terça-feira, maio 11, 2021

HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO (When Harry Met Sally...)



Queria estar hoje bem feliz para entrar um pouco mais em sintonia com o momento especial que foi para mim o dia em que vi no cinema HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO (1989), de Rob Reiner. Na época, 1990, eu estava no último ano do ensino médio, tinha 18 anos, estava me recuperando de uma paixão que não deu certo e tinha acabado de comprar o meu primeiro par de óculos. Estava de licença remunerada do meu estágio no Banco do Nordeste e ia sozinho para o cinema, meu programa favorito.

A novidade é que esta seria minha primeira sessão de cinema usando óculos para uma miopia de três graus. Minha timidez me impedira até então de usar óculos e, por isso, chegar àquele estágio de miopia e olhar o mundo como era “de verdade” pela primeira vez foi mágico. O que mais me encantou naquela nova forma de ver o mundo foram os detalhes nas folhas das árvores. Sem os óculos, as copas das árvores pareciam um grande borrão. Com os óculos, havia os detalhes lindos. Ah, e também comecei a prestar mais atenção nas estrelas, agora mais delineadas no céu.

E fiquei muito feliz com aquela minha primeira sessão com os óculos, podendo me sentar desta vez em qualquer lugar da sala de cinema - antes tinha sempre que me sentar lá nos assentos da frente para poder enxergar as legendas. E havia também o sentimento de bem estar comigo mesmo, de me sentir bem depois de um mal estar gerado pela referida paixão. Curar-se de uma paixão é algo muito positivo, nos ajuda a reencontrar a alegria de estar só e livre.

HARRY E SALLY estava passando no Cine Center Um, um espaço que ficava um pouco longe de onde moro, mas o fato de ser o local de exibição do Cinema de Arte e também dos filmes mais cultuados e melhores da cidade me fazia frequêntá-lo bastante, ainda que tivesse que pegar dois ônibus para chegar lá. Sem falar que o espaço era confortável e a projeção era excelente. Começou a sessão e eu fiquei encantado com aquelas imagens maravilhosas. E aquela mulher linda e encantadora também, a Meg Ryan, vivendo a Sally, ajudou bastante. Resultado: saí do cinema literalmente pulando de alegria, depois daquelas lágrimas discretas na cena do revéillon, no final, e de ter, naquele meu segundo ano oficial de cinefilia, confirmado o cinema como o espaço mágico e de pluralidade de sentimentos.

Por isso que, durante muito tempo, eu considerei HARRY E SALLY como a minha comédia romântica favorita. Claro que depois eu veria outras melhores, especialmente as clássicas ou aquelas do Éric Rohmer, mas HARRY E SALLY sempre vai estar no meu coração como muito especial por se situar na aurora da cinefilia e também por representar um período de ouro para as comédias românticas, os anos 1980-90. Inclusive Meg Ryan virou uma espécie de namoradinha da América com esse filme. Chegou a fazer outras duas parcerias com Nora Ephron, a roteirista do filme, com SINTONIA DE AMOR (1993) e MENS@GEM PARA VOCÊ (1998), ambos com Tom Hanks fazendo como par romântico dela, mas nenhum dos dois filmes chegou a ter os mesmos acertos de HARRY E SALLY.

E por mais que tenhamos um cineasta cheio de acertos em sua filmografia - Rob Reiner trafegou com sucesso por diversos gêneros -, a chave do filme está principalmente no roteiro de Nora Ephron, que fazia referência às comédias da Velha Hollywood. O texto me surpreendeu em alguns momentos bem engraçados, cenas que eu havia me esquecido, e há o charme e a elegância de Meg Ryan usando aquele figurino que remete à Diane Keaton dos filmes do Woody Allen - especialmente de NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA.

Aliás, os próprios créditos iniciais (fonte branca em tela preta com jazz ao fundo) e outras coisas também remetem a Woody Allen. A cena final (pré-epílogo) segue sendo muito bonita e emocionante, com aquela fala primorosa que deram a Billy Crystal. No Oscar de 1990, eu havia visto Crystal como o apresentador e por isso eu já tinha um carinho muito especial por ele, que fez tanto sucesso que repetiu o papel de host em outras oito ocasiões (1991, 1992, 1993, 1997, 1998, 2000, 2004 e 2012). Mas sua carreira na comédia, tanto na TV quanto no cinema, já estava bem solidificada.

Por isso, de certa forma, sua participação em HARRY E SALLY era até mais acertada do que a da própria Meg Ryan, cujo estouro veio mesmo justamente com este filme, ao lado de Crystal. A química funcionou muito bem, com Crystal trazendo seu carisma e seu timing cômico e Meg trazendo seu encanto próprio que casou muito bem com a personagem idealizada por Ephron.

