quarta-feira, maio 31, 2006

TRÊS ENTERROS (The Three Burials of Melquiades Estrada / Los Tres Entierros de Melquiades Estrada)



Que bela estréia a de Tommy Lee Jones na direção (em cinema). TRÊS ENTERROS (2005) é um dos melhores filmes do ano. Tem o sabor dos melhores westerns. Compararam com Clint Eastwood, mas talvez seu filme tenha mais a ver com os westerns noir de Anthony Mann. Há também semelhanças com os filmes de Sam Peckinpah. Independente do que possa parecer, o filme de Lee Jones é um primor narrativo e visual que equilibra muito bem a sensibilidade e a aspereza. Vai ver o cineasta/ator é como Eastwood ou Ford: uma pessoa aparentemente rude mas de coração mole.

TRÊS ENTERROS conta a história de um homem que leva o cadáver do seu amigo e o seu assassino para fazer um enterro justo e para cumprir uma promessa que ele havia feito para o amigo morto. O primeiro ato do filme se parece muito com os trabalhos de Alejandro González Iñárritu, muito por causa do roteiro escrito por Guillermo Arriaga, já conhecido por fazer histórias fragmentadas e não-lineares. Não tenho nada contra esse tipo de abordagem - até gosto dos filmes do Iñarritu -, mas o filme cresce muito mais quando passa a utilizar uma narrativa linear.

Barry Pepper tem a melhor performance de sua carreira como o guarda da fronteira inexperiente que mata por acidente o vaqueiro mexicano. Sua viagem forçada, ao lado do cadáver e do justiceiro, funciona como uma forma de expurgar os seus pecados. Ele come o pão que o diabo amassou nessa travessia. Confesso que nunca tinha prestado atenção na performance de Pepper nos outros filmes. Nem lembro direito dele em A ÚLTIMA NOITE, de Spike Lee. Acredito que agora, depois desse filme, ele vai ganhar maior projeção. Pepper está no elenco do novo Eastwood, FLAGS OF OUR FATHERS, mas não sei se o seu papel é de destaque.

Os coadjuvantes também têm seus momentos de brilhar. Especialmente as duas mulheres: a garçonete que chifra o marido para fugir do tédio da pequena cidade e a esposa do personagem de Pepper. Não sei se é influência de O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, mas eu senti uma leve conotação homo nos flashbacks que mostram a relação de amizade entre o personagem título e Tommy Lee Jones.

Pena que a sala onde eu vi o filme (Sala 1 do Espaço Unibanco Dragão do Mar) não estava com uma qualidade boa de projeção. Mas como era o único lugar possível para se assistir ao filme na cidade, não posso reclamar muito.

terça-feira, maio 30, 2006

O DESPREZO (Le Mépris / Il Disprezzo)



Escrever sobre filmes do Godard é sempre um problema para quem - como eu - não tem um conhecimento mais aprofundado do contexto histórico dos filmes, das referências utilizadas pelo diretor e de suas intenções. Por isso, acho que esses meus textos feitos apressadamente para o blog não funcionam muito bem quando se trata de Godard. Mas vamos seguindo adiante e aprendendo com os poucos textos que eu leio na internet e com os livros que tenho. Ler sobre Godard, assim como escrever, ajuda muito na compreensão de seus filmes, tornando-os mais fáceis de serem apreciados. Gostaria muito de ter um livro escrito em português sobre Godard. Será que existe algum publicado no Brasil? O único livro que eu tenho que tem algo dele é "Grandes Diretores de Cinema", de Laurent Tirard, que contém pequenas entrevistas de vários diretores famosos.

Levando adiante minha peregrinação pela obra godardiana, cheguei em O DESPREZO (1963), um de seus filmes mais famosos e importantes. Eu havia visto o filme no início de minha cinefilia em uma cópia muito ruim em VHS. Dessa vez, com a cópia em divx ripada do DVD da Criterion, pude ver o quanto as cores do filme são bonitas e como é importante assistí-lo na sua janela correta, em scope. Por exemplo, tem uma cena em que Michel Piccoli fica no cantinho da tela, enquanto todo o resto do espaço é completado pelas pedras e pelo mar da paradisíaca Ilha de Capri, enfatizando a solidão e o sentimento de abandono do personagem. Numa cópia em "tela cheia", só ia dar pra ver o mar e as pedras.

O DESPREZO é, como o título já sugere, um filme sobre um homem desprezado pela mulher, depois que ela percebe que não ama mais o marido. Há quem diga que o filme foi inspirado na intimidade de Godard e Anna Karina. Principalmente pelo fato de Godard ter colocado, em determinada cena, uma peruca preta em Brigitte Bardot, de modo que ela ficou parecida com Karina em VIVER A VIDA (1962).

Além da participação sensual, com direito a nudez, de Brigitte Bardot, boa parte da fama do filme se deve à presença de Fritz Lang no papel de Fritz Lang. Ele é o diretor contratado pelo produtor americano Jeremy Prokosch (Jack Palance, que parece estar se divertindo bastante no papel do produtor tirano) para fazer uma adaptação da Odisséia de Homero. Michel Piccoli é o roteirista, um homem de teatro que se vê pouco à vontade no mundo do cinema. Bardot é sua esposa.

Em entrevista a Peter Bogdanovich, Lang declarou que Godard improvisava bastante. Inclusive, o próprio final do filme, Godard não tinha a menor idéia de como fazê-lo e perguntou a Lang: "Fritz, você tem alguma idéia sobre como deveríamos terminar esse filme?". E Godard acabou aceitando uma das sugestões do cineasta alemão.

O tema da morte do cinema, anteriormente apenas sugerido em VIVER A VIDA, dessa vez é citado explicitamente. O desgate no relacionamento de um casal também já havia sido mostrado em UMA MULHER É UMA MULHER (1961), mas de maneira bem mais leve. Dessa vez, Godard perde aquela leveza do início da carreira e se mostra bem mais sério e solene. Essa gravidade se torna ainda mais evidente com a música de Georges Delerue, que chega a ser invasiva e angustiante.

A personagem de Bardot, depois que perde o respeito que sentia pelo marido, diz a certa altura: "você não é um homem". Isso doeu até em mim. De tão desesperado que estava com a dissolução do casamento, o humilhado Piccoli já não se importa mais com o seu emprego, joga tudo para cima, dizendo que está nessa de cinema apenas pelo dinheiro, que gosta mesmo é de teatro. Para ele, não interessa mais se os produtores não mais o contratarão no futuro. Para ele, não há nada mais importante do que aquela mulher. Outra cena incômoda acontece quando Piccoli pergunta para Bardot se ela não quer fazer amor com ele, e ela, no sofá, despe-se e diz algo como: "ok, mas seja rápido". Um negócio desses, além de ser altamente brochante, faz com que o homem se sinta um verme. Nada mais doloroso do que ser rejeitado pelo mulher que você ama e com quem já teve momentos íntimos dos mais prazerosos. O filme me pareceu bastante forte para uma adaptação de uma obra de terceiros, no caso, Alberto Moravia. Passa a impressão de algo bastante pessoal para o diretor

Próximo Godard da fila: BAND À PART (1964).

segunda-feira, maio 29, 2006

X-MEN - O CONFRONTO FINAL (X-Men: The Last Stand)



Pra quem achava que X-MEN - O CONFRONTO FINAL (2006) seria tão fraco quanto os trailers antecipavam, até que eu me surpreendi bastante com suas qualidades. Sob a direção de Brett Ratner, o terceiro filme deve ficar na memória dos expectadores mais até do que os dois dirigidos por Bryan Singer. Eu, pelo menos, pouco me lembro de X-MEN (2000) e X-MEN 2 (2003), embora eu lembre de ter gostado mais do segundo.

O prólogo do novo filme chegou a me empolgar. Ele se passa alguns anos no passado e mostra o Professor Xavier e Magneto (ambos rejuvenescidos com maquiagem e retoques de computação gráfica) indo falar com os pais da adolescente Jean Grey, pois foi detectado que o poder da menina é incalculável e deve ser controlado. Depois vemos um pouco da infância traumática de Warren Worthington III, o Anjo. Em seguida, entram os créditos de abertura com uma música bacana. Depois desso prólogo, eu até me sentei mais apoiadamente na cadeira para ver o filme com mais boa vontade. A trama desse terceiro filme gira em torno de uma fórmula que "cura" os mutantes, transformando-os em pessoas normais.

Pode-se acusar o filme de muita coisa menos de não ser ousado. Os roteiristas, ignorando a possível reclamação dos fãs dos quadrinhos, não se importaram em matar logo de cara um dos heróis mais importantes da equipe. Sobrando espaço, assim, para que o Wolverine (Hugh Jackman) e a Tempestade (Halle Berry) pudessem brilhar mais. A Tempestade, nos filmes anteriores, havia sido relegada a segundo plano. Curiosamente, o Noturno desapareceu desse novo filme sem maiores explicações e o Colossus apareceu da mesma maneira. Porém, a participação do Colossus foi ridícula, servindo apenas como mero "lançador de Wolverine".

O Wolverine de Hugh Jackman está cada vez mais diferente do que eu conheci nos quadrinhos. No cinema, ele tem pinta de galã e tem até bons modos com as mulheres. Nos quadrinhos ele é um sujeito baixinho, enfezado e selvagem. Mas tudo bem. Eu gostei bastante da interpretação do Jackman e o fator de cura dele e a aplicação das garras foi bem melhor utilizada nesse filme. Claro que para um filme de censura 12 anos o sangue não é mostrado. Quanto à Tempestade, tirando o péssimo uso de cabos nas cenas de vôo, enfim deram o devido valor para sua personagem. Já Famke Janssen, a atriz pegou um papel ingrato, tendo apenas que se fazer de malvada o tempo todo na pele da Fênix Negra. Inclusive, achava que o filme iria beber mais da fonte da Saga da Fênix Negra, mas resolveram fazer um roteiro mais original, o que não deixa de ser um ponto a favor. Torna as coisas mais surpreendentes.

Felizmente um dos maiores problemas dos dois primeiros filmes foi solucionada, ao menos em parte, nesse terceiro. Refiro-me às seqüências de ação. O Wolverine bota suas garras para funcionar, o Fera mandou muito bem nas lutas, há um belo timing justamente num momento que qualquer diretor poderia se perder. Também gostei da menina que fez a Kitty Pryde (Ellen Page). Além de a atriz ser uma gracinha, a cena dela com o Fanático também ficou muito legal. A saída de cena do Ciclope só fez com que o filme melhorasse. James Marsden tem aquela cara de babacão que irrita.

Teria que rever o segundo filme para fazer uma comparação melhor, mas suspeito que Brett Ratner, o homem que deve ser respeitado ao menos por ter produzido PRISON BREAK, fez o melhor filme da trilogia. Não chega a ser excelente, mas já tá bom demais.

P.S.: Tem coluna nova no CCR. O assunto da vez: "Os novos mestres do terror".

sábado, maio 27, 2006

LOST - SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Lost - The Complete Second Season)



O final da segunda temporada de LOST (2005/2006) conseguiu ser ainda mais intrigante do que o final da temporada anterior, embora a média dos episódios, de acordo com a medição feita pelo meu empolgatrom, seja inferior à primeira. Os melhores episódios seriam os primeiros e os últimos. O especial duplo final conseguiu resgatar o mistério que estava quase sendo perdido nos episódios do meio, mais centrados no drama dos personagens e cada vez se assemelhando a uma novela. Antes de seguir adiante, recomendo a quem esteja assistindo LOST pelo AXN, ou que só tenha visto a primeira temporada em DVD, que não leia o texto a partir de agora.

A segunda temporada de LOST ficou marcada pelo misterioso botão da escotilha, encontrada no final da primeira temporada. O botão deve ser apertado a cada 108 minutos, seguido dos mesmos números que Hurley havia jogado na loteria antes de o avião cair na ilha. Caso o botão não seja apertado, o planeta inteiro sofrerá as conseqüências. Sejam lá quais forem. Na segunda temporada, "os outros" aparecem mais vezes e a gente sabe um pouco mais sobre eles. Ainda muito pouco, mas o suficiente para desmistificá-los. (Lembro que na temporada passada eu cheguei a ficar com medo do Ethan.)

