segunda-feira, agosto 21, 2006

ALMAS REENCARNADAS (Rinne / Reincarnation)



Uma pena que depois da estréia de dois ótimos filmes - o chinês VISÕES e o tailandês ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO -, tivemos uma queda de qualidade no cinema oriental de terror entre os filmes lançados nos cinemas. Esperava ao menos que esse ALMAS REENCARNADAS (2005) me deixasse mais entusiasmado que o ASSOMBRAÇÃO dos Pang Brothers.

Takashi Shimizu, depois de despejar um monte de filmes da franquia JU-ON (quatro no Japão e dois nos Estados Unidos), aparece dessa vez com um enredo novo. ALMAS REENCARNADAS tem uma premissa até interessante: jovem cineasta famoso quer fazer um filme sobre um crime ocorrido há trinta e cinco anos, quando um homem, de posse de uma câmera 8 mm, assassinou onze pessoas num hotel. Uma jovem que foi escalada para viver o papel principal no tal filme, começa a ter visões de uma garotinha segurando uma boneca de aparência sinistra. Paralelamente, outra moça sonha freqüentemente que esteve no hotel. Aos poucos, vamos percebendo que as almas dessas pessoas estão profundamente ligadas ao genocídio ocorrido no hotel.

Um dos maiores defeitos de ALMAS REENCARNADAS é o de não assustar. Lembro que O GRITO (2004), o único filme que eu tinha visto do Shimizu, cumpriu muito bem a função de divertir e assustar. A diversão ficou por conta daquele som que os espíritos rancorosos geravam, muito parecido com um arroto. ALMAS REENCARNADAS não faz a gente pular da cadeira e nem rir. Quer dizer, há quem ria da boneca, uma versão nipônica do Chucky, mas eu não achei graça nenhuma. A única coisa que se aproxima de assustador no filme é o grito rasgado da garota durante a primeira tomada que ela faz no filme, quando vê o fantasma do assassino. Poderia reclamar de alguns momentos confusos e de algumas pontas soltas do roteiro, mas não é isso que incomoda. O que me incomodou foi o fato de que a revelação do final do filme, eu já havia adivinhado meia hora antes. E olha que eu não sou bom nesse negócio de antecipar o final dos filmes.

ALMAS REENCARNADAS é o terceiro filme do projeto J-Horror Theater, produzido por Taka Ichise e dirigido por seis cineastas diferentes. Os dois primeiros filmes foram lançados no Brasil direto no mercado de vídeo pela Paris Filmes: INFECÇÃO (2004), de Masayuki Ochiai, e O TERROR DA PREMONIÇÃO (2004), de Norio Tsuruta. Não cheguei a ver nenhum dos dois.

Sobre O GRITO 2 (2006), é uma pena que Sarah Michelle Gellar, um dos melhores atrativos do primeiro O GRITO, vai ter uma participação bem pequena no novo filme, previsto para estrear no Brasil no dia 27 de outubro.

sexta-feira, agosto 18, 2006

PSICOSE II (Psycho II)



Sempre que via Richard Franklin comentando nos documentários presentes nos DVDs dos filmes de Alfred Hitchcock, ficava me perguntando: o que esse cara está fazendo aí? Será que PSICOSE II (1983) deve ser levado em consideração, deve ser respeitado? Na minha cabeça, todas essas continuações de PSICOSE (1960) deveriam ser ignoradas, fazer de conta que elas não existem. Mas de uns tempos pra cá, meio que sem querer, comecei a ficar interessado em assistir PSICOSE II. Quando o filme passou na Globo um dia desses, eu perdi. Acordei de madrugada, o filme já estava passando. Eu vi umas partes e me interessei pelo filme a ponto de comprar o DVD nas Americanas, a um preço mais ou menos razoável, num desses momentos de impulsividade consumista. Levei em consideração o fato de o filme ser considerado bom pela maioria das pessoas que o viram. E realmente é um bom filme. É a tal coisa: não se deve de maneira nenhuma tentar compará-lo à obra-prima do grande Hitch.

Uma coisa que eu não sei explicar em relação ao PSICOSE original é o fato de que eu costumo me lembrar de tudo o que acontece até a cena do chuveiro. Depois da morte de Marion Crane (Janet Leigh), o filme fica bem nebuloso em minha memória. Talvez por Hitchcock ter matado a personagem de maior identificação com o público tão cedo. PSICOSE II se inicia justamente com a cena clássica do chuveiro. Daí vem os créditos e as cores aparecem pondo fim ao preto e branco do original. Depois de mais de vinte anos preso, Norman Bates (Anthony Perkins) é libertado. Ele volta para a mesma casa onde ele guardava o cadáver da mãe e para o mesmo motel. A fim de retomar o contato com a sociedade, Bates começa a trabalhar num restaurante local. É lá que ele conhece a personagem de Meg Tilly. E acaba levando a moça para passar uns dias no motel. Quem também está na cidade é Lila Loomis. Isso mesmo, além de Anthony Perkins, quem também está no filme é Vera Miles, novamente no papel da irmã de Marion Crane, tentando de tudo para fazer Norman voltar para o sanatório.

Um dos trunfos de PSICOSE II é que a estória, a cargo de Tom Holland, mantém um mistério interessante no que se refere ao autor dos assassinatos no motel. Quem estaria cometendo os crimes? O próprio Norman Bates ou alguém que está querendo enlouquecer ainda mais o pobre homem? Ou ainda: seriam os crimes de natureza sobrenatural? A velha morta estaria de volta? Ou seria tudo fruto da mente perturbada de Norman? Tudo isso, aliado ao teor mais violento, contribuiu para o sucesso dessa continuação. A direção de Richard Franklin também é bastante elegante. Destaco uma cena em que a câmera desce até o porão para flagrar um casal de jovens que entra na casa de Bates para fumar maconha e fazer sexo.

Interessante levar em consideração o momento em que o filme foi feito. Alfred Hitchcock havia falecido em 1980, mesmo ano em que Brian De Palma dirigiu VESTIDA PARA MATAR, na minha opinião, a mais bela homenagem ao filme de Hitch. No mesmo ano, SEXTA-FEIRA 13, que já se aproveitava do sucesso de HALLOWEEN, de John Carpenter, iniciava uma das mais lucrativas franquias do gênero. Assim, por que não trazer de volta um dos mais famosos psicopatas da história do cinema e, ainda por cima, faturar uma bela grana?

Durante a produção, Anthony Perkins se desentendeu com Meg Tilly. Meg, quando criança, era proibida de ver televisão e por isso nunca tinha visto o PSICOSE original e nem sabia da importância da obra e do porquê de todo o bafafá em torno do retorno de Perkins ao papel que o consagrou. Perkins ficou chateado com o descaso da moça e ficou sem falar com ela durante as filmagens, inclusive, tentando tirá-la do elenco.

Depois desse filme, Norman Bates ainda apareceria em mais duas continuações, PSICOSE 3 (1986), dirigido pelo próprio Perkins, e PSICOSE 4 - A REVELAÇÃO (1990), dirigido por Mick Garris. Um filme chamado BATES MOTEL (1987), embora não traga Norman Bates, se aproveitou do nome e do local para ganhar alguns trocados. BATES MOTEL foi o piloto de uma série de televisão que, graças a Deus, não vingou.

quinta-feira, agosto 17, 2006

GERTRUD



Depois de A PALAVRA (1955), Carl Th. Dreyer levou quase uma década para levar às telas o seu derradeiro filme, GERTRUD (1964). Imagino a expectativa que um novo filme do mestre deve ter causado para o público da época. Ainda mais depois de uma obra-prima tão impactante quanto A PALAVRA. Mal comparando, é mais ou menos o que aconteceu quando fomos ao cinema ver DE OLHOS BEM FECHADOS, do Kubrick, outro cineasta que demorava muito a realizar novos filmes, principalmente nos últimos anos de sua carreira. Se levarmos em conta toda essa expectativa, GERTRUD pode até ter me decepcionado um pouco, mas é inegável a grandeza do filme e a certeza de que se trata de um trabalho de um mestre.

Em GERTRUD, Dreyer deixa um pouco o tema da morte, tão presente em seus últimos filmes, e retoma a temática da solidão e do amor não correspondido de MIKAEL (1924). Com a diferença que dessa vez Dreyer tem a seu favor o uso do som e do silêncio. O filme apresenta planos longos e diálogos em tom solene e pouco natural, bem diferente tanto do cinema que se fazia na época quanto do cinema que se faz hoje. Há uma certa teatralidade nas performances do elenco. Eles falam sem olhar para o outro, como se estivessem lendo um texto numa cartolina por não terem decorado as falas. É um negócio um pouco estranho. Mas é na estranheza que reside a beleza do filme, que também é bastante econômico nas movimentações de câmera e nos cortes. Plasticamente, um dos momentos mais bonitos, é quando Gabriel, um dos primeiros amores de Gertrud, a visita. Ele se aproxima de um espelho e Gertrud aparece no espelho e a câmera fica fixa nessa posição enquanto os dois conversam, evitando, assim, o campo-contracampo. (O espelho e a moldura até me lembrou uma seqüência de O SEXTO SENTIDO, do Shyamalan.)

Num dos flashbacks, que são mostrados com uma brancura quase cegante, Gertrud lembra de quando ela largou Gabriel, apenas por ter encontrado em sua anotações a frase: "o amor de uma mulher e o trabalho de um homem são inimigos mortais". Gertrud é uma personagem que me passou impressões ambíguas. Se por um lado, eu a achei extremamente orgulhosa e egoísta, por outro, eu admirei o seu idealismo, o seu desejo de colocar o amor acima de tudo, acima de qualquer atividade que o homem possa desempenhar. Sabemos que o homem, muitas vezes, até deixa a mulher um pouco de lado, se ele exerce uma profissão ou uma atividade importante, seja ele um cientista ou um artista. Muitas vezes, o tempo que ele gasta discutindo a relação com a mulher poderia ser melhor aproveitado desempenhando aquilo que ele sabe fazer melhor. Porém, ter uma mulher que o compreenda, que esteja a seu lado para fortalecê-lo e dar maior estabilidade emocional é muito importante e, nem preciso dizer, muito melhor do que a solidão. (E como diria George Constanza do SEINFELD, não é preciso que os dois sejam parecidos. Enquanto Pasteur ficava junto às vacas cuidando da pasteurização, ela ficava na cozinha matando as baratas e fazendo bolos.)

A influência de Dreyer no cinema de Andrei Tarkovski, se já era bastante notada nos filmes anteriores, ganha força ainda maior na seqüência em que Gertrud olha para um quadro e reconhece nele um sonho que teve: ela, nua numa floresta, rodeada por lobos. Lembrei-me da cena do quadro de Leonardo Da Vinci, que aparece misteriosamente em O SACRIFÍCIO, o meu Tarkovski preferido. A utilização dos diálogos pausados também lembram bastante os filmes de David Lynch. Outros cineastas tocados claramente por Dreyer: Ingmar Bergman e Lars Von Trier. Pra um cineasta que, durante a sua época, foi considerado por muitos um velho de estética ultrapassada, até que ele deixou muitas sementes.

