domingo, julho 05, 2026

O CONVITE (The Invite)

 
Assistir a O CONVITE (2026) é garantia de quase duas horas de sorriso no rosto, ainda que nem tudo sejam risos neste terceiro longa-metragem de Olivia Wilde, nascido após a repercussão de fofocas e do contexto de sua separação conjugal durante as filmagens de NÃO SE PREOCUPE, QUERIDA (2022), uma obra mais ambiciosa do ponto de vista da produção.

Para O CONVITE, Wilde opta por fazer uma obra menos complexa no que se refere a locações e maior quantidade de atores, o que não quer dizer que seja menos sofisticada em condução narrativa num espaço fechado: o filme se passa quase que inteiramente num apartamento em San Francisco. E a diretora (e aqui um dos quatro protagonistas também) sabe transformar em cinema aquilo que poderia parecer teatro filmado nas mãos de alguém sem talento. O espaço do apartamento é muito bem aproveitado, além dos close-ups da expressão nos rostos dos atores. Logo no início do filme, com a cena no conservatório, há um interesse em fugir do uso convencional da imagem e uma intenção de fazer algo pensado para o cinema – a opção pelo 35 mm e uma fotografia um pouco esmaecida também é deliberado.

Na revista Time, Olivia Wilde comenta em entrevista uma frase de Phoebe Waller-Bridge, a genial criadora da série FLEABAG: a atriz e roteirista afirma que nós nunca estamos tão vulneráveis quando estamos rindo, uma frase que achei interessante, principalmente se pensarmos no impacto dos dramas dos personagens de O CONVITE, no quanto esses dramas são transformados em humor; e depois no quanto eles se apresentam sérios, dramáticos e tocantes. Há quem diga que Wilde transformou sua dor (de sua vida privada) em algo cômico, mas também catártico.

Não à toa o filme foi tão bem avaliado e chegou a ter várias ofertas de compra até parar nas mãos da A24. Houve uma guerra de lances e o filme chegou a ser objeto de desejo também da Netflix, da Neon, da Sony e da Searchlight Pictures. Muita gente interessada e hoje há até rumores de uma possível indicação ao Oscar, principalmente de Penélope Cruz, que é quem, de longe, brilha mais no filme, no papel de uma psicoterapeuta e sexóloga que, junto com o marido, um ex-bombeiro (Edward Norton), recebe o convite dos vizinhos de baixo (Olivia Wilde e Seth Rogen) para um jantar.

Na verdade, a ideia do jantar vem da personagem de Wilde, que arruma a casa toda, comprando um tapete caríssimo, para receber esse casal, que tem atrapalhado suas noites de sono com o barulho dos gritos de orgasmo da espanhola. Para o casal de baixo, esses gritos de prazer também funcionam como mais um lembrete do quanto estão distantes daquela realidade de gozo de vida sexual, já que há muitos meses não fazem sexo e passam o tempo todo discutindo.

Seth Rogen está ótimo, ainda que fazendo mais uma vez o papel de sujeito engraçado e desengonçado; Olivia Wilde está perfeita como a mulher desesperada por uma mudança de vida (a atriz e diretora estava muito insegura como atriz e a princípio queria outra atriz para o papel); Edward Norton está ótimo como esse sujeito seguro de si e que não se importa em falar de detalhes da vida sexual do casal e de suas próprias preferências sexuais. Mas Penélope, que atriz, que papel. Talvez seu melhor no cinema internacional. Só na Espanha, com Bigas Luna e Pedro Almodóvar, chegou a se apresentar tão brilhante.

Uma alegria poder ver O CONVITE e sentir algo parecido com o que sentíamos no auge da carreira de Woody Allen. Além disso, o filme fala a um público 40+, que hoje é também um frequentador assíduo das salas de cinema.

+ TRÊS FILMES

VELHOS BANDIDOS

Fernanda Montenegro escolheu trabalhar com seus familiares em seus últimos projetos de atriz. Basta lembrar de sua pequena participação em AINDA ESTOU AQUI, estrelado pela filha Fernanda Torres, de VITÓRIA, dirigido pelo genro Andrucha Waddington, e agora é a vez de ser dirigida pelo filho, Claudio Torres, que não é o mais talentoso da Conspiração Filmes, mas que me faz lembrar um bom trabalho seu, REDENTOR (2004). Sua especialidade é filmes mais leves, como A MULHER INVISÍVEL (2009) e O HOMEM DO FUTURO (2011). Em VELHOS BANDIDOS (2026), agora com 96 anos, contracena com outros atores veteranos, como Ary Fontoura, Vera Fischer, Reginaldo Faria e Tony Tornado. No campo dos atores jovens, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta são dois ladrões de casas que planejam fazer um roubo para mudar de vida, irem para Bora Bora. Eis que acabam assaltando os velhos errados, já que o casal de nonagenários tem planos mais ambiciosos e os colocam no devido lugar. Achei que faltou um melhor acerto na comédia. Foram poucas as vezes que fui fisgado pelo humor. Me pareceu um filme muito travado.

SEX

Eu adoro filmes falados, muito falados. Principalmente quando o texto é muito bem escrito. E podemos dizer isso do texto dos filmes de Dag Johan Haugerud, diretor da trilogia SEX, LOVE e DREAMS, todos de 2024, a chamada trilogia de Oslo. É de dar gosto acompanhar os dilemas de seus personagens, e o modo como o diretor não passa a impressão de estar se repetindo ao falar do mesmo assunto. Até porque o que temos em SEX, o primeiro dos três filmes da trilogia, é um aprofundamento gradual de uma questão que é apresentada já nos primeiros minutos na conversa entre dois amigos que trabalham como limpadores de chaminés: um deles teve, pela primeira vez na vida, uma experiência homossexual com um cliente. Aquilo chocou o amigo e passou a fazer um estrago grande para a família desse homem, que, afinal, fez questão de contar o ocorrido para a esposa, que não reagiu de maneira simpática a essa aventura de seu cônjuge. Enquanto isso, o outro amigo também vai percebendo, principalmente depois de sonhos recorrentes com David Bowie, que há algo preso em sua vida, algo que ele não sabe muito bem explicar. Gosto de como o filme se mantém muito envolvente até o fim de suas mais de duas horas de longas DRs e conversas que vão fundo em questões sobre desejo, ação, sexo e traição. Haviam dito que SEX era inferior a DREAMS, e de fato é; mas não fica tão distante assim, até por terem um tom diferente, sendo um mais masculino e outro mais feminino, mas ambos dispostos a explorar as inquietações de seus personagens.

NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS

Numa dessas zapeadas pelo cardápio dos streamings que tenho disponíveis junto com a Giselle, damos de cara com esta comédia inspirada em contos de Nelson Rodrigues que eu havia visto e curtido em 2015. NINGUÉM AMA NINGUÉM POR MAIS DE DOIS ANOS (2015) pareceu uma boa e leve pedida para um fim de noite. E de fato o filme passa rapidinho e todas as histórias são interessantes e atraentes, trazendo um pouco de volta o tom das adaptações do querido dramaturgo que tanto fizeram a festa nas décadas de 1970 e 80. E com direito a uma boa dose de sensualidade e humor, além da crítica social ácida e muito própria de Nelson. O diretor Clovis Mello tem uma filmografia muito curta. Além deste longa, ele só faria mais um outro (espírita). Quem quiser ler meu texto publicado em novembro de 2015, só clicar AQUI.

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