Outra coisa marcante é o encontro do grupo formado por Jack, Kate e cia com as pessoas que estavam mais próximas da cauda do avião, e que foram arremessadas para o outro lado da ilha. Assim, entram para a formação oficial os personagens Ana Lucia, Libby, Ecko e Bernard. Dos quatro, Ana Lucia e Ecko foram mais importantes dentro da trama. O triângulo amoroso formado por Jack, Kate e Sawyer esquentou muito pouco. Mas até que eu acho isso interessante. Lembra a relação entre Mulder e Scully em ARQUIVO X. A mudança de tom no personagem de Locke também foi sensivelmente sentida. Ele perde a fé depois da morte de Boone e começa a fazer bobagens.

Meu top 5 da segundona, em ordem cronológica:

"Man of Science, Man of Faith" (2.01)

A segunda temporada começou arrebentando com um episódio de ação non-stop. Começa exatamente onde parou a primeira, depois que Locke arrebenta com dinamite a porta da escotilha. É quando conhecemos, ainda que vagamente, Desmond, o "homem do botão". A fim de não dispersar a trama, não vemos os outros personagens da ilha. A não ser pelos tripulantes do barco, Michael e Sawyer, que ficam apavorados depois que os outros seqüestram Walt e que Jin desaparece no oceano.

"Adrift" (2.02)

Um dos baratos desse episódio é que é a ação é praticamente a mesma do primeiro, só que vista por um outro prisma. Voltam os flashbacks. Dessa vez, de Michael. Mas a ação na escotilha continua a ser a coisa mais importante.

"The Other 48 Days" (2.07)

Episódio bastante interessante mostrando o que aconteceu com os outros tripulantes do vôo. São 48 dias em 42 minutos. É um dos episódios mais diferentes e dinâmicos da série.

"What Kate Did" (2.09)

É o episódio da Kate, minha personagem favorita da série. E, por acaso, a mais linda e gostosa também. Adoro a seqüência em que ela foge na moto, enquanto a casa do seu padrasto pega fogo. Não lembro se é esse episódio que mostra ela saindo do banho só de toalha e toda cheirosinha - passou até xampu.

"Live Together, Die Alone" (2.23/24)

Depois do episódio da Kate, pouca coisa empolgante aconteceu. A ação começa a ficar impactante novamente no episódio 21, com o retorno de Michael e a morte de Ana Lucia e Libby. "Live Together, Die Alone" ajuda a recuperar a fé na série. Ajuda a lembrar que LOST é um marco na história da televisão. O flashback desse episódio é o de Desmond, um dos mais interessantes até agora. Sua história é angustiante. Imagina só: estar apaixonado por uma mulher e ficar preso sem poder vê-la, seja na cadeia, seja na ilha, é de deixar qualquer um desesperado. Esse episódio também nos dá algumas respostas, como o porquê do avião ter caído na ilha, mas consegue deixar o espectador ainda mais perdido no final. A última cena me deixou sem chão. E pela primeira vez, assistimos a uma ação acontecendo fora da ilha sem que seja um flashback. Será que isso será uma constante na próxima temporada, se a namorada de Desmond entrar mesmo para o elenco fixo? Como ela sabia que uma descarga eletromagnética seria uma evidência da presença do namorado? Quais as conseqüências na ilha e no planeta da destruição do computador? Qual será o destino de Michael e Walt naquele barco? E mais um monte de perguntas que ficaram no ar e que só poderão ser respondidas (ou não) a partir de setembro, quando a série voltará.

sexta-feira, maio 26, 2006

CURVA DO DESTINO (Detour)



Perguntado por Peter Bogdanovich sobre quais dos seus filmes são seus prediletos, Edgar G. Ulmer respondeu: O GATO PRETO (1934), CURVA DO DESTINO (1945) e MADRUGADA DA TRAIÇÃO (1955). A julgar por CURVA DO DESTINO, o único filme do diretor que tive a chance de ver, esses outros também devem ser preciosos.

Terminei de ler a entrevista que Ulmer deu a Bogdanovich, publicada no livro "Afinal, Quem Faz os Filmes". Infelizmente, não foi possível cobrir toda a filmografia do cineasta na entrevista, pois Ulmer morreu vítima de um derrame cerebral em 1972. Quando Bogdanovich falou com ele, ele já havia sofrido um derrame, mas estava bem recuperado. Diferente de Leo McCarey, que nem falar podia mais na entrevista, de tão doente que estava. Já Ulmer falou bastante, contando histórias interessantes sobre filmes obscuros de sua filmografia, como os filmes ídiches; um pouco de sua relação com Murnau, Fritz Lang e Lubitsch; e dos milagres que fazia com pouco ou nenhum dinheiro. Ulmer costumava fazer filmes inteiros em apenas seis dias. Havia exceções, como da vez que ele fez um peplum na Itália - ANÍBAL, O CONQUISTADOR (1960, disponível em DVD pela ClassicLine). Achei bonito a entrevista terminar com uma frase em que Ulmer diz: "procuro absolvição por todas as coisas que tive de fazer por causa do dinheiro."

CURVA DO DESTINO é um filme de menos de menos de 70 minutos de duração que flui que é uma beleza. É um dos melhores film noir já produzidos. Como é característica do gênero, há a figura do homem que entra numa fria, uma mulher que se apresenta como catalizadora dos problemas do sujeito e um ou mais cadáveres no caminho, potencializando a tragédia. Se bem que eu li um artigo que dizia que CURVA DO DESTINO é um exemplo de uma subcategoria do film noir, o chamado film gris (filme cinza). O filme de Ulmer não apresentaria o glamour geralmente encontrado nos noirs, além do fato de o protagonista ser um loser bem mais parecido com uma pessoa comum. Acho essa teoria até coerente, já que estamos falando de um filme B. Inclusive, até dizem que o film noir surgiu da falta de dinheiro dos pequenos estúdios para investir em iluminação e melhores câmeras. Interessante que o culpado do destino trágico do protagonista é justamente a falta de dinheiro, a busca por melhores condições de vida numa sociedade tão capitalista quanto a americana. O papel do dinheiro no filme é de fundamental importância.

Uma das curiosidades (mórbidas) relacionadas a CURVA DO DESTINO é que o protagonista (Tom Neal) foi preso por ter matado a própria esposa com um tiro na cabeça. Ele ainda escapou da câmara de gás e acabou pegando dez anos de cadeia por homicídio involuntário.

quinta-feira, maio 25, 2006

REJEITADOS PELO DIABO (The Devil's Rejects)



Que filmaço que é REJEITADOS PELO DIABO (2005), a segunda incursão na direção do rock star Rob Zombie. Utilizando os mesmos personagens de seu filme de estréia, A CASA DOS 1000 CORPOS (2003), ele mostrou evolução técnica e sensibilidade impressionantes para alguém que está ainda começando. Eu fiquei realmente surpreso. Não imaginei que esse filme fosse tão bom. Achava que era só hype dos fãs de horror. Em vez disso, dei de cara com um filme mais parecido com policial do que com terror e um diretor com um carinho especial por seus personagens. algo que não via desde KILL BILL, de Quentin Tarantino. Zombie ama e romantiza seus anti-heróis, não importando que eles sejam psicopatas perversos, dignos do pior castigo. Esse amor do diretor por sua criação já até gerou muita controvérsia. Muitos acham que Zombie fez uma glorificação da violência. Mas já haviam dito algo parecido quando Coppola fez o seu O PODEROSO CHEFÃO ou Peckinpah fez MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA.

REJEITADOS PELO DIABO começa mostrando vários carros de polícia cercando a casa da família de psicopatas. Durante o cerco, um membro deles é baleado e a matriarca é presa. Foge o casal de irmãos, que contatam por telefone o pai, o Capitão Spaulding, um sujeito que se pinta de palhaço. Na casa, álbuns de fotografia das vítimas são encontrados. O xerife encarregado das investigações leva para o lado pessoal a busca pelos bandidos, já que eles chegaram a matar o seu pai. Enquanto isso, a família, mais unida do que nunca, procura um lugar para escapar da polícia e imprimir um pouco mais de horror e matança pelo caminho.

Alguns comentários soltos sobre o filme:

1) Sheri Moon Zombie continua linda, gostosa e malvada, com aqueles jeans rasgados. 2) A trilha sonora é maravilhosa, repleta de rock sulista dos anos 70 (Lynyrd Skynyrd, Allman Brothers, entre outros). 3) A utilização da trilha ao longo do filme é excepcional, especialmente em duas cenas do terceiro ato, quando os tiros e os gritos são substituídos pela música, pela câmera lenta e pelo congelamento da imagem. 4) Há, no filme, a participação de Michael Berryman, o psicopata monstrengo do clássico QUADRILHA DE SÁDICOS, e de Ken Foree, de O DESPERTAR DOS MORTOS. 5) Tem um personagem interessante no filme: um sujeito que é fã de Grouxo Marx e de cinema em geral. Sua participação é meio bizarra dentro da trama. Interessante a discussão dele com o xerife, fã ardoroso de Elvis Presley. 6) O filme até que evita mostrar cenas de violência gráfica para uma produção do gênero. 7) Uma pena que esse filme não tenha sido lançado nos cinemas brasileiros e ido direto para o mercado de vídeo. 8) Com REJEITADOS PELO DIABO, Rob Zombie entra para a seleta lista de mestres do cinema de horror. E com louvor.

quarta-feira, maio 24, 2006

SEINFELD - 4ª TEMPORADA (Seinfeld - Season 4)


A quarta temporada de SEINFELD, que foi ao ar nos EUA de dezembro de 1992 a maio de 1993, é considerada por muitos a melhor e mais engraçada. Por isso que resolvi começar a minha coleção de DVDs da série logo por ela. E não me arrependi de ter comprado a caixa. Pelo contrário, foi uma das melhores aquisições que eu já fiz. SEINFELD é o tipo de série que a gente vê e revê diversas vezes e continua rindo das piadas. Que não perdem a graça jamais.

Com o tempo a gente passa a simpatizar mais e mais com os quatro personagens - Jerry, George, Elaine e Kramer. Jason Alexander, como o George, é simplesmente sensacional. Seu personagem é o mais mesquinho e tem episódios que valem por ele, como aquele em que ele vai para o velório do pai de uma namorada e pede um desconto à companhia aérea por morte na família. A trama principal desse episódio ("The Implant") nem é tão engraçada, mas a parte do George é impagável.

A quarta temporada foi revolucionária em diversos aspectos. Antes de tudo, foi a primeira vez que uma série falou abertamente sobre masturbação e ainda mostrou a mulher como adepta dessa prática da mesma forma que o homem (em "The Contest"). Em outro episódio ("The Outing"), os roteiristas conseguiram se sair de uma forma genial da perseguição da era do politicamente correto, no que se refere ao preconceito contra os homossexuais, com a famosa tirada "not that there's anything wrong with that" (não que haja algo de errado com isso). Essa frase ficou tão famosa que até hoje é usada por muita gente - inclusive eu.

Eleger um top 5 dessa temporada é uma tarefa ingrata, mas vou tentar fazer assim mesmo. Eis meus episódios favoritos dessa fantástica temporada.

1. "The Cheever Letters". Esse episódio tem um dos finais mais engraçados da série, com a Elaine saindo do apartamento do Jerry e mostrando que sabia bem mais do que ele imaginava. A cena do Jerry narrando para o George o momento de intimidade que tivera com uma namorada é de se mijar de rir. E ainda tem as tais cartas de Cheever do título, que garantem um outro momento inesquecível.

2. "The Movie". Os quatro amigos marcam para ir ao cinema. Mas tudo dá errado e eles começam a se desencontrar um do outro. Excepcional o senso de timing desse episódio. George, novamente, nos presenteia com momentos de ouro.

3. "The Bubble Boy". Olha o George aí de novo no melhor momento. Quando ele joga uma partida de um desses jogos de mesa com o garoto doente que vive numa bolha. Mours! Moups!

4. "The Outing". Esse é o tão famoso episódio em que todo mundo acha que Jerry e George são gays. Não que haja algo de errado com isso.

