quarta-feira, janeiro 31, 2007

MEDO E OBSESSÃO (Land of Plenty)



Alguém pode me dizer o que aconteceu com o Wim Wenders? Eu me refiro àquele Wim Wenders que nos anos 80 realizou obras-primas como PARIS, TEXAS (1984) e ASAS DO DESEJO (1987). Depois de ATÉ O FIM DO MUNDO (1991), que já sinalizava o início da decadência, Wenders fez filmes cada vez menos inspirados. Talvez a exceção, dos anos 90 pra cá, seja CÉU DE LISBOA (1994), filme dos mais agradáveis que consegue passar todo o encanto e melancolia da capital portuguesa, além de fazer várias referências à obra poética de Fernando Pessoa. No cinema, o último filme que eu vi dele foi o extremamente chato HOTEL DE UM MILHÃO DE DÓLARES (2000), estrelado pelo Mel Gibson e que contava com uma trilha sonora do U2. Aliás, uma das melhores coisas do cinema de Wenders é essa associação com a música pop.

Tanto que nesse MEDO E OBSESSÃO (2004), os melhores momentos são justamente aqueles em que o filme se parece com um videoclipe, mostrando cenas sem diálogo e com canções de artistas como Travis, David Bowie e Leonard Cohen. MEDO E OBSESSÃO é uma produção de baixo orçamento, filmada com câmera digital, que explora o atual momento de paranóia reinante nos Estados Unidos pós-11 de setembro. Michelle Williams (de DAWSON'S CREEK) é uma jovem que volta à sua cidade natal, Los Angeles, depois de um tempo morando na Àfrica e no Oriente Médio. Seu único parente na cidade é o seu tio (John Diehl), um sujeito paranóico que procura por conta própria focos de possíveis atentados terroristas. Obviamente, ele dá mais atenção às pessoas de pele escura e que usam turbante. Numa noite dessas, ele testemunha o assassinato de um árabe e tenta associar esse assassinato com a ação de grupos terroristas.

Pela pequena entrevista de Wenders constante no DVD dá pra notar o seu tom crítico em relação aos americanos, especialmente os que moram longe dos grandes centros urbanos, como Los Angeles e Nova York. Para ele, essas pessoas que vivem no país mais poderoso do mundo acabam sendo mais estúpidas e ingênuas que qualquer outra pessoa vivendo em qualquer outro país do mundo. Para acentuar um pouco isso, em seu filme, Wenders faz um contraste entre uma jovem que tem a cabeça aberta pela sua vivência em outros países e um sujeito alienado e excessivamente patriótico que sequer sabia que no Oriente Médio várias pessoas comemoraram a queda das Torres Gêmeas.

Talvez a sensação de desleixo, ou no mínimo de certo despretensão que é sentido ao longo do filme talvez se deva ao fato de que MEDO E OBSESSÃO existiu somente por causa do adiamento na produção de ESTRELA SOLITÁRIA (2005). Como o diretor estava de bobeira nos Estados Unidos, ele fez o tratamento do roteiro de MEDO E OBSESSÃO em apenas três dias, deu os retoques nas semanas seguintes e rodou o filme inteiro em pouco mais de duas semanas.

MEDO E OBSESSÃO abriu a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2004 com o título TERRA DA FARTURA.

terça-feira, janeiro 30, 2007

PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (Perfume: The Story of a Murderer / Das Parfum - Die Geschichte eines Mörders / Le Parfum - Histoire d'un Meurtrier / El Perfume - Historia de un Asesino)



Tive a oportunidade de ler "O Perfume", o excelente romance de Patrick Süskind, há mais de quinze anos. Pouca coisa ficou na memória e agora com a adaptação para o cinema, as memórias se tornam ainda mais misturadas e borradas. Quanto ao filme, o resultado me pareceu pouco satisfatório, embora haja vários pontos positivos. Talvez a melhor coisa do filme seja mesmo a belíssima fotografia de Frank Griebe, habitual colaborador do diretor Tom Tykwer, dos bem-sucedidos CORRA, LOLA, CORRA (1998) e PARAÍSO (2002). Mal comparando, a fotografia do filme seria como um cego que procura entender através dos sons aquilo que não pode ver. Da mesma forma, a fotografia tenta substituir o sentido do olfato através de imagens. Em alguns momentos, isso quase se consegue, como na seqüência inicial, no mercado de peixe, ou ao vermos o vermelho das rosas e o close na pele das jovens ruivas que embelezam o filme. O fato de elas serem ruivas contribui para a idéia do desejo, sentimento (ou sensação) cuja cor mais associada seria o vermelho.

Uma das falhas do filme é justamente não tornar simpática a figura de Jean-Baptiste Grenouille, interpretado pelo inglês Ben Whishaw. Diferente de um Hitchcock, que nos faz torcer pelo assassino com uma facilidade incrível, Tom Tykwer não consegue sequer tornar simpático o seu personagem. Se a intenção do diretor era mesmo mostrar um personagem que não fede nem cheira - o que não deixa de ser coerente com a trama - pode-se dizer que ele foi bem sucedido. Mas será que foi essa mesmo a intenção dele? Acredito que não. Tanto que a própria narração de John Hurt tenta forçar um pouco a barra no sentido de que nós possamos entender as motivações do protagonista. Em vez disso, eu torcia pelas vítimas, especialmente a última delas, a bela inglesinha Rachel Hurd-Wood, que faz o papel de Laura. Aliás, como essa menina cresceu, hein. Rachel pôde ser vista anteriormente em MALDIÇÃO (2005) e em PETER PAN (2003), no papel de Wendy. Os coadjuvantes de luxo do filme são Dustin Hoffman, excelente no papel do perfumista decadente Giuseppe Baldini, e Alan Rickman, como o pai protetor de Laura. Hoffman e Rickman contribuem com os personagens mais simpáticos do filme.

Pra quem ainda não sabe, PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (2006) narra a história de Jean-Baptiste Grenouille, um rapaz que nasceu com o sentido de olfato super-desenvolvido. O seu desejo inicialmente é sentir todos os cheiros do mundo. No começo, ele não tinha preconceito com nenhum cheiro. Depois que ele passa a ser mais seletivo, mais sofisticado. Após matar uma cheirosa vendedora de frutas para sorver todo o seu aroma, ele fica obcecado em capturar a essência do cheiro de uma pessoa, de modo que aquele cheiro não morra. Assim, ele procura aprender métodos de conservar cheiros. Seu principal objetivo é criar um perfume a partir da essência de 12 mulheres.

Um dos aspectos mais interesses do filme é mostrar as técnicas de conservação de aroma, coisa que não se ensina na escola e que me pareceu algo fascinante, apesar de não ter o meu senso de olfato muito bem desenvolvido - sou muito dependente da visão. Dentro da narrativa, um dos momentos mais interessantes é a já famosa cena da orgia no final, que não posso falar mais sob o risco de entregar o desfecho do filme. Pena que os pontos positivos não são suficientes para encobrir o cansaço provocado pela longa duração do filme, além das falhas já apontadas no segundo parágrafo.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

APOCALYPTO



Pra um cineasta de apenas quatro filmes no currículo, é impressionante como Mel Gibson já revela um forte traço autoral e uma força dramática arrebatadora. Seu gosto pela violência é uma forte marca e é algo que já começou a se revelar em seu segundo filme, CORAÇÃO VALENTE (1995), vencedor dos Oscars de melhor filme e direção. Mas foi com A PAIXÃO DE CRISTO (2004), o melhor filme bíblico que eu já vi na vida, que ele mostrou a que veio. Foi através da história das últimas horas de Jesus na Terra que ele demonstrou coragem para encarar projetos complicados, usando seu próprio dinheiro para financiar os seus filmes. Nos últimos anos a palavra "polêmica" e o nome "Mel Gibson" estiveram juntos por várias vezes. Seja pela acusação de anti-semitismo, seja pelas declarações anti-homossexuais, seja por dirigir embriagado, Mel Gibson foi alvo da mídia diversas vezes nos últimos anos.

O novo trabalho, APOCALYPTO (2006), é o tipo de filme que, como o próprio Mel disse, só um louco faria. É um filme desafiador. O diretor se embrenhou na mata com um elenco de desconhecidos com aspecto de índio para fazer um filme de perseguição falado num dialeto maia. Gibson conseguiu colocar mais um filme falado numa língua estranha nos cinemas americanos e mais uma vez foi bem sucedido nas bilheterias.

Na trama de APOCALYPTO, Pata de Jaguar é um caçador cuja tribo sofre um genocídio promovido por guerreiros maias que seqüestram os sobreviventes para serem oferecidos em sacrifício ao deus do sol Kulkulkan. A temática do sacrifício, tão cara à religião católica, é novamente centro das atenções em mais um filme do diretor. Talvez a principal diferença nesse novo filme seja o fato de que o suposto sacrificado não aceita seu destino como um cordeiro pronto para o abate. Pata de Jaguar, o protagonista, escapa fedendo de ser mais um a ter o seu coração arrancado e sua cabeça decepada e jogada à multidão sedenta de sangue. Para aquele povo, cada pessoa sacrificada representaria mais uma chance de que os deuses os abençoassem, mas também era uma forma sádica de se divertir.

APOCALYPTO seria uma estranha mistura de A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowski, com RAMBO: PROGRAMADO PARA MATAR, de Ted Kotcheff. Do filme de Jodorowski, temos o desfile de bizarrices, apresentado principalmente quando Pata de Jaguar adentra a cidade maia. De RAMBO, temos a luta pela sobrevivência de um homem que cresceu na floresta e que pode usar os seus conhecimentos de campo para lutar contra seus inimigos. Uma de suas maiores motivações para permanecer vivo é encontrar a sua esposa grávida e seu filho pequeno, que estão presos dentro de um buraco, esperando por ele.

