terça-feira, abril 15, 2008

FALSA LOURA























O cinema de Carlos Reichenbach sempre deu ênfase aos contrastes. Em GAROTAS DO ABC (2004), temos o caso de uma moça negra que se apaixona por um rapaz nazista. Em FALSA LOURA (2008) esses contrastes se apresentam mais na forma do que no conteúdo, embora a semelhança com GAROTAS DO ABC se apresente mais forte do que a qualquer outro filme de Carlão. Até porque ambos os filmes tratam do universo de operárias e FALSA LOURA é derivado de uma idéia que o diretor teve de fazer uma espécie de série, sendo que o GAROTAS DO ABC tinha recebido o curioso título de "Aurélia Schwarzenega", por focar principalmente na protagonista Aurélia, embora dê mais espaço que o novo filme para as operárias coadjuvantes que apareceriam em filmes seguintes. Mas nem sempre as coisas saem como o planejado e o que era o projeto "Lucineide Falsa Loura" se transformou em FALSA LOURA, um filme cujas coadjuvantes desempenham um papel menos importante do que em GAROTAS...

Não poderia ser diferente, levando em consideração uma atriz ao mesmo tempo tão bela e talentosa quanto Rosanne Mullholand, atriz cuja carreira foi revelada pra mim no filme A CONCEPÇÃO, de José Eduardo Belmonte. No filme de Belmonte ela rouba a cena. Trata-se definitivamente de uma atriz que têm força suficiente para ser a protagonista dos filmes em que estrela. Em FALSA LOURA, Rosanne é Silmara, uma jovem linda e de família pobre, que sustenta parte de sua família dividida - ela e o pai - com o seu salário de operária. O pai tem um passado negro. Percebe-se que ele praticou atos ilícitos que o levaram à prisão. Recentemente, ele é pago para executar um serviço para um respeitado advogado. Um serviço que ele prefere manter em segredo para a filha mas que ele jura tratar-se de um serviço honesto. Enquanto isso, Silmara faz o possível para se divertir em seu tempo livre, como ir ao show de um cantor de rock chamado Bruno de André (Cauã Raymond), considerado um "gato" por ela e por suas colegas de trabalho. Com a sua beleza deslumbrante, Silmara logo se destaca no meio do público e o jovem cantor, de ego inflado, trata logo de "escolhê-la" para si. E os dois saem para uma noite de amor, numa seqüência que não aparece no filme, constituindo numa elipse. Mais na frente, veremos também a presença de um outro cantor na vida de Silmara, um cantor romântico e famoso, meio cafona, chamado Luís Ronaldo, interpretado por Maurício Mattar.

A personagem de Silmara pode ser encarada com antipatia por alguns espectadores, mas aos poucos ela vai se revelando uma jovem encantadora e cheia de amor pra dar, por mais que a sua arrogância e o seu desdém diante de algumas de suas colegas de trabalho que não são tão belas quanto ela (como a personagem de Djin Sganzerla) possam depor contra a sua pessoa. Mesmo assim, um dos momentos mais descontraídos do filme é quando ela resolve ajudar a amiga "feia", transformando-a numa "princesa", dando um banho de loja, visitando um salão de beleza e até dando umas aulinhas de dança para a moça. Na seqüência na loja, inclusive, o compositor Nelson Ayres compõe uma clara variação de "Pretty Woman", de Roy Orbison, numa citação a UMA LINDA MULHER.

FALSA LOURA pode ser taxado como brega por alguns, seja por seus anacronismos e pela estética de filmes homenageados, seja por seu senso de humor muitas vezes incompreendido, seja pelas canções, compostas por Paulo Ricardo. Sobre o brega, Carlão o defende e o assume, misturando-o ao erudito, como é comum em seu trabalho desde os tempos da Boca do Lixo. Os contrastes de tom - numa hora a protagonista está num explosão de alegria e cheia de motivos para estar feliz, noutra está se sentindo um lixo - também são outros geradores de estranheza. A leveza se reveza com a crueldade da vida. Esse contraste é sentido especialmente numa das seqüências finais, a partir do momento em que Silmara encontra Luís Ronaldo. A cena é apresentada como num conto de fadas dos anos 50, com direito a uma divertida seqüência musicada com legendas e aquelas bolinhas que ficam pulando nos trechos da música, como nos videokês. Essa seqüência e as cenas seguintes não são apenas a melhor coisa do filme, mas parte do melhor já produzido em toda a carreira do cineasta, especialmente quando ele emula Walter Hugo Khouri numa seqüência de cair o queixo.

Além de todos esses contrastes, há no filme seqüências surreais envolvendo uma jovem seminua recitando citações de filósofos importantes, como Sócrates. O fato de a moça estar só de calcinha torna um pouco difícil prestar atenção no que ela está falando e estabelecer, portanto, uma relação com o desenvolvimento da trama. Há também seqüências em que se vê imagens de animais silvestres passando na televisão, narrados pela própria voz de Carlão - que nesse filme dá uma de Hitchcock, aparecendo numa divertida ponta. Por essas e outras razões, FALSA LOURA é um filme que deve se beneficiar bastante de uma revisão, o que certamente farei se (ou quando) o filme entrar em cartaz no circuito comercial local. Ah, e quero deixar bem claro que uma das principais marcas e maiores méritos dos filmes de Carlão, que é a sensualidade, está presente com força total nesse filme, com cenas de dar água na boca.

FALSA LOURA está previsto para estrear no Brasil na próxima sexta-feira, dia 18 de abril.

P.S.: Está no ar a nova edição da Revista Zingu!, com a terceira parte do dossiê "Grandes Musas da Boca do Lixo", o retorno da seção "Cantinho do Aguilar", uma homenagem a Wilson Grey, mais um filme de Russ Meyer comentado por Marcelo Carrard, Isabelle Adjani na seção "Musas Eternas" e uma entrevista resgatada de Nelson Gonçalves!

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