segunda-feira, janeiro 22, 2018

O DIA SEGUINTE (Geu-hu)

A marca de um grande autor muitas vezes é claramente vista em suas repetições. E por repetições, no caso de Hong Sang-soo, não quer dizer exatamente repetições de temas, mas o uso de repetições dentro da própria estrutura de seus filmes. Por causa disso, quem for ver O DIA SEGUINTE (2017) já um tanto acostumado com seus jogos em filmes como A VISITANTE FRANCESA (2012) e a obra-prima CERTO AGORA, ERRADO ANTES (2015) pode ter uma surpresa com este novo trabalho, exibido em Cannes-2017.

O DIA SEGUINTE é uma espécie de lado B de NA PRAIA À NOITE SOZINHA (2017), e representa um momento muito particular em que a vida privada e a vida pública do cineasta se misturam, após a exposição do caso que ele teve com a atriz Kim Min-hee, sendo ele então casado. O DIA SEGUINTE segue uma posição de lavagem de roupa suja interior ainda mais explícita, já que o protagonista aqui é um homem, o crítico Kim Bongwan (Hae-hyo Kwon, ator bastante conhecido de outros trabalhos de Hong Sang-soo).

Em certo sentido, lembra o que Woody Allen fez quando dirigiu MARIDOS E ESPOSAS em 1992, como que para expurgar a crise no relacionamento com Mia Farrow, crise que se reflete de maneira grave até os dias de hoje. No caso de O DIA SEGUINTE, a situação complicada do homem casado cuja esposa descobre que ele tem uma amante, é explorada com o uso da personagem de Kim Min-hee sendo uma espécie de consciência do personagem, inclusive levando em consideração o fato de ela ser uma pessoa religiosa e tendo crenças bastante firmes.

Diferente de outros filmes anteriores, que exploravam de maneira mais enfática a necessidade de ser amado e elogiado e certa superficialidade das pessoas, aqui temos a aposta em diálogos mais profundos, como aquele em que Kim Min-hee diz se sentir como uma coadjuvante em sua própria vida e de uma maior consciência da própria finitude no mundo, sem no entanto se sentir mal por isso.

Não faltam, porém, vários momentos em que os personagens se embriagam para fugir de seus problemas ou para conversar de maneira mais franca com seu parceiro de copo. Além de tudo, há também o jogo de flertes que também é característico do cinema de Sang-soo, mas que aqui se manifesta de maneira mais sutil nas cenas do patrão e da nova empregada. O homem, mais uma vez, é visto como um ser patético, covarde e um tanto arrogante.

No aspecto formal, é um dos filmes mais prazerosos do diretor, com um uso lindo do preto e branco e de um scope que funciona perfeitamente para colocar os personagens em uma mesa de bar. Se for para enfatizar algo dos diálogos, há uma maior aproximação e um movimento pendular da câmera para cada personagem. Sempre uma satisfação gigante ver cada filme novo deste que já é um dos melhores cineastas em atividade no mundo.

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