A valorização da família e da paternidade é outro tema forte do filme e já é mostrado com força logo no primeiro diálogo do filme, depois da cena de caça a uma anta. Nesse diálogo, conhecemos o caso de um dos homens que não consegue engravidar a mulher e, por causa disso, acaba ganhando uma dupla pegadinha de seu pai e seus irmãos. Essas pegadinhas também são bastante familiares pra quem se lembra do Mel Gibson ator sacaneando o Danny Glover nos filmes da série MÁQUINA MORTÍFERA. Mel Gibson pode gostar desse tipo de brincadeira, mas quando o assunto é cinema, ele parece levar tudo muito a sério. Inclusive, se Gibson preferir abandonar a carreira de ator para continuar a dirigir grandes filmes como esse, eu dou o maior apoio.

domingo, janeiro 28, 2007

MASTERS OF HORROR: THE BLACK CAT



Felizmente, depois de um lixo que foi aquele filme do palhaço vendedor de sorvete, a antologia MASTERS OF HORROR se redime com uma bela adaptação de um dos contos mais famosos de Edgar Allan Poe, pelas mãos de um verdadeiro mestre do gênero. THE BLACK CAT (2007), de Stuart Gordon, é bastante fiel ao texto original de Poe, tendo como principal novidade o fato de colocar como protagonista da história o próprio Poe, interpretado por Jeffrey Combs, o ator que mais se identifica com os filmes de Gordon, por ter estrelado os clássicos RE-ANIMATOR (1985), DO ALÉM (1986) e CASTELO MALDITO (1995). E o nome de Combs já aparece no elenco do novo HOUSE OF RE-ANIMATOR, previsto para estrear em 2008.

Bom, deixando de lado a parte de informação, que sempre serve pra encher lingüiça, mas que tem a sua utilidade, vamos ao filme. Na trama, Edgar Allan Poe é um escritor de contos de terror e poesias que está desesperado por dinheiro. O pouco que ele ganha vendendo suas poesias nos jornais da cidade, ele gasta com bebida. Pra completar, Virginia, sua esposa - fizeram questão de colocar o nome da verdadeira esposa de Poe - está com tuberculose. E para mostrar o alto grau da doença, a produção do filme não poupa sangue. No meio de tanta perturbação, Pluto, o gato preto de Virginia, começa a atazanar o pobre homem, que vai ficando cada vez mais perturbado a ponto de arrancar um dos olhos do gato com um faca. A partir daí, o filme vai entrando cada vez mais fundo nos delírios do personagem.

Um dos momentos mais bonitos do filme, e que remete aos trabalhos de Jacques Tourneur e Val Lewton, é quando a sombra do gato segue Poe num beco escuro. O conto "O Gato Preto" é um conto que tem estreita relação com "Coração Denunciador". Ambos lidam com o sentimento de culpa e "Coração Denunciador" é citado no começo do filme. No final, Quando Poe chama os policiais para verificarem o sótão, no fundo ele queria ser descoberto. Como esse foi apenas o segundo filme baseado nesse conto que eu assisti - o outro foi o segmento de Dario Argento para o longa DOIS OLHOS SATÂNICOS -, fiquei bastante satisfeito com a fidelidade e o respeito ao material original. O problema é que, como eu já conhecia o conto, tudo ficou muito previsível. Ao menos o finalzinho me surpreendeu.

Próximo episódio da antologia: THE WASHINGTONIANS, de Peter Medak. Não estou esperando nada desse aí. Espero me surpreender positivamente.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

O PAGADOR DE PROMESSAS



Demorei a escrever sobre O PAGADOR DE PROMESSAS (1962) pois queria finalizar logo a parte que fala sobre o filme no livro "Anselmo Duarte - O Homem da Palma de Ouro", de Luiz Carlos Merten. E foi bom eu ter lido primeiro o livro, pois acabei sabendo de várias informações curiosas que o próprio Anselmo conta, despejando o seu veneno contra todos os seus desafetos. Aliás, esse lado venenoso do Anselmo me incomodou um pouco. O tempo todo ele faz questão de contar o quanto foi injustiçado e mostrar que venceu apesar de todos aqueles que o esnobaram. Ele também faz questão de contar que comeu a Norma Bengell pra que ela não saísse do elenco do filme por crise de estrelismo - Norma não se conformava porque a Glória Meneses havia recebido o papel principal.

Muita coisa eu não sabia e realmente fiquei surpreso. Por exemplo, eu não sabia que existiu uma versão portuguesa do filme, com um ator português substituindo o Geraldo Del Rey, que interpretou o cafetão "Bonitão". Essa versão só passou em Portugal e deve ser uma coisa meio bizarra de se ver. Outra curiosidade: o produtor do filme, o Oswaldo Massaini, queria para o papel do Zé do Burro o Mazzaropi. Anselmo teve que bater o pé até que, no final, o papel ficou mesmo com o Leonardo Villar.

Entre as espinafradas de Anselmo, a mais conhecida é a rixa com o Dias Gomes, autor da peça original, que não gostou dos cortes que Anselmo fez nos diálogos para a versão cinematográfica. Anselmo diz que Dias Gomes teve que engolir sapo quando o viu chegando da França com a Palma de Ouro na mão e com toda a recepção calorosa do público. Outros desafetos do Anselmo registrados no livro: 1) Joaquim Pedro de Andrade, que não chegou a agradecer a intervenção de Anselmo quando seu curta - COURO DE GATO - quase foi excluído de Cannes; 2) Tizuka Yamazaki, que se dizia discípula de Glauber Rocha, mas que copiou tudo que Anselmo fez quando dirigiu a mini-série para a Rede Globo; 3) Rubem Biáfora, crítico do Estadão, que se declarava o anti-Anselmo; e 4) toda a turma do Cinema Novo, que passou a excluí-lo ainda mais depois do prêmio em Cannes. Sobre essa turma Anselmo tinha uma opinião radical. Dizia que eles haviam rasgado a cartilha cinematográfica, que Glauber Rocha "era um intelectual e um político, mas era analfabeto de cinema", opinião ainda mais controversa nos dias de hoje, em que Glauber é idolatrado como o maior gênio do cinema nacional por tanta gente.

Outra curiosidade que eu quero compartilhar é sobre François Truffaut. Ele foi jurado no festival em que O PAGADOR DE PROMESSAS ganhou o prêmio maior. No dia da première do filme, no meio de tantas palmas e ovações, Truffaut estava lá aplaudindo e fazendo sinal positivo com o polegar. Anselmo, claro, ficou logo muito feliz e achando que o sonho de ganhar a Palma não estava tão longe de se realizar. Antes disso, numa noite, Anselmo estava num bar com o Massaini, que lhe sugeriu que ele desse de presente um disco de música brasileira a Truffaut, que estava lá no mesmo bar. Anselmo foi, mesmo não gostando muito da idéia e meio encabulado. Mas aí Truffaut falou: "mas você não é diretor de um dos filmes em competição? Está querendo me subornar?" E jogou longe o disco, que se espatifou no chão. Um momento bem cinematográfico.

Quanto ao filme,foi a segunda vez que o assisti e a catarse não foi tão forte quanto da primeira vez, mas a impressão de que se trata de um dos grandes filmes do nosso cinema permanece. As cenas que mostram a pluralidade religiosa de Salvador se destacam. Impossível não ficar do lado do coitado do Zé do Burro - e até das generosas senhoras do candomblé - e não odiar a intolerância do padre (Dionísio Azevedo). O final é de deixar qualquer um indignado e prestes a queimar uma igreja ao som de beribaums.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

O TEMPO QUE RESTA (Le Temps qui Reste)



Desde o dia em que tive uma convulsão, em dezembro de 2005, que tenho me sentido muito frágil diante da vida. Como se só então percebesse o quanto estar vivo é algo temporário. Sei que posso estar sendo muito dramático diante do que aconteceu, mas é que eu sempre tive essa obsessão por estar sempre consciente. Até quando eu bebia, fazia questão de nunca ficar realmente bêbado, a ponto de perder a consciência. Passar mal e acordar numa cama de hospital durante um dia aparentemente normal foi algo que mexeu comigo. Pra piorar, em abril do ano passado, um amigo meu morreu de um ataque cardíaco, só aumentando ainda mais essa sensação de que a vida é como uma vela que se apaga.

Em O TEMPO QUE RESTA (2005), o fotógrafo Romain (Melvil Poupaud, de CONTO DE VERÃO, de Eric Rohmer) desmaia no trabalho e acorda na cama de um hospital. Ao receber alta, o médico lhe dá as más notícias: Romain tem um câncer já em estado avançado e inoperável. Só lhe restam alguns meses de vida. Há a opção de seguir o tratamento de quimioterapia, mas além de muito desagradável, esse tratamento ainda poderia estragar os poucos momentos de vida que lhe restavam. O rapaz opta por negar qualquer tipo de tratamento e procura fazer uma retrospectiva das mais importantes passagens de sua vida. Nessas horas, O TEMPO QUE RESTA se assemelha muito a MORANGOS SILVESTRES, de Ingmar Bergman. Já o final, na praia, nos remete ao desfecho de MORTE EM VENEZA, de Luchino Visconti. O fato de os personagens de ambos os filmes serem homossexuais também contribui para a comparação, mas a orientação sexual de Romain perde um pouco da importância diante de tão dramática situação.

Do mesmo modo que Romain nega qualquer tratamento ou presença de amigos, Ozon parece negar ao filme o seu caráter de melodrama. Pela premissa, poderia-se esperar algo parecido com UMA LIÇÃO DE VIDA, de Mike Nichols. Mas Ozon prefere se segurar e não provocar as lágrimas da platéia usando de artifícios comuns. O TEMPO QUE RESTA não tem momentos carregados de emoção a ponto de fazer as platéias molharem seus lenços. Nesse sentido, o filme de Ozon se aproxima um pouco de IRMÃOS, Patrice Chéreau, filme que optava mais pelo registro semidocumental, mas que também procurava ser seco. Já Ozon faz um cinema mais poético, mais bonito, e que novamente faz uma reflexão sobre a passagem do tempo, tema que já havia sido tratado de maneira bem diferente no anterior O AMOR EM 5 TEMPOS (2004). A passagem do tempo também se revela impiedosa para Jeanne Moreau, que interpreta a avô do protagonista. Como eu não venho acompanhando o seu trabalho e só me lembro dela nos filmes da década de 60, pra mim, foi um susto vê-la tão velha.