Meu ranking Dreyer:

1. A PALAVRA
2. DIAS DE IRA
3. A PAIXÃO DE JOANA D'ARC
4. GERTRUD
5. O VAMPIRO
6. A TRAVESSIA (curta)
7. A QUARTA ALIANÇA DA SRA. MARGARIDA
8. O GRANDE ESCULTOR (curta)
9. MIKAEL

quarta-feira, agosto 16, 2006

DENNIS HOPPER EM DOIS FILMES



"Heads are going to roll, the old order is going to fall, all you dinosaurs are going to die."
(Dennis Hopper)


Dennis Hopper estreou na direção de filmes com o hoje clássico SEM DESTINO (1969). Desde então, ele dirigiu apenas mais sete longas, sendo que um deles - ATRAÍDA PELO PERIGO (1990) - foi creditado a Alan Smithee devido a discussões com os produtores. A fama de briguento de Hopper não é de hoje. Ele foi um dos maiores rebeldes do cinema. Defendia uma mudança radical na indústria e a saída de cena dos "dinossauros" para a entrada dos cineastas novos e mais influenciados pelo cinema moderno europeu e pela contracultura.

SEM DESTINO (Easy Rider)

Junto com BONNY & CLYDE, SEM DESTINO foi o filme que deu o pontapé inicial para a revolução que se formou no cinema americano na década de 70. Se pensarmos bem, foi mesmo uma mudança e tanto entregar a direção de filmes a gente como Dennis Hopper e Peter Fonda, caras que bebiam e tomavam tantas drogas que não pareciam suficientemente responsáveis para encarar uma produção de primeira linha. Felizmente, o estilo de vida dos dois caiu como uma luva para o tipo de filme que eles pretendiam fazer. A idéia de SEM DESTINO veio de Peter Fonda, que na época já fazia alguns filmes de baixo orçamento sobre motociclistas. Ele ligou para Dennis às quatro e meia da manhã e sugeriu que os dois fizessem o filme juntos. Peter seria o produtor, Dennis, o diretor e os dois fariam o roteiro e protagonizariam o filme. Assim, daria para economizar alguns trocados e baratear o custo.

Hoje o filme é bastante associado à canção "Born to Be Wild", do Steppenwolf. Realmente a canção tocando nos créditos dá uma sensação gostosa de entusiasmo pelo que viria a seguir; anima o espectador. De propósio, o filme se parece com um western. Inclusive, os nomes dos personagens são Billy (de Billy The Kid) e Wyatt (de Wyatt Earp). SEM DESTINO não é um filme em que a estória tenha um papel fundamental. Segue apenas os dois amigos dirigindo suas motos pelo interior dos EUA, fumando maconha, cheirando cocaína, conhecendo pessoas e arrumando encrenca na maior parte das vezes. Dos que cruzam o caminho dos dois, o grande destaque é mesmo Jack Nicholson. A seqüência da viagem de ácido é uma das mais memoráveis do filme, junto com a parada em Mardi Gras e o final abrupto. O filme fez muito sucesso de bilheteria na época, o que levou Hopper a dirigir THE LAST MOVIE (1971), um de seus maiores fracassos.

ANOS DE REBELDIA (Out of the Blue)

Depois do fracasso de bilheteria e de toda a confusão que rolou com THE LAST MOVIE, Dennis Hopper volta à direção nove anos depois com o pessimista ANOS DE REBELDIA (1980), lançado em DVD no Brasil pela Aurora. O filme acompanha a vida de uma jovem de 15 anos (Linda Manz), fã de Johnny Rotten e Elvis Presley e que tem uma tendência para o lesbianismo. Ela tem um pai que está preso (o próprio Hopper) e uma mãe viciada em drogas. A menina sonha em não ter mais que estudar e nem ter que obedecer a ninguém. Assim como em SEM DESTINO, Hopper, apesar de lidar com tragédias, não mostra nenhum traço de sentimentalismo. O final é bem condizente com a canção de Neil Young que abrilhanta a trilha sonora: "It's better to burn out than to fade away", canção que, não por acaso, também serviu de inspiração para o suicídio de Kurt Cobain.

terça-feira, agosto 15, 2006

O BEIJO NO ASFALTO



Bruno Barreto hoje faz parte daquela turma de cineastas brasileiros mal vistos ou desprezados pela crítica. Talvez por fazer um tipo de cinema mais tradicional, mais clássico. Seus filmes não contam com inovações estéticas ou algo do gênero, mas são todos (ou quase todos) muito bem conduzidos. O BEIJO NO ASFALTO (1981) é um dos melhores exemplares. Trata-se de uma adaptação de uma peça de Nelson Rodrigues que se diferencia bastante das adaptações feitas por Arnaldo Jabor (TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA, O CASAMENTO), por Neville D'Almeida (A DAMA DO LOTAÇÃO, OS SETE GATINHOS) ou por Braz Chediak (BONITINHA MAS ORDINÁRIA). Seu filme é mais "organizado", menos anárquico que os trabalhos de seus colegas. Não tem o aparente desleixo dos filmes de Chediak ou de Neville.

Mesmo assim, não dá pra dizer que O BEIJO NO ASFALTO é um filme certinho, até por ser uma adaptação de uma peça das mais conhecidas de Rodrigues e não poder fugir do enredo. Independente do texto de Rodrigues, há até uma cena de nudez gratuita de Lídia Brondi tomando banho, que seria cortada ou diminuida numa adaptação mais recente. Sem falar na controversa cena de Christiane Torloni sendo abusada sexualmente pelo jornalista interpretado por Daniel Filho e o delegado corrupto.

Porém, a força do filme está mesmo no drama de Arandir, o personagem de Ney Latorraca, que é perseguido pela imprensa e pela sociedade por ter beijado um homem na boca, enquanto o mesmo agonizava no asfalto. Apesar de o preconceito contra os homossexuais ainda existir, visto hoje, O BEIJO NO ASFALTO se parece mais com um pesadelo, tal o absurdo das situações apresentadas. Ainda assim, é possível que a sociedade da época de Rodrigues fosse daquele jeito mesmo e o filme soe apenas anacrônico nos dias de hoje.

Como é comum nos filmes baseados em peças do dramaturgo, há um humor negro que garante a diversão. A cena final, com a revelação de Tarcísio Meira, é dessas que arrancam gargalhadas, tal o tom novelesco e absurdo. Como no final de TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA. Nelson mexia com psicologismos, mas ao mesmo tempo parecia não levar muito a sério a ciência de Freud. Nelson Rodrigues era único.

Gravado da Globo.

segunda-feira, agosto 14, 2006

CLICK



Como não tinha lido nenhuma crítica de CLICK (2006), saí do cinema surpreso e feliz da vida. Não adianta: eu tenho uma queda por melodramas. E CLICK, do meio pro final, é um melodrama. E eu achando que o filme era uma dessas comédias cujas melhores piadas já foram mostradas no trailer.

CLICK é o terceiro trabalho de Frank Coraci em parceria com Adam Sandler. Os dois primeiros foram O REI DA ÁGUA (1998) e AFINADO NO AMOR (1998). Vi o segundo, que não gostei muito. Achei que a mistura de comédia e drama funcionou muito bem no novo filme. É claro que há sempre um porém. No caso de CLICK, há um certo exagero na parte em que o filme procura dar uma lição de moral, mostrar o quanto é importante a família e o quanto devemos aproveitar cada segundo de nossa vida. Mas nem assim eu consigo desgostar de CLICK. Difícil não gostar de um filme que tem uma premissa tão interessante e que tem a simpatia do Adam Sandler e a beleza de Kate Beckinsale, andando de shortinho a maior parte do tempo.

No filme, Sandler é um homem que vive super-atarefado, sem tempo pra família e que vive comendo fast food. Ele está tão por fora das coisas de casa que não sabe nem qual é o controle remoto da televisão. Uma noite, ele surta e sai de casa em busca de uma loja que venda um controle remoto universal. Assim, ele vai parar numa loja chamada Bad, Bath & Beyond, onde é atendido por um funcionário estranho (Christopher Walken) que o apresenta a um controle remoto que vai mudar a sua vida. Chegando em casa com o objeto, ele percebe que é capaz de baixar o volume do latido do cachorro, de dar fast forward nas partes chatas de sua vida, de dar pause quando necessário, entre outras coisas. No entanto, o que no começo era muito divertido, acaba virando uma maldição.

Atualmente Adam Sandler anda tendo sorte com filmes. Esse já é o terceiro filme dele que eu gostei de verdade. Os outros foram EMBRIAGADO DE AMOR (2002), de P.T. Anderson, e COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ (2004), de Peter Segal. Bom pra ele. Bom pra nós. Ah, e CLICK conta com a participação especial de Dolores O'Riordan, dos Cranberries, cantando "Linger", uma de minhas canções favoritas.

P.S.: Recomendo a leitura de uma simpática entrevista de Sandler, Kate e Coraci pro Estadão.

P.P.S.: Saiu a Paisà # 4. Eu já recebi a minha. Destaque para as matérias sobre A CASA DO LAGO e os filmes de Alejandro Agresti (por Sergio Alpendre), tops de Primeiros Filmes (por Alpendre e Furtado) e um texto sobre a melancolia nos filmes de Michael Mann (por Filipe Furtado).

domingo, agosto 13, 2006

DESEJOS ARDENTES (Fresh Meat - A Ghost Story)

Na primeira metade da década de 90, eu era bastante interessado em produções pornográficas. Havia uma excelente revista especializada nas bancas, de nome Guia do Vídeo Erótico, que fazia peneira fina nos lançamentos do gênero e selecionava os melhores títulos para dar destaque. Os títulos da Evil Angel de John Stagliano ganhavam sempre muito destaque, principalmente pelo quesito "voltagem erótica". As melhores mulheres e alguns dos melhores diretores trabalhavam pra essa turma.

DESEJOS ARDENTES (1995) é um dos clássicos do gênero. John Leslie, que era um ator de destaque no cinema pornô das décadas de 70 e 80, agora era um grande diretor, que de vez em quando podia se dar ao luxo de fazer filmes originais como esse. DESEJOS ARDENTES é uma mistura bizarra de sitcom - com direito às famosas risadinhas - com filme de terror. Na verdade, o terror passa longe e a trama até hoje eu não entendi. Mas who cares?

O elenco do filme é de dar água na boca, cheio de estrelas que hoje se tornaram lendárias. A grande estrela do filme é a super-gostosa Krysti Lynn, que havia sido namorada de John Stagliano. Parece que o namoro terminou porque Krysti sonhava com uma vida normal, casar e ter filhos, mas Stagliano não conseguia se desvincular da indústria pornô, que havia se tornado a sua vida. Krysti era um vulcão de impulsividade. Ela morreu num acidente de carro em dezembro de 1995, junto com uma amiga, quando dirigiam em alta velocidade numa estrada. Krysti tinha uma bunda enorme e um sex appeal fenomenal. Em DESEJOS ARDENTES, ela faz o papel da esposa de Joey Silveira. Eles partem para uma nova casa com sua cachorrinha - na verdade, uma mulher, Annabelle Dayne. Só por esse detalhe, já deu pra notar que "fetiche" é a palavra chave do filme, hein.

A primeira cena do filme mostra Eva Flowers vestida em roupa de couro com as partes íntimas totalmente à mostra. Ela chega para defender Tom Byron de dois sujeitos briguentos. Byron pintava os lábios com batom, se fazendo de mulher. Esse primeiro capítulo do filme atinge a temperatura máxima na cena de sexo anal de Eva com Tom, enquanto os dois caras se masturbam de joelhos. Quem também aparece de roupa de couro e vestida para matar é Kirsty Waay, numa cena de sexo com Jon Dough. Sua roupa é daquelas com abertura na parte de baixo, com zíper. Uma beleza.

