian Murphy como a vítima dos ataques do grupo; e Pete Postlethwaite, em um papel que eu não me lembro direito. Deve ter aparecido durante meus cochilos. Talvez a trilha sonora de Hans Zimmer, praticamente onipresente durante o filme, em seus tons épicos, tenha contribuído para isso. Uma hipótese que não descarto, pois o sujeito também fez trilhas para SHERLOCK HOLMES (argh) e para o segundo PIRATAS DO CARIBE (urgh).

E, sim, essa é outra razão porque este texto não deve ser encarado como uma resenha. São apenas impressões de uma mente que não consegue ficar acordada durante os trabalhos de Christopher Nolan. Talvez uma injeção de adrenalina no coração resolvesse. Mas aí eu não ia conseguir me concentrar direito num filme cuja trama exige um pouco mais de atenção. Não deixa de ser corajoso da parte de Nolan e dos produtores em lançar um filme com uma trama complexa como essa como um blockbuster. Se bem que MATRIX e O VINGADOR DO FUTURO são dois bons exemplos de filmes de tramas complexas que tiveram grande aceitação do público. Resta saber se vai ser o caso de A ORIGEM. Se for pela quantidade de cópias dubladas e legendadas que a Warner anda disponibilizando, o filme será um mega-sucesso comercial. Cinema também é aposta.

segunda-feira, agosto 09, 2010

400 CONTRA 1 - A HISTÓRIA DO COMANDO VERMELHO



A História brasileira dos últimos cinquenta anos é a mais explorada pelo nosso cinema. Especialmente os anos de chumbo da ditadura. 400 CONTRA 1 - A HISTÓRIA DO COMANDO VERMELHO (2010), estreia na direção de longas de Caco Souza, é mais uma obra a engrossar a lista. O filme tem sido criticado por glamourizar o crime organizado. No entanto, o cinema americano faz isso desde os anos 30 e não deixa de ser respeitado, embora a regra seja mostrar que os bandidos têm sempre um final trágico, que o crime não compensa etc. Exceções são esses filmes estilo ONZE HOMENS E UM SEGREDO, onde os ladrões se safam na maior tranquilidade e recebem aplausos de todos. Mas aí já estamos falando de outro subgênero.

Temos a oportunidade de ver um filme que mostre o ponto de vista de um líder de uma organização criminosa bem violenta: o Comando Vermelho, que cresceu e se fortificou no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Foi lá que William da Silva Lima, interpretado por Daniel de Oliveira, utilizou de inteligência, força e violência para conseguir, não apenas fugir da ilha, mas também efetuar diversos assaltos a bancos com seu bando. O filme, inclusive, foi baseado no livro de memórias escrito por William. Daniel de Oliveira é um dos melhores atores de sua geração, mas seu jeito de bom moço não combina com um líder tão agressivo quanto William. A não ser nas cenas de assalto a banco, quando ele aborda os gerentes com classe e ternos elegantes.

A influência de Quentin Tarantino se mostra evidente. Bem mais do que a influência de CIDADE DE DEUS, de Fernando Meirelles. Além de Daniel de Oliveira, um dos personagens masculinos mais interessantes é Fabrício Boliveira, um arquétipo do negro cheio de si, do malandro carioca que consegue conquistar a simpatia dos espectadores com seu jeito, ainda que na vida real isso seja outros quinhentos. É o seu personagem que justifica o título do filme, num dos momentos mais memoráveis.

Mas são as personagens femininas que mais se destacam, ainda que apareçam pouco. Tanto Daniela Escobar quanto Branca Messina estão ótimas, no papéis, respectivamente, de amante de William e sua advogada. Inclusive, a personagem de Branca daria um outro filme, que esclarecesse melhor suas motivações a ajudar aquele grupo, que não tinha interesse nenhum em combater a ditadura, como os "pequenos burgueses", como eram chamados pelo grupo do comando vermelho os presos políticos.