De O AMOR EM 5 TEMPOS Ozon trouxe a excelente Valeria Bruni Tedeschi, que no novo filme interpreta uma mulher carente de um filho. Como seu marido era estéril, ela vê a possibilidade de tentar o auxílio de um estranho (Romain), um rapaz que ela julgou belo o suficiente para gerar um filho bonito para ela e seu marido. A cena de sexo com Romain e o casal na cama é um dos grandes momentos do filme, talvez o grande momento de todo o cinema de Ozon.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

ALÉM DO DESEJO (En Soap)



Da pequena mostra de filmes alternativos que aconteceu aqui em Fortaleza recentemente, um dos títulos que eu mais queria ver era o inglês MARCAS DA VIDA, de Andrea Arnold. Pelo que a Camila Vieira comentou, quando a vi na sessão de O TEMPO QUE RESTA no último sábado, trata-se de um excelente filme, o melhor da mini-mostra, segundo ela. Porém, em virtude de compromissos profissionais no dia da exibição, não pude assistir e vou ter que esperar pelo lançamento no circuito. Ou então pela chegada do filme no mercado de DVD, o que é mais provável de acontecer.

Além de C.R.A.Z.Y, pude ver nessa mostra este ALÉM DO DESEJO (2006), filme que só fez aumentar a minha atual antipatia com o cinema produzido na Dinamarca e na Suécia. Se até cineastas que eu inicialmente gostava, como Lars Von Trier e Lukas Moodysson, entraram na minha lista negra, não ia ser um filme menor vindo daquelas terras frias que faria eu mudar essa impressão. Mas sou um sujeito otimista e de vida social pouco ativa e por isso resolvi encarar esse filme com disposição.

O filme de Pernille Fischer Christensen narra a estranha relação entre uma mulher briguenta e recém-separada e um travesti que aguarda a aprovação do governo para realizar a sua tão sonhada cirurgia de mudança de sexo. O que o faz balançar é o repentino interesse mútuo que passa a existir entre ele e a mulher. De repente, se ele encarasse a relação como um envolvimento "lésbico", até que poderia dar certo.

Interessante como os filmes da Suécia gostam de explorar ambientes fechados, o que acaba dando a impressão que o povo de lá é tudo deprimido e solitário e passando uma sensação de claustrofobia. ALÉM DO DESEJO se passa totalmente dentro do condomínio onde os protagonistas vivem. Ora estamos no apartamento da loira briguenta, ora estamos no apartamento do travesti. Entre os personagens coadjuvantes, temos o ex-marido que tenta reatar a relação com a mulher e a mãe do travesti, que não aprova a cirurgia do filho, mas que é a única pessoa da família que procura entendê-lo. O maior problema do filme é que ele não sustenta o inicial interesse da premissa e vai se tornando chato e desinteressante à medida que se aproxima do final - devo ter olhado para o relógio umas cinco vezes. Sou da teoria de que o "teste do relógio" funciona melhor que o "teste da cadeira".

terça-feira, janeiro 23, 2007

MADE IN U.S.A.



"Será nossa vida apenas um amontoado de nada?"
(Anna Karina recitando uma poesia em MADE IN U.S.A.)

Seria MADE IN U.S.A. (1966) o À BEIRA DO ABISMO do Godard? Porque nada faz sentido pra mim nesse filme. Pelo menos no que se refere à estória. Sei que os filmes de Jean-Luc Godard nunca privilegiaram a narrativa, mas em todos os trabalhos anteriores a esse - até mesmo no confuso ALPHAVILLE (1965) - o cineasta parecia se importar um pouco com a trama. Como eu estou acompanhando os filmes de Godard em ordem cronológica e ainda não tenho idéia do que ele fará depois desse filme, posso ao menos dizer que, até então, MADE IN U.S.A. era o filme mais "louco" dele.

Achava que Jean-Pierre Léau dividiria o filme com Anna Karina, mas ele acaba aparecendo muito pouco; o filme é todo da musa de Godard, que fica deslumbrante em fotografia technicolor, valorizando sempre o vermelho. Talvez em homenagem ao comunismo, já que o filme é uma espécie de tributo à luta armada dos comunistas, que viviam um grande momento em 1966. Ou pelo menos uma reflexão sobre. Ainda assim, apesar dessa simpatia com a esquerda, há um interessante monólogo perto do final em que um sujeito diz coisas como: "comparada à direita, a esquerda é repleta de coisas completamente datadas" e "direita e esquerda são a mesma coisa". Quer dizer, apesar da simpatia, Godard não era um cego apaixonado pelo movimento socialista. Lembrei-me, inclusive, de um discurso recente do nosso presidente Lula, quando ele falou que preferia seguir o caminho do meio, que não acreditava mais em direita ou esquerda.

MADE IN U.S.A. começa com uma dedicatória a Samuel (Fuller) e Nick (Nicholas Ray), dois dos cineastas mais queridos de Godard. Mas há também, ao longo do filme, referências a outros diretores. Há um inspetor Aldrich, uma estrada Preminger, uma japonesa com o sobrenome Mizogushi e o nome do personagem de Léaud se chamada Donald Siegel. Essas referências são divertidas para os cinéfilos, mas a melhor coisa do filme é mesmo a presença de Marianne Faithfull cantando "As tears go by", dos Rolling Stones. A canção já é maravilhosa na voz de Mick Jagger e ficou graciosa na voz suave de Marianne. Na época, Marianne era linda - e pensar que os Stones se aproveitaram.

Voltando ao filme de Godard e às referências, uma das mais explícitas é a do personagem chamado David Goodis, nome de um dos mestres do romance noir e autor do livro "Atire no Pianista", que se transformou no mais godardiano filme de Truffaut.

A complicada trama introduz Anna Karina no papel de Paula Nelson (mesmo nome de uma personagem de GAROTAS DO ABC, de Carlos Reichenbach), uma mulher que vai a Atlantic City investigar o assassinato do namorado. No caminho, ela encontra uma série de gângsters e vai deixando alguns cadáveres pelo caminho. MADE IN U.S.A. foi o último longa de Godard em que Anna Karina trabalhou. Ela trabalharia novamente com ele apenas no segmento do filme em episódios O AMOR ATRAVÉS DOS SÉCULOS (1967).

segunda-feira, janeiro 22, 2007

DÉJÀ VU (Deja Vu)



Muito provavelmente o melhor filme dirigido por Tony Scott, DÉJÀ VU (2006) continua de maneira menos radical o estilo utilizado em DOMINO - A CAÇADORA DE RECOMPENSAS (2005). Porém, o filme de Scott que mais se aproxima desse novo trabalho é INIMIGO DO ESTADO (1998). Ambos exploram o olhar alheio e a invasão de privacidade. Só que esse novo filme entra com um tema ainda mais fascinante, que é o da viagem no tempo. O fato de o filme se passar numa Nova Orleans devastada pelo furacão Katrina ocorrido em setembro de 2005 fornece mais um atrativo para o espectador, que querendo ou não sempre tem uma curiosidade mórbida por desgraças.

O filme começa sem diálogos por alguns minutos, mostrando uma explosão numa balsa cheia de pessoas. Denzel Washington é o agente encarregado de investigar o caso. Entre os vários corpos encontrados no desastre está o de uma mulher (Paula Patton). O que diferencia essa mulher das demais vítimas é que ela parece ter sido morta duas horas antes da explosão. A partir dessa descoberta, o agente entra em contato com cientistas do FBI que criaram uma máquina capaz de ver, de qualquer ângulo, o que aconteceu há quatro dias. Não dá pra dizer mais nada sob o risco de estragar as surpresas, mas lembro que um dos pontos altos do filme é a cena de perseguição na estrada com um visor que visualiza o passado. Deu pra notar pelo enredo que o filme guarda algumas semelhanças com MINORITY REPORT, do Spielberg.

Pode ser que DÉJÀ VU não seja o filme que vai fazer com que o nome de Tony Scott ganhe respeito - até porque a maioria das críticas não foram muito favoráveis - mas com certeza é um título que abrilhanta qualquer filmografia. Acho que essa foi a primeira vez que eu senti prazer em acompanhar a narrativa de um filme de Scott, já que em seus filmes a forma sempre foi mais importante do que o conteúdo, do que a narrativa, no caso. Não que isso seja em si um problema. Mas o que faz torcer os narizes de muita gente é o flerte de Scott com o cinema publicitário e com os videoclipes. Outra surpresa é saber que um dos roteiristas do filme é Terry Rossio, responsável por coisas odiosas como a trilogia PIRATAS DO CARIBE, o asqueroso SHREK e o repulsivo GODZILLA. Pegando o exemplo desse rapaz, e como ainda não se pode voltar ao passado para mudar as besteiras que se faz na vida, o negócio é esquecer o que passou e olhar para o futuro, que é obscuro e tenebroso, mas que de repente pode até ser glorioso.

P.S.: O final me deixou com uma pulga atrás da orelha, bem como a cena em que Denzel Washington viaja no passado. Se alguém puder me explicar, eu fico agradecido.

domingo, janeiro 21, 2007

BABEL



Alguns filmes despertam sentimentos tão contraditórios em quem os assiste que o resultado são opiniões diametralmente opostas. No caso de BABEL (2006) tenho lido tanto críticas que colocam o filme na mais baixa categoria quanto críticas que elogiam a sua força dramática, sua catarse. Isso acaba nos forçando a tomar partido em uma das frentes: na turma que odeia Alejandro González Iñárritu - e principalmente BABEL, considerado por muitos o novo CRASH -, ou na que admira o trabalho do cineasta? Como eu me enquadrava no grupo dos que gostaram tanto de AMORES BRUTOS (2000) quanto de 21 GRAMAS (2003), achava que a possibilidade de eu não gostar de BABEL seria muito pequena. Confesso que acabei me decepcionando um pouco com o filme e não sentindo nem metade da angústia que os filmes anteriores me provocaram. Sobrou a indiferença. E pela primeira vez nos filmes do diretor, eu me incomodei com a burrice dos personagens. Principalmente do pouco explorado personagem de Gael Garcia Bernal. Por outro lado, pode-se dizer que a burrice - ou a inocência, pra ser menos agressivo - não deixa de ser uma característica humana e independe de classe social ou mesmo de capacidade intelectual.

