quinta-feira, janeiro 12, 2012

MADAME BOVARY



Este é o primeiro dos posts que pretendo dedicar às adaptações da obra-prima de Gustave Flaubert, o romance realista "Madame Bovary". Selecionei seis traduções ou livres adaptações do romance, começando em ordem cronológica por MADAME BOVARY (1933), de Jean Renoir. As obras seguintes serão A SEDUTORA MADAME BOVARY (1949), de Vincente Minnelli; THE SINS OF MADAME BOVARY (1969), de Hans Schott-Schöbinger; MADAME BOVARY (1991), de Claude Chabrol; MAYA (1993), de Ketan Mehta; e VALE ABRAÃO, de Manoel de Oliveira (1993). Não sei o quanto essa overdose de "Madame Bovary" vai me aborrecer ou me fazer ficar ainda mais apaixonado pela obra de Flaubert, mas, junto com a leitura do capítulo dedicado ao assunto presente no livro "A literatura através do cinema", de Robert Stam, me ajudará a compreender melhor as diferentes traduções das obras cinematográficas e os desafios enfrentados pelos diretores em transpor o romance para as telas.

A primeira das adaptações que vi, a de Renoir, me decepcionou um pouco, o que já era de certa forma esperado, mas muito dos problemas deste filme se deve ao próprio cinema produzido no início da década de 1930, que tinha a dificuldade de incluir uma música de fundo bem trabalhada e havia um excesso de teatralidade. Outro problema está na própria versão dos produtores, que é a que foi distribuída. A versão original do filme era de três horas, mas foi reduzida a menos de duas por insistência da distribuidora. O próprio Renoir brincava, dizendo que a versão mais curta parecia interminável, enquanto a mais longa parecia mais curta. E eu acredito no que ele diz.

Uma das opções de Renoir é a não utilização de uma voice-over para enfatizar os pensamentos dos personagens. Enquanto que na obra literária, Flaubert nos leva para dentro do coração e da mente de Emma, o filme de Renoir torna tudo objetivo, fazendo com que seja mais fácil para o espectador julgar a protagonista como uma mulher não apenas infiel, mas também egoísta e irresponsável. Algumas "deixas" de Flaubert foram ignoradas por Renoir, como a cena da feira, tão elogiada como protocinema por Eisenstein, em que Rodolphe tenta conquistar Emma durante um leilão. Por outro lado, a cena da conversa com o padre foi bem aproveitada.

Sequências de intensa força no livro, como a das complicações na cirurgia no pé de Hyppolyte, ou do próprio fim de Emma, perdem a força no filme de Renoir. Mas bobagem seria ficar enumerando os problemas do filme em relação ao romance. Sábio era Hitchcock que dizia que jamais adaptaria uma grande obra (ele costumava citar Dostoiévski). Assim, deve-se dar um desconto para os corajosos diretores que tentam fazer o impossível. As melhores coisas de MADAME BOVARY, de Renoir, são as cenas curtas, entrecortadas por uma tela preta que se demora mais do que o comum; o pouco uso do campo/contracampo nos diálogos; a profundidade de campo; e o belo uso da fotografia nas cenas pastorais. Melhor sorte na versão de Minelli.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

LOUIE – A PRIMEIRA TEMPORADA COMPLETA (Louie – The Complete First Season)



A primeira coisa que me incomodou ao ver a primeira temporada de LOUIE (2010) foi estar perto da idade do personagem e vê-lo de maneira tão perdedora, tão carente de autoestima. Não deixa de ser um baque. Ele fala em seu show de stand up comedy de seu corpo fora de forma (em suas palavras, "a shitty body"), de sua dificuldade em encontrar novas namoradas depois do divórcio, da solidão, do fato de nunca ter conseguido namoradas por suas qualidades físicas. Mas também fala de coisas simples do cotidiano, como Jerry Seinfeld.

Inclusive, a minha relutância em ver esta série era achar que se tratava de uma cópia de SEINFELD. Há semelhanças, mas a abordagem é diferente e o registro é mais dramático e melancólico e menos ácido. Muitas vezes até me incomodei com o fato de não rir das piadas de Louie, embora eu saiba que o stand up comedy nos Estados Unidos também tem uma linha mais loser, na qual o personagem se encaixaria.

As histórias de cada episódio são boas e uma coisa admirável é que todos eles são escritos e dirigidos pelo próprio protagonista, Louis C.K., que havia feito uma sitcom chamada LUCKY LOUIE (2006/2007) para a HBO e que durou apenas uma temporada. A nova série, aprovada para uma terceira temporada, passa no canal americano FX. São temporadas de treze episódios e vários deles são memoráveis e com situações bem estranhas e constrangedoras.

Exemplo disso é o episódio em que Louie é ameaçado por um pirralho em frente a uma mulher com quem ele estava tendo o primeiro encontro. Ele não tem coragem de partir para a briga com o garoto. Resultado: a mulher o acha um covarde. Outro episódio de destaque é "God", que é contado quase todo em flashback, mostrando sua infância e sua relação com as crenças cristãs e o sentimento de culpa incutido pelas freiras e sacerdotes. Destaco também a participação de Ricky Gervais em dois episódios, no papel do médico amigo sacana de Louie.

Creio que a segunda temporada será mais agradável para mim. Dizem que é melhor e agora que eu já conheço o personagem e o tom agridoce da série, vai ser bem mais fácil acompanhar e gostar.

Agradecimentos ao amigo Renato Doho pelos episódios.

terça-feira, janeiro 10, 2012

CAVALO DE GUERRA (War Horse)



Depois da decepção gigante que foi INDIANA JONES E O REINO DA CAVEIRA DE CRISTAL (2008), que consumiu três anos do tempo de Steven Spielberg e fez com que ele ficasse mais três sem apresentar novos filmes – talvez para ver se passava a vergonha de ter feito uma obra tão ruim e aquém de seu talento -, eis que ele retorna à direção. Porém, a volta de Spielberg à boa forma ainda não foi desta vez, com CAVALO DE GUERRA (2011). Isso não quer dizer que o filme seja ruim. Na verdade, é uma obra bem respeitável, influenciada claramente pelo cinema de John Ford e com algumas cenas antológicas.

O problema é que, ao emular uma narrativa à moda antiga, Spielberg acabou por fazer um filme por vezes maçante. O grau de pieguice esperado vindo de uma obra do diretor distribuída pela Disney sobre um cavalo até que é pequeno. Fica a impressão de que o cineasta se conteve para não transformar seu trabalho num melodrama choroso. Ou então gostaria de ter feito e foi mal sucedido, pois nem a trilha sonora um tanto apelativa de John Williams ajuda a provocar lágrimas.

A primeira parte de CAVALO DE GUERRA é interessante, mas o rapaz que se vê como dono do cavalo chega a incomodar com tanto "amor" pelo animal. O filme melhora quando o cavalo é vendido para um oficial inglês para ser usado numa batalha contra os alemães na Primeira Guerra Mundial. A partir de então, vamos conhecendo as pessoas que entram em contato com o cavalo, a exemplo do que também acontece em A GRANDE TESTEMUNHA, de Robert Bresson. Sendo que no filme de Bresson, há um jumento. Entre os destaques do filme de Spielberg está a garotinha francesa (a estreante Celine Buckens), que contribui não só com a beleza e a graça, mas também com alguns momentos engraçados.