Mas os protagonistas - se é que dá pra usar esse termo nesse tipo de produção - são mesmo Krysti Lynn e Joey Silveira. Silveira, o marido, não liga muito para a esposa (Krysti) e muitas vezes ela precisa se masturbar em plena escada da sala só pra mostrar o quanto está louca por sexo. Ela também é capaz de transar com dois negões em plena sala pra mostrar pro corno do marido o que ele está perdendo. Ao invés de cuidar da mulher, Silveira prefere pegar a "cachorrinha" ou então imaginar alguma fantasia sexual, enquanto lê revistas pornográficas.

É num dos delírios de Silveira que vemos a cena que traz Felecia e Jenteal num menage com um sujeito. Felecia costumava fazer cenas de sexo apenas com mulheres. Não sei se ela continuou com isso, já que não acompanhei sua carreira. Nessa seqüência de DESEJOS ARDENTES, ela está de posse de um daqueles dildos com suporte - não sei bem como se chamam. Tanto Jenteal quanto Felecia eram lindas e de corpos perfeitos. De dar gosto só de olhar.

Quem também está no filme em participação de destaque é o veterano Ron Jeremy, o baixinho peludo que também era famoso por conseguir lamber o próprio cacete. Jeremy fez sucesso apesar de sua estatura e de não ser nenhum galã. Inclusive, fizeram um documentário sobre ele que alcançou relativo sucesso no circuito independente americano: PORN STAR: THE LEGEND OF RON JEREMY (2001). A única cena erótica de destaque de Jeremy é dele recebendo um boquete - aparentemente muito bem aplicado. Na maior parte do filme ele aparece em momentos de importância para a estória, às vezes vestido de açougueiro.

O filme termina com uma cena de gang bang de Krysti Lynn, que curiosamente é a cena mais fraca do filme. Ainda assim, não deixa de ser curioso ver Krysti dando pra mais de dez caras no meio da rua.

Não costumo usar o espaço do blog pra falar de filmes pornôs - essa é apenas a segunda vez - mas de vez em quando a memória afetiva fala mais alto. E como eu consegui uma cópia muito boa de DESEJOS ARDENTES em divx, não pude deixar de registrar por aqui. Amanhã voltaremos com nossa programação normal.

sexta-feira, agosto 11, 2006

ENTREVISTA: EDUARDO AGUILAR



Quando passei por São Paulo, ganhei de presente do amigo Eduardo Aguilar uma cópia em DVD de quatro de seus mais recentes curtas. Venho acompanhando com atenção sua filmografia desde PUTA SOLIDÃO (2001). A princípio, iria apenas escrever minhas impressões sobre os filmes, mas deu vontade de fazer umas perguntas a ele. Daí me surgiu a idéia de fazer uma entrevista, aproveitando-me da amizade que tenho com ele e de sua boa vontade. Além do mais, quando postei no blog uma entrevista de Davi de Oliveira Pinheiro, por ocasião do curta O COMBATE, comecei a criar gosto pela coisa. Com Aguilar, a idéia se tornou um pouco mais ambiciosa, já que as perguntas resultaram bem maiores do que eu imaginava e a entrevista ficou bem grandinha. Mas eu gostei disso. Senti-me como um Peter Bogdanovich. E fiquei feliz quando o próprio Aguilar me falou que a entrevista também foi muito prazerosa para ele. Vamos a ela, então.

Como surgiu a idéia de fazer LOURDES, UM CONTO GÓTICO DE TERROR (2004)?

Tanto o curta LOURDES, UM CONTO GÓTICO DE TERROR como os demais curtas do "Projeto: SONS" (O QUADRO (2005), JOGOS (2005) e CLAUSTRO (2005)) fazem parte de um projeto de oficina de "interpretação para cinema". Na verdade, fazia algum tempo que eu ministrava esse tipo de oficina, mas achava que faltava alguma coisa para tornar a empreitada mais ousada e estimulante, somado a isso, havia o fato de que o contato com os atores era extremamente prazeroso, mais até do que com os técnicos/artistas de uma equipe de cinema. Então, surgiu a idéia meio inspirada nos processos de trabalho de Mike Leigh e Ken Loach de partilhar o processo de criação dos personagens, e aí resolvi ir um pouco além e partilhar a criação da dramaturgia como um todo.

É importante dizer que a primeira iniciativa nesse caminho ocorreu em 2003 e foi frustrante, pois o projeto acabou interrompido por problemas de toda ordem, entre eles, alguns conflitos envolvendo a distribuição dos papeis, o que me mostrou que nem tudo eram flores em se tratando de atores e que era preciso pisar em ovos por conta da questão das vaidades. Além disso, houve um problema maior envolvendo a questão da verba prevista para a oficina, verba que foi cortada em meio ao processo, daí a opção em abortar a proposta. Mas o fato concreto é que, apesar dos reveses, eu permaneci com a crença de que era possível aparar as arestas e levar a proposta adiante, inclusive afrouxando parte do controle que busquei ter nessa primeira experiência.

É nesse contexto que em 2004 apresento essa proposta à "Oficina da Palavra". Esse local era muito mais ligado à literatura, por razões óbvias, já que ocupa a casa que foi de Mário de Andrade. Resolvi associar minha crença de que o cinema é muito mais silêncio do que palavra, e formulei o projeto com esse paradoxo, no sentido de explorar o silêncio na casa da palavra. Começamos dessa maneira, primeiro com exercícios de improvisação absolutamente livres, para que eu pudesse conhecer melhor as características dos atores, em seguida, comecei a direcionar para alguns temas, mas como a coisa não fluía e as cenas acabavam verborrágicas, ou na melhor das hipóteses, desinteressantes, propus à minha assistente, a Lina Agifu, atriz de PUTA SOLIDÃO e GAROTAS DO ABC, uma brincadeira meio 'sacana': os alunos deveriam escolher entre duas salas, e então utilizariam o tema que aparecesse escrito na lousa de cada sala. Mas como o grupo sempre fugia das questões envolvendo sexo, eu propositadamente associei dois temas em cada sala, sendo que um deles era sempre 'sexo'. Logo, escolhesse a sala que fosse, o grupo teria que trabalhar esse tema ligado a outro. No caso específico de LOURDES, UM CONTO GÓTICO DE TERROR, a dupla de temas era "sexo e religião". Foi assim que o grupo de quatro alunos, formado por três mulheres e um rapaz, surgiu com a história dessas freiras que ficavam incomodadas com a chegada de um padre. Havia uma espécie de coreografia sonora que determinava o ritmo da cena e como a apresentação da improvisação era em uma sala, tal qual um palco de teatro, você podia assistir o que ocorria nos vários ambientes ao mesmo tempo. A cena era bem interessante, e de cara, eu soube que geraria um dos curtas, mas faltava algo. O primeiro ajuste foi sugerido pela minha ex-mulher que viu a gravação do exercício, no qual o padre é quem tomava a iniciativa de seduzir a madre, e ela muito acertadamente disse que não cabia, que aquelas mulheres é que tinham o controle da situação e que a Madre é quem devia tomar a iniciativa, acho que esse elemento foi definitivo na construção de todo o resto. Eu diria que outro dado importante foi saldar minha antiga dívida com "Nossa Senhora de Lourdes", pois sou devoto da mesma, e há muito tempo tinha um curta que queria dedicar à ela, e quando um amigo ateu ficou horrorizado com a idéia de que eu terminaria o tal curta com essa dedicatória, é que tive mais certeza de que era necessário levar isso adiante. Porém o tal curta não aconteceu, e pensei comigo que a hora propícia era aquela, não haveria melhor oportunidade para homenagear "Nossa Senhora de Lourdes", e como na cena desenvolvida pelos atores, eles se relacionavam com a imagem de uma cruz, achei que devia substituir isso pela imagem de "Nossa Senhora de Lourdes". Daí resolvi pesquisar sobre as aparições dela e sobre conventos de freiras carmelitas para enfatizar o aspecto de isolamento (as carmelitas praticamente não têm contato com o mundo externo) e me deparei com dois elementos cruciais, uma das primeiras ordens das carmelitas é a das "carmelitas descalças", quem viu o curta já pode fazer a associação desse elemento, e outro dado fundamental é um momento em que Bernadette (uma das jovens que presenciou a aparição) se arrasta aos pés da imagem de "Nossa Senhora de Lourdes".

Bom, tudo isso somado, me parecia que finalmente eu tinha que assumir de forma mais concreta minha paixão pelo cinema de horror, ela sempre existiu, mas por conta do enorme preconceito que o gênero enfrenta tanto entre a crítica como no próprio meio cinematográfico, eu mantinha essa paixão de forma meio envergonhada até descobrir a lista de discussão canibal_holocausto. A esses elementos todos envolvendo a criação de LOURDES, acrescente-se que eu havia descoberto o cinema de Pupi Avati, e estava encantado com a incrível atmosfera que ele consegue criar a partir de pouquíssimos elementos, e tanto a abertura do curta, como o seu 'quase final', remetem a filmes de Avati. A abertura é uma citação explícita de A CASA DAS JANELAS QUE DAVAM RISADAS e o 'quase final' remete a ZEDER um filme sobre zumbis que praticamente não os mostra. No entanto, a principal referência desse meu trabalho está em outro 'quase plano final' que acontece na capela com uma das noviças se transfigurando em LOURDES. Essa referência conduziu a essência do conceito do projeto, que era misturar sexo e religião, o que ao meu ver, só poderia resultar em ascese, e lógico, não apenas a ascese religiosa, o alcance da santidade, mas essa possibilidade contida no gozo, no orgasmo sexual/religioso. E foi essa plenitude tão almejada pelos personagens do cinema de Khouri que em certa medida, manteve a alma desse trabalho.

Por fim, é fundamental dizer, que com o projeto em curso, roteiro estruturado a partir da improvisação e dos seguidos ensaios com constantes contribuições dos atores, finalmente pude assistir DEMONIA, de Lucio Fulci, um filme decepcionante em se tratando do mestre italiano, mas havia uma intenção que se sobrepunha ao resultado, ela já estava presente na própria imagem da capa do DVD, com uma madre tendo o símbolo da dúvida fixado em sua testa, e como o curta fala de mulheres que se rebelam contra uma condição pré-estabelecida, nada melhor do que identificá-las no momento de sua 'transformação' usando o símbolo da dúvida.



Uma coisa que me deixou um pouco grilado em LOURDES foi justamente a ascese, essa mistura de orgasmo do mundo físico com o nirvana do hinduísmo, que eu, até então, não conhecia. A propósito, essa é uma definição razoável de ascese? Mas a verdadeira pergunta é: você não acha que pra um filme dedicado a uma santa, LOURDES não ficou muito subversivo? A Igreja não deve ver com bons olhos freiras se masturbando ou uma madre superiora beijando a boca de um padre. Pra completar, entre as referências que você não mencionou, TRISTANA também está incluído, não?

Aqui temos uma questão bem interessante. Bem, estou entendendo que a primeira parte da pergunta é muito mais uma curiosidade sua do que parte efetiva da entrevista, mas sim, concordo com a sua compreensão de ascese, mas veja bem, ascese no sentido estrito da palavra está ligada ao aspecto religioso apenas, sem qualquer conotação sexual, essa conotação é fruto do entroncamento dos filmes do Khouri com o meu olhar sobre o tema.