5. "The Contest". Outro episódio histórico. Depois de ter sido pego pela própria mãe se masturbando enquanto olhava uma revista de lingerie, George fica tão traumatizado que diz que nunca mais irá fazer isso novamente. Duvidando disso, os três amigos resolvem fazer uma aposta entre si. Ganha quem conseguir ficar mais tempo sem se "aliviar". E o legal é que em nenhum momento a palavra masturbação é citada.

Ainda poderia citar outros episódios excepcionais como "The Pilot", o duplo que encerra a temporada; "The Opera", que traz o personagem de um maníaco, o Crazy Joe; ou "The Old Man", com Jerry, George e Elaine tentando ser pessoas melhores, ao cuidar de pessoas idosas.

Estou doido pra comprar logo outra caixa com mais episódios de SEINFELD. Estou de olho na quinta temporada. Essa tem o famoso "The Opposite", com George fazendo exatamente o contrário de tudo que costumava fazer. Tem sitcom melhor do que SEINFELD? Não tem mesmo. E provavelmente nunca haverá.

terça-feira, maio 23, 2006

TOURO INDOMÁVEL (Raging Bull)



Minha intenção hoje era falar sobre outro filme, mas depois de ver a vitória de TOURO INDOMÁVEL (1980) no ranking dos anos 80 da Liga dos Blogues Cinematográficos, resolvi tecer alguns comentários sobre o filme, que tive oportunidade de rever recentemente na edição especial em DVD da MGM. O DVD vem como principal extra um documentário de mais de uma hora dirigido pelo Laurent Bouzereau.

No documentário, Scorsese fala um pouco sobre a decisão de utilizar a fotografia em preto e branco. Uma das razões estaria ligada à cor da luva de boxe usada nos anos 40 e 50, que parece ter desagradado o diretor. Uma outra razão é que TOURO INDOMÁVEL seria o oitavo filme de boxe a estrear em 1980! Então, pra fazer diferente, Scorsese optou pelo preto e branco. E a outra razão estaria no fato de que o filme em cores envelhece mais rápido do que o filme em preto e branco. Na época, o cineasta estava envolvido com um trabalho de preservação e recuperação de filmes antigos. Um detalhe que me chamou a atenção no documentário foi o depoimento de Thelma Schoonmaker, que não se agüentou de emoção ao lembrar que TOURO INDOMÁVEL fora dedicado a um professor muito querido de Scorsese, que morrera durante a produção do filme. Fiquei emocionado e surpreso com a sensibilidade da montadora. Quanto a Paul Schrader (roteirista), é horrível ver esse homem falando. E complicado de entender o que ele diz sem a ajuda das legendas também.

Na votação da Liga, outros dois filmes de Martin Scorsese apareceram no top 20: A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988), na 16ª colocação, e DEPOIS DE HORAS (1985), na vigésima. Pode-se dizer que Scorsese entrou na categoria de mito. Seus filmes crescem à medida que o tempo passa. TOURO INDOMÁVEL não teve uma recepção muito boa na bilheteria, mas aos poucos foi sendo lembrado em listas de melhores do ano, da década e até a própria academia o indicou para vários Oscars, tendo ganhado os de ator (Robert De Niro) e edição (Thelma Schoonmaker). Outros filmes do diretor também vão ganhando respeito aos poucos. Como é o caso de CASSINO (1995), que quando estreou foi por muita gente - eu inclusive - considerado um repeteco de OS BONS COMPANHEIROS (1991).

Comparando com os filmes mais recentes do diretor, TOURO INDOMÁVEL parece ter um aspecto mais rústico, não aparenta ter a sofisticação de obras como O AVIADOR (2004), por exemplo. Interessante notar que o final desses dois filmes são semelhantes, ambos fugindo da estrutura clássica, do final convencional. TOURO INDOMÁVEL traz a quarta parceria de Scorsese com Robert De Niro, seu ator-fetiche, tendo feito juntos oito títulos. A presença de Joe Pesci também ajuda a imprimir a marca do diretor, já que a lembrança de OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO vem à mente mais facilmente para as gerações mais jovens. Interessante notar que o interesse de Scorsese pela vida de Jake La Motta não estava relacionado ao boxe. Scorsese nem sabia nada sobre o esporte. Seu interesse estaria no Jake como pessoa, na violência. Se o filme não fosse em preto e branco, seria talvez ainda mais violento. A cena em que La Motta esmurra o oponente e o sangue esguicha em abundância até os espectadores é das mais memoráveis do filme. Assim como o close do sangue pingando nas cordas do ringue e a água cheia de sangue usada para lavar o boxeador durante os intervalos das lutas. Provavelmente, o fato de o diretor ser católico explique um pouco essa fixação pela violência, que serve muitas vezes para causar uma cartarse e é tratada com respeito e reverência. Daí a bela e solene música de Pietro Mascagni, a "Cavalleria Rusticana", que abre o filme. Será que a violência é uma característica dos diretores católicos? Hitchcock e Mel Gibson me vêm à mente de imediato.

Engraçado que a cena que eu mais lembrava da primeira vez que assisti o filme, em 1989, na Globo, era a do bife, quando La Motta ainda estava com sua primeira esposa e pedia para ela lhe trazer logo o bife e a mulher brigava com ele e ele jogava a mesa com prato e tudo. Achei engraçada aquela cena e a violência não me afetava ou perturbava tanto. Os filmes de Scorsese que mais me levaram à catarse foram OS BONS COMPANHEIROS e GANGUES DE NOVA YORK (2002), os dois vistos no cinema. Que é o lugar apropriado para se ver seus filmes. Por isso, vou deixar um conselho, coisa que eu não costumo fazer: nunca deixe passar um filme de Martin Scorsese quando ele estiver passando nos cinemas. Na tela pequena não vai ser a mesma coisa.

segunda-feira, maio 22, 2006

O CÓDIGO DA VINCI (The Da Vinci Code)



Impressionante a quantidade de salas que está exibindo O CÓDIGO DA VINCI (2006). Os executivos estão apostando mesmo no êxito comercial do filme. Também pudera: o livro vendeu mais de 45 milhões de exemplares em todo mundo e quem não leu já ouviu falar da polêmica. O filme, então, vai alcançar muito mais pessoas - no Brasil, são 500 salas exibindo. E se o livro de Dan Brown já era picareta e oportunista, o filme, então, nem se fala. Enquanto assistia ao filme e me sentia um tanto aborrecido, comecei a pensar que o problema talvez se devesse ao fato de eu já ter lido o livro e já saber tudo que iria acontecer. Mas aí lembrei de O SENHOR DOS ANÉIS e do quanto eu curti ver aquele filme, mesmo tendo lido a obra literária antes. Logo, o problema de O CÓDIGO DA VINCI se encontra principalmente na direção de Ron Howard e no roteiro mal amarrado de Akiva Goldsman.

Se tem uma coisa que o filme tem de vantagem em relação ao livro - além da possibilidade de se acompanhar tudo em pouco mais de duas horas - são as seqüências de ação. A cena da perseguição no carro de Sophie Neveu (Audrey Tautou) é um dos melhores exemplos. Como o mais importante do filme está nas teorias sobre o Santo Graal, Maria Madalena, os Templários etc., Howard tenta a todo custo dar agilidade às cenas em que os personagens dão a sua aula de história e religião. Não é dado aos personagens sequer uma linha de diálogo que dê um pouco de naturalidade ao filme. O resultado é que em nenhum momento o filme aparenta ser algo crível, jogando por água abaixo um assunto tão sério e interessante. E olha que o livro, com aquele jeitão de obra descartável, quase conseguiu isso também.

O melhor do filme é Ian McKellen, que é quem confere vivacidade e entusiasmo ao seu personagem. Jean Reno, como o policial que persegue o casal de heróis, também está bem. Mas os protagonistas, tanto Tom Hanks quanto Audrey Tautou, parece que pularam de pára-quedas no filme. Suas caracterizações são rasas e sem graça. Os flashbacks que tratam do passado dos dois chegam a ser irritantes. Paul Bettany, outro ator que faz um personagem importante, ficou parecendo mais um serial killer de filme de terror de segunda.

Se fosse uma obra séria, eu até me animaria para falar um pouco sobre religião, tema que muito me interessa e que é um dos eixos de O CÓDIGO DA VINCI, mas depois de um filme desses é melhor deixar a teologia de lado e vê-lo apenas como um thriller mal realizado e feito com o objetivo único de ganhar dinheiro.

sábado, maio 20, 2006

GAROTA DA VITRINE (Shopgirl)



Costumo ter simpatia por personagens solitários e por filmes que abordam essa problemática. GAROTA DA VITRINE (2005) trata com delicadeza o tema da solidão, da dificuldade de comunicação, das escolhas que se faz na vida, de só ver a bobagem que se faz depois de algum tempo. Nada disso é aprofundado, é verdade, mas isso pode ser completado e sentido pela vivência do próprio espectador. A protagonista do filme é Claire Danes, que adquiriu uma beleza estranha e incomum agora que está adulta. Acho que esse é o primeiro filme que traz uma cena de nudez com a atriz, o que já é motivo suficiente para os fãs correrem para comprar o ingresso.

Claire faz o papel de uma jovem do interior que trabalha numa loja em Los Angeles. Ela é solitária, mas procura se ocupar em casa pintando quadros, aproveitando o seu tempo livre com prazer. Como a maioria das pessoas, ela trabalha porque precisa e não porque ama o emprego. Passar o dia em pé numa loja, com o sapato apertando e tendo que sorrir para as pessoas o tempo todo não é nenhuma maravilha. Sua rotina muda quando ela conhece dois pretendentes: um rapaz pobre e meio desengonçado (Jason Schwatzman) e um homem mais velho e muito rico (Steve Martin).

Tendemos a simpatizar mais com o personagem de Steve Martin, um homem de classe que sabe como convidar uma mulher para jantar e não sofre de falta de tato e falta de autoconfiança como o personagem de Schwatzman, que é quem deixa o filme com cara de comédia - a cena da camisinha é divertida. Não deixa de ser uma ironia o filme ser assim meio esquizofrênico - ora é comédia, ora é drama sobre depressão - e Steve Martin, um comediante nato, participar logo da parte dramática. Martin é um ótimo ator dramático e já havia comprovado isso antes em filmes como GRAND CANYON (1991), de Lawrence Kasdan, e A TRAPAÇA (1997), de David Mamet. Quanto a Claire Danes, ela dá à personagem uma fragilidade nos momentos de dor e um amor devotado nas cenas com Martin que não tem como não gostar dela. E dessa vez ela teve a sorte de não ter uma outra atriz para roubar a cena, como aconteceu com Rachel McAdams em TUDO EM FAMÍLIA.

A seqüência que mostra o último encontro de Danes com Martin é comovente. E tem um narrador que dá ao filme um aspecto solene, auxiliado pela ótima trilha sonora. GAROTA DA VITRINE foi baseado numa novela escrita pelo próprio Steve Martin. Foi ele que adaptou o roteiro para cinema também.

sexta-feira, maio 19, 2006

ROGOPAG - RELAÇÕES HUMANAS (Ro.Go.Pa.G.)



Acabei vendo ROGOPAG (1963) mais por causa do nome de Godard no projeto, já que estou fazendo uma peregrinação pela sua obra. Acabou sendo também a chance de ver pela primeira vez algo do Rossellini. Engraçado que a tendência desses filmes de segmentos, por mais talentosos que sejam os diretores, a tendência é resultar num produto morno e às vezes sem unidade. No caso de ROGOPAG, parece que não havia mesmo intenção dos produtores de dar unidade ao filme. Os quatro diretores convidados para o projeto fizeram curtas totalmente diferentes entre si. Eu gostei mais dos episódios de Rossellini e, principalmente, de Godard. Os outros me deram sono e inquietação.

"Pureza"
de Roberto Rossellini

Uma jovem aeromoça sofre o assédio de um executivo americano que fica obcecado por ela. O final é bem resolvido, mas não entendi porque um cineasta de renome como o Rossellini fez um filminho tão desprentensioso como esse. Bom, como nunca vi nada do diretor, não sei se há uma coerência desse episódio com a sua obra. Em 1963, ele já havia passado do seu auge.

