sexta-feira, agosto 31, 2007

ESPÍRITOS 2 - VOCÊ NUNCA ESTÁ SOZINHO (Faet / Alone)



Uma pena que este ESPÍRITOS - VOCÊ NUNCA ESTÁ SOZINHO (2007) não repita a mesma força apavorante de ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO (2004), que fez muito sucesso no Brasil e que me deixou arrepiado diversas vezes, além de conter também uma das cenas mais engraçadas dos últimos anos - a tal cena do banheiro. Ao contrário do que a distribuidora brasileira quer vender, este novo filme, ainda que seja dirigido pelos mesmos diretores do anterior, não é uma continuação, como pode-se perceber até pelos títulos internacionais do filme.

Que a Tailândia não produz filmes de terror da mesma qualidade que os produzidos no Japão e na Coréia do Sul, a gente já sabe. Por isso mesmo que o filme anterior dos diretores Bansong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom (nada como o velho copy/paste) havia me surpreendido. Pra falar a verdade, não sei se existe alguma tradição na Tailândia em filmes do gênero, mas acredito que não, pois o estilo de provocar arrepios e sustos é bastante semelhante ao horror produzido no Japão. Apesar de ser um pouco fraco, ESPÍRITOS VOCÊ NUNCA ESTÁ SOZINHO tem os seus momentos. Difícil não ficar arrepiado, por exemplo, na cena em que a protagonista vai se deitar na cama e ouve uma respiração ofegante. A câmera fica focalizada apenas em seu rosto, em close, e, assim como ela, ficamos igualmente temerosos de olhar para trás e ver algo realmente assustador. Pode-se dizer que o maior horror está na expectativa, mas do que quando o filme mostra o tal espírito.

Na trama, uma jovem tailandesa vivendo na Coréia do Sul fica sabendo que sua mãe está muito doente. Ela viaja então para sua terra natal, ao lado do marido. Essa mulher, no passado, tinha uma irmã siamesa que morreu na adolescência. Porém, ao chegar na Tailândia, ela passa a ser assombrada por um espírito rancoroso. Aos poucos, com os diversos flashbacks, ficamos sabendo mais detalhes do relacionamento das duas irmãs, culminando com a revelação final.

De original, o filme só tem mesmo o fato de a história ser sobre irmãs siamesas, coisa pouco comum no cinema. (Teve aquele filme dos irmãos Farrelly (LIGADO EM VOCÊ), mas era uma comédia. Bem que podiam fazer um drama sério sobre irmãos siameses um dia.) Mas no geral, o filme não acrescenta muito ao gênero, nem consegue ser suficientemente assustador - as cenas da aparição da fantasminha são bem manjadas. Em certo momento, os personagens se tornam ridículos, a estória também cai no ridículo e quando aparece finalmente a revelação final, o filme parece mais uma caricatura do horror nipônico com pitadas do horror hollywoodiano.

quinta-feira, agosto 30, 2007

ENTOURAGE - A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (Entourage - The Complete Third Season)



Não sei quem foi que falou que a terceira temporada de ENTOURAGE (2006/2007) é mais fraca que as anteriores. Pra mim, é a melhor, so far. As anteriores, por melhores que fossem, não me deixavam com vontade de ver um episódio atrás do outro, não tinham aquele elemento viciante, talvez por serem os episódios mais independentes um do outro. Na terceira temporada, que durou 20 episódios, os produtores resolveram utilizar mais ganchos. Daí a razão de se querer ver sempre o episódio seguinte. Por exemplo, quando Vince resolve avacalhar o lançamento da versão colorizada de "Queen's Boulevard", eu fiquei doido pra ver a repercussão daquilo no dia seguinte. Quando E recebeu convite da sua namorada e sua melhor amiga para um ménage à trois, é claro que eu fiquei excitadíssimo para conferir o resultado.

Essa terceira temporada conta com alguns dos mais empolgantes momentos da vida dos quatro rapazes e de Ari, o seu agente. Ari, aliás, conseguiu muito mais espaço nessa temporada. Se antes ele era o principal coadjuvante da série, nessa terceira ele entrou de vez para o grupo dos protagonistas. Há mais negociações com os produtores do que as anteriores, mas em nenhum momento essas negociações são chatas ou maçantes. Até porque, Ari, o homem de negócios, é um nervo ambulante. O homem não pára, negligenciando até a própria mulher, em prol do trabalho.

A temporada começa com a première de "Aquaman", o filme que Vince havia estrelado e James Cameron havia dirigido. Infelizmente, Mandy Moore não aparece de novo nessa temporada. Aliás, são poucas as participações especiais nessa terceira. Apenas James Woods, Brett Ratner, Edward Burns, Joel Silver, Seth Green e Paul Haggis interpretando a si mesmos, além dos já participantes de antes Malcom McDowell e Martin Landau. Entre as beldades, destaque para Sloan (Emmanuelle Chriqui), a namorada de E, e Amanda (Carla Gugino), a agente que substitui o Ari em alguns episódios e que tem um caso com Vince.

Entre os momentos mais marcantes, tem aquele da negociação para "Aquaman 2". Quando Vince e E descobrem que James Cameron não fará a continuação e sim, Michael Bay, eles não conseguem esconder a decepção. Muito engraçado ver a fama de diretor ruim de Bay sendo exposta numa série de tv dessa maneira. Outro momento marcante é o episódio "Gotcha", em que Drama participa de um programa de pegadinhas. No final da temporada, Drama ganha mais espaço, quando ele finalmente consegue trabalhar numa série de tv de Ed Burns. A já citada cena do ménage de E, Sloan e a loira gostosa é outro momento de deixar a gente com o coração na mão e lambendo os beiços. Adorei também o episódio "Sorry, Ari", no qual Vince resolve demitir o seu agente. Difícil não se comover com o desespero de Ari. A quarta temporada, cuja season finale vai ao ar nos Estados Unidos no próximo domingo, só dura 12 episódios e deve começar com a repercussão em torno de "Medellin", o tal filme sobre Pablo Escobar. Será que os executivos da HBO resolveram cortar os gastos com a série? De qualquer maneira, a quinta já está confirmada.

quarta-feira, agosto 29, 2007

A MÚMIA (The Mummy)



Continuando minha pequena viagem pelos filmes de horror da Universal, chega a vez de A MÚMIA (1932), estréia de Karl Freund nos Estados Unidos como diretor. Freund já havia trabalhado na Universal como fotógrafo de DRÁCULA (1931) e ASSASSINATOS DA RUA MORGUE (1932), mas ele é mais celebrado por suas colaborações com o diretor F.W.Murnau, na Alemanha. Uma das vantagens de se ver esses filmes da Universal em ordem cronológica e com a ajuda de documentários explicativos e comentários em áudio é que a gente tem uma noção melhor da evolução do gênero na companhia. Nota-se, por exemplo, que A MÚMIA é muito melhor resolvido narrativamente que DRÁCULA e FRANKENSTEIN (1931). O filme também conta com uma cena excepcional e marcante, que é aquela em que Im-ho-tep abre os olhos. A cena é mostrada sem pressa, com uma variedade de planos e um silêncio sepulcral.

Nos anos 20 e 30, o Egito estava na moda, devido principalmente à descoberta da tumba de Tutankhamon. Em 1930 saiu uma matéria no The Times ligando a morte de 14 pessoas vinculadas à tal tumba. Suspeitava-se de uma maldição. Muito interessante ver como é que essa história de maldição de múmias, que já faz parte do nosso inconsciente coletivo, surgiu. Como terror, o filme também se beneficia do pavor natural de se imaginar ser enterrado vivo, como é o caso da história de Im-ho-tep, interpretado de forma marcante por Boris Karloff.

