domingo, junho 12, 2016

LEGIÃO URBANA XXX ANOS NO CENTRO DE EVENTOS – FORTALEZA, 11 DE JUNHO DE 2016



O meu amor pela banda e o fato de ter perdido a última apresentação da Legião Urbana em Fortaleza, em 1990, fizeram com que eu desejasse uma experiência ao menos similar, mesmo sabendo que as coisas estão longe de serem parecidas, com uma falta imensa do Renato Russo. Mas é também uma maneira de apoiar Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, os dois remanescentes do grupo que agora estão fazendo uma turnê de comemoração dos 30 anos de lançamento do primeiro disco, Legião Urbana (1985).

Não vou dizer que foi uma noite tão prazerosa. O DJ que colocaram lá para entreter o público até meia-noite era péssimo, só tocando canções manjadas. E eu ando bem chato com essas coisas. Ando querendo algo com um pouco de frescor e não algo que nem para saudosismo me serve. Mas o principal problema era a qualidade do som que esse sujeito tirava, além de intervenções terríveis nas faixas escolhidas.

As coisas melhoram quando a banda entra no palco, com vocal de André Frateschi, um cantor e ator que eu tive a oportunidade de conhecer em uma série da HBO, MAGNÍFICA 70, em que ele interpreta um ator picareta e de pouca confiança da Boca do Lixo. Nem sei se ele foi a melhor escolha, mas ao menos consegue cantar, enquanto que Dado e Bonfá só arranham de vez em quando.

Na primeira parte do show eles tocam o primeiro disco na íntegra, de "Será" a "Por enquanto", na mesma ordem do álbum. E foi justamente deste conjunto de canções que saiu a minha favorita do show, "Soldados". Incrível o poder desta canção, que, diferente das demais, que tem uma simplicidade mais punk nas letras, possui uma complexidade e uma inquietação muito próprias. E a bateria marcial que acompanha a música é um achado. De arrepiar mesmo. A que eu mais cantei em plenos pulmões, esquecendo a minha labirintite, que no começo do show eu achei que fosse me fazer apagar no meio da multidão. O que não seria nada bom.

A segunda parte do show traz faixas de todos os discos, exceto do póstumo Uma Outra Estação (1997). Começa animando com "Tempo perdido", cantada por Dado e Bonfá. Infelizmente quando o Dado canta, muito da música se perde por suas limitações. O Bonfá também, embora consiga atingir alguns agudos que o outro não consegue. Aí isso prejudica um pouco o show. Neste segundo momento, o som também estava um pouco mais misturado, mais alto e mais distorcido. Não sei a que culpar: se a uma mixagem de som ruim ou à acústica da casa mesmo.

Um frescor de novidade aparece no momento que os convidados especiais chegam para abrilhantar o show. Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, canta e toca guitarra em duas faixas escolhidas por ele, "Andrea Doria" e "Se fiquei esperando meu amor passar", curiosamente duas faixas que precisariam de um som menos barulhento para que funcionassem. Mal dava para ouvir a voz do Catatau. Por outro lado, ele brilhou nos solos de guitarra, e mostrou que é um dos grandes do rock brasileiro na atualidade.

Já Jonnata Doll (do Jonnata Doll & Os Garotos Solventes) mandou bem demais, tanto no vocal, quanto na performance louca no palco, cheio de energia. Eis o frescor que eu gostaria de ver e que finalmente estava ali. Jonnata pegou logo duas faixas pedradas da Legião, "Fábrica" e "1965 (Duas tribos)". Na última, ele se meteu no meio do público, deixando os seguranças preocupados. Enquanto isso, uma parede de guitarras ensurdecedora – Catatau ainda estava no palco, junto com o restante dos músicos – fazia jus àquela celebração punk. Antes de "1965", aliás, Doll começa dizendo em tom de deboche: "O Brasil é o país do futuro! Rá!". A terceira e última convidada da noite foi Marina Franco, que mandou bem com "Dezesseis" e "Meninos e meninas".

No restante do show, Frateschi volta com uma canção dessas que já nasceu perfeita, "Eu sei" (quem duvida basta procurar o primeiro demo desta faixa, disponível em um disco solo póstumo do Renato Russo). Em seguida, Bonfá surpreende cantando bem "Pais e filhos". Por outro lado, canções que mereceriam um pouco mais de calmaria no som foram prejudicadas, como "Angra dos Reis" e "Teatro dos Vampiros" (que Dado tratou de estragar – mais uma). Ao menos ele lembrou da situação política horrível em que estamos vivendo, bastante representativa da faixa de 1991, única do excelente álbum V tocada. O show "encerra" com "Índios", com vocais alternados de Dado, Frateschi e Bonfá.

O bis vem com "Faroeste Caboclo", com todo mundo cantando junto e animado os nove minutos de duração da canção épica; e mais duas canções de protesto, uma com um ar de ironia, "Perfeição"; e outra direta, simples, e com uma guitarra deliciosamente poderosa, "Que país é este?". A faixa, mesmo tendo sido escrita em 1978, continua atual. Infelizmente. Saímos do show com um gosto amargo de desgosto pelo nosso país e "sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões", mas ao menos sabendo que o trabalho do Renato Russo segue tocante e que novos representantes do rock brasileiro estão trazendo novas energias e um espírito contestador que podem fazer a diferença.

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