Aliás, um dos méritos de CAVALO DE GUERRA é também ter algumas tiradas divertidas, como a sequência da bandeira branca nas trincheiras, com um espirituoso diálogo entre um soldado inglês e um alemão. O que chega a incomodar um pouco é o fato de que todo mundo fala inglês no conflito, independentemente da nacionalidade. Hollywood, mesmo depois de Mel Gibson (A PAIXÃO DE CRISTO e APOCALYPTO) e Quentin Tarantino (KILL BILL e BASTARDOS INGLÓRIOS), parece não ter aprendido a lição. Enfim, o grande astro do filme é o cavalo do título, um animal belo e admirável. Se houvesse premiação para animais, com certeza ele receberia um prêmio.

CAVALO DE GUERRA foi indicado para o Globo de Ouro nas categorias de filme (drama) e trilha sonora (John Williams).

P.S.: O site Pipoca Moderna desta vez colocou no ar o resultado das melhores séries do ano, segundo votação dos críticos e colaboradores. Confiram AQUI o resultado. Os meus votos (votei apenas no top 10) podem ser vistos na caixa de comentários.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

OS ESPECIALISTAS (Killer Elite)



Depois de uma viagem relaxante com um grupo de amigos, voltei renovado (poucas vezes dormi tão bem, mesmo tendo uma festa que foi até o sol raiar), mas também cansado, por causa da tensão da viagem (fico tenso dirigindo em estradas) e porque comi muita coisa que não devia para essa minha garganta cheia de frescuras. E isso se reflete no corpo. Mas sigamos em frente, tentando ignorar as dores, que tudo passa. Principalmente o tempo. Já faz, por exemplo, vinte dias que vi OS ESPECIALISTAS (2011) no cinema. Portanto, vou tentar puxar da memória as impressões.

O fato é que talvez não teria visto o filme se não fosse o comentário elogioso do Leandro Caraça no Facebook. Imaginava se tratar apenas de um policial genérico e sem graça, que Hollywood tem produzido às toneladas já faz alguns anos. Mas, na verdade, trata-se de um belo filme de espionagem com cenas de ação vigorosas. Além do mais, fazia tempo que não via Robert De Niro em papel digno, ainda que na posição de coadjuvante.

De Niro e Jason Stathan interpretam mercenários. São bons no que fazem, mas Danny, o personagem de Stathan, já quer se aposentar e viver em paz com sua amada esposa (a bela Yvonne Strahovski, conhecida de quem acompanhou a série CHUCK). Acontece que um grupo de árabes sequestrou seu amigo (De Niro) e ele só será solto se Danny fizer um serviço: matar os assassinos dos filhos do sheik. O principal agente rival de Stathan nessa guerra secreta é o personagem de Clive Owen.

O resultado é um filme bem movimentado, que tem um elenco que funciona muito bem em todos os momentos, uma boa ambientação setentista, e uma trama simples para um filme com elementos de thriller de espionagem. Saiu melhor do que a encomenda. Ainda mais, levando em consideração que é trabalho de um diretor estreante (Gary McKendry).

P.S.: O ano foi fraco para o cinema brasileiro, mas o site Pipoca Moderna convidou o seu grupo de críticos e colaboradores para escolher os seus favoritos de 2011. O resultado pode ser conferido AQUI. Podemos ver que muitos filmes só foram exibidos em algumas praças. Eu, pelo menos, não vi 13 da lista, porque não chegaram aos cinemas de Fortaleza! Talvez seja sinal de que a situação pode não ter sido tão feia quanto foi pintada. O problema seria de distribuição. Os meus dez escolhidos podem ser vistos na caixa de comentário.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

AMADAS E VIOLENTADAS



O cinema de Jean Garrett, um dos mais cultuados cineastas da Boca do Lixo, até então era uma grande lacuna para mim. AMADAS E VIOLENTADAS (1975), seu segundo trabalho na direção, foi seu primeiro filme que vi e que me animou bastante a conhecer mais. Quando o especialista em cinema de horror Carlos Primati esteve aqui em Fortaleza, ele ficou pegando no meu pé porque eu não havia visto nada do Garrett. Lembro que cheguei a "namorar" algumas vezes o vhs de EXCITAÇÃO (1976) nas locadoras, mas sempre acabava não levando. O filme foi produzido pela produtora Dacar, de David Cardoso, que já havia arrecadado bem com o anterior, também dirigido por Garrett, A ILHA DO DESEJO (1975).

Em AMADAS E VIOLENTADAS, temos um escritor psicopata, vivido por Cardoso, que acredita estar escrevendo a sua obra-prima, um romance baseado nos recentes homicídios cometidos por ele. Aos poucos, o filme vai nos mostrando que seu comportamento é fruto de um trauma de infância, envolvendo o assassinato da mãe e o suicídio do pai. Ele tem dificuldade de se relacionar com as mulheres e é o típico assassino impotente e frustrado. De certo modo, o enredo guarda semelhança com INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, embora o filme estrelado por Sharon Stone seja bem mais complexo na definição do assassino.

A primeira vítima a ser mostrada, inclusive, é uma de suas "secretárias", uma mulher que morava em sua casa, sob o pretexto de ser vista pela sociedade também como um caso seu, e que é assassinada num apartamento, quando é pega com um homem, logo no prólogo. Não sem antes de o filme mostrar um pouco os dotes físicos da moça. Na época, o cinema produzido na Boca já começava a explorar a nudez como chamariz.

A trama ganha outros contornos quando entra em cena uma jovem garota que está fugindo de uma seita satânica, que pretende sacrificá-la num ritual diabólico. O escritor psicopata a salva e consegue a guarda da garota. Ele admira a pureza da menina, que por ter crescido num orfanato, se comporta como uma criança. A relação com a garota, a investigação da polícia e de uma jornalista curiosa e outras reviravoltas da trama não preparam o espectador para o belo final.

Tenho comigo pelo menos mais outros quatro filmes de Garrett para apreciação: POSSUÍDAS PELO PECADO (1976); A MULHER QUE INVENTOU O AMOR (1979); MULHER, MULHER (1979); e KARINA, OBJETO DO PRAZER (1981).

quarta-feira, janeiro 04, 2012

CINZAS QUE QUEIMAM (On Dangerous Ground)



E continuando a peregrinação pela obra de Nicholas Ray, chego a um de seus melhores filmes: CINZAS QUE QUEIMAM (1952). E devo começar dizendo que tudo que falei sobre a falta de força na interpretação de Robert Ryan em HORIZONTE DE GLÓRIAS (1951) pode ter sido uma bobagem de minha parte. Vi depois uma interpretação muito boa dele em A ESTRADA DOS HOMENS SEM LEI (1951), mas neste autêntico filme de Ray ele está soberbo. Além do mais, nunca Ray havia se cercado de tanta gente de talento para auxiliá-lo. Além de Ryan, há Ida Lupino, como a moça cega da segunda parte do filme; há Ward Bond, como o pai de família que quer vingar o assassinato da filha; há a excelente trilha sonora de Bernard Herrmann, poucos anos antes de se tornar famoso por sua parceria com Alfred Hitchcock; e há a ótima fotografia de George E. Diskant, que já havia trabalhado com Ray em AMARGA ESPERANÇA (1948) e em A VIDA ÍNTIMA DE UMA MULHER (1949), mas é aqui que ele atinge o seu máximo.