Assim como havia acontecido com DRÁCULA e com FRANKENSTEIN, novamente a Universal apresenta um monstro fácil de a platéia simpatizar. Afinal, A MÚMIA também é uma história de amor, um amor que atravessa muitos séculos. Não diria que é um amor muito saudável, já que lida com maldições, morte, feitiçaria, mas ainda assim é amor. Tanto que a própria música tema que aparece nos créditos já prevê um pouco isso. O interesse amoroso de Im-ho-tep foi interpretado por Zita Johann, uma atriz de aparência exótica, de rosto redondo como a lua, como se nascida com o signo de câncer no ascendente. No filme, ela é a reencarnação da princesa Anck-es-en-Amon, o amor proibido de Im-ho-tep.

"Dear Mummy", o documentário presente nos extras do dvd mostra interessantes semelhanças entre DRÁCULA e A MÚMIA, além de nos situar no momento em que o filme foi produzido e citar rapidamente as várias continuações - A MÃO DA MÚMIA (1940), A TUMBA DA MÚMIA (1942), A SOMBRA DA MÚMIA (1944), A PRAGA DA MÚMIA (1944), além da participação da múmia numa comédia de Abbot and Costello. Acredito que nenhuma dessas continuações seja melhor que o original. Suspeito, inclusive, que quando a Universal começou a apelar para essas continuações iniciou-se a decadência do gênero na companhia.

P.S.: Hoje o blog completa cinco anos. Tenho muito amor por essa página e por mais que eu tenha passado momentos em que não tinha muito saco pra escrever, nunca pensei em abandoná-lo. E não pretendo que isso aconteça tão cedo. O Diário de um Cinéfilo é hoje um dos blogs de cinema mais duradouros da internet. E como sou do tipo que tem medo de mudanças, nem mesmo tive coragem de mudar a roupagem da página. Quem sabe no futuro...

terça-feira, agosto 28, 2007

POSSUÍDOS (Bug)



A reação de estranheza diante de POSSUÍDOS (2006) é inevitável. Principalmente para o público que vai ao cinema despreparado ou esperando ver um filme sobre possessões demoníacas, o que é até natural, tendo em vista o equivocado título brasileiro - que ainda por cima pode ser confundido com o thriller estrelado pelo Denzel Washington - e a forma como o filme vem sendo vendido, como "o novo filme do diretor de O EXORCISTA (1973)". Mas o importante é que ainda tem gente que tem recebido com boa vontade e respeito cada novo filme de William Friedkin. Desde a exibição em Cannes, seguida da boa aceitação da crítica, que se aguarda com expectativa a estréia do filme. Eu, como evitei ler qualquer texto a respeito, também me surpreendi com o resultado final, principalmente por parecer muito com teatro. Na verdade, ainda não sei se gostei ou não do filme. Mas posso dizer, com certeza, que é uma obra digna da atenção de quem procura algo bem diferente do feijão com arroz básico oferecido pelos desgastados filmes de terror recentes.

A origem teatral do filme não é disfarçada. Aliás, o filme vai se parecendo mais e mais com uma peça teatral depois de sua segunda metade, quando os personagens ficam o tempo todo num mesmo lugar e conversando bastante. A primeira imagem do filme é uma visão aérea do motel onde a trama vai se desenrolar. A câmera vai se aproximando aos poucos, descendo até chegar perto do telhado do prédio. Corte para uma tomada de outro ângulo. Dentro do quarto do velho motel, vemos uma abatida Ashley Judd atendendo um telefonema. Ninguém responde. Durante a noite, ela recebe várias dessas ligações. Ela acredita que seja o seu ex-marido (Harry Connick Jr.), saído recentemente da cadeia. Ela teme que ele chegue por lá para perturbá-la. Num dos poucos momentos "extra-quarto de motel", a personagem de Ashley vai até um bar de lésbicas, onde mantém contato com uma amiga que lhe apresenta um estranho sujeito (Michael Shannon) que diz ver coisas que as outras pessoas não vêem.

Tenho impressão que as poucas incursões de Friedkin no território dos filmes de terror mostram-se completamente estranhas ao que se está acostumado a ver. O EXORCISTA já mostrava isso, já que se trata de um filme mais de mau estar do que de sustos. O pouco visto e subestimado A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (1990) é também um filme estranhíssimo e original, que mereceria uma revisão. POSSUÍDOS, então, segue um caminho ainda mais distinto, embora não me admiraria que se encontrasse pontos de intersecção com os demais trabalhos do diretor. Em relação a O EXORCISTA, talvez o ponto em comum com esse filme seja mesmo o mau estar que ele provoca. Eu, pelo menos, assim que saí do cinema, tratei logo de comprar um remédio pra coceira e um inceticida. ;-)

segunda-feira, agosto 27, 2007

O ULTIMATO BOURNE (The Bourne Ultimatum)



O meu problema com esses thrillers de Jason Bourne é que eu me desapego fácil deles, o que resulta em esquecimento. A SUPREMACIA BOURNE é de 2004. Quer dizer: lá se vão três anos. E como eu não tive interesse em rever esse e o anterior de 2002, fiquei um pouco perdido com essa terceira e elogiada parte da saga do espião desmemoriado. O ULTIMATO BOURNE (2007) é quase um remake do segundo filme, com uma certa repetição da fórmula que inclui cenas de perseguição automobilística e do agente dando porrada em seus inimigos. As cenas são boas e bem conduzidas. O único problema é a edição excessivamente picotada e a câmera tremida. Até parece que contrataram um técnico com mal de Parkinson. Levou algum tempo para eu me acostumar com o estilo.

O objetivo de Bourne, que se resume em descobrir a sua própria identidade, parece mero pretexto para as cenas de ação. E vendo por esse prisma, até que eu gosto mais do filme, ainda que eu sinta saudades de diretores de ação da geração passada, como William Friedkin, John Frankenheimer e Richard Donner, que faziam questão de mostrar as cenas de ação de maneira mais inteligível e clara. Também sinto como se Paul Greengrass e Doug Liman achassem que as novas gerações não têm mais paciência para assistir filmes de espionagem mais tradicionais, que geralmente são bastante confusos, embora, nesse sentido, a trilogia Bourne não fira as tradições, já que também é um pouco confusa. A diferença é que aqui a agilidade narrativa não deixa tempo para o espectador pensar que não está entendendo o filme.

Em O ULTIMATO BOURNE, Matt Damon empresta ao protagonista uma certa estranheza que lhe é comum aos personagens que ele costuma interpretar, como recentemente se pôde ver em O BOM PASTOR, de Robert De Niro. Tanto em O BOM PASTOR quanto na trilogia Bourne, Matt Damon praticamente não ri, o que combina bastante com um personagem que vendeu a sua alma e que não encontra mais motivos para gostar de viver que não seja através da adrenalina. O problema é que esse jeito dormente de viver acaba me deixando incapaz de me importar com o que quer que aconteça com o personagem. Pra mim, tanto faz se ele vive ou morre. Acho que por isso que eu ainda prefiro o Ethan Hunt de MISSÃO: IMPOSSÍVEL, um agente emotivo e que sempre tem algo a perder.

