
Houve um tempo em que Hollywood não tinha que pisar em ovos quando transitava pelo difícil terreno do melodrama. Tempos em que era até chique soar melodramático, que o digam os belos trabalhos de Douglas Sirk. Hoje em dia, Hollywood precisar importar cineastas de outros países para fazer esse papel - se bem que Sirk também era de outra nacionalidade. E o italiano Gabriele Muccino caiu como uma luva para fazer a platéia chorar sem culpa. Ou com culpa, já que essa é uma das palavras-chave para o belo SETE VIDAS (2008), filme que quanto menos se souber, melhor será apreciado. Trata-se da segunda parceria de Muccino com o astro Will Smith. Os dois já haviam emocionado as platéias no mundo todo com o emocionante À PROCURA DA FELICIDADE (2006). Que Smith tinha dotes para fazer dramas, a gente já sabia desde, pelo menos, ALI, de Michael Mann, mas que bom que ele demonstrou ter um pouco mais de versatilidade nas suas expressões a ponto de fazer com que odiemos e amemos o seu personagem quase na mesma proporção.
O fato de o filme optar por uma narrativa não-linear - começando com uma seqüência que já mostra o personagem de Smith toamndo a decisão de tirar a própria vida – dá ao filme uma força e um charme todo próprio. O público já está acostumado a ver filmes com idas e vindas no tempo, como foi o caso do intenso 21 GRAMAS, de Iñárritu, portanto, não chega a ser incômodo em nenhum momento acompanhar aos poucos o descortinamento das intenções do protagonista, que tem como meta ajudar a vida de determinadas pessoas, a maioria delas, estranhos para ele. E é no modo como ele entra na vida dessas pessoas e vai modificando-as que ele modifica até a sua própria maneira de ver a vida. Para isso, é de especial importância a personagem de Rosario Dawson, como a mulher que sofre de uma cardiopatia grave e que tem poucos meses de vida, a não ser que um doador apareça dentro desse curto espaço de tempo.
Alguns pequenos detalhes tornam o filme ainda mais bonito, como a água-viva que ele guarda consigo e cuja característica o fascina desde a infância: "como algo pode ser ao mesmo tempo tão belo e tão mortal?", ele se questiona. E esse questionamento não é dito em vão e pode até ser comparado com o seu próprio personagem. A cena em que Woody Harrelson, no papel de um cego que é humilhado por telefone no início do filme é um desses momentos em que odiamos o personagem de Smith. Com o esclarecimento dos mistérios do protagonista e com o avanço do enredo, vamos nos afeiçoando a esse personagem que, com seu altruísmo, só nos lembra o quanto somos egoístas e o quanto é necessário, às vezes, algo extremamente traumático para nos darmos conta da importância de ajudar alguém. E não se trata de um filme de auto-ajuda, já que o próprio ato final do protagonista pode ser questionado e condenado por muitos. E como poucos diretores têm tratado do tema do sacrifício nos dias de hoje – talvez apenas Mel Gibson, em CORAÇÃO VALENTE e A PAIXÃO DE CRISTO–, chega a ser um alento ver esse tema tão "fora de moda" e fortemente usado no passado por cineastas tão distintos como John Ford e Robert Bresson novamente sendo posto em questão. Quanto às lágrimas, difícil contê-las.