segunda-feira, agosto 09, 2010

400 CONTRA 1 - A HISTÓRIA DO COMANDO VERMELHO



A História brasileira dos últimos cinquenta anos é a mais explorada pelo nosso cinema. Especialmente os anos de chumbo da ditadura. 400 CONTRA 1 - A HISTÓRIA DO COMANDO VERMELHO (2010), estreia na direção de longas de Caco Souza, é mais uma obra a engrossar a lista. O filme tem sido criticado por glamourizar o crime organizado. No entanto, o cinema americano faz isso desde os anos 30 e não deixa de ser respeitado, embora a regra seja mostrar que os bandidos têm sempre um final trágico, que o crime não compensa etc. Exceções são esses filmes estilo ONZE HOMENS E UM SEGREDO, onde os ladrões se safam na maior tranquilidade e recebem aplausos de todos. Mas aí já estamos falando de outro subgênero.

Temos a oportunidade de ver um filme que mostre o ponto de vista de um líder de uma organização criminosa bem violenta: o Comando Vermelho, que cresceu e se fortificou no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Foi lá que William da Silva Lima, interpretado por Daniel de Oliveira, utilizou de inteligência, força e violência para conseguir, não apenas fugir da ilha, mas também efetuar diversos assaltos a bancos com seu bando. O filme, inclusive, foi baseado no livro de memórias escrito por William. Daniel de Oliveira é um dos melhores atores de sua geração, mas seu jeito de bom moço não combina com um líder tão agressivo quanto William. A não ser nas cenas de assalto a banco, quando ele aborda os gerentes com classe e ternos elegantes.

A influência de Quentin Tarantino se mostra evidente. Bem mais do que a influência de CIDADE DE DEUS, de Fernando Meirelles. Além de Daniel de Oliveira, um dos personagens masculinos mais interessantes é Fabrício Boliveira, um arquétipo do negro cheio de si, do malandro carioca que consegue conquistar a simpatia dos espectadores com seu jeito, ainda que na vida real isso seja outros quinhentos. É o seu personagem que justifica o título do filme, num dos momentos mais memoráveis.

Mas são as personagens femininas que mais se destacam, ainda que apareçam pouco. Tanto Daniela Escobar quanto Branca Messina estão ótimas, no papéis, respectivamente, de amante de William e sua advogada. Inclusive, a personagem de Branca daria um outro filme, que esclarecesse melhor suas motivações a ajudar aquele grupo, que não tinha interesse nenhum em combater a ditadura, como os "pequenos burgueses", como eram chamados pelo grupo do comando vermelho os presos políticos.

A opção por contar o filme numa montagem não linear, com idas e voltas no tempo, do início dos anos 70 ao início dos anos 80, cobrindo a prisão, a fuga, os assaltos e a perseguição intensa pela polícia, funciona muito bem, embora seja um recurso que possa ocultar uma falta de domínio narrativo. Portanto, aguardemos o próximo trabalho de Caco Souza. Quem sabe estejamos diante de um novo talento.

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