Agora vamos à segunda parte da pergunta: primeiro, para evitar mal-entendidos, o nome "Lourdes" no curta está associado à aparição de "Nossa Senhora" na cidade de Lourdes e portanto, não se trata de uma santa, e, como o filme é assumidamente católico, isso faz alguma diferença, pois a figura de Nossa Senhora é muito mais forte do que a de uma santa.

E sim, tenho a convicção de que isso torna o filme subversivo, o que aliás, vejo com muito bons olhos e plena satisfação que seja compreendido dessa forma. Mais do que um filme católico, e eu o vejo dessa forma, acima de tudo é um filme sobre religiosidade e não sobre religião, sem no entanto abdicar desse viés, se é que é possível admitir essa dualidade. Vou aproveitar pra contar uma história engraçada sobre os bastidores da filmagem que acho que ajuda a entender (ou não) a minha 'cabeça' em relação ao tema.

Estávamos quase pra terminar as gravações de LOURDES, todos muito cansados, pois os outros três curtas já haviam sido realizados e a 'pilha' estava bem arriada, já que nesse tipo de trabalho semi-independente, o esforço de cada um é no mínimo dobrado em relação aos demais projetos similares. Faltavam fazer os planos da imagem de "Nossa Senhora" que todos insistentemente chamavam de santa, com o que eu já não me importava mais em corrigir. Pois bem, enquanto os detalhes eram afinados, alguns componentes masculinos da equipe fizeram gestos libidinosos em relação a imagem de gesso e eu prontamente fiquei irritado. Difícil ser preciso em palavras sobre essa sensação de enorme incômodo que a brincadeira de parte da equipe me causou. Seguramente está associado à minha forte formação católica e o que a imagem representa pra mim, por outra, é difícil convencer a todos que antes da subversão estava o enorme respeito que tenho pela Virgem Maria, acho que ainda sem conseguir me explicar por completo, eu diria que a minha referência nesse tipo de paradoxo, é talvez a mais bela música do Raul Seixas, de quem sou fã incondicional, a "Ave Maria da Rua". Enfim, não cabe reproduzir a letra por aqui, mas é coisa de canceriano e o Raul era um desses.

E sim, TRISTANA é uma referência digamos que das mais sutis do filme. Certamente haverá quem diga que a sutileza foi exagerada e a citação não se faz clara, o que a princípio seria uma falha na pretensão, mas prefiro crer que assim como já descobri muitas coisas em um filme quando o revi, esse também pode ser o caso dessa citação, e como sou um admirador de Sidney Lumet, que por sua vez preza muito a sutiliza, prefiro correr o risco de que uma citação não seja assimilada por todos do que escancará-la na tela.



Sei que O QUADRO é muito pessoal pra você, descrevendo um pouco da dor sentida num processo de separação. É um dos que eu mais gostei dos seus curtas, talvez o meu favorito ao lado de CLAUSTRO. Gostei muito das lembranças boas do passado invadindo o presente amargo, como na cena do vinho. E a música triste que toca no final enquanto rolam os créditos é de arrepiar. Você poderia falar um pouco sobre esse curta? Outra pergunta: até que ponto a dedicatória no final a Luchino Visconti e a Alain Resnais tem a ver com a influência da estética desses dois autores no seu trabalho?

Começando pelo fim. Em relação a Resnais, a influência é mais conceitual do que estética, ainda que resvale nesse caminho também, pois o que me interessa em Resnais é a questão da memória e de como trabalhar/embaralhar isso do ponto vista cinematográfico, e considerando ainda que Resnais utilizou de forma muito preponderante os elementos da continuidade, em especial o gestual, para fazer os elos de ligação entre a memória, o tempo real e qualquer outro tempo (irreal, inclusive), e tendo em mente o fato de que eu comecei em cinema como continuista, me pareceu natural que esse projeto fosse dedicado à ele, mas a gênese de criação desse curta está no filme de Visconti AS VAGAS ESTRELAS DA URSA MAIOR, pois quando vi a cena de improvisação proposta pelos alunos e que envolvia um determinado tipo de relação, logo pensei no filme de Visconti. Vale dizer, o Renato Doho me fez uma cópia para que eu pudesse rever o filme, mas como a cópia demorou a chegar, outras coisas foram ocorrendo no caminho.

Talvez esse tenha sido, de todos os meus trabalhos, o que mais sofreu a intervenção em todas as suas etapas por conta dos momentos que eu vivenciava. É interessante ressaltar que meu irmão, a quem dedico o curta na abertura, não enquanto inspiração, mas como dedicatória de fato, sempre me falou muito desse filme do Visconti. Engraçado que, antes do roteiro virar curta, houve uma espécie de versão para teatro apresentada em palco, e, ao término, meu irmão disse: "É Visconti!!!", o tipo de comentário que vale toda uma vida. No entanto, ao escolher a locação, talvez intencionalmente, escolhi uma casa que pertence a ele, tendo sido inclusive, o local aonde ele morou com sua mulher, e na qual ela falecerá um ano antes. Quando entramos na casa para as gravações, eu sabia que não era mais a história inspirada no filme do Visconti (quem conhece, sabe do que estou falando), por isso alterei e subtraí algumas falas que indicavam aquele caminho anterior e percebi que estava fazendo um curta que traduzia a sensação da perda. Mas ainda não era de fato, a minha perda, e sim a que meu irmão havia sofrido, por isso há um determinado letreiro que antecede a dedicatória a Resnais e Visconti.

Mas aconteceu que na edição, a separação que estava se consumando era a minha, e daí o referencial passou a ser outro, ainda assim, acho que consegui equilibrar a melancolia da saudade, somada à amargura da perda, mas no plano final, na associação com a música, acredito que se imponha um clima de amargura, pois este era o meu estado de espírito. É curioso por que sempre disse à minha "ex" que o meu maior medo era que tudo virasse lembranças do passado, aquela estranha sensação de que é tudo tão distante e difícil de alcançar e que ao mesmo tempo, é preciso prosseguir.

Engraçado que nesse exato momento me vem um dos filmes que mais gosto do Spielberg, que acabei de adquirir em dvd, o ALÉM DA ETERNIDADE. Acho que poucas vezes no cinema fiquei tão entristecido quanto ao ver aquela cena em que o personagem do Richard Dreyfuss tem que assimilar que jamais terá sua mulher novamente. Dreyfuss é um dos maiores atores do cinema!!!

Pra fechar, é interessante você falar da música, também penso assim e fico muito feliz com o seu comentário. A escolha foi feita sob a sugestão do autor, o nosso amigo André Z.P., pois eu havia lhe pedido algo para entristecer o público. De um modo geral, tenho percebido que as mulheres é que sacam melhor esse sentimento de melancolia etérea e aparentemente eterna.

O Z.P. que é o autor da música? Ele tá de parabéns. Sensacional! E o filme do Spielberg, eu lembro de não ter gostado muito quando vi na época, há mais de quinze anos. Preciso rever.

Pois é, o ZP não compôs a música especialmente para o curta. Na verdade eu conhecia uma outra, que se chama "Casa Vazia" e a considerava perfeita, mas ele já a havia cedido para um outro curta, daí me perguntou o tom, eu falei no lance da melancolia e da tristeza e ele me apareceu com aquela, que eu adorei, aliás, caso não saiba, aquela voz meio Tom Waitts é do próprio ZP.

E reveja o filme do Spielberg, é dos grandes filmes românticos da história do cinema, mas se ainda assim não embarcar, veja com atenção duas cenas antológicas do Dreyfuss. Na primeira, logo na abertura, quando ele percebe que seu avião vai explodir e aquilo significa o fim, e depois, quando incumbido de facilitar o envolvimento de sua mulher com outro homem, a fim de que ela o possa esquecer, ele a vê dançar a música que era deles envolvida pelo outro cara. Lembro de Dreyfuss encostado numa parede se contorcendo de ciúme.

Quanto tempo levou pra ficar pronto o curta?

É difícil precisar o tempo de realização de cada curta, na primeira fase, na qual criou-se a estrutura dramatúrgica no processo da oficina, levamos ao redor de três meses. As gravações demoraram três dias e uma noite, sendo um dia para cada curta, e a noite para o LOURDES - hehehe - . Aliás, vale dizer, o projeto tem dois conceitos centrais que o permeiam enquanto um conjunto de curtas que podem e devem ser vistos juntos, ainda que sobrevivam muito bem isoladamente. Os conceitos seriam "SONS" que atravessam interna e externamente as cenas, conduzindo-as, e também a procura por traduzir a passagem de um dia em quatro tempos: "Amanhecer" (JOGOS), "Meio-dia" (CLAUSTRO), "Entardecer" (O QUADRO) e "Anoitecer" (LOURDES, UM CONTO GÓTICO DE TERROR). Mas voltando ao eixo da sua questão, quando comecei o processo de edição, LOURDES foi favorecido, e em razão disso, terminou de ser finalizado em um mês após as gravações, por isso, seu ano de produção é de 2004, já os demais curtas foram todos terminar em julho de 2005. Foi um caminho tortuoso com muitos entraves na disponibilidade de tempo dos envolvidos, no caso, eu e os dois editores, cada qual cuidando de dois curtas.



CLAUSTRO é dedicado a Carlos Reichenbach. Posso estar enganado, mas senti que o filme se parece um pouco com o estilo de filmar do Carlão. Até pela presença da atriz, a Márcia de Oliveira, que esteve em dois longas do Carlão. Se é mesmo verdade essa semelhança, foi intencional essa busca pela estética reichenbachiana?

Em relação à dedicatória ao Carlão, ela está associada à construção da dramaturgia e à opção pelo melodrama, assim como à referência de algumas situações e personagens que remetem a ANJOS DO ARRABALDE. Inclusive, foi recomendado aos atores que assistissem o filme. Essencialmente, eu diria que uma cena magistral desse filme do Carlão, em que Betty Faria oferece o seio de forma maternal ao irmão Ricardo Blat somada a outra, em que a personagem de Vanessa Alves observa meio que à espreita uma situação de violência entre o casal Ênio Gonçalves e Irene Stefânia foram elementos condutores do curta. Aliás, eu diria que houve muita influência dos filmes UMA FRESTA NO TETO, de Andréa Bianchi e James Kelley, onde o personagem de Mark Lester tem uma atitude voyeurística condutora da narrativa, e principalmente UM DIA NA MORTE DE JOE EGG, um filme extraordinário de Peter Medak, no qual o processo de um casal que tem um filho com problemas mentais e motores leva o marido à exaustão, fazendo com que ele considere a hipótese de provocar a morte do filho. Aqui, vale dizer, CLAUSTRO se pretende uma resposta ao curta UM SOL ALARANJADO, do Eduardo Valente. Apesar de considerar um bom curta, me incomoda muito a ausência do processo de esgotamento de quem cuida de um doente, no caso a filha, pois eu vivi essas situações de perto, e as coisas não são como estão no curta do Valente. Ok, ok, antes que me atirem as pedras, eu sei que aquele é o olhar dele e que a ele interessava aquele viés, mas como senti falta do outro lado, procurei me empenhar bastante nesse curta para oferecer esse outro ponto de vista.

Enfim, não creio que haja semelhanças estéticas com o trabalho do Carlão e também não busquei esse caminho.

Vi que o roteiro original do filme foi realizado pelos três atores. De início, a idéia do filme não foi sua?