"O Mundo Novo"
de Jean-Luc Godard

De longe, o melhor dos quatro. Infelizmente, esse curta serviu como ensaio para que Godard fizesse o chato ALPHAVILLE (1965). Mas o que importa é que "O Mundo Novo" é uma delícia e é a cara do diretor. A trama se passa no futuro, quando o mundo se vê diante de um holocausto nuclear. O filme tem uma atmosfera de sonho que muito me agradou. Não dá pra fazer uma sinopse pois a história não parece ser a coisa mais importante. Era Godard recém-saído de uma obra-prima - VIVER A VIDA (1962).

"A Ricota"
de Pier-Paolo Pasolini

Gostaria de saber como foi que Orson Welles aceitou participar desse curta de Pasolini. Não que eu considere um absurdo ele ter aceitado. Só queria saber como foi mesmo. Welles faz o papel de um cineasta que realiza um filme sobre a Paixão de Cristo. Bem estranho vê-lo falando em italiano. O protagonista é um rapaz pobre que está interpretando um dos ladrões na crucificação e sente dificuldades para arranjar tempo para almoçar. O humor do filme é bem esquisito e passa a impressão de ter sido feito desleixadamente.

"O Frango Caseiro"
de Ugo Gregoretti

Pra ser sincero, eu nem me lembro direito desse segmento, pois vi com muito sono e com pressa de acabar logo para devolver o DVD na locadora. O diretor Ugo Gregoretti é o menos célebre dos quatro. Seu curta é uma crítica à propaganda. Já li textos sobre ROGOPAG alegando que esse seria o melhor da antologia. O sono deve ter prejudicado a apreciação.

Pelo menos o filme do Godard vi em condições melhores. E em breve, terei o prazer de comentar por aqui O DESPREZO (1963).

quinta-feira, maio 18, 2006

PRISON BREAK - 1ª TEMPORADA - 2ª PARTE



E ontem eu assisti à season finale da gloriosa primeira temporada de PRISON BREAK (2005-2006), a melhor série do ano, na minha opinião. Enquanto LOST está meio perdida nesse final de temporada e 24 HORAS se torna cada vez mais repetitiva, PRISON BREAK tem fôlego novo de criança saudável e uma capacidade de mexer com nossas emoções a cada novo e eletrizante episódio. Se a primeira parte da temporada já era ótima, o retorno, depois de uma parada de alguns meses, só fez bem à série.

Quando a série parou, os planos de fuga de Michael Scofield (Wentworth Miller) foram frustrados na véspera do dia em que seu irmão Lincoln (Dominic Purcell) iria ser executado na cadeira elétrica. Depois de meses de ansiedade, a série é retomada com o episódio "The Rat". Já que a fuga não deu certo, a esperança é que a médica do presídio (a belíssima Sarah Wayne Callies), que tem uma queda pelo Scofield, ajude a convencer o seu pai, que é Governador do Estado, a adiar a execução. O episódio seguinte, "By the skin and the teeth", é dos mais angustiantes, pois Lincoln vai à cadeira elétrica. Depois, a série mantém o alto nível dando uma de LOST. O episódio "Brother's Keeper" é um longo flashback que ajuda a esclarecer alguns pontos obscuros da trama principal, além de nos mostrar como era a vida dos personagens antes da prisão.

Os quatro episódios finais são de deixar a gente com o coração na boca. Principalmente a partir do momento que um do presos do grupo de Scofield amordaça, amarra e esconde um dos guardas. É só questão de tempo até que o diretor do presídio dê com a falta do homem e o encontre. Por isso, a fuga deve ser agendada para aquela noite.

O medo que eu tinha era de que a fuga não acontecesse nessa primeira temporada e que se estendesse até a segunda. A tal enrolação típica de série que está indo bem de audiência. Felizmente a fuga acontece durante os dois últimos episódios. O que não signigica que tudo esteja resolvido. Muito pelo contrário. O foda agora é agüentar até agosto, quando começa a ser exibida a segunda temporada nos Estados Unidos. E eu achei tão boa essa primeira que eu duvido que a segunda consiga manter a mesma excelência. Mas tudo é possível.

quarta-feira, maio 17, 2006

CRIANÇAS INVISÍVEIS (All the Invisible Children)



CRIANÇAS INVISÍVEIS (2005) é um projeto idealizado com o objetivo de sensibilizar as pessoas e os líderes mundiais para o sofrimento das crianças em diversas partes do mundo. Parte da renda do filme foi destinada para a Unicef e para o Programa Mundial contra a Fome. Assim, foram produzidos sete curtas sobre o tema, dirigidos por cineastas conhecidos - bom, alguns nem tanto. E todos trabalharam de graça nesse projeto. Já posso adiantar que, em resumo, o filme tem dois episódios ótimos (de Spike Lee e John Woo), um muito bom (Kátia Lund), um bom (Emir Kusturica), dois razoáveis (Mehdi Charef e Stefano Vaneruso) e um horrível (Jordan e Ridley Scott). Mais um pouco sobre os sete filmetes abaixo.

"Tanza"

CRIANÇAS INVISÍVEIS se inicia com o episódio dirigido pelo argelino Mehdi Charef. A história mostra crianças envolvidas numa guerra civil, matando, morrendo e sentindo falta da escola. É o mais triste dos curtas, já que mostra crianças sem um pingo de esperança na vida e com a morte rondando o tempo todo. O curta foi filmado em Burkina Faso.

"Blue Gypsy"

Depois do triste curta de Charef, vem o divertido filminho de Emir Kusturica. Tem uma cena engraçadíssima da família de ladrões, em que um dos meninos fica dançando de um jeito que dá vontade de dar gargalhadas. O filme tem a assinatura inconfundível do diretor, com aquele retrato cigano da Iugoslávia. Trata dos meninos que vão para reformatórios depois de cometerem determinados delitos.

"Jesus Children of America"

Até o título do curta é poético. Um do pontos altos de CRIANÇAS INVISÍVEIS é, sem dúvida, esse curta de Spike Lee que conta a história de uma menina pobre que descobre que seus pais são junkies e aidéticos e que ela também é HIV positivo. Gostei mais desse curta do que do recente O PLANO PERFEITO (2006). Spike Lee tem uma sensibilidade impressionante quando lida com as feridas da sociedade.

"João e Bilú"

Kátia Lund se saiu muito bem evitando fazer um melodrama lacrimoso (ela poderia mostrar as crianças como coitadinhas). Em seu curta, as crianças até se divertem, apesar das dificuldades de quem trabalha como catador de papel numa grande metrópole. Só o começo que me incomodou um pouco por causa da câmera tremida, mas depois, ou eu me acostumei ou a câmera parou quieta. Kátia Lund já havia me emocionado com o videoclipe "A Minha Alma", do Rappa. Aguardemos sua estréia num longa-metragem só dela.

"Jonathan"

São só alguns minutos, mas é um saco ter que agüentar esse curta sem graça dirigido por Ridley Scott e sua filha Jordan. "Jonathan" destoa de todos os outros e não diz direito a que veio. Na trama, um fotógrafo de guerra lembra de seu passado quando criança.

"Ciro"

Até tem umas tomadas interessantes, uns travellings e tal, quando mostra os jovens protagonistas correndo. O diretor Stefano Veneruso é pouco conhecido - nenhum de seus dois filmes anteriores chegou a ser lançado no Brasil -, mas foi assistente de Martin Scorsese em GANGUES DE NOVA YORK. Seu curta para a antologia fica entre o bom e o regular.

"Song Song and Little Cat"

Uma pena que teve gente que saiu na hora do curta italiano e perdeu esse belíssimo trabalho de John Woo. O diretor deixa de lado a ação desenfreada de seus longas mais famosos e exercita o seu dom em trabalhar com o melodrama, gênero que lhe é tão caro e que está presente em seus melhores trabalhos da fase chinesa. Nesse filme, ele nos apresenta duas garotinhas: uma é rica e infeliz; outra é pobre, foi encontrada por um mendigo bondoso que lhe tratou da melhor maneira possível. Tem uma cena que lembra CENTRAL DO BRASIL, de Walter Salles. Emocionante o momento em que as duas meninas se encontram.

P.S.: Está no ar a mais nova revista eletrônica sobre cinema: a Cinética. Coisa fina.

terça-feira, maio 16, 2006

SUPERMAN: AGUARDANDO O RETORNO



Enquanto o novo filme não chega, aproveitei que o canal A&E Mundo exibiu os três filmes da série dos anos 70/80 para fazer uma revisão. Se bem que o terceiro filme eu vi pela primeira vez. Os outros dois, eu lembrava vagamente. Ouvi falar que o novo filme, SUPERMAN RETURNS (2006), vai ser a continuação dos dois primeiros, ignorando o terceiro e o quarto. Aliás, o quarto filme foi ignorado até pela Warner do Brasil, que não o colocou no box lançado por aqui no ano passado. Pena que os dois primeiros filmes eu vi em circunstâncias não muito agradáveis. A recepção do canal estava tremida e eu me obrigava a não olhar fixamente para a televisão a fim de não ficar com dor de cabeça.

SUPERMAN - O FILME (Superman - The Movie)

TUBARÃO e GUERRA NAS ESTRELAS foram grandes sucessos de bilheteria, mas SUPERMAN - O FILME (1978) foi diferente. A produção foi um mega-investimento da Warner, com uma grande estratégia publicitária (a frase que vendia o filme era: "você acreditará que um homem pode voar!") e um monte de gente famosa e talentosa envolvida. Tinha Richard Donner, que veio do sucesso de A PROFECIA (1976); a estória ficou a cargo de Mario "Godfather" Puzo; e o elenco era estelar - Marlon Brando, Gene Hackman, Terence Stamp, Glenn Ford, Margott Kidder e um jovem rapaz chamado Christopher Reeve, no papel do Homem de Aço. Interessante que o nome de Gene Hackman (que faz Lex Luthor) aparece nos créditos antes do nome de Reeve. A participação de Marlon Brando, como o pai do Superman, foi histórica. Nunca havia-se ganhado tanto dinheiro aparecendo tão pouco num filme. Apesar disso, acho que o filme envelheceu bastante. O andamento é demasiado lento para os dias de hoje e pouca coisa realmente acontece depois que o filme termina a parte que mostra a origem do Superman. Por outro lado, a adaptação dos quadrinhos para a telona é quase perfeita. Christopher Reeve encarnou o herói com perfeição. O rapaz, além de ser boa pinta, tem uma aura de bom rapaz que tem tudo a ver com o Superman. Richard Donner e sua equipe trabalharam muito bem o aspecto mitológico do personagem, dando um resumão geral em coisas como a kryptonita, a casa no Polo Norte, o romance com Lois Lane, a apresentação de seu arqui-inimigo. Por isso que sobrou pouco espaço para um enredo mais interessante. Mas acredito que, na época, o filme deve ter impressionado muita gente. Memorável a cena em que o Super-Homem faz o tempo voltar para que sua amada ressuscite.

SUPERMAN II

Se o primeiro filme era lento e demorado, SUPERMAN II (1980), agora sob a direção de Richard Lester, é uma bela de uma aventura. E, na minha opinião, é o melhor da série. O filme começa de maneira semelhante ao primeiro filme, no planeta Krypton. Só que dessa vez, os produtores não puderam se dar ao luxo de contratar de novo Marlon Brando para mais uma participação milionária. Os principais vilões desse segundo filme são os três criminosos condenados a viver presos no espaço no primeiro filme. Eles conseguem se soltar e aparecem no Planeta Terra, cheios de super-poderes por causa do sol amarelo de nosso planeta (vai entender a ciência do universo DC). Gene Hackman retorna no papel de Lex Luthor. O filme também dá um salto no relacionamento de Lois Lane com Super-Homem/Clark Kent. Ela descobre que o Clark é o super-herói mais forte do planeta e o romance dos dois esquenta bastante. Inclusive, o Superman comete uma grande besteira em nome do amor. Pena que, no final, o filme dá pra trás e deixa tudo do mesmo jeito.

SUPERMAN III

Esse filme é bem subestimado. Trata-se de uma deliciosa aventura com toques cômicos (graças à participação de Richard Pryor) que traz um vilão meio que cópia de Lex Luthor. SUPERMAN III (1983) dá um tempo em Lois Lane e apresenta a paixão da juventude de Clark quando ele morava em Smallville, Lana Lang. Mas o grande barato do filme é quando Richard Pryor inventa um composto parecido com a kryptonita que transforma o Superman num sujeito malvado. A luta entre o Superman malvado e o bondoso é antológica. O filme só cai no final, com a seqüência do tal supercomputador que consegue encontrar o ponto fraco do Homem de Aço. Esse final deixou o filme com um jeitão trash que acabou prejudicando a franquia. Mas isso não é motivo para desconsiderar SUPERMAN III. Dizem que o quarto filme é que é horrível. Mas eu queria ver assim mesmo.

