quarta-feira, outubro 31, 2007

O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (The Man who Knew Too Much)



Tudo indica que está na hora de eu voltar a ver Hitchcock. Tudo começou quinta-feira passada quando a Bia (Beatriz Saldanha) ligou pra mim me convidando pra participar com ela de um debate num programa na TV União. Pra quem não é do estado, a TV União é uma emissora local que começou exibindo apenas videoclipes, tem uma proposta de falar ao público jovem e agora está ampliando mais os seus horizontes. E como a MTV praticamente parou de passar clipes, a grande pedida pra quem quer ver os clipes por aqui é a TV União. Pois bem. O tal convite seria para um debate sobre Alfred Hitchcock, num programa para homenageá-lo. No começo eu disse 'não', achei que não teria condições emocionais de falar em frente às câmeras, mas pensei melhor e aceitei participar. Dei uma geral nos textos que havia escrito para o blog sobre os filmes do Hitch para ir lembrando de alguma coisa e mandei ver. E graças a Deus tudo correu bem.

Mediado pelo Rodrigo Vargas, sujeito muito gente-fina, participou também do bate-papo, além da Bia e eu, a Socorro Araújo, uma cinéfila apaixonada pelo Hitchcock. Ela ficou conhecida por gerenciar durante um bom tempo os cinemas do Shopping Benfica. O programa teve uma hora de duração, contando os intervalos, e eles passaram trechos de um documentário sobre o diretor e uma cena de OS PÁSSAROS (1963). Pena que menos de uma hora é pouco pra se conversar sobre o maior de todos os cineastas. Quando terminou, pareceu final de entrevista boa do programa do Jô Soares, com todo mundo dizendo "aaahh". Bom, nós que estávamos lá gostamos, não sei é se os espectadores gostaram e se por acaso alguém que não conhece o trabalho do diretor passou a ficar interessado a partir do programa. Nunca se sabe. De todo modo, já registro aqui o meu agradecimento à Bia pelo convite.

Nesse final de semana, aproveitando que ia passar mesmo um bom tempo pensando em Hitchcock, aproveitei pra ver em dvd a primeira versão de O HOMEM QUE SABIA DEMAIS (1934), que comprei por menos de dez pilas num balaio nas Americanas dias atrás. Tinha tido a chance de ver em vhs, mas como não era nem muito fã da versão americana (1956), que diziam ser melhor, resolvi "pular". E só agora vi essa primeira versão, que apesar de não ter a mesma sofisticação, a mesma segurança de um filme dirigido por um cineasta amadurecido, é mais compacta, mais ágil. A cena da tentativa de assassinato que se passa num concerto de música erudita também aparece na versão inglesa, mas o clímax de verdade acontece no final, com um tiroteio entre polícia e bandidos. Ficou parecendo mais um filme policial ou um western moderno. O grande destaque do filme acaba sendo a performance como vilão de Peter Lorre, ator que já havia dado um show pouco tempo atrás na obra-prima M., O VAMPIRO DE DÜSSELDORF, de Fritz Lang.

Interessante que na entrevista que Hitchcock deu para Peter Bogdanovich, quando perguntado sobre o significado da cena do suéter que se desfia, ele respondeu que pretendia mostrar o fio da vida que se rompe. Poético, hein. Outra curiosidade diz respeito ao fato de o filme mostrar policiais armados, já que na Inglaterra, a polícia não usa (ou não usava, pelo menos) armas de fogo. No final, o censor acabou cedendo e aceitando a cena, já que Hitchcock fez uma pequena concessão: os policiais poderiam usar os fuzis, contanto que fossem armas velhas, conseguidas numa loja de antigüidades. No livro de entrevistas de Truffaut, a conversa sobre o filme se estende muito mais e termina com a conhecida frase de Hitchcock, comparando as duas versões: "Digamos que a primeira versão foi feita por um amador de talento, ao passo que a segunda foi feita por um profissional."

terça-feira, outubro 30, 2007

JOGOS MORTAIS 4 (Saw IV)



Juro que é a última vez que vou ao cinema pra ver algo dessa franquia nojenta. A não ser que algum diretor de renome e que eu respeite muito se aventure num filme dessa série. Eu saí do cinema com a mesma convicção que eu saí depois de ver o segundo filme do Shrek e o segundo dos Piratas do Caribe. JOGOS MORTAIS 4 (2007) , de Darren Lynn Bousman, não é apenas um dos piores filmes do ano, mas uma falta de respeito até com os fãs da série, fãs que se confudem às vezes com sádicos. Se bem que chamar de sádico o fã da série - ou de filmes como O ALBERGUE - é até um pouco hipócrita da nossa parte. Há na própria natureza humana esse prazer - ainda que inconsciente - em ver o sofrimento e a tortura humana. E como não vivemos mais nos tempos em que as pessoas tinham suas cabeças decepadas pela guilhotina, ou enforcadas em praça pública ou deixadas morrendo numa cruz, como na época do Império Romano, nos resta o cinema para saciar a sede de sangue. E eu diria que é uma maneira bem mais saudável, já que a gente sabe desde o começo que aquilo ali é "de mentirinha", são efeitos especiais.

E falando em efeitos especiais, se há uma coisa que se pode dizer que foi caprichada nesse quarto filme da série foi a cena da autópsia de Jigsaw. Mas o filme é tão incapaz de provocar asco ou nojo ou medo que essa cena acaba gerando apenas indiferença. Como se todos na platéia fossem velhos e entediados cirurgiões. Entram, a seguir, os velhos e cansativos jogos de Jigsaw e sua amante, Amanda, que morreram na terceira parte da série, mas deixaram antes de morrer alguns joguinhos espalhados por aí, em várias fitinhas de áudio endereçadas a certas pessoas. Entre elas, um obstinado agente da SWAT. Aliás, que personagem mais ridículo o desse policial (Lyric Bent). E eu nem me lembrava mais dele nos episódios 2 e 3 da série, nem dos outros que também haviam aparecido nos anteriores de tão "marcantes" que foram. Apenas Jigsaw (Tobin Bell) é um vilão difícil de esquecer. E, apesar de estar morto, esse é o filme em que ele mais aparece, em flashbacks contados por sua ex-esposa. Mas quem se importa com o passado do Jigsaw? Talvez isso tenha sido usado mais para evitar a repetição e esconder a falta de criatividade de se criar mais jogos sádicos para preencher a já curta duração do filme e garantir uns bons trocados para os produtores.

Claro que pra quem é fã da série o filme ainda pode agradar, já que mantém de certa maneira o espírito dos anteriores, dá mais informações sobre o vilão metido a moralista, e oferece mais do mesmo, isto é, cenas sangrentas, ainda que sem o mesmo impacto de antes. Eu, pelo menos, não destacaria nenhuma cena em especial como memorável. E o filme perde ainda mais se compararmos com o ótimo e tenso primeiro filme, o único dirigido pelo malásio James Wan, que fez a coisa certa em abandonar a direção da série para se dedicar a outros trabalhos, entre eles SENTENÇA DE MORTE, thriller estrelado por Kevin Bacon e que deve pintar no circuito comercial nos próximos dias.

segunda-feira, outubro 29, 2007

O AVENTUREIRO DO PACÍFICO (Donovan's Reef)



Essa minha peregrinação por John Ford acabou caminhando a passos de tartaruga. Nem parece aquela do Hitchcock. Mas acho que o que aconteceu foi que com o Hitch, eu pulei vários filmes e na época não tinha como baixar tão facilmente filmes pela internet. Já com Ford, eu consegui muito material pela internet. O AVENTUREIRO DO PACÍFICO (1963), porém, não é fruto da internet. Assisti-o de uma antiga gravação que tinha feito da Band, do tempo em que a emissora passava clássicos legendados todos os domingos. Toda semana eu já ficava ligado pra saber qual filme iria passar. Não sei se a Band ainda continua fazendo isso. Acho que não.

Quanto ao filme, acho que para tirar um pouco do peso solene de O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962), Ford optou por fazer um daqueles dramas/comédias leves estilo VENDAVAL DE PAIXÕES (1952). Pra ficar ainda mais parecido, só se o diretor escalasse de novo a Maureen O'Hara como o interesse amoroso de John Wayne. Na verdade, pra quem se habituou aos filmes do diretor, O AVENTUREIRO DO PACÍFICO é uma colagem de vários outros trabalhos dele. De O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA, Ford trouxe de volta Lee Marvin, como um sujeito briguento, mas nem tanto; de O FURACÃO (1937), Ford trouxe a ambientação, numa ilha do pacífico, com direito àquelas moças dançando e àqueles colares que eles entregam aos visitantes.

Como o filme se passa num tempo contemporâneo, a ilha é então um lugar de paz, mas cujos habitantes, pelo menos alguns deles, foram combatentes na Segunda Guerra Mundial. Nessa ilha, além dos nativos de pele mais escura, habitam também americanos (os donos da ilha), franceses e japoneses. Se há um conflito no filme, esse é de natureza familiar. Na trama, Elizabeth Allen é Amelia, uma moça rica que chega de Boston, influenciada pelos seus consultores da empresa a ir até a ilha e pegar o que seria seu de direito: sua parte nos negócios da família. Seu pai, ela sequer o conheceu. Depois da guerra, ele preferiu continuar longe do resto da civilização naquele lugar paradisíaco e acabou não conhecendo a filha. E nem a filha sabe que tem outros irmãos que o pai arranjou pela ilha. Chegando lá, Amelia aos poucos acaba se afeiçoando ao jeitão meio grosseiro de Donovan (John Wayne) e aos próprios habitantes da ilha.

O filme em si é bastante irregular, arrastado e custou a me agradar, mas tem um momento em especial bem poderoso: a cena da festa de natal, tanto por eu me emocionar sempre que ouço "Noite Feliz"("Silent Night"), como pelo estrago que uma tempestade repentina faz à festa, lembrando os bons tempos de O FURACÃO. Mas, no geral, posso dizer que o filme não me agradou e que o considero um dos mais fracos da filmografia do Ford. Pelo menos ele deve ter se divertido com a cena das brigas gratuitas e desopilantes no bar do Donovan. Ah, e vale lembrar de Cesar Romero, que aparece no papel do ambicioso Marquês Andre de Lage. Romero se tornaria famoso como o Coringa da série camp do Batman nos anos 60.

sexta-feira, outubro 26, 2007

VERMELHO COMO O CÉU (Rosso come il Cielo)



Quando eu era criança, um dos meus maiores medos era acordar de madrugada no escuro, me levantar para ir até o banheiro, ligar o interruptor e as luzes não acenderem. Uma cena semelhante acontece em VERMELHO COMO O CÉU (2006), quando o garotinho, já com cerca de 95% da sua visão totalmente perdida, acende o interruptor e suspeita, na sua ingenuidade, que as luzes deviam estar com problema. Sempre achei o ato de poder enxergar uma das maiores dádivas que nós temos. E sempre fico bastante comovido quando assisto filmes que lidam com o tema. Agora, por exemplo, lembro de RAY, de Taylor Hackford, e de SUBLIME OBSESSÃO, uma das obras-primas do mestre Douglas Sirk.