É como disse anteriormente, o processo todo desse projeto, foi de compartilhar a criação dramatúrgica, ou seja, eu não tinha nenhuma idéia fechada de como seriam os curtas, nenhum deles. O que aconteceu, é que obviamente enquanto coordenador da oficina, eu evidentemente direcionei o foco das ações, como por exemplo, associar a temática da sexualidade ou buscar o gênero de horror, ou ainda remeter ao que ocorrera na minha vida pessoal, no caso, a minha separação. Em suma, as idéias originalmente sempre foram dos atores, estimuladas por um tema proposto por mim e pela minha assistente Lina Agifu. Mas como na pergunta anterior você citou a atriz Márcia de Oliveira, é importante dizer que ela surgiu para participar do curso e surpreendeu a todos. Eu a questionei o porquê dela querer estar naquele projeto, já que ao meu ver ela é uma atriz completa e que já tem o seu espaço no mercado, mas ela queria se exercitar e não seria eu a recusar uma atriz com o talento dela, e como se não bastasse o seu talento de atriz, a Márcia foi fundamental na construção da dramaturgia de quase todos os curtas, ela é extremamente criativa e de certa forma, foi quem disparou a maioria das idéias/plots dos curtas, nesse sentido, nesse curta em especial, todo o clima de perversão é mérito dela.

A cena da calcinha me lembrou aquele segmento do Pasolini no DECAMERON, com as freiras tirando proveito sexualmente do cara porque achavam que ele era surdo-mudo. Com a diferença que a Márcia passou muito mais amor na seqüência. Não era só sexo ali. Como você lida com a realização das cenas de sexo? Não rola nenhuma inibição da sua parte ou da parte do elenco? Vi que no seu curta mais recente, que vamos falar mais na frente, você ousou ainda mais nesse aspecto.

Interessante você falar da cena da calcinha, é a minha preferida nesse curta. Se bem que curto muito os closes da Márcia, tanto quando ela olha por aquela estranha abertura que liga a cozinha com a sala - vale dizer que essa locação teve papel determinante na mise'en'scène -, como também na cena final quando ela reage de forma ambígua e contraposta ao plano que citei. Se no primeiro close a ênfase é na perversão, nesse outro momento há um incomodo e uma ternura pela revelação que o rapaz expõe. Mas voltando à cena da calcinha, trata-se de uma citação fundamental desse curta e da qual pouco costumo falar, mas minha intenção foi reproduzir o erotismo que sempre me fascinou no cinema do 'esquecido' Salvatore Samperi, em especial, no filme MALÍCIA, que eu certamente adoraria ter na minha devedeteca.

Agora, sobre as cenas de sexo, como os curtas desse projeto surgiram de uma oficina, e como a temática sexual sempre me interessa, eu procuro de cara, ser o mais honesto possível com os atores, no sentido de deixar claro que esse tipo de cena pode rolar e procuro saber se há alguma restrição por parte deles. Dito isto, não tento impor essa linha, ao menos nesses casos envolvendo oficinas, mas o fato é que isso acaba surgindo naturalmente, em alguns momentos, pode gerar alguns entraves e/ou travamentos com determinados atores, e se isso ocorre, procuro sempre respeitar o ponto de vista do envolvido. Se fulano disse no início que não via problemas em ficar nu ou aparecer em cenas de sexo e quando se defrontou com o fato: 'amarelou'. Ok! Vamos contornar e, como diz o Lumet, o ator já se expõe, se desnuda o tempo todo do ponto de vista emocional, logo, não há porque forçá-lo a ir além de onde não deseja. Por outra, a sua pergunta direciona para o momento da realização, mas acontece que sou muito partidário dos ensaios, então procuro quebrar o gelo nesse processo anterior. Lembro de uma das atrizes de OFERENDAS (o curta mais recente) dizer sobre esse meu jeito manhoso de conseguir o que quero, tipo, em determinado momento dos ensaios, sugeri que assumíssemos a futura nudez que apareceria na cena, e assim foi feito. Já na realização em si, ao mesmo tempo em que busco criar um clima propício de confiança e intimidade que permita alcançar uma certa naturalidade, procuro em contrapartida, oferecer condições mínimas de um grau de profissionalismo possível, ou seja, evito as brincadeiras de mau gosto e peço a contribuição dos demais nesse sentido, tipo, a produção não deixa quem não for necessário ficar presente no set; oferece-se um roupão aos atores, homens e mulheres, para que não se exponham nos intervalos das gravações. Isso pode parecer uma bobagem, e às vezes, com o andar da carruagem, os atores acabam dispensando esse artefato, mas ele traz um grau de seriedade entre a equipe e o elenco. Enfim, detalhes pequenos, mas que demonstram que antes de tudo, a principal razão de ser da cena de sexo e/ou nudez está ligada à necessidade dela existir no filme e nada além disso.

Agora, vou fazer uma confissão, acho que sou bom público para os meus trabalhos, pois na hora das gravações o objetivo central é conseguir a atmosfera necessária para a cena. Nesse sentido, fico bastante concentrado. No entanto, ao assistir CLAUSTRO, e já falei isso pra Marcinha, toda vez que a vejo tirar a calcinha e depois lamber o rosto do rapaz, é como se estivesse assistindo um filme de Salvatore Samperi, se é que você me entende. Mas isso em nenhum momento afeta o respeito pelo ator em cena, é mesmo um distanciamento que consigo ter sobre o meu próprio trabalho, e quando encontro com a Marcinha, é a amiga que vejo e não aquela personagem que conseguiu me provocar enquanto público.



Falando em sexo e nudez, passemos para JOGOS, que é um dos seus curtas que eu mais acho com cara de introdução de longa-metragem. Na minha cabeça, daria para continuar a contar a história daquele sujeito que trabalha de michê, quase uma versão brasileira de GIGOLÔ AMERICANO. ;) E das duas garotas também. A falta de pressa do curta acabou contribuindo em parte pra essa sensação que tive. Como surgiu a idéia para a realização do curta?

Bem, JOGOS é um caso a parte, uma trajetória estranha e ao mesmo tempo surpreendente. Entre alguns dos festivais internacionais que anda percorrendo, acabo de saber que será exibido em Jacarta - Indonésia, o que, convenhamos, é motivo de muito orgulho pra mim. Enfim, digo isso porque ao término das gravações tive a sensação de que não havia dado o melhor de mim, que por razões diversas, algumas de bastidores, eu estava meio mal-humorado, o que raramente acontece no set de filmagem, e esse incômodo seguiu até mesmo após a finalização do trabalho, ainda que nessa etapa eu tenha me animado um pouco mais com o resultado. Mas respondendo à sua pergunta, a idéia como sempre surgiu através das improvisações, mas, nesse caso específico, acho que interferi bastante, pois inicialmente a cena envolvia um casal hetero e um rapaz, que por sua vez, não se tratava de um michê, e era apenas uma pessoa que o casal havia conhecido em uma festa de embalo. Ao acordarem, eles (o casal) ficavam constrangidos com a situação e não sabiam como lidar com os fatos. Daí resolvi mudar o rumo das coisas e apesar de não assumir a citação, alguns amigos já sacaram que esse trabalho é dos mais influenciados pelo mestre Khouri. É uma espécie de AS FERAS, sem, no entanto, dar a mesma ênfase ao tom agressivo em relação às mulheres por conta do macho ferido. O nome do rapaz é Marcelo, e me pareceu legal inverter a premissa 'khouriana' de ao invés do cara pagar duas garotas, elas pagarem pelo cara, e por conta desses caminhos, me ocorreu que seria interessante falar de ciúmes, dor e tentativa de renovação de uma relação.

Os efeitos visuais na cena das duas mulheres se beijando fazem com que nos esqueçamos da presença do michê. É como se, no momento do beijo, elas estivessem em outra dimensão, fora do mundo material. A intenção foi essa mesmo? Geralmente tudo que ocorre em seus filmes é proposital ou alguma cena acaba ficando de determinada maneira por acidente?

Um exemplo de como as coisas se dão: estávamos na locação, que por sua vez fora escolhida por conta da fantástica vista para a Av. Paulista, e de repente me dei conta que a câmera estava encurralada em ângulos que não mostravam aquela visão, e pensei de imediato que o personagem do rapaz poderia crescer e ficar menos a reboque das garotas, e isso gerou o famigerado plano da janela que muitos amigos curtem. Há um outro momento em que o curta escapou do planejado. É no plano 'quase final' em que o rapaz recebe o dinheiro e vai embora. Esse plano tinha outra solução, mas eu não estava satisfeito com o tom das falas e das reações do rapaz, menos por culpa dele e muito mais pelo meu mau humor que me impedia de dirigi-lo satisfatoriamente. Então pensei que deixar seu texto off e mostrá-lo apenas em detalhe das mãos recebendo a grana poderia ser uma solução interessante, mas quis realizar um plano seqüência e a câmera seguia a saída do cara e depois a outra menina encurralava a primeira que acompanhou o rapaz, mas na edição percebeu-se que esse final não funcionava, e foi então que lembrei da banda "The Boom Boom Chicks" e que talvez fosse legal cortar o plano ao meio e fundir a cena das garotas com um trecho da janela ainda vazia sobre o som muito alto astral do "The Boom Boom Chicks" e dando uma de Lumet, não à toa, no aparecimento dos nomes dos atores, após o do rapaz desaparecer, o nome das garotas se movimentam provocando um 'encaixe'.

Sobre a cena dos efeitos visuais, é muito bom ouvir esse seu comentário. Essa solução foi meio circunstancial, ele de certa forma tem a ver com o motivo do meu mau humor naquele dia, pois as duas atrizes, que entendo como talentosas, estavam embaraçadas por serem absolutamente convictas na sua heterossexualidade e em razão disso, a cena não tinha 'pegada', ou seja, não tinha tesão. Então pensamos em 'camuflar' esse 'pequeno detalhe' com o tal efeito e que resultou nessa sua impressão que vem bem a calhar para a narrativa do filme, pois de fato, era isso que estava acontecendo do ponto de vista dramático, e se a tal solução enfatizou, fico muito feliz em saber.

Acho que essas situações respondem à sua pergunta. Minha tese geral é meio parecida com a do Carlão e a do Michael Cimino, tipo, se quisesse trabalhar com tudo controlado e planejado, ia ser engenheiro ou bancário ou coisa que o valha, bater ponto em se tratando de arte é das coisas mais sacais que existem. O prazer está em se permitir ser surpreendido. Não à toa, dois dos meus diretores preferidos improvisavam pra caramba: Sam Peckinpah e Luis Buñuel.

Por isso que Hitchcock achava chata a tarefa de dirigir o filme, de botar a mão na massa, já que ele já pensava o filme inteiro na cabeça por antecedência. E dificilmente as coisas saiam diferentes do que ele queria, não é?

É possível que esse fosse o motivo. O fato concreto é que em se tratando de uma produção em audiovisual, é necessário algum planejamento por conta do alto custo que envolve o processo. Logo, não necessariamente um diretor que tem o storyboard (o desenho plano a plano de um filme) todo preparado com antecedência, é em razão disso um burocrata. Ele pode até trabalhar com essa antecipação, desde que dê espaço para o acaso, que não faça desse planejamento uma espécie de camisa de força que engessa o processo de criação.



Pena eu não ter como rever o OFERENDAS (2006), que tive a oportunidade de ver na sua casa. Dos teus curtas, foi o que eu mais senti um clima meio Bergman. E olha que se trata de um filme do gênero terror. Esse curta chegou a ter alguma exibição pública, digo, num cinema? Tem previsão?

