sexta-feira, dezembro 31, 2010

TOP 20 2010 E O BALANÇO DO ANO



1. TROPA DE ELITE 2, de José Padilha
2. A FITA BRANCA, de Michael Haneke
3. À PROVA DE MORTE, de Quentin Tarantino
4. DEIXA ELA ENTRAR, de Tomas Alfredson
5. VINCERE, de Marco Bellocchio



6. A CAIXA, de Richard Kelly
7. FAÇA-ME FELIZ, de Emmanuel Mouret
8. UMA NOITE EM 67, de Ricardo Calil e Renato Terra
9. AS MELHORES COISAS DO MUNDO, de Laís Bodanzky
10. SALT, de Phillip Noyce



11. A REDE SOCIAL, de David Fincher
12. O LIVRO DE ELI, de Albert e Allen Hughes
13. A ESTRADA, de John Hillcoat
14. CORAÇÃO LOUCO, de Scott Cooper
15. O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS, de Lírio Ferreira



16. O ESCRITOR FANTASMA, de Roman Polanski
17. O FIM DA ESCURIDÃO, de Martin Campbell
18. UTOPIA E BARBÁRIE, de Silvio Tendler
19. MINHAS MÃES E MEU PAI, de Lisa Cholodenko
20. PONYO - UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR, de Hayao Miyazaki

Foi um ano mais estranho do que eu imaginava. E nem me refiro às coisas da vida, mas ao cinema mesmo. Em que outro ano filmes de Clint Eastwood, Martin Scorsese e Woody Allen seriam preteridos numa lista final por mim? Sem falar em Shyamalan, mas aí já estamos entrando num terreno mais complicado.

E se foi um ano de menos filmes e falta de tempo, paradoxalmente foi um ano em que as viagens ganharam mais destaque, inclusive, aqui no blog. O inesquecível e emocionante show do Paul McCartney, as duas viagens maravilhosas e o encontro com vários amigos em São Paulo, a aventura que foi ir para Recife de carro num fim de semana para um festival de rock e mais uma ida para Jericoacoara com os amigos daqui, tudo foi devidamente registrado. E isso me deu muito prazer. De vez em quando eu releio esses relatos, depois de passados anos do acontecido e é quase como viajar no tempo. Foi um ano também de valorização maior das amizades. Não sei o que seria de mim sem meus amigos.

Mas falemos dos filmes escolhidos. O critério para a escolha dos filmes é a mesma de todos os anos. É simples: são filmes vistos de 01 de janeiro a 31 de dezembro de 2010 apenas no cinema. Os vistos em casa têm que rivalizar com filmes antigos numa lista à parte, numa disputa nem sempre justa, mas prefiro assim. Se eu fosse levar em consideração a data de lançamento em São Paulo, estaria perdido. Por isso na lista tem um filme que entrou no circuito brasileiro no ano passado, mas que só chegou aqui no começo deste ano (DEIXA ELA ENTRAR); e tem filme que eu vi numa mostra de cinema francês e que acabou não entrando no circuito (FAÇA-ME FELIZ). Por outro lado, teve um filme que teria boas chances de estar aí, mas só porque eu já tinha visto em casa em 2009 e eu não revi no cinema, não rolou de entrar. Refiro-me a GUERRA AO TERROR.

2010 foi um ano feliz para o cinema brasileiro. Finalmente um filme conseguiu bater o recorde de maior bilheteria, ultrapassando DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS. E que bom que foi um puta filme, pra mim o melhor do ano: TROPA DE ELITE 2, o retorno do Capitão Nascimento numa obra que calou a boca dos detratores do primeiro filme. E em comparação com a lista do ano passado, que só tinha um único representante nacional, desta vez tem cinco! Da onda de documentários, três deles me conquistaram: UMA NOITE EM 67, O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS e UTOPIA E BARBÁRIE, cada um à sua maneira e com propostas totalmente distintas. E fechando o bloco nacional, tivemos a felicidade de ver uma obra que finalmente respeita o jovem: AS MELHORES COISAS DO MUNDO.

Da Europa, pudemos testemunhar mais uma vez o grande talento de Marco Bellocchio com outro projeto que trata de fatos históricos: VINCERE. O vencedor da Palma de Ouro em Cannes, A FITA BRANCA, também foi um dos grandes destaques do ano. Coincidentemente é também um filme que faz refletir sobre a História. No Festival Varilux de Cinema Francês finalmente tirei a cisma que eu tinha dos franceses como comediantes. FAÇA-ME FELIZ é simplesmente genial. E seu diretor, Emmanuel Mouret, é provavelmente o grande nome da comédia mundial. DEIXA ELA ENTRAR é uma história de vampiros como há muito não se via. De uma beleza rara. E finalmente, temos O ESCRITOR FANTASMA, que nem é bem um caso de filme europeu, mas internacional, como praticamente todos os de Roman Polanski, o mais cosmopolita dos cineastas.

Do cinema americano, no meio de tanto lixo lançado pelas distribuidoras, salvaram-se algumas pérolas. Os favoritos da casa foram: A CAIXA, um filme de terror que resgata o prazer de ver um ótimo episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO; SALT, com Angelina Jolie chutando traseiros num dos thrillers mais divertidos do ano; A REDE SOCIAL, com Fincher mais sóbrio e contando a história por trás do Facebook, num filme que ainda vai dar muito o que falar; duas produções que lidam com um cenário apocalíptico de maneira inspirada: O LIVRO DE ELI e A ESTRADA; um comovente retrato de um cantor em fim de carreira com Jeff Bridges em estado de graça – CORAÇÃO LOUCO; Mel Gibson de volta com O FIM DA ESCURIDÃO; e um belo exemplar do cinema indie americano: MINHAS MÃES E MEU PAI. E antes que eu me esqueça: finalmente alguma distribuidora lançou nos cinemas À PROVA DE MORTE. Foi com três anos de atraso e não foi lá uma grande distribuição - eu ainda por cima vi numa cópia digital tosca -, mas pelo menos está valendo para constar na lista. Porque o filme merece!

Fechando o balanço, mais uma vez fomos agraciados com a oportunidade de ver uma obra de Hayao Miyazaki no cinema, com o belo conto infantil PONYO – UMA AMIZADE QUE VEIO DO MAR. Foi feito para os pequenos, mas suspeito que os adultos tenham gostado ainda mais, com suas imagens delirantes como um sonho bom.

Os piores

Até que este ano eu fui um pouco mais criterioso. Ou então tive sorte de não ver tantas tranqueiras. Mas foi uma pena eu não ter gostado do filme do Stallone, sujeito de quem eu gosto bastante. Os demais foram odiados sem decepção ou culpa nenhuma mesmo. Por ordem de "ruindade" e sem precisar destacar os nomes de seus diretores:

1. PRECIOSA - UMA HISTÓRIA DE ESPERANÇA
2. FEDERAL
3. SHERLOCK HOLMES
4. OS MERCENÁRIOS
5. CONTATOS DE 4º GRAU

As séries

2010 foi um ano bem hardcore para mim. Nunca trabalhei tanto. Nem dei continuidade a séries que queria e que vi em 2009 eu fiz – refiro-me às ótimas MAD MEN e BREAKING BAD. Também não finalizei outras temporadas de séries queridas, como HOUSE, FAMÍLIA SOPRANO e SEINFELD. Isso em se tratando de séries que estão em andamento ou já acabaram.

A novidade de 2010 esteve na opção por ver séries brasileiras que me despertaram o interesse, como AS CARIOCAS e AFINAL, O QUE QUEREM AS MULHERES?. Outras novidades tentadoras chegaram por conta dos melhores canais adultos americanos da atualidade (AMC e HBO): THE WALKING DEAD e BOARDWALK EMPIRE.