Em BABEL, o efeito dominó se inicia a partir do tiro de um rifle. Dois meninos marroquinos testam inocentemente a arma que o pai comprou pra eles matarem os chacais que comiam as cabras. Um dos meninos, duvidando do alcance da arma, resolve testar num ônibus de turistas que passa pela estrada abaixo da ribanceira onde eles estão. Resultado: uma turista americana (Cate Blanchett) é baleada e seu marido (Brad Pitt) fica desesperado, tentando com dificuldade conseguir ajuda médica naquele lugar. Apesar de não ter uma força dramática tão envolvente quanto deveria, a estória que se passa em Marrocos é a mais bem resolvida de todas. Ao menos, se levarmos em consideração o filme como um todo, e não por partes separadas. Visto em separado, talvez o segmento no Japão seja o melhor. Mas é o que mais parece estar forçadamente costurado ao enredo. Não é porque um japonês deu de presente uma arma para um marroquino que ele é culpado pelo acontecido. Se for assim, porque não ir atrás também dos fabricantes das armas? Visto em separado, o segmento no Japão é o que mais traz interessantes experimentações de som - a protagonista é uma menina surda - e onde a câmera se aquieta mais um pouco, deixando espaço para respirar, para aprofundar um pouco o drama da garota carente e valorizar a geografia de Tóquio.

Falando em geografia, não deixa de ser interessante o fato de Iñarritu ter abordado um tema tão incômodo para os americanos, que é o da travessia dos mexicanos no deserto para entrarem ilegalmente nos Estados Unidos. Inclusive, na última segunda-feira, quando o diretor subiu ao palco para receber das mãos de Arnold Schwarzenegger o Globo de Ouro de melhor filme - drama, ele fez uma brincadeira dizendo que estava com a documentação em dia. Pena que Iñarritu filmou o seu próprio povo de maneira estereotipada, preferindo não mostrar nada das belezas naturais do México. Terá sido para tornar mais evidente a distância que existe entre o México (e o Marrocos) e os países do primeiro mundo - representados pelos Estados Unidos e pelo Japão?

No que se refere à narrativa, e comparando com os seus dois trabalhos anteriores - também em parceria com Guillermo Arriaga - percebe-se facilmente que BABEL tem uma estrutura bem mais simples. Ainda há um pouco da não-linearidade, mas de maneira bem menos radical. BABEL é o mais convencional dos filmes da dupla Iñarritu-Arriaga. Aliás, de quem será a culpa pela opção pela montagem não-linear, do diretor ou do roteirista? Lendo uma entrevista de Iñarritu, ele conta que quando era criança, seu pai costumava contar para ele umas estórias de maneira bem pouco usual. Ele parava a estória no meio, em seguida ia para o final, depois voltava para o começo... Iñarritu diz também que tinha uma tia que gostava de contar estórias de forma linear e que ele achava isso muito chato. O diretor culpa o pai e o déficit de atenção que ele tem como as causas de ele pensar de forma "diversa". Talvez Iñarritu seja um dos mais importantes representantes desses tempos em que vivemos, onde a dificuldade de concentração é comum devido à avalanche de informações fragmentadas e de fácil acesso.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

MASTERS OF HORROR: WE ALL SCREAM FOR ICE CREAM



Eis o pior filme/episódio já exibido na antologia MASTERS OF HORROR. Como pode um diretor ficar tanto tempo parado e quando consegue voltar faz um lixo desses? WE ALL SCREAM FOR ICE CREAM (2007) é o retorno de Tom Holland à direção depois das não muito bem sucedidas experiências de adaptação de Stephen King em FENDA NO TEMPO (1995) e A MALDIÇÃO (1996). Foram mais de dez anos longe das câmeras. Seu auge foi nos anos 80, quando dirigiu os sucessos A HORA DO ESPANTO (1985) e BRINQUEDO ASSASSINO (1988).

A estória é completamente estúpida. Um grupo de adolescentes mata acidentalmente um palhaço vendedor de sorvetes. Quando eles crescem começam a sofrer a vingança do palhaço, que retorna à noite para matá-los, usando os seus próprios filhos como algozes. No momento em que a criança come o sorvete dado pelo palhaço, o seu pai morre. O detalhe é que, no momento da morte, seus corpos derretem e se transformam em algo parecido com sorvete. William Forsythe faz o papel do palhaço Buster.

Não se trata de não gostar do filme por ele parecer inverossímil ou absurdo, mas porque ele não é bem sucedido em criar uma lógica interna própria que nos faça ficar interessados nos personagens ou na trama. O filme também não cria uma atmosfera surreal ou algo parecido que nos faça relevar qualquer traço ridículo da estória. O próprio título é idiota, fazendo um trocadilho besta e que é repetido à exaustão ao longo do filme. Pra piorar, nem mesmo cena de mulher pelada o filme tem, preferindo fazer uma espécie de filme de terror para crianças com sabor oitentista. A mim, só me deu sono. Até então, o pior episódio de MASTERS OF HORROR pra mim era DANCE OF THE DEAD, do Tobe Hooper. Mas enquanto o filme de Hooper consegue ser irritante, o de Holland aborrece e dá sono. Taí um filme que afastaria qualquer pessoa que resolvesse entrar em contato com a série pela primeira vez através dele.

Ao menos, o próximo episódio a ir ao ar é THE BLACK CAT, dirigido por um cineasta de respeito, Stuart Gordon, e baseado num conto de um gigante da literatura americana, Edgar Allan Poe. Esse promete.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

O TERROR DA PREMONIÇÃO (Yogen / Premonition)



Quando soube que Norio Tsuruta participaria do elenco da segunda temporada de MASTERS OF HORROR, logo fiquei interessado em sua obra. Só havia visto até então RING 0 - O CHAMADO (2000), que não me entusiasmou muito. Pareceu-me inferior aos outros quatro títulos dirigido pelo Hideo Nakata. Quando passei na locadora no último sábado, deu vontade de pegar pra ver este O TERROR DA PREMONIÇÃO (2004), o segundo filme a integrar o projeto J-Horror Theater, e que saiu em DVD no Brasil pela Paris Filmes. Os outros dois títulos prontos dos seis prometidos são INFECÇÃO (2004), de Masayuki Ochiai, e ALMAS REENCARNADAS (2005), de Takashi Shimizu. Desses três, apenas o filme de Shimizu teve a sorte de chegar aos nossos cinemas. Os outros foram direto para DVD.

O TERROR DA PREMONIÇÃO é baseado num mangá de horror de muito sucesso no Japão, escrito pelo pioneiro Jiro Tsunoda. A estória é meio absurda, mas a graça está justamente nisso. O prólogo é perfeito. Nele, vemos um homem, sua esposa e sua filha num carro, voltando pra casa depois de um fim de semana de folga. O sujeito não está conseguindo enviar uns arquivos do trabalho pelo seu notebook e resolve passar numa cabine de telefone público para enviar o tal arquivo. Enquanto isso, a mulher e a garotinha ficam no carro. Na cabine, ele encontra um jornal com a notícia do falecimento de uma garotinha num acidente de carro. Ele percebe que a garotinha é a sua própria filha e olha o horário do acidente. Ele, obviamente, fica perplexo, sem conseguir acreditar no absurdo da situação. Essa sua falta de ação acaba custando a vida da menina. Após a cena do acidente, surgem os criativos créditos, destacando a figura de um jornal voando pelo céu.

Se o filme mantesse a mesma qualidade do prólogo seria ótimo. Pena que aos poucos ele vai se tornando um pouco chato, arrastado e com uma trama que não empolga. Além do mais, não há sequer um bom momento de susto ou de arrepio, coisa que não falta nos filmes do Shimizu e do Nakata, pra citar os mais famosos. O que há de mais interessante é o drama do casal separado, a originalidade da idéia do jornal e alguns momentos de construção de suspense, como na cena em que eles encontram o vídeo de um sujeito que resolveu alterar o futuro através das premonições. É fato que os japoneses sempre são muito criativos no território do cinema fantástico - os caras já fizeram terror até com espirais (UZUMAKI)! Quanto a Tsuruta, vamos ver como será a sua estréia nos Estados Unidos com DREAM CRUISE (2007), último episódio da segunda temporada de MASTERS OF HORROR.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR (C.R.A.Z.Y.)



Desde sexta-feira está acontecendo em Fortaleza uma pequena mostra de filmes "alternativos". Como não tenho tempo para vê-los durante a semana, aproveitei as sessões de sábado e de domingo. No sábado foi exibido o canadense C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR (2005), de Jean-Marc Vallée, filme que me lembrou o ótimo HEDWIG - ROCK, AMOR E TRAIÇÃO, principalmente por tratar de temas como o homossexualismo e de ter o rock como pano de fundo. Diferente de HEDWIG, que trazia uma trilha sonora original, em C.R.A.Z.Y, os temas musicais são clássicos do rock que deram um trabalhão de se conseguirem por causa dos direitos autorais. Mas valeu a pena, já que as canções de Pink Floyd, Rolling Stones, David Bowie e The Cure são responsáveis por muito do prazer que o filme proporciona. O que dizer da arrepiante seqüência de "Sympathy for the Devil", dos Stones, cantada em plena igreja? Ou da cena da briga ao som de "10:15 Saturday Night", de The Cure?

Tanto as canções quanto a maneira carinhosa com que é mostrada a família de Zachary (o protagonista) contribuem para que valorizemos ainda mais cada momento da vida, já que toda época tem o seu encanto. E mais do que um filme sobre a descoberta do homossexualismo, C.R.A.Z.Y. é um filme sobre a relação de amor entre um pai e um filho. Há também o forte amor materno, que rende momentos de verter lágrimas, e o amor dos irmãos, mas é principalmente na relação pai e filho que o filme sustenta suas bases.