Ficar cego é um pesadelo para os capazes de enxergar, mas como diz em "Vida Diet", a canção do Pato Fu: "a tudo a gente se habitua." E um dos méritos desse filme de Cristiano Bortone é o de conseguir mostrar um aspecto mais ou menos positivo de se perder a visão, que é o de aguçar os demais sentidos, que acabam ficando em segundo plano por causa da visão. Claro que isso não é lá uma troca muito justa e nem o fã mais ardoroso do Demolidor vai querer passar por esse tipo de experiência.

Curiosamente, o filme não me emocionou tanto quanto eu imaginava e não chega a ser um grande filme, mas claro que há momentos realmente muito bonitos. De chorar mesmo, pra mim, só a cena em que o garotinho abraça a mãe, que ele não "via" já há alguns dias (ou meses), e fala pra ela que da próxima vez que ele voltar pra casa, nas férias, não vai querer ver os seus amiguinhos, vai preferir ficar o tempo todo perto dela. Impressionante como esse tipo de cena que lida com o lado maternal mexe comigo. E acontece em praticamente qualquer filme - lembro que em CARANDIRU eu chorava mais por causa das mães dos presos do que propriamente por causa deles. Provavalmente isso vem do meu lado canceriano, signo bem ligado à maternidade.

Pra quem não sabe, VERMELHO COMO O CÉU conta a estória de um garotinho de 10 anos que sofre um acidente e perde a visão. O mais triste de tudo é que já naquela idade ele era fã de cinema. Devido à sua deficiência visual, ele não é aceito na escola e é enviado para um escola para cegos, localizada longe de sua cidade e de sua família. Lá, ele aprende a lidar - com muito sacrifício, claro - com a sua deficiência, a mostrar sua criatividade e sensibilidade artística, conseguindo contar estórias com o uso da edição de som e de um velho gravador. De quebra, ele ainda conquista o coração de uma jovem menina. O filme é inspirado na história verdadeira de Mirco Mencacci, um dos mais renomados editores de som da Itália. Só não me lembro - nem encontrei informações na internet - com quais cineastas ele já trabalhou.

quarta-feira, outubro 24, 2007

UM LONGO CAMINHO (Qian Li Zou Dan Qi / Riding Alone for Thousands of Miles / Tanki, Senri o Hashiru)



Enquanto os paulistas se divertem até cansar na orgia cinematográfica da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, os cinéfilos das outras cidades acabam tendo que se contentar com uma programação comercial bem mixuruca. Até tentei ontem ir ao cinema ver STARDUST, achando que no Shopping Aldeota estavam exibindo legendado, mas quando liguei pra lá e me informaram que era dublado, desanimei e não fui mais. Por outro lado, acho até bom não ter tanto filme bom pra ver no cinema, pois sobra tempo pra eu diminuir a cada vez maior lista de fimes e séries que me esperam em casa. Aliás, até poderia estar assistindo alguma coisa agora, mas como lá no trabalho o bicho tá pegando e não me deixam quieto nem no horário do almoço, que é quando eu normalmente páro para postar para o blog, aí resolvi escrever em casa à noite nessa semana. E hoje vai ser mais um daqueles exercícios de memória, já que UM LONGO CAMINHO (2005) eu assisti nas minhas férias de julho em dvd.

Depois do maravilhoso épico de artes marciais O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS (2004), Zhang Yimou resolveu voltar ao já conhecido território do melodrama, tão querido por ele e por seus fãs mais antigos. Lembremos que no comecinho dos anos 90, o cinema chinês estava na moda. E seus principais representantes eram Yimou e Chen Kaige. Havia outros diretores cujo nome não lembro, mas Yimou foi um dos poucos a sobreviver ao hype e manter uma filmografia de valor e com garantia de sucesso tanto em festivais quanto nos circuitos de arte. Com HERÓI (2002) e O CLÃ... Yimou mostrou que seu talento ia além dos melodramas. Seus filmes de artes marciais são vistos mais como um estiloso ballet, mas é tão bonito de ver e tão empolgante que pouco me importa se aquilo é dança, não é luta. Aliás, são as dus coisas juntas. Mas enquanto A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA (2006) não chega ao circuito comercial, falemos de seu trabalho anterior.

UM LONGO CAMINHO é um filme sobre a tentativa de um pai (o japonês Ken Takakura) de resgatar o amor de seu filho. O personagem de Takakura é um homem que viveu longe da família há muitos anos e não teve a oportunidade de conviver com seu filho. E seu filho, agora adolescente, foi diagnosticado com câncer em fase terminal. Quando o velho vai visitá-lo no hospital, o filho não aceita vê-lo. Assistindo uma fita de vídeo de uma viagem de seu filho para uma região remota da China, ele fica sabendo que o garoto tinha um especial fascínio pelo teatro tradicional chinês e que na viagem anterior ele não havia conseguido ver determinado espetáculo protagonizado pelo melhor artista local. Assim, ele parte do Japão até a China para filmar o espetáculo que o filho queria ver e trazer a fita de volta a tempo, antes que o garoto já estivesse morto. Ao chegar na China, porém, ele enfrenta uma série de dificuldades.

Quem já está acostumado com os melodramas de Yimou, sabe que as lágrimas são quase sempre inevitáveis. Não cheguei a entrar em prantos como na época que vi TEMPOS DE VIVER (1994), mas os momentos tocantes de UM LONGO CAMINHO chegam perto disso. A beleza plástica, que já se tornou mais do que uma marca, uma obsessão para Yimou, comparece novamente, dessa vez, valorizando a bela paisagem da provincia de Yunnan. Yimou utilizou atores amadores nas seqüências na China e teve um resultado muito bom. Mas quem conquista a platéia e o coração do velho japonês é o garotinho Yang Yang, que eleva o grau de ternura do filme perigosamente, no limite do excesso.

terça-feira, outubro 23, 2007

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (The Man who Shot Liberty Valence)



"Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda." Essa é uma das frases mais famosas do cinema e a frase chave de O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962), talvez a última das grandes obras-primas de John Ford - não sei ainda se os filmes seguintes do diretor chegam a tanto, mas tenho uns três ainda pra ver, pelo menos. Os teóricos costumam citar o ano de 1962 como um ano chave para o cinema americano, que pode ser dividido em antes e depois desse ano. Não custa lembrar que nesse mesmo ano, o grande Howard Hawks realizou a mais bela aventura de todos os tempos: HATARI! Simbolicamente, o ano de '62 separaria a velha Hollywood da nova. Uma nova geração de cineastas surgiria nos anos seguintes e mudaria os rumos do cinema americano. Mas isso aí já é outra história. Fiquemos com o bom e velho Ford e seu belo registro sobre a força da memória no velho oeste.

O filme se inicia com a chegada do respeitado senador Ranse Stoddard (James Stewart) e sua esposa (Vera Miles) a uma cidade que um dia foi importante para eles. Eles chegam para um funeral. Um funeral de um homem respeitado por eles, mas que já havia se tornado um velho anônimo para os mais jovens da cidade. Os jornalistas de lá ficam logo ouriçados com a presença do senador naquela cidade e querem saber mais sobre sua presença. E assim, o personagem de James Stewart conta em flashback para eles - e para nós - como tudo começou, quando ele chegou naquela cidade numa diligência, quando foi atacado por um fora-da-lei perverso chamado Liberty Valance (Lee Marvin, perfeito em sua maldade), quando conheceu a sua futura esposa, como também um homem forte e generoso de nome Tom Doniphon (John Wayne), o sujeito mais rápido no gatilho da cidade, um homem que sonhava em se casar com Hally (Vera Miles). Stoddard era, ainda, naquele tempo, um advogado, profissão ainda não muito comum naquelas cidades do oeste selvagem onde o que valia mesmo era o revólver e a coragem. Stoddard, porém, representava o progresso: trouxe não apenas o Direito, mas também alfabetizou muitas pessoas do vilarejo.

A dicotomia velho versus novo é um dos eixos fundamentais do filme. Para Tom, desafiar o "facínora" só mesmo na bala. Já Ranse preferia que o bandido fosse julgado, condenado e preso. Matá-lo seria assassinato. O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA, assim como RASTROS DE ÓDIO (1956), tem muito pouco dos habituais alívios cômicos dos filmes de Ford. Talvez o único esteja na figura do xerife gordo, covarde, glutão e de voz aguda vivido por Andy Levine. Nos créditos iniciais já se sente que se trata de um filme especial. A placa de madeira escrita com o título do filme remete diretamente a uma das melhores obras de Ford: PAIXÃO DE FORTES (1946). Era John Ford de volta ao preto e branco. No elenco, pela primeira vez juntos, dois grandes astros: Wayne e Stewart. Como o pivô de um triângulo amoroso no qual só um sairá ganhando, a bela e expressiva Vera Miles. Outro nome conhecido no elenco é o de Woody Strode, como o ajudante de Wayne. Para os fãs do western spaghetti vale mencionar a pequena participação de Lee Van Cleef (TRÊS HOMENS EM CONFLITO) como um dos bandidos do bando de Liberty Valance.