Das séries que eu já acompanho, a minha favorita no ano foi ENTOURAGE. Pena que foi uma temporada bem curtinha. Eu me delicio com as aventuras desses personagens. O mesmo não posso dizer de THE OFFICE, que tem perdido cada vez mais o rumo, e TRUE BLOOD, que se transformou num verdadeiro lixo neste terceiro ano. Já BIG BANG THEORY voltou à boa forma e se impõe como a série mais engraçada da atualidade. DEXTER conseguiu se manter bem neste quinto ano, assim como IN TREATMENT, que ganhou sobrevida, apesar de ter cara de última temporada.

E falando em última temporada, já estava me esquecendo de LOST, uma das séries mais importantes desta década e que contribuiu muito para a era dos downloads. Se a última temporada não foi tão boa quanto o início de tudo, pelo menos a season finale foi digna. Valeu.

Top 5 "Musas do Ano"

Foi quase um repeteco do ano passado: nenhuma brasileira na lista, duas musas de Tarantino e uma estrela francesa.

1. Mary Elizabeth Wisted (À PROVA DE MORTE)
2. Sydney Poitier (À PROVA DE MORTE)
3. Demi Moore (AMOR POR CONTRATO)
4. Marion Cotillard (NINE)
5. Abbie Cornish (BRILHO DE UMA PAIXÃO)

Melhores vistos em DVD, DIVX ou VHS

Apesar de não ter sido exatamente um ano em que eu tive tempo para ver os filmes que queria, até que foi doloroso ter cortado alguns títulos para enxugar e ficar essa listinha de apenas vinte preciosidades, que só foram crescendo na memória com o passar do tempo. A novidade é a presença de um filme pornô contemporâneo, que eu fiz questão que fizesse parte da lista. Em ordem alfabética:

A GAROTA DE TRIESTE, de Pasquale Festa Campanile
A MULHER PÚBLICA, de Andrzej Zulawski
A NOITE DO DEMÔNIO, de Jacques Tourneur
A VIAGEM DO BALÃO VERMELHO, de Hou Hsio-hsien
AS FILHAS DO FOGO, de Walter Hugo Khouri
AS SAFADAS, de Carlos Reichenbach, Inácio Araújo e Antônio Melliande
CARTA DE UMA DESCONHECIDA, de Max Ophüls
DIRIGIDO POR JOHN FORD, de Peter Bogdanovich
DO MUNDO NADA SE LEVA, de Frank Capra
FÉRIAS FRUSTRADAS DE VERÃO, de Greg Mottola
GRADIVA, de Alain Robbe-Grillet
LES AMOURS D'ASTRÉE ET DE CÉLADON, de Eric Rohmer
O AMANTE DE KATHY TIPPEL, de Paul Verhoeven
O APOCALIPSE DE UM CINEASTA, de Fax Barh e George Hickenlooper
O OLHO MÁGICO DO AMOR, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins
ONDA NOVA, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins
PAIXÃO E SOMBRAS, de Walter Hugo Khouri
REVEALING SASHA, de Viv Thomas
REBUILD OF EVANGELION 2.22 - YOU CAN (NOT) ADVANCE, de Masayuki e Kazuya Tsurami
SEM SAÍDA, de James Watkins

Revisões

É como eu falei no ano passado. A cada ano que se passa, aumentam os filmes revistos. Seja para seguir uma revisão da obra de um diretor específico, seja para homenagear algum outro, seja para se preparar para um remake ou continuação, os filmes revistos totalizaram 18. Três a mais do que no ano passado. Em ordem mais ou menos cronológica de revisão.

O TERCEIRO TIRO, de Alfred Hitchcock
MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS, de Pedro Almodóvar
CIDADÃO KANE, de Orson Welles
A HORA DO PESADELO, de Wes Craven
CONTOS DE NOVA YORK, de Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen
MINHA VIDA, de Bruce Joel Rubin
CAMERA, de David Cronenberg
ATA-ME!, de Pedro Almodóvar
NA HORA DA ZONA MORTA, de David Cronenberg
HOT SPOT – UM LUGAR MUITO QUENTE, de Dennis Hopper
O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III, de Francis Ford Coppola
DE SALTO ALTO, de Pedro Almodóvar
A BELA DA TARDE, de Luis Buñuel
JORNADA NAS ESTRELAS II – A IRA DE KHAN, de Nicholas Meyer
A ESTRELA NUA, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins
A MOSCA, de David Cronenberg
KIKA, de Pedro Almodóvar
GÊMEOS - MÓRBIDA SEMELHANÇA, de David Cronenberg

Feliz ano novo!

E encerro este post de fim de ano desejando um feliz 2011 para todos nós. Que seja um ano de grandes realizações, muito amor, prosperidade, saúde e muitas surpresas bem-vindas! Até lá!

quinta-feira, dezembro 30, 2010

BELLE TOUJOURS – SEMPRE BELA (Belle Toujours)



Pelo menos uma coisa muito boa este BELLE TOUJOURS – SEMPRE BELA (2006) provocou em mim: uma vontade imediata de rever o célebre A BELA DA TARDE (1967), de Luis Buñuel. A revisão da obra há alguns meses foi recebida com entusiasmo por mim. Entendi melhor o filme. Ou pelo menos acho que entendi – a caixinha misteriosa é feita para não ser entendida mesmo, creio eu. Pois bem. Eis que, ao ver BELLE TOUJOURS encabeçando a lista de favoritos do Tiago Superoito e percebendo que as chances de esse filme chegar aos cinemas de Fortaleza eram mínimas, resolvi ver logo em casa mesmo na noite de natal.

Conheço pouco do cinema de Manoel de Oliveira. Só havia visto antes o excelente UM FILME FALADO (2003) e um filme que me confundiu talvez por eu não ser católico e não me identificar com a personagem – ESPELHO MÁGICO (2005). Ainda assim é um filme que tem o seu encanto. O mesmo eu poderia dizer de BELLE TOUJOURS, mas a minha queixa com o filme é o fato de ele passar a impressão de tentar explicar o que não precisava ser explicado. De mexer com algo que já era perfeito e completo, por mais sutil e respeitador da obra original que Oliveira seja.

Michel Piccoli está tão idoso e com o rosto tão inchado que mal consegue expressar o cinismo de Husson, seu personagem no original de Buñuel. Ele é o único ator do filme original que volta para essa continuação/homenagem. Catherine Deneuve não aceitou reviver Severine. E algo me diz que ela tomou a decisão acertada. A substituta até que funciona, já que, durante o jantar, ela diz ser outra mulher, que deseja esquecer o passado. BELLE TOUJOURS é um filme sobre a obsessão de um homem por uma mulher, mas também do quanto o sadismo e a perversidade não necessariamente morrem com a idade.

Interessante a extrema falta de pressa do diretor para contar o seu filme. A imagem de Paris à noite, por exemplo, é fixada na tela, como se o diretor quisesse que nós apreciássemos cada detalhe, como se estivéssemos dentro de um museu de arte. E o jantar é outro exemplo disso: os dois comendo em silêncio. Os atores mais conhecidos da filmografia de Oliveira aparecem no bar, onde o agora alcoólatra Husson pede avidamente as suas doses duplas de uísque. Estão lá Ricardo Trêpa, como o garçom, e Leonor Baldaque, como uma das prostitutas.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

A LOUCURA DO VAMPIRO (Le Frisson des Vampires / The Shiver of the Vampires)



O ano de 2010 foi cruel para o cinema. Muitos cineastas de renome foram levados para o outro lado. Eric Rohmer, Blake Edwards, Mario Monicelli, Claude Chabrol, Dennis Hopper, Satoshi Kon, Arthur Penn, Irvin Kershner e, mais recentemente, e pouco noticiado pela mídia, até por ser um cineasta mais marginal, o mestre dos filmes de vampiras Jean Rollin. Tendo visto poucos filmes de Rollin – até então, apenas FASCINAÇÃO (1979) e LÁBIOS DE SANGUE (1975) –, aproveitei a listinha publicada por quem conhece o trabalho do homem (Leandro Caraça) para escolher uma obra, a fim de fazer uma espécie de homenagem, assim como fiz com Rohmer, Chabrol, Penn, Hopper e Kon. Peço desculpas aos demais por não ter feito o mesmo.

