quarta-feira, maio 19, 2010

SEIS CURTAS



Não é regra, mas em geral, comentários sobre curtas-metragens levam textos curtos. Até porque não é minha intenção fazer uma análise sobre o curta e os textinhos são proporcionais ao tamanho, embora alguns curtas valham muito mais do que muito longa. Contando com o já comentado A VOLTA DO REGRESSO, do Marcelo V., que contou com post específico, principalmente por causa da entrevista, (re)vi seis outros curtas recentemente.

AS COISAS SÃO BONITAS NOS OLHOS DE QUEM ACHA

Tive o privilégio de ver este documentário dirigido por minha amiga Juliana Chagas numa sessão privada na casa de outra amiga, a Valéria, numa reunião especial para a despedida do Murilo, que agora está morando na "terra da garoa". AS COISAS SÃO BONITAS NOS OLHOS DE QUEM ACHA (2010) ainda está inédito nos festivais, mas pode ser que seja selecionado para alguma mostra da próxima edição do Cine Ceará. O que me impressionou foi o profissionalismo do curta, principalmente levando em consideração ser o primeiro trabalho. O filme tem uma estrutura tradicional, valorizando depoimentos, estilo Eduardo Coutinho. No caso, o depoimento de Dona Dica, uma senhora muito interessante que faz bonecas artesanais na Serra de Guaramiranga. O detalhe é que as bonecas não têm aquela aparência da beleza clássica. Muitas pessoas podem até achá-las feias. Uma das coisas que mais me chamou a atenção no documentário foi o aspecto da transferência do afeto. Dona Dica fala que, às vezes, quando a criança (ou mesmo uma pessoa adulta) está triste, ela se agarra àquela boneca como se fosse um ente querido. As cenas exteriores também são bem editadas, como quando a câmera mostra Dona Dica pegando material para o seu trabalho no bosque. Sobre o título, ele é retirado de uma fala da própria senhora.

JUVENÍLIA

Hoje ele é mais conhecido pelo elogiado documentário O PRISIONEIRO DA GRADE DE FERRO (2003), mas antes de estrear na direção de longas-metragens Paulo Sacramento fez um dos curtas mais comentados dos anos 1990, até por quem nunca o viu. JUVENILIA (1994), assim como VINIL VERDE, de Kléber Mendonça Filho, utiliza o recurso dos stills. O que o tornou controverso foi o fato de o filme mostrar um grupo de jovens violentando brutalmente um cachorro na rua e exibindo sorrisos no rosto. Anos atrás, este filme gerou uma discussão bem acirrada numa lista de discussão de que eu participava. Como eu, e a maioria das pessoas da lista, não tínhamos visto o filme ainda, a briga que rolava era mais de natureza ética. Vale conferir o texto que recentemente Carlos Primati publicou em seu blog, o Cine Monstro, seguido de entrevista com o diretor e que reacendeu a discussão. Aproveitem para conferir o curta.

ÁGUAS DE ROMANZA

Esse eu vi no curso de especialização no último sábado. Como a disciplina é adaptação fílmica, comparou-se o conto homônimo de Eugênio Leandro com a adaptação para o cinema, dirigida por Gláucia Soares e Patrícia Baía. A experiência de ver as duas formas de expressão e analisar as escolhas das diretoras foi bem interessante. ÁGUAS DE ROMANZA (2002) mostra a dura vida de quem mora em zonas áridas e sem chuva. Vemos uma avó querendo levar a neta, de seis anos, para ver a chuva pela primeira vez na vida. Achei o curta muito corrido para uma história que gera, pelo menos no começo, uma sensação de letargia. Mas isso é mesmo complicado de se fazer num curta-metragem, onde o pouco tempo disponível para narrar uma história é de lei.

LA CONCEJALA ANTROPÓFAGA

Feito como uma obra ligada diretamente a ABRAÇOS PARTIDOS (2009), LA CONCEJALA ANTROPÓFAGA (2009) tem todo aquele cuidado visual que é característico do cinema de Pedro Almodóvar. A participação de Penélope Cruz é bem curtinha, apenas no começo. Quem brilha mesmo é Carmen Machi, no papel de uma vereadora cheiradora de cocaína que tem tara por homens. Mas uma tara de comê-los no sentido literal mesmo. O curta é cheio de boas tiradas, mas é tão curtinho que não diz muito. Foi supostamente dirigido pelo personagem-cineasta-cego de ABRAÇOS PARTIDOS.

CAMERA

Já tinha visto um tempo atrás, mas como o curta lida demais com as palavras e eu não tinha legendas, tinha perdido mais de 50% de seu conteúdo. Agora que existem legendas para o filme é que pude me deliciar com essa pequena pérola de um dos maiores cineastas em atividade no mundo. David Cronenberg é tão hábil em seus curtas de custo baixo quanto o é nos longas mais produzidos. O personagem principal é um senhor pessimista que vê a fotografia (e o cinema e o vídeo) como a morte. O instante registrado está automaticamente morto logo em seguida. Assim, tanto o cinema como a fotografia são imagens de fantasmas. CAMERA (2000) dá muito o que pensar. E é genial em seus momentos finais.

FRANKENWEENIE

Ainda não vi ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (2010), mas entre os curtas vistos, selecionei o ótimo FRANKENWEENIE (1984, foto acima), que Tim Burton realizou antes de se tornar famoso. O filme, inclusive, vai ter um remake; vai ser transformado num longa-metragem, previsto para estrear nos cinemas em 2011. E é interessante como esses curtas iniciais de Burton dizem tanto de si e são tão pungentes e tocantes. Também adoro VINCENT (1982), o anterior. Algo se perdeu entre esse período mais "puro" de Burton e esses novos filmes, reciclados. Não é que Burton tenha deixado de ser Burton. Talvez ele tenha mostrado cansaço, falta de inspiração, já que quase nada de original ele tem feito. A bonita produção da Disney mostra o esforço de uma criança em reviver o seu cãozinho, atropelado por um caminhão. Numa aula de biologia, um professor mostra os efeitos da eletricidade no cadáver de um sapo. Isso é o suficiente para que o menino, batizado de Victor Frankenstein, experimente trazer de volta o seu cachorro, desta vez, todo costurado. Shelley Duvall aparece no papel da mãe do garoto e uma pré-adolescente Sofia Coppola aparece numa ponta. Na época, ela usava o nome Domino.

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