A opção por contar o filme numa montagem não linear, com idas e voltas no tempo, do início dos anos 70 ao início dos anos 80, cobrindo a prisão, a fuga, os assaltos e a perseguição intensa pela polícia, funciona muito bem, embora seja um recurso que possa ocultar uma falta de domínio narrativo. Portanto, aguardemos o próximo trabalho de Caco Souza. Quem sabe estejamos diante de um novo talento.

sexta-feira, agosto 06, 2010

ROSETTA



Um dos filmes mais festejados da nova geração de cineastas europeus surgidos nos últimos anos, ROSETTA (1999), até a semana passada, permanecia inédito para mim. É mais um daqueles casos de filme que a gente sabe que é importante, tem em casa para ver já há algum tempo, mas que é preciso de um empurrãozinho para finalmente assisti-lo. Aprendi a gostar de verdade do cinema dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne só com A CRIANÇA (2005), até hoje o meu favorito da dupla, o que mais me causou impacto. A primeira experiência havia sido um tanto quanto incômoda, com a aproximação extrema da câmera na nuca do protagonista, em O FILHO (2002).

ROSETTA também apresenta uma proximidade, mas não tão radical quanto em O FILHO. O uso é da câmera na mão, que dá ao filme um ar semidocumental, um sentimento de verdade nas sequências. Até porque não temos aqui uma heroína brava e sem defeitos, nem uma pobre coitada. Temos uma garota que é capaz de coisas que podem torná-la objeto de ódio do público. Eu mesmo, em alguns momentos, me senti assim em relação a ela. A atriz que interpreta Rosetta, a então estreante Émile Dequenne, inclusive, ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes. E já no ano seguinte, ganharia papel de destaque em O PACTO DOS LOBOS, de Christophe Gans. E, mais importante, ROSETTA também ganhou a Palma de Ouro no festival mais cobiçado do mundo.

Várias críticas apontam uma semelhança de ROSETTA com MOUCHETTE, A VIRGEM POSSUÍDA, de Robert Bresson. E a comparação tem sentido até certo ponto. Ambos são filmes descritivos e as cenas no lago remontam ao final da obra de Bresson. O filme já impressiona na sequência inicial, quando vemos o desespero e indignação de Rosetta, quando lhe dizem que ela não trabalha mais na empresa, que seu contrato expirou. Ela parece não entender essas coisas. Rosetta é como uma criança que não se importa com as regras impostas pela sociedade e que luta pelo que ela quer. Ao mesmo tempo, tem um lado de proteção que faz com que ela tente a todo custo livrar a mãe do alcoolismo. E que tenha modos. Esse negócio de ficar pagando boquete ao dono do terreno pra ter direito a água encanada não é coisa de mulher séria.

ROSETTA é recheado de grandes sequências: de cara, lembro da cena do rapaz, Riquet, se afogando no lago e ela, impassível; mas talvez o grande momento seja a tentativa frustrada de Riquet se aproximar dela, num jantar a sós, numa situação que gera extremo desconforto. E Rosetta age como um animal selvagem, não por irracionalidade total, como prova a sequência em que ela trai o rapaz para conseguir um emprego. E é por isso que os Dardenne nos dão a liberdade de tomar ou não partido da jovem. Ou de simplesmente preferirmos observar, sem julgar.

quinta-feira, agosto 05, 2010

QUERIDO JOHN (Dear John)



Disseram que era filme de mulherzinha e tal, mas eu não resisti. A direção é de Lasse Hallström, o cara que me fez chorar à beça numa história de cachorro - SEMPRE AO SEU LADO (2009). E ainda podemos contar com a presença exuberante de Amanda Seyfried. E realmente, no cinema que eu fui, a maior parte do público era composto por mulheres. Mas como tenho interesse não apenas por mulheres, mas por seu universo e sua inteligência emocional mais evoluída, não resisti a este QUERIDO JOHN (2010). Tenho quase um prazer masoquista em chorar vendo filmes. E quanto a isso, não tenho do que reclamar do filme, que deve ter feito chorar pelo menos 90% do público daquela sessão de meio-dia de domingo. O percentual, óbvio, é só um chute para efeitos dramáticos.

