domingo, maio 24, 2026

PASSAGEIRO DO MAL (Passenger)

 
Ando desanimado por causa de uma virose tão forte que acredito que teve um efeito pior do que as vezes que peguei COVID. Isso porque veio junto também com infecção e sinusite. Dia desses, ainda um pouco doente, frustrado por estar sem ir ao cinema, fui parar no Cinema do Dragão para ver MAMBEMBE. Resultado: a sonolência me fez dormir a primeira hora inteira do filme. Ao acordar e ver o quão inútil seria eu tentar ver meia hora de filme, me levantei e fui embora frustrado, de volta pra casa. E o triste é que eu tenho consciência de que um filmaço estava sendo projetado em minha frente. Algumas imagens ficaram guardadas na memória e pretendo vê-lo um dia ainda, se possível.

Passados alguns dias, calhou a suposta oportunidade de ver um filme de terror de um cineasta invulgar num horário acessível e com menos chances de dormir na sessão, de minha parte. Até porque estava melhor da virose. O filme era HOKUM – O PESADELO DA BRUXA, de Andrew McCarthy. Porém, eis que, como num passe de mágica, a sessão, que de manhã só constava alguns poucos pagantes, lota, de uma hora pra outra, no cinema do Cinépolis RioMar Fortaleza. Aliás, estranhamente eu chequei que várias sessões de outros filmes lotaram no sábado neste mesmo espaço. Foi bom eu ter checado no Ingresso.com, então. A segunda opção de bom filme de horror (legendado e em sala decente) que eu tinha era PASSAGEIRO DO MAL (2026), do cineasta norueguês André Øvredal, o mesmo de A AUTÓPSIA (2016). Felizmente deu certo, e embora seja um filme mais convencional, o resultado foi satisfatório.

Vejo o cinema hoje em dia como um dos espaços onde melhor consigo me desconectar das redes sociais, nem que seja por um período de apenas duas horas. E acho tão recompensador, tão necessário, para dizer o mínimo... Por isso acredito que o homem que estava inquieto e olhando o tempo todo da sessão de PASSAGEIRO DO MAL para seu celular não devia estar bem. Ele nem quis se permitir estar conectado ao filme. Levantava-se com sua garrafa de água, talvez esperando alguém que nunca veio, depois voltava, e ensaiou saída mais uma vez, infelizmente retornando. Até pensei em ir reclamar com alguém do cinema, mas em determinado momento fui olhar para os meus “colegas de sessão” e havia pelo menos mais duas pessoas que olhavam para o celular em vez de olhar para a tela, que aliás, estava com uma projeção de dar gosto (sala 4 do UCI Iguatemi). Esse cenário é preocupante, uma vez que cinema não é telenovela, em que é possível acompanhar enquanto se lava a louça ou se varre a casa. É algo pensado para ser apreciado por completo.

PASSAGEIRO DO MAL já começa com um prólogo intrigante e um baita jump scare. Logo depois, somos convidados a acompanhar o casal vivido por Maddie (Lou Llobel) e Jacob (Jacob Scipio). O rapaz é louco pela namorada, e a pede em noivado. Mas possui também uma outra paixão: o prazer de viver na estrada, morando num carro todo equipado para ser também seu espaço de moradia, além de participar de encontros com outras pessoas que optam por esse estilo de vida. Maddie não compartilha a mesma paixão que o namorado, mas tem por ele uma forte conexão. O problema “horrorífico” em questão (afinal, trata-se de um filme de horror e não só um drama sobre a dificuldade de um relacionamento) surge na figura de uma espécie de demônio das estradas, o tal “passageiro”

O filme de Øvredal tem alguns momentos de brilhantismo, embora também sofra com certas escolhas. Por exemplo: aproximar e mostrar muito de perto o tal “passageiro” tira muito de sua aura assustadora. Então, por mais que suas aparições sejam rápidas, a aparência de um Ozzy vestido de padre não ajuda muito. Por outro lado, há belíssimas utilizações de atmosferas de tensão e medo, especialmente quando se trabalha com movimentação de câmera (o uso da janela scope ajuda muito aqui) e com a escuridão. Então, como esse demônio aparece no escuro, quando chega a noite e eles ficam mais à mercê de seu ataque, o filme cresce, como na cena da projeção de A PRINCESA E O PLEBEU no meio da floresta (essa é uma baita cena) ou o último ato, quando o casal procura meios de vencer a assombração e sai em busca de uma igreja. Ao que parece, os filmes de terror católicos nunca sairão de moda. Mas aqui funciona bem e a cena do trajeto até a igreja é mesmo incrível.

+ TRÊS FILMES

PRÉDIO VAZIO

Se não me engano, este é o primeiro filme de Rodrigo Aragão que chega ao circuito local. O que é uma pena, levando em consideração o fato de o diretor ser um dos principais nomes (senão o principal) de um cinema declaradamente de horror produzido no Brasil. E acabou chegando via circuito alternativo, já que começou sua carreira na Mostra de Tiradentes, de onde saiu já com uma distribuição garantida (pela Retrato Filmes). PRÉDIO VAZIO (2025) tem um quê de EVIL DEAD, mas também lembra os filmes do Mojica, só que com o aspecto artesanal também vinculado a uma direção de arte com uso de CGI. Mas é artesanal raiz nos efeitos de maquiagem para a violência gráfica e até na maquete usada para o prédio (segundo Aragão, muitos donos de prédios têm medo de entregar seus imóveis para produções de filmes de terror). Parafraseando o narrador de VINIL VERDE, esta é uma história de mãe e filha. A mãe está curtindo o último dia de Carnaval em Guarapari-ES, quando dá um grito no telefone com a filha, que sofre com pesadelos e vai parar na cidadezinha costeira com o namorado em busca da mãe. Gilda Nomacce está mais uma vez ótima, como uma mulher que cuida do tal prédio do título. Adoro os close-ups nela, quando a atriz está em modo berserk.

A MULHER NO JARDIM (The Woman in the Yard)

Eis um filme que não é recomendado que seja visto caso a uma pessoa esteja passando por momentos psicologicamente difíceis ou algum quadro de depressão. Está longe da linhagem do terror escapista e divertido, no caso. Aqui o talentoso Jaume Collet-Serra sai da seara dos thrillers de ação com o Liam Neeson e outros filmes de gênero que causam certa alegria, como A CASA DE CERA (2005), A ÓRFÃ (2009) ou ÁGUAS RASAS (2016) e abraça algo mais sério. Mas é bom vê-lo saindo de experiências de fundo do poço como ADÃO NEGRO (2022) e voltando para o terror com uma história perturbadora e claustrofóbica em que uma família vivendo um luto da morte do pai e marido se vê com a visita de uma estranha mulher que se instala sentada numa cadeira próxima a casa deles. A casa está sem energia elétrica, pois falta dinheiro para pagar, e há toda uma carga pesada nas relações entre as pessoas da família – há um momento que poderia ser simples, envolvendo uma bolinha, mas que acaba sendo quase tão perturbador quanto a ameaça fantasmagórica. O que mais me assustou em A MULHER NO JARDIM (2025) foi o quanto o terror que o filme traz não dá trégua: há a depressão dentro da casa e a ameaça externa, que na verdade é interna. Ou seja, se correr o bicho pega etc. e tal. Eu diria que se trata de um dos filmes sobre enfrentamento de demônios interiores que mais me pegou, que mais me trouxe sentimentos densos e intensos. Se a Blumhouse quer vender o filme como um novo M3GAN, como dá a entender pelo cartaz, vai pegar muita gente desprevenida com esse exemplar pra lá de sombrio e angustiante. Uma das cenas finais vai ficar grudada na minha retina durante um tempo e não sei se vou querer ficar com ela, não.

A HORA DO MAL (Weapons)

Demorou para que Zach Cregger lançasse outro filme nos cinemas, depois do ótimo NOITES BRUTAIS (2022), que não chegou aos cinemas, mas que foi um sucesso entre os lançamentos de streaming, em especial entre o público mais fã do cinema de horror. Cregger é um diretor que vem da comédia e achei muito legal estar numa sala enorme (a sala IMAX do Iguatemi Fortaleza) e quase lotada com muita gente rindo de várias sequências. Ou seja, existe, sim, um humor muito peculiar num filme que começa bastante solene, além de muito misterioso e até lírico e melancólico, em especial quando ouvimos "Beware of Darkness", do George Harrison. A trama de A HORA DO MAL (2025) em si já começa muito interessante: 17 crianças de uma mesma sala de aula desaparecem misteriosamente no meio da noite. Não se sabe onde foram parar e uma das pessoas consideradas responsáveis é a professora daquela turma, a personagem de Julia Garner, que está num ano perfeito, aliás, depois de ter aparecido no subestimado LOBISOMEM e ainda esteve em cartaz como a Surfista Prateada de QUARTETO FANTÁSTICO – PRIMEIROS PASSOS. Aqui ela é uma das várias personagens que terão seus pontos de vista apresentados, a fim de comporem uma história cheia de surpresas, tanto na trama quanto na montagem. Assim, mais à frente veremos os pontos de vista de um dos pais de uma criança desaparecida (Josh Brolin), de um policial (Alden Ehrenreich), do diretor da escola (Benedict Wong), entre outros. O filme termina e dá vontade de ver de novo. Bom perceber que o gênero está voltando a ter muito prestígio, mas isso acontece também quando as próprias distribuidoras apostam nesses filmes, como foi o caso aqui. Fiquei pensando: todas essas pessoas que estavam na sessão estavam lá por causa da boa repercussão do filme pela crítica ou simplesmente queriam ver um filme de terror qualquer? Não me pareceu ser a segunda opção, não.

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