A LOUCURA DO VAMPIRO (1971) é um dos mais incensados filmes de Rollin. Considerados por muitos como o seu melhor trabalho, entre tantos seguindo a mesma temática. Seus filmes têm um grande apelo popular por juntar elementos que chamam a atenção do público: mulheres nuas, vampiros (principalmente vampiras, na verdade), sangue e cenários góticos.

No caso de A LOUCURA DO VAMPIRO, a trama se passa nos anos 1970, mas há um castelo gótico decorado com caveiras e outros objetos sinistros, o que faz com que ele adquira uma atmosfera atemporal. No lugar, não há energia elétrica e a iluminação é natural. Há uma cena em que a câmera dá um giro de 360 graus para nos mostrar a decoração do lugar.

Na trama, dois jovens recém-casados vão parar no castelo dos tios da moça (Sandra Julien). Assim que eles chegam, recebem a notícia de que os tios dela estão mortos. Mesmo assim, eles são convidados a ficarem. Duas das empregadas da casa – as mesmas que costumam sair à noite quase nuas, vestindo apenas roupas transparentes – pedem para que eles fiquem. O casal fica, mas a jovem prefere não dormir na mesma cama do noivo. Assim que ele sai do quarto, ela recebe uma companhia bem estranha: uma vampira que a hipnotiza e suga um pouco de seu sangue. Os tais tios dados como mortos aparecem. São dois vampiros que preferem não contaminar muitos com suas maldições e por isso vivem matando suas vítimas numa espécie de ritual de magia negra.

Ainda que em A LOUCURA DO VAMPIRO haja uma trama bem conduzida, a história não importa muito, como em geral ocorre nos filmes de Rollin, que se destacam mais pelo erotismo, pelos cenários, pela atmosfera de mistério e principalmente pelas imagens. Um dos momentos mais memoráveis e imagéticos do filme, por exemplo, é o que mostra Isolde, a vampira, saindo de dentro de um relógio. Destaque também para a trilha sonora rock da banda Acanthus, que em alguns momentos faz lembrar os filmes da era de ouro de Dario Argento.

terça-feira, dezembro 28, 2010

AMOR POR CONTRATO (The Joneses)



Um típico exemplo de filme que começa bem, mas que vai deslizando até cair no lugar comum e ter uma conclusão totalmente sem graça. Assim é este AMOR POR CONTRATO (2010), que parte de um ótimo argumento e ainda conta com a presença deslumbrante de Demi Moore (aliás, o que é que esta mulher faz para continuar tão linda?). E há que se dar o devido crédito também a David Duchoviny, que conseguiu sair da pele do agente Fox Mulder (ARQUIVO X), fez sucesso na televisão com outra série (CALIFORNICATION), mostrando versatilidade também para comédias e de vez em quando se sai bem no cinema.

AMOR POR CONTRATO é filme de um diretor estreante (Derrick Borte), que já errou a mão logo em seu primeiro trabalho. E como ele também é roteirista do filme, podemos pôr a culpa de todas as falhas nele. Sua obra de estreia traz uma família bem diferente. Para quem entra “virgem” no cinema, isto é, sem ter visto o trailer nem ter lido nada a respeito, deve a princípio estranhar o comportamento da família em sua intimidade. Pra começar, o marido não dorme na mesma cama da esposa. Se bem que isso é bem comum. O que não é comum é a filha adolescente (Amber Heard) entrar nua no quarto do "pai" para seduzi-lo. Mas a essa altura até o espectador mais avoado deve estar sabendo que aquela família é fake.

A função deles é vender. Não exatamente objetos, mas um estilo de vida. Assim, eles se exibem como uma família bela e perfeita, com roupas, perfumes, bebidas, tacos de golfe, aparelhos celulares etc, a fim de que todos naquela cidade fiquem seduzidos a ponto de comprarem tudo que eles endossam. O filme até daria um belo estudo de marketing ou do consumismo americano, se não tivesse um final capenga. Infelizmente, o diretor erra a mão ao apelar, sem sucesso, para clichês de comédias românticas. Ou tentou uma variação da fórmula que não funcionou.

Entre os coadjuvantes, destaque para o personagem de Gary Cole, que já havia feito um papel meio loser na série ENTOURAGE.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

O ASSASSINO EM MIM (The Killer inside Me)



A essa altura muita gente, até mesmo aqueles que não viram O ASSASSINO EM MIM (2010), já devem ter ouvido falar ou lido a respeito da polêmica sequência em que Casey Affleck espanca Jessica Alba de tal maneira que seu rosto fica parecendo uma bola de carne. E por mais que se esteja preparado, é difícil não se sentir intoxicado. Pode-se dizer que esse é um dos momentos em que o cinema contemporâneo se mostrou mais violento. Segundo o diretor Michael Winterbottom, a intenção foi traduzir da maneira mais próxima possível para as telas o romance de Jim Thompson, escrito na década de 50.

Outro elemento perturbador é o fato de Lou Ford, o xerife psicopata de Casey Affleck, narrar em voice-over, numa boa utilização do recurso, pois o filme a princípio não entrega o caráter do personagem, o que gera um clima de dúvida sobre suas reais intenções. Aliás, se o sujeito é mesmo um psicopata fica bem difícil entender a sua mente, por mais que o filme tente pôr um pouco de lógica na trama.

E a trama tem os seus mistérios, lembrando muito o ciclo do film noir dos anos 40 e 50, em que muitos eventos ficam sem solução. É o caso de O ASSASSINO EM MIM, que deve muito de seu valor à ótima interpretação de Casey Affleck. Curiosamente, seu personagem lembra um outro de mesmo sobrenome que ele interpretou poucos anos atrás: em O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD. Trata-se de um personagem que aparentemente não faz mal a uma mosca, mas que surpreende no que é capaz. E o mais interessante disso tudo é que a gente acredita quando ele diz que ama de verdade a personagem de Jessica Alba. O que só aumenta a complexidade da mente do indivíduo. A dor que sentimos, por exemplo, é nossa ou é também dele?

A trama ainda conta com outros grandes nomes de importância e destaque, como Kate Hudson, a noiva que quer saber por que o rapaz anda se comportando tão estranhamente ultimamente. Elias Koteas é o sujeito que mais suspeita da culpa de Ford. Outros personagens, como os de Ned Beatty, Tom Bower e Simon Baker só ajudam a tornar o enredo mais complicado. O que não deixa de ser uma de suas qualidades. Faltou pouco para ser um grande filme.

sábado, dezembro 25, 2010

EM TERAPIA – A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (In Treatment – The Complete Third Season)



Se eu fiquei desapontado com a insossa segunda temporada de IN TREATMENT (coloco o título nacional na parte superior porque assim a nomearam na HBO brasileira, mas prefiro tratar a série pelo título original), esta terceira (2010) me agradou bem mais. Ter a presença radiante de Debra Winger, no papel de Frances, uma das pacientes do Dr. Paul Weston (Gabriel Byrne), já é um baita de um incentivo para eu continuar vendo a série, que tem diminuído cada vez mais o número de episódios por temporada – a primeira teve 43, a segunda, 35 e esta terceira, apenas 28.

O primeiro episódio apresenta Sunil, um indiano que inicia o tratamento meio que empurrado pelo seu filho e sua nora. A princípio, eu não gostei muito do personagem, mas aos poucos ele se torna o mais importante da temporada. Até porque ele é completamente diferente de qualquer outro paciente que já passou pelo consultório de Paul. Cheio de mistérios, é um homem que a cada sessão vai se mostrando cada vez mais interessante. Suas sessões são as que mais têm pausas e silêncios.