Além do mais, o filme tem uma importância crucial para a definição do gênero policial em Hollywood. Embora haja ainda muitos clichês do film noir, nota-se que CINZAS QUE QUEIMAM dá um passo adiante na construção de uma dramaturgia diferente, mais moderna. Toda a produção do filme parece conspirar a seu favor. Desde o início, mostrando uma mulher segurando um revólver e dando-o com carinho ao marido, um policial, aprontando-se para sair e cumprir o dever, representando tanto o fálico, o violento, quanto a importância da família. A família que é tão valorizada nos filmes de Ray, mas que é também desestruturada.

E se o cineasta hoje é conhecido como o "poeta da noite", em CINZAS QUE QUEIMAM ele faz jus ao título. Só depois de uns quarenta minutos, quando o filme muda de local, é que vemos uma cena diurna. Até então, a escuridão da noite perigosa e cheia de bandidos da cidade predomina. Depois desses quarenta minutos, o filme também nos mostra que a trama não trata da busca do assassino de um sargento da polícia, tão enfatizada no início, mas da busca de um homem (Ryan) por sua própria redenção, pelo seu destino. Há em Jim Wilson, o personagem de Ryan, uma similaridade com o escritor vivido por Humphrey Bogart em NO SILÊNCIO DA NOITE (1950). Ambos são facilmente irascíveis. E é por causa disso, por quase matar bandidos na porrada, que Jim é enviado como castigo para uma região gelada do interior dos Estados Unidos, para investigar o assassinato de uma garotinha.

E é só lá que a personagem de Ida Lupino nos é apresentada. Ela, cujo nome aparece em destaque junto com o de Ryan na mesma "página" dos créditos de abertura. Como a cega Mary, Lupino não vai ser apenas importante para a resolução do crime e ser o interesse amoroso do solitário policial, mas também fundamental para enfatizar o contraste, tão presente nessa obra de Ray. Em certo momento do filme, quando Jim diz a ela que é policial e que aprendeu a não confiar em ninguém, Mary diz que é cega, e se sente obrigada a confiar em todo mundo. Os dois são como opostos complementares. Ironicamente, Mary, vivendo na escuridão, é como uma luz para a vida sombria de Jim. Um dos momentos mais belos do filme é quando vemos Mary orando, em tom bem próximo de Jesus na cruz, para que Deus perdoe os pecados do irmão, pois ele não sabia o que fazia.

Há também a tendência de Ray a resistir ao melodrama, de fazer um cinema de contenção e tensão. Só achei a sequência final do filme tão deslocada que parece até um sonho, um delírio do protagonista. Depois, soube que ela foi incluída por causa dos produtores e não por vontade de Ray. Ainda assim, ela ficou bem bonita.

P.S.: O Pipoca Moderna publicou dessa vez o resultado final dos votos dos críticos e colaboradores para eleger os melhores filmes de 2011. Confiram AQUI!

terça-feira, janeiro 03, 2012

UM DIA (One Day)



Tenho o hábito de reescrever a lista de filmes vistos no cinema em uma agenda desde 1998. Quase todos os anos, quando mudo de agenda, eu reescrevo essa lista. Muita gente acha o processo trabalhoso e inútil, que eu deveria ter um caderninho exclusivo para isso, mas, no fim das contas, cada título que eu reescrevo é um "filme" da minha vida que passa pela minha cabeça. Lembro as circunstâncias daquele dia, com quem assisti o filme, como estava me sentindo naquele momento. Assim, lembrar esses filmes funciona como um gatilho para a memória. Deveria ter tido a ideia de fazer essa lista muitos anos antes, inclusive.

E foi mais ou menos pensando um pouco na minha vida que eu curti a sessão de UM DIA (2011), segunda incursão em produção em língua inglesa da diretora dinamarquesa Lone Scherfig, que ganhou destaque internacional com o drama EDUCAÇÃO (2009). De UM DIA, eu só li basicamente opiniões ruins, inclusive o vi até em lista de piores do ano. Por isso, para minha surpresa, a apreciação do filme foi das mais prazerosas. Claro que teve esse lado meio "egoísta", de eu ficar pensando também em mim, que contribuiu para que eu gostasse da experiência de ver os anos passando. Um dia em particular, 15 de julho, é mostrado, no encontro de um casal de amigos que desde 1988 se reúne para falar de suas vidas. Ou simplesmente para usufruir da companhia agradável do outro. Há também uma forte relação de afeto entre os dois. E isso é o principal motor do filme. A relação deles vai além da simples amizade. Digo isso, sem querer diminuir a amizade, o mais nobre dos sentimentos. Mas é que quando um relacionamento é também de respeito e amizade, ele é mais bonito, mais sincero.

Anne Hathaway e Jim Sturges formam esse belo casal, vivendo a vida, cada um à sua maneira. Ele é um pouco do que eu gostaria de ser: extrovertido, bonitão, popular. O que não quer dizer que ele não tenha seus problemas sentimentais, profissionais etc. Ela é uma garota que começa o filme meio desengonçada e vai ficando mais bonita, mais elegante, mais refinada, intelectualmente. E não é que eles só se encontrem no dia 15 de julho. O filme é que recorta essa data, especificamente, que é também especial para eles, pois é a data em que eles se encontram pela primeira vez e é a data em que eles mais sentem falta um do outro. UM DIA pode ser bem doloroso no final, mas ao mesmo tempo o epílogo, com o resgate de uma cena do passado dos dois, em tom de revelação, eterniza um grande momento. E essa não é uma das funções ou, pelo menos, uma das grandes pretensões da arte?

P.S.: O Pipoca Moderna publicou as listas dos melhores filmes de 2011 de cada crítico e colaborador. Confiram AQUI!

segunda-feira, janeiro 02, 2012

IMORTAIS (Immortals)



Depois do fracasso de TRÓIA, Hollywood ficou com um pé atrás em relação a filmes épicos. No entanto, 300, embora esteja longe de ser um grande filme, mostrou que era possível utilizar a tecnologia de computação gráfica para baratear os custos, mesmo que isso prejudicasse o realismo das produções. No caso de 300, esse artificialismo dos cenários tinha uma razão de ser. Foi uma escolha estética, a fim de emular os quadrinhos de Frank Miller o máximo possível, como em SIN CITY. Também é por opção estética que IMORTAIS (2011), com sua direção de arte carnavalesca, sua fotografia bem colorida e sua violência próxima de um videogame, se assume.

Sob a direção do indiano Tarsem Singh, de A CELA (2000), o filme reinventa a mitologia grega, sem se importar com o que os textos clássicos narram. Assim, deuses aparecem em frente aos homens e a história de Teseu e do minotauro é narrada de maneira bem diferente, mas de modo a contribuir para o desenvolvimento da trama. Em IMORTAIS, não interessa se Mickey Rourke está canastrão como o vilão Hipérion; ou se o herói, vivido pelo novo Superman Henry Cavill, parece superpoderoso demais. Aliás, isso não é nenhum problema. É mesmo preciso que o filme mostre um herói grego próximo a um super-herói. Como, por exemplo, Aquiles e Ájax em "A Ilíada", na descrição bem detalhada de Homero. Em IMORTAIS, vemos Teseu matando diversos homens com sua lança e sua espada em uma coreografia muito bem orquestrada.