A favor do filme, tem o ótimo elenco, com nomes de respeito como David Strathairn e Joan Allen, além do retorno da simpática personagem de Julia Stiles. Só Albert Finney que eu achei meio canastrão, parecendo estar sempre interpretando um bêbado. Talvez devido a problemas de saúde, não sei. Sair do cinema ouvindo "Extreme Ways", do Moby, é também uma boa maneira de se ficar com uma boa impressão do filme. Ainda assim, VÔO UNITED 93 (2006) continua sendo, de longe, o melhor filme de Paul Greengrass. O diretor está com outro projeto político, protagonizado novamente por Matt Damon, chamado IMPERIAL LIFE IN THE EMERALD CITY, sobre a situação do Iraque depois da invasão americana.

sexta-feira, agosto 24, 2007

MARCAS DA VIDA (Red Road)



A princípio, MARCAS DA VIDA (2006) parece seguir um caminho influenciado por filmes como UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma, ou A CONVERSAÇÃO, de Coppola. Mas essa impressão se dilui logo. Trata-se de um filme sobre uma obsessão. Na verdade, é sobre outra coisa, mas acho que eu não devo dizer, sob o risco de estragar a surpresa para quem ainda não viu o filme. A invasão de privacidade parece que veio pra ficar e, a julgar pelo que se vê no filme, acaba sendo um mal que vem para o bem, algo capaz de salvar vidas. Na trama de MARCAS DA VIDA, Jackie (Kate Dickie, uma mulher que, vista de frente, parece o Iggy Pop) trabalha num departamento de vigilância em Glasgow. Sua rotina é um pouco maçante: passa a noite olhando para as pessoas pelas câmeras de rua. O que perturba a sua rotina é a visão de um rapaz. No começo, o filme não entrega o porquê de Jackie ter se interessado por aquele sujeito, de querer procurar algo que o incrimine. Logo ficamos sabendo que ele é um ex-presidiário. Aos poucos, ela vai se aproximando dele.

Eu gostei das seqüências da aproximação de Jackie. Os silêncios e outras características do estilo Dogma de filmar ajudam a criar um suspense bem envolvente. Muito boa também a cena de sexo explícito, crua e realista, fazendo lembrar os bons tempos de OS IDIOTAS. Pena que a revelação final deixe o filme com uma aparência vulgar e toda aquele aspecto intrigante do início é jogado pelo ralo. Uma coisa que eu não sabia é que na Inglaterra (ou na Escócia, que é onde se passa o filme) o povo bebe chá com leite. Nunca me passou pela cabeça que alguém no mundo misturaria essas duas bebidas.

A diretora do filme, Andrea Arnold, ganhou o Oscar, a Palma de Ouro e mais uma porrada de prêmios mundo afora pelo curta-metragem WASP (2003). MARCAS DA VIDA é o primeiro filme de uma trilogia idealizada por um grupo chefiado por Lars Von Trier na qual nove personagens - interpretados pelos mesmos atores -, vivendo em Glasgow, aparecem nos três filmes. Os diretores dos próximos dois trabalhos serão Lone Scherfig e Anders Thomas Jensen, ambos com um histórico de ligação direta com o Dogma 95. Scherfig é diretor de ITALIANO PARA PRINCIPIANTES (2000) e Jensen fez os roteiros de MIFUNE (1999) e O REI ESTÁ VIVO (2000). Procurei me informar sobre esses próximos filmes do projeto, se eles já estão sendo produzidos, mas não descobri nada.

P.S.: Foi só comigo ou o Google, o Yahoo e o Blogger ficaram fora do ar durante um tempão hoje?

quinta-feira, agosto 23, 2007

ASAS DE ÁGUIA (The Wings of Eagles)



Depois da obra-prima RASTROS DE ÓDIO (1956), John Ford voltou a um assunto que ele tinha ainda mais intimidade: o universo da Marinha tendo a guerra como pano de fundo. O personagem central de ASAS DE ÁGUIA (1957), Frank 'Spig' Whead, é amigo de Ford, um militar que começou a fazer roteiros para cinema depois de ter ficado paralítico. John Wayne o interpreta, dando ao personagem a costumeira simpatia fordiana. A tática de Ford, nesses filmes biográficos a exemplo de A PAIXÃO DE UMA VIDA (1955), é trazer leveza e incitar risos ao mostrar situações cômicas. Assim, logo no começo, vemos uma engraçada rixa entre os militares da Marinha e os do Exército e um elogio ao jeito meio irresponsável de ser, na cena em que Wayne dá um passeio de avião, numa seqüência admirável. Em seu terceiro ato, o filme conta com cenas reais da Segunda Guerra.

Os momentos mais dramáticos de ASAS DE ÁGUIA são, sem dúvida, a cena do acidente e as cenas de recuperação no hospital. Nas cenas do hospital, o personagem de Don Dailey é essencial, tanto para a milagrosa recuperação de Spig, quanto para o vínculo de amizade, que acaba sendo mais forte que a própria relação do protagonista com sua esposa, vivida por Maureen O'Hara. Por falar na esposa de Spig, dizem que ela sofria de dependência alcoólica, coisa que Ford tratou de ocultar ou diminuir, talvez em consideração ao amigo. Em compensação, ainda que tente suavizar, não há como fugir do fato de que Spig era bem negligente para com sua mulher e suas filhas. Os heróis de Ford, sejam dos drama de guerra, sejam dos westerns, parecem incapazes de viver uma rotina normal com suas famílias, preferindo o perigo e a glória das batalhas e a companhia menos exigente dos amigos.

Ao que parece, Ford se identificava com Whead, já que ele mesmo, durante a infância, também passou meses deitado numa cama, tendo os livros como companhia, fato identificado no belo COMO ERA VERDE O MEU VALE (1941). É a tal história de que há males que vêm para o bem. Assim, o acidente que lhe quebrou o pescoço também fez com que ele se tornasse um bom escritor, tendo trabalhado com cineastas de peso e sendo duas vezes indicado ao Oscar. Frank Whead foi roteirista de vários filmes, sendo os mais famosos HERÓIS DO AR (1936), de Howard Hawks, PILOTO DE PROVAS (1938), de Victor Fleming, A CIDADELA (1938), de King Vidor, e ASAS HERÓICAS (1932) e FOMOS OS SACRIFICADOS (1945), ambos de John Ford. O próprio Ford aparece no filme, interpretado por Ward Bond, que usou roupas do vestuário do próprio diretor para ficar mais parecido com ele.

quarta-feira, agosto 22, 2007

ENTRE O CÉU E O INFERNO (Black Snake Moan)



Assim que soube que a Paramount havia desistido de lançar ENTRE O CÉU E O INFERNO (2006) nos cinemas imediatamente corri para o meio alternativo e "seguro" de se achar um filme: os sites de torrent. Isso, além de ser barato, é uma maneira de demonstrar a minha insatisfação com as distribuidoras que deixam de colocar nos cinemas filmes legais como esse, em detrimento de um monte de lixo inútil que aparece por aí. Por que cargas d'água, por exemplo, ninguém teve a coragem de trazer INLAND EMPIRE para o Brasil, nem que fosse em circuito alternativo? Acho isso um crime. Pelo menos no caso de ENTRE O CÉU E O INFERNO (sim, eu também achei o título brasileiro podre), até que não é ruim vê-lo na televisão - a qualidade do arquivo em divx está muito boa.