OFERENDAS é o meu trabalho mais radical no sentido da mais absoluta abertura para a improvisação. Ele praticamente não tinha um roteiro. Na verdade, não existia um pedaço de papel que dissesse o que viria a seguir, mas de um modo geral, os envolvidos conheciam uma estrutura básica da trama, algo do tipo: "os caras chegam em uma festa 'meio estranha', conhecem duas garotas e são seduzidos". Lógico que também havia um epílogo, mas não cabe contar para não tirar o interesse de quem ainda não viu o curta. Esse processo enfrentou muitas dificuldades, algumas seriam complicadoras mesmo que o filme estivesse plenamente organizado, como a questão da chuva no dia em que a banda que participava na cena apresentando um show, tipo, os caras tinham que seguir pra Campinas no meio da madrugada e a gente teve que encontrar brechas pra seguir gravando. Já em outros momentos, ocorreu de se criar uma seqüência inteira como a das sombras chinesas para sair de uma externa para uma interna, enfim...

Pessoalmente, enxergo mais Bergman em LOURDES do que em OFERENDAS, se bem que há um quê de PERSONA em OFERENDAS - hehehe -. Ainda assim, como o que mais gosto em Khouri é o lado bergmaniano e não o lado Antonioni, e LOURDES é muito referencial ao cinema do Khouri, valorizando os closes como fio condutor da narrativa, logo....

E Bergman flertou com o horror em pelo menos duas ocasiões: O SÉTIMO SELO e O SILÊNCIO e segundo dizem, fez literalmente um filme de horror em A HORA DO LOBO, mas infelizmente desconheço esse.

Ainda em relação as referências de OFERENDAS, a principal delas devo ao amigo Marcelo Carrard, razão inclusive da existência de uma fala em inglês no curta, trata-se do filme ALL THE COLORS OF THE DARK, de Sergio Martino, uma espécie de sub-O BEBÊ DE ROSEMARY no melhor dos sentidos e que o Marcelo foi a pessoa que me apresentou ao filme.

E respondendo à sua pergunta, OFERENDAS teve uma única exibição pública no recente "1.º Festival de Cinema Fantástico de Ilha Comprida", mas infelizmente não pude estar por lá e ainda não tive notícias da recepção que teve.

Agora, falemos um pouco sobre seus planos para o futuro. Se é que você pode contar alguma coisa. Obviamente, você tem interesse em dirigir o seu primeiro longa-metragem. O que podemos esperar de um primeiro longa seu? Será um drama ou um terror?

Bom, acho que cabe recuperar as respostas de outras duas perguntas anteriores. Em uma delas você quis saber se havia influência estética do Carlão no curta CLAUSTRO, e eu respondi que era mais dramaturgica, em outra, você me perguntou sobre meu processo de criação e eu citei o Carlão e o Cimino como diretores que respeito por não curtirem a rigidez de um planejamento meticuloso. Assim como o Buñuel, que é um dos meus mestres, eles consideram importante deixar um espaço para o acaso, o frescor que surge da necessidade de se adequar às circunstâncias. Todo esse preâmbulo é no sentido de esclarecer que nem sempre fui um ardente defensor dessa tese, mas se há uma lição fundamental que tirei da experiência em ser assistente do Carlão, ela está associada à observação do processo admirável de criação da parte dele, algo realmente fascinante, que muito porca e resumidamente, eu diria que pode ser definido como não ter medo de enfrentar a pressão que é ter toda uma equipe em função das suas decisões e, ainda assim, se permitir esperar o "milagre da criação". Mas ao mesmo tempo, saber que se o milagre não vem, é preciso fazê-lo surgir. Por outra, há uma segunda lição que o Carlão me passou, que é não se tornar escravo de um projeto e para isso é sempre preciso ter mais dois ou três projetos na gaveta.

Sendo assim, tenho três projetos de longa em andamento mas nenhum está em situação real que permita projetar a época em que serão realizados. Um deles, o que está mais bem estruturado e em condições de se viabilizar, surgiu a partir de um título com o qual o Carlão me presenteou: "Matem as Lobas no Rebanho", esse título genial estava atrelado a um plot que ele também me ofereceu, mas o plot apesar de excelente, não me fisgou, sendo que acabei ficando com o título e por conta da trama que desenvolvi a partir dele, acabei por sentir a necessidade de alterar o artigo masculino e o título atual é "Matem os Lobos no Rebanho". Esse projeto está caminhando nos editais da vida e já bateu na trave no B.O. do MinC, chegando à penúltima fase de seleção, mas como bola na trave não é gol, sigo na partida. Trata-se do que gosto de chamar de um policial social, e nesse sentido, como não faço a menor questão de esconder as minhas referências, será um filme credor de Sidney Lumet e Walter Hill, mas dramaturgicamente falando, há referências peckinpahnianas. A história fala de uma dupla mista de policiais em meio a periferia de sampa. Eles já tiveram um caso, mas atualmente estão separados e em trabalhos distintos, há movimentos sociais ao redor da trama, mas o fio condutor é a relação mal resolvida desses dois personagens. Há um quê de tragédia atravessando toda a história e pessoalmente curto muito os personagens coadjuvantes. Os outros dois projetos são filmes que não deixam dúvida quanto ao aspecto secundário dos personagens masculinos, um deles é um filme sobre bruxas, e do qual posso dizer que OFERENDAS foi uma espécie de aperitivo do projeto, inclusive, usando uma música do grupo Euthanasia, do amigo Heráclito Maia, e que assumo aqui publicamente que fará parte da trilha do longa. Vale dizer, caso o Heráclito leia essa entrevista, o Dennison Ramalho curtiu demais a música. Assim como o terceiro projeto, esse filme ainda está no argumento, por isso não dá pra dizer muita coisa. Mas entrando no terceiro projeto, eu não posso dizer praticamente nada por ora. É um segredo de estado. Mas o fato é que se estivesse com a grana nas mãos, seria dos três, o que me dedicaria a realizar, dá pra adiantar que é fruto de uma parceria surgida através da Internet e, enquanto gênero, pode ser definido como um drama.

quinta-feira, agosto 10, 2006

ZA-05 - O VELHO E O NOVO (ZA 05. Lo Viejo y lo Nuevo)



Vi ZA-05 - O VELHO E O NOVO (2006), do diretor argentino Fernando Birri, no Memorial da América Latina, em São Paulo, na companhia dos amigos Marcelo V. e Ana Paul, durante a abertura do I Festival Latino-Americano de Cinema. Engraçado que o filme de Birri, que abriu o festival, havia sido exibido no Cine Ceará poucos dias antes e eu não tinha dado muita bola pra ver. Felizmente, de chato o filme não tem nada. Ao contrário: é bastante prazeroso.

ZA-05 - O VELHO E O NOVO, nem sei se dá pra ser classificado como documentário. É um "mega-clipe" que traz cenas de filmes latino-americanos importantes misturado com ensaios cinematográficos de estudantes de cinema da Escuela de Cine e TV de San Antonio de los Baños, em Cuba, fundada pelo próprio Birri.

Não deixa de ser uma injeção de orgulho para o brasileiro ver o filme e perceber que a nossa cinematografia é talvez a mais rica e importante de toda a América Latina. Não por acaso, Fernando Birri escolheu VIDAS SECAS (1963), de Nelson Pereira dos Santos para abrir o seu trabalho. Lá pelo meio, vemos uma cena de A ÓPERA DO MALANDRO (1986), de Ruy Guerra, e o último trecho de longa apresentado é de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964), de Glauber Rocha. Inclusive, fiquei com muita vontade de rever VIDAS SECAS. Pretendo fazer isso ainda esse ano.

Infelizmente, o brasileiro é bem ignorante em relação ao cinema produzido na América Latina, muito por culpa de uma política que privilegia e muito o cinema hollywoodiano. Dos filmes estrangeiros mostrados no "mega-clipe", os únicos que eu tinha ouvido falar eram o cubano MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO (1968), de Tomás Gutiérrez Alea, e o chileno A BATALHA DO CHILE (1975-1979), de Patricio Gusmán. Há também um trecho de um filme do próprio Birri: TIRE DIÉ (1960). A julgar pelo título, é provavelmente inédito no circuito comercial brasileiro. Teve um filme que me chamou bastante a atenção, mas que eu não anotei o título. É um filme que mostra dois homossexuais se encontrando num banheiro público.

Quanto aos filmes dos estudantes de cinema de Cuba, o único que ficou guardado na memória, foi aquele que mostra uma garota portadora da Síndrome de Down falando sobre seus relacionamentos amorosos.

As duas iniciais do título ("ZA") são uma homenagem a Cesare Zavattini, um dos mestres do neo-realismo italiano, e professor de Birri, quando ele estudou cinema em Roma na década de 60. O subtítulo ("o velho e o novo") é uma outra homenagem. Dessa vez a Sergei Eisenstein.

quarta-feira, agosto 09, 2006

O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS (Pierrot Le Fou)



Como não consegui cópia de UMA MULHER CASADA (1964) e nem coragem para rever ALPHAVILLE (1965), eis que revejo PIERROT LE FOU (1965), um dos filmes mais festejados de Jean-Luc Godard. A primeira vez que vi esse filme foi em 2002, numa exibição em vídeo e telão no Dragão do Mar, momentos antes de eu assistir o maravilhoso CIDADE DOS SONHOS, de David Lynch. Não gosto de ver filme em vídeo e telão, a imagem fica uma bosta e o que era pra ser algo prazeroso se torna uma tarefa até difícil. Por isso que fiz questão de rever o filme agora que consegui uma cópia ótima em divx, com uma imagem que valoriza o belo colorido Eastmancolor e o formato scope. Só tive um probleminha lá pelo meio do filme quando o arquivo deu umas travadas, problema ainda bastante comum com esse tipo de mídia. Rever o filme também significaria absorver certas coisas que só com a revisão é possível. Em se tratando de Godard, principalmente.

Porém, percebi que os mesmos problemas que tive vendo da primeira vez, senti durante a revisão. O que acontece é que em determinado ponto do filme, a narrativa fica um pouco confusa, especialmente quando o personagem de Jean-Paul Belmondo se separa de Anna Karina e entra em contato com os traficantes de drogas. A partir desse momento, eu comecei a me perder da trama. Sei que o enredo é bem pouco importante quando o diretor é Godard. Por isso, fiquei tranqüilo em relação a essa confusão toda. Soube que o final do filme não foi previsto por Godard. Ele só havia preparado o começo. O final só foi pensado durante as gravações. Por isso que senti um certo desleixo no ar.

PIERROT LE FOU - prefiro usar o título original do que o título nacional sem sentido - é talvez a mais radical colagem de estilos feita por Godard. Ele já havia flertado com gêneros diversos em obras anteriores, como UMA MULHER É UMA MULHER (1961) e BAND À PARTE (1964), mas dessa vez, há espaço até para a pintura (Velazquez, Picasso) e para as histórias em quadrinhos. Somam-se a isso os momentos musicais, que se constituem, na minha opinião, os momentos máximos do filme. Pra mim, não tem coisa melhor no filme do que ver Anna Karina cantando "Ma ligne de chance" e "Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerais toujours". Godard tinha um talento incrível para seqüências musicais. Não sei porque ele não se aprofundou mais com isso. Lembro que adorei ver Anna Karina cantando também em BAND À PARTE. A musicalidade também aparece nos momentos de voice over dos protagonistas, quando eles alternam suas falas de maneira poética.