Muito bem também está Freida Pinto, como a oráculo que se apaixona por Teseu e, ao perder a virgindade com ele, perde também o dom de visões do futuro. Aliás, Freida está cada vez mais linda. Nem parece aquela garotinha de QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?, no não tão distante ano de 2008. Tudo bem que antes de ser atriz ela já era modelo, mas diria que agora ela atingiu o seu auge de beleza. Quanto à violência, IMORTAIS agrada a gregos e troianos. Nem é tão sangrento, pois muito do sangue mostrado é em forma de pixels; nem é tão "censura livre", pois o que não faltam são cabeças decepadas, pessoas queimadas vivas, línguas cortadas, entre outros atos de violência que sempre serão atrativos para o eternamente sádico coração humano.

domingo, janeiro 01, 2012

GUERREIRO (Warrior)



O novo ano começa, mas tenho ainda seis filmes vistos em 2011 para despejar por aqui. Mas vamos despejando com carinho; aos poucos. Comecemos o ano com este filme tão surpreendentemente bom, mas que infelizmente não terá espaço nos cinemas brasileiros. GUERREIRO (2011), de Gavin O'Connor, será lançado direto em dvd neste mês de janeiro pela Imagem Filmes. Basta ver o filme para saber o quão absurda essa decisão da distribuidora é. Vinte anos atrás, quando ainda havia vários cinemas de rua, com certeza esse filme conseguiria um espaço garantido nas salas mais populares e seria um sucesso estrondoso de bilheteria. As sequências finais, dos combates, tão cheias de intensidade e emoção, nos levam a pensar o impacto que seria ver o filme junto a uma multidão de espectadores.

Apesar do que dá a pensar inicialmente, vendo o cartaz do filme, GUERREIRO está mais para O VENCEDOR, de David O. Russell, do que para os antigos filmes de luta que Jean-Claude Van Damme protagonizava nos anos 80 e 90. No filme, Tom Hardy e Joel Edgerton são dois irmãos que por coincidência do destino resolvem participar de um campeonato de MMA, cada um por razões particulares. Hardy é o ex-fuzileiro naval que deseja ganhar o prêmio e doar para a família do colega morto em batalha; Edgerton é um professor de física casado e pai de família que, para não perder a casa hipotecada, resolve entrar na disputa, em atitude desesperada. Mas desesperada mesmo fica a esposa, vivida pela linda Jennifer Morrison (a Cameron, de HOUSE), imaginando que o marido poderia ser morto na jaula. Há também a figura do pai, interpretado por Nick Nolte, em um dos melhores papéis de sua carreira.

Quando o filme começa, ainda não sabemos ao certo o que aconteceu com essa família desestruturada e porque razão o pai é tão desprezado, mesmo tendo tido um histórico de alcoolismo bem pesado. Os próprios motivos do personagem de Hardy, que aparece sempre com expressão de muita raiva, demoram um pouco a serem revelados. Por isso, é mais fácil se identificar com o professor, que parece ter mais coração e parece mais frágil nas lutas, sempre ganhando com muito sacrifício, enquanto que o raivoso irmão chega para decidir as lutas em questão de segundos, no nocaute. GUERREIRO é de uma intensidade impressionante e um dos melhores filmes produzidos no ano passado. Gavin O'Connor já havia dirigido um filme de esportes antes, o pouco conhecido DESAFIO NO GELO (2004).

sábado, dezembro 31, 2011

TOP 20 2011 E O BALANÇO DO ANO

1. A PELE QUE HABITO, de Pedro Almodóvar
2. ALÉM DA VIDA, de Clint Eastwood
3. UM LUGAR QUALQUER, de Sofia Coppola
4. A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick

5. MEIA NOITE EM PARIS, de Woody Allen
6. CÓPIA FIEL, de Abbas Kiarostami
7. O VENCEDOR, de David O. Russell
8. AS CANÇÕES, de Eduardo Coutinho

9. SOBRENATURAL, de James Wan
10. MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO, de Paul Feig
11. GIGANTES DE AÇO, de Shawn Levy
12. MELANCOLIA, de Lars Von Trier

13. TUDO PELO PODER, de George Clooney
14. O GAROTO DE LIVERPOOL, de Sam Taylor-Wood
15. O PODER E A LEI, de Brad Furman
16. INCÊNDIOS, de Denis Villeneuve

17. PASSE LIVRE, de Peter e Bobby Farrelly
18. LIXO EXTRAORDINÁRIO, de Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim
19. CISNE NEGRO, de Darren Aronofski
20. SENTIMENTO DE CULPA, de Nicole Holofcener

Menções honrosas (ou filmes que quase entraram na lista): DESCONHECIDO, de Jaume Collet- Serra; TURNÊ, de Mathieu Amalric; NAMORADOS PARA SEMPRE, de Derek Cianfrance; AMOR A TODA PROVA, de Glenn Ficarra e John Requa; NÃO ME ABANDONE JAMAIS, de Mark Romanek; ATIVIDADE PARANORMAL 3, de Henry Joost e Ariel Schuman; e ANTES QUE O MUNDO ACABE, de Ana Luiza Azevedo.

Alguns filmes foram tão badalados que eu imagino que tomariam o lugar de alguns da lista acima se eu tivesse os visto. Mas como Fortaleza fica um pouco distante dos grandes centros, alguns desses títulos sequer chegam aos cinemas. Por isso, não estranhem se virem algum deles na lista de melhores de 2012. São eles: SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA (que vi em casa, por isso está lá na lista dos vistos na telinha, abaixo); TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS; INQUIETOS; O GAROTO DA BICICLETA; ISTO NÃO É UM FILME; ADEUS, PRIMEIRO AMOR; RISCADO; O MÁGICO; O INFERNO DE HENRI GEORGE-CLOUZOT; O CÉU SOBRE OS OMBROS.

Agora algumas palavrinhas sobre 2011. Pessoalmente, foi um ano excepcional. Tive coragem enfim de sair de uma empresa onde trabalhei por vinte anos para me dedicar a um mestrado acadêmico e arriscar uma nova vida. Estou adorando esse momento. Não que eu não gostasse da empresa, mas já fazia alguns anos que eu tentava diversas cartadas. Até que dessa vez deu certo. O mestrado está uma delícia e espero que continue assim até mesmo nos momentos mais difíceis, que são a dedicação maior à dissertação e a defesa final. Mas eu chego lá! E só por isso o ano já foi bastante especial pra mim. O que veio a mais foi lucro. Ainda estão faltando áreas da minha vida a preencher, mas isso está nos planos para 2012, que, como comentou Carlão Reichenbach, somando os números dá 5, número da invenção! Coisas boas e excitantes nos esperam.

Voltando aos filmes, 2011 foi especialmente ruim para o cinema brasileiro. Poucos filmes dignos de nota, embora alguns filmes mal vistos eu defenda numa boa, enquanto que outros muito elogiados, eu não tenha gostado. O ano também se destacou por ter bilheterias altas em coisas óbvias, como continuações de franquias e filmes sobre personagens já conhecidos. Houve também o problema do excesso de cópias dubladas nas salas, o que parece, infelizmente, que é uma tendência. E isso pode expulsar quem realmente gosta de cinema dos cinemas.