A trama, baseada num best-seller, é simples, mas um pouco mais complexa do que eu esperava. O filme é mais do que uma história de amor envolvendo uma jovem que se apaixona por um soldado (Channing Tatum) e que tem que esperar um ano por ele. Aliás, esse negócio de esperar um ano me lembrou um pouco ANTES DO AMANHECER, mas é melhor não se entusiasmar muito com a comparação. Foi só uma lembrança rápida. É que tem a questão do tempo e tem também o fato de o rapaz não chegar a beijá-la no primeiro encontro. Os dois ainda ficam se conhecendo e mantendo aquela tensão que faz com que o beijo role muito mais gostoso. Mas aí entra o diferencial: as cartas entre os dois. Cartas à moda antiga, pois onde o rapaz vai não tem como ele acessar a internet e ver os e-mails. E isso, claro, torna a situação mais romântica.

Outro elemento que também contribui para momentos emocionantes do filme é o personagem do pai do rapaz, interpretado por Richard Jenkis, conhecido de quem viu A SETE PALMOS. Ele sofre de autismo e tem uma dificuldade enorme de se relacionar com as pessoas. Sem querer entregar algo a mais do filme, a cena do hospital é de doer o coração. Outro momento de extrema beleza, principalmente para quem é fã de Amanda Seyfried, é vê-la cantando, o que dá até uma vontade de conferir a trilha sonora. Acredito que se Lasse Hallström se concentrar nos melodramas lacrimosos, ele pode ter uma carreira respeitável.

quarta-feira, agosto 04, 2010

A BELA DA TARDE (Belle de Jour)



Vendo uma possibilidade, ainda que remota, de que SEMPRE BELA, de Manoel de Oliveira, aporte nos cinemas daqui, quis rever A BELA DA TARDE (1967), obra-prima de Luis Buñuel. Não queria ver a continuação/tributo de Oliveira sem refrescar a memória dos personagens do original. Mas impressionante como o filme cresce com a revisão. Das duas vezes que o vi, uma na televisão, outra em vhs, muitas coisas passaram desapercebidas por mim, principalmente a direção elegante do mestre do surrealismo. Naquela época, início de minha cinefilia, ainda não prestava atenção em certos detalhes formais. Deixava-me viajar mais, tanto que não conseguia entender a cena final, a que Séverine (Catherine Deneuve) olha pela janela. Agora, um pouco mais racional e atento, pude pelo menos fazer a ligação com a sequência que abre o filme. Que dá à obra um aspecto circular, como A ESTRADA PERDIDA, de David Lynch.

A cópia que consegui foi de um arquivo mkv ripado de um blu-ray. Transformada em dvd, ficou linda. E aumenta ainda mais o prazer de ver uma obra de tão alto valor. Se as imagens às vezes parecem um tanto esmaecidas no começo, essa impressão logo se dissipa quando vemos o uso das cores. As roupas coloridas e alguns móveis de decoração se destacam do tom sépia dominante. Claro que é preciso ver mais vezes para perceber mais detalhes. A BELA DA TARDE é um filme que não se esgota. A preferência de Buñuel pela não utilização de música torna o seu trabalho ainda mais instigante, pois o uso do som é cuidadosamente destacado. O som das ruas, dos sapatos de Séverine, dos cascos dos cavalos, do som de chicotes etc. são detalhes que não se desprezam, mas que podem até passar desapercebidos durante a trama.

O filme se inicia com Séverine numa carruagem com o marido. Em determinado momento o marido pede para parar. E ela é submetida a chicotadas e outras humilhações. Corta para cena da mulher sentada na cama de olhos abertos. Vemos que aquilo é um sonho ou desejo dela, uma mulher frígida, que sempre diz 'não' às investidas do próprio marido. Os dois dormem em camas separadas. Daí Séverine fica impressionada com a ideia de ter um bordel na cidade. E ao saber o endereço de um deles, vai parar lá. Como só pode ficar lá de duas às cinco, ela ganha o nome de 'Bela da Tarde' pela dona do lugar, a simpática e compreensiva Madame Anais (Geneviève Page). E nem é preciso dizer que a Bela da Tarde faz um sucesso tremendo no prostíbulo. Até porque ela tem um ar de nobreza que faz a diferença.