Já Frances é o oposto: uma personagem que começa muito bem, mas que vai perdendo um pouco da força no decorrer da temporada. Nos primeiros episódios Debra Winger parecia dar mais de si na interpretação. E como ela ainda continua bela depois dos cinquenta, hein. Frances é uma atriz que está tendo basicamente dois problemas: está esquecendo as falas durante a peça e tem uma irmã que está com câncer em fase terminal. Some-se a isso o fato de ser desprezada pela filha adolescente.

O terceiro paciente é novamente um garoto. Jesse é um garoto gay que já está há algum tempo falando de seus problemas para Paul. São basicamente problemas ligados aos pais e a sua sexualidade. Nada assim de muito especial, mas a interpretação de Dane DeHaan no papel do garoto faz a diferença. As sessões são bem intensas. Até porque o garoto não é nada calmo.

Quanto a Paul, ele deixa de visitar Gina e procura outra terapeuta, Adele (Amy Ryan). Ainda bem, pois eu não aguentava mais a cara de coruja da Dianne Wiest. E se na primeira e na segunda temporadas havia duas pacientes apaixonadas por Paul, agora é a vez de ele provar desse fel. Mas isso é o menor dos problemas de Paul, que está com suspeita de estar com o Mal de Parkinson e cada vez mais infeliz e sozinho, ainda que esteja com uma namorada.

Paul é mais uma vez o protagonista trágico. Um homem que chegou aos 57 anos e está completamente perdido. Desencantado cada vez mais com o seu trabalho e questionando a própria capacidade de ajudar as pessoas, ele se encontra num inferno astral que parece não ter fim. Um dos recursos que essa temporada mais explicitou para tornar alguns momentos mais intensos foi o uso do close-up ainda mais acentuado, com o rosto de Paul preenchendo toda a tela. Isso acontece mais nos episódios com Sunil. Como é possivelmente a despedida de Gabriel Byrne para a série, ele deu mais de si, principalmente nos episódios finais. Faltaram lágrimas, mas deu pra sentir algo como um buraco no coração em vários momentos. Parabéns a Paris Barclay e sua equipe. Eles conseguiram manter a série, mesmo com a saída de Rodrigo Garcia.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

72 HORAS (The Next Three Days)



E Paul Haggis está de volta à cadeira de diretor. Já não mais tão odiado como na época de CRASH – NO LIMITE (2005), já que seu drama de pós-guerra do Iraque NO VALE DAS SOMBRAS (2007) até que foi bem recebido, embora não exatamente ovacionado. 72 HORAS (2010) não é um filme tão sóbrio quanto o anterior, já que Haggis não hesita em usar clichês tanto de melodramas quanto de filmes de suspense. É a história de um homem que planeja tirar a esposa da prisão. Lembra PRISON BREAK, nesse sentido, mas Russell Crowe não é nenhum supergênio, como na série, mas um homem comum, um professor de Literatura, que precisa agir como um fora da lei.

Na trama, Elizabeth Banks é Laura, uma mulher que tem um casamento feliz e um filho que a ama, embora o menino pareça, desde o início, ter mais carinho pelo pai (Russell Crowe). Ela tira fotos da família todos os dias pela manhã, para registrar o crescimento do filho. Está tudo muito bom, está tudo muito bem, até que a polícia invade a casa deles e leva a mulher à força, acusada de homicídio premeditado. Ela teria matado a própria chefe com um extintor de incêndio. Não fica claro se ela é culpada ou inocente, mas o importante é que o marido acredita em sua inocência e depois que ela tenta suicídio, ele começa a agir, procurando a ajuda, por exemplo, de um ex-presidiário (Liam Neeson), que lhe ajuda a montar seu plano, contando a ele vários detalhes de como fugir da cidade, do estado e do país, já que, segundo ele, a polícia de Pittsburgh é uma das melhores dos Estados Unidos.

O filme "ensina" outros crimes também, como fazer uma chave que sirva para qualquer fechadura ou arrombar um carro usando uma bola de tênis. Aliás, não é o filme que faz isso, onde personagem de Crowe pesquisa tudo. E não deixa de ser interessante ver esse tipo de coisa num filme hollywoodiano, por mais que no final, o filme se torne um pouco mais politicamente correto. O fato é que a televisão tem sido mais ousada do que o cinema em muitos aspectos – vide séries como BREAKING BAD e DEXTER -, mas pelo visto vai continuar sendo assim por algum tempo.

No entanto, isso não diminui o valor de 72 HORAS, que funciona muito bem, tanto no começo, dramático, com um ritmo um pouco mais lento para mostrar o estrago que a prisão fez na vida daquela família, quanto, principalmente, quando se transforma num thriller de deixar o espectador se segurando na cadeira. Um bom exemplo da tensão registrada é a cena em que o personagem de Crowe rouba traficantes de drogas para conseguir dinheiro. Sem falar em toda a expectativa de como ele vai conseguir tirar a mulher da cadeia, que também desperta muito interesse. É um filme que tem os seus problemas, mas que está acima da média dos exemplares do gênero.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

AS CARIOCAS – A TRAÍDA DA BARRA



E chega ao fim essa divertida série de Daniel Filho, que teve a boa ideia de criar, a partir do divertido texto de Sérgio Porto, uma série recheada de beldades. E que beldades! Claro que nem sempre os episódios foram lá grande coisa, mas no geral, eu diria que AS CARIOCAS (2010) foi um sucesso. E eu estava mesmo curioso para conferir o episódio da Angélica, que é a primeira que aparece nos créditos, mas seu episódio acabou sendo o último. E felizmente dirigido pelo próprio Daniel Filho, que sabe dar vitalidade aos seus trabalhos.

E mesmo a Angélica não sendo grande atriz, ela se saiu bem nesse divertido episódio sobre as desventuras de uma mulher à procura de um homem para se vingar do marido (Luciano Huck). Ela acabou de pegá-lo com outra na cama justo no dia do aniversário de casamento. Queria fazer uma surpresa. E fez mesmo. E a noite foi uma surpresa pra ela também, sem muita experiência em catar homem por aí. E Angélica caiu bem na personagem. E ainda tem uma vantagem: ela se tornou uma mulher muito mais atraente e bonita depois que casou e teve filhos.

Quanto ao episódio, nem sempre ele consegue ser engraçado o suficiente, principalmente quando se percebe que a intenção da roteirista Adriana Falcão era de causar risos. Falha do diretor, da roteirista, do elenco? Ainda assim, não deixa de ser um episódio divertido. E quando termina, com a voz já familiar do narrador se despedindo nos créditos finais, até que deixa saudade, hein. Será que vem por aí uma segunda temporada?

Segue meu ranking de favoritos, com suas respectivas protagonistas. Houve surpresas.

1. A SUICIDA DA LAPA (Deborah Secco)
2. A NOIVA DO CATETE (Alline Morais)
3. A ADÚLTERA DA URCA (Sônia Braga)
4. A ILUDIDA DE COPACABANA (Alessandra Negrini)
5. A VINGATIVA DO MÉIER (Adriana Esteves)
6. A TRAÍDA DA BARRA (Angélica)
7. A ATORMENTADA DA TIJUCA (Paola Oliveira)
8. A INTERNAUTA DA MANGUEIRA (Cíntia Rosa)
9. A DESENIBIDA DO GRAJAÚ (Grazi Massafera)
10. A INVEJOSA DE IPANEMA (Fernanda Torres)

terça-feira, dezembro 21, 2010

RED - APOSENTADOS E PERIGOSOS (Red)



Mais um filme que vi por ocasião das indicações do Globo de Ouro e também porque eu já tinha passado duas semanas sem ir ao cinema e já estava sofrendo com a abstinência. RED – APOSENTADOS E PERIGOSOS (2010) foi uma das surpresas entre as indicações. Dirigido pelo alemão Robert Schwentke, que havia assinado o bom thriller PLANO DE VOO (2005) e a história de amor com viagens no tempo TE AMAREI PARA SEMPRE (2009), o filme é uma adaptação de uma HQ de Warren Ellis, que foi relançada recentemente no Brasil pela Panini. Não li a obra de origem, mas pelo que dizem é bem mais violenta do que o filme, que opta mais pelo humor.