Com PIERROT LE FOU, o número de referências passa a ser cada vez maior. É como se Godard estivesse fazendo o filme exclusivamente para si mesmo e não para a platéia. O gosto pelo cinema de Nicholas Ray e Samuel Fuller aparecem, inclusive com direito a participação especial de Fuller, num dos momentos mais conhecidos do filme. Já Nicholas Ray é citado quando Belmondo diz que quer instruir sua filha, levando-a para ver JOHNNY GUITAR no cinema.

Uma das coisas que eu mais gosto nos filmes de Godard é da desesperada e romântica busca pela liberdade. As personagens godardianas procuram fugir das convenções sociais a todo custo, tornando-se marginais, criminosos até. Saber que o destino desses personagens não é dos mais felizes nos deixa com um gosto amargo. Como se a total liberdade só fosse possível por alguns poucos momentos. Pierrot e Marianne fogem sem rumo. Não importando para onde. Parte de nós também deseja se livrar das amarras da vida social. Do emprego, da família, do país, da política. Mas se até na arte essa fuga é frustrada e interrompida, imagine na vida real.

terça-feira, agosto 08, 2006

ASSOMBRAÇÃO (Gwai Wik / Re-Cycle)



Acho importante que o público brasileiro saia de casa para ver filmes como esse. Não porque seja um exemplar do cinema fantástico, mas por ser asiático. Felizmente o tailandês ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO fez bastante sucesso de público, abrindo as portas para que o horror asiático dispute com o cinemão hollywoodiano pela preferência do espectador. É possível que o público fique cansado de ver cabelos pretos, mas é bom lembrar que um cineasta do porte de um Kiyoshi Kurosawa ainda continua inédito no nosso circuito exibidor. Ainda em relação ao público, é bom notar que boa parte das pessoas que vão ver esse filme, chegam totalmente despreparadas. Quando eu estava na sala, ouvi algumas pessoas dizendo, assim que o filme começou: "nossa, é filme japonês?". Quer dizer, muita gente vai ver o filme apenas pelo título. Outros ficaram rindo do nome da protagonista, Chu Xun, que convenhamos é um pouco engraçado mesmo.

Sabendo que o enredo dos filmes de terror orientais estão se tornando cada vez mais parecidos, os Pang Brothers resolveram mudar um pouco a fórmula que os consagrou em THE EYE - A HERANÇA (2002) e em VISÕES (2004). Assim, chegamos ao novo ASSOMBRAÇÃO (2006), que infelizmente ganhou no Brasil esse título estúpido. O título original, não faço idéia do que significa, mas o título em inglês faz um interessante trocadilho entre a reciclagem e o re-ciclo, o ciclo de nascimento e morte, duas coisas que têm tudo a ver com o filme.

ASSOMBRAÇÃO conta a história de uma jovem escritora cujo romance de estréia foi campeão de vendas. Seu livro é uma história de amor inspirado numa experiência pessoal. Atualmente ela está preparando um novo livro, dessa vez do gênero terror. Enquanto prepara o livro, ela começa a ter visões, a sentir presenças estranhas em sua casa. Uma série de eventos vai levá-la a um estranho lugar, onde ela terá um encontro importante.

A primeira metade do filme, enquanto a protagonista ainda está no nosso plano de existência, é mais convencional. Parece muito com filmes como O GRITO ou O CHAMADO. Mas a partir do momento em que ela entra no outro mundo, o filme se transforma numa obra delirante e com um visual bem interessante. Pena que ao mesmo tempo que vai se tornando mais original, o filme vai ficando mais cansativo. Até lembrei de AMOR ALÉM DA VIDA, aquele filme em que o Robin Williams vai até o inferno em busca da amada. O que não é bem uma comparação agradável. No final, percebemos que ASSOMBRAÇÃO é uma espécie de continuação da temática da maternidade iniciada com VISÕES, que continua sendo o meu preferido dos filmes da dupla.

Para os próximos meses, mais cinema de horror oriental deve pintar na telona. O trailer de ALMAS REENCARNADAS, de Takashi Shimizu, já está sendo exibido nos cinemas, com previsão de estréia para o próximo dia 18. Já o outro filme de Shimizu, a versão americana de O GRITO 2, está previsto para outubro.

segunda-feira, agosto 07, 2006

24 HORAS - QUINTA TEMPORADA (24 - Season Five)



24 HORAS é a série que eu acompanhei fielmente por mais tempo. Nunca perdi nenhum dos 24 episódios de cada temporada e fico feliz em notar que a série mantém o bom nível, embora tenha demonstrado sinais de cansaço a partir da terceira temporada. Ainda assim, é um programa melhor do que a grande maioria dos filmes policiais produzidos em Hollywood. John Cassar é o grande nome por trás da série desde a segunda temporada, tendo dirigido dez episódios nessa quinta temporada.

Na temporada passada, Jack Bauer saiu de cena entrando na clandestinidade para fugir dos chineses que queriam a sua cabeça por ele ter participado de uma ação na embaixada da China, ação essa que vitimou o cônsul chinês. A nova temporada começa com uma bomba: o ex-presidente David Palmer é assassinado, assim como Michelle Dessler. Tony Almeida conseguiu escapar com ferimentos graves. Jack Bauer é obrigado a entrar em cena novamente já que ele percebeu que todos aqueles que sabiam que ele não estava morto estão sendo assassinados. A única que conseguiu sobreviver foi a especialista em informática Chloe O'Brien.

Um dos trunfos dessa quinta temporada está na coragem dos roteiristas de matar personagens importantes da série. Além de David Palmer e Michelle Dessler, outras mortes irão acontecer ao longo da temporada. Felizmente, à medida que os personagens vão morrendo, outros vão ganhando importância e a simpatia da audiência, como Audrey Raines e Bill Buchanan. Dessa vez, a arma usada pelos terroristas é o gás nervoso, substância que mata em questão de segundos. Os melhores momentos da série: a CTU sendo atacada com gás nervoso, resultando na morte de um personagem importante; e Jack Bauer seqüestrando um avião e tendo que fazer uma aterrisagem forçada sob o risco de ser alvejado.

O presidente Logan, conhecido da temporada passada como sendo um idiota-mor, dessa vez ganha uma importância quando se descobre que ele é de fato um dos vilões da trama. Foi uma bela jogada dos roteiristas. Essa revelação fez com que a série, que estava meio morna lá pelo meio, recuperasse o fôlego e mantivesse o ritmo acelerado até o emocionante episódio final, que termina com um gancho. Não chega a ser um final tão bonito como o da quarta temporada, mas ao menos a gente fica com gosto de "quero mais", o que é importante para a sobrevida de uma série. Lembrando que boa parte do sucesso dessa temporada se deve à personagem da primeira dama, Martha.

Para a sexta temporada, John Cassar declarou: "o que aconteceria se o equivalente a dez bombas nucleares explodissem em seqüência no país?" Ao que parece, a próxima temporada vai começar já mostrando muito estrago.

A FOX exibe o último episódio da quinta temporada na próxima segunda, dia 14 de agosto. A sexta temporada começa em janeiro nos Estados Unidos.

P.S.: Tem coluna nova no CCR: Veneza 2006.

domingo, agosto 06, 2006

ZUZU ANGEL



Quando vi o trailer de ZUZU ANGEL (2006), imaginei se tratar de um novo OLGA. Não no quesito sucesso de bilheteria, mas no aspecto artístico. Mas pensei comigo: não pode ser, o diretor é Sérgio Rezende, cineasta que eu aprendi a gostar desde MAUÁ - O IMPERADOR E O REI (1999) e cujo último trabalho, ONDE ANDA VOCÊ (2004), malhado pela crítica e pelo público, me encantou de verdade. No fim das contas, eu fui um dos poucos que gostaram do filme. E parece que a história se repete, ainda que em menor grau, com ZUZU ANGEL, que eu considero o melhor filme de Rezende, mas que está sendo recebido com frieza pela crítica.

ZUZU ANGEL já me conquistou desde os créditos iniciais, ao som de "Dê um rolê", clássico da mpb na voz de Gal Costa, em versão rock, cantada por Roberta Sá. Depois disso, na primeira cena, vemos Patrícia Pillar, a Zuzu Angel, falando em tom solene e pouco natural, olhando para a câmera: "Estou com medo de morrer." A princípio, achei muito estranho o modo como Patrícia fez essa declaração. Depois, vi que se tratava de uma maneira bastante original de mostrar um personagem escrevendo uma carta. A carta que Zuzu escreveu para Chico Buarque. Essa fala de Zuzu é também coerente com o jeitão meio film noir, meio filme de espionagem, que Rezende utiliza. A ambientação, a roupa, a música, tudo remete aos filmes das décadas de 40 e 50. Só depois é que o melodrama vai se tornar o gênero dominante.

A utilização de uma estrutura fragmentada, com flashbacks entrecortando a linha principal da narrativa, também foi um recurso acertado. As lembranças de Zuzu do filho querido e desaparecido acentuam o amor materno, enquanto que a linha principal mostra a coragem dessa mulher que enfrentou uma ditadura violenta e repressora. Entre os momentos mais emocionantes, destaco a cena de Zuzu botando a boca no trombone no avião; a cena de Elke Maravilha (a própria) cantando uma canção grega num bar; e a cena do desfile em tom de luto. Esses e outros momentos nos mostram o quão sensacional foi a vida de Zuzu. Admira-me o fato de que ninguém havia feito um filme sobre ela antes.

Não tenho do que reclamar do elenco de apoio. O filme se concentra mais nos personagens de Patrícia Pillar e Daniel de Oliveira, dando pouco espaço para Luana Piovani, Regiane Alves, Leandra Leal e Alexandre Borges. Mas isso não chega a ser um problema. Pelo contrário: se o filme se desviasse um pouco da linha principal, aí sim ganharia irregularidade, falta de ritmo. Do jeito que ficou, ZUZU ANGEL é o filme mais enxuto, ágil e maduro do diretor. Com esse filme, Sérgio Rezende se firma como o grande cineasta de filmes históricos do Brasil. Guardadas as devidas proporções, Rezende seria o Fernando Moraes do cinema. Espero que uma declaração recente de que ele estaria cansado da vida real não o afaste definitivamente dos filmes históricos. Seria uma perda para o nosso cinema.

sexta-feira, agosto 04, 2006

A MARSELHESA (La Marseillaise)



Lá do hotel, ligo para o Michel e pergunto: "e aí, Michel, qual a programação de hoje?". Era terça-feira, dia 11, e a Sala Cinemateca exibia filmes relacionados à Revolução Francesa em comemoração ao aniversário do evento. O Michel sugeriu a sessão de A MARSELHESA (1938), de Jean Renoir. Como não tinha visto ainda nenhum filme do diretor e nem conhecia a Sala Cinemateca, seria uma chance de "matar dois coelhos com uma só caixa d'água", como diria a Magda. Pouco antes do Renoir, havia sido exibido 14 JUILLET, de René Clair.