Não há aqui uma total desconexão com um fio narrativo convencional, como em obras posteriores, como VIA LÁCTEA (1969) e O FANTASMA DA LIBERDADE (1974). A BELA DA TARDE até pode ser apreciado por quem não está acostumado às loucuras do mestre Buñuel. Seria um excelente ponto de iniciação. Não é para menos que é o seu filme mais conhecido. Mesmo quem nunca viu, já deve ter ouvido falar. E como Buñuel, em sua fase mexicana, já havia demonstrado pleno domínio narrativo, o que ele fez em sua fase francesa foi aprimorar ainda mais o estilo, que já era fantástico. Ele substitui, por exemplo, o suspense e a melodramaticidade de obras como O ALUCINADO (1952) e ENSAIO DE UM CRIME (1955) por um tipo diferente de suspense, mais frio. O pouco espaço que há para o melodramático está no personagem do sujeito apaixonado por Séverine. E só o fato de ele se mostrar violento, já deixa Séverine mais feliz e realizada. Séverine até poderia ser uma personagem de Nelson Rodrigues, nesse sentido. Mas há mais na personagem. E há mais no filme, que ajudou a popularizar o sadomasoquismo no cinema, ainda que o tema tenha sido mais explorado por diretores de filmes exploitation.

terça-feira, agosto 03, 2010

UMA NOITE EM 67



Maravilha o resgate que o cinema nacional tem feito com a história da música brasileira. UMA NOITE EM 67 (2010) é mais um belo exemplar dessa safra. E o interessante é que os diretores, Renato Terra e Ricardo Calil, aparentemente não tiveram muito trabalho. Apenas pegaram apresentações na íntegra da noite da premiação do Festival de Música Popular Brasileira de 1967 da TV Record e entrecortaram com depoimentos dos envolvidos. Tudo bem que os depoimentos são ótimos, mas o forte mesmo está naquelas preciosas imagens em preto e branco que funcionam como uma cápsula do tempo e fazem-nos sentir o clima caloroso daqueles momentos.

No Brasil, estava-se enfrentando uma ditadura que ainda se mostraria mais rigorosa, mas o posicionamento político dos jovens já se mostrava ferrenho. Faziam passeatas para tudo, até contra a guitarra elétrica. Gilberto Gil participou dessa ridícula passeata. Já tinha lido que ele era meio "Maria vai com as outras" no livro "Roberto Carlos em Detalhes", que conta um pouco do cenário dessa época. E isso só se confirma no documentário. O próprio Gil diz que só foi pra essa passeata por causa da Elis Regina. Pelo visto, a Elis era mesmo uma força da natureza, adorada por quase todo mundo.

Gosto muito do posicionamento de Caetano Veloso, que achava aquela passeata uma coisa fascista e ridícula. Tanto é que sua primeira apresentação de "Alegria, alegria" foi iniciada com a vaia do público por causa da banda de rock que ele arranjou para acompanhá-lo. Depois, aos poucos, ele foi conquistando todo mundo. Isso, segundo o depoimento de Nelson Motta. O próprio Nelson, que tinha uma composição competindo e naturalmente estava torcendo contra, ao final da apresentação, estava aplaudindo entusiasticamente. Mas a apresentação mostrada no filme não foi a inicialmente vaiada, mas a apresentação de classificação, já com a aceitação do público.

O ano de 1967 é conhecido como o ano mais psicodélico do século. E a canção de Caetano é a que mais está antenada com esse momento - junto com a participação dos Mutantes em "Domingo no Parque", interpretada por Gilberto Gil, que também pode ser conferida no documentário LOKI - ARNALDO BAPTISTA. Mas voltando ao Caetano, ele pode até ser visto em certo momento como uma espécie de junkie de sua geração, com shows loucos e tudo, se comparado com os demais. Muito divertido ver suas entrevistas na época. O pessoal da Jovem Guarda fica careta perto dele.

