domingo, novembro 23, 2008

TOP 20 ANOS 40



1. DIAS DE IRA, de Carl Theodor Dreyer
2. RIO VERMELHO, de Howard Hawks
3. FÚRIA SANGUINÁRIA, de Raoul Walsh
4. FESTIM DIABÓLICO, de Alfred Hitchcock
5. O TESOURO DE SIERRA MADRE, de John Huston



6. OS SINOS DE SANTA MARIA, de Leo McCarey
7. A SÉTIMA VÍTIMA, de Mark Robson
8. SOBERBA, de Orson Welles
9. CONSCIÊNCIAS MORTAS, de William A. Wellman
10. MATEI JESSE JAMES, de Samuel Fuller



11. A MORTA-VIVA, de Jacques Tourneur
12. AS VINHAS DA IRA, de John Ford
13. LAURA, de Otto Preminger
14. PAIXÃO DOS FORTES, de John Ford
15. INTERLÚDIO, de Alfred Hitchcock



16. FOMOS OS SACRIFICADOS, de John Ford
17. À MEIA-LUZ, de George Cukor
18. LADRÕES DE BICICLETA, de Vittorio De Sicca
19. A FORÇA DO MAL, de Abraham Polonsky
20. DESENCANTO, de David Lean

Assim como aconteceu no meu ranking da década de 50, ofereci o primeiro lugar dos anos 40 para uma obra do grande Carl T. Dreyer. DIAS DE IRA é um retrato mágico dos tempos de intolerância e caça às bruxas, mas dizer isso é pouco diante das imagens e do impacto do filme. Só vendo para acreditar. O que se pode lamentar é o fato de Dreyer ter feito tão poucos filmes em sua carreira.

No entanto, o que predomina nesse top 20, feito com um empurrãozinho da Liga dos Blogues Cinematográficos, é mesmo o cinema americano. Até porque eu sou um analfabeto em Roberto Rossellini e em filmes de outras cinematografias dessa época. O outro representante não americano da lista é o excepcional melodrama LADRÕES DE BICICLETA, de Vittorio De Sicca, belo exemplar do neo-realismo italiano e que flagra um momento particularmente triste da história de seu país mas que retirou da pobreza e da falta de recursos criatividade e sensibilidade para realizar uma das obras mais elogiadas em todo o mundo.

Com a Europa e o Japão em ruínas, os Estados Unidos estavam numa situação privilegiada e o cinema americano estava passando por uma de suas melhores fases. Depois de ter superado a dificuldade de adaptação ao som nos anos 30 e as dificuldades econômicas da Grande Depressão, o cinema americano estava em seu perfeito estado. Acontece que os anos 40 eram anos sombrios para os americanos também. A primeira metade presenciou a maior das guerras da história da humanidade - pelo menos até onde a História registra - e a segunda metade não foi assim tão alegre. Por isso, nada mais natural que o clima fosse negro e nada mais natural que o cinema fosse noir. O film noir, termo criado pelos teóricos franceses, predominou nessa década. Até diretores que aparentemente não tinham muito a ver com o gênero se aventuraram por esse caminho, já que nessa década não havia muito espaço para a comédia. No máximo, víamos uma ou outra comédia um pouco ácida de Howard Hawks - ou os filmes dos irmãos Marx, que eu infelizmente não conheço (ainda).

E falando em Hawks, ele cometeria uma de suas grandes obras nessa década, com uma parceria marcante com John Wayne em RIO VERMELHO. O gênero americano por excelência também aparece em obras magníficas como CONSCIÊNCIAS MORTAS (outro filme sobre intolerância) e MATEI JESSE JAMES, este último talvez a maior estréia de um grande diretor até hoje, por mais exagerada que seja essa afirmação.

Os anos 40 também representam a década em que Alfred Hitchcock migrou para os Estados Unidos. E desse período destaco duas obras: FESTIM DIABÓLICO, sua experimentação radical com o plano-seqüência, e INTERLÚDIO, um de seus mais bem acabados trabalhos. E se Hitchcock aparece em dois filmes, Ford aparece em três: o drama sobre a Grande Depressão AS VINHAS DA IRA; o western PAIXÃO DOS FORTES; e o drama de guerra FOMOS OS SACRIFICADOS. Três filmes poderosos que atestam a grande forma daquele que é conhecido como o Homero do cinema americano, testamentos da grandeza de um artista, que se fazia de durão, mas que tinha uma sensibilidade única.

E falando em sensibilidade, o título que mais provoca choros da lista vai para o belo OS SINOS DE SANTA MARIA, de Leo McCarey, filme que pode ter múltiplos significados e que pode até ser visto como uma sutil estória de amor de um homem por uma freira. Mas o filme transcende isso e todos os sentimentos que ele provoca são de extrema pureza. DESENCANTO, de David Lean, talvez seja incluído também nesse rol de obras sensíveis e românticas que sobreviveram a essa época, ao mesmo tempo gloriosa e triste.

O cinema de horror também foi beneficiado com o clima noir e um produtor genial chamado Val Lewton marcou essa década com força. Filmes como A SÉTIMA VÍTIMA e A MORTA-VIVA são dois exemplares do que de maravilhoso esse homem produziu para a RKO, com poucos recursos e muita criatividade. Enquanto a Universal enfrentava o seu declínio criativo, fazendo continuações e mais continuações caça-níqueis de seus monstros célebres, Lewton fazia um horror sofisticado, influenciado pelo expressionismo alemão e entrando em sintonia com o film noir americano.

E falando no gênero, especificamente, ele aparece de forma explícita numa das obras mais importantes desse estilo: LAURA, de Otto Preminger. E embora não tenha uma definição precisa do termo film noir, quem sabe poderia incluir também o suspense À MEIA-LUZ, de Cukor, e A FORÇA DO MAL, de Polonsky, ainda que ambos sejam obras que ultrapassam as barreiras desse subgênero. Principalmente o segundo, um trabalho complexo, político, de um homem que talvez já previsse que seria alvo do macarthismo.

Falando em ambição, em vez de colocar CIDADÃO KANE, preferi pôr SOBERBA, o trabalho que o próprio Welles rejeita por conta dos cortes dos produtores. Ainda assim, é um filme que me agrada mais que o "melhor filme de todos os tempos". Um belo estudo sobre a ambição é O TESOURO DE SIERRA MADRE, de John Huston, talvez a obra-prima máxima do cineasta. Quem sabe FÚRIA SANGUINÁRIA seja a obra máxima de Raoul Walsh também, e um representante tardio do "filme de gângster", um subgênero que alcançou o seu apogeu no início da década de 30, mas que ainda conta nesse filme com um de seus principais representantes: James Cagney, mais louco do que nunca, top of the world.

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