quarta-feira, dezembro 06, 2006

TRÊS HOMENS EM CONFLITO (Il Buono, il Brutto, il Cattivo / The Good, the Bad and the Ugly / El Bueno, el Feo y el Malo)



A primeira vez que vi TRÊS HOMENS EM CONFLITO (1966) foi numa Sessão de Gala da Globo. Na época, eu não era exatamente um apreciador de westerns. Era um gênero que não me atraía. Existia até uma sessão na tarde de sábado, dedicada ao gênero, mas eu não assistia. Mas foi só eu botar os olhos nesse filme do Leone que eu não consegui largar mais. O filme tinha mais de duas horas e meia de duração, mas passou tão rápido que era como se tivesse apenas 90 minutos. Lembro que a minha mãe estava trabalhando numa máquina de costura na sala e acompanhou o filme também. Por isso que sempre disse e continuo dizendo que TRÊS HOMENS EM CONFLITO é o melhor filme de Leone e, conseqüentemente, o melhor western spaghetti já feito. E olha que mais recentemente eu cheguei a ver filmes maravilhosos como O VINGADOR SILENCIOSO, de Sergio Corbucci, e UMA BALA PARA O GENERAL, de Damiano Damiani. Mas é só o conhecidíssimo tema composto por Ennio Morricone começar a tocar e os créditos se iniciarem que qualquer dúvida que possa existir cai por terra.

Uma coisa que eu reparei revendo o filme (pela primeira vez na janela correta) foi que ele - mais do que eu imaginava - se assemelha muito a ERA UMA VEZ NO OESTE (1968). Tanto pelo andamento, que já se aproximava de uma maior lentidão, quanto pela estilização sofisticada. Com TRÊS HOMENS EM CONFLITO, Leone demonstrou o seu lado mais ambicioso. Foi só botarem mais dinheiro pro homem gastar que ele logo tratou de colocar seus anti-heróis no cenário da Guerra Civil, coisa que não era possível fazer nos primeiros filmes, que contavam com um orçamento bem mais modesto. Principalmente o primeiro da trilogia dos dólares - POR UM PUNHADO DE DÓLARES (1964), quase uma produção de fundo de quintal. Em TRÊS HOMENS EM CONFLITO, a locação na Espanha ficou bastante convincente como os Estados Unidos do século XIX. Claro que Leone não ia sossegar se não filmasse em território americano, coisa que aconteceria em ERA UMA VEZ NO OESTE.

A presença brilhante de Clint Eastwood como um andarilho caçador de recompensas é mais do que se poderia desejar de um astro. Antes de partir para a Itália e fazer esses faroestes, Clint havia feito relativo sucesso na televisão americana com a série RAWHIDE (1959-1965). Inclusive, é possível ver um episódio dessa série na edição especial em DVD de OS IMPERDOÁVEIS. A partir de A MARCA DA FORCA (1967) é que ele entraria com força total no cinema americano. Em TRÊS HOMENS EM CONFLITO, ele é "o bom". Quer dizer, ele não chega a ser bonzinho. Ele deixa o coitado do seu então parceiro, "o feio" Tuco (Eli Wallach), no meio do deserto, sem cavalo e sem água, simplesmente porque cansou da parceria. A sociedade dos dois consistia no "velho truque" da forca. Ele capturava o bandido, recebia o dinheiro da recompensa e na hora do enforcamento, ele salvava o condenado. Mas o principal eixo da trama gira em torno de uma grande quantia em dinheiro escondida no túmulo de um cemitério. O ápice do filme é o antológico duelo dos três homens no cemitério. Lee Van Cleef completa a trinca como o "mau". Digno de nota é a forte expressividade do rosto de Van Cleef. Ele parece uma raposa e funciona perfeitamente como vilão. Depois que Clint foi fazer sucesso nos EUA, Van Cleef ainda trabalhou muito na Europa, tendo protagonizado, por exemplo, a série "Sabata". Os rostos de Clint Eastwood e Lee Van Cleef são perfeitos para os closes tão peculiares de Leone. Interessante que Leone ofereceu tanto o papel de Wallach quanto o de Van Cleef para Charles Bronson mas o astro não aceitou.

Outro detalhe interessante e que aproxima esse filme de Leone ao cinema de Alejandro Jodorowsky é a opção por mostrar corpos imperfeitos, como na cena do homem sem pernas que entra no bar, ou do detalhe do dedo amputado de um pistoleiro. Ainda assim, há espaço para a elegância do casaco que Clint usa em boa parte do filme. Casaco esse que foi muitas vezes questionado como elemento fora do contexto do oeste americano. Mas Leone dizia que esse casaco foi mesmo usado pelos americanos da época, tanto que colocou de novo pistoleiros de casaco no filme seguinte.

A presença em cena de Eli Wallach, nessa versão estendida, parece ter aumentado consideravelmente. Tenho a impressão de que ele aparece tanto quanto Clint Eastwood, muitas vezes roubando a cena como o bandoleiro mexicano. Seu personagem é até bastante simpático. Ele seria o equivalente ao personagem de Jason Robards em ERA UMA VEZ NO OESTE. Engraçado que num dos trailers presentes nos extras, ele é apresentado como "o mau" e não como "o feio", algo que me deixou bastante confuso. Deve ter sido erro dos responsáveis pelo trailer. Wallach foi contratado por Leone por causa de seu papel em A CONQUISTA DO OESTE.

Pena que a edição especial em DVD da MGM não apresente legendas nos extras. Por isso, nem tive vontade de conferir o comentário em áudio do historiador Richard Schickel. Mas vi os pequenos documentários presentes no disco 2, ainda que não sejam tão caprichados quanto os do DVD de ERA UMA VEZ NO OESTE, da Paramount. Tenho vontade de adquirir também o DVD duplo lançado pela Warner de ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (1984) para rever decentemente. E continuo sem ter visto MEU NOME É NINGUÉM (1973), que Leone dirigiu em parceria com Tonino Valerii.

P.S.: Existe uma versão em DVD desse filme lançado pela Continental com o título O BOM, O MAL (sic) E O FEIO. Besta é quem compra essa porcaria.

P.P.S: Falando em DVD de western, vi hoje na banca uma suposta edição especial de A FACE OCULTA, do Marlon Brando. Achei o preço bem salgado pra um DVD vendido em banca: 29,90. Alguém sabe da qualidade do material?

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