Quem quis fazer diferente foi Sérgio Ricardo, modificando o arranjo original. Aparentemente o cantor não era muito querido dos jovens, que o vaiaram a ponto de ele perder as estribeiras. Não aguentando as vaias do público, ficou puto, quebrou a viola e jogou-a à plateia. Os organizadores do festival, inclusive, ficaram preocupados, pensando que aquilo poderia ter ferido alguém.

Impressionante como Chico Buarque era um símbolo sexual para as mulheres na época. E ele acabou ficando sozinho quando da criação da Tropicália. Ele acabou se sentindo um velho, enquanto os outros eram os jovens, os revolucionários. Outro que parecia sozinho e um pouco estranho naquilo tudo era Roberto Carlos. Que contou que a canção escolhida para ser interpretada por ele não foi ideia dele. Ele apenas aceitou. E se saiu melhor do que a encomenda, interpretando um samba.

E interessante ver, durante os depoimentos, que nem sempre os entrevistados se mostram tão seguros. As palavras saem difíceis. Especialmente de Gilberto Gil e de Chico Buarque. É como se os diretores quisessem mostrar a insegurança desses artistas para aproximá-los mais da audiência. E acredito que conseguiram.

segunda-feira, agosto 02, 2010

SALT



Angelina Jolie está no auge. E SALT (2010) representa uma coroação deste momento brilhante que ela está vivendo. Por mais que ela já tenha ganhado prêmios importantes na indústria, eu sinto mais satisfação em vê-la mais bela do que nunca como heroína de ação num filme feito por quem entende do riscado e não adota as montagens picotadas de um Paul Greengrass, para citar o exemplo mais óbvio. Phillip Noyce já havia dirigido dois bons filmes baeados na série de livros do personagem Jack Ryan - JOGOS PATRIÓTICOS (1992) e PERIGO REAL E IMEDIATO (1994). Logo, ele é de outra escola de filmes de ação, onde se pode ver o que de fato está acontecendo na tela. E a experiência de Noyce em filmes mais políticos ou politizados também ajuda, embora SALT seja, antes de mais nada, diversão escapista de qualidade.

Angelina Jolie tem uma vida que daria um filme melhor do que qualquer obra que ela já fez, mas enquanto não sai uma cinebiografia da atriz, é um prazer vê-la bem à vontade num trabalho tão físico quanto SALT. Sua personagem tem um quê de mistério no olhar e isso ela consegue transmitir desde a cena em que o agente russo entra no escritório da CIA para dizer, na frente de seus colegas de trabalho, que ela, Evelyn Salt, é uma espiã russa infiltrada com o objetivo de matar o presidente da Rússia. Sim, a guerra fria parece nunca ter fim no cinema americano. Por mais que ela tenha acabado, vez ou outra a ficção americana lida com espiões, bombas e outras coisas relativas à antiga União Soviética.

Assim, Salt seria, segundo o velho russo, uma garota que cresceu num grupo de crianças com o objetivo de se infiltrar de tal maneira na sociedade americana que ninguém jamais suspeitaria de seus segredos. Sem admitir ficar presa numa sala fechada até ser considerada inocente pela CIA, ela foge de maneira espetacular. Não há câmeras de segurança, portas ou homens que a segurem. E aí começa um dos jogos de gato e rato mais empolgantes do cinema americano atual. Que não precisa se fazer de inteligente para enganar a plateia. A trama é simples e clara para um thriller de espionagem, apesar das inúmeras reviravoltas e das dúvidas que sua personagem provoca na plateia quanto às suas intenções. E eu digo isso como um elogio.

Mas o que seria do filme se não fosse a presença sempre vibrante e bela de Jolie? De cabelos loiros ou morenos, com uma arma na mão ou pulando em cima de caminhões, relembrando o passado em flashbacks ou segurando as lágrimas para se mostrar forte quando preciso, Jolie está tão bem que a gente até esquece de comentar do bom elenco de apoio: Liev Schreiber como o colega de trabalho mais preocupado; Chiwetel Ejiofor como o agente correto e que não se importa em atirar para matar em Salt; e Daniel Olbrychski como o agente russo. E não deixa de ser também divertido ver os americanos dando as suas alfinetadas logo no começo do filme no ditador norte-coreano Kim Jong-il.