No meu top 20, uma meia dúzia de filmes são de cineastas consagrados. Pedro Almodóvar nos presenteia com sua melhor obra desde FALE COM ELA (2002). A PELE QUE HABITO é mais uma discussão sobre a questão da identidade e da sexualidade, mas num registro diferente, o horror, homenageando obras como OS OLHOS SEM ROSTO, de Georges Franju, e UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock.

Dois cineastas americanos, Clint Eastwood e Woody Allen, estão cada vez mais queridos de seu público, ainda que estejam trilhando caminhos bem distintos. Eastwood, em ALÉM DA VIDA, trilha um caminho mais sombrio, falando sobre a morte – ou sobre a vida depois da morte ou mesmo depois de uma experiência de quase morte. Enquanto isso, Allen, que já passou por momentos sombrios na década de 1990, agora respira novos ares na Europa. E é daí que sai uma beleza como MEIA NOITE EM PARIS.

Outros dois cineastas americanos, embora sejam também distintos, têm algo em comum: o fato de deixarem um pouco o roteiro de lado e se concentrarem nas imagens, no sentimento que elas podem provocar no espectador. São assim A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick, e UM LUGAR QUALQUER, de Sofia Coppola. São os melhores trabalhos de ambos e a experiência de vê-los no cinema não tem preço.

No mais, Abbas Kiarostami, com CÓPIA FIEL, dessa vez fora de seu país de origem, o Irã, nos convida a refletir sobre o original e a cópia, sobre o ato de representar e o verdadeiro sentimento. Já Eduardo Coutinho, escolhe um caminho seguro com AS CANÇÕES, mas tão belo e emocionante que, sentimental que sou, não resisti. Enquanto isso, o polêmico Lars Von Trier, baixa um pouco o tom violento de seu longa anterior, mas permanece fiel ao tema: a depressão. E nada como uma obra bastante pessoal para que a máscara caia, as lágrimas jorrem e o cinema ganhe com isso.

Entre os indicados ao Oscar 2011, destaco principalmente O VENCEDOR, um drama lacrimoso e belo sobre lutas, família e amor. LIXO EXTRAORDINÁRIO, o documentário indicado que conta com a participação do brasileiro João Jardim, é outro filme que comove os espíritos mais sensíveis. E CISNE NEGRO é uma obra bem ousada, um filme de horror travestido de drama sobre balé. Perturbador à sua maneira.

Mas o melhor filme de horror do ano é SOBRENATURAL, de James Wan. É o tipo de filme que há tempos não se via no cinema, capaz de arrepiar de verdade. Falando em assustar, um drama intenso sobre dois irmãos e uma mãe morta foi capaz de me deixar com a maior taquicardia que eu já senti num cinema. Trata-se do canadense INCÊNDIOS, de Denis Villeneuve.

Saindo do horror para as comédias, o ano teve boas surpresas. Aliás, uma grande supresa, já que a melhor comédia do ano foi uma comédia feminina! MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO provou para mim, preconceituoso que era, que mulher também pode fazer grandes comédias. É filme para se gargalhar do início ao fim. E ainda ter personagens consistentes. Os irmãos Farrelly também batem ponto mais uma vez na minha lista, com um de seus melhores trabalhos, PASSE LIVRE. Eles já são cadeira cativa aqui. Quase todo ano tem filme deles no meu top 20. SENTIMENTO DE CULPA não se enquadraria numa comédia, seria mais uma dramédia, dado o tom levemente dramático, dentro de uma história que lida com hipocrisia e traição.

A maior surpresa do ano pra mim talvez tenha sido GIGANTES DE AÇO, um filme bem na linha dos estúdios Disney, mas que por emular tanto ROCKY, O LUTADOR, e fazer isso de maneira tão bonita e respeitosa, fez com que a sua sessão fosse uma das mais catárticas pra mim. O PODER E A LEI é também outra surpresa, um filme "menor" que nos conquista do começo ao fim, com seu misto de drama com thriller.

Ficou faltando eu falar do thriller politizado TUDO PELO PODER, de George Clooney, que eu considero o filme que dá início a uma das melhores safras de filmes indicados ao Oscar. Espero muito estar certo. E também ficou faltando falar um pouco do emocionante O GAROTO DE LIVERPOOL, que trata da adolescência de John Lennon. Não se trata apenas de um título a engrossar a lista de filmes sobre os Beatles, mas um drama dos mais comoventes sobre a ausência e a perda da mãe. Experimente ver o filme e ouvir "Mother" depois.

Os piores

Falei demais sobre os melhores, falarei pouco sobre os piores. Como a cada ano tento ser mais criterioso, coisas como PIRATAS DO CARIBE 4 e TRANSFORMERS 3, eu passo longe. Mas não tem como a gente se livrar de certas coisas insurportáveis, chatas ou vergonhosas. Abaixo, sem o nome dos autores, para não envergonhá-los.

1. SUCKER PUNCH – MUNDO SURREAL
2. A ALEGRIA
3. RIO
4. O FILME DOS ESPÍRITOS
5. ATIVIDADE PARANORMAL EM TÓQUIO

As séries

2011 foi um ano sensacional para séries novas. A gente até se esquece das boas séries que se foram, ao entrar em contato com produções caprichadas como GAME OF THRONES, HOMELAND, THE KILLING e THE WALKING DEAD, que na verdade está na segunda temporada, mas pra mim é como se estivesse começando agora, muito melhor e mais intensa. CURB YOUR ENTHUSIASM (SEGURA A ONDA) retornou sem perder o gás; TRUE BLOOD deu uma melhorada, até porque não tinha como piorar; ENTOURAGE se despediu deixando saudades, mas com pouquinhos episódios; DEXTER teve a sua pior temporada, mas ainda tem algum fôlego para mais uma e a estreante AMERICAN HORROR STORY é um caso à parte, mas ainda assim eu a colocaria como um dos maiores destaques do ano. Quanto às minisséries, vi muito poucas, mas acho difícil encontrar uma melhor que MILDRED PIERCE.

Top 5 "Musas do Ano"

1. Bryce Dallas Howard (ALÉM DA VIDA)

2. Juliette Binoche (CÓPIA FIEL)


3. Amy Adams (O VENCEDOR)


4. Jennifer Lawrence (INVERNO DA ALMA)


5. Lucy Gordon (GAINSBOURG - O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES)
Ficou faltando uma brasileira na lista, mas não tem problema. Infelizmente a lista fica meio mórbida, já que uma das atrizes (a inglesa Lucy Gordon) cometeu suicídio logo após as filmagens. E ela estava tão bem, tão bonita com seus microvestidos. A nossa querida Juliette Binoche é um caso excepcional. Mesmo com o peso da idade se aproximando, ela continua maravilhosa. Entre as mais novinhas, Bryce Dallas Howard rouba as cenas em ALÉM DA VIDA, Amy Adams é o tipo de garota do bairro que dá vontade de namorar e casar em O VENCEDOR, e Jennifer Lawrence deu um show de beleza e intensidade na interpretação de seu primeiro filme de destaque. Mais virão. Inclusive, ela esteve também no elenco de X-MEN – PRIMEIRA CLASSE, a melhor adaptação de quadrinhos do ano.