E pode-se dizer que RED é eficiente nesse aspecto. Bruce Willis continua sempre interpretando o mesmo personagem, mas ele é cool o suficiente para segurar o filme, ainda mais quando esse filme é cheio de coadjuvantes de luxo. Ele é um ex-agente da CIA que tem uma fixação por uma funcionária da previdência social (Mary-Louise Parker). Costuma rasgar os cheques da aposentadoria e diz que não os recebeu só como desculpa para papear com a moça pelo telefone. Ela adora ler uns romances vagabundos. E ele lê também, só para estar em sintonia com ela.

Mas como não se trata de uma comédia romântica, mas de um filme de ação com humor, as coisas mudam bastante na vida do protagonista quando sua casa é invadida por dezenas de homens. Ele mata alguns, consegue fugir são e salvo e vai parar na casa de seu interesse amoroso. A reunião da velha trupe de amigos - com os personagens de Morgan Freeman, John Malkovich e Helen Mirren - é só questão de tempo para acontecer.

O filme ainda conta com participações de Ernest Borgnine (nem sabia que ainda estava vivo) e Richard Dreyfuss (como um vilão bem estereotipado). No entanto, no fim das contas, tirando ver Helen Mirren disparando uma submetralhadora e um ensandecido John Malkovich mostrando o dedo médio para os inimigos e dizendo "old man, my ass", o filme não passa de uma diversão descartável e fácil de esquecer.

RED – APOSENTADOS E PERIGOSOS foi indicado apenas em uma categoria no Globo de Ouro: a de melhor filme (comédia).

segunda-feira, dezembro 20, 2010

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (Alice in Wonderland)



Devo confessor que foi a indicação de ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (2010) à categoria melhor filme (comédia) no Globo de Ouro que fez com que eu finalmente tomasse coragem para ver mais essa obra de Tim Burton contando mais uma vez com o amigo Johnny Depp e a esposa Helena Bonham Carter no elenco. E levando em consideração a cisma que eu venho tendo com os últimos trabalhos de Burton, até que eu gostei dessa sua visão bem própria do clássico de Lewis Carroll. Muito por causa da protagonista, que sempre me desperta interesse e simpatia: Mia Wasikowska.

E eu sou um tarado ou mais alguém achou as sequências de aumentar e diminuir o tamanho, em que a personagem fica sem roupas, de um erotismo ousado para um filme que também se dirige ao público infantil? Vai ver eu precise naturalizar a nudez em vez de erotizá-la, mas quem disse que eu quero isso? No mais, independente desse aspecto, digamos, erótico, também achei muito interessante essa brincadeira de diminuir e aumentar de tamanho e os efeitos que isso gera no quadro geral. Por exemplo, quando ela fica grande, dentro do palácio da Rainha Vermelha (Bonham Carter), não fica aquela impressão de efeito especial mal executado. E menos ainda quando ela está pequenina, a ponto de caber na cartola do Chapeleiro Louco (Depp).

Como eu tenho percebido, nos últimos anos filmes de fantasia têm me provocado sono. ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS não chegou a ser exceção, mas ver em casa me trouxe a vantagem de poder ver em "fascículos" e apreciar de maneira mais racional o filme, que tem uma beleza plástica fantástica, com o seu colorido vibrante e sua direção de arte espetacular. Há um cuidado especial para deixar cada lugar com uma tonalidade própria. Assim, o lugar habitado pelo Chapeleiro Louco tem aquela imagem mais caótica, enquanto que o palácio da Rainha Branca (Anne Hathaway) chega a ser quase monocromático de tão branco que é.

Na trama, Alice é uma moça que já está na idade de casar (para os padrões da sociedade inglesa de sua época) e que no passado costumava sonhar com pessoas e bichos muito estranhos, como um gato que sorri, por exemplo. Ao crescer, continua sendo uma garota que não é igual às outras, mas que esqueceu desse mundo fantasioso que um dia visitou. Até o dia em que ela foge de um pedido de casamento, segue um coelho de jaqueta e cai dentro de um buraco, indo parar novamente nesse mundo fantástico, povoado por criaturas estranhas. Mais tarde ela ainda descobrirá que terá que matar uma espécie de dragão, o Jabberwocky (voz de Christopher Lee). Como fazer isso, nem ela mesmo sabe. Mas até lá, outras aventuras a aguardam.

Se o filme de Tim Burton não chegou a me empolgar de verdade, pelo menos posso dizer que é o trabalho que eu mais gostei do diretor desde PLANETA DOS MACACOS (2001).

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS concorre ao Globo de Ouro nas categorias melhor filme (comédia), melhor ator (Johnny Depp) e melhor trilha sonora (Danny Elfman). Aguardemos as indicações da Academia.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

AS CARIOCAS – A SUICIDA DA LAPA



Este A SUICIDA DA LAPA (2010), dirigido pelo próprio Daniel Filho, o pai do projeto, está entre os mais saborosos episódios da série/antologia AS CARIOCAS, destacando-se dos demais por ter um aspecto mais teatral. Os únicos atores vistos em todo o episódio são Deborah Secco e Cassio Gabus Mendes, numa história de amor que lida com suicídio e morte de uma maneira tão mórbida quanto divertida.

O episódio começa com o personagem de Gabus Mendes tentando pular desajeitadamente da sacada de um edifício numa noite de natal. Até que ele é flagrado por uma moça estranha, que percebe suas intenções. Os dois começam a conversar, ela sempre sorridente lhe oferece um cigarro, ele verifica se a sua esposa não está vendo aquilo. Nota-se logo que, apesar de ser casado com uma mulher rica, mas que tem idade de ser sua mãe, ele não é feliz. Ela também diz ser casada e infeliz e até mostra as marcas da tentativa de suicídio em seus pulsos. Os dois ficam muito interessados um pelo outro e se encontram em outras ocasiões, mas a intenção dela é que os dois cometam suicídio juntos.

Como praticamente todas as cenas são feitas em interiores, o forte do filme está no diálogo, no timing dos atores - que, aliás, estão ótimos - e na voz do narrador, que nunca esteve tão espirituosa e poética. Ao falar de morte, o episódio acaba lidando com a beleza e a importância dos grandes momentos da vida. Confesso que fiquei emocionado com o final, como já confessei aqui o meu respeito por Daniel Filho, que com sua economia na direção e seu domínio no trato com os atores, é um dos melhores, mais experientes e mais subestimados diretores do cinema e da televisão brasileiros.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

DEXTER – A QUINTA TEMPORADA COMPLETA (Dexter – The Complete Fifth Season)



Algumas séries chegam a momentos tão delicados que cada episódio passa a sensação de se estar pisando em ovos. DEXTER, que teve uma segunda e uma terceira temporadas apenas razoáveis, ganhou uma sobrevida com a excelente quarta temporada, em que o nosso anti-herói ganhou um antagonista à altura, interpretado brilhantemente por John Lithgow.

Nesta quinta temporada (2010), DEXTER mantém-se de pé de maneira impressionante. Quando eu achava que a série ia derrapar, eis que os roteiristas trazem uma nova carta na manga. A temporada começa imediatamente após os eventos trágicos da anterior. Com a morte de Rita e todas as investigações e o inferno que se transforma a vida de nosso "psicopata do bem", os primeiros episódios diferiram bastante dos tradicionais, trazendo um colorido novo para a série.