A MARSELHESA, em alguns momentos, parece um daqueles filmes antigos de propaganda, mostrando a Revolução Francesa como um evento glorioso e sem o seu lado negativo. Até mesmo a morte de um dos personagens durante a luta armada é encarada pelo próprio como algo que dá significado à sua vida. Trata-se de um filme cheio do espírito de patriotismo e que deve desagradar àqueles que não gostam muito desse tipo de sentimento. Mas isso tem uma razão de ser e é sempre bom ver o contexto histórico das produções. A MARSELHESA foi produzido numa época em que o governo francês, formado por uma coalisão de partidos, se esforçava para proteger o país da influência dos nazistas.

O filme acompanha as aventuras de um grupo de cidadãos comuns de Marselha que entram na frente de batalha com o objetivo de tirar do poder o rei Luis XVI, Maria-Antonieta e toda a corte. Na seqüência final, quando o grupo de rebeldes invade o palácio do rei, achei meio estranho o filme não mostrar mortes e sangue. Mas depois até que a batalha esquenta.

O problema é que os filmes que vi sobre a Revolução Francesa me fizeram ter uma visão menos romântica do processo, já que mostravam o lado negro do evento. A INGLESA E O DUQUE, de Eric Rohmer, e DANTON - O PROCESSO DA REVOLUÇÃO, de Andrzej Wajda, são dois desses filmes. E bem melhores que o filme de Renoir. Mas não deixa de ser importante eu ter tido um primeiro contato com a obra de um cineasta tão consagrado, ainda que tenha começado por um de seus filmes menos importantes.

Filmes de Renoir disponíveis em DVD: A GRANDE ILUSÃO (1937), A REGRA DO JOGO (1939), O SEGREDO DO PÂNTANO (1941), ESTA TERRA É MINHA (1943), A MULHER DESEJADA (1947), O RIO SAGRADO (1951).

quinta-feira, agosto 03, 2006

PREMONIÇÃO 3 (Final Destination 3)



Com PREMONIÇÃO 3 (2006), a franquia que começou tão bem em 2000 e que teve uma ótima continuação em 2003 vai mostrando fortes sinais de enfraquecimento. O que já era de se esperar, devido ao tema que facilita e muito a repetição. O segundo filme, dirigido pelo então desconhecido David R. Ellis, foi uma bela surpresa. Ellis demonstrou segurança na direção, fazendo um filme ágil, com uma cena de abertura sensacional (a do acidente na estrada) e cenas de violência gráfica que pareciam saidas dos filmes italianos de horror. E Ellis continuou em curva ascendente quando realizou o ótimo thriller CELULAR - UM GRITO DE SOCORRO (2004) e agora está constantemente na mídia por causa de SERPENTES A BORDO (2006), um dos filmes mais aguardados do ano e uma promessa de sucesso de bilheteria.

Enquanto isso, James Wong, depois de escrever vários episódios memoráveis de ARQUIVO X e de dirigir o primeiro PREMONIÇÃO, só dirigiu aquele filme meia-boca com o Jet Li - O CONFRONTO (2001). Assim, chegamos a esse PREMONIÇÃO 3, que dessa vez traz como seqüência de abertura uma cena numa montanha-russa. Eu esperava ao menos que essa cena fosse bem orquestrada. Eu queria me sentir dentro de uma montanha-russa. Infelizmente, Wong preferiu adotar uma montagem mais picotada, tirando toda a graça da brincadeira. Outra coisa que depõe contra o filme é a pouca criatividade (mórbida) na construção das cenas das mortes. Afinal, a franquia, assim como os filmes da série SEXTA-FEIRA 13, tem como um de seus principais atrativos as cenas de morte.

A única cena de morte que salva o filme é a das duas patricinhas que vão fazer bronzeamento artificial. A cena é incrivelmente cruel. Talvez a morte mais horrível dos três filmes. Tirando essa seqüência, PREMONIÇÃO 3 chega a ser um filme até um pouco monótono. Não tem o suspense do primeiro filme nem a perversidade e o gore do segundo. Se ao menos os personagens fossem um pouquinho mais interessantes, até que daria para se importar um pouco com eles. Do jeito que ficou, tanto faz se eles morrem ou não. Tomara que não inventem de fazer um quarto filme.

quarta-feira, agosto 02, 2006

APENAS UM BEIJO (Ae Fond Kiss)



Não sou conhecedor do cinema de Ken Loach. De sua longa carreira, APENAS UM BEIJO (2004) é apenas o terceiro filme que vejo dele. PÃO E ROSAS (2000) me dá saudade mais pelos amassos que eu dei numa menina durante a projeção - e no agradável pós-cinema - do que pelo filme em si. Por isso que quando soube que Loach ganhou a Palma de Ouro esse ano, não fiquei tão animado. Até esnobei um pouco a decisão do júri, mesmo sem saber nada a respeito de THE WIND THAT SHAKES THE BARLEY (2006). Porém, lendo um texto sobre Loach no Senses of Cinema, fiquei sabendo da importância de sua obra. Um detalhe que me chamou a atenção foi sobre o curta CATHY VOLTA PARA CASA (1966), um de seus primeiros trabalhos. O filme promoveu um debate tão grande sobre o assunto dos sem-teto na Inglaterra que, por causa dele, o Governo desenvolveu o projeto Shelter, que cuida daqueles que não têm onde morar. E o projeto existe até hoje. Não é interessante ver o quanto a arte pode afetar de maneira objetiva a realidade? Loach faz, assim, um trabalho ao mesmo tempo de arte e de política. Em grande parte de seus filmes, ele nos mostra que a vida não necessariamente tem que ser daquele jeito, que nós podemos mudar a situação com muita luta.

APENAS UM BEIJO trabalha questões sociais, mas deve agradar também àqueles que querem ver apenas uma bela história de amor. No filme, rapaz paquistanês que trabalha como DJ tem um casamento arranjado com uma prima que ele nunca viu na vida. Ele virá a se casar em poucas semanas. A situação se complica quando ele se apaixona por uma escocesa católica e começa a namorar a moça às escondidas de sua família. Os dois irão enfrentar a intolerância e o preconceito tanto do lado dos mulçumanos quanto dos católicos.

Loach realiza um filme sobre as dificuldades de se viver um amor e de como as tradições e o estado das coisas podem servir de empecilho para a felicidade. O que também me surpreendeu foi a sensibilidade de Loach nas cenas de sexo, cheias de calor e afeto. A loirinha que faz a protagonista exala sensualidade nessas cenas. O filme só incomoda um pouco em determinados momentos, como naquele em que ela se mostra extremamente egoísta e não entende que o rapaz precisa trabalhar. Ou nas cenas que mostram a família dele forçando a barra para que os dois se separem. Mas mesmo nessas cenas, o filme é bastante competente na tarefa de nos deixar indignados com aquela situação. Interessante também a habilidade de Loach de fazer filmes sobre sociedades distintas da sua, seja um filme sobre paquistaneses na Escócia; sobre a Guerra Civil Espanhola - TERRA E LIBERDADE (1995) - ou sobre mexicanos tentando a sorte nos EUA, como PÃO E ROSAS. O homem é corajoso.

terça-feira, agosto 01, 2006

TRÊS NACIONAIS



Como foi discutido nas novas edições da Contracampo e da Cinetica, o cinema nacional está passando por uma fase, digamos, curiosa: há muitos filmes produzidos, mas poucas pessoas estão saindo de casa para ver esses filmes. Na minha cidade, por exemplo, a maioria desses filmes não são sequer exibidos. A CONCEPÇÃO (2006), eu sei que vai ser exibido e tem previsão de estréia por aqui para a próxima sexta-feira. TAPETE VERMELHO (2006), acho que não passa e BENDITO FRUTO (2005) chegou direto em DVD. CRIME DELICADO, de Beto Brant, é um dos filmes que eu mais aguardo chegar aqui, mas já estou perdendo minhas esperanças. BENS CONFISCADOS, de Carlos Reichenbach, pelo menos eu vi quando foi exibido no Cine Ceará do ano passado. Acho muito difícil passar no circuito comercial de Fortaleza. VENENO DA MADRUGADA, de Ruy Guerra, é outro que eu queria muito ver, mas que tem pouquíssimas chances de exibição. O que tem salvado é o mercado de vídeo, ainda que a maioria das locadoras não se disponha a adquirir os filmes brasileiros pela pouca procura. Talvez a saída para o nosso cinema seja fazer filmes mais comerciais, mais apelativos até, mas sem deixar de fora o lado autoral e a qualidade da obra. Não adianta conseguir patrocínio do governo e de várias empresas e não conseguir que o filme seja exibido ou que dure mais de uma semana em cartaz. Mas é uma situação muito complexa. Falemos dos três filmes em pauta.

A CONCEPÇÃO

O filme de José Eduardo Belmonte pode não ter sido bem sucedido em tudo, mas é um filme que se arrisca, que procura novos caminhos de se fazer cinema. Eu estava esperando mais desse filme. Logo, acabei ficando um pouco decepcionado. Mas é um filme que eu até veria de novo, com todo prazer. O que eu mais gostei em A CONCEPÇÃO foi da beleza exuberante de Rosanne Holland, que interpreta um dos integrantes do grupo de X (Matheus Nachtergaele). Na trama, X idealiza um movimento chamado Concepcionismo, que prega a morte do ego e o caminho dos excessos. Conforme dizia William Blake, esse caminho leva à sabedoria. Achei interessante a premissa, o estilo diferente de direção e montagem e a ousadia nas cenas de sexo. Pena que o filme vai cansando um pouco do meio pro final, me deixando pouco satisfeito com o resultado.

TAPETE VERMELHO

Mais simpático do que realmente bom, TAPETE VERMELHO conta a história de um caipira (de novo Matheus Nachtergaele) que quer levar o filho para a cidade grande pra ver um filme do Mazzaropi no cinema. Mal sabe ele da dificuldade de se encontrar uma sala que exiba esse tipo de filme hoje em dia. Gorete Milagres (a eterna Filó, do programa Ô COITADO!) é Zulmira, a esposa do caipira. Ela tem resistência a ir para a cidade grande e acha que o marido está ficando maluco. No começo, me incomodou um pouco a presença de Gorete que faz um tipo de humor que não me faz rir - na época do programa humorístico, eu gostava mais de ver o Moacir Franco. Já Nachtergaele faz um caipira entre o sério e o caricato. Um detalhe curioso do filme e que o torna mais interessante é a inclusão da mitologia fantástica sertaneja, como na cena em que uma cobra entra pela janela para sugar o leite do peito da mulher ou na cena em que o diabo tenta o protagonista em troca de sucesso material. Vi o filme em companhia dos amigos Michel e Renato no meu último dia em Sampa.

BENDITO FRUTO

Outro filme bem simpático esse BENDITO FRUTO. Corajosa da parte dos realizadores do filme a escolha de não utilizar galãs e mulheres bonitas. Talvez isso tenha sido uma das razões do insucesso do filme nos cinemas. Mas Otávio Augusto é sempre muito bom. Adorei o papel que ele fez em O PRÍNCIPE, do Giorgetti. Nesse longa de estréia de Sérgio Goldenberg, Otávio é Edgar, um cabeleireiro dono de um salão de beleza que namora Maria (Zezeh Barbosa). A relação dos dois entra em crise quando surge uma amiga do passado de Edgar (Vera Holtz), uma mulher solteirona que está no Rio de Janeiro passando férias. Ela acaba ficando interessada em Edgar e confunde Maria com uma empregada. Pra completar a confusão, aparece o filho de Maria, que é gay e sua mãe ainda não sabe. Ele namora um galã de novela (Eduardo Moscovis). Camila Pitanga também está no filme num papel secundário.