P.S.: Tem coluna nova no CCR. Dessa vez, eu falo sobre os dez filmes mais aguardados de Cannes 2006. Confiram!

segunda-feira, maio 15, 2006

ACHADOS E PERDIDOS



Quando vi o trailer de ACHADOS E PERDIDOS (2005) bateu uma curiosidade de assistir ao filme de José Joffily. Talvez porque a atmosfera tenha me lembrado um pouco Rubem Fonseca, atualmente o escritor brasileiro que mais gosto. O filme é inspirado em outro escritor brasileiro contemporâneio que também faz romances policiais, Luiz Alfredo Garcia-Roza. O livro no qual o filme se baseia é de 1996. Em 1998, Joffily já havia negociado com o escritor os direitos do romance, mas encontrou dificuldades, tanto para encontrar patrocínio, quanto para encontrar a maneira certa de adaptar o roteiro.

Na trama, o ex-delegado Vieira (Antônio Fagundes) tem um caso com Magali, uma prostituta (Zezé Polessa, em papel corajoso) que aparece morta no dia seguinte, nua, com um saco na cabeça e com as mãos amarradas na cama. Como ele estava bêbado na noite anterior, ele é considerado pelos policiais um dos suspeitos do crime. O filme é narrado com alternâncias de passado e presente. Aos poucos, vamos conhecendo mais sobre a personagem de Polessa. A trama começa a esquentar com a entrada da personagem de Juliana Knust, no papel de Flor, a prostituta bonita que dá em cima de Vieira assim que Magali morre. As duas eram amigas íntimas.

Pena que o filme vai perdendo o rumo à medida que se aproxima do final. Começa até bem, cheio de mistério e amargura, mas depois chega a ficar ridículo. É uma queda bem evidente. Principalmente porque a menina que faz a Flor, assim como é bonita, é má atriz. Ou talvez tenha sido mal dirigida. (Há quem diga que não existe ator/atriz ruim, existe diretor que não sabe trabalhar bem com o elenco.) Se bem que nem dá pra reclamar muito quando vemos a beleza de Juliana Knust. Isso até que equilibra um pouco suas deficiências na performance. Ao menos a gente fica com os olhos grudados na tela.

sexta-feira, maio 12, 2006

MASTERS OF HORROR: IMPRINT



Já havia baixado há alguns dias IMPRINT (2006), de Takashi Miike, mas estava com preguiça de ver o filme sem legendas. Vi ontem depois de ter conseguido as legendas com o Renato. O filme ganhou fama por ter sido banido da programação do canal Showtime por ser perturbador demais. O que é ridículo, já que um dos objetivos do cinema de horror é mesmo perturbar, chocar, mexer com os nervos do espectador ou arrepiar todos os seus cabelos do corpo. Levando em consideração todo esse "bafafá" em torno do filme e a declaração de Mick Garris de que IMPRINT foi o filme mais perturbador que ele já viu na vida, eu até que não achei o filme tão pesado assim, embora seja de longe o mais chocante dos treze filmes. Quem já assistiu ICHI THE KILLER (2001) já está mais do que preparado pra ver esse último episódio da antologia MASTERS OF HORROR. ICHI THE KILLER, esse sim, foi o filme mais perturbador e violento que eu já vi na vida.

Na trama, um americano (Billy Drago, bem canastrão) vai até uma ilha no Japão em busca de uma mulher. A ilha, dizem, é habitada apenas por prostitutas e demônios. Ele vai até lá porque descobriu que a mulher que ele amava havia se tornado uma prostituta. Assim que ele chega lá, pergunta pela mulher, mas um anão com o nariz quase todo arrancado diz nunca ter ouvido falar nessa pessoa. Pela expressão dele, logo sabemos que ele está mentindo. Como não havia mais barcos para retornar, o americano é obrigado a se hospedar no bordel. Ele escolhe justamente uma prostituta que não fica implorando aos clientes que a escolham. Ela é uma mulher com o rosto deformado. Ela lhe conta tudo sobre a mulher por quem ele estava procurando, além de coisas sobre seu passado.

Interessante como Miike é doente por cenas de tortura. Há uma seqüência em que uma mulher é submetida a uma tortura com agulhas pior que aquela mostrada em AUDITION (1999). Mas o horror do filme vai além da violência e adentra também o território do fantástico, como no lynchiano GOZU (2003), o meu favorito de Miike. O filme também guarda um parentesco com RASHOMON, de Akira Kurosawa, por causa das narrativas que trabalham com a verdade e com a mentira. É, com certeza, dos melhores episódios da antologia, embora, na minha opinião, ainda perda para os saborosos filmes de John Landis, Larry Cohen, Joe Dante e Dario Argento.

A boa notícia é que a segunda temporada de MASTERS OF HORROR já está perto de ser exibida. Li no IMDB que os nomes confirmados para dirigirem os próximos episódios são: Brad Anderson, Dario Argento, John Carpenter, Joe Dante, Ernest Dickerson, Mick Garris, Stuart Gordon, Tom Holland, Tobe Hooper e John Landis. Alguém confirma se a informação está correta? Algum outro cineasta confirmou a presença?

P.S.: Já saiu a lista dos filmes selecionados para a Mostra Competitiva do Cine Ceará desse ano. Não sei se gostei da idéia de terem transformado o festival em Ibero-Americano. Eu preferia que continuasse naquele formato anterior.

quinta-feira, maio 11, 2006

PARADISE NOW



"E depois, o que acontece?"
"Depois descerão dois anjos e os levarão para o paraíso."

É mais ou menos esse o diálogo entre um dos homens-bomba e o responsável pela seleção de candidatos para as missões suicidas, um sujeito parecido com o Mojica, não sei se vocês repararam. Desde a primeira vez que ouvi falar em PARADISE NOW (2005) que fiquei bastante interessado em assistí-lo. Afinal, o assunto não deixa de despertar nossa curiosidade. No caso, uma curiosidade mórbida. Acho que, hoje em dia, eu até encaro com mais naturalidade o fato de uma pessoa doar sua própria vida em prol de algo que ela julga ser maior. Mas antes, sempre que lia uma notícia sobre um atentado terrorista nos jornais, eu ficava horrorizado e imaginando o que devia passar pela cabeça da pessoa que faz um negócio desses. PARADISE NOW é tentador, pois nos oferece uma visão de dentro. E procura nos aproximar de anônimos que têm a coragem de se matar em nome de um ideal.

O filme de Hany Abu-Assad pode até decepcionar um pouco do meio pro final, mas em nenhum momento ele aborrece. Ao contrário, a trama é bem interessante. No filme, dois amigos de infância são recrutados para uma missão suicida em Tel Aviv. O objetivo é matar o maior número de judeus possível. Na noite anterior à tal missão, um dos rapazes vai visitar uma moça por quem ele tem uma certa atração. E os dois têm bons momentos juntos. Esses bons momentos com ela talvez mexam com a cabeça do sujeito, fazendo com que ele se torne ainda mais apegado às coisas do mundo. Outros momentos bem interessantes são aqueles que mostram os dois gravando vídeos de despedidas ou comendo suas últimas refeições. Vemos em seguida que os tais vídeos dos mártires são vendidos em locadoras como filmes de entretenimento.

PARADISE NOW não tem o mesmo valor de uma obra como INTERVENÇÃO DIVINA (2002), de Elia Suleiman, mas ainda assim merece ser conferido pelo ineditismo da coisa. Interessante que, como o lançamento desse filme aconteceu junto com MUNIQUE, de Steven Spielberg, a comparação entre os dois filmes foi inevitável. E Abu-Assad acabou perdendo feio para Spielberg, que ofereceu uma obra mais complexa e elaborada. Mas a comparação é injusta, já que Spielberg é um cineasta gigante, experiente e com um arsenal de produção que poucos têm a chance de ter. Assim é covardia.

quarta-feira, maio 10, 2006

A DÉCADA QUE MUDOU O CINEMA (A Decade under the Influence)


Suspeito que a melhor década para o cinema americano tenha sido a década de 50. Tinha Hitchcock no auge, tinha Ford, tinha Fuller, tinha Fritz Lang, tinha Anthony Mann fazendo aqueles westerns noir maravilhosos, tinha tanta coisa boa. Mas é fato que o cinema americano dos anos 70 foi dos melhores e mais importantes. Foi quando a indústria saiu da caretice que reinava nos anos 60 e os novos realizadores, inspirados no cinema de vanguarda europeu e "empunhando a bandeira do Godard", fizeram uma revolução social e estética no meio.

A DÉCADA QUE MUDOU O CINEMA (2003) é um documentário que dá uma geral no cinema dessa época e traz comentários de gente importante como Robert Altman, Francis Ford Coppola, Peter Bogdanovich, Roger Corman, William Friedkin, Julie Christie, Dennis Hopper, entre outros, além de trechos de alguns filmes selecionados. Claro que pouco mais de duas horas não é suficiente para cobrir um período tão rico quanto esse, mas, apesar disso, o documentário é uma delícia de se ver, mesmo quando já se sabe muita coisa do que aconteceu. Para melhor aprofundamento, gostaria de adquirir o livro "Easy Riders, Raging Bulls", do qual li apenas os primeiros capítulos mas já deu pra sentir um gostinho. Bem que poderiam lançar o livro no Brasil.

Pode-se dizer que, para o cinema americano, a década de 70 começou em 1967, com filmes marcantes como BONNIE & CLYDE - UMA RAJADA DE BALAS, de Arthur Penn, e A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM, de Mike Nichols. Antes disso havia os filmes B produzidos por Roger Corman, havia o cinema independente de John Cassavetes e os westerns vanguardistas de Monte Hellman. Mas aí era tudo underground, independente, fora da indústria. Esses dois filmes de 1967 foram fundamentais para a "tomada do poder". Os cineastas jovens falavam de temas sociais e comportamentais que antes era um tabu em Hollywood.

Os novos cineastas se espelhavam nos europeus, especialmente nos franceses da Nouvelle Vague, que, por sua vez, já cultuavam os diretores americanos clássicos. Como bem disse Martin Scorsese no documentário, todos adoravam o cinema clássico americano, mas era tempo de mudar, era tempo de fazer algo mais moderno. E a segunda metade dos anos 60 foi marcada pela psicodelia, pela experiência sensorial e pelo rock and roll. E nada mais representativo disso tudo do que o marcante SEM DESTINO (1969), do malucão Dennis Hopper. Aliás, boa parte dessa turma dos anos 60 era ligada às drogas. Dizem que o próprio Scorsese já cheirou muito. Por essa e outras razões, até hoje ele faz filmes sobre personagens marginais e anti-sociais. Outro filme marcante e que tratou da questão das drogas foi JOE - DAS DROGAS À MORTE (1969), de John G. Avildsen, cineasta que começou muito bem, mas depois chegou ao fundo do poço com coisas como KARATÊ KID.

Um dos momentos mais interessantes do documentário é quando alguém - não lembro quem - disse que esteve numa sessão de OPERAÇÃO FRANÇA (1971), de William Friedkin, em pleno bairro negro. Tem uma seqüência do filme em que um dos personagens diz: "never trust a nigger". Nesse momento, a audiência negra aplaudiu. Não que eles tenham concordado com a afirmativa, mas é que finalmente eles viram um filme que mostrava brancos falando francamente o que pensavam dos negros.

Apesar de toda a modernidade que se apresentava, o cinema não deixou de seguir o clássico-narrativo. Não daria pra ficar fazendo coisas malucas como HI, MOM! o tempo todo. A revolução foi mais comportamental e sexual. Suspeito que uma cena de nudez como aquela mostrada em A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA (1971) era algo inédito até então. Também era inédito tratar de um tema sério como a Guerra da Coréia de maneira sarcástica como fez Robert Altman em MASH (1970); ou mostrar um sujeito assaltando um banco para pagar uma operação de mudança de sexo do seu namorado - UM DIA DE CÃO (1975). Outros filmes representativos desse momento: BOB & CAROL & TED & ALICE (1969), ENSINA-ME A VIVER (1971), ÂNSIA DE AMAR (1971), UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA (1974).