Melhores vistos em DVD, DIVX ou VHS

É certo que esta lista é sempre melhor do que a lá de cima, mas isso porque entram também clássicos e filmes de diversas épocas. Em ordem alfabética, os vinte melhores vistos na televisão.

7 HOMENS SEM DESTINO, de Budd Boetticher
A ERVA DO RATO, de Júlio Bressane
A HORA DA ESTRELA, de Suzana Amaral
A SALVO, de Todd Haynes
ALEXANDRIA, de Alejandro Amenábar
ALMA SEM PUDOR, de Nicholas Ray
COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS, de Nelson Pereira dos Santos
DZI CROQUETTES, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez
ESSENTIAL KILLING, de Jerzy Skolimowski
GEORGE HARRISON – LIVING IN THE MATERIAL WORLD, de Martin Scorsese
LEMMING – INSTINTO ANIMAL, de Dominik Moll
O AMIGO AMERICANO, de Wim Wenders
O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS, de Pier Paolo Pasolini
O GUERREIRO SILENCIOSO, de Nicolas Winding Refn
O HOMEM QUE VIROU SUCO, de João Batista de Andrade
OS SONHOS ERÓTICOS DE UMA MULHER INSACIÁVEL, de Sergio Martino
ROCKY, UM LUTADOR, de John G. Avildsen
S. BERNARDO, de Leon Hirszman
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA, de Manoel de Oliveira
TRÁGICA OBSESSÃO, de Brian De Palma

Revisões

E cada ano aumenta a lista de filmes revistos. No ano passado foram 18, este ano, 22. A grande maioria dos revistos cresceram na revisão. Apenas dois deles caíram um pouco em meu conceito.

A FLOR DO MEU SEGREDO, de Pedro Almodóvar
A RODA DA FORTUNA, de Vincente Minnelli
A VIDA DE BRIAN, de Terry Jones
BLOW-UP – DEPOIS DAQUELE BEIJO, de Michelangelo Antonioni
CHUVAS DE VERÃO, de Cacá Diegues
CLEÓPATRA, de Joseph L. Mankiewicz
CRASH – ESTRANHOS PRAZERES, de David Cronenberg
CRIMES DE PAIXÃO, de Ken Russell
EROS – O DEUS DO AMOR, de Walter Hugo Khouri
ESTRANHO ENCONTRO, de Walter Hugo Khouri
EXISTENZ, de David Cronenberg
GÊMEOS – MÓRBIDA SEMELHANÇA, de David Cronenberg
HIROSHIMA, MEU AMOR, de Alain Resnais
KUARUP, de Ruy Guerra
MISTÉRIOS E PAIXÕES, de David Cronenberg
NÓ NA GARGANTA, de Neil Jordan
NO SILÊNCIO DA NOITE, de Nicholas Ray
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS, de Alfred Hitchcock
O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, de William Wyler
O PRIMEIRO ANO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS, de Joel Schumacher
ROBOCOP – O POLICIAL DO FUTURO, de Paul Verhoeven
UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock

Feliz ano novo!

E encerro este post de final de ano desejando um excelente 2012 para todos aqueles que visitaram este espaço, sejam os que o conhecem desde o começo, sejam os novos leitores. Peço perdão se alguns escritos foram feitos às pressas ou sem inspiração, mas isso acontece. Que as musas estejam do meu lado mais vezes em 2012. Desejo um ano novo cheio de realizações, amores intensos e correspondidos, dinheiro no bolso e nas contas, saúde, paz, muitos momentos de alegria e a companhia generosa dos amigos. Amém?

P.S.: Chico Fireman também publicou em seu blog uma listinha de melhores do ano a partir de votos de uma turma de 30 blogueiros cinéfilos do twitter. Deem uma olhada no resultado!

sexta-feira, dezembro 30, 2011

A INVASORA (À l'Intérieur)



Muitas pessoas já haviam me falado da força deste filme, mas eu fiquei adiando e adiando. Até que chegou o dia em que eu queria ver um grande filme de horror. E lembrei que tinha uma cópia de A INVASORA (2007) me esperando já há algum tempo. O filme, dirigido a quatro mãos por Alexandre Bustillo e Julien Maury, é da melhor safra do cinema de horror francês. No início, o terror é mais atmosférico, próximo do sobrenatural, criado a partir do surgimento de uma estranha mulher que aparece na casa da protagonista (Alysson Paradis), grávida e prestes a seguir para o hospital na manhã seguinte para dar início ao processo de indução ao parto.

A estranha é vivida por Béatrice Dalle, atriz que já tomou muito banho de sangue em DESEJO E OBSESSÃO (2001), de Claire Denis. E já dá para notar que A INVASORA é um filme pouco recomendado para quem se incomoda com sangue e gore. Bustillo e Maury, não à toa, foram cotados para dirigirem o remake de HELLRAISER, mas infelizmente, com tanto adiamento da produção, passaram a função para Patrick Lussier, diretor nada interessante no terreno do horror americano atual.

Voltando ao filme A INVASORA, eu diria que nunca mais eu verei uma tesoura novamente sem pensar em uma determinada sequência-chave. É o momento em que o filme passa de um horror mais psicológico para um horror mais sangrento. E essa transição é talvez o instante mais doloroso. O que não quer dizer que mais coisas horríveis não aconteçam ao longo da narrativa, cujo ritmo aumenta na mesma medida que nossos batimentos cardíacos. De qualquer maneira, quem viu MÁRTIRES, de Pascal Laugier, já está mais do que pronto para encarar o filme sem medo. Ainda assim, A INVASORA não é recomendado para gestantes.

Agradecimentos ao amigo Alex pela cópia.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

NOITE DE ANO NOVO (New Year's Eve)



Garry Marshall já ganhou a fama de dirigir essas comédias leves. Tão leves quanto algodão doce. Seu maior clássico é UMA LINDA MULHER (1990), o filme em que ele conseguiu transformar uma história de amor entre uma prostituta e um playboy em algo feito para a família, bem ao gosto dos estúdios Disney. Assim, quem for ao cinema ver NOITE DE ANO NOVO (2011) já sabe mais ou menos o que esperar. Até porque o filme já se compara a si mesmo com IDAS E VINDAS DO AMOR (2010), que o diretor havia realizado sobre o Dia dos Namorados americano, o "Valentine's Day". Inclusive, numa das sequências finais, uma personagem segura o BD do filme anterior de Marshall, numa autopropaganda bem sem-vergonha.

Uma das coisas que mais incomodam em NOITE DE ANO NOVO é a tal descida da bola no réveillon em Times Square. Eu, como não sabia da tal existência dessa bola, achei uma grande bobagem. Principalmente, quando colocam um personagem moribundo (Robert De Niro) querendo, como último desejo, ver a tal bola do terraço do hospital em que está internado. Parece comédia involuntária. De qualquer forma, o filme ajuda a entender um pouco a maneira como os americanos, em especial os nova-iorquinos, valorizam essa festa de fim de ano.