Escrito e dirigido por Craig Brewer, autor do belo RITMO DE UM SONHO (2005), sobre um cafetão em crise que se descobre músico de hip hop, ENTRE O CÉU E O INFERNO também se caracteriza por um enredo esquisito. As primeiras imagens de divulgação e os cartazes do filme já chamavam a atenção, mostrando a Christina Ricci amarrada na cintura por uma corrente de ferro com Samuel L. Jackson segurando a tal corrente. Nota-se que o cinema americano está se aproximando do japonês no aspecto do fetiche. E tudo bem que a Christina Ricci passa o filme quase inteiro usando só uma blusa e uma calcinha, mas o filme de Craig Brewer é menos exploitive do que se espera.

Na trama, que se passa no sul dos Estados Unidos, Christina Ricci é uma jovem junkie e ninfomaníaca que fica à deriva quando o namorado (Justin Timberlake) viaja. Numa de suas bebedeiras, ela é agredida por um amigo de seu namorado e largada no meio da estrada. Um velho blueseiro evangélico (Samuel L. Jackson) a encontra e cuida de suas feridas. Logo que fica sabendo do passado da moça, ele resolve, além de curar-lhe o corpo, também curar a alma dessa menina pecadora, amarrando-a pela cintura com uma grossa corrente de ferro pra ela aprender a se comportar. Obviamente, ao acordar, ela não gosta nada disso, mas aos poucos ela começa a se afeiçoar ao homem.

ENTRE O CÉU E O INFERNO, ao contrário do que se espera, é um belo drama de redenção de duas almas perdidas. E o que é melhor, narrado de maneira bastante elegante por Craig Brewer e ao som de uma belíssima trilha sonora blues. Inclusive, o título original vem de uma canção de Blind Lemon Jefferson gravada originalmente nos anos 20, e cantada pelo próprio Jackson no filme. Outra curiosidade que eu pesquei no IMDB se refere às calcinhas que a Christina Ricci usou durante o filme, que foram compradas por ela mesma numa determinada loja. Ok, isso não é lá uma informação muito útil, mas pode ser que alguém se interesse, não é? Principalmente quem mora nos Estados Unidos e quer saber onde comprar uma daquelas. :-)

terça-feira, agosto 21, 2007

A MOÇA COM A VALISE (La Ragazza com la Valigia / La Fille à la Valise)



Eis mais um belo exemplar do cinema produzido no "país da bota". Quem primeiro me chamou a atenção para Valerio Zurlini foi o Carlão Reichenbach. Carlão, de tanto elogiar e falar da importância de Zurlini em sua vida torna quase impossível não ficar minimamente interessado em conhecer as obras desse diretor meio que marginal, no sentido de que acabou sendo esquecido por muita gente, ficando de fora do bloco dos "grandes". Mas há agora a chance de ele ser "redescoberto", já que a Versátil está fazendo um ótimo serviço, lançando aos poucos as suas obras, tendo já colocado nas prateleiras, além de A MOÇA COM A VALISE (1961), VERÃO VIOLENTO (1959) e o maravilhoso A PRIMEIRA NOITE DE TRANQÜILIDADE (1972). Para breve, a distribuidora promete trazer MULHERES NO FRONT (1965), SENTADO À SUA DIREITA (1968) e O DESERTO DOS TÁRTAROS (1976).

A MOÇA COM A VALISE já nos conquista desde as primeiras imagens. A belíssima fotografia em preto e branco, a beleza juvenil de Claudia Cardinale, a sofisticação visual que faz lembrar Antonioni e a maneira imediata com que Zurlini nos coloca em estado de compaixão com a protagonista, tudo isso conta pontos para a imediata apreciação do filme. Cardinale é Aida, uma mulher bela e pobre, largada de maneira cruel pelo namorado calhorda, mas será outro personagem que se tornará o elo de maior identificação com o espectador: Lorenzo (Jacques Perrin), o garoto rico de 16 anos que se apaixona por Aida. Não por acaso, Lorenzo é irmão do tal namorado cafajeste e fujão, embora ela não saiba disso.

A MOÇA COM A VALISE conta com um momento excepcional, o melhor do filme pra mim, que é aquele em que Lorenzo, completamente apaixonado por Aida e querendo parecer mais adulto do que aparenta, toma um porre no hotel, enquanto sua amada dança com outros homens. Jacques Perrin, que na época tinha 19 anos de idade e já um exemplo de sensibilidade, voltaria a trabalhar com Zurlini em DOIS DESTINOS (1962), novamente interpretando um personagem de nome Lorenzo. Poder-se-ia dizer que Claudia Cardinale, com sua mistura de beleza voluptuosa e inocência, é a razão de ser do filme, mas toda a carga dramática de A MOÇA COM A VALISE está nas mãos de Jacques Perrin. Ele é a alma do filme. E Zurlini, com sua sensibilidade, nos faz lembrar de como dói a primeira paixão não correspondida, a primeira dor de cotovelo. Há também o aspecto social, que é mostrado de maneira mais sutil por Zurlini, cineasta de tendências esquerdistas, mas isso acaba sendo eclipsado pela paixão de Lorenzo por Aida.

segunda-feira, agosto 20, 2007

SATYRICON / FELLINI-SATYRICON



Minha relação com o cinema de Federico Fellini ainda é mais de respeito do que propriamente de adoração. Não são todos os filmes dele que descem redondo. E são poucos os que me fascinam, caso de A DOCE VIDA (1960) e ROMA (1972). E foi justamente por causa da apreciação dessas duas obras-primas que eu me permiti rever no cinema esse SATYRICON (1969), que eu tinha assistido em vhs há um tempão. Ver o filme no cinema, com a janela correta, é um programa bastante atraente. O Espaço Unibanco Dragão do Mar está promovendo mostras de diretores consagrados, dedicando uma sessão diária para esses filmes. Eles passaram os filmes das quatro estações de Eric Rohmer e agora estão promovendo a mini-mostra "4 Vezes Fellini". Já foi exibido I CLOWNS (1971) e está prometido para as próximas semanas AMARCORD (1973) e CASANOVA (1976). Espero que eles continuem com esse belo projeto, que vai ajudar a revitalizar aquele espaço.

Lá pelo final de A DOCE VIDA, vimos o quanto Fellini apreciava os excessos e o bizarro. Mas ninguém imaginaria que ele chegaria ao final da década de 60 com esse pesadelo infernal chamado SATYRICON. Baseado na obra de Petronius, o filme mostra a sociedade romana na época do Império Romano. O filme começa com dois irmãos brigando pela posse de um garoto. Ascilto havia vendido o menino para um grupo de teatro e Encolpio foi lá resgatá-lo. O garoto estava pouco ligando e parecia gostar de ser usado como objeto sexual por quem quisesse desfrutar de sua companhia. O filme acompanha a saga de Encolpio, que sobrevive a um soterramento, janta com um grupo de velhos ricos e glutões e depois é levado como escravo.