Um exemplo maior da década foi O PODEROSO CHEFÃO (1972), que, apesar da estrutura clássica, causou certa polêmica, sendo acusado de romantizar a máfia, ou algo do tipo. Quando Scorsese fez o seu CAMINHOS PERIGOSOS (1973), muita gente pensou que o diretor havia contratado um psicopata de verdade para protagonizar o filme. E impressionante como Robert De Niro ficou marcado e até hoje vive de fazer tipos marginais e violentos.

Depois, os filmes americanos começaram a dar ênfase a temas político - um pouco parecido com os tempos atuais. Naquele tempo, os filmes políticos mais marcantes foram TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (1976), sobre o escândalo Watergate, e REDE DE INTRIGAS (1976), sobre a manipulação da informação na televisão.

Engraçado que o documentário, lá no final, mostra Steven Spielberg e George Lucas meio como vilões da história. Eles quase acabaram com os filmes de teor social e trouxeram diversão escapista com sucessos de bilheteria como TUBARÃO (1975) e GUERRA NAS ESTRELAS (1977). Claro que acusar os dois cineastas é querer simplificar demais as coisas. Principalmente quando vemos Spielberg fazendo um filme tão importante e relevante como o recente MUNIQUE. A impressão que se tem é que a década de 70 durou de 1967 a 1977. Do mesmo modo como começou mais cedo, terminou mais cedo.

Gravado do canal GNT, cortesia do amigão Renato Doho.

terça-feira, maio 09, 2006

MENTIRAS SINCERAS (Separate Lies)



Ver filmes no Cine São Luiz é sempre um acontecimento pra mim. Desde que o SESC assumiu a direção da sala (em agosto/2005) que eu não tinha pisado mais lá. Para minha alegria, o SESC está cuidando muito bem do lugar. Tudo parece limpo e as cadeiras parece que foram todas reformadas. A qualidade da projeção está muito boa e o som também está bem legal. Só o ar condicionado que continua não tendo a potência devida para uma sala daquele tamanho. Mas isso nem foi um problema, já que Fortaleza está menos quente nesses dias chuvosos. Outra coisa que eu achei bem legal lá foi o preço da pipoca e do refrigerante. Custam bem mais barato que aquele assalto que é o preço nas bombonieres dos cinemas UCI. Infelizmente, pouca gente está indo prestigiar a sala. Só havia uns poucos gatos pingados ontem, na sessão de MENTIRAS SINCERAS (2005). Mas tudo bem. Era segunda-feira à noite no Centro da cidade. Não dá pra querer muita gente no cinema mesmo. Por mais que seja o cinema mais barato da cidade, quem não tem carteira de estudante ainda tem que desembolsar sete reais, que pode não ser nada para muita gente, mas que para o público médio frequentador da sala é uma quantia bastante considerável.

Eu gostei bem mais do que esperava de MENTIRAS SINCERAS. O filme começa parecido com um suspense de Claude Chabrol para acabar como um melodrama sobre a dor de ser corno. Claro que um melodrama à maneira inglesa, com as emoções contidas, o que só aumenta a dor do personagem de Tom Wilkinson. Um dos chamarizes do filme pra mim foi a presença de Emily Watson, atriz de que eu gosto muito e que, apesar de não ser bonita, tem um charme todo especial.

Na trama, um senhor andando de bicicleta é atropelado e morre durante o acidente. Mais tarde ficamos sabendo que esse senhor era marido da faxineira do casal Emily Watson-Tom Wilkinson. O pivô da história de traição é o personagem de Rupert Everett, que está com uma aparência meio cadavérica nesse filme. Seu personagem também é bastante estranho. A própria personificação do blasé. Por isso, Everett é um dos pontos baixos do filme. Ainda bem que ele aparece pouco. Sobre a trama, não dá pra contar muita coisa, pois o ideal é ver o filme sabendo o mínimo possível, vendo os acontecimentos se desenrolando aos poucos, as investigações em torno do acidente, em que circunstâncias ele ocorreu e o que acontece com os envolvidos.

MENTIRAS SINCERAS é a estréia na direção de Julian Fellowes, mais conhecido como o roteirista de ASSASSINATO EM GOSFORD PARK (2001), de Robert Altman, e FEIRA DE VAIDADES (2004), de Mira Nair. Apesar de nem todo mundo ter gostado desses filmes, já dá pra perceber que Fellowes é um bom narrador do modo de vida inglês. Agora na direção, vê-se que ele é um expert, mostrando os ingleses se relacionando com certo distanciamento, suas reuniões mornas, seus chás-das-cinco, seus jogos de críquete. E ele faz tudo isso sem tornar o filme chato. Ao contrário, o filme é bastante envolvente. Tão envolvente quanto um bom filme de Claude Chabrol, misturado com um pouco de Jane Austen e mais um tanto de Douglas Sirk.

O que eu achei mais bonito no filme foi o amor devotado de Tom Wilkinson à mulher, sua dor de cotovelo, sua tentativa de manter a rotina diária apesar de todo o inferno que se tornou sua vida. Como o filme é narrado pelo ponto de vista dele, é fácil a gente se identificar um pouco com o personagem. Claro que os mais afoitos irão achá-lo um "bunda mole", um corno manso, mas o pessoal do bairro Conjunto José Walter já sabe que esse negócio de ser corno valente não dá certo (piada interna).

segunda-feira, maio 08, 2006

TRÊS DERRAPADAS



O dia hoje está bem atarefado pra mim, mas vou aproveitar o horário do almoço pra atualizar o blog, nem que seja fazendo textos bem rasteiros. Como não estou com condições de escrever nada inspirado, falemos das decepções, de filmes de autores que eu gosto - se bem que eu nunca fui fã de Richard Stanley -, mas que me decepcionaram. São três filmes de estilos e gêneros completamente distintos.

SELA DE PRATA (Sella D'Argento)

Comecemos com Lucio Fulci, um dos grandes mestres do horror italiano. Antes de ele ficar famoso com seus opus horroríficos, Fulci era um diretor de western spaghetti. SELA DE PRATA (1978) foi o primeiro exemplar do gênero que eu vi, dirigido por ele. E a decepção foi grande. O filme tenta imitar o estilo de ERA UMA VEZ NO OESTE, de Leone, até na opção pela música-tema de cada personagem. Tem a música do vilão, a do herói (Giuliano Gemma) e a do bufão. A desse último lembra demais o tema usado para o personagem de Jason Robards no filme do Leone. A trama é bem boba: jovem pistoleiro quando jovem presencia a morte de seus pais. Quando cresce pretende se vingar da família que os matou por causa de dinheiro. A situação se complica quando ele se afeiçoa a um garotinho da família. Aquele final, não dá pra levar a sério de jeito nenhum. O DVD nacional está com uma imagem horrível. Deve ter sido copiado do vhs italiano. O amigo Marcos Felipe tem uma relação de afeto com esse filme, provavelmente por tê-lo visto no cinema e durante a infância.

DUST DEVIL - O COLECIONADOR DE ALMAS (Dust Devil)

O filme tem os mesmos filtros avermelhados do título mais conhecido de Richard Stanley, HARDWARE - O DESTRUIDOR DO FUTURO (1990). DUST DEVIL (1992) é até interessante, mas tem um ritmo modorrento e uma história que não prende a atenção. Em alguns momentos também se torna confuso. Por isso, nem vou arriscar fazer uma sinopse, sob o risco de me perder. Dizem que a versão estendida, com meia hora a mais, lançada em DVD lá fora recentemente, torna o filme menos confuso, mais fluido. Pode até ser, mas eu não arriscaria ver esse filme de novo não. Mesmo sabendo que o filme tem admiradores ilustres como o Leandro Caraça e o Thomaz Albornoz. Gravado da TNT.

UM VAZIO NO CORAÇÃO (Ett Hål i mitt hjärta)

E o pior fica por último. Que porra de filme é esse que o Lukas Moodysson fez? Parece mais uma tentativa de irritar o espectador a todo custo. O sexo nesse filme é mostrado como algo nojento e repulsivo, coisa que me deixou indignado. O filme mostra quatro pessoas dentro de um apartamento fazendo besteiras. Dois homens convidam uma mulher para fazer um filme pornô dentro de casa. Dentro da casa, mora um rapaz com jeitão anti-social, e que se recusa a se relacionar com o pai ou com qualquer outra pessoa. Aos poucos, o filme vai mostrando os traumas e os problemas de cada um. Mas a edição picotada me deixou perturbado e doido pra que o filme acabasse logo. Foi mais uma experiência de tortura do que de entretenimento. Uma pena, pois eu tinha gostado dos três filmes anteriores de Moodysson, principalmente de PARA SEMPRE LYLIA (2002). Um dado curioso desse UM VAZIO NO CORAÇÃO (2004) é que a imagem fica desfocada quando mostra imagens de pessoas que não participaram do filme, na cena do supermercado, ou pra evitar fazer propaganda de marcas. Dá impressão de que foi feito em câmera digital. Esse filme também tem um admirador conhecido: o nosso amigo Daniel the Walrus.

domingo, maio 07, 2006

MISSÃO: IMPOSSÍVEL 3 (Mission: Impossible III)



Sensacional a estréia de J.J. Abrams no cinema. Uma prova de que a saída para o marasmo em que se encontra(va) o cinemão hollywoodiano está mesmo nas séries de televisão. Na televisão, a equipe tem que se esforçar para que a audiência não mude de canal. O espetáculo nunca pode ficar chato. Lembrando que MISSÃO: IMPOSSÍVEL 2 (2000) tinha esse problema: John Woo havia se excedido nas cenas de ação, tornando-as muito longas e cansativas. Esse erro, J.J. não deixa acontecer em nenhum momento. Não é exagero dizer que MISSÃO: IMPOSSÍVEL 3 (2006) é um marco na história do cinema de ação americano, da mesma forma que o foram OPERAÇÃO FRANÇA, de William Friedkin, nos anos 70, e DURO DE MATAR, de John McTiernan, nos anos 80 e 90. A estréia de J.J. tem jeito de ser um prenúncio de uma nova era para o gênero.

MISSÃO: IMPOSSÍVEL 3 já começa em alta voltagem. Ethan Hunt (Tom Cruise) está imobilizado pelo vilão (Philip Seymour Hoffman) e à sua frente está sua namorada (a bela Michelle Monaghan), também imobilizada e amordaçada. Caso ele não dê a informação que o vilão deseja, a moça levará uma bala na cabeça. Quando ele conta até dez e ouvimos o tiro, começam os créditos com a conhecida música tema de Lalo Schifrin, dessa vez com arranjos do ótimo Michael Giacchino, como se fosse uma empolgante série de televisão que a gente tem o prazer de assistir. (Eu me senti um pouco quando criança, quando começava o seriado do Batman e eu pulava no sofá de alegria.) Depois dos créditos, voltamos para um passado recente e flagramos a intimidade de Ethan Hunt, disposto a largar o trabalho perigoso para se dedicar à mulher que ele ama. Até que surge uma nova missão, que ele não consegue rejeitar: resgatar uma agente que foi sua pupila (Keri Russell), presa nas mãos de bandidos, durante uma missão.

A semelhança com ALIAS é enorme. Tom Cruise age como uma Sydney Bristol, tentando a todo custo não envolver seus amigos em seu trabalho perigoso. Tem até uma cena em que Tom conversa de costas com um de seus informantes, assim como Sydney fazia com o Vaughn na primeira temporada da série. É como se J.J. Abrams pensasse num episódio super-especial de ALIAS e o trouxesse para o cinema. O diretor já havia batido um recorde ao dirigir o piloto de série mais caro da história com LOST. Dessa vez, ele bate novo recorde ao dirigir o mais caro filme (U$ 150 milhões) dirigido por um estreante.

