terça-feira, abril 08, 2008

OS ANJOS EXTERMINADORES (Les Anges Exterminateurs)























Muitos ficaram sabendo dos incidentes envolvendo as filmagens de COISAS SECRETAS (2002), o filme anterior de Jean-Claude Brisseau, que lidava com o voyeurismo. Durante a escolha das atrizes para o filme, o diretor fez algumas experiências com as candidatas, que se masturbavam e se exibiam para ele sem nenhum pudor. Ele começou a gostar do jogo, não se envolveu fisicamente com nenhuma dessas moças, mas a experiência para elas foi ainda mais intensa do que para ele. Como ele teve que dispensar algumas delas, duas dessas moças, que tiveram suas vidas abaladas pela experiência, processaram o cineasta, que chegou a ser condenado a um ano de prisão (embora tenha conseguido escapar das grades) e a pagar uma considerável quantia em dinheiro à justiça. No fim, COISAS SECRETAS se transformou num excelente filme, mas todo esse tempo que Brisseau passou lutando para se recuperar de todos os problemas gerados por essas duas jovens foi bastante cansativo.

Lembro de uma cena de um filme do Truffaut, DUAS INGLESAS E O AMOR, no qual o protagonista, um escritor, afirma acreditar que ao escrever sobre suas experiências de vida através do livro conseguiu se livrar de boa parte dos traumas, como se tivesse tirado um enorme peso de seus ombros. Truffaut, desde o primeiro filme, sempre foi um cineasta que entendia muito bem o que significava isso. Tudo indica que OS ANJOS EXTERMINADORES (2006) seja o filme que Brisseau fez para exorcizar seus demônios para, dessa forma, tentar se livrar dos traumas sofridos durante os últimos anos. Assim como COISAS SECRETAS, OS ANJOS EXTERMINADORES é um filme que faz com que o espectador (o masculino, principalmente) se sinta um privilegiado ao presenciar cenas gráficas de exibicionismo erótico feminino, de lesbianismo e de sexo em lugares públicos no mínimo bem excitantes. E OS ANJOS EXTERMINADORES ainda tem a vantagem de ser mais belo plasticamente, de a fotografia ser mais bonita e nítida - dando mais prazer em ver os corpos das mulheres em fase de autodescobrimento -, de os enquadramentos se aproximarem da perfeição.

Na trama, Frédéric Van Den Driessche é o alter-ego de Brisseau, um cineasta em busca de atrizes para um filme que planeja fazer sobre o erotismo, o exibicionismo e o voyeurismo femininos, um prato cheio para os tarados de plantão, mas que o cineasta parece levar muito a sério e com extremo profissionalismo. Muitas atrizes passam pelo seu escritório, mas poucas topam o desafio de se despirem de todas as maneiras para um filme. Seu método inclui pedir que as meninas se exibam inicialmente para ele, num ambiente mais íntimo. Sua intenção é captar momentos genuínos de orgasmo feminino, que para muitos homens se constitui num verdadeiro fascínio. Algumas dessas moças acabam por se entregar de fato à "brincadeira" e a ter idéias até mais ousadas do que ele imaginava. Uma delas, por exemplo, tem a idéia de se masturbar num restaurante luxuoso. Essa seqüência em especial é carregada de tensão e erotismo. Se do ponto de vista do erotismo, OS ANJOS EXTERMINADORES perde alguns pontos para COISAS SECRETAS, é por muito pouco. Talvez isso se deva a três fatores: o metalingüístico, o sobrenatural (dois anjos da morte na forma de duas belas moças aparecem de vez em quando prenunciando um mau agouro para o cineasta) e o final, que mostra os efeitos da "brincadeira" do diretor e o preço que ele pagou. No final, ainda que muitas seqüências de alta combustão permaneçam em nossa memória, o filme finaliza com um tom quase metafísico. E só um grande cineasta conseguiria unir o prazer puramente carnal a uma temática mais espiritual. Um dos melhores e mais prazerosos (em todos os sentidos) filmes do ano. Pena que não chegou nos cinemas locais e tive que vê-lo na telinha, o que convenhamos tem as suas vantagens.

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