domingo, junho 26, 2016

A ACADEMIA DAS MUSAS (La Academia de las Musas)



Para quem só conhece o José Luis Guerín de NA CIDADE DE SYLVIA (2007), um filme que lida mais com imagens do que com diálogos, certamente vai estranhar a nova abordagem do cineasta no desconcertante A ACADEMIA DAS MUSAS (2015), cinema falado da mais alta qualidade, que nos inunda de informações, de dúvidas, de discussões filosóficas a respeito do papel das musas no passado e como isso pode ser visto na contemporaneidade, além de também falar de coisas como infidelidade, a natureza das paixões, o papel do professor, isso com diversas citações à literatura clássica, especialmente Dante Alighieri.

A palavra, portanto, é um elemento não apenas essencial para a forma do filme. A palavra ganha uma importância que vai além da vida, essa vida que é finita. Sem precisar citar a Bíblia, que também cita o próprio Deus como sendo a palavra, esta ganha força no sentido de que ela é mais importante do que o corpo. É através dela que o professor Raffaele Pinto seduz suas alunas, tão interessadas e fascinadas com sua aula quanto dispostas a discordar de coisas como a passividade da musa diante do artista, levando em consideração que quase tudo que foi produzido na literatura mundial veio de uma sociedade patriarcal.

Enquanto o filme está na sala de aula, com câmera em baixa resolução, ele consegue se manter tão fascinante quanto WAKING LIFE, de Richard Linklater, para citar outro filme com uma abundância de informações e questionamentos filosóficos. Mas aqui entra um elemento que aproxima um pouco mais a obra dos espectadores comuns: o pensar sobre o amor, as paixões, a poesia, a arte, que são coisas mais ligadas às emoções, algo que não é exclusividade de nenhuma pessoa letrada, embora saibamos que o filme não é muito palatável para todas as audiências.

A ACADEMIA DAS MUSAS tem uma estrutura bem interessante, que se apresenta a princípio como um documentário sobre as aulas de filosofia da arte do professor Rafaelle Pinto (que foi professor de verdade do diretor), mas aos poucos ele vai se mostrando como um filme de ficção, a partir do momento em que a câmera vai ao pátio ouvir as discussões entre as alunas e o próprio professor dentro do carro com elas. As imagens embaçadas pelos vidros passam a impressão de que a câmera quer manter certo distanciamento daquele momento de intimidade, ao mesmo tempo em que é cúmplice do que acontece e oferece às vezes imagens refletidas do vidro, que funciona quase como um espelho. O relacionamento do professor com suas musas também afeta a esposa dele, que em determinado momento questiona se existe amor, se ele não foi inventado pela literatura para enganar as mulheres, que depois que casam sofrem na pele uma rotina dura de vida. Não deixa de ser uma postura interessante.

A sedução do professor com sua retórica afasta um pouco o filme de uma proposta mais feminista, embora abra espaço para discussões nesse campo, já que as mulheres, apesar de atraídas por aquele homem, são também questionadoras. Talvez porque a voz das mulheres sobre o tema deva ser dada a elas e não a mais um diretor do sexo masculino, embora seja dito em determinado momento da aula que as convenções de masculino e feminino estão presentes em homens e mulheres – somo escravos da linguagem, diz o professor.

Por outro lado, a força das palavras se mostra tão intensa que até temos o caso de uma aluna que mantém um relacionamento à distância com um sujeito pela internet, um homem que ela nunca viu, e que, no entanto, mexeu com ela de tal forma que se transformou em paixão. E nesse jogo de palavras, em que a teoria se funde à vida prática e às nossas próprias experiências como espectador, A ACADEMIA DAS MUSAS ganha uma importância especial em gerar dúvidas e provocações.

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