Mas a estória não importa muito. O ideal é se deixar levar pelo clima psicodélico típico daquele final de década que combina muito bem com a atmosfera de sonho que Fellini imprime. Entre os momentos mais memoráveis está o passeio de Ascilto com seu namorado-escravo. A direção de arte e a cenografia do filme são fantásticos. À medida que Ascilto e o menino vão passando pelas ruas, vemos ao fundo um painel ao mesmo tempo belo e grotesco das pessoas e das decorações da época, o que nos lembra o quanto o cinema italiano era rico e poderoso naquela época. Há um aspecto de sujeira e de asco bem interessante, diferente de vários outros filmes de época, tanto hollywoodianos quanto italianos, que tentavam recriar a época, mas mostrando tudo muito limpinho. Em vez disso, Fellini procurou mostrar a sujeira - a maquiagem das pessoas é feia e a comida é nojenta. E talvez seja o filme mais homo-erótico do cineasta. Mas o que me incomodou no filme foi a estória que vai ficando meio confusa lá pelo final, o que acabou me deixando um pouco disperso. Ainda assim, gostando-se ou não, ver SATYRICON no cinema é uma experiência única.

domingo, agosto 19, 2007

A MORTE PEDE CARONA (The Hitcher)



Muita coisa mudou de uns anos pra cá. Os filmes de suspense e terror que lidam com psicopatas estão cada vez mais sangrentos e gráficos e as mulheres já não são apenas "scream queens", isto é, não passam os filmes o tempo todo gritando e correndo feito loucas. Poderia-se dizer que isso faz parte de um processo de masculinização da mulher que acabou se refletindo nos novos filmes. Na refilmagem de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, por exemplo, a mocinha interpretada por Jessica Biel chega a cortar fora o braço do próprio Leatherface! O remake de A MORTE PEDE CARONA (2007), então, não poderia ser muito diferente, até por ser também produzido pelo mesmo Michael Bay do citado filme. A perturbada heroína, dessa vez, é a bela Sophia Bush, uma versão melhorada da Deborah Secco, e que fica mais bela ainda de mini-saia, botas e uma arma de fogo na mão. Fetiche puro.

O diretor convidado para essa releitura foi Dave Meyers, mais conhecido pela direção de videoclipes de artistas como The Offspring, Britney Spears, Creed e Jennifer Lopez. E como diretor de vídeos musicais, há um certo capricho no visual do filme, ainda que não haja exagero no uso de filtros ou uma edição muito picotada. Na verdade, o que se vê é mais um suspense bastante genérico, não muito diferente dos vários exemplares do gênero que se viu nos últimos anos. A decisão de se trocar um protagonista masculino - do original de 1986 - por um jovem casal foi acertada, funcionou bem. O começo do filme, mostrando uma lebre atravessando uma estrada e sendo esmagada é interessante, dá o tom do filme que varia entre os sustos e o humor negro. A certa altura não resta muita escolha ao espectador a não ser rir dos absurdos que o caronista psicopata (Sean Bean) é capaz de fazer. Talvez Sean Bean não seja tão assustador quanto Rutger Hauer, mas dá pro gasto.

O fiapo de trama, herdeiro de ENCURRALADO, de Spielberg, continua funcionando bem e o filme não aborrece em nenhum momento de seus 84 minutos. Trata-se de um filme bem enxuto e que garante o entretenimento de quem vai ao cinema sem muitas expectativas. Só continuo achando que o filme original, por ter apenas pouco mais de vinte anos, não necessitava de uma refilmagem. Mas como a falta de idéias reina em Hollywood, o jeito é esperar que o resultado seja satisfatório. E dentro do que se pode esperar desse filme, até que ele não se saiu mal. E eu não me admiraria se eu fosse rever o original de Robert Harmon e chegasse à conclusão que a refilmagem é melhor, já que faz muito tempo que eu o vi na televisão. Pode ser que ele não tenha envelhecido bem.

sexta-feira, agosto 17, 2007

MINHA VIAGEM À ITÁLIA (Il Mio Viaggio in Italia / My Voyage to Italy)



Se há algo de pouco vantajoso em se assistir a MINHA VIAGEM À ITÁLIA (1999) é a grande quantidade de spoilers que Martin Scorsese conta para o espectador. Scorsese chega a fazer um resumão de alguns filmes, contando até o final. Mas o importante é que a paixão que ele devota a esses filmes é contagiosa. E eu me vi morrendo de vontade de ver pela primeira vez filmes como SENSO (1954), de Luchino Visconti; UMBERTO D (1952), de Vittorio De Sica; EUROPA '51 (1952), de Roberto Rossellini; entre outros. Inclusive, fiquei bastante surpreso com a comoção que senti ao ver uma única cena de LADRÕES DE BICICLETAS (1947). Lágrimas rolaram. E eu percebi o quanto estou em débito com o cinema italiano. Dá até vergonha de dizer, mas nunca vi sequer um longa-metragem de Rossellini nesses quase vinte anos de cinefilia. Mas em breve, tratarei de diminuir essa dívida. É só questão de tempo.

Nesse sentido, MINHA VIAGEM À ITÁLIA é um poderoso empurrão para que as platéias jovens possam se interessar pelos trabalhos de Rossellini, De Sica, Visconti, Fellini, Antonioni. E é também uma maravilha para aqueles que já conhecem as obras em questão. São quatro horas de documentário que passam voando. E a gente lamenta quando acaba. Poderiam ser seis ou oito horas. Até para que outros cineastas importantes fossem também citados. Senti falta de uma abordagem, pequena que fosse, do cinema fantástico italiano, do cinema político e do cinema policial. Mas como se trata de uma viagem pessoal, não posso reclamar. Scorsese falou do que mais o tocou, dos filmes que mais o influenciaram. E no que se refere às influências, o cineasta declarou que OS BOAS VIDAS (1953), de Fellini, influenciou o seu CAMINHOS PERIGOSOS (1973), e que SENSO foi inspiração para A ÉPOCA DA INOCÊNCIA (1993).

Para tornar o documentário ainda mais pessoal, Scorsese chega a mostrar uma filmagem antiga de sua família em Nova York. Para ele, é muita emoção ver seus avós e seus pais naquele filme. Ele conta que quando passava na televisão filmes italianos, seus familiares mais velhos ficavam com os olhos grudados na tela. Quando a sua família se reuniu para ver na televisão PAISÀ (1946), de Rossellini, eles ficaram ao mesmo tempo tristes e alegres, imaginando como estariam se não estivessem nos Estados Unidos, livres da guerra que assolava a Europa e com melhores condições de vida do que na Itália.

Quanto aos filmes italianos da década de 60, Scorsese dá ênfase aos trabalhos de Fellini e do recém-falecido Michelangelo Antonioni. Inclusive, foi por causa da morte de Antonioni que eu tomei a iniciativa de ver logo esse documentário. Assim como vi A HORA DO LOBO, por ocasião da morte de Bergman, queria fazer o mesmo com Antonioni. Mas, como não tinha nenhum filme dele no meu estoque, acabei optando pelo doc do Scorsese. Os filmes de Antonioni que Scorsese mais destaca são A AVENTURA (1960) e O ECLIPSE (1962), justamente dois que eu nunca vi. Se eu não me engano, há também certo destaque para PASSAGEIRO - PROFISSÃO REPÓRTER (1975). Do Fellini, além de OS BOAS VIDAS, Scorsese fala da importância para o cinema mundial de obras-primas revolucionárias como A DOCE VIDA (1960) e 8 E 1/2 (1963).

Agradecimentos especiais ao amigão Renato Doho pela valiosa cópia.

quinta-feira, agosto 16, 2007

MOGAMBO



Custou, mas consegui uma cópia desse belíssimo filme que John Ford realizou em terras africanas. MOGAMBO (1953) traz três astros de primeira grandeza trabalhando pela única vez com Ford: Clark Gable, Ava Gardner e Grace Kelly. Um galã e duas das estrelas mais lindas daquela época. Gable era galã, mas o cara até que era bem feio, uma espécie de Charles Bronson com orelhas maiores e com mais talento pra pegar as mulheres, tendo, inclusive, namorado a Grace Kelly durante e depois das filmagens. Bastard. E dizem que John Ford não gostou de trabalhar com ele, tendo se desentendido com o astro algumas vezes. Parece que o que aconteceu foi que Gable tomou as dores de Ava Gardner, quando Ford brigou com a moça por ela ter errado em determinada tomada. Mesmo assim, apesar desses problemas nos bastidores e do forte calor africano, MOGAMBO foi um sucesso.

