Gabriel Martins se superou com VICENTINA PEDE DESCULPAS (2026), que infelizmente não tem recebido tanto público nesta fase de “cinemas selecionados” antes de alçar voo na Netflix e poder ser apreciado por uma vasta audiência. Lembremos que Martins já havia encantado muita gente com seus dois primeiros longas, NO CORAÇÃO DO MUNDO (2019), assinado em parceria com Maurílio Martins, e MARTE UM (2022), sem falar em brilhantes curtas-metragens e um segmento de O NÓ DO DIABO (2018).
Ainda que seja uma obra intimista, VICENTINA PEDE DESCULPAS é seu trabalho mais ambicioso até o momento, pela estrutura em blocos, pelo elenco estelar de coadjuvantes, pela história que se aproxima de uma epopeia e pela performance impressionante de Rejane Faria, que interpreta a personagem-título, uma mulher que se sente culpada após o incidente com o filho, motorista de ônibus que pode ter sido responsável pela morte de quase todos os passageiros do coletivo. Assim, ela entra em contato com vários familiares das vítimas para pedir desculpas.
Não seria exagero comparar Rejane Faria a Vitalina Varela, a atriz do filme homônimo do português Pedro Costa. Inclusive, Martins também sabe lidar muito bem com a penumbra para destacar a tristeza e a inquietude de Vicentina, embora o filme brasileiro não se furte a apresentar com frequência a luz do sol. E, nesse sentido, é uma obra muito menos opressiva. A direção de fotografia, aliás, é de Leonardo Feliciano, que tem em seu currículo trabalhos notáveis como ARÁBIA, MARTE UM e TIA VIRGÍNIA.
A estrutura em blocos num andamento lento permite que o cineasta apresente diferenças nos espaços apresentados e nos posicionamentos de câmera. Entre os momentos mais bonitos está a cena com Grace Passô, essa atriz que não cansa de nos deixar impressionados com seu talento. Há outros grandes nomes que o filme traz em performances magistrais, como Fernanda Vianna, Carlos Francisco, Flavio Bauraqui, Bárbara Colen, Renato Novaes, Giovanni Venturini, entre outros.
Uma coisa que me comoveu muito, além do sentimento hitchcockiano/católico de transferência de culpa da heroína é o senso de humanidade do filme. Ou seja, ao querer se encontrar com os familiares das vítimas e saber um pouco da dor delas e da história de vida da pessoa falecida, Vicentina contraria a lógica de ver as pessoas como números, como estatística. Cada pessoa tem uma história, uma vida suspensa (muitas vezes cedo demais), um grupo de pessoas que ama, ou até meio que odeia, como na cena com Fábio Leal na igreja, numa conversa de grande intensidade. Sem falar nos mistérios e segredos que cada um leva para a sepultura. Aliás, essa busca de Vicentina por essas pessoas era também um meio de encontrar o filho, de saber mais dele, de se apegar ao que lhe restou.
Gabriel Martins, com sua sensibilidade e seu rigor formal, faz com que cada cena das quase duas horas e meia do filme seja detentora de uma força que raramente se vê não apenas no cinema brasileiro, mas no mundial. E se a morte parece ser o ponto central da trama, é a vida que fica que acaba vendo a luz do dia, como nas cenas finais de Vicentina ou em suas interações com os personagens de Giovanni Venturini e Bárbara Colen.
+ TRÊS FILMES
FEITO PIPA
Confesso que fiquei impressionado com o quanto o grande público, especialmente aqui de Fortaleza, recebeu carinhosamente FEITO PIPA (2026), terceiro longa-metragem de Allan Deberton, na semana de pré-estreia. O filme lotou sessões em quase todos os cinemas. Não apenas o Cinema do Dragão, mas os cinemas de shopping que normalmente não acolhem tão bem filmes menores da cinematografia brasileira. Assisti, por exemplo, no Cinépolis RioMar Kennedy, e havia uma quantidade considerável de pessoas negras e de pessoas LGBT, o que só confirma o quanto há uma carência de boa parte (ou até a maior parte) do público brasileiro de se ver nas telas. Na trama, Gugu (Yuri Gomes, ótimo) é uma criança queer que adora futebol e mora sozinho com a avó Dilma (Teca Pereira), que começa a apresentar sinais de demência. O menino sofre bullying dos colegas da escola, mas não foge à luta e nem teme ser ridicularizado por ser quem é. O pai, porém, vivido por Lázaro Ramos, não gosta muito do comportamento do filho e até lhe dá de presente uma revista de “mulher pelada” na esperança que o garoto mude. FEITO PIPA explora com muita sensibilidade a relação do menino com a avó e depois com o pai (difícil não sair do cinema com a canção “Time After Time”, da Cyndi Lauper, na cabeça). Deberton segue fazendo seu cinema de afetos que tem encantado audiências desde seu lindo curta DOCE DE COCO (2010) e e de sua estreia em longas-metragens com PACARRETE (2019). A canção de Lauper sintetiza a consciência da passagem do tempo, seja na mente já confusa de uma idosa, seja na cabeça daquele menino que vive um momento de transição importante já tão jovem. FEITO PIPA foi rodado no município de Quixadá-CE.