Na trama, Zachary, quarto filho de uma família de cinco irmãos, é um menino que sente que é diferente, mas que pelo fato de ter um pai que abomina o homossexualismo e sempre conta vantagem de sua masculinidade, acaba ficando bastante preocupado, a ponto de lutar contra seus desejos e de apelar para as orações a fim de não se tornar gay. Pelo menos até a adolescência, quando surge um certo desencanto com o Cristianismo e o rapaz resolve se declarar ateu. É nessa hora que assistimos ao já citado clipe do clássico satanista dos Stones. O aspecto religioso do filme, aliás, é tratado com muito cuidado e sutileza - o fato de Zachary ter poderes de cura sempre fica no terreno da dúvida.

Talvez a principal qualidade de C.R.A.Z.Y. esteja no agradável andamento narrativo que mostra a passagem dos anos com elegância. Aliás, a boa condução narrativa é a principal razão que nos faz gostar da maioria dos filmes, mesmo aqueles que a gente gosta sem saber bem por qual razão. Mas quando o filme mostra uma visão romântica e saudosista do passado, ele se torna mais fácil de agradar o espectador.

O roteiro é baseado nas memórias do co-roteirista François Boulay e o título se refere às iniciais dos nomes dos cinco irmãos - Christian, Raymond, Antoine, Zachary and Yvan -, bem como ao título de uma canção de Patsy Cline, adorada pelo patriarca da família. E por falar nas canções preferidas do pai da família, C.R.A.Z.Y. ainda tem o mérito de me fazer lamentar o fato de ter desistido do curso de francês e não poder entender (com mais propriedade) e cantar as canções de Charles Aznavour.

terça-feira, janeiro 16, 2007

GLOBO DE OURO 2007



Não gostei nada do fato de o Globo de Ouro esse ano ter sido apresentado numa segunda-feira. Como dou aula à noite e ainda preciso acordar cedo no dia seguinte, o resultado foi a perda do começo da premiação e uma ressaca braba na manhã de hoje. Sem falar que ontem eu cheguei já bastante cansado da escola, sentindo dores no corpo. Ainda assim, assisti até o final, conversando com os amigos pelo MSN e depois ainda assisti a mais uns trinta minutos do que tinha perdido (que havia gravado) antes de dormir. O problema de conversar pelo MSN enquanto se assiste a premiação é que você acaba ficando um pouco disperso e acompanhando pouco a festa. Havia pelo menos umas quatro janelas do MSN abertas ontem. Mas não tenho do que reclamar já que a escolha foi minha e isso é o mais próximo que eu posso chegar de assistir à premiação acompanhado e tendo alguém com quem comentar, por exemplo, sobre os lindos peitões da Salma Hayek. Ou da já tradicoinal cara emburrada do Scorsese. Ou das demais beldades lindas que aparecem na festa.

Na verdade, ver o mulherio bonito é o que mais me dá prazer nessas premiações. Além da Salma Hayek, enfeitaram a festa a maravilhosa Hayden Panettiere (de HEROES), Evangeline Lilly (LOST), Kate Winslet, Cate Blanchett, Jennifer Lopez, Beyoncé Knowles, entre outras maravilhas, boas demais para o mortal comum.

Durante a premiação do Globo de Ouro, a maioria dos filmes indicados ainda não tem chegado nos nossos cinemas. No Oscar - que, graças a Deus, vai ser num domingo -, é diferente: já conhecemos os principais indicados e podemos palpitar melhor ou torcer por algum filme, ator ou diretor. Nesse Globo de Ouro, eu estive até um pouco indiferente. Pra mim tanto fazia se quem ganhava era BABEL ou OS INFILTRADOS ou qualquer outro.

Um detalhe que eu achei curioso foi o fato de que Hollywood está cheia de estrangeiros, representados especialmente pelo elenco de UGLY BETTY. Em compensação, os americanos invadiram a categoria de filme em língua estrangeira. Filmes como APOCALYPTO e CARTAS DE IWO JIMA acabaram tomando o lugar de produções de outros países.

Quanto às surpresas, talvez a única delas seja o fato de Eddie Murphy ter ganhado o prêmio de ator coadjuvante por DREAMGIRLS - EM BUSCA DO SONHO, numa espécie de volta por cima do ator, que andava meio em decadência há algum tempo. Quanto a mais uma premiação para Merryl Streep, isso até já perdeu a graça. Que ela é uma grande atriz, disso ninguém duvida, mas ela já ganhou muitas vezes. Por isso que prefiro ver uma cara nova e interessante, como a de Sacha Baron Cohen (BORAT), que fez muita gente chorar de rir na hora de seu discurso de agradecimento. Entre os apresentadores, fiquei feliz de ver juntos o Hugh Grant e a Drew Barrymoore. Sou fã dos dois, principalmente do Hugh, e fiquei bem interessado na comédia romântica MÚSICA E LETRA.



Quanto às séries, o que será que GREY'S ANATOMY tem que ganha tantos prêmios e é tão vista nos Estados Unidos? Não conheço ninguém que assista à série. Não que eu duvide de suas qualidades. Queria que ao menos Michael C. Hall tivesse ganhado o prêmio por DEXTER, mas quem papou novamente foi o Hugh Laurie, por HOUSE.

O momento mais revoltante: quando Rubens Ewald Filho diz sobre Scorsese: "dessa vez ele fez um filme bom." Dessa vez?? Fala sério!!!

O momento mais engraçado: Tom Hanks, durante a homenagem a Warren Beatty, falando sobre sua fama de comedor - o desgraçado papou até a Natalie Wood, lucky bastard!! No discurso, Beatty demonstrou um grande amor pela esposa, Annete Benning, além de reconhecer o quanto está atrás de caras como Clint Eastwood e Jack Nicholson. Se bem que deixar Warren Beatty atrás não é muito negócio não.



Vencedores da noite:

CINEMA

Melhor Filme - Drama: BABEL

Melhor Filme - Musical/Comédia: DREAMGIRLS - EM BUSCA DE UM SONHO

Melhor Direção: Martin Scorsese, por OS INFILTRADOS

Melhor Roteiro: Peter Morgan, por A RAINHA

Melhor Atriz - Drama: Helen Mirren, por A RAINHA

Melhor Ator - Drama: Forest Whitaker, por O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA

Melhor Atriz - Musical/Comédia: Meryl Streep, por O DIABO VESTE PRADA

Melhor Ator - Musical/Comédia: Sacha Baron Cohen, por BORAT

Melhor Atriz Coadjuvante: Jennifer Hudson, por DREAMGIRLS - EM BUSCA DE UM SONHO

Melhor Ator Coadjuvante: Eddie Murphy, por DREAMGIRLS - EM BUSCA DE UM SONHO

Melhor Canção Original: "The Song of the Heart", de Prince Rogers Nelson, por HAPPY FEET: O PINGÜIM

Melhor Trilha Sonora Original: Alexander Desplat, por THE PAINTED VEIL

Melhor Animação: CARROS

Melhor Filme Falado em Língua Estrangeira: CARTAS DE IWO JIMA

Prêmio Cecil B. DeMille para Warren Beatty.

TELEVISÃO

Melhor Série - Drama: GREY'S ANATOMY

Melhor Atriz de Série - Drama: Kyra Sedwick, por THE CLOSER

Melhor Ator de Série - Drama: Hugh Laurie, por HOUSE

Melhor Série - Musical/Comédia: UGLY BETTY

Melhor Atriz de Série - Musical/Comédia: America Ferrera, por UGLY BETTY

Melhor Ator de Série - Musical/Comédia: Alec Baldwin, por 30 ROCK

Melhor Minissérie ou Filme Feito para TV: ELIZABETH I

Melhor Atriz de Mini-Série ou Filme Feito para TV: Helen Mirren, por ELIZABETH I

Melhor Ator de Mini-Série ou Filme Feito para TV: Bill Nighy, por GIDEON'S DAUGHTER

Melhor Atriz Coadjuvante de Série, Minissérie ou Filme Feito para TV: Emily Blunt, por GIDEON'S DAUGHTER

Melhor Ator Coadjuvante de Série, Minissérie ou Filme Feito para TV: Jeremy Irons, por ELIZABETH I

sábado, janeiro 13, 2007

SEINFELD - 2ª TEMPORADA (Seinfeld - Season 2)



Terminei de ver essa semana os episódios da 2ª temporada de SEINFELD (1991). Claro que a série ainda estava no começo e ainda faltariam pelo menos uns dois anos para que ela atingisse a maturidade e a perfeição, mas é incrível como alguns episódios dessa temporada conseguem ser geniais. A começar por "The Deal". Nesse episódio, os responsáveis pela série botaram o Jerry e a Elaine para fazer sexo. O que acaba gerando uma excitante discussão sobre o quanto o sexo pode atrapalhar uma amizade. Sabia-se que no passado eles eram namorados, mas em nenhum momento da série até então, tínhamos mais detalhes sobre o relacionamento dos dois, sempre mostrados como apenas bons amigos.

Em SEINFELD não há lugar para momentos ternos, já que o que há é a exploração do lado mais egoísta, interesseiro e mesquinho da natureza humana. Assim, podemos ver, por exemplo, Jerry odiando o fato de ter que ir para um funeral de um familiar, justo no dia em que seu time de beisebol preferido vai jogar - em "The Pony Remark". O egoísmo é tanto que, num certo momento, quando os três amigos (Jerry, George e Elaine) estão conversando no café, eles se preocupam tanto com seus próprios problemas que nem sequer ouvem o que o outro diz. É nesse momento que George diz que não consegue imaginar que um dia ele vai fazer sexo novamente, já que não havia nada à vista. (Pior que eu falei a mesma coisa dias atrás, lembrando-me, claro, dessa fala do George).

Ainda sobre George, interessante que nessa temporada podemos ver um George Constanza atípico. No episódio "The Bus Boy", George se sente culpado pelo fato de um garçon ter perdido o emprego e tenta de alguma maneira ajudá-lo. Nota-se que o personagem ainda não estava totalmente pronto. O lado neurótico do personagem seria melhor explorado no ótimo "The Heart Attack", quando George sente um mal estar no café e pede para ser levado a um hospital urgentemente. Jerry e Elaine, já sabendo que não se trata de coisa grave, ficam tirando onda com o coitado. Mas a melhor parte é mesmo quando Kramer tem a idéia de levá-lo para uma espécie de guru da nova era, já que a conta do hospital ia sair muito cara se ele fosse operado lá.