Refilmagem de TERRA DE PAIXÕES (1932), de Victor Fleming, filme também estrelado por Gable, MOGAMBO nos apresenta a Victor Marswell, um americano que caça animais na África para vender para zoológicos. Algo bem parecido com o que John Wayne faz em HATARI!, de Howard Hawks. (Puxa, que saudade que dá de HATARI!...) Gable é um sujeito um pouco rude, mas talvez por causa disso que a personagem de Ava Gardner tenha ficado tão a fim dele. As coisas esquentam ainda mais quando chega um antropólogo e sua bela esposa (Grace Kelly) e o caçador "come-todas" não se conforma enquanto não pegar a mulher do ingênuo cientista.

Há momentos mágicos no filme, como na seqüência da chuva, quando Gable volta com Grace Kelly da floresta e Ava Gardner fica triste na sacada, fumando um cigarro. A música de fundo, a imagem do céu registrada em belíssimo technicolor, a tristeza de Ava aliada ao desejo do protagonista por uma mulher casada, tudo isso contribuiu para que essa fosse a minha seqüência favorita do filme. As cenas envolvendo os animais também são bem divertidas. Nota-se que a cena dos gorilas foi filmada sem a presença do atores e depois incluída na montagem.

Pena que não apareceu por aqui ainda nenhuma cópia - de preferência de boa qualidade - do filme, que continua inédito em dvd em terras brasileiras. Agradeço ao amigão Sandro, que fez a gentileza de gravar o filme do TCM pra mim. O que seria de mim sem os amigos?

terça-feira, agosto 14, 2007

PRIMO BASÍLIO



Uma das vantagens dos filmes de Daniel Filho é que eles geralmente parecem ser muito ruins pelo trailer mas quando se vê o resultado, nota-se que as coisas não são bem assim. Bom, pelo menos foi essa a relação que eu tive com seus trabalhos anteriores. Recusei-me a ir ao cinema para ver tanto A DONA DA HISTÓRIA (2004) quanto SE EU FOSSE VOCÊ (2006), mas quando conferi esses dois filmes em dvd, vi que eles não eram tão ruins quanto eu imaginava. Apesar de não serem exatamente bons, vejo qualidades nesses dois trabalhos, que não têm vergonha de serem feitos para agradar o grande público e gerar dinheiro com o apoio de atores globais e de tramas bem populares. Depois disso, até tive coragem de ir ao cinema para conferir MUITO GELO E DOIS DEDOS D'ÁGUA (2006), uma divertida comédia com influência das screwball comedies dos anos 30 e 40 e da pornochanchada brasileira dos anos 70 e 80.

Em PRIMO BASÍLIO (2007), o erotismo característico das pornochanchadas do filme anterior parece estar de volta. O que para muitos é uma heresia, já que estamos falando de uma adaptação de uma obra de Eça de Queirós, um dos mais respeitados romancistas da literatura portuguesa e o principal autor do Realismo português. Daniel Filho transforma a obra de Eça num melodrama que mistura Doulas Sirk com Nelson Rodrigues, inclusive, com direito ao famoso uso do "perdoa-me por me traíres", que confesso ser algo que me comove. Daniel Filho comete alguns exageros e pode até provocar risadas na platéia, principalmente nas cenas com a personagem de Juliana, a empregada vivida por Glória Pires. Achei divertido ver a platéia rindo da inversão de "tarefas" entre empregada e patroa. Senti-me bem vendo um filme num cinema mais popular, num dia de ingresso mais barato. Era como se eu estivesse nos anos 80, época em que as pessoas não se sentiam incomodadas com a nudez e o sexo no cinema, antes de o cinema se tornar diversão da elite. E provavelmente as tais cenas mais picantes protagonizadas por Débora Falabella e Fábio Assunção vão provocar um "boca-a-boca" que vai beneficiar o sucesso comercial do filme além de aumentar o número de desafetos.

A adaptação de Daniel Filho esquece um pouco a crítica social de Eça de Queirós e privilegia o romance proibido entre Luísa (Falabella) e Basílio (Assunção) e a chantagem da empregada perversa. Não deixa de ser divertido também ver Reynaldo Gianecchini como Jorge, o marido corneado. Dos personagens coadjuvantes, a mais interessante é, sem dúvida, Leonor, a mulher mal falada interpretada por Simone Spoladore. Destaca-se também o amigo de Jorge, vivido por Guilherme Fontes, a pessoa mais honesta da estória. O que acaba incomodando um pouco é a mensagem moralista, que deixa o grande público saindo do cinema com a convicção de que mulher casada que trai o marido se dá mal. Apesar disso, ver a reação da platéia diante desse enredo ajuda bastante a entender a atual moralidade da sociedade brasileira.

segunda-feira, agosto 13, 2007

FRANKENSTEIN



Talvez os gêneros que mais envelhecem sejam o terror e o filme erótico, no sentido de que eles perdem o poder de aterrorizar ou de excitar com o passar dos anos. O que não significa que alguns clássicos desses dois gêneros não continuem a dar prazer àqueles que se permitem assistí-los. FRANKENSTEIN (1931), de James Whale, é um desses filmes. Hoje em dia não assusta mais ninguém, mas há algo de mágico e de bonito nele. É o tipo de filme que pouca gente viu, mas é como se todo mundo já tivesse visto. Faz parte do imaginário popular, do inconsciente coletivo. Eu, pelo menos, só fui ver o filme agora, anos depois de ter visto as versões de Kenneth Branagh (1994) e Terence Fisher (1957). Por mais que a versão de Fisher seja mais bem acabada, ela não tem a mesma força do filme de 1931. Muito dessa força se deve à genial criação do monstro interpretado por Boris Karloff, que acabou se tornando um ícone, tendo aparecido até em selos do correio americano.

FRANKENSTEIN foi a segunda incursão da Universal no lucrativo nicho dos filmes de terror. E ao contrário de DRÁCULA, de Tod Browning, o filme de Whale não parece teatro filmado. Há uma maior mobilidade na câmera e tomadas bem mais elegantes, o que já era um bom passo para o recém-surgido cinema falado. Não foi à toa que o filme gerou tantas continuações, sendo a mais famosa A NOIVA DE FRANKENSTEIN (1935), que dizem ser superior ao original. Eu vou poder conferir isso em breve, já que comprei aquele caixãozinho de oito longas de horror da Universal num precinho bem camarada. Acho que foi um dos melhores negócios que eu já fiz. Até porque os DVDs vêm recheado de extras. A Universal, aliás, está de parabéns, pois das majors, ela é a que mais respeita o consumidor. Basta lembrar dos títulos do Hitchcock lançados pela distribuidora, todos trazendo generosos e bem dirigidos documentários. No caso dos filmes de terror da companhia presentes nesse box, todos eles trazem comentários em áudio legendados em português de um especialista, um historiador de cinema, sobre o filme. Há também um documentário muito bom e esclarecedor, entre outros agrados.