TERRA FIRME
O longa-metragem que abriu a 36ª edição do Cine Ceará foi esta terna produção toda realizada na praia de Mundaú, praia querida do município de Trairi-CE. TERRA FIRME (2026), estreia na direção em longa-metragem de Alexandre Vale, conta a história de um pescador que chama a atenção da comunidade local por nunca descer de seu barco. O sujeito (Lisandro di Prospero) tem o apelido de Zé Cangulo e é visto com especial atenção por duas crianças, Juca (Benjamin Nunes) e Leleco (Pedro Lucas). Os meninos, ao mesmo tempo que temem esse homem estranho e pouco sociável, tem certo fascínio por ele. A história de Juca é marcada pela dor do abandono do pai quando ele era bem pequeno e ele mora sozinho com uma mãe carinhosa, Lidinha, vivida por Lua Mara. Falando na atriz, fui buscar informações de seu currículo, mas nada encontrei de outros trabalhos em cinema ou televisão. Ela se destaca no elenco como a grande intérprete do filme, com brilho de estrela de cinema. Lidinha representa o outro oposto da trama, ao ter fobia de barco. Juca faz amizade com Zé Cangulo e tem o intuito de conspirar para que ele e sua mãe se casem, formem uma família. Acontece que se um deles não sai do barco, a outra não sobe, o que transforma o filme numa espécie de fábula, que remete um pouco ao amor impossível de O FEITIÇO DE ÁQUILA, de Richard Donner. O amor que nasce dos dois é puro e isso se justifica muito pelo fato de o filme ser visto principalmente pelos olhos de uma criança, especialmente de uma criança carente de uma figura paterna, mas também suficientemente esperta para fazer as coisas acontecerem. A belíssima fotografia em janela scope de Petrus Cariry faz a diferença na composição visual do filme e a projeção excelente do Cineteatro São Luiz nos permitiu ver os detalhes das folhas das árvores, do mar, da paisagem da vila de pescadores. A luz do Ceará mais uma vez se mostra valorizada e sabiamente utilizada em filme. Lembro de uma sessão de CORISCO & DADÁ, de Rosemberg Cariry, em que o cineasta destacava a nossa luz e o quanto ela é preciosa para se fazer cinema. Não à toa, os americanos, quando foram escolher a sua Hollywood, escolheram a ensolarada Califórnia para sediar suas produções. Vendo dessa forma, até que o Ceará é pouco utilizado, embora nossa produção tenha aumentado consideravelmente nas últimas décadas.
SARGENTO GETÚLIO
Lembro de quando a saudosa revista SET trazia aquelas fichas de cinema e vídeo encartadas em cada edição e o quanto os filmes escolhidos pelos editores da revista representavam um destaque para o leitor, uma espécie de selo de qualidade. SARGENTO GETÚLIO (1983), de Hermano Penna, foi um desses filmes que ganhou destaque na revista e lembro que procurava o filme nas videolocadoras e não o encontrava. Quis o destino que a primeira eu visse o filme de Penna fosse numa sessão especial no Cinema do Dragão. Embora não tenha sido remasterizado, a cópia digitalizada de uma matriz de Betamax estava bem decente e a experiência de ver o filme foi tão incrível quanto chocante. Digo chocante pois não estava preparado para tanta violência brutal. Ao mesmo tempo, por mais que Lima Duarte interprete um personagem horrendo e representativo da violência do estado, em momentos de agonia, pois o período de redemocratização estava próximo, percebe-se uma espécie de amor, de obsessão, de fascínio do realizador por seu personagem, nascido originalmente de um romance de João Ubaldo Ribeiro. Tanto que por mais maldades que ele cometa, não há o interesse em vê-lo explicitamente caindo morto, quando está sendo perseguido pela polícia. Na trama, Getúlio é um policial que tem a missão de entregar um prisioneiro político do sertão até a capital Aracaju. Acontece que ele odeia aquele prisioneiro, que representa ideais que podem estar em vias de serem colocados em prática num vindouro governo democrático e por isso faz com que esse tempo que se encontra com o prisioneiro seja de tortura para o rapaz. É como se o filme mostrasse a velha ditadura ainda estrebuchando, mas ainda atirando enquanto cai. É quase um filme de terror. E muito mais intenso e perturbador que a maior parte dos filmes do gênero. Lima Duarte está monstruoso, em todos os sentidos, aqui.
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