Por falar em Kramer, vale lembrar do desagradável incidente acontecido há alguns dias envolvendo o comediante Michael Richards, que, num acesso de fúria num stand-up show, acaba por agredir verbalmente um espectador, mostrando o seu lado racista. Encorajado por Jerry Seinfeld, Michael teve depois que se desculpar num programa de televisão. Mas o estrago já estava feito. Não que isso tenha denegrido o seu excelente trabalho na série. Mas pode trazer problemas para a sua carreira profissional.

No DVD que contém os últimos episódios dessa segunda temporada tem um excelente documentário de mais de uma hora chamado "How It Began", que mostra Seinfeld, Larry David e todos os principais envolvidos na série contando detalhes sobre os bastidores, especialmente dos momentos iniciais. Larry David, aliás, se mostrou uma pessoa muito mais simpática pra mim depois de eu ter visto esse documentário. O cara era o grande preocupado da dupla, já que Jerry sempre foi super-tranqüilo. Enquanto isso, Larry ficava sempre apavorado com a responsabilidade de criar mais episódios para a série.

Meu top 5 dessa segunda temporada:

1. "The Deal". Jerry e Elaine fazem um acordo para não perderem "this" (a amizade) e ainda usufruirem do "that" (o sexo). Episódio baseado num fato real da vida de Larry David. O demorado plano seqüência dos dois conversando é genial.

2. "The Chinese Restaurant". Esse é um dos episódios mais revolucionários da série. Simplesmente não acontece nada. Jerry, George e Elaine, antes de uma sessão de PLAN 9 FROM OUTER SPACE, vão a um restaurante chinês. Como o restaurante está lotado, eles ficam em pé durante meia hora, esperando por uma vaga. E praticamente nada acontece. É um episódio que faz jus à fama da "série sobre nada". Michael Richards ficou meio triste por ter ficado de fora desse episódio.

3. "The Heart Attack". George suspeita de que está tendo um ataque cardíaco e é levado para o hospital.

4. "The Apartment". Jerry faz a besteira de contar para a Elaine que há uma vaga no prédio onde ele mora. Quando ele percebe que Elaine, ao se mudar para o mesmo prédio, vai passar o dia em seu apartamento, ele se arrepende amargamente.

5. "The Phone Message". George está apaixonado. Sai com uma garota e liga para ela várias vezes e ela não responde. Ele acaba falando um monte de besteiras na secretária eletrônica. O que ele não sabia é que a moça estava viajando.

E eu já me abasteci de mais episódios de SEINFELD hoje. Passei na locadora e aluguei mais dois DVDs com episódios da terceira temporada pra gravar e ir assistindo aos poucos.

P.S.: Estou aproveitando o "vazamento" na internet dos quatro primeiros episódios da sexta temporada de 24 HORAS. Essa temporada começou arrebentando. Adorei o primeiro e estou puxando os outros três.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

LUTADOR DE RUA (Hard Times)



Filme de estréia de Walter Hill, LUTADOR DE RUA (1975) aproveitava o sucesso de Charles Bronson, recém saído do desempenho positivo de DESEJO DE MATAR (1974). Se nos anos 60 Bronson já era um herói de ação em potencial, nos anos 70, ele se firmaria como um dos maiores astros dos filmes de ação de todos os tempos. Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa.

Em LUTADOR DE RUA, Bronson contracena ao lado de James Coburn, com quem já trabalhara em dois clássicos de John Sturges - SETE HOMENS E UM DESTINO (1960) e FUGINDO DO INFERNO (1963). Também no elenco, a eterna parceira e grande amor de sua vida, Jill Ireland. Inclusive, soube que Bronson conheceu Jill durante as filmagens de FUGINDO DO INFERNO. O então marido dela fez a besteira de apresentá-la para o Buchinski e ele acabou tomando a mulher do cara. Em LUTADOR DE RUA, Jill interpreta uma prostituta, embora o filme suavize esse detalhe, evitando mostrá-la com outros clientes. E como o filme se passa durante a Grande Depressão nos anos 30, qualquer trabalho que se arranjasse pra sobreviver tava valendo.

Nesse cenário triste da história americana, dois homens se conhecem. Coburn, o apostador que ganha uns trocados botando rapazes fortes para brigar nas ruas, e Bronson, como o forasteiro que chega em Nova Orleans pronto pra brigar e ganhar o seu dinheirinho para sobreviver. A falta de dinheiro era tanta que numa cena do filme, ele pede um café e a Jill aparece pedindo pra ele pagar um café pra ela. Como não tinha dinheiro, ele disse: "tome o meu".

Curiosamente os produtores iam dar ao filme o título "The Street Fighter", mas como o filme do Sonny Chiba apareceu primeiro, eles acabaram tendo que mudar para HARD TIMES, título que eu até prefiro. Outra curiosidade interessante é que essa foi a única vez que Bronson trabalhou com Walter Hill. Isso porque Hill falou mal da interpretação de Jill Ireland e Bronson não gostou nenhum pouco desse comentário. Bronson nunca mais quis saber de trabalhar com ele novamente. O filme seguinte de Hill seria o noir CAÇADOR DE MORTE (1978), enquanto Bronson fez em seguida o western UM TREM PARA O INFERNO (1975). No fim das contas, LUTADOR DE RUA ficou como um grande momento em que dois grandes talentos se encontraram uma única vez.

Gravado da Rede Globo.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

MASTERS OF HORROR: RIGHT TO DIE



Como o episódio de Tom Holland, WE ALL SCREAM FOR ICE-CREAM, foi adiado por alguma razão, no lugar dele foi exibido RIGHT TO DIE (2007), de Rob Schmidt, cineasta cujo filme mais conhecido é o horror rural PÂNICO NA FLORESTA (2003). Schmidt também teve uma experiência positiva com a adaptação teen de CRIME E CASTIGO (2000), de Dostoiévski. RIGHT TO DIE mantém, pelo menos pra mim, uma boa impressão do seu trabalho na direção.

O filme começa com Martin Donovan dirigindo um carro na estrada. Ao seu lado está sua esposa, Abby. Os dois estão discutindo. Ela está com raiva dele por alguma razão. Com a discussão, eles não notam a árvore caída na estrada que faz com que o carro vire. Ele é salvo pelo air bag, ela é arremessada para fora do carro. Com o derramamento da gasolina e o contato com o fogo (do cigarro que ela fumava?), o corpo dela é totalmente queimado. Abby perde toda a pele e fica em estado comatoso no hospital. O marido prefere que sejam desligados os aparelhos para que ela possa morrer logo. Entram em cena o advogado mercenário, a amante safada e a mãe de Abby, que é contra a eutanásia aplicada à filha. Mas como se trata de um filme de terror e não de um melodrama trágico, há também fantasmas, cenas de morte e uma perturbadora seqüência de retirada de pele. Tem também duas cenas de nudez com as duas atrizes do filme, que ninguém é de ferro. Aparentemente, o filme se passa no futuro, já que se fala em transplante de pele.

RIGHT TO DIE é um dos meus favoritos dessa temporada, atrás apenas dos episódios de Carpenter, Landis e Argento, nessa ordem. Pelo menos por enquanto. Pra quem não estava esperando muita coisa, não deixa de ser lucro. Só o final que achei pouco satisfatório, dando a impressão de que o roteirista não sabia como acabar a estória. Mesmo assim é um final que dá pano pra manga para discussões.

Rob Schmidt está filmando atualmente THE ALPHABET KILLER (2007), thriller baseado em fatos reais envolvendo o serial killer de Rochester, Nova York. No elenco, Schdmidt conta novamente com Martin Donovan, e novamente com a deliciosa Eliza Dushku, que estrelou PÂNICO NA FLORESTA.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O CINEMA INDEPENDENTE AMERICANO EM TRÊS FILMES



É comum a gente ver o cinema independente americano de vez em quando receber algumas críticas negativas, seja por abordar repetidamente, nem sempre com sucesso, alguns temas, seja por utilizar de recursos narrativos considerados irritantes. Tem também o fato de que esse cinema acaba tomando de conta também do circuito alternativo nacional, que poderia ser preenchido por filmes brasileiros ou de outras cinematografias. Mas na verdade pouca gente reclama disso e também não sou eu quem vai reclamar. Abaixo, três bons filmes de baixo orçamento (para os padrões americanos, claro) que, cada qual à sua maneira, podem conquistar o espectador.

A ESTRANHA FAMÍLIA DE IGBY (Igby Goes Down)

Havia gravado há alguns meses da TNT esse filme de estréia de Burr Steers e tinha até me esquecido de quem estava no elenco. Só lembrava que tinha o Kieran Culkin e a Susan Sarandon. Quando apareceram os nomes de Claire Danes e Amanda Peet nos créditos de abertura, eu fiquei logo animado e o filme desceu que foi uma beleza. Muito disso graças à performance simpática de Culkin e à presença de cena dessas duas beldades de aparência meio estranha, mas que eu adoro. A Amanda Peet recebeu um papel mais ousado, meio puta, meio junkie, com momentos de pura decadência. Já a Claire Danes é o modelo de namorada ideal. E como a gente tem a tendência de torcer pelo protagonista (Culkin), fiquei muito puto quando o cafajeste do Ryan Phillippe tenta tomar a namorada do irmão. Também simpatizei bastante com o personagem de Bill Pullman, o depressivo pai de família que tenta se "recuperar da vida". A ESTRANHA FAMÍLIA DE IGBY (2002) tem uma característica típica do cinema independente, que é a de mostrar personagens excêntricos, uma coisa meio Wes Anderson. O que pode incomodar um pouco é o fato de que o protagonista não parece ter tantos motivos assim para odiar a mãe (Susan Sarandon), que não passa também de uma vítima da depressão e da paranóia que estamos vivendo atualmente. Desse modo, eu não vejo o filme como uma crítica à família americana, mas como um retrato do mundo que vivemos. Tanto que a canção "Don't Panic", do Coldplay, foi muito bem escolhida para ilustrar determinada cena.