O documentário presente no DVD de FRANKENSTEIN, "Arquivos de Frankenstein - Como Hollywood fez um monstro", ajuda a valorizar o filme, colocando-nos dentro de seu contexto de realização. Se hoje o filme não assusta mais ninguém, naquela época, aquilo era inédito e as pessoas eram bem mais impressionáveis, já que não havia televisão. O som da areia do cemitério batendo no caixão, no começo do filme, o Dr. Frankenstein à procura de cadáveres, a expectativa de ver um cadáver se levantando, tudo isso podia gerar medo na audiência. Ainda assim, o senso de humor dos produtores em relação ao filme se torna evidente quando se assiste ao curta-metragem BOO (1932), presente nos extras. O curta faz uma interessante montagem misturando trechos de FRANKENSTEIN com NOSFERATU, de Murnau. Divertidíssimo.

Como eu pretendo seguir a ordem cronológica dos filmes, o próximo que devo ver é A MÚMIA, de Karl Freund.

domingo, agosto 12, 2007

OH! REBUCETEIO



Não me passava pela cabeça que um dia eu veria um filme de sexo explícito brasileiro tão bom quanto esse OH! REBUCETEIO (1984), de Cláudio Cunha. Não é pra menos que o cineasta tem o respeito de muita gente boa. Acho que antes desse filme, o último filme pornô nacional interessante que eu tinha assistido era um estrelado pela Márcia Ferro, curiosamente também produzido na Boca do Lixo. Até hoje guardo na memória algumas das cenas mais safadas desse tal pornô. OH! REBUCETEIO ainda tem a vantagem de trazer uma inteligência rara nesse tipo de produção. Além, claro, de não ter envelhecido na sua capacidade de causar excitação, com a sua estória que parodia o sucesso da Broadway A CHORUS LINE.

O filme mostra um grupo de jovens atores iniciantes que fazem de tudo para conseguir o papel principal numa peça dirigida por um tal Nenê Garcia, interpretado pelo próprio Cláudio Cunha. Logo no começo do filme, vemos todos os jovens dançando no palco e Nenê grita: "eu quero ver todo mundo nu!". E isso não é nenhum problema para os desinibidos jovens que começam a fazer striptease com a maior naturalidade. A protagonista é uma jovem que mora com sua mãe católica, que sonha em ver a filha aparecendo em revistas como Amiga ou Manchete como uma atriz de sucesso. A tal peça não tem roteiro e o diretor quer que os atores primeiro usem de sua criatividade fazendo o que quiserem. Os três primeiros atores que apresentam seu pequeno show, dois homens e uma mulher, fazem algo inesperado: uma cena de sexo explícito. A partir daí, todos se sentem na obrigação de fazer algo ainda mais ousado, já que o diretor adora uma sacanagem.

Uma das grandes vantagens dos filmes pornográficos anteriores à era do vídeo é que havia um esforço por parte do diretor e de todos os envolvidos na produção em fazer um filme com uma estória. A estorinha nem precisava ser muito complicada, na verdade, era melhor que fosse bem simples, já que quando o sangue vai para as "regiões baixas", o cérebro perde um pouco a capacidade de pensar. Mas uma boa estória ajudava o espectador a manter o interesse pelo filme até o final. O filme de Cunha ainda conta com a vantagem de não ter cenas de sexo explícito longas demais, com a câmera passando horas mostrando closes de genitálias em "entra e sai". O bom elenco também ajuda, desempenhando muito bem seus papéis com uma sem-vergonhice e uma simpatia invejáveis.

Consegui o filme através do emule, numa cópia ripada do Canal Brasil. Desde já, agradeço à pessoa que teve o trabalho de convertê-lo em divx. Aproveito para recomendar a leitura do ao mesmo tempo poético e didático texto que Andrea Ormond escreveu sobre o filme em seu blog.

sábado, agosto 11, 2007

ESCORREGANDO PARA A GLÓRIA (Blades of Glory)



E acabei indo ao cinema assistir ESCORREGANDO PARA A GLÓRIA (2007) mais pra ver a Jenna Fischer em tela gigante. E também para dar mais uma chance a essa nova turma que está fazendo a atual comédia americana, o "frat pack". Confesso que não sou exatamente um admirador do trabalho deles, mas pelo menos os filmes não são ruins e o elenco é bom. O que está faltando, na minha opinião, nesses novos trabalhos é o principal para uma boa comédia funcionar: fazer rir. Claro que isso é muito subjetivo. Há quem ria com facilidade de uma coisa que outra pessoa vai considerar completamente idiota ou sem importância e vice-versa. No sala em que eu assisti o filme, por exemplo, acho que só tinha uma menina que ria a valer. A maior parte do público ficou bem calado.

Em ESCORREGANDO PARA A GLÓRIA, temos um encontro entre Will Ferrell e Jon Heder (novo no "grupo") como protagonistas e uma participação bem pequena de um outro membro da turma: Luke Wilson. Ben Stiller é um dos produtores. Assim como ZOOLANDER (2001), dirigido pelo Stiller, era uma zoação ao universo da moda, esse novo filme faz rir do mundo dos patinadores no gelo e daquelas coreografias que eles fazem que muitos confundem com frescura ou "gayzice" (existe mesmo essa palavra?). Dos dois protagonistas, é Heder que faz o papel do mais sensível, aquele que patina com a graciosidade de uma mulher. Já Ferrell faz o tipo rude e machão, o que é até uma contradição em se tratando desse tipo de esporte. Mas aí é que está a graça da coisa. Uma das melhores coisas do filme é mesmo ver Ferrell naqueles trajes colantes ao lado (ou atrás, em cima etc) de Heder.

No filme, Ferrell e Heder são dois inimigos das pistas que, anos depois, são obrigados a se tornarem parceiros para poderem voltar a competir e a fazer o que mais gostam e sabem. Além da dificuldade que existe na construção do relacionamento dos dois, há também uma dupla de patinadores que querem fazer de tudo para derrubar o novo "casal". Aí é que entra a Jenna Fischer, num papel meio ingrato e pequeno, pra quem gosta dela e é fã de THE OFFICE. (Vi no IMDB que em breve ela aparecerá como protagonista num filme chamado WALK HARD, de Jake Kasdan.) No mais, e encerrando, ESCORREGANDO PELA GLÓRIA talvez pudesse ser melhor, mas até que o filme não escorrega em seus bem narrados noventa minutos de duração que passam voando e ainda traz a cena memorável dos dois patinando ao som de "Flash' Theme" do Queen.

sexta-feira, agosto 10, 2007

ENTOURAGE - A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Entourage - The Complete Second Season)



De uma série que mostrava apenas os prazeres de ser um astro do cinema, ENTOURAGE, nessa segunda temporada (2005) foi se tornando aos poucos um pouquinho amarga, principalmente nos episódios finais, que lidam com o estresse de se manter o ambicioso padrão de vida conseguido e com a dor de uma separação. Mesmo assim, comparado à vida de qualquer um de nós, pobres mortais, a vida desses rapazes é muito doce. Aliás, é a vida que a maioria de nós pediu a Deus.