Um desses, inclusive, tem um tom bem intimista. Mesmo a subtrama envolvendo um assassino que corta a cabeça de suas vítimas e que tem mais a ver com Debra, Maria, Baptista e Quinn, quer dizer, com os policiais da delegacia, do que exatamente com Dexter, foram bons, tiveram seus momentos de tensão. Até que chega o tão esperado momento da temporada: a participação especial de Julia Stiles no papel de Lumen, uma das vítimas de um psicopata executado por Dexter.

Aliás, uma boa a série convidar astros de cinema para importantes personagens. Lumen é salva por Dexter e cria-se um interessante elo entre os dois. Ela guarda em si um desejo de vingança e diz que o assassino morto não era o único que estava presente enquanto ela era torturada. Em paralelo, há uma subtrama envolvendo o detetive Quinn, que suspeita que Dexter tem algo a ver com o assassinato de sua esposa e contrata um sujeito para investigá-lo. As coisas se complicam quando Quinn passa a se envolver afetivamente com Debra.

Ainda que o final seja um tanto desapontador e covarde – sempre arranjam um jeito de não descobrirem o segredo de Dexter -, diria que a série se manteve bem durante quase toda a temporada. Alguns episódios que saíram da trama principal - como aquele do retorno da filha de Rita - são muito bons. Além do mais, o personagem do guru de autoajuda foi uma bela sacada dos roteiristas, por mais que ele tenha ficado caricato no final.

Nada garante que DEXTER continue a ser um bom entretenimento na temporada seguinte, mas o mesmo se dizia dessa quinta. Tudo é possível. E tudo depende da equipe criativa da série, que continua ganhando indicações em prêmios respeitados como o Globo de Ouro.

terça-feira, dezembro 14, 2010

VINCERE



No momento mais emocionante de VINCERE (2009), Ida Dalses, a personagem de Giovanna Mezzogiorno, assiste no hospício onde está presa a O GAROTO, de Charles Chaplin, e, sentindo a imensa falta do filho que lhe foi arrancado, chora copiosamente. E devo confessar que o mesmo ocorreu do lado de cá da tela. O amor de mãe, associado às convicções de uma mulher que se recusa a aceitar as imposições de um sistema sujo e cruel, torna esse momento particularmente especial.

Marco Bellocchio, possivelmente o maior dentre os diretores italianos vivos, parte mais uma vez para o cinema-denúncia, ou melhor, para um cinema que provoca reflexões sobre a História. Em particular, a história de uma mulher apaixonada por Benito Mussolini, o líder fascista que mais tarde se aliaria a Hitler na Segunda Guerra Mundial, mas que antes de ter a imagem que tem hoje era idolatrado pelo povo da Itália, como se pode ver nas impressionantes imagens de arquivo enxertadas no filme.

Com o maravilhoso BOM DIA, NOITE (2003), Bellocchio já havia lidado com assuntos de interesse histórico, mas o que ele faz com esses dois exemplares do que há de melhor no hoje cambaleante cinema italiano não é apenas refletir sobre momentos importantes da História, mas enfatizar o quanto é importante nos lembrarmos - ou descobrirmos - de certos eventos, a fim de evitar que eles não ocorram novamente. Sem falar que no caso de VINCERE dá para fazer um claro paralelismo com o atual líder italiano.

Interessante que, no começo do filme, até pensei que Bellocchio fosse retratar um lado simpático de Mussollini. "Talvez ele não seja esse monstro que a História o transformou", eu pensei, mas à medida que vemos o drama de Ida, na melhor performance de Mezzogiorno, não nos resta dúvida de que o sujeito era de fato uma criatura malígna. A paixão que se transforma em ódio profundo ao ditador -que a partir da segunda metade do filme não aparece mais na pele de Filippo Timi, mas em imagens de arquivo ou fotografias - faz de VINCERE uma espécie de horror psicológico. Tanto que em alguns momentos eu mesmo estava duvidando da sanidade mental de Ida. Impressionante. VINCERE é, sem dúvida, um dos grandes filmes do ano.

domingo, dezembro 12, 2010

PSYCH – DUAL SPIRES



Não tenho o costume de ver episódios soltos de séries. Ou eu vejo a série inteira - ou pelo menos uma temporada inteira - ou não vejo nada. Mas sempre há exceções. Como quando eu fiz questão de ver o episódio dirigido por Quentin Tarantino para C.S.I. E como resistir à tentação de rever parte do elenco de TWIN PEAKS num episódio que a turma de PSYCH fez em homenagem aos vinte anos da série que mudou a televisão americana?

Antes de mais nada, é bom avisar que eu nunca havia visto PSYCH. Não sabia que era uma série de comédia e obviamente não tenho a menor intimidade com os personagens para me sentir à vontade com o senso de humor deles. Mas também não chega a ser uma série tão fechada a quem acompanha desde o início. Mas DUAL SPIRES (2010), o episódio de número 12 da quinta temporada da série, é especial. Até os créditos iniciais brincam com TWIN PEAKS, com a participação de Julee Cruise cantando com todo aquele jeitão misterioso próprio da série de David Lynch e Mark Frost.

Os atores de TWIN PEAKS que participam como convidados especiais são Dana Ashbrook (o Bobby, que aqui é um atendente de lanchonete); Sheryl Lee (a eterna Laura Palmer, que aqui é uma médica legista); Sherilyn Fenn (a Audrey, no papel de uma bibliotecária); Ray Wise (o pai de Laura, que faz o papel de um padre); Robyn Lively (Lana, uma personagem pouco expressiva da série, no papel da esposa de Bob); Lenny Von Dohlen (Harold, outro coadjuvante pouco lembrado, no papel do xerife); e Catherine E. Coulson, mais conhecida como "a senhora do tronco".

É ao mesmo tempo curioso e triste ver o que esses vinte anos causaram nos rostos dos personagens, principalmente em Sheryl Lee e Sherilyn Fenn, que há vinte anos estavam no auge da beleza e por mais que tenham feito uns filmes interessantes nunca conseguiram emplacar no primeiro escalão de Hollywood. Se bem que o efeito do tempo até que não foi tão cruel com Sherilyn, que não exibe rugas.

A trama é uma paródia de TWIN PEAKS, com direito a uma menina sendo encontrada morta enrolada num plástico, como Laura Palmer, e todo aquele arroubo dramático, que aqui vira comédia. Um dos protagonistas tem dons psíquicos e os utiliza para solucionar os mistérios. Interessante a utilização da música como tema para alguns personagens, imitando Angelo Badalamenti. E há detalhes que poderiam ser esquecidos mas que são homenageados, como um dos rapazes latindo como Bobby na cadeia num dos episódios-chave da série original. Infelizmente, a brincadeira toda se mostra sem muita graça e o resultado é bem abaixo do esperado. Mas valeu a intenção.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

AS CARIOCAS – A ILUDIDA DE COPACABANA



Falta pouco para acabar AS CARIOCAS (2010). E sabe que apesar de alguns episódios fracos essa série em forma de antologia produzida por Daniel Filho foi uma das coisas mais interessantes surgidas na televisão brasileira nos últimos anos? Este episódio, A ILUDIDA DE COPACABANA, ainda nos presenteia com a presença luminosa de Alessandra Negrini, que ultimamente estava se dedicando mais ao cinema do que à televisão. Sorte nossa, já que ela se mostrou pra lá de desinibida nos dois filmes que fez sob a batuta do grande Julio Bressane – CLEÓPATRA e A ERVA DO RATO. E poderá ser vista em breve em OLHOS NOS OLHOS, o novo trabalho de Karim Aïnouz.

Em A ILUDIDA DE COPACABANA, ela é uma professora de hidroginástica que odeia a babá, que só quer saber de ouvir funk e não dá a mínima para o trabalho. Mas o marido (Thiago Lacerda) não tem a mesma opinião e ela precisa aturar a moça atrevida. Complicando ainda mais a sua vida, o marido não comparece na cama há um tempão, o que deixa a mulher louca, a ponto de se deixar seduzir pelo amigo do marido (Eriberto Leão).