Cenas empolgantes não faltam. E o bom é que não há uma preocupação em ser realista, verossímil. A inverossimilhança é uma virtude. E outra lição de Hitchcock também é aproveitada: há um mcguffin no filme, o tal "pé-de-coelho", que funciona como motor da ação. Entre os momentos eletrizantes, temos a seqüência do Vaticano, que é mostrado como um reduto do luxo e da corrupção. Outras seqüências eletrizantes: a cena do resgate de Keri Russel, com helicópteros passando por entre geradores de energia eólica; a cena dos mísseis na ponte; a fuga de Tom Cruise em Shanghai; e o tão aguardado encontro de Cruise e Hoffman prenunciado no prólogo. E Tom Cruise ainda dá uma de Jack Bauer no final, que eu não vou contar aqui pra não estragar a surpresa.

O desempenho de Hoffman como vilão é genial. O trabalho de equipe nunca foi tão harmônico. Dessa vez, além dos "veteranos" Tom Cruise e Ving Rhames, completam o time os novatos Jonathan Rhys Meyers e Maggie Q. Mas claro que quem brilha mesmo é Tom Cruise, que faz questão de não usar dublês nas cenas de ação e é um ator bastante esforçado para dar o melhor de si. Tom Cruise é o cara. Não tem outro ator em Hollywood com o poder que ele tem e a capacidade de escolher os melhores projetos dos melhores diretores. O cara sai de um filme de Michael Mann para um de Steven Spielberg e agora aumenta a estrela de J.J.Abrams. E ele vem aí com outro filme dirigido por Michael Mann, THE FEW. Mas não nos antecipemos, pois o momento é de louvar essa bela obra de arte que é MISSÃO: IMPOSSÍVEL 3.

sábado, maio 06, 2006

UM BARCO E NOVE DESTINOS (Lifeboat)



Se tem filme inédito de Alfred Hitchcock nas locadoras, é hora de pegar de novo o livro "Hitchcock/Truffaut - Entrevistas" para ver o que o nosso mestre havia dito sobre o filme em pauta. UM BARCO E NOVE DESTINOS (1943) foi feito como um desafio. No caso, o de fazer um filme inteiro dentro de um bote salva-vidas. Interessante que em nenhum momento da entrevista Hitchcock falou sobre a dificuldade de se trabalhar nessas circunstâncias. Talvez porque ele tenha usado o recurso da retroprojeção, bastante comum naquela época, em vez de filmar o tempo todo dentro d'água, como Kevin Costner fez em WATERWORLD ou James Cameron em TITANIC.

UM BARCO E NOVE DESTINOS foi duramente criticado na época. Não é mesmo um dos melhores do mestre, mas não deixa de ser bem interessante, principalmente pra quem é fã. É mais um filme de personagens do que de história. Ao longo do filme, há uma importante discussão sobre o regime democrático versus regime nazista a partir das situações apresentadas. Na trama, um grupo de pessoas alcança um barco salva-vidas depois de um navio ter sido alvejado por um submarino alemão. No meio dos tripulantes, um alemão (Walter Slezak, de MIKAEL). Alguns americanos no barco querem jogar o alemão dentro d'água; outros se opõem, acreditando se tratar de assassinato, o certo seria levar o nazista até as autoridades aliadas para que ele seja julgado. As outras situações importantes são a do homem com a perna ferida e a da mulher rica que vai aos poucos perdendo seus pertences (Tallulah Bankhead).

Pena que o DVD lançado pela FOX (selo Fox Classics) não está caprichado. Além do filme, há apenas uma faixa de comentário do Dr. Drew Casper, mas nem tiveram o trabalho de legendar. E pensar que eu até cogitei comprar esse DVD. Ainda bem que tinha na locadora pra alugar. Agora é esperar que alguma distribuidora crie vergonha e lance logo o fundamental SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO (1949). De preferência numa edição especial recheada de extras, que o filme merece.

sexta-feira, maio 05, 2006

JOHN LANDIS EM TRÊS FILMES



Fiquei interessado em fazer uma retrospectiva na obra de John Landis logo depois de ver DEER WOMAN (2005), o meu favorito da antologia MASTERS OF HORROR. E que bom que Landis vai estar também na segunda temporada da série, com um filme de nome FAMILY (2006), além de estar com mais quatro produções agendadas. Ao que parece, o homem está voltando à boa forma. Aproveitei que a TNT exibiu três filmes dele durante o mês de abril, anotei para gravar e já os assisti. São três filmes de gêneros diferentes: uma comédia, um policial e um horror. Em comum, os três contém uma boa dose de humor e até poderiam ser classificados, os três, como comédias. Aliás, sobre TRÊS AMIGOS (1986), poderia-se dizer que é um western também. Dois desses filmes contêm participações especiais de algumas celebridades.

TRÊS AMIGOS (¡Three Amigos!)

Esse filme já é quase um clássico e traz três ótimos comediantes da década de 80, Steve Martin, Chevy Chase e Martin Short. Dos três, o único a permanecer no primeiro escalão de Hollywood foi mesmo Steve Martin, que nem parece ter envelhecido, já que desde cedo já tinha aquele cabelo branco. O estilo do Chevy Chase sempre foi mais discreto mesmo e por isso ele acabou sendo pouco valorizado ao longo do tempo. Na trama, que se passa no início do século XX, três atores americanos que interpretam mexicanos no cinema (mudo) são convidados por uma jovem senhora para irem ao México lutar contra um temido pistoleiro. Por causa de uma falha de comunicação, os três vão até lá achando que tem apenas que se exibir para o público e ganhar um bom dinheiro. Esse é o mote para que uma série de situações engraçadas se desenvolva.

INOCENTE MORDIDA (Innocent Blood)

A década de 90 não começou muito bem para Landis. Ele havia sido indicado ao Framboesa de Ouro pelo filme OSCAR - MINHA FILHA QUER CASAR (1991), com o Sylvester Stallone, também em fase decadente. Ele decidiu voltar ao terreno do horror, que o consagrara no espetacular UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (1981). INOCENTE MORDIDA (1992) vem com um trunfo: a bela Anne Parillaud, com seu belo corpo nu e seu sorriso que deixa qualquer um desarmado. Ela havia feito sucesso com NIKITA, de Luc Besson. Inclusive, em NIKITA, eu nem tinha achado a moça bonita. Já em INOCENTE MORDIDA ela está linda. Parillaud interpreta uma bela vampira que seleciona suas vítimas de maneira ética. Ela acaba se envolvendo com a máfia italiana e sem ter a chance de estourar a cabeça do chefão da máfia depois de sugar seu sangue, o nojento acaba virando vampiro também. Sua intenção é formar uma legião de vampiros poderosos para dominar toda a região. Ela, com a ajuda de um policial (Anthony LaPaglia), vai à procura dos vampiros mafiosos para matá-los. O filme é bem divertido e sexy. Provavelmente o melhor dele na década de 90. Participações especiais de Dario Argento, Sam Raimi, Frank Oz e Tom Savini. Interessante que nos créditos no final aparecem os nomes de Alfred Hitchcock, Bela Lugosi, Christopher Lee, entre outros célebres que aparecem nos filmes exibidos nas tvs.

UM TIRA DA PESADA III (Beverly Hills Cop III)

Outra derrapada na carreira de Landis, UM TIRA DA PESADA III (1994) serviu para sepultar de vez a série de sucesso estrelada por Eddie Murphy. A trama se passa quase que totalmente num luxuoso parque de diversões, quando o detetive Axel Foley (Murphy) vai à procura do assassino de seu parceiro, que morre numa operação mal sucedida no começo do filme. Landis retoma o lado mais cômico do detetive, perdida quando Tony Scott dirigiu UM TIRA DA PESADA II (1987). O problema do filme é que ele não consegue ser suficientemente engraçado no terreno da comédia e nem empolgante nas seqüências de ação. Acaba parecendo uma sessão da tarde morna, dessas que a gente assiste e pega no sono. Mas não chega a ser um filme ruim. Com esse filme, Landis recebeu outra indicação para o Framboesa de Ouro. Participações especiais: George Lucas, Al Green, Joe Dante e John Singleton.

P.S.: No Cinema com Rapadura, tem coluna nova. Dessa vez eu falo sobre a boa safra de séries de televisão.

quinta-feira, maio 04, 2006

O COMBATE / ENTREVISTA: DAVI DE OLIVEIRA PINHEIRO


Quando assisti a O COMBATE (2006), curta-metragem de Davi Pinheiro, nesse feriadão, sabia que iria escrever alguma coisa a respeito, nem que fosse no rodapé dos posts sobre longas, já que falar sobre curta é bem difícil já que curta é geralmente....curto. Mas eu pretendia aproveitar que conhecia o Davi para lhe fazer umas perguntinhas. Foi quando pensei na idéia de fazer uma pequena entrevista. Assim, em vez de passar para o leitor minhas impressões superficiais, melhor é saber mais sobre o filme (ou vídeo) através do próprio diretor. Eu gosto muito de entrevista e vi que o formato tem funcionado muito bem nos blogs do Chico e, principalmente, da Andréia. E o bom é que O COMBATE está disponível para download em qualidade muito boa de imagem pra quem quiser ver. Aliás, esse exemplo do Davi deveria ser seguido por todos os curta-metragistas do Brasil, afinal, não é todo mundo que tem a sorte de ver o curta em festivais de cinema ou em mostras alternativas. Com vocês, o Davi.

1. Como surgiu a idéia do curta?

A idéia de fazer um filme de telepatas surgiu de uma edição da HQ dos Fabulosos X-Men chamada "Psy-war". Tratava do primeiro confronto entre o Professor X e o Rei das Sombras, era desenhada pelo John Byrne e roteirizada pelo Chris Claremont. Eu sempre adorei essa história, pois ela era simples, direta, revelava muito sobre os personagens e o Byrne, com a arte-final do Terry Austin, conseguia criar um cineticismo genial a partir da idéia de dois caras sentados um na frente do outro duelando mentalmente.

A imagem desse embate das hqs se combinou com a minha idolatração por A FÚRIA, do Brian De Palma, e SCANNERS, do David Cronenberg, e daí me deu na telha de fazer um filme de telepatas. A intenção de fazer o curta ficou na minha cabeça, mas não tinha idéia de como escrever em forma de roteiro, pois vinha como imagem, sempre. Aí, era impossível conseguir dinheiro para produzir.

Daí, um tempo depois, o que aconteceu é que me envolvi no curta REVELAÇÃO, dirigido pelo Nicolás Monastério, e esse curta teve diversos problemas de produção e cronograma, devido a falta de recursos e problemas de calendário de atores e equipe. Mesmo com toda dificuldade fizemos o curta, que era bem ambicioso, com várias locações e diversos atores. No entanto, senti que apesar de legal não era exatamente o que eu curtia cinematograficamente. Então, na segunda-feira, após um fim-de-semana em que fiquei vendo e revendo o John Cassavetes explodir, resgatei essa idéia de telepatia, storyboardiei, liguei para os Jovens Turcos, o Nicolás e o Cassiano Griesang, e disse que no domingo seguinte iríamos gravar um curta chamado O COMBATE. O pessoal topou, o João Pedro e o Isidoro decidiram no par ou ímpar quem ia morrer e, por míseros R$ 40,00, fizemos esse curta-metragem.

2. A que se deve o nome da produtora - Jovens Turcos?

Não é exatamente uma produtora, mas uma idéia. Os Jovens Turcos foi o batismo que recebemos do atual Presidente do Clube de Cinema de Porto Alegre, o Paulo Daisson Casa Nova, pois, na época éramos um sopro de renovação no Clube, cuja a presença de pessoas mais maduras era predominante. Mesmo não sendo uma produtora "oficial", os Turcos estão sempre metidos com cinema, seja discutindo, trabalhando em Mostras e Festivais apoiados ou realizados pelo Clube de Cinema, assim como em seus projetos cinematográficos particulares. São filmes de ação, filmes de horror, filmes policiais e de ficção científica, predominantemente.