Essa temporada inicia-se com o retorno de Vince, E, Johnnie Drama e Turtle de Nova York. Vince estava trabalhando em um filme independente. Na volta, Ari, o agente, já havia engatilhado um blockbuster para Vince estrelar: a adaptação cinematográfica de Aquaman! De início, Vince acha que aparecer vestido com aquela roupa de super-herói vai deixá-lo ridículo, mas aos poucos ele vai se acostumando com a idéia e com a grana que o filme resultará. E ele fica ainda mais entusiamado quando descobre quem será o cineasta que dirigirá "Aquaman": ninguém menos que James Cameron! E o legal é que o próprio Cameron aparece várias vezes na série. As coisas se complicam um pouco quando começa a ser definida a atriz que interpretará a namorada de Aquaman: Mandy Moore, que já havia tido um caso com Vince no passado. Entre outras subtramas e entre muitas festas e muitas mulheres lindas pelo caminho da turma, esse é o plot básico dessa temporada.

Além de Cameron e Mandy, também dão as caras nessa temporada de ENTOURAGE: Amanda Peet, em participação rápida; Hugh Hefner, no episódio em que a turma vai parar na Playboy Mansion; Brooke Shields, que contracena com o Drama num dos momentos mais engraçados da série; e o U2! No dia do aniversário do Drama, os cinco amigos vão ao show da banda e, para surpresa de Drama, o próprio Bono lhe deseja, em pleno show, um feliz aniversário. Fala sério! Quem não queria receber um presente desses, hein! O final desse episódio é um dos mais felizes da série. E essa alegria é contagiante. Difícil não ficar com um sorriso no rosto no final. Também foi bom ver Vince apaixonado, coisa que não se imaginava até então, já que ele até então só queria comer as meninas que apareciam pela frente, fugindo de qualquer compromisso sério, por mais belas que elas fossem.

Parece que a terceira temporada finalmente mostra Vince nas filmagens de "Aquaman". Dizem que a terceira não é tão boa quanto as duas primeiras, mas já estou tratando de baixar os episódios aos poucos, apesar da dificuldade de encontrar alguns. Nos EUA, a série está na quarta temporada.

Agradecimentos ao Renato pela cópia.

quinta-feira, agosto 09, 2007

DOMÍNIO DE BÁRBAROS (The Fugitive / El Fugitivo)



Tinha a intenção de, nas férias, assistir um monte de filmes de John Ford. Mas as coisas não correram como planejado e acabei vendo apenas três títulos do Homero americano. Vamos ver se consigo aumentar esse número de Fords vistos nesse mês de agosto. Comecemos então com DOMÍNIO DE BÁRBAROS (1947), filme que acabei vendo com legendas em espanhol fora de sincronia. Felizmente o inglês é bem fácil de pegar de ouvido pois a estória se passa no México - ou em outro país latino-americano, já que o nome do lugar não é citado - e fala-se inglês com sotaque. Até o personagem de Henry Fonda fala tudo bem claramente, como que se esforçando para que o elenco mexicano o entendesse.

DOMÍNIO DE BÁRBAROS é um filme bem estranho. É uma espécie de FAHRENHEIT 451 do Ford. A estória se passa num país pobre e dominado por uma ditadura militar que não tolera a religião. Ser padre, portanto, é crime. E Henry Fonda interpreta o padre perseguido no país pelos militares mas acolhido pelo povo que sente necessidade de ter de volta a sua fé. DOMÍNIO DE BÁRBAROS também pode ser visto como um filme anti-comunista, realizado nos anos em que a Guerra Fria se iniciava, mas a ênfase é dada mesmo no catolicismo, sendo que a personagem da mexicana Dolores del Rio é fotografada muitas vezes de uma maneira que lembra os quadros da Virgem Maria, com raios de luz a envolvendo e uma expressão de compaixão no rosto. Aliás, a fotografia, em tons expressionistas, é um dos aspectos mas interessantes do filme.

O também mexicano Pedro Armendáriz, que estaria no ano seguinte em O CÉU PODE ESPERAR (1948), outro filme "religioso" de Ford, é o chefe de polícia responsável pela caça aos padres. Engraçado que essa faceta católica de Ford, eu só vim a conhecer recentemente. E percebe-se que o aspecto do sacrifício aparece não só nos filmes de temática explicitamente católica, mas também nos filmes de guerra do diretor, como FOMOS OS SACRIFICADOS (1945), e até nos filmes de cavalaria, como RIO GRANDE (1950).

DOMÍNIO DE BÁRBAROS foi um fracasso de bilheteria, mas apesar disso é um dos filmes mais queridos do próprio diretor. É uma livre adaptação de um romance de Graham Greene, "O Poder e a Glória". No livro de Greene, o padre era alcóolatra e pai de uma criança. No filme, isso foi mudado, sendo que os únicos pecados do padre são o silêncio e a covardia, por deixar outros morrerem por ele. Mas mesmo esse aspecto não é tão forte no filme. Falta ao personagem uma proximidade maior com o espectador. Além do mais, a cena trágica do final não tem, por exemplo, o mesmo impacto da morte da protagonista de MARIA STUART, RAINHA DA ESCÓCIA (1936). Ainda assim, é um belo filme.

quarta-feira, agosto 08, 2007

A VOLTA DO TODO PODEROSO (Evan Almighty)



Contrariando a opinião geral, eu até que botava fé neste A VOLTA DO TODO PODEROSO (2007). Tanto por ter gostado do trailer e da idéia quanto pela presença de Steve Carell. Depois de ver as três temporadas de THE OFFICE e de ver o ótimo O VIRGEM DE 40 ANOS, tive a convicção de que Carell é o grande comediante americano da atualidade. Só que não basta ser um grande comediante, é preciso um grande diretor e uma estória bem desenvolvida e um roteiro com ótimo timing para que o filme resulte em sucesso. Mesmo assim, A VOLTA DO TODO PODEROSO tem os seus bons momentos. Tom Shadyac, diretor de três comédias estreladas por Jim Carrey, entre elas o TODO PODEROSO (2003) original, não é lá um grande diretor e tem como principal marca fazer esses filmes feitos para sessões da tarde. Só que depois de O PROFESSOR ALOPRADO (1996) ele foi ganhando respeito entre os executivos de Hollywood, no sentido de poder conduzir filmes caros.

A VOLTA DO TODO PODEROSO é a comédia mais cara da história de Hollywood, com um orçamento de 175 milhões de dólares, trazendo ótimos efeitos, que envolvem os inúmeros bichos que contracenam com Carell e o impressionante ápice do filme, que prova mais uma vez que, no que se refere a efeitos especiais, Hollywood pode tudo. Inclusive, vendo os bons resultados da produção, fiquei pensando: bem que Hollywood podia ter feito um filme sério sobre a Arca de Noé. Agora é tarde, se fizerem um não vai ter a mesma graça. E pena que a principal razão de ser do filme, que é fazer rir, não esteja à mesma altura dos efeitos. São poucos os momentos realmente engraçados, a maioria presentes no trailer.

O enredo mostra Carell como um congressista recém-eleito que se muda com a família para uma mansão na Virgínia. Seus planos são modificados com a aparição de Deus (Morgan Freeman), que lhe pede que construa uma arca. Além do mais, misteriosamente sua barba começa a crescer e ficar branca e centenas de bichos passam a lhe perseguir. Obviamente, todo mundo começa a achar que ele está louco, inclusive sua mulher (Lauren Graham, de GILMORE GIRLS) e seus três filhos.

Destaque para a cena em que o protagonista passa em frente a um cinema e se vê o título do filme em cartaz: "The 40 Year Old Virgin Mary", que brinca tanto com o sucesso anterior de Farell quanto com a natureza bíblica da comédia. E Carell vem aí com a adaptação da clássica série AGENTE 86! Eu achei perfeita a escolha dele para o papel.