E há também aqueles que não curtem, ou dizem não curtir, como o personagem de Ashton Kutcher, que acaba se dando bem por obra do acaso, quando fica preso no elevador por horas com a personagem de Lea Michele (de GLEE). Que faz o papel de uma backing vocal do personagem do Jon Bon Jovi, que parece estar se divertindo muito com o filme. Inclusive, o melhor momento de NOITE DE ANO NOVO é a sequência musical em que ele canta pela primeira vez. Seu interesse romântico é a chefe de cozinha vivida por Katherine Heigl, que de tão acostumada que está em comédias românticas, é a que mais está à vontade no filme. Não há como não negar que ela é uma graça.

O problema é que há muitas sequências constrangedoras, como as envolvendo a personagem de Michelle Pfeiffer, por exemplo. Ela não combina como uma coroa loser. Essa não é a Michelle que eu conheci e nem quero vê-la novamente desse jeito. No mais, o filme também tem aquela coisa de valorizar o beijo na meia-noite da passagem do ano, o que não deixa de ser uma verdade quase universal. Mas a maneira como o filme mostra isso é que é meio problemática. Ainda assim, para o que se propõe, é até bobagem ficar enumerando falhas no filme. Ele cumpre o que propõe e atinge um bom número de espectadores graças ao enorme elenco de rostos conhecidos, que ainda inclui Zac Efron, Halle Berry, Jessica Biel, Carla Gugino, Sarah Jessica Parker, Abigail Breslin, Hilary Swank, John Lithgow, entre outros.

quarta-feira, dezembro 28, 2011

THE ESCAPIST



Quando Hollywood entrega uma superprodução nas mãos de um diretor semidesconhecido é sinal de que esse sujeito deve ter feito alguma coisa de muito interessante. Foi o que pensei quando vi o nome de Rupert Wyatt na direção de PLANETA DOS MACACOS – A ORIGEM (2011). O filme não tem cara de ser feito por um amador. Como também não tem a sua estreia na direção de longas, com o ótimo e inédito no Brasil THE ESCAPIST (2008).

Trata-se de um filme de prisão com um pouco mais de estilo que os convencionais. Como costumo gostar bastante de filmes de prisão, especialmente os que tratam de planos de fuga – não à toa ainda tenho saudades de PRISON BREAK -, já tive um interesse imediato por THE ESCAPIST. E o interessante é que o filme opta por uma narrativa que alterna passado e presente. Ora vemos os cinco presidiários já executando sua fuga, ora vemos o que aconteceu antes, a apresentação dos personagens, por assim dizer. Essa estrutura de idas e vindas no tempo só entrega parte do que viria, pois surpresas virão.

O elenco é um atrativo à parte. O protagonista é vivido por Brian Cox, na pele de um senhor condenado à prisão perpétua sem condicional e que quer muito ver a sua filha doente. O início, com uma canção de Leonard Cohen ("The Partisan") ajudando a emoldurar o seu rosto melancólico, é mais um dos motivos para se apreciar o filme. Completando o elenco, os amigos mais chegados Joseph Fiennes e Liam Cunningham, o responsável pela entrega de roupas e revistas vivido pelo Seu Jorge (mais uma vez muito bem em atuação internacional), Damian Lewis (de HOMELAND), como o chefe do crime da prisão, e Dominic Cooper como o novato que é ameaçado de ser estuprado por um tarado psicótico.

Com um andamento narrativo de tirar o sono e aumentar as frequências cardíacas, THE ESCAPIST foi uma das melhores surpresas deste fim de ano pra mim.

terça-feira, dezembro 27, 2011

HELENA DE TRÓIA (Helen of Troy)



O meu interesse por esse filme veio pela busca de alguma obra que se aproximasse de "A Ilíada", de Homero, que tive o prazer de ler nos últimos meses, graças ao empurrãozinho de um professor de letras clássicas da UFC. Já sabendo que ver filme depois de ler o livro geralmente é uma tarefa ingrata, fui até com boa vontade conferir este HELENA DE TRÓIA (1956), que Robert Wise dirigiu nos tempos em que Hollywood estava de volta às superproduções, graças ao advento do cinemascope e em busca de trazer de volta muitos espectadores que haviam fugido por causa da crescente popularização da televisão.

O gênero épico no cinema atingiu o ápice de popularidade justamente nesse período, da segunda metade dos anos 50 à primeira dos anos 60. Tanto nos Estados Unidos quanto na Itália. E no mesmo ano em que Cecil B. DeMille encerrou sua carreira com a obra-prima OS DEZ MANDAMENTOS, o eclético diretor de O DIA EM QUE A TERRA PAROU (1951) e A NOVIÇA REBELDE (1965) experimentou no gênero épico, na tentativa de contar em apenas duas horas a história do rapto (voluntário) de Helena por Páris até a tão famosa sequência do Cavalo de Troia. Acontece que é muito assunto para pouco tempo e o resultado é um filme todo atabalhoado. E o que é pior: muito chato.

Nem o próprio Homero, em "A Ilíada" contou a história completa. Na obra de Homero, há tempo para dramatização, para tragédia, para valorização de um herói como Heitor, por exemplo; para a dor e para o companheirismo dos homens. Em HELENA DE TRÓIA não há tempo para nada. E mesmo quando o filme fica mais tranquilo para mostrar o encanto de Páris por Helena, em nenhum momento isso é convincente. A atriz que faz Helena, a italiana Rossana Podestà, não tem lá muito carisma e sex appeal. Pelo menos, não nesse filme. Quem aparece num papel pequeno antes de virar estrela no filme é Brigitte Bardot, como a simpática escrava de Helena. Continuar falando mal do filme não vai adiantar muito, por isso, é melhor parar por aqui.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

SEINFELD – 8ª TEMPORADA (Seinfeld – Season 8)



A oitava temporada de SEINFELD (1996-1997) foi marcada pela ausência de Larry David. Ele apenas participou como ator, de costas, no papel do chefe de George, mas desistiu de participar da equipe criativa da série. Com isso, o peso da responsabilidade ficou basicamente em cima de Jerry Seinfeld. Era o começo do fim. A melhor sitcom de todos os tempos só duraria mais uma temporada. Ainda assim, a oitava conta com alguns dos episódios mais memoráveis da série, que inclusive ficaram na boca de muita gente, como o uso do "yada yada" no meio das conversas.

A temporada anterior havia terminado com a morte da noiva de George e a oitava começa com a família da falecida querendo que ele lidere uma fundação em memória de Susan. Isso por causa de uma citação que Jerry fez de JORNADA NAS ESTRELAS II. Mas são apenas os dois primeiros episódios que lidam com a memória de Susan. O restante é bem independente. E embora a temporada seja um pouco inferior às demais, é impressionante como eles foram capazes de criar ótimos e hilários episódios.

Caso de "The Bizarro Jerry", que é quando Elaine conhece um grupo muito parecido com Jerry, George e Kramer. Há também o famoso "The Little Kicks", que além de contar com aquela famosa dança da Elaine, ainda tem a subtrama de Jerry dentro de um cinema filmando uma cópia pirata de um filme. Mas nada nos prepara para a briga de Elaine e o pai de George, como sempre impagável. Nos erros de gravação apresentados como extras do box, não tem como não se acabar de rir a cada tentativa de filmarem a cena e Julia Louis-Dreyfuss não conseguindo parar de rir. Aliás, ver os erros de gravação da série é mais garantia de gargalhadas do que os próprios episódios em si.