3. Sua intenção com O COMBATE foi homenagear SCANNERS e A FÚRIA? Que outros filmes são homenageados?

Tem homenagens a Sergio Leone, pois toda a decupagem é pensada como no trielo de TRÊS HOMENS EM CONFLITO, guardadas as devidas proporções claro. Tem uma citação a OS PÁSSAROS, assim como a O ENIGMAN DO OUTRO MUNDO. Outra, que surgiu por via do editor, o Marcelo Antonio Allgayer, que sugeriu inverter a ordem dos créditos, o que gerou como resposta "ótimo, é uma citação ao A MORTE NUM BEIJO". E, é claro, tem o Isidoro que é praticamente uma citação viva ao Lucio Fulci, com aquele ar de Thomas Millian em OS QUATRO DO APOCALIPSE, e o JP pode ser considerado uma citação ao Verhoeven, já que a atuação é puro Arnold em O VINGADOR DO FUTURO.

4. Falando em Cronenberg e De Palma, quais são suas outras influências?

Os meus cinco diretores favoritos, no momento, são o sempre eterno Leone, o De Palma, William Friedkin, Paul Verhoeven e, após ver IMPRINT, o Takashi Miike, que ao lado do Friedkin vem se tornando a maior influência em como eu vejo o ato de fazer cinema, com as condições que temos por aqui, no Brasil, principalmente no que se refere a cinema de gênero. Kinji Fusakaku, John Carpenter, Werner Herzog, Ivan Cardoso, Guilherme de Almeida Prado, Lucio Fulci, Dario Argento, Mario Bava, John Milius, Walter Hill, Steven Spielberg, entre outros, estão sempre na minha cabeça, também, quando resolvo fazer alguma coisa, mas o mais engraçado: acontece que o Takashi Miike anda tendo uma influência tão forte, mas tão forte que quando fizemos outro curta, ainda não finalizado, chamado O BEIJO PERFEITO, comecei, no papel, tentando fazer Argento, foi pré-produzido meio que Pupi Avati, porque estava sob a influência de THE HOUSE WITH LAUGHING WINDOWS, mas acabou virando uma mistura de giallo com A ENTREVISTA, que ainda estou curioso em saber o resultado, pois só consegui revelar agora a lata em que foi filmado. O curioso é que esse novo curta é ainda mais curto que O COMBATE. É uma cena de menos de um minuto.

5. Quais são suas ambições como diretor ou produtor de cinema ou vídeo?

Quero realizar filmes de horror, fc e ação. Em longa-metragem, para as pessoas verem. Atualmente, estou indo mais para o lado do horror. Tentei escrever um curta dramático, para dirigir, mas não adiantou, se transformou em horror. Depois que se é mordido pelo bicho do filme de horror, fica difícil. Nada é tão divertido de fazer.

5. Nos créditos do filme, tem um ator chamado Jason Priestley. Esse não é o nome verdadeiro dele, é?

É sim. É que a foto do Brendon aparece no filme, como uma das memórias de um dos personagens. Não. Não tem nenhum motivo lógico e provavelmente funciona para tornar algo sem sentido ainda mais difícil de ser compreendido, mas, ora bolas, eu dou boas gargalhadas quando vejo a foto no meio.

6. Você acredita que o cinema de gênero no Brasil tem futuro - digo, comercialmente falando também? Será que um dia iremos ver ao menos uma meia dúzia de longas-metragens brasileiros de terror na telona?

Ô se tem. Dizendo assim, pela experiência do ano passado, com o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, dá para dizer que o cinema de gênero vem com tudo, por aí, com a possibilidade de vôos comerciais baixos, mas suficientemente altos para manter uma produção contínua seja para distribuição em cinema, DVD, ou mesmo internet. Não vou dizer que o cinema de gênero não deva tentar sair do gueto, é quase obrigação, mas creio que os filmes que vão estourar comercialmente são os que já vem embalados para venda, como o ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, que se não fizer bilheteria no Brasil, vai fazer uma tremenda grana no exterior, em salas de exibição e DVD, permitindo que a Olhos de Cão produza novos e novos filmes. Acho que pelo apuro visual do Carlos G. Gananian, por exemplo, ele pode fazer um filme que alcance o grande público, seja nacional ou internacional. E é, claro, não vou me atirar do barco. Eu quero viver de fazer cinema de gênero no Brasil.

quarta-feira, maio 03, 2006

TERAPIA DO AMOR (Prime)



TERAPIA DO AMOR (2005), segundo longa-metragem de Ben Younger, é mais uma comédia romântica que anda na corda bamba entre evitar e utilizar os clichês do gênero. O principal chamariz é, claro, Uma Thurman, afastada do gênero desde o simpático FEITO CÃES E GATOS (1996). A presença de Meryl Streep também chama a atenção, ela que já foi chamada de melhor atriz americana em atividade. Apesar disso, não conheço sequer um fã ardoroso de Meryl. Entre uma atriz de primeira linha e uma estrela carismática, TERAPIA DO AMOR conta com Bryan Greenberg, um ator novato e meio sem graça e que às vezes chega a comprometer o filme.

Na trama, mulher divorciada de 37 anos (Uma Thurman) conhece rapaz de 23 anos (Bryan Greenberg). Os dois se apaixonam mas a diferença de idade é sempre um fantasma perturbador. Mas o mais engraçado é que o rapaz é filho da terapeuta (Meryl Streep), uma mulher que aconselha sua paciente a seguir adiante com essa relação sem ligar para o problema da idade. Mas isso, só até ela descobrir que o namorado dela é seu filho. A partir daí o filme conta com cenas bem engraçadas, como quando Uma conta detalhes íntimos de seu relacionamento e a pobre da terapeuta fica tomando litros d'água de tão nervosa. Porém, como é de se esperar nesse tipo de filme, o romance acaba pesando mais do que a comédia. Não que isso seja um problema. Na verdade, apesar do protagonista fraco e dos diálogos pouco inspirados do casal, TERAPIA DO AMOR tem momentos bonitos e um final até que atípico. Outro ponto positivo no filme é o personagem do amigo de Bryan, um sujeito especialista em jogar torta na cara das meninas com quem sai.

Um detalhe que eu tenho reparado é que as comédias românticas sempre aproveitam muito bem belas canções para enfeitar alguns momentos, como é o caso de "I Wish You Love", de Rachael Yamagata, que toca no final. Pra não ficar apenas em referências sobre música, numa cena do filme, o par romântico se encontra numa sessão de BLOW-UP - DEPOIS DAQUELE BEIJO, de Michelangelo Antonioni. Não sei se essa informação tem alguma relevância, mas não deixa de dar um certo charme ao filme.

terça-feira, maio 02, 2006

UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU (Un Condamné à Mort S'Est Échappé ou Le Vent Souffle où il Veut)



Eu já adoro filme passado em prisão. Imagina um desses dirigido por ninguém menos que Robert Bresson. Com UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU (1956), Bresson cometeu sua primeira obra-prima, foi quando seu estilo inconfundível se aperfeiçoou. O diretor ainda faria um outro filme de prisão, o também maravilhoso O PROCESSO DE JOANA D'ARC (1962). Alguns críticos tem em UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU o seu ápice. Não sei se é meu preferido dele, mas se fosse indicar um filme de Bresson para alguém ver pela primeira vez, com certeza seria esse.

Na trama, oficial do exército francês (François Leterrier) é aprisionado pelos nazistas, que costumam, de vez em quando, fuzilar seus prisioneiros. Apesar das dificuldades, ele consegue elaborar um plano de fuga. O primeiro objeto que ele utiliza para a fuga é uma colher.

Trata-se de um enredo bastante simples. Bresson, com pouca utilização de diálogos, narra o processo de fuga desse homem. O ator - ou melhor, modelo - é a cara do Adrien Brody. Fiquei até imaginando se Polansky, quando fez O PIANISTA, não se inspirou nesse filme do Bresson, inclusive pela escolha de Brody para o papel. Mas não li nada a respeito e isso é pode ser só viagem minha.

O filme começa em tom solene, ao som da música de Mozart. A utilização de música, no entanto, é bem econômica, geralmente apenas ligando uma cena à outra. O silêncio é que é bastante presente, coisa que já se espera de um filme de Bresson. No cinema do diretor, todos os gestos são lentos e sacros. A música de Mozart ajuda a tornar isso ainda mais forte. A religião do diretor, o Catolicismo Jansenista, tem tudo a ver com a disciplina do protagonista para atingir o seu objetivo.

Para encerrar, transcrevo alguns trechos do já clássico "Notas sobre o Cinematógrafo", livro de anotações de Bresson:

"O importante não é o que eles (os atores) me mostram, mas o que eles escondem de mim, e sobretudo o que eles não suspeitam que está dentro deles. Entre eles e eu: trocas telepáticas, adivinhação."

"Dois tipos de filmes: aqueles que utilizam os recursos do teatro (atores, encenação, etc.) e se servem da câmera com o intuito de reproduzir; aqueles que utilizam os recursos do cinematógrafo e se servem da câmera com o intuito de criar."

"Quantos filmes remendados pela música! Inunda-se um filme de música. Impede-se de ver que não há nada nessas imagens."

"Quem pode com o menos pode com o mais. Quem pode com o mais não pode obrigatoriamente com o menos."

segunda-feira, maio 01, 2006

MIKAEL (Mikaël)



Fim de semana dos mais tristes que eu já passei em minha vida. José Paula (ou Palmeira, como era mais conhecido), um amigo querido e colega de trabalho, nos deixou na madrugada de sexta para sábado, tendo sofrido parada cardíaca. O sábado, eu dediquei ao seu enterro e a chorar a sua morte. Vai ser difícil voltar a trabalhar amanhã e ver a sua mesa vazia, vai ser ruim lembrar das brincadeiras que ele fazia e saber que ele não vai mais estar presente. Uma grande perda de uma pessoa extraordinária. Mas como a vida continua apesar da dor e das dificuldades, vamos seguindo, tentando não ficar tão amargos. Engraçado que antes de eu receber o telefonema do Pedro sobre a morte dele durante a aula de espanhol no sábado pela manhã, eu havia me emocionado com uma canção que a professora havia colocado no som pra gente ouvir e acompanhar com a letra - "Gracias a la Vida", na voz de Elis Regina, composta por Violeta Parra. Trata-se de uma canção que celebra os momentos da vida, tanto os bons quanto os maus. Belíssima. Deixo aqui como dica. Mas voltemos ao cinema, ainda na minha fase preto e branco.

Continuando a viagem pela filmografia de Carl Theodor Dreyer, passei por MIKAEL (1924), filme até importante do autor, mas que não tem a mesma graça de A QUARTA ALIANÇA DA SRA. MARGARIDA. Bom, pelo menos eu não achei tão bom quanto. Em compensação, os nomes presentes nessa produção são bem célebres. Senão vejamos: os dois diretores de fotografia creditados são Karl Freund (METRÓPOLIS e DRÁCULA) e Rudolph Mate (O MARTÍRIO DE JOANA D'ARC); quem faz o papel do pintor e escultor é Benjamin Christensen, diretor de HAXAN; quem faz o papel de Mikael é Walter Slezak, mais conhecido pelo papel do vilão nazista de UM BARCO E NOVE DESTINOS, de Alfred Hitchcock; quem fez o roteiro adaptado para o cinema foi Thea von Harbou, que foi casada com Fritz Lang até ele fugir dos nazistas na Alemanha; e o produtor era Erich Pohmer, sujeito que financiava os primeiros filmes de Lang e do expressionismo alemão.

A trama não é das mais interessantes. Zoret, pintor e escultor famoso, vive com seu protegido, o jovem Mikael, que lhe dá assistência, como uma espécie de secretário. Mas já se nota que a relação dos dois aparenta ser bem mais do que profissional ou de pai e filho como às vezes Zoret quer dar a entender. Há um homossexualismo implícito. O problema começa para Zoret com a chegada da princesa Zaikoff, por quem Mikael se apaixona. Com o tempo, Zoret acaba ficando sozinho e sentindo a falta de Mikael. Não há muito mais a contar, já que as coisas acontecem de maneira muito lenta. E apesar de o filme ter apenas 86 minutos, dá impressão de que tem mais do que isso. O que há de melhor no filme é a iluminação, a fotografia, os cenários, algumas tomadas fantásticas, os closes, já antecipando, inclusive, a excelência da utilização do recurso em O MARTÍRIO DE JOANA D'ARC (1928). Mesmo assim, esperava mais de MIKAEL.

Próximo Dreyer a ver: O VAMPIRO (1932), que não faz parte dessa coleção da Magnus Opus, mas que pode ser encontrado numa cópia da Continental. Dizem ser um dos melhores dele.