Lá pelo meio, a trama passa a se parecer bastante com a de "O Primo Basílio", de Eça de Queiroz, que o próprio Daniel Filho soube transpor para as telas muito bem e com ares rodriguianos. Mas felizmente há uma solução final bem diferente para A ILUDIDA DE COPACABANA. Diferente e coerente com o tom do episódio, que está longe de ser uma tragédia. Como, aliás, todos os episódios de AS CARIOCAS. A intenção é mesmo trazer para o espectador um entretenimento leve. E eu diria que, dessa vez, eles acertaram a mão.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

KIKA



Curioso o fato de KIKA (1993), um dos filmes menos incensados de Pedro Almodóvar, ser um dos que mais renderam páginas de conversa no livro "Conversas com Almodóvar", de Frederic Strauss. KIKA foi um dos filmes que eu deixei passar nos cinemas e só vi em vídeo. Não lembro porque razão não assisti. Se por falta de interesse ou porque ele não chegou nas salas daqui. A imagem do filme que mais ficou guardada em minha memória foi a sequência do estupro de Paul Bazzo (Santiago Lajusticia) em Kika (Verónca Forqué), seguido da ejaculação na janela, com o esperma respingando no rosto da repórter sensacionalista Andrea (Victoria Abril).

Aliás, falando em janelas, um dos aspectos do filme e que eu não percebi nem na revisão, mas que na entrevista é destacada, é o fato de que KIKA é um filme onde todas as janelas e portas estão abertas. No momento do estupro, por exemplo, há pelo menos uma pessoa que vê tudo de outro prédio. Os próprios relacionamentos são abertos. O marido de Kika sabe que ela tem um caso com Nicholas, o personagem de Peter Coyote, embora ela não saiba que ele sabe. E a personagem, em si, é aberta ao novo, como se pode notar ao longo do filme. O que talvez não conte pontos a favor é o fato de que Kika não é uma personagem boa o suficiente para nos identificarmos. Ela é muito doce e muito passiva diante de tudo.

E embora Almodóvar tenha o cuidado para trazer o mínimo de naturalismo nos diálogos e na encenação, seus personagens são todos abstratos, não parecem reais. Parecem, inclusive, com exageros de outros já apresentados em outros filmes do diretor. Victoria Abril, por exemplo, já havia feito uma repórter de televisão em DE SALTO ALTO (1991) e o personagem do estuprador lembra Antonio Banderas em ATA-ME (1990), só que sem o mesmo brilho ou o mesmo interesse por parte da trama para aprofundá-lo. Aliás, é impossível aprofundar os personagens, já que eles são tantos e tão cercados de redes de intrigas.

O filme é interessante por ser uma mistura de gêneros que o torna inclassificável. O ato final até lembra MATADOR (1985), o trabalho de Almodóvar que mais se aproxima de um thriller. E sabe-se o quanto o cineasta é apreciador do cinema americano dos anos 40, de mulheres fatais e de crimes mostrados de maneira estilizada. A diferença é que Almodóvar troca o preto e branco pelas cores quentes. Ainda assim, continuo achando KIKA um dos menos interessantes filmes da filmografia do diretor, um dos que eu menos gosto. O legal é que na entrevista, como KIKA é um dos filmes de Almodóvar que mais bebem da fonte de JANELA INDISCRETA, há um gostoso papo sobre a obra de Hitchcock e suas mulheres neuróticas.

terça-feira, dezembro 07, 2010

THE WALKING DEAD – 1ª TEMPORADA COMPLETA (The Walking Dead - The Complete First Season)



Curioso como desde que George Romero plantou a semente dos zumbis em 1968 com A NOITE DOS MORTOS-VIVOS que praticamente todas as mídias possíveis se aproveitaram para explorar o filão. Faltava uma série dedicada exclusivamente aos "errantes". E como é que ninguém tinha pensado nisso antes? Coube a Frank Darabond tomar como base as HQs de Robert Kirkman e transformá-las num drama apocalíptico envolvendo zumbis comedores de carne que infestaram o mundo e um grupo de sobreviventes que procuram meios de permanecerem vivos dentro desse cenário. Quer dizer, nada de muito original.

O canal AMC encomendou seis episódios para a primeira temporada de THE WALKING DEAD (2010), mas a série fez tanto sucesso que a segunda já está garantida, com 13 episódios. Trata-se da série de estreia mais bem-sucedida do ano e o último episódio bateu o recorde de audiência na tv fechada americana, atingindo 6 milhões de espectadores.

E a vantagem de uma série sobre zumbis em relação a filmes para cinema é poder ter mais tempo para apostar no drama, no envolvimento dos personagens com os espectadores. E nesse quesito, tanto o protagonista, o policial Rick Grimes (Andrew Lincoln), quanto sua bela esposa Lori (Sarah Wayne Callies, que tinha deixado saudade desde o fim de PRISON BREAK) são personagens com os quais a gente se importa. Há também um outro personagem bem interessante, Shane Walsh, o cara que fica com a esposa do melhor amigo e que tem que amargar a volta do sujeito que ele dizia estar morto. Os demais personagens ainda não tiveram chance de brilhar, embora uma ou outra subtrama tenha provocado momentos bem emocionantes, como o dramático ataque dos zumbis ao acampamento e a cena do sujeito que é infectado e prefere ser deixado pelo caminho pelos amigos.

Claro que tudo isso já foi explorado à exaustão em diversos filmes sobre mortos-vivos - há, inclusive, uma semelhança muito grande do começo da série com EXTERMÍNIO -, mas THE WALKING DEAD tem a vantagem de explorar um mundo de opções, já que é uma espécie de road movie apocalíptico. O episódio final teve o seu grau de emoção, encerrando com "Tomorrow is a long time", de Bob Dylan, mas eu diria que o melhor ainda está por vir.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

A REDE SOCIAL (The Social Network)



As comparações entre CIDADÃO KANE, de Orson Welles, e A REDE SOCIAL (2010), novo trabalho de David Fincher, que têm aparecido em várias críticas sobre o filme, têm a sua razão de ser. Há muitos pontos em comum entre as duas obras e provavelmente essa tenha sido a intenção de Fincher, quase sempre um cineasta pretensioso. Mas quando falo pretensioso, falo no bom sentido. Suas ambições são louváveis na maioria das vezes. Mas em A REDE SOCIAL até que ele se mostra bastante contido nos aspectos formais, sem o uso de efeitos especiais tão explícitos, como em O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON (2008) e O QUARTO DO PÃNICO (2002), aproximando-se, assim, mais da discrição de ZODÍACO (2007).

Mas talvez o que mais cause interesse em A REDE SOCIAL seja sua temática, principalmente para quem testemunhou há cerca de dez anos o surgimento e a popularização do Napster, o programa de compartilhamento de arquivos que veio para derrubar a indústria fonográfica. De lá pra cá, as coisas nunca mais foram as mesmas. E ainda que o criador do programa apareça no filme em papel de destaque na pele de Justin Timberlake, o filme é mesmo de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), criador do Facebook, o programa de relacionamentos mais poderoso do mundo.

A REDE SOCIAL não é um filme sobre o Facebook, mas sobre Zuckerberg, esse sujeito pouco sociável que usa um fora da namorada para criar, sem querer, o embrião para o seu projeto mais importante. Ele escreve, bêbado, em seu blog, coisas pouco lisonjeiras sobre a moça que quebrou seu coração e cria um site com um ranking das mais gostosas do campus para votação. Só com esse ato, ele consegue em pouco tempo derrubar a rede da universidade, pela quantidade de acessos. É assim que ele chama a atenção dos gêmeos Winklevoss (ambos interpretados por Armie Hammer). Ele representam o oposto de Zuckerberg: atléticos, populares e milionários. A intenção dos irmãos é fazer um programa de relacionamento fechado à elite da universidade. A opção por deixar de trabalhar com os irmãos e criar o seu próprio site junto ao amigo brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield) é o motivo pelo qual o nerd pouco sociável e de raciocínio rápido recebe a sua primeira ação judicial.