SEGUNDA CHANCE (P.S.)

Com uma atriz como Laura Linney no elenco, um filme precisa de muito pouco para me agradar. SEGUNDA CHANCE (2004) é um desses filmes devedores do talento e brilhantismo dessa atriz excepcional. Mesmo para quem não é fã dela, SEGUNDA CHANCE também conta com uma premissa bem interessante. Uma mulher de meia idade (a própria Laura) que trabalha numa conceituada universidade um dia se surpreende ao ver entre os candidatos a uma vaga na universidade um jovem - Topher Grace - que tem o mesmo nome de um antigo namorado que morreu anos atrás num acidente de carro. Ela fica ainda mais impressionada ao ver o rapaz pessoalmente. Surge a tentação de iniciar um relacionamento com um rapaz bem mais jovem e que é, pra ela, o fantasma de um grande amor. Gosto muito da cena dos dois de frente para o espelho, a Laura falando sobre a força destruidora do tempo. Mas já faz tanto tempo que eu vi esse filme, tanto que não me lembro mais de como termina. SEGUNDA CHANCE não chega a ser tão bom e emocionante como CONTE COMIGO (2000), mas é bem gostoso de ver. Também no elenco: Gabriel Byrne e Marcia Gay Harden. Visto em DVD.

NAPOLEON DYNAMITE

Chega com certo atraso ao mercado de DVD - e quase que simultaneamente com NACHO LIBRE (2006) -, o longa de estréia de Jared Hess, NAPOLEON DYNAMITE (2004). Apesar de muito esquisito, o filme fez muito sucesso nos Estados Unidos, ganhando até prêmio principal no MTV Movie Awards de 2005. Trata-se de mais um filme que gosta de personagens esquisitos. O protagonista do filme é um nerd bem estereotipado que todos os colegas da escola querem manter distância. O irmão dele consegue ser ainda mais ridículo que ele. O cara tem 32 anos e se veste como se tivesse 15. Napoleon arranja um amigo quando chega na escola o mexicano Pedro. O filme começa a ficar mais engraçado quando os dois amigos tentam conseguir um par para o baile. Inclusive, nesse baile, rolam aquelas canções meio bregas dos anos 80, como "Time After Time", da Cyndi Lauper, e "Forever Young", do Alphaville. Agora, o filme é um elogio aos freaks ou só serve mesmo pra tirar onda com eles? Entre os extras presentes no DVD, tem o curta PELUCA (2003), que nada mais é que um esboço do que seria o NAPOLEON DYNAMITE. E só agora eu fiquei sabendo da tal cena adicional de cinco minutos pós-créditos. Pô, ninguém pra me avisar...

terça-feira, janeiro 09, 2007

MASTERS OF HORROR: VALERIE ON THE STAIRS



Depois de um pequeno hiato, a segunda temporada de MASTERS OF HORROR está de volta. Não voltou com um cineasta de renome, mas tá valendo mesmo assim. Além do mais, como fui um dos poucos que gostou de CHOCOLATE (2005), o episódio que Mick Garris dirigiu para a primeira temporada, até achei que houve uma melhora neste VALERIE ON THE STAIRS (2006). Não chega a ser um bom filme, mas garante a cota de sustos e explora a nudez da personagem-título.

Aliás, o que eu tenho notado é que a antologia tem cada vez mais se sustentado em duas coisas: nudez e cenas de gore. Mesmo num episódio como THE SCREWFLY SOLUTION, de Joe Dante, quando esses elementos até poderiam ser retirados, há pelo menos uma cena com mulher pelada e outra que destaca os efeitos especiais e de maquiagem de Gregory Nicotero. De qualquer maneira, quero deixar claro que eu não estou reclamando. Como reclamar da melhor coisa do filme, como é o caso de VALERIE ON THE STAIRS? Viva os exploitation movies!

VALERIE ON THE STAIRS é adaptação de um conto homônimo de Clive Barker. Na trama, Rob Hanisee, um escritor iniciante e que não conseguiu ainda ter um livro publicado, aluga um quarto numa pensão chamada Highberger House. Nessa pensão, moram outros escritores que nunca tiveram suas obras publicadas, entre eles o personagem de Christopher Lloyd, que aparece fazendo as mesmas expressões do tempo da trilogia DE VOLTA PARA O FUTURO. Rob, o escritor, começa a ouvir vozes e ver coisas quando está em sua máquina de escrever. Até que ele é visitado por uma bela jovem de nome Valerie (Clare Grant, que vai estar no elenco de BLACK SNAKE MOAN - vejam o cartaz!). De vez em quando, sem mais nem menos, ela aparece pelada. A moça é escrava de um demônio que habita a casa.

O filme até que começa bem - acho que nunca levei um susto tão grande na história da série -, mas aos poucos vai perdendo a força. Ainda assim, a estória é interessante. Clive Barker é um grande escritor e conheço alguns contos dele - dos "Livros de Sangue" - que eu adoraria ver adaptados para o cinema. Claro que alguns simplesmente não funcionariam, mas outros, se feitos por bons realizadores, poderiam resultar em ótimos filmes. Se como diretor, depois de HELLRAISER (1987), sua carreira foi ladeira abaixo, ao menos ele ainda tem a chance de dar sorte como roteirista.

Próximo MASTERS OF HORROR, já pronto pra assistir: RIGHT TO DIE, de Rob Schmidt.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

DIAMANTE DE SANGUE (Blood Diamond)



Tradicionalmente, o início do ano é marcado pelos concorrentes ao Oscar. Ainda não saiu a lista dos indicados ao prêmio da Academia, mas o Globo de Ouro já funciona como um bom termômetro para o Oscar. Apesar de filmes como os bem cotados OS INFILTRADOS, PEQUENA MISS SUNSHINE e O DIABO VESTE PRADA já terem chegado por aqui em 2006, pode-se dizer que DIAMANTE DE SANGUE (2006) é o filme que deu o pontapé inicial nessa temporada que se estende pelos meses de janeiro e fevereiro no Brasil.

Leonardo Di Caprio conseguiu uma dupla indicação ao Globo de Ouro nesse ano. Uma por OS INFILTRADOS e outra por DIAMANTE DE SANGUE. Por qual dos dois filmes ele vai ser indicado ao Oscar, hein? Claro que o filme de Scorsese é muito melhor, mas em DIAMANTE DE SANGUE Di Caprio tem uma melhor oportunidade de mostrar os seus dotes na pele de um personagem mais rico em nuances, já que Scorsese perdeu a chance de colocar um pouco de veneno no protagonista de OS INFILTRADOS.

Dos três personagens principais de DIAMANTE DE SANGUE, o de Di Caprio é o único que não tem objetivos nobres. Ele é um mercenário sul-africano que pouco se importa se o povo de Serra Leoa está se matando por causa dos diamantes. O que ele quer é lucrar. Jennifer Connelly é a jornalista americana que está fazendo uma reportagem sobre a Guerra Civil em Serra Leoa e está particularmente interessada no comércio ilegal de pedras preciosas. O pescador interpretado por Djimon Hounsou é o mais nobre dos três. Tudo que ele quer é encontrar a sua família, que se dispersou por causa dos atentados violentos causados pela frente rebelde. O filme, aliás, já começa bem violento, com cenas de mutilação, agressão e morte. Os agressores perguntam às vítimas: "manga curta ou manga longa?", se referindo ao local onde o facão irá amputar o braço da vítima. Djimon Hounsou escapa de perder um braço graças ao seu porte atlético. Assim, ele é levado para as minas, a fim de procurar diamantes para os malvadões. É lá que ele encontra um diamante dos grandões, valiosíssimo. Essa pedra será o elo de ligação dos três protagonistas.

Pra quem procura um filme sério sobre a causa dos africanos é melhor alugar HOTEL RUANDA. Em DIAMANTE DE SANGUE, Edward Zwick opta pelo gênero "filme de ação". E nesse quesito, o filme é muito bom. O problema é que Zwick não tem a mão muito boa para dramas e isso pode ser sentido à medida que o filme vai se aproximando do final. Mas Zwick tem bom senso de ritmo e quando faz filmes de guerra ou com estratégia militar, geralmente é bem sucedido, como foi o caso de TEMPO DE GLÓRIA (1989), NOVA YORK SITIADA (1998) e O ÚLTIMO SAMURAI (2003).

Leonardo Di Caprio empresta ao seu personagem uma força invejável. Ao vê-lo se esquivando dos tiros, atirando na cabeça dos inimigos ou dirigindo uma van, eu senti uma ponta de inveja dele. Eu queria ser forte e cool assim. É mais ou menos uma sensação que tenho quando vejo os antigos filmes protagonizados pelo Clint Eastwood. É possível que Di Caprio se transforme com o tempo num grande herói de filmes de ação. Já Jennifer Connelly, eu sou fã dessa mulher. Sempre fico encantado com a sua beleza extraordinária. Pra mim, Jennifer consegue salvar qualquer filme.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

OS IRMÃOS SCOTT EM DOIS FILMES



No post sobre o mais recente filme de Ridley Scott, UM BOM ANO (2006), muito se falou sobre a controversa carreira dos irmãos Scott, que têm encontrado inimigos quase que na mesma proporção que tem ganhado admiradores. Calhei de assistir a dois filmes deles dois e resolvi colocá-los num mesmo post. De Ridley Scott, PERIGO NA NOITE (1987); de Tony Scott, o recente DOMINO - A CAÇADORA DE RECOMPENSAS (2005). Os dois filmes têm a cara de seus realizadores.