"The Chicken Roaster" é outro episódio memorável. A placa luminosa de um restaurante especializado em frango perturba o sono de Kramer. Outro dos meus favoritos é "The Abstinence", no qual George se torna um gênio depois que resolve deixar de fazer sexo e de se masturbar. De repente, sua inteligência aumenta consideravelmente. Um que se destaca por causa de Kramer é "The Little Jerry". Esse é o nome que Kramer dá a um galo de briga que ele resolve criar e ele passeia com o galo pelas ruas como se estivesse com um cachorro. E é aí que vemos mais uma vez a genialidade de Michael Richards no humor físico.

"The Susie" é outro desses episódios bem típicos de comédias de erros. Uma colega de Elaine pensa que ela se chama Susie e como Elaine não a corrige, isso acaba gerando confusões bem absurdas no final. "The Pothole" já lida com a mania de limpeza de Jerry, quando ele acidentalmente deixa cair na privada a escova de dentes da namorada, não avisa nada a ela e depois não quer mais beijá-la. "The Nap" é talvez um dos mais engraçados. George adora tirar um cochilo depois do almoço e prepara toda uma estrutura para isso debaixo de sua mesa de trabalho.

Só esses episódios que eu listei já são suficientes para ver que Jerry Seinfeld conseguiu se virar até que muito bem durante a oitava temporada, apesar dos desafios de estar longe do colega de criação. Meus cinco favoritos da temporada: "The Nap", "The Little Jerry", "The Pothole", "The Abstinence" e "The Little Kicks".

domingo, dezembro 25, 2011

AMERICAN HORROR STORY























Para quem gostou minimamente de AMERICAN HORROR STORY (2011), como foi o meu caso, mesmo assim é preciso pesar os prós e os contras. Antes de mais nada, se uma série foi capaz de me prender por três dias sem eu conseguir ver outra coisa a não ser o episódio seguinte, ela não deve ser assim desprezada. Tudo bem que há toda uma estratégia para atrair o espectador, já bem conhecida de quem trabalha com seriados ou novelas e isso vem desde os antigos folhetins - aliás, desde muito antes, desde antes de "As Mil e Uma Noites" -, mas ainda assim, isso é uma arte, não são todos que sabem fazer.

Além do mais, quem se sente atraído pela série é geralmente quem gosta de filmes de horror. E as referências a filmes conhecidos são inúmeras ao longo dos episódios. Vão desde as trilhas sonoras, sendo a mais conhecida a de PSICOSE, usada logo no primeiro ou segundo episódio, até referências na própria história a filmes como O BEBÊ DE ROSEMARY, OS OUTROS, O ILUMINADO, HORROR EM AMITYVILLE, entre outros. Eu diria que até a ELEFANTE, do Gus Van Sant. Jessica Lange, como a vizinha má, é talvez o grande destaque da série. Seu registro é de filme de horror mesmo, espelhada talvez em Bette Davis e Joan Crawford dos anos 1960.

Mas afinal, qual o problema com a série? O problema, inicialmente, está em um de seus criadores, Ryan Murphy, responsável por NIP/TUCK (2003-2010) e GLEE (2009-dias atuais). Séries como essas não são bem boas referências e essa foi uma das razões por eu ter hesitado em ver a série desde que começou. Mas assim como Allan Ball pode sair de uma série classe A como A SETE PALMOS e partir para uma de gosto duvidoso como TRUE BLOOD, é possível que o contrário também aconteça. Assim, não me arrependo de ter visto a temporada inteira. Ao contrário, histórias de casas assombradas sempre me prendem e queria ver como isso seria transposto para uma série, com tempo para aprofundar personagens e mitologia.

E é mais ou menos isso que a série faz. Digo "mais ou menos" porque há que se perceber que os personagens, principalmente a maioria, não são exatamente aprofundados. Eles são, no máximo, revelados. Os primeiros episódios são os melhores, pois muito ainda está para ser descoberto. De imediato, vamos sabendo que algumas daquelas pessoas que frequentemente aparecem na casa já estão mortas. E a cada episódio, um prólogo revela mais uma história da casa, desde os seus primeiros moradores na década de 1920. São histórias até bem horripilantes e os créditos de apresentação são bem sinistros.

Diria que o ápice da série está nos episódios especiais de Halloween, quando tudo parece um inferno, tanto para a família, quanto para os espíritos desencarnados e até para o próprio espectador. Depois disso, quando passamos a ver a série pelo ponto de vista dos mortos, fenômenos que nos assustariam em outros filmes, como livros que caem e coisas que se movem "sozinhas" passam a se tornar banais. A série acaba transformando todos aqueles espíritos em um grande condomínio fechado. Mas com um clima de perturbação que permanece até o fim, não muito satisfatório.

AMERICAN HORROR STORY foi indicada ao Globo de Ouro nas categorias de melhor série (drama) e melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou telefilme (Jessica Lange).

sábado, dezembro 24, 2011

QUATRO CURTAS



Quatro curtas totalmente distintos para este post. O primeiro tem a ver com o período natalino, o segundo é um documentário sobre uma das mais importantes estrelas do cinema produzido na Boca do Lixo, o terceiro é um curta de François Ozon feito já num período em que ele se estabilizava como diretor de longas e o quarto é um dos filmes mais importantes da história do cinema.

O NATAL DE CHARLIE BROWN (A Charlie Brown Christmas)

À procura de um filme que combinasse um pouco com o espírito natalino para ilustrar o blog, resolvi ver este desenho da turma do Charlie Brown que foi marcante por ter sido o primeiro especial de TV dos personagens das tirinhas PEANUTS, de Charles M. Schultz, a ser veiculado em horário nobre. O NATAL DE CHARLIE BROWN (1965), se não é tão bom quanto vários episódios regulares da série, pelo menos trata da tão conhecida melancolia do protagonista, que fica se perguntando por que razão não fica feliz no período do Natal e procura a sua psicanalista particular, a Lucy, para ajudá-lo. Gosto especialmente quando ele vai checar a caixa de correio e reclama que o Natal serve também para mostrar que as pessoas não lembram dele, não lhe enviando cartões de Natal. Lembro que na adolescência me identificava bastante com o personagem, tão deslocado do mundo, tão tímido, tão existencialista. Comparava o personagem com os tipos de Woody Allen, até. Nesse curta, Charlie Brown é incumbido de dirigir uma peça de teatro natalina, mas Lucy, como a moça do script, sempre procura aparecer mais do que ele. Este especial ficou famosíssimo nos EUA, a ponto de ser veiculado na televisão todos os anos no Natal desde a sua estreia. Um clássico, portanto.


RETRATOS BRASILEIROS - HELENA RAMOS


Este programa produzido pelo Canal Brasil homenageia em poucos minutos Helena Ramos, uma das rainhas da Boca do Lixo. Ela foi uma atriz que quase não fez novela – pelo que ela falou na entrevista, fez apenas duas – e se dedicou mesmo ao cinema. Ela lembra que a mídia costumava tratar o cinema como algo desmerecedor de respeito, muito provavelmente por causa das pornochanchadas. Ela conta de sua inicial recusa em participar dos filmes por causa da vergonha de ter de tirar a roupa, mas que acabou topando fazer AS