Estruturado num longo flashback e com uma dinâmica impressionante para um filme que fala sobre programas de computador, ações judiciais e centrado numa pessoa com problemas de socialização, A REDE SOCIAL é o filme mais maduro de Fincher. E embora não cause arroubos sentimentais como seu trabalho anterior, nem polêmica como CLUBE DA LUTA (1999), o olhar distante de Zuckerberg passa um sentimento amargo de profunda solidão e uma sensação de total desapego com tudo e com todos.

domingo, dezembro 05, 2010

AS CARIOCAS – A DESINIBIDA DO GRAJAÚ



Sei que eu ando me saindo um péssimo cinéfilo. Ando vendo mais séries que filmes, vendo poucos filmes da Era de Ouro de Hollywood, pouca coisa do cinema europeu e os textos para o blog estão longe de estarem inspirados. O fato é que ando muito atarefado e cheio de preocupações e prazos a cumprir. Mas espero muito que a partir de janeiro (ou pelo menos fevereiro) tudo isso mude. Quero ter o meu tempo para me dedicar às coisas que gosto. Assim, segue mais um post sobre AS CARIOCAS (2010), só para não perder o costume. E porque eu gosto de terminar algo que comecei.

Além do mais, o episódio A DESINIBIDA DO GRAJAÚ despertava um interesse especial em mim, que era a presença de Grazi Massafera. Revelada na melhor edição do Big Brother Brasil, Grazi conquistou todos os espectadores com sua graça e beleza. A tela se enamorou de Grazi. Ela parecia nascida para o vídeo. Não necessariamente para o cinema ou para as novelas, o que pôde ser comprovado quando ela estrelou numa novela da Rede Globo e teve um desempenho bem fraquinho. Não cheguei a acompanhar de perto, mas quando eu passava pela sala e a tv estava ligada, parava para vê-la.

O que disseram de sua grande melhora em A DESINIBIDA DO GRAJAÚ pode até ser verdade, mas isso não quer dizer que o episódio seja bom. Ao contrário, é um dos mais fracos da série. E não é culpa dela. É de todo o conjunto. O texto em si já não era dos mais interessantes e a direção e o elenco não ajudam. Por mais que seja curioso ver Marcelo D2 dando uma de ator, isso só torna o show ainda mais amador. É, sem dúvida, em termos de atuação e dramaturgia, o fundo do poço de AS CARIOCAS.

A trama, se alguém se importa: garota sonha em ser muito famosa, mas depois de ganhar concurso de miss, capa de revista masculina e fama nacional, acaba a grana e tem que voltar para o seu bairro natal, que não a recebe muito bem. Ela é recebida pelas mulheres da vila como uma espécie de puta, que pode acabar com a paz do lugar e roubar os homens, que realmente ficam loucos quando a moça chega. Apesar da foto que eu postei aí em cima, não se trata de um episódio picante. E ainda tem uma moral besta e cantada em samba. A direção é de Chris D’Amato.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO (Scott Pilgrim vs. the World)



Nem sei dizer os motivos porque não gostei da adaptação de SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO (2010) para o cinema. Quando penso no filme de Edgar Wright não vejo necessariamente nada de errado. Pra começar, Scott Pilgrim (Michael Cera), com suas camisetas dos Smashing Pumpkins, já seria suficiente para despertar a minha simpatia. Vi que Wright conseguiu intérpretes muito bons para os personagens (gostei particularmente de Mary Elizabeth Winsted – como não gostar dessa menina?), o visual é colorido, emula os quadrinhos através de quadros na tela, às vezes com os próprios desenhos de Bryan Lee O'Malley e não tem medo de ser fiel aos exageros contidos nas cenas de luta.

Quando estive em São Paulo, o filme era um dos que eu mais queria ver, até porque noticiaram na imprensa que não exibiriam em nenhuma outra cidade do Brasil. Logo, quis aproveitar a minha passagem pela "terra da garoa" para conferir o dito cujo, mesmo não sendo exatamente fã dos trabalhos de Edgar Wright, um dos diretores mais queridos dos críticos pop. Foi lendo com prazer ontem o segundo volume dos quadrinhos lançados pela Companhia das Letras que eu percebi mais ou menos os motivos de eu não ter gostado do filme. O que é gostoso e funciona em uma mídia não necessariamente pode o ser em outra, mesmo que feito da maneira mais eficiente e apaixonada possível. Por exemplo, toda aquela história dos "namorados do mal" de Ramona Flowers, que parece divertida nos quadrinhos, fica meio boba no filme. Por outro lado, as sequências com o amigo gay de Scott são bem divertidas.

SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO se utiliza com frequência da linguagem dos quadrinhos (e dos videogames) para contar uma história de amores juvenis e de brigas como nos videogames de máquinas de shopping center e parques de diversões. Os nomes dos personagens escritos na tela para apresentação e humor, bem como a montagem dinâmica e os cortes temporais, são exemplos dessa fusão de mídias. Aqueles que têm nostalgia dos videogames do passado podem ter mais um motivo para gostar do filme. Não é o meu caso. Também não é o meu caso gostar de vilões espalhafatosos (como os dos personagens de Jason Schwartzman e Brandon Routh). Mas sabem do que eu gostei bastante no filme e tinha até me esquecido? Da referência explícita a SEINFELD.

quarta-feira, dezembro 01, 2010

AS CARIOCAS – A ADÚLTERA DA URCA



Ainda não estou em dia com AS CARIOCAS (2010). E nem com nenhuma outra série, na verdade. Ontem mesmo já passou mais um episódio, que eu não cheguei a ver ainda. A ADÚLTERA DA URCA, dirigido por Daniel Filho e Chris D’Amato, é um dos melhores até o momento, só perdendo para o primeiro, que segue sendo meu favorito. Mas talvez eu esteja com o raciocínio turvo por causa das cenas quentes com a Alinne Morais.

Já não dá pra dizer o mesmo de A ADÚLTERA DA URCA, estrelado pela Sônia Braga, e que não tem nenhuma cena que apela para o erótico, mas que possui uma trama bem conduzida e uma trinca de atores veteranos que tiveram grande importância na teledramaturgia brasileira. Tanto é que os realizadores resolveram fazer uma homenagem, colocando os nomes dos personagens de Sônia e Antônio Fagundes como Júlia e Cacá, os nomes que os dois receberam quando contracenaram juntos na novela DANCIN DAYS. Já Regina Duarte, recebeu o nome de Malu, referência ao seriado MALU MULHER.

Apesar do título, Júlia é uma mulher que não quer ser influenciada pelos conselhos da amiga (Regina Duarte), que costuma dizer que ela precisa variar um pouco, que fazer sexo só com o Cacá não tem graça. Um dia ela recebe uma ligação anônima de um homem que diz ser seu admirador secreto. Ao mesmo tempo, ela passa a ser perseguida por um sujeito de óculos escuros. Já o marido Cacá se mostra bastante ciumento desde a primeira aparição, quando chega em sua casa e reclama que ela não estava.

A presença de Sônia Braga ainda é forte na tela. Tendo feito história em nosso cinema com títulos que exploraram a sua energia sexual, como DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, A DAMA DO LOTAÇÃO, EU TE AMO, entre outros, ela se tornou a nossa grande musa. Nosso produto de exportação. Pena não ter feito o mesmo sucesso lá fora. Mesmo com o peso da idade, sua sensualidade continua sendo uma marca. E olha que ela estava fazendo o papel de esposa recatada.