PERIGO NA NOITE (Someone to Watch Over Me)

Já tinha assistido esse filme na televisão há muito tempo e não tinha gostado muito. Na revisão em DVD, acredito que o filme cresceu um bocado, ainda que no fim das contas continue o considerando uma obra menor do Scottão. Entre os pontos positivos está o bom cadenciamento da trama e as performances do elenco; entre os negativos, o clichê de que povo rico gosta de ouvir música erudita e ficar deprimido em casa e os momentos meio mornos do filme. A bela canção de abertura que dá título ao filme, cantada por Sting, também está entre os destaques positivos do filme. Na trama, Tom Berenger é um policial com a missão de proteger uma ricaça (Mimi Rogers) testemunha de um assassinato. O policial, casado e com um filho, põe em risco o seu casamento ao se envolver com a personagem de Mimi Rogers. Os momentos finais do filme são cheios de suspense, mas é aquele suspense mais frio. Interessante como Tom Berenger caiu nos anos 90. Na década de 80, ele era um astro em ascensão e presente em filmes A. Mimi Rogers também tinha certa visibilidade, até por ter sido casada com Tom Cruise - de 1987 a 1990. Foi ela, aliás, que introduziu o astro à Cientologia.

DOMINO - A CAÇADORA DE RECOMPENSAS (Domino)

Nunca Tony Scott esteve rodeado de tantas celebridades. Além da protagonista do filme, Keira Knightley, no elenco de DOMINO - A CAÇADORA DE RECOMPENSAS estão: Mickey Rourke, Delroy Lindo, Macy Gray, Lucy Liu, Tom Waits, Jacqueline Bisset, Christopher Walken e dois atores da série BARRADOS NO BAILE, interpretando eles mesmos. Pra completar, o roteiro ficou a cargo de Richard Kelly, o homem por trás de DONNIE DARKO. Kelly já havia escrito uma estória sobre Domino Harvey, a filha do ator Laurence Harvey (de SOB O DOMÍNIO DO MAL, 1962) que decidiu ser, em vez de uma modelo das passarelas, uma caçadora de recompensas. O filme mistura um pouco a história da verdadeira Domino Harvey com ficção e Tony Scott acaba realizando um grande videoclipe de mais de duas horas de duração. Achei o filme até bem interessante, mas em outras peguei no sono rapidinho. Tony fez um filme cheio de excessos e de experimentações, abusando da câmera tremida, das repetições como disco riscado, da fotografia esmaecida de cores. Essa porralouquice atingiria o ápice na cena da bad trip coletiva no ônibus, com direito até a peitinhos da Keira, mais parecidos com pequenos limões. Essa cena me pareceu uma homenagem ao ZABRISKIE POINT, de Antonioni, que sem querer pode ser um pouco culpado por essa estética de videoclipe tão cara ao Scottinho. Visto em divx.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (Stagecoach)



No livro de Scott Eyman, John Ford - A Filmografia Completa, chamou-me a atenção o que o autor escreveu sobre a primeira aparição de John Wayne em NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS (1939): "o anúncio orgulhosamente enfático de Ford a anunciar o nascimento de uma estrela." E a impressão que se tem é essa mesmo, no momento em que a câmera se aproxima de Wayne. Será que Ford já tinha a certeza de que, naquele momento, estaria construindo uma lenda? O fato é que o filme é a síntese de todos os westerns que viriam depois dele. NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS também introduzu dois elementos fundamentais do cinema fordiano: John Wayne e o Monument Valley.

Sobre o Monument Valley, Ford gostava tanto do lugar que chegou a comprar um pequeno edifício com vista para lá. Ele ia pra lá até quando não estava filmando. E o ponto onde Ford mais gostava de filmar as belas rochas mais tarde ganharia o nome de "Ford's Point". Quanto a John Wayne, NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS foi o primeiro papel de destaque do ator depois de nove anos trabalhando em westerns B, depois de ter protagonizado um filme de Raoul Walsh - A GRANDE JORNADA (1930) -, que foi um fracasso de bilheteria. Wayne praticamente fazia o mesmo tipo em todos os filmes, mas quando bem dirigido, era capaz de grandes performances, como em RIO VERMELHO (1950), de Howard Hawks, por exemplo.

Wayne demora um pouquinho a aparecer em NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS. Antes, nos são apresentados os outros personagens que participarão da jornada: a prostituta Dallas; Doc Boone, o médico bêbado; um banqueiro desonesto; uma senhora esnobe, grávida, viajando ao encontro do marido; Hatfield, o jogador, interessado na tal senhora; o vendedor de uísque que mais se parece com um pastor; o xerife; e o cocheiro. No meio do caminho, integra a diligência John Wayne, como Ringo Kid, o pistoleiro que fugiu da cadeia para vingar a morte do pai e do irmão e que ficou sob custódia do xerife. O humor fica por conta dos personagens do médico bêbado e do vendedor de uísque. O bêbado não larga do pé do vendedor, fazendo questão de carregar a sua pasta cheia de amostras grátis de bebida.

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS condena a hipocrisia da sociedade e elogia a virtude daqueles que estão à margem, representados pelo pistoleiro Ringo Kid, por Dallas, a prostituta, e pelo médico bêbado. O mais bonito de tudo é que os outros personagens, aqueles que se acham melhores do que os "pecadores", acabam precisando da ajuda desses três em determinado momento da jornada. Só a construção desse entrelaçamento dramático dos personagens já seria motivo mais do que suficiente para louvar esse trabalho de Ford, mas entra aí também a famosa cena da perseguição dos índios, seguida pela salvação pela cavalaria e do momento em que Ringo Kid vai se vingar dos assassinos de seus familiares. São esses momentos em que a construção da mitologia do western se torna mais evidente. E ainda temos o momento mais terno do filme, quando é definido o destino do casal de apaixonados, Ringo e Dallas. Eles que, segundo as palavras de Doc Boone e do xerife, estariam a salvo das bênçãos da civilização.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

TRIBUTO A HOWARD HAWKS



A Zingu! de janeiro presta uma homenagem a um dos maiores gênios do cinema: Howard Hawks. Eu participei como colaborador especial, escrevendo sobre três filmes do cineasta: HERÓIS DO AR (1936), HATARI! (1962) e O ESPORTE FAVORITO DOS HOMENS (1964). Os textos que escrevi são dos mesmos moldes do que eu escrevo aqui pro blog.

Outros oito filmes foram analisados por Leandro Caraça, Sergio Andrade, Filipe Chamy, Gabriel Carneiro, Raphael Carneiro, Daniel Salomão Roque, Matheus Trunk, além de um texto do famoso crítico Antonio Moniz Viana para ONDE COMEÇA O INFERNO (1959), retirado do livro "Um Filme por Dia". Há também um trecho de uma entrevista que Hawks deu para Peter Bogdanovich, para aqueles que não têm o livro "Afinal, Quem Faz os Filmes".

A nova edição da revista ainda conta com a estréia da Coluna do Biáfora, destacando O ESÍRITO DA COLMEIA, obra que ganhou novo interesse graças ao sucesso de O LABIRINTO DO FAUNO; além das já tradicionais colunas Estranho Encontro, de Andrea Ormond; Cinema Extremo, de Marcelo Carrard; e Anti-Musas, de Melody Westenra. Entre outras coisas. A Zingu! está se firmando como uma das mais interessantes e saborosas revistas eletrônicas de cinema da atualidade. Não deixem de conferir e prestigiar o belo trabalho idealizado por Matheus Trunk.

terça-feira, janeiro 02, 2007

BEYOND THE CLOUDS / THE PLACE PROMISED IN OUR EARLY DAYS (Kumo no Mukou, Yakusoku no Basho)



Nada como começar o ano com animação, hein.:) Ok, o trocadilho foi meio sem graça, mas pelo menos deu pra notar que hoje eu estou de bom humor. Vamos ao filme, então.

Quem assiste aos curtas SHE AND HER CAT (1999) e THE VOICES OF A DISTANT STAR (2003) com certeza fica logo impressionado com o talento de Makoto Shinkai. Esse rapaz fez essas animações de pura poesia praticamente sozinho. Ele e seu Macintosh. Por essa razão, a expectativa em torno do primeiro longa-metragem de Shinkai era grande. BEYOND THE CLOUDS (2004) é uma produção bem mais ambiciosa e complexa, mas que ainda conta com alguns aspectos de seus filmes anteriores. Em especial a temática da solidão, bastante explorada principalmente em THE VOICES OF A DISTANT STAR.

Se existe um problema em BEYOND THE CLOUDS é a complexidade da trama que envolve universos paralelos e uma intrincada trama política na qual o Japão é um país dividido entre Norte e Sul - como atualmente é a Coréia. Os protagonistas são os jovens Hiroki e Takuya. Ambos são fascinados por Física e sonham em construir um avião para chegar até uma torre gigante que fica localizada entre as porções Norte e Sul do Japão. Tanto Hiroki quanto Takuya são interessados numa colega de escola, Sayuri, uma menina que tem, com freqüencia, estranhos sonhos. Três anos depois, os três amigos estão separados e vivendo em cidades diferentes. Um deles se conecta com Sayuri através de sonhos. A menina vive em estado de coma e morando sozinha num universo paralelo, ao mesmo tempo em que seu corpo é conectado a aparelhos monitorados por uma equipe de cientistas especializados em universos paralelos. O filme mostra a teoria de que as realidades alternativas são como sonhos do universo.

Suspeito que os japoneses têm uma mente muito mais desenvolvida que a dos ocidentais, muito acostumados às narrativas clássicas americanas que, se comparadas às narrativas japonesas, parecem até um pouco didáticas. Quer dizer, a complicação não se deve apenas ao formato narrativo, mas à tendência que os japoneses têm de gostar de coisas complicadas, vide séries como NEON GENESIS EVANGELION, SERIAL EXPERIMENTS LAIN e PARANOIA AGENT. Provavelmente porque o modo que eles têm de pensar é totalmente diferente do nosso. Apesar de eu ter queimado alguns neurônios - muitas vezes em vão - pra tentar entender a intrincada trama, os momentos mais ligados aos sentimentos e à emoção dos personagens me impressionaram bastante. Em especial ao momento final, quando um dos personagens tenta resgatar Sayuri do universo paralelo onde ela habita. A música excepcional de Tenmon contribui para tornar BEYOND THE CLOUDS ainda mais convidativo.

Agradecimentos especiais ao amigão Marcelo Reis, que é quem tem me apresentado à obra de Makoto Shinkai.

P.S.: Quem quiser conferir no youtube o belíssimo SHE AND HER CAT, eis o link. Garanto que serão cinco minutos muito bem aproveitados.