Pode-se considerar O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA como uma homenagem aos mortos, aos homens que tiveram que morrer e lutar no ambiente hostil do oeste selvagem, dominado por bandidos foras-da-lei e índios valentes e cruéis para que as novas gerações, mais confortáveis com os benefícios do progresso, pudessem ter um pouco mais de paz. Eu havia assistido esse filme há muito tempo num Corujão da Rede Globo, mas nunca tinha me passado pela cabeça que poderia existir alguma dúvida quanto a quem matou Liberty Valance. Mas hoje li um texto interessante no site Images Journal, no qual o autor se pergunta: e se o tiro que matou Valance não foi mesmo do personagem de Stewart? E se na hora do duelo, ele não precisasse das presenças de Wayne e Strode às escondidas para ajudá-lo? Achei interessante esse questionamento e não sei se Ford chegou a ponderar sobre isso. Mas como Ford era muito mais profundo e enigmático do que muitos imaginam, não duvido nada.

segunda-feira, outubro 22, 2007

SUPERBAD - É HOJE (Superbad)



Nos anos 80, quando comédias como PORKY'S e A VINGANÇA DOS NERDS faziam sucesso, tenho a impressão de que naquela época esse tipo de filme era desprezado pela crítica e considerado apenas diversão escapista até para os fãs. No entanto, hoje em dia, esse tipo de comédia que mistura sentimentos de amizade com piadas de "mau gosto" são bem mais respeitados. Talvez isso seja culpa dos irmãos Farrelly, mas que bom que isso tem acontecido. A comédia é um gênero que merece ter a total liberdade de fazer piada com o que bem entender. E SUPERBAD - É HOJE (2007), que é dirigido por Greg Mottola, mas que todo mundo só lembra que é produzido por Judd Apatow e escrito por Seth Rogen, está recebendo o respeito merecido, pelo menos por boa parte da crítica. Comparações com o recente LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS acabam sendo inevitáveis. Qual é o melhor dos dois? Bom, eu diria que LIGEIRAMENTE GRÁVIDOS é um pouco melhor, mas que SUPERBAD é bem mais engraçado. Já gostei de cara de uma das primeiras piadas do filme, envolvendo os peitos da mãe de um dos dois amigos.

O filme mostra o desespero de dois jovens amigos, Seth (Jonah Hill) e Evan (Michael Cera), para conseguir "comer alguém" numa das festas de fim de curso. Seth - o personagem, não o ator - é um sujeito gordo que tem obsessão por sites pornôs e que encara as mulheres apenas como uma necessidade para transar; já Evan é um sujeito mais respeitador, mais romântico e é apaixonado por uma das meninas da sua sala de aula. Eles são virgens, bem pouco populares na escola e precisam mudar essa situação. Na cabeça deles, entrar na faculdade sem ter uma razoável experiência sexual seria o fim. E a chance deles está numa das festas promovidas pelos alunos no final do curso. Eles acreditam que só conseguirão "traçar" alguma menina se ela estiver bêbada. O problema é que como eles ainda são menores de idade - e as meninas também -, eles não podem comprar bebida alcóolica. E quem consegue uma carteira falsa é o outro amigo deles, Fogell (o estreante Christopher Mintz-Plasse), o estereótipo perfeito de um nerd. Ele consegue uma carteira de identidade falsa mas com o nome "McLovin", nome que é motivo de riso em diversas ocasiões, principalmente quando dito pelos dois policiais trapalhões (Seth Rogen e Bill Hader) que levam o menino pra passear em sua viatura.

O legal do filme é que ele é autenticamente adolescente, já que a estória começou a ser escrita por Seth Rogen e Evan Goldberg - não por acaso o nome dos personagens - quando eles tinham treze anos de idade. Além do mais, os três jovens protagonistas do filme são mesmo adolescentes e não adultos se fingindo de adolescentes. Um fato curioso diz respeito aos desenhos de pênis que aparecem no filme. Soube que a MPAA (Motion Picture Association of America, a companhia que dita a classificação indicativa dos filmes nos Estados Unidos) não achou de bom gosto aquilo, principalmente por ter uma cena de uma garotinha vendo e se assustando com um desenho de um pênis. Apesar da censura 16 anos que o filme pegou aqui - Rated R nos EUA - praticamente não há cenas de nudez no filme, embora sexo seja o "Ponto G" de SUPERBAD. Nos EUA a censura pesou mais também por causa do excesso de palavrões, em especial, aquela famosa palavrinha que começa pela letra "f". Pra completar, tem cena de uma criança segurando um revólver com fascínio. Por isso, não deixa mesmo de ser uma classificação razoável. Censuras à parte, no fim das contas, SUPERBAD é mais um filme para meninos, que são os que mais riem nas sessões. Já as meninas, em sua maioria, devem achar o filme de uma grosseria sem tamanho.

P.S.: Infelizmente o Festival Varilux de Cinema Francês sofreu uma triste alteração: AS TESTEMUNHAS, de André Téchiné, não está mais na programação. Uma pena.

sábado, outubro 20, 2007

A HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN (Histoire de Marie et Julien)



Não me lembro quanto tempo faz que eu assisti A BELA INTRIGANTE (1991) no cinema. Acho que foi em 1992, numa pequena mostra de sete filmes que fizeram sucesso na edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquele ano. Infelizmente, essa foi a única iniciativa que os organizadores dos cinemas daqui um dia fizeram. E eu estive nessa sessão única desse filme de Jacques Rivette no hoje extinto Studio Beira-Mar, que era uma pequena e simpática sala de cinema dedicada a filmes mais alternativos e que acabou fechando com a chegada das duas salas do Espaço Unibanco. Lembro que A BELA INTRIGANTE, por ter cerca de quatro horas de duração, ofereceu aos espectadores um intervalo de cinco a dez minutos para que eles fossem ao banheiro, ou comprassem alguma bebida ou apenas para esticar as pernas. Mas essas quatro horas foram como duas, de tão agradáveis que foram, principalmente pelo fato de estar contemplando a nudez de Emmanuelle Beàrt quase que o filme inteiro.

A HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN (2003) é a volta da parceria de Rivette com Emmanuelle Beàrt, doze anos depois. Dessa vez, numa história de fantasmas. Aliás, Rivette não gosta da palavra "fantasma", como se pode ver na entrevista de 40 minutos que vem no dvd importado (americano, canadense?). Ele prefere chamar os personagens não vivos de espíritos. Segundo ele, espíritos são aqueles seres que ficam entre os dois mundos, o carnal e o espiritual. Pois bem, trata-se de uma história de espíritos, de um homem que se apaixona por um espírito. Mas um espírito tão carnal quanto qualquer um de nós, com os mesmos desejos e necessidades físicas. Acredito que esse tipo de abordagem é inédita no cinema, mas posso estar enganado.

O filme se divide em quatro capítulos: 1. Julien; 2. Julien e Marie; 3. Marie e Julien; e 4. Marie. Aos poucos, o ponto de vista do filme, vai passando de Julien (o polonês Jerzy Radziwilowicz) para Marie, à medida em que os mistérios vão sendo solucionados. Tem uma seqüência em especial que eu achei puramente lynchiana. Como se o cineasta americano tivesse incorporado em Rivette. Trata-se da cena de um sonho, em que Marie conversa com uma mulher morta. A mulher, depois de falar com ela de maneira enigmática, despede-se com as mãos se cruzando sobre o rosto, algo que me lembrou bastante certos filmes de Lynch. Porém, na entrevista que compõe o dvd, Rivette comentou que buscou inspiração nas seqüências de sonho em Buñuel.

A intrigante trama de A HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN envolve um homem (Julien) que chantageia uma mulher que se autodenomina Madame X (Anne Brochet) e que quer de volta alguns objetos. Julien, sabendo o quanto essa mulher deseja tais objetos, pede uma fortuna em dinheiro. Certo dia, ele encontra Marie (Beàrt) e os dois sentem uma conexão forte entre um e outro. Eles voltam a se encontrar e ele pede para que ela passe a morar com ele numa casa enorme e meio abandonada pela ausência de uma mulher. Ele, obcecado pelo seu ofício de relojoeiro, não tem muito tempo nem vontade de arrumar a bagunça. Antes da chegada de Marie, sua única companhia era um gato preto chamado "Nevermore", como no famoso poema "O Corvo", de Edgar Allan Poe.

Desde o início, o filme guarda uma estranheza bastante agradável. Aliás, essa sensação agradável de prazer estético, de sentir que estamos vendo algo especial, acontece sempre quando vemos um filme de um diretor de primeira grandeza como Rivette. E no caso de A HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN, mesmo quando o filme vai descortinando sua verdadeira face, o encanto e o mistério continua. Engraçado que eu tinha a impressão que o filme seria mais erótico, mas o aspecto carnal do filme é quase nulo, estando mais para o espiritual. Basta notar que na cena em que Marie e Julien estão na cama, um de seus maiores prazeres é ficarem contando fantasias, criando com a ajuda do outro fantasias eróticas, como se mentalização desses pensamentos fosse mais importante que o próprio ato sexual, que é pouco mostrado, omitido pelas elipses à Bresson.

Outra coisa que eu constatei durante a entrevista de quinze minutos da Emmanuelle Beàrt é o quanto ela é inteligente e interessante. Arriscaria generalizar uma comparação com as atrizes americanas, que geralmente não têm muito a dizer. Elas falam meia hora e não dizem nada. Por isso que sempre prefiro entrevistas com diretores; atores e atrizes não são tão interessantes intelectualmente. Mas talvez pela própria natureza dos franceses de estudarem, de filosofarem, de serem os grandes teóricos do cinema, as atrizes francesas talvez sejam também interessantíssimas entrevistadas. Confesso que me surpreendi com a inteligência e a sensibilidade de Beàrt, que além de falar de aspectos mais profundos do seu papel e da espiritualidade, conta que Rivette a deixava de propósito totalmente perdida e de ter se sentido como "carne" - nem quando ela teve que ficar o tempo inteiro nua em A BELA INTRIGANTE ela se sentiu assim. No começo das filmagens, inclusive, ela nem sabia que tipo de personagem ela era, já que o roteiro ia sendo entregue aos poucos durante o processo de realização.

A HISTÓRIA DE MARIE E JULIEN continua inédito comercialmente no Brasil.

Agradecimentos especiais ao amigo Milton do Prado, que me deu de presente uma cópia desse maravilhoso filme.

quinta-feira, outubro 18, 2007

JUSTIÇA A QUALQUER PREÇO (The Flock)



Decepção total o début de Andrew Lau (a.k.a. Lau Wai-Keung) em Hollywood. Lau foi um dos diretores do ótimo policial CONFLITOS INTERNOS (2002), o filme que deu origem ao oscarizado OS INFILTRADOS, de Martin Scorsese. Talvez por não ter total controle de seu trabalho, ou por não se adequar à máquina hollywoodiana, o fato é que JUSTIÇA A QUALQUER PREÇO (2007) é uma mistura de O SILÊNCIO DOS INOCENTES com 8 MM com os tiques nervosos de Michael Bay e Tony Scott. A fotografia é aquela cheia de filtros, imagem esmaecida, meio em tom sépia e a estória é chata, nebulosa, não envolvente. Aborrecida até. Nem a presença da adorável Claire Danes no elenco ajuda a tornar o filme mais interessante, já que ela parece estar totalmente deslocada no papel. E o que são aqueles efeitos irritantes de videoclipe dos anos 90? Eles acham que o público gosta daquilo, acha moderno?

Na trama, Richard Gere é um agente encarregado de vigiar suspeitos e acusados de delitos sexuais, principalmente os casos envolvendo crianças ou menores em crimes hediondos. Prestes a se aposentar, Claire Danes aparece como sua substituta. Ela o acompanhará durante três semanas para aprender o serviço e conhecer os casos que ele anda investigando. E quem aparece num papel pequeno no filme é a cantora Avril Lavigne, em seu segundo trabalho como atriz - ela aparece também em NAÇÃO FAST FOOD, de Richard Linklater. Vamos ver se ela vai evoluir como estrela em Hollywood. Quanto ao filme, sinceramente não tenho mais nada pra falar sobre ele não. Nem quero me lembrar daquele final ridículo. Melhor negócio é mandar o Lau de volta pra China.

Vocês têm notado quantos filmes ruins estão chegando nos cinemas? Tirando TROPA DE ELITE ou um outro filme razoável, esse mês de outubro está fraquíssimo. Geralmente nessa época entre-mostras é assim, com as distribuidoras guardando os melhores filmes pra quando terminar a Mostra de São Paulo, mas esse ano está sendo ainda pior, já que nem os filmes de terror estão pintando - bom, tem INVASORES e JOGOS MORTAIS IV nos próximos fins de semana, mas esses aí não estão com essa bola toda não, embora eu acabe os assistindo. Agora o mês de novembro promete. Ainda que eu custe a crer que a Europa Filmes vai lançar IMPÉRIO DOS SONHOS, de David Lynch, no dia de Finados, como alguns estão dizendo, de acordo com a programação do site Cineclick (que talvez já esteja desatualizada), estão agendados para o próximo mês: VALENTE, de Neil Jordan; SENTENÇA DE MORTE, de James Wan; PLANETA TERROR, de Robert Rodriguez; 30 DIAS DE NOITE, de David Slade; ANTES SÓ DO QUE MAL CASADO, dos irmãos Farrelly; NO VALE DAS SOMBRAS, de Paul Haggis; O SIGNO DA CIDADE, de Carlos Alberto Ricelli; VIAGEM A DARJEELING, de Wes Anderson; O ASSASSINATO DE JESSE JAMES PELO COVARDE ROBERT FORD, de Andrew Dominik; OS INDOMÁVEIS, de James Mangold; e A LENDA DE BEOWULF, de Robert Zemeckis. Preparem seus bolsos!

quarta-feira, outubro 17, 2007

ANTHONY STEFFEN EM TRÊS FILMES



Antonio Luiz de Teffé nasceu na embaixada brasileira em Roma, adquirindo desde o nascimento dupla cidadania: brasileira e italiana. Ele entrou para a história ao adotar o pseudônimo Anthony Steffen e tornar-se um dos principais astros do western spaghetti. Toda a história desse rapaz - e inclusive um pouco dos seus ancestrais de sangue azul - é contada em "Anthony Steffen - A saga do brasileiro que se tornou astro do bangue-bangue à italiana", livro que eu já devo ter comentado por aqui umas três vezes. E esse livro foi o meu guia para eu ir à cata de westerns estrelados pelo ator. Infelizmente, alguns dos melhores filmes que ele trabalhou ainda não estão disponíveis em dvd no Brasil, mas como todo mês alguns títulos vêm surgindo, é possível que obras como JOHNNY TEXAS (1966), KILLER KID (1967), SHANGO, UMA PISTOLA INFALÍVEL (1970) e APOCALIPSE JOE (1970) apareçam por essas bandas. SETE DÓLARES PARA MATAR (1966) é considerado um dos melhores e saiu em dvd pela Spectra Nova, mas eu ainda não consegui encontrá-lo. De qualquer maneira, ficarei de olho nos balaios dos principais magazines e em bancas de revista. Acredito que o fato de ver esses filmes, ainda que alguns deles não sejam exatamente bons, tenha reavivado um pouco em mim o prazer de ver um western à italiana. Claro que a minha preferência continua sendo pelo western americano - Ford, Hawks, Mann e cia são imbatíveis -, mas os carcamanos conseguem ser vez ou outra geniais, como podemos ver nos comentários que a turma deixou no post de DJANGO, de Sergio Corbucci, logo abaixo. Vamos, então, aos três filmes que eu loquei:


UM CAIXÃO PARA O XERIFE / FRENTE A FRENTE COM PISTOLEIROS (Una Bara per lo Scheriffo / Tumba para el Sheriff / Lone and Angry Man / A Coffin for the Sheriff)


É o melhor dos três. Tem uma narrativa envolvente, um bom senso de ritmo e a qualidade do dvd da Ocean Pictures ajuda bastante na apreciação - imagem em widescreen 1.85:1. UM CAIXÃO PARA O XERIFE (1965), de Mario Caiano, tem um início muito rápido na apresentação do enredo, o que eu até achei estranho para um filme desse subgênero. No começo, vemos um grupo de bandidos atacando uma caravana e matando um grupo de pessoas. A cavalaria chega para salvar, mas chega tarde e os bandidos fogem e as pessoas morrem. Uma delas é a namorada de um dos soldados da cavalaria (Steffen). Em busca de vingança, ele abandona o exército, infiltra-se no bando, conquista a confiança do chefe deles e segue matando um a um, principalmente o assassino de sua amada. UM CAIXÃO PARA O XERIFE é diversão garantida e o filme não perde o pique em momento algum.

UM TREM PARA DURANGO (Un Treno per Durango / Un Tren para Durango / Train for Durango)

Se UM CAIXÃO PARA O XERIFE era uma "festa", o mesmo não se pode dizer de UM TREM PARA DURANGO (1967), também de Mario Caiano, mas que ele assina sob o pseudônimo de William Hawkins. Talvez por vergonha de ter cometido filme tão ruim. O pior é que a cópia do dvd (Editora D+T) é uma bosta, uma cópia descarada de um vhs antigo e surrado. Como o filme foi produzido originalmente em scope, é comum a gente notar personagens falando fora do nosso campo de visão. UM TREM PARA DURANGO é um zapata-spaghetti em chave cômica, precursor dos populares filmes da série Trinity. O momento mais memorável é, sem dúvida, aquele em que os heróis do filme (Steffen e Mark Damon) sofrem uma terrível tortura: eles são enterrados no chão, apenas com a cabeça do lado de fora, e cavalos passam por eles. O objetivo dos bandidos é convencê-los a dizer onde está a chave para abrir um cofre cheio de moedas de ouro. Há quem diga que o filme não é ruim, que é necessário entrar no clima, mas infelizmente não entrei no clima.

DJANGO, O BASTARDO (Django, il Bastardo / Django the Bastard / Stranger's Gundown)

Não tão bom quanto o DJANGO do Corbucci, mas este DJANGO, O BASTARDO (1969), de Sergio Garrone, tem o seu charme. Na trama, Steffen é um misterioso homem que se veste igualzinho ao Clint Eastwood em POR UM PUNHADO DE DÓLARES e que chega com uma cruz na mão com um nome de um de seus desafetos. Ele crava a cruz no chão, o tal sujeito aparece aterrorizado só pra levar bala e morrer perto da cruz. E assim ele vai matando misteriosamente alguns homens. A fama de Django vai ganhando força na cidade e muitos acreditam se tratar de um fantasma. Acredito que uma das falhas do filme é demorar demais a entregar para o espectador as razões da vingança do protagonista. No começo, é até legal, misterioso e tal, mas depois cansa. O filme ganha novo fôlego quando descobrimos, através de um flashback, o porquê de Django estar matando certas pessoas. O filme melhora, mas senti falta de um final de mais impacto. Apesar disso, Anthony Steffen arrebenta no papel de Django e disputa pau a pau com o Django do Franco Nero em classe e virilidade. O filme saiu em dvd pela London e pela New Line. Vi no dvd da London, mas infelizmente o disco estava cheio de arranhões e tive que ficar passando e voltando pra poder ver o filme até o fim.

Agradecimentos especiais a Heráclito Maia e Rodrigo Pereira.

terça-feira, outubro 16, 2007

A MULHER DO AVIADOR (La Femme de l'Aviateur)



Quando passei na locadora pra dar prioridade aos westerns spaghetti, não resisti quando vi na prateleira mais um Rohmer inédito pra mim: A COLECIONADORA (1967). Mas não é desse filme que eu quero falar agora, até porque nem tive tempo de assistir e acabei copiando pra ver noutro dia. Hoje quero fechar o ciclo "Comédias e Provérbios" com o filme que faltava eu ver: justamente o primeiro: A MULHER DO AVIADOR (1981). Diferente de Godard - e até mesmo de Truffaut - cuja peregrinação por suas obras eu acabei interrompendo no meio do caminho, com Rohmer é justamente o oposto. Ver mesmo seus filmes menores constitui pra mim um enorme prazer. E quero ver o máximo que puder, aproveitando agora que eles estão saindo em dvd no Brasil.

Apesar de curtir tanto o trabalho do diretor, não deixei de me desapontar um pouco com A MULHER DO AVIADOR, que muitos consideram um dos melhores do ciclo "Comédias e Provérbios". Talvez o meu desapontamento venha do fato de que, dos seis filmes desse ciclo, esse é o único em que a ação é quase estática. Não acontece praticamente nada. Na trama, François (Philippe Marlaud) é um rapaz apaixonado pela namorada Anne (Marie Rivière, figura constante nos filmes do diretor) e que está com ciúme pelo fato de um ex dela ter aparecido no apartamento da moça logo de manhã. Como acontece em vários outros filmes do mesmo ciclo, a moça está um pouco cansada do relacionamento e sente-se um pouco sufocada com a presença do rapaz. As mulheres de Rohmer, aliás, são geralmente assim: insatisfeitas, seja num relacionamento, seja na solidão. François fica um pouco transtornado quando percebe que sua namorada está dando um "gelo" nele e, sem conseguir dormir (ele trabalha à noite), resolve passar o dia seguindo o tal ex de Anne, que passeia ao lado de uma mulher loira. No meio dessa "perseguição implacável", ele esbarra com uma adolescente super-simpática e adorável chamada Lucie (Anne-Laure Meury). Ela é, de longe, a melhor coisa do filme. E a longa seqüência da conversa entre ela e François lembra bastante ANTES DO PÔR-DO-SOL, de Richard Linklater. Não me admiraria se Linklater dissesse que teria se inspirado nesse filme para a realização de sua obra-prima.

Bom, mas se todo esse desenvolvimento é tão bom, o que afinal me frustrou em A MULHER DO AVIADOR? Acredito que foi o final, meio inconcluso. Talvez eu estivesse mal acostumado com aquele final super-feliz de O AMIGO DA MINHA AMIGA (1987), de deixar a gente com um sorriso de orelha a orelha. A MULHER DO AVIADOR, ainda que não seja necessariamente triste, é mais "duro", como a vida. E o curioso é que a personagem que a gente menos conhece no filme é justamente a "mulher do aviador" do título. Alguma coisa isso deve significar.

Pra terminar, meu ranking "Comédias e Provérbios":

1. O RAIO VERDE (1986)
2. PAULINE NA PRAIA (1983)
3. NOITES DE LUA CHEIA (1984)
4. O AMIGO DA MINHA AMIGA
5. A MULHER DO AVIADOR
6. UM CASAMENTO PERFEITO (1982)

segunda-feira, outubro 15, 2007

NUNCA É TARDE PARA AMAR (I Could Never Be Your Woman)



Não gastei o meu suado dinheirinho para ver este filme tão ruinzinho no cinema e resolvi pegá-lo pelas vias alternativas. Mesmo assim, tive de gastar uma hora e meia do meu tempo para ver este NUNCA É TARDE PARA AMAR (2007), bola fora de Amy Heckerling, cineasta que no passado dirigiu um pequeno clássico juvenil chamado PICARDIAS ESTUDANTIS (1982) e que representou bem a juventude dos anos 90 em AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (1995), numa livre adaptação do romance "Emma", de Jane Austen. Bom, como não gosto de chutar cachorro morto e tenho uma queda pela Michelle Pffeifer, vou procurar encontrar algo que se aproveite nesse filme.

NUNCA É TARDE PARA AMAR, ainda que seja um filme sem graça, desleixado, manjado e que não envolve emocionalmente o espectador em momento algum, ao menos traz à tona um tema que vem causando preocupação para muita gente, que é o fato de envelhecer, de ir perdendo a beleza, a juventude, de se ficar pra trás até na linguagem e no comportamento. Claro que isso não é nenhuma novidade. Desde que o mundo é mundo as pessoas nascem, crescem, envelhecem e morrem. É o curso natural da vida. Acontece que vivemos num momento especial, em que as pessoas ficam logo desesperadas quando surgem as primeiras rugas ou o primeiro cabelo branco. Aí entram a cirurgia plástica, o uso dos cosméticos, do botox e técnicas de rejuvenescimento mais alternativas, que envolvem até bruxaria. Eu, pelo menos, lembro de ter lido um livro de uma louca chamada Linda Goodman, que dava dicas de como não envelhecer, aliás, de como viver para sempre! O livro se chama "Signos Estelares", pra quem quiser ir atrás e se liga em astrologia, numerologia e afins.

Talvez Michelle Pfeiffer tenha algum segredo que não queira contar pra gente, já que está perto dos cinqüenta anos e continua linda, exuberante, apaixonante. No filme, ela é uma produtora e roteirista de séries de tv que está à procura de novos talentos para alavancar a audiência do seu canal. Paul Rudd é o jovem ator que se candidata à vaga. Ela fica encantada pelo rapaz e ele por ela e ambos começam a ter um romance, embora a diferença de idade sempre a incomode. Bom, basicamente a trama é essa. Tem as subtramas da filha da personagem da Michelle que até tem a sua graça, especialmente perto do final, mas só mesmo Michelle pra me fazer ver um filminho tão medíocre. Atualmente, ela está em cartaz nos cinemas com outro filme: a fantasia STARDUST - O MISTÉRIO DA ESTRELA, baseada na graphic novel de Neil Gaiman.

domingo, outubro 14, 2007

TROPA DE ELITE



Numa das cenas de TROPA DE ELITE (2007), André, o personagem de André Ramiro dança numa festa com uma colega da faculdade. Ele é dos poucos policiais que insiste em fazer faculdade de Direito. Enquanto eles dançam ao som de "Shiny Happy People", do R.E.M., o DJ bota pra tocar "Polícia", dos Titãs na pick-up. Obviamente ele não gosta nada. André, como jovem membro do Bope, acredita no seu trabalho, acredita que existe honestidade na força policial e que a visão burguesa que os seus colegas têm da polícia é bem superficial.

TROPA DE ELITE é um dos poucos filmes brasileiros a mostrar o ponto de vista dos policiais. Estamos acostumados a ver nos nossos filmes a visão dos bandidos, dos traficantes ou daqueles que moram nos morros do Rio de Janeiro ou na periferia de São Paulo e sofrem com a rotina de violência. Com a situação alarmante de guerra civil noticiada todos os dias nos telejornais, a população, mesmo as das classes média e alta, as principais consumidoras das drogas vendidas pelos traficantes, sabe que algo precisa ser feito.

Talvez TROPA DE ELITE seja o começo de um retrocesso na maneira de ver da sociedade ou da mídia. Talvez estejamos voltando aos tempos em que ser "subversivo" era coisa de bandido, e não um termo usado para designar pessoas ousadas e corajosas a ponto de peitar o sistema e os tabus da sociedade. Ser maconheiro, então, era um crime gravíssimo. E é por isso que o filme é acusado por muitos de fascista, de tentar trazer de volta os anos negros da ditadura militar. E talvez tocar "Lado B Lado A", d'O Rappa, nos créditos finais seja uma maneira de equilibrar um pouco a balança "polícia versus habitante do morro", já que as canções da banda costumam se solidarizar com as comunidades dos morros, inclusive os "olheiros", os "fogueteiros" etc.

É praticamente impossível deixar de lado a questão social do filme, mas é sempre bom lembrar que estamos diante de um dos melhores, senão o melhor filme policial já feito no Brasil. José Padilha, estreando na ficção depois do documentário ÔNIBUS 174 (2002), que agora está sendo dramatizado pelas mãos de Bruno Barreto, provou que é possível fazer cinema de gênero de excelente qualidade no país e com cenas de ação de tirar o fôlego. A sua experiência como documentarista contribuiu para tornar o filme ainda mais realista, com direito até a sangue na lente numa determinada cena. Tudo bem que o Brasil já produziu filmes policiais de primeira linha e com a nossa cara nos anos 70, mas infelizmente as novas gerações desconhecem.

Wagner Moura é a alma do filme, como o Capitão Nascimento, o homem que sofre de ataques de pânico e tem uma mulher grávida (Maria Ribeiro) em casa, que insiste para que ele saia do Bope. O fato de o filme mostrar o lado frágil de Nascimento torna-o mais humano e não apenas uma versão brasileira de um Chuck Norris ou qualquer outro herói ou anti-herói do cinema americano. Se há algo para se falar contra TROPA DE ELITE do ponto de vista narrativo talvez esteja na maneira superficial como é mostrado o vilão, o traficante Baiano (Fábio Lago). Porém, se o filme tentasse abordar mais a fundo o personagem talvez isso comprometesse o ritmo - um dos maiores méritos do filme é a sua edição ágil. Não cheguei a ver a cópia pirata, mas gostei também da cronologia adotada. A cena do treinamento lembra bastante NASCIDO PARA MATAR, de Stanley Kubrick.

Quanto ao vazamento das cópias piratas nos camelôs e na internet, o fato de isso ter sido usado como marketing para o filme só foi possível porque TROPA DE ELITE é bom e de apelo popular. Se fosse ruim, passaria desapercebido. E é sabido que as classes mais pobres já perderam o hábito de ir ao cinema há muito tempo e essa é uma chance de elas participarem dessa discussão, desse verdadeiro acontecimento que pode mudar o rumo não apenas do cinema brasileiro como também influenciar a maneira como o povo pode passar a enxergar a guerra entre polícia e bandido. Para o bem e para o mal.

sexta-feira, outubro 12, 2007

DJANGO



Diria que se não fosse pelo livro sobre Anthony Steffen que estou terminando de ler, não teria saído hoje da locadora com quatro spaghetti westerns debaixo do braço, três deles, estrelados por Anthony Steffen. Mas como um dos filmes de Steffen que peguei se chama DJANGO, O BASTARDO, resolvi também pegar o filme que deu origem ao popular vingador solitário: DJANGO (1966), de Sergio Corbucci. Do mesmo diretor, só havia visto O VINGADOR SILENCIOSO (1968), filme que me impressionou bastante e que eu considero bem melhor que DJANGO. Como todo western produzido na Itália, DJANGO também tem aquele clima operístico, exagerado e um tempo dilatado nas cenas de duelo. Os italianos preferiam colocar nos seus filmes aquilo que mais lhes interessavam no western americano: a violência, a sujeira, as tramas de vingança. As estórias eram basicamente muito simples.

No caso de DJANGO, nem roteiro eles tinham quando começaram as filmagens. O que eles tinham mesmo era vontade de fazer filmes. E de ganhar dinheiro, claro, já que POR UM PUNHADO DE DÓLARES e POR UNS DÓLARES A MAIS, ambos de Sergio Leone, haviam arrecadado muito bem em todo o mundo. Pois bem, no caso de DJANGO, Corbucci e sua turma ainda não tinham um roteiro pronto e tiveram que interromper as filmagens para que o irmão de Sergio Corbucci, Bruno Corbucci, bolasse uma estória. E o resultado foi uma estória simples, mas que tinha o seu mistério. Logo no começo, vemos um homem (Franco Nero) andando pelo deserto e arrastando um caixão com uma corda. Quem seria esse homem? Teria alguém dentro daquele caixão? Ou seria um caixão reservado para alguém que ele planejaria matar? Essas respostas seriam respondidas ao longo do filme, mas muito do passado misterioso do personagem permaneceria não respondido. Django, quando aparece, salva uma mulher que está apanhando de um grupo de homens perversos, sendo golpeada com um chicote. Naquele mundo sem Deus, aquela mulher não tinha em quem confiar, nem nos mexicanos bandoleiros nem nos americanos racistas. Todos eram bandidos e havia uma guerra travada entre eles cujo cenário é um bordel.

Franco Nero faz o típico herói solitário fodão, como Clint Eastwood nos filmes do Leone. Ele também tem uma habilidade incrível com o gatilho, capaz de matar vários homens em questão de segundos. Isso não tem nada de original, já que nos westerns americanos há muito disso também e isso acabou se tornando um dos clichês mais poderosos do gênero, mas há detalhes que tornam DJANGO um filme bastante original. Eu destacaria os soldados americanos, chefiados pelo Major Winchester Jack, que aparecem com uma espécie de turbante vermelho cobrindo a cabeça, tendo apenas dois buracos para os olhos. O cenário cheio de lama também dá um tom bastante sujo ao filme, mais do que qualquer outro western que já vi. Também a violência é uma característica marcante de DJANGO, tanto que o filme chegou a ser proibido na Inglaterra durante muitos anos.

De extra, além do trailer e das pequenas notas sobre Nero e Corbucci, o DVD da New Line vem com uma curta mas interessante entrevista com Franco Nero.

quinta-feira, outubro 11, 2007

EM BUSCA DA VIDA (Sanxia Haoren / Still Life)



Hoje não é sexta, mas é como se fosse. Vem aí um feriadão de quatro dias a começar de amanhã. Ueba! Viva as crianças! Viva Nossa Senhora Aparecida (é ela mesmo a homenageada?)! Viva o dia do securitário - dia de quem?! Melhor do que isso só no carnaval! Bom, e como é uma quase sexta, vou fazer como na semana passada e resgatar da minha já não tão boa memória um filme que eu vi já faz alguns meses.

Ganhei o divx de EM BUSCA DA VIDA (2006) de presente do meu amigo Marcos. O filme, inclusive, está agendado para passar nos cinemas daqui em breve e estou até pensando em rever. Com certeza, deve ser uma experiência muito melhor, já que o forte do filme é a beleza das imagens, o aspecto contemplativo, o uso do som e dos silêncios. Vale lembrar que o diretor, o chinês Jia Zhang Ke, ganhou uma mostra especial com seus filmes na edição deste ano da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Pra ser sincero, eu demorei a falar sobre EM BUSCA DA VIDA por não ter assimilado muito bem o filme, tanto por não entender bem as motivações dos personagens, quanto por não ter conhecimento da atual situação socio-econômica da China. E por mais que eu tenha gostado do andamento lento, dos belíssimos planos gerais, da beleza da paisagem natural, contrastando com a destruição dos prédios e com a miséria e a decadência do povo chinês, o fato de não ter me importado com os personagens contribuiu um pouco para que o filme não me conquistasse da maneira que gostaria. Achei interessante a mudança de cena, da história de um homem à procura de sua filha para a de uma mulher à procura de seu marido. O resultado não ficou muito uniforme, mas a força das imagens e da direção de Jia Zhang Ke compensam.

O filme é uma denúncia da falta de humanidade do governo chinês, que pouco se importa com a vida de milhares de pessoas que perdem seus lares. O que importa é construir prédios bonitos, pontes luminosas para posar de país moderno. As pessoas que se explodam. O que causa certo estranhamento é a utilização de cenas surreais e inesperadas como a de um prédio que vira um foguete. O filme foi feito de forma independente e sem ter que prestar contas ou fazer propaganda para o governo chinês. EM BUSCA DA VIDA mostra a conseqüência na vida de milhares de pessoas que moravam nas margens do Rio Yangtsé e que tiveram que sair de lá para a construção da barragem das Três Gargantas. Quem foi tocado pelo filme de forma especial foi o meu amigo Marcos Felipe, cuja cidade onde ele nasceu foi inundada para a construção de uma barragem.

P.S.: Saiu a lista dos filmes programados para o 6º Festival Varilux de Cinema Francês, que percorre 12 cidades brasileiras e, graças a Deus, Fortaleza está incluída. Os sete filmes selecionados foram: AO LADO DA PIANISTA, de Denis Dercourt; AS TESTEMUNHAS, de André Téchiné; LA NAISSANCE DES PIEUVRES, de Céline Sciamma; LA VÉRITÉ OU PRESQUE, de Sam Karmann; EM PARIS, de Christophe Honoré; A CULPA É DO FIDEL, de Julie Gravas; e LE BALLON ROUGE & CRIN BLANC, de Albert Lamorisse. O único nome conhecido pra mim é o de Téchiné, cineasta que ganhou um artigo interessantíssimo do Filipe Furtado na última edição da Paisà. Acredito que os outros filmes ainda ganharão títulos nacionais.

quarta-feira, outubro 10, 2007

ELA É A PODEROSA (Georgia Rule)



Não se engane com o título brasileiro horroroso, com o trailer que vende o filme como uma comédia sem graça e com o horrível cartaz. Eu, pelo menos, acabei subestimando o filme e deixando passar nos cinemas. Depois que vi comentários elogiosos de gente de minha confiança, resolvi baixar o divx e o que vi foi um sensível drama familiar, elegante e suave, ainda que trate de temas pesados como o incesto, o abuso infantil, o alcoolismo e a dificuldade de educar os filhos. Garry Marshall é o homem cujo maior sucesso comercial é o pequeno clássico UMA LINDA MULHER (1990), que também tratava de um assunto um pouco pesado de maneira leve - no caso, a prostituição. ELA É A PODEROSA (2007) é melhor, mais denso, mais sóbrio, menos "sessão da tarde". E promove o encontro de três atrizes de diferentes gerações - Jane Fonda, Felicity Huffman e Lindsay Lohan - em ótimos desempenhos.

A idade chegou para Jane Fonda e hoje ela está fazendo papel de vovó. Seu papel no filme é um dos melhores papés femininos do ano. Ela é a Georgia do título original, uma senhora de temperamento forte que criou sua filha (Felicity Huffman) com uma educação cheia de regras, as chamadas "Georgia rules". Se a filha perdesse o horário do almoço, por exemplo, a menina teria que esperar pela hora do jantar. Tentando não dar a mesma educação rígida para sua filha (Lindsay Lohan), ela acaba deixando a menina livre demais para fazer o que quer e a menina torna-se meio que uma rebelde sem causa. Bom, as coisas não são tão simples assim e uma maneira de educar não necessariamente leva alguém a se tornar alcóolatra ou rebelde. Também não acredito que tudo que somos vêm de nossa formação familiar e da sociedade em que vivemos, mas muito do que nossos pais, professores e amigos nos ensinam com certeza fica. Acho que eu acredito mais na personalidade inata de cada indivíduo do que nesse lance de "o homem é produto do meio".

O filme começa com Lindsay se recusando a entrar no carro da mãe, depois de uma briga entre elas. As duas estão indo passar uns dias na casa de Georgia, numa cidade do interior. A garota não simpatiza muito com a idéia de deixar a sua cidade e ficar naquele lugar cheio de mórmons e caipiras. Lindsay aparece tão linda, tão sexy e irresistível que não tem como não se apaixonar. Ela dá em cima de um rapaz mórmon que planeja fazer um curso de missionário da sua igreja. A cena dos dois dentro do barco é um dos momentos mais excitantes do filme. Aliás, a personagem de Lindsay no filme tem tudo a ver com a sua persona na vida real, já que Lindsay vive entrando e saindo de clínicas de reabilitação, foi presa por dirigir embriagada e com posse de cocaína e adora passar as noites nas festas. Lindsay é uma bad girl canceriana que me faz lembrar muito uma outra bad girl canceriana por quem fui apaixonado quando tinha 18 anos. Acho que tenho atração por essas meninas perversas e ousadas. Pobre de mim.

terça-feira, outubro 09, 2007

TERRA BRUTA (Two Rode Together)



A primeira cena de TERRA BRUTA (1961) é uma auto-citação de outro famoso filme de John Ford: PAIXÃO DE FORTES (1946). Assim como o xerife interpretado por Henry Fonda ficava recostado numa cadeira com seus pés levantados, em TERRA BRUTA, lá está também James Stewart, na mesma condição de xerife, dessa vez, recebendo de seu empregado mexicano uma caneca de cerveja. Essa familiaridade com os filmes do diretor faz muito bem para quem acompanha a sua obra. Mas antes da aparição de Stewart, o que chama a atenção é a emocionante e solene música que toca nos créditos de abertura, de autoria de George Duning, autor da trilha do excelente GALANTE E SANGUINÁRIO (1957), de Delmer Daves. É daquelas músicas que tocam de imediato o coração, como se trouxesse um sentimento de saudade, como se já tivéssemos vivido naquele tempo, naquele lugar.

James Stewart, que tantas vezes usou o mesmo chapéu de caubói nos westerns de Anthony Mann, usa-o novamente nesse filme de Ford. Dizem que Ford implicava com o chapéu de Stewart, achava-o horrível, mas Stewart bateu o pé, quis ficar com o bendito chapéu e conseguiu. Era a primeira vez que o astro trabalhava com o diretor e felizmente tudo correu muito bem, tanto que os dois repetiram a parceria na obra-prima O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA (1962). E por mais que John Wayne seja um astro extraordinário e cheio de carisma, Stewart é um ator, no mínimo, muito mais versátil.

Na trama de TERRA BRUTA, Stewart é um xerife tranqüilo mas entediado com sua rotina. Por isso, quando o amigo e primeiro tenente interpetado por Richard Widmark aparece e o convida para uma missão, ele não pensa muito e aceita, mesmo sem saber direito do que se trata. Depois de atravessar um rio com os soldados do tenente, ele fica sabendo que o objetivo da missão é resgatar prisioneiros brancos das garras dos comanches. O problema é que muitos desses brancos foram raptados há muitos anos. Há cerca de dez anos, os índios raptaram duas crianças, um menino e uma menina. Mas isso já faz tanto tempo que muito provavelmente essas crianças já cresceram e assimilaram a cultura indígena, perdendo até mesmo o conhecimento da língua inglesa e a lembrança de sua família original.

A comparação com RASTROS DE ÓDIO (1956) não é gratuita. Na verdade, TERRA BRUTA mostra de maneira ainda mais brutal a perda de um familiar pelos índios e suas conseqüências. Entre os raptados, mais sorte teve a mulher branca de um dos índios (Linda Cristal) que se afeiçoa ao personagem de Stewart como se ele fosse o seu salvador. Woody Strode, o "sargento negro" de AUDAZES E MALDITOS (1960) faz o papel de um dos selvagens mais violentos, com cabelo moicano e tudo.

Eu adorei TERRA BRUTA. Pra mim é um dos meus preferidos do diretor. Adoro as cenas mais paradas, os tempos mortos, as conversas sem pressa entre Stewart e Widmark sentados à beira do rio, as travessias nos rios, a chegada dos dois no território comanche para a negociação. Mas o autor do livro da Taschen meio que criticou negativamente o filme. Aliás, o próprio Ford não gostou de TERRA BRUTA, chegando a dizer que "esta foi a pior porcaria que fiz em vinte anos". Tem coisas que eu não entendo. E acho que Ford estava ficando gagá.

segunda-feira, outubro 08, 2007

RESIDENT EVIL 3: A EXTINÇÃO (Resident Evil: Extinction)



Apesar de as continuações seguirem em trajetória descendente em relação ao original de 2002, há um charme nessa série que me atrai. E nem é preciso me conhecer pra saber que esse atrativo se deve às bravas e lindas mulheres da série. Em especial a Milla Jovovich. Em RESIDENT EVIL 3: A EXTINÇÃO (2007), ela está cada vez mais à vontade no seu papel. Se não temos mais a graça de Valentina (Sienna Guillory) de RESIDENT EVIL 2: APOCALIPSE (2004), dessa vez temos a presença da bela Ali Larter, de HEROES. Pra mim, não foi uma troca muito justa, mas tudo bem. Outra gracinha que aparece no filme é a ainda adolescente Spencer Locke, que a julgar por sua beleza e carisma já deve estar sendo assediada pelos olheiros e executivos de Hollywood.

O novo título da franquia - dizem que é uma trilogia, mas eu não duvido nada se ele fizerem um novo filme - tem os seus momentos. O melhor deles: a homenagem a OS PÁSSAROS, de Alfred Hitchcock. A cena dos corvos contaminados com a carne dos mortos infectados atacando um acampamento é de tirar o fôlego. Pena que esse é um dos poucos momentos realmente bons do filme, que na maior parte de sua metragem fica a ponto de naufragar de vez. Mas aí surge a inacreditável Alice (Milla Jovovich) lutando feito um demônio, usando com braços, pés, lâminas e armas de fogo e a gente logo fica entretido novamente. Agora, esse papo de saber detalhes sobre a Umbrella Corporation e seus projetos é coisa de nerd, dos apreciadores do game, ou de quem tem tempo pra rever os filmes.

E por falar no game, é impressão minha, ou esse novo filme tentou captar um pouco do espírito de TERROR EM SILENT HILL, o maravilhoso filme de Christopher Ganz? Em alguns momentos, eu senti isso, mas vai ver foi só a minha mente querendo mudar de cenário para se livrar das partes chatas do filme dirigido por Russell Mulcahy. Está aí um nome que estava meio esquecido. Mulcahy, depois de HIGHLANDER - O GUERREIRO IMORTAL (1986) nunca mais se reergueu, ou fez algo minimamente relevante. (Pra falar a verdade, eu sempre achei a série Highlander uma grande bobagem.) Ele não passa de um pau mandado do verdadeiro dono do projeto: Paul W.S. Anderson, o sortudo marido de Milla, que agora está grávida e - dizem - bem gordinha.

Anderson é também autor do roteiro. Ele não é nenhum Shakespeare, mas pra um filme fadado a repetir e enrolar o que já havia sido explorado nos longas anteriores, até que ele não se saiu tão mal. Não dá pra ficar reclamando de diálogos nesse tipo de filme mesmo. O que mais importa é a ação, já que desde o segundo filme o elemento horror já havia sido meio que apagado mesmo. Porém, há um momento perto do final em que o vilão se transforma num monstro mutante digno de gibi de terror ou de super-herói. A transformação do monstrengo, no entanto, não me impressionou. Na verdade, tirando umas boas cenas aqui, outras acolá, o que o filme traz mesmo é apatia.

P.S.: Quando li no blog do Osvaldo que a Spectra Nova havia lançado um box com os cinco exemplares da série DESEJO DE MATAR não acreditei. Pois não é que eu vi esse box lá nas Americanas hoje por apenas 39,90! E como diria o seu Rolando Lero: comprei-o-o. O box vem com o nome Charles Bronson e a caixinha de papelão está bem bonita. Só não conferi ainda a qualidade da imagem, mas já adianto que está em fullscreen e sem a dublagem clássica brasileira. Mesmo assim, é diversão na certa poder ver os cinco filmes em seguida. Valeu, Osvaldo!

P.P.S.: E a Revista Zingu! chegou à sua edição de aniversário com uma entrevista memorável com o Sady Baby. Eu nunca vi nenhum filme dessa figura, mas pela entrevista, percebo o quanto estou perdendo. Afinal, um diretor que tem entre seus principais títulos NO CALOR DO BURACO, EMOÇÕES SEXUAIS DE UM JEGUE e O ÔNIBUS DA SURUBA II não deve ser desprezado. Falando em sacanagem, a Zingu! ainda traz um artigo sobre os 35 anos de GARGANTA PROFUNDA, um filme que até hoje eu não vi, mas que pretendo ver em breve. :-) Pra completar: tiro meu chapéu para Matheus Trunk e sua emocionante defesa a Paulo César Araújo, o autor da sensacional biografia "Roberto Carlos em Detalhes". Como diria o hoje equivocado Rei: "são muitas emoções".

sexta-feira, outubro 05, 2007

PRINCESAS



Sexta-feira. O cansaço bate e a vontade que tenho é de ir pra casa, deitar na minha cama, descansar do cansaço acumulado durante a semana, ler um capítulo do livro do Anthony Steffen ou do segundo volume de "Lost Girls", do Alan Moore, ou ver algum episódio de uma série - deixei baixando THE OFFICE quando saí de casa. Mas como não posso, o negócio é arranjar coragem e ainda ter que encarar uma aula na escola hoje à noite, depois do expediente diurno. Aqui no blog, resolvi tirar hoje da minha lista de filmes a comentar PRINCESAS (2005), de Fernando León de Aranoa, filme que há tempos eu assisti no cinema e não sei porque razão demorei tanto a escrever a respeito. Talvez porque o filme não tenha me falado tanto. Ou se falou, o tempo tratou de apagar. Na verdade, nem sou admirador do elogiado trabalho anterior de Aranoa, SEGUNDA-FEIRA AO SOL (2003). O ponto de interseção dos dois filmes é o fato de ambos abordarem a vida de pessoas marginais. Se no filme de 2003 vemos o drama dos homens desempregados, em PRINCESAS é a vez da dura vida de prostituta.

Como apreciador que sou de filmes mais exploitation, preferia ver um filme mais "forte" e explícito, abordando a rotina das prostitutas. Se bem que se o filme fosse do jeito que eu queria, talvez eu ficasse um pouco desconfortável na sala, devido à predominância de senhores e senhoras de idade que costumam sempre freqüentar essas agradáveis sessões matutinas de sábado. Mas sei lá. Vai ver eles não se chocam mais com nada. PRINCESAS foca a amizade que se forma entre a espanhola Caye (Candela Peña), uma jovem cuja família desconhece sua "profissão", e a emigrante dominicana Zulema (Micaela Nevárez). Elas sonham em encontrar um homem rico que as ame e que as tire daquela vida.

Entre os méritos do filme está a boa química entre as duas rivais que se tornam amigas, o relacionamento de Caye com sua família e as conversas entre as "profissionais" num salão de beleza. Tem também uma bela canção do Manu Chao na trilha, chamada "Si La Vida Te Da". Das duas mulheres, a que mais emociona é a Zulema, pelo fato de ela ser uma mãe afastada de seu filho e pelo resultado trágico da vida que ela leva. O filme também aborda a prostituição pela ótica da invasão estrangeira. As prostitutas estrangeiras, por exemplo, vestem-se de maneira bem mais apelativa, roubando os clientes das espanholas que terão que se adaptar e entrar na onda de usar menos roupa ou até mesmo ficar seminua nas zonas mais underground de Madrid. Haveria a intenção por parte do diretor e dos roteiristas de fazer uma reflexão sobre a agressiva invasão estrangeira na economia espanhola?

quinta-feira, outubro 04, 2007

O MONSTRO DO CIRCO (The Unknown)



Quem lembra com saudade das quatro edições da Cine Monstro com certeza não esqueceu do excelente artigo de Daniel Camargo sobre Tod Browning, que de tão bom e extenso foi dividido em duas partes. Mas o que mais me marcou foi mesmo a crítica de O MONSTRO DO CIRCO (1927), um dos filmes mais inacreditáveis da história do cinema. Trata-se de um filme mudo que não perdeu em nada a sua força com o passar dos anos. Até mesmo nos dias de hoje, com a sociedade vivendo em estado de quase dormência em relação à violência e às barbaridades cometidas diariamente por pessoas dementes.

Com o tempo, e principalmente depois de MONSTROS (1932), Tod Browning se firmou como o mestre do bizarro. O MONSTRO DO CIRCO é estrelado por Lon Chaney e uma jovem Joan Crawford - acreditem, ela já foi bonita!. Assim como em MONSTROS, O MONSTRO DO CIRCO se passa dentro de um circo. Chaney faz o papel de Alonzo, o homem sem braços que é capaz de atirar flechas e até um rifle com os pés. Ele é apaixonado por Nanon, sua bela parceira de picadeiro (Crawford), uma garota estranha que tem fobia de mãos masculinas. Por isso, Alonzo acredita que tem chances de conquistá-la, já que ele supostamente não tem braços. Acontece que Alonzo tem braços sim, um segredo que ele mantém apenas com o seu ajudante Cojo, que todas as noites o ajuda a se livrar de um corpete que enrola seu corpo de modo a esconder os seus braços. O disfarce de homem sem braços, além de ser uma forma de ele ganhar dinheiro no circo é também um ótimo álibi para esconder o passado criminoso de Alonzo. Mas a maior preocupação dele é mesmo conseguir conquistar o amor de Nanon. O problema é que ela está começando a se interessar pelo homem forte do circo, ainda que sua fobia por mãos masculinas continue atrapalhando seus relacionamentos.

Com medo de perder Nanon, caso ela descubra que ele tem braços, Alonzo toma a terrível decisão de mandar amputar os seus braços. Como desgraça pouca é bobagem, enquanto Alonzo se recupera da cirurgia de remoção dos braços, Nanon passa a namorar o homem forte, marcando casamento e tudo. Ao saber disso, o mundo de Alonzo desmorona. Há ainda um ápice no filme, que acaba por definir o destino de um dos personagens, mas pra mim, o filme atinge o seu clímax mesmo no momento em que Alonzo descobre que sua amada, a mulher por quem ele cometeu um grande sacrifício, vai se casar com outro.

Para ver O MONSTRO DO CIRCO é preciso estar preparado para sentir angústia. Contribuiu e muito para o sucesso do filme o desempenho espetacular de Lon Chaney, que faz um personagem totalmente crível e impregnado de tragédia. A fotografia ganha tonalidades ainda mais belas nas cenas de namoro de Nanon, como se Browning tivesse colocado um filtro sobre a lente. O filme tem menos de uma hora de duração e o tempo passa voando. Definitivamente, um dos melhores filmes do cinema mudo e que merece ser descoberto pelas novas gerações. Vale dizer que durante muito tempo O MONSTRO DO CIRCO foi dado como perdido, mas para nossa sorte foi encontrada uma cópia num arquivo francês há alguns anos. O filme não foi lançado em dvd no Brasil mas é possível encontrá-lo pelas já conhecidas vias alternativas.

quarta-feira, outubro 03, 2007

O HOMEM QUE DESAFIOU O DIABO



Não é de todo ruim este O HOMEM QUE DESAFIOU O DIABO (2007), mais recente trabalho de Moacyr Góes. É o melhor trabalho de Góes, embora isso não signifique muita coisa vindo dele. Já adianto que a melhor coisa do filme é de longe Fernanda Paes Leme, que aparece nua da cintura pra cima. Uma coisa linda, que faz a mente da gente ficar turva e até valoriza um pouco mais o trabalho. A cena dela arrancando um prego com a vagina é outro momento marcante e que vai dar o que falar se o filme for mesmo o sucesso de bilheteria esperado pela família Barreto, pela Rede Globo e pela Warner. Eu diria que a principal falha do filme está em não conseguir um bom timing cômico. As cenas que seriam para provocar risadas são recebidas com indiferença pela platéia. O que acaba arrancando o interesse do espectador é a mudança de tom que o filme ganha a partir do momento em que Zé Araújo (Marcos Palmeira) passa a ser Ojuara, o homem que não apanha de mulher e nem tem medo de mais nada no mundo.

Antes disso, Zé Araújo era um vendedor de tecidos que chega a uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte para vender o seu produto e pegar o mulherio da região. O azar dele é que ele foi pegar logo a filha do turco (Lívia Falcão), o dono da mercearia da cidade. Zé Araújo é obrigado a casar com a mulher, mesmo não gostando dela. Depois de ser ridicularizado pelo poeta da cidade, Zé Araújo toma uma decisão que vai mudar o rumo de sua vida: depois de dar umas palmadas na bunda da sua mulher valente e de humilhar o pai dela, ele resolve anunciar no cartório que José Araújo morreu. Em seu lugar, nasceu Ojuara. Assim, ele deixa a cidade montado num cavalo para conhecer todo um novo mundo ao seu redor, tendo de lidar com novas mulheres, com o diabo e com outras entidades malignas, como uma mulher que tem a vagina dentada (Flávia Alessandra).

Em seu aspecto fantástico, O HOMEM QUE DESAFIOU O DIABO é um filme interessante, mas esse interesse vem da obra original, o romance "As Pelejas de Ojuara", de Nei Leandro de Castro, que não é transposto para o cinema de modo muito acertado. Mas até que para um diretor que tem no seu currículo os filmes do Padre Marcelo Rossi, da Xuxa e da Angélica, até que houve alguma evolução. Soube que o filme teve uma boa recepção no Festival do Rio, com o lugar lotado e o público bastante entusiasmado. Mas público de festival é diferente. Mesmo assim, deve ser divertido ver o filme numa sala de público pouco exigente e mais receptivo. Lembro de quando eu vi O HOMEM NU, no Cine Ceará. O Cine São Luiz lotado, o público rindo a todo instante, muito divertido. E no lançamento comercial, o filme de Hugo Carvana foi um fracasso. Acredito que O HOMEM QUE DESAFIOU O DIABO tem muito mais chances de sucesso comercial, até por ter sido lançado com muitas cópias. Só não deve alcançar a mesma popularidade de O AUTO DA COMPADECIDA por não pegar o espectador pelo riso. Mas com certeza, os marmanjos sairão do cinema admirados com a beleza do corpo de ninfeta de Fernanda Paes Leme.

terça-feira, outubro 02, 2007

O VIDENTE (Next)



O final pode até ter sido um pouco frustrante pra mim, deixando a impressão de que o filme ficou inacabado, mas O VIDENTE (2007) manteve o meu interesse até o final, sem jamais me aborrecer. Até porque estórias envolvendo previsões futurísticas me interessam bastante. Na trama, Nicolas Cage é um homem que é capaz de prever o que acontecerá nos próximos dois minutos. Ele usa sua capacidade fora do comum para ganhar dinheiro nos cassinos e trabalhar como mágico. Só que um dia ele é flagrado pelos guardas de segurança do cassino. E no mesmo dia, agentes do FBI já estavam de olho nele, querendo que ele ajude a resolver o problema de uma bomba atômica roubada. A responsável pela investigação é a personagem de Juliane Moore, um pouco apagada no filme. A outra mulher da estória é mais importante: Jessica Biel, a mulher por quem o vidente se apaixona, antes mesmo de tê-la conhecido pessoalmente.

Um dos maiores trunfos de O VIDENTE está no seu ritmo. A cena de Cage fugindo dos guardas no cassino é divertidíssima, bem como as seqüências de ação envolvendo a fuga dos agentes do FBI e um dos momentos finais, quando ele se "divide" em vários para prever a ação dos inimigos. Mas O VIDENTE é também um filme de amor e tanto o feioso Nicolas Cage quanto a bela Jessica Biel são simpáticos ao espectador. Por mais que o vidente esteja longe de ser uma pessoa normal, a cena dele na lanchonete, tentando imaginar um jeito de conseguir falar com aquela mulher o coloca mais próximo de nós. Pra completar, é quase possível ouvir a alteração na sua freqüência cardíaca no momento em que Jessica surge de toalha na sua frente.

Adaptação de "Golden Man", estória de Philip K. Dick, o filme foi ganhando ares de estória de amor graças a Nicolas Cage. Pela vontade do diretor Lee Tamahori, O VIDENTE se concentraria mais na ação. O que não seria de todo ruim, mas do jeito que ficou, o filme ganhou um ar mais humano. Apesar de acertar de vez em quando, o neo-zelandês Lee Tamahori nunca conseguiu repetir em Hollywood a excelência de O AMOR E A FÚRIA (1994), feito em sua terra natal e obra que o revelou para o mundo. Dos seus trabalhos americanos, o melhor talvez seja NA TEIA DA ARANHA (2001), com Morgan Freeman. Quanto aO VIDENTE, é mais um filme que eu não entendo porque está sendo malhado de forma quase unânime pela crítica. Tudo bem que a gente sente um certo desleixo na direção, na narrativa, mas esse desleixo acaba contribuindo para a sensação de despretensão que soma pontos a favor do filme. E é assim que deve ser visto O VIDENTE: 98 minutos de diversão despretensiosa.

segunda-feira, outubro 01, 2007

AUDAZES E MALDITOS (Sergeant Rutledge)



E aproxima-se da etapa final a minha peregrinação pela obra de John Ford. Chegamos na década de 60, na fase tardia da filmografia do "Homero americano". AUDAZES E MALDITOS (1960), eu já tinha visto há um tempão na Band, mas como havia guardado uma boa impressão, queria muito rever. Por isso, consegui baixar uma cópia de um dvd espanhol. O único porém foram as irritantes legendas em espanhol que atrapalham pra caramba a apreciação do filme, mas que têm a sua utilidade. É a tal coisa: ruim com elas, pior sem elas. O filme tem um estilo único: é, ao mesmo tempo, um western, um thriller, um film noir e um drama de tribunal. Eu gosto bastante da primeira parte, o da primeira narração de Constance Towers - que já havia trabalhado com Ford em MARCHA DE HERÓIS (1959). Nessa primeira parte, Ford explora muito bem o mistério - a chegada da personagem de Constance numa estação ferroviária, o vento forte que uiva, o encontro com o "sargento negro" (Woody Strode) e o mistério da morte de uma jovem moça, cujo corpo é encontrado nu e com marcas no pescoço.

No tribunal, ficamos sabendo que o Sargento Rutledge, o personagem de Strode, é o principal suspeito pela morte de duas pessoas. Ele é visto saindo da cena do crime com um ferimento de bala no abdômen. Seu advogado de defesa é o seu superior (Jeffrey Hunter). O recurso dos flashbacks é interessante: sempre que a testemunha começa a dar o seu depoimento, vemos as luzes se apagando lentamente. Apesar de os flashbacks serem contados por diferentes testemunhas, em nenhum momento elas faltam com a verdade e a narrativa de cada uma funciona de uma maneira quase que inteiramente linear. Os costumeiros tipos engraçados de Ford aparecem: a velhinha, mulher do juiz, o próprio juiz e seu assistente. Os dois gostam bastante de uma boa bebida alcóolica. Aliás, impressionante como Ford adora fazer piada com bebida. Em seus filmes, o álcool é visto até como uma bebida milagrosa, sendo usada no tratamento de doenças graves - como visto em ASAS DE ÁGUIA (1957).

AUDAZES E MALDITOS, além de ser um triunfo estético-narrativo, é uma homenagem aos "soldados Buffalo", soldados negros da cavalaria que eram anteriormente escravos. O posto mais alto que eles conseguiam chegar era o de primeiro sargento. Sente-se durante todo o filme a preocupação de Ford com relação ao racismo, que na década de 60 era um problema grave, especialmente no sul do Estados Unidos. O claro e escuro é também visto no contraste entre os interiores escuros e a forte claridade dos exteriores. Um pouco como Anthony Mann costumava fazer nos seus westerns da década de 50.

P.S.: Recebi um exemplar de cortesia do livro "Anthony Steffen - A saga do brasileiro que se tornou astro do bangue-bangue à italiana", dos talentosos Daniel Camargo, Fábio Vellozo & Rodrigo Pereira, lançado pela Matrix Editora. O livro é fundamental não somente para os interessados na vida e obra desse ator, mas também pelo rico painel histórico daquela época em que os italianos ousaram fazer westerns à sua maneira. Agora, com certeza, vou vasculhar as locadoras em busca dos principais títulos estrelados por Steffen. :-) Agradecimentos especiais ao Rodrigo Pereira.