O filme tem uma estrutura narrativa que é entrecortada por depoimentos de casais de velhinhos que tiveram um casamento feliz. Isso já traz uma preocupação com o encontrar a alma gêmea, embora nunca se use esse termo no filme, desde o início. Em certo momento, Sally, conversando com suas amigas, e tendo se separado do então namorado, tenta disfarçar a preocupação com o rápido passar do tempo. Ela chega a mentir a idade, inclusive.

Na história, nem Harry nem Sally, nas vezes que se encontraram em outras ocasiões, gostaram um do outro, embora Harry tenha sido honesto ao dizer que se sentia atraído por ela. Anos depois, quando se encontram novamente em uma livraria, nasce uma amizade. Mas será que há espaço para um amizade entre um homem e uma mulher? Isso seria impossível segundo a versão mais jovem de Harry. Muito da força do filme está nesses encontros dos dois como amigos, na discreta tensão sexual que surge entre os dois (principalmente em forma de um ciúme que tenta ser disfarçado).

Outros fortes elementos do filme estão em pequenas conversas, não apenas entre Harry e Sally, mas entre Hally e seu amigo Jess (Bruno Kirby) e Sally e sua amiga Marie (Carrie Fisher). Quando os quatro se juntam, em uma tentativa de formar pares que deram errado, o filme cresce ainda mais. E há aquela fala engraçadíssima de Marie sobre a mesa de centro do noivo. (Gosto também da piada envolvendo Charles Chaplin, dita por Crystal.)

Curiosamente, a cena mais famosa do filme, a de Sally provando que é fácil fingir um orgasmo no restaurante, é uma cena que me deixa constrangido, não sei por quê. Aliás, é engraçado como o próprio filme tem uma espécie de tabu com o sexo. Trata-se de um elemento que não é mostrado e mesmo quando rola finalmente entre o casal, ambos ficam extremamente embarassados com a situação, sem saber direito como reagir e gerando uma outra cena memorável, com uso de split screen, em que ambos ligam para seus melhores amigos para confidenciar o ocorrido. Enfim, eis um filme que não demorou muito para virar um clássico.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

+ DOIS FILMES

MEMÓRIA PRESENÇA

A memória é uma constante no cinema, que é em si uma arte que lida com fantasmas. Cada pessoa que é registrada em celuloide (ou digital) já passa a ser eternizada, ao mesmo tempo que sua imagem daquele momento não mais existe. MEMÓRIA PRESENÇA (2021), novo trabalho de Gabriel Carneiro, um pequeno curta de 3 minutos feito durante a pandemia, é uma colagem de retratos de familiares (muito provavelmente) no cenário da casa do realizador (imagino). É como se, por meio de uma brincadeira, mas também com muita delicadeza, o diretor pudesse trazer de volta aquelas pessoas, no estado em que elas foram fotografadas, dentro daquele ambiente da casa, mas não sem criar certa estranheza. O elo entre este filme e obras anteriores como o terror MORTE E MORTE DE JOHNNY ZOMBIE (2011) e BATCHAN (2013), inspirado em Ozu, talvez esteja no quanto ele valoriza a vida, seja quando mostra um zumbi (símbolo de resistência entre a morte e a vida), uma senhora idosa recebendo a família para um almoço ou criando essa colagem com efeitos digitais caseiros.

ATRAVESSA A VIDA

Depois do ótimo PRO DIA NASCER FELIZ (2005), João Jardim volta ao universo das escolas e dos estudantes de ensino médio com este ATRAVESSA A VIDA (2020). Aqui ele foca em apenas uma escola, de ensino público, situada em Sergipe. Em determinado tempo da narrativa, quando é mostrada a vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, achei que o filme estava perdendo o foco, mas depois vi que isso servia para que entendêssemos melhor aquele momento, que provavelmente seria muito mais difícil para aqueles jovens, em suas jornadas profissionais futuras. Gosto de como o cineasta, mais uma vez, lida com as fragilidades emocionais de seus personagens. Há uma meia dúzia de cenas que me fizeram chorar (o que é a cena de "Pais e filhos"?). Adoro também a cena em que a diretora Daniela tenta consolar uma aluna e ela mesma acaba chorando. Há muita delicadeza e humanidade no filme, e não deixa de ser um tapa na cara dos liberais aquele final, mostrando as imensas possibilidades de sucesso de estudantes de escola pública galgarem sucesso nos estudos e na vida profissional, apesar de todos os obstáculos. E, no meio disso, a importância também dos professores no processo. Deu uma baita saudade do ambiente escolar físico.

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