domingo, novembro 28, 2021

FORTALEZA HOTEL



Como não fui à edição de 2020 do Cine Ceará, não tinha muito a noção de como estariam o Cineteatro São Luiz e a Praça do Ferreira neste cenário pandêmico, por mais que, no momento, a taxa de contaminação do vírus esteja baixa – mas com o temor da nova variante dominando o mundo. Se lembrarmos como foi em 2019, que abriu com a presença de Fernanda Montenegro e Marco Nanini, e contou com filmes importantes, como A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz; GRETA, de Armando Praça; PACARRETE, de Allan Deberton; NOTÍCIAS DO FIM DO MUNDO, de Rosemberg Cariry; e RESSACA, de Patrízia Landi e Vincent Rimbaux (só para citar os títulos em longa-metragem brasileiros), ter uma edição mais modesta neste 2021 (do ponto de vista da produção) não deixa de ser um pouco triste, ainda que perfeitamente compreensível. Além da pandemia, ainda estamos tendo que lidar com o projeto de destruição do governo federal.

Cheguei à Praça do Ferreira um pouco deslocado. Achei que estava atrasado e fui logo entrando. Na entrada para a sala, há duas barreiras: a do comprovante de vacinação e, em seguida, a do convite ou credencial. No caso, eu tinha a credencial de imprensa, a pulseirinha disponível para receber e poder entrar. Como o Cine Ceará é também um momento de socialização, e nem sempre eu me sinto à vontade no lugar, é normal eu me sentir inquieto. Até porque é preciso ter um pouco de paciência, pois a cerimônia atrasa e, consequentemente, o filme da noite também. Depois de trocar umas palavras com o Arthur Gadelha, entrei e fiquei esperando lá na sala, que estava relativamente vazia. O formato híbrido, por mais que não seja tão democrático assim, já que nem todo mundo tem assinatura do Canal Brasil ou dos canais Globo, pelo menos diminui os riscos por conta de eventual lotação, que era algo comum de acontecer em noites de abertura do evento.

Depois de ficar impaciente e sair para comprar uma pipoca lá na praça, voltei para a sala, mas sem a minha garrafinha de água que havia trazido de casa. Um morador de rua havia pedido e eu não ia negar. Falando nisso, o espaço da praça, que já estava uma tristeza nos anos anteriores, me pareceu ainda pior, já que a atual situação econômica do país há tempos não esteve tão explicitamente agravante. Enquanto um telão passa filmes para alguns dos moradores de rua, outros preferem dormir na frente dos estabelecimentos comerciais.

Falar sobre este cenário antes de falar do filme da noite servirá no futuro para me fazer lembrar do momento, mas também tem tudo a ver com FORTALEZA HOTEL (2021), o segundo longa-metragem de Armando Praça, que, depois do sucesso de GRETA (2019), tem sua première mundial na cidade natal do realizador. Isso porque o filme lida com a necessidade do dinheiro dentro de cenários complicados na vida de duas mulheres. É como se o diretor lamentasse, ainda que indiretamente, a dependência que temos do dinheiro, quando certas coisas poderiam ser resolvidas de maneira mais humana em uma sociedade utópica.

Na trama de FORTALEZA HOTEL, Clebia Sousa é Pilar, uma camareira de um modesto hotel que já tem alguns anos trabalhando no estabelecimento, mas que planeja uma viagem para a Irlanda. Seu desejo é abandonar o país e ir morar bem longe para refazer sua vida. Apesar de jovem, ela já tem uma filha, e a garota namora um sujeito envolvido com o tráfico, e isso trará problemas para Pilar, e talvez uma mudança de planos.

O filme também acompanha o drama de uma mulher sul-coreana, Shin (Lee Young-lan), cujo marido havia morrido recentemente e agora ela pretende juntar dinheiro para cremar seu corpo e levar a urna de volta para seu país natal. Diferente de Pilar, que queria sair da cidade, Shin pretendia se estabelecer em Fortaleza, ter aquele lugar como novo lar. Shin escolhe Pilar para ajudá-la a resolver, com o português, algumas coisas pendentes e uma relação próxima da amizade nasce entre as duas.

É interessante esse processo de expansão do universo nos filmes de Armando Praça. Se em GRETA ele trouxe Marco Nanini a Fortaleza, dando um ar mais nacional e menos local a uma produção cearense, no novo trabalho ele internacionaliza o espaço da cidade ao trazer uma atriz sul-coreana para o centro da trama, além de vários diálogos em inglês, a língua da compreensão entre as duas protagonistas.

É um filme em que os temas da solidão e do sentimento de não-pertencimento se juntam à necessidade do dinheiro para diferentes situações das protagonistas. A maior parte da trama se ambienta em espaços fechados (o hotel, a casa da personagem de Clebia Sousa), mas há momentos de contemplação da paisagem urbana de Fortaleza também (as ruas do Centro, a ponte metálica). Gosto também de como o cineasta também usa as luzes e as cores para enfatizar o aspecto mais feminino de seu filme, em oposição ao universo mais masculino da produção anterior. E aquele final é tão tristemente belo, encontrando paralelo com o final de GRETA. É Armando Praça imprimindo sua assinatura com força em uma filmografia que está apenas começando.

+ DOIS CURTAS

A DAMA DO ESTÁCIO

Claramente uma homenagem ao clássico A FALECIDA, de Leon Hirszman, A DAMA DO ESTÁCIO (2012), de Eduardo Ades, nos apresenta a uma prostituta que já não vê mais muito sentido na vida e o melhor que pode fazer é conseguir o dinheiro para comprar um belo caixão. É um filme que me pareceu mais leve do que o tema dá a entender, e não sei se isso é um demérito ou não. De todo modo, talvez seja deliberado, já que o parceiro de quarto da protagonista é uma moça trans chamada Suely, sempre muito alegre e disposta a deixar a personagem de Montenegro um pouco mais pra cima. Gosto das participações de Nelson Xavier e Joel Barcellos e do samba cantado por Aracy de Almeida.

MATERIAL GIRL

Este bom curta de horror me fez lembrar o eficiente curta LIGHTS OUT (2013), de David Sandberg, pela brincadeira com o medo da escuridão e como as trevas podem estar (ou não) pregando peças na gente. MATERIAL GIRL (2020), de Kris Carr, é um pouco mais longo (6 min) e talvez até seja melhor, embora provoque menos sustos. De certa forma, isso é até um ponto positivo para os dias de hoje, já que jump scares hoje em dia parecem golpe baixo. É um filme que aposta mais na construção do medo e na boa performance da jovem atriz. Acabei encontrando o filme por acaso, no Letterboxd. Tem no YouTube.

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