sábado, junho 20, 2015

FERNANDA TAKAI NA CAIXA CULTURAL – FORTALEZA, 19 DE JUNHO DE 2015



É sempre muito gratificante quando temos a chance de ver um espetáculo de um artista que a gente admira muito. Aliás, gratificante não é um adjetivo suficientemente bom para descrever a experiência que é assistir a Fernanda Takai nesta linda turnê que está fazendo do álbum Na Medida do Impossível (2014), o primeiro solo dela que traz também composições próprias, misturadas a canções que marcaram sua vida em diversos momentos.

E é desse amor que ela sente por essas canções e o prazer de escolhê-las e cantar tão docemente que faz com que sejamos contagiados e extremamente gratos por esse trabalho. O trabalho de Fernanda é puro amor. As canções supostamente bregas são abraçadas com um respeito adorável e com arranjos sofisticados, especiais.

E é desse disco basicamente que se constrói o show que tive o prazer de ver na aconchegante e acolhedora casa de show da Caixa Cultural. O espaço é pequeno e faz a gente se sentir mais próximo da artista, que trouxe consigo, do Pato Fu, o grande tecladista Lulu Camargo.

Paradoxalmente o show começa com uma canção chamada "Partida", uma das mais belas do novo disco. Ela surge vestida de preto e utilizando um tecido estilo samurai em um palco decorado de maneira tão bela que é muito difícil de descrever em palavras. Depois dos primeiros acordes, ouvimos uma canção que lembra as melhores composições melancólicas do Pato Fu. Difícil não ficar arrepiado.

Depois veio uma canção que me lembrou muito meu pai, que gostava de Benito Di Paula, "Como dizia o mestre", sobre os homens metidos a valentões que choram quando perdem a mulher. Segue-se "Doce companhia", a canção de abertura do álbum; e uma composição em parceria com Marcelo Bonfá, "De um jeito ou de outro", cuja batida agradável Bonfá deixou a sua marca.

Chega o momento de uma canção de Onde brilhem os olhos seus (2007), "Diz que fui por aí". Linda demais. O coração já começa a apertar. Depois veio uma faixa maravilhosa do repertório do Pato Fu: "Nada pra mim", que ela fez questão de deixar clara que a canção fora escrita pelo John, seu marido, para ela, embora muita gente a associe à Ana Carolina. Mas o jeito que ela conta isso é de uma simpatia impressionante.

Muitas emoções ainda viriam, como "Mon amour, meu bem, ma femme", canção que curiosamente eu não gostava, mas que achei simplesmente fabulosa nesta versão meio latina. Ficou uma delícia. De encher o peito de alegria. Ela conversa com a plateia, contando de quando cantou esta música no carnaval de Recife e o Reginaldo Rossi estava presente, ainda vivo.

Depois de "Seu tipo", parceria com a Pitty, chega a vez de uma das surpresas da noite: "Fui eu", do José Augusto. É aquele tipo de canção que muita gente teria vergonha de ouvir ou cantar, mas que no fundo todo mundo gosta. Canção perfeita para um karaokê. E que ficou muito bem na voz dela. Como não consta em nenhum dos discos, ficamos na expectativa por um registro ao vivo com ela incluída.

Fernanda segue encantando e pede licença para cantar a faixa mais polêmica do disco, a canção católica "Amar como Jesus amou", do Pe. Zezinho. Qual não foi a minha surpresa quando eu me vi chorando justamente na hora desta canção, que também era daquelas que eu tinha birra quando criança e passei a gostar graças a ela. Talvez o que me passa na letra é um misto de tristeza com alegria, já que eu não consigo ver Jesus como um sujeito feliz. Então, é como uma canção feita para as crianças mesmo, com algo de uma ingenuidade perdida na nossa fase adulta.

Eu ainda estava me recuperando dessa canção quando ela vem com uma que eu considero uma verdadeira facada no coração: "Insensatez", do primeiro disco. Talvez seja uma das mais belas canções do mundo. E ela responde à altura com a doçura que lhe é característica. Também do primeiro disco, outra que me pegou de cheio, "Com açúcar, com afeto", que é canção narrativa, com final emocionante como os melhores melodramas. Senti por instantes que meu queixo estava tremendo ao fim da canção, mas não posso ficar contando essas coisas pra ninguém.

Depois de duas do disco novo, "Quase desatento" e "A pobreza" (com um arranjo estilo western spaghetti), ouvimos "Ritmo da chuva", que a gente pode ouvir em disco numa dessas coletâneas de banquinho e violão – ela canta com o Rodrigo Amarante. Ela convidou a plateia para fazer um solo de assobio. Que simpatia. Depois encerra com a linda “Pra curar essa dor”, versão de uma música do George Michael.

No bis, "Liz", do Trio Ternura, que eu preciso ouvir mais vezes (que canção linda); uma versão de "I don’t want to talk about it", do Rod Stewart, e fecha com "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", naquele andamento rapidinho do primeiro disco, pra sacudir a tristeza. Se a canção é triste, a ideia no show é outra: entender que devemos celebrar essas pequenas alegrias. Que na verdade são grandes, quando estamos tão acostumados a situações ruins ou coisas do tipo.

É como se Fernanda Takai viesse como uma emissária da alegria, com seu jeito tão seguro e ao mesmo tempo frágil de cantar. Um doce de pessoa que também se manifestou após o show, quando recebeu a todos que queriam tirar fotos com ela e autografar os discos ou lembrancinhas vendidas no stand. Eu, como já levei meus disquinhos, trouxe-os para torná-los, de certa forma, ainda mais valiosos.

Perguntei a ela sobre o show do Pato Fu em Fortaleza, que infelizmente teve que ser cancelado, mas ela disse que há previsão para janeiro. Quero vê-la também no Pato Fu (saudades imensas dos shows deles), uma banda do coração que merecia um espaço maior e está com um disco novo sensacional. E só pra deixar registrado: um dos melhores momentos da minha vida foi num show do Pato Fu, na turnê do Isopor (1999), em 2000.

Meus sinceros agradecimentos às companheiras de show Natércia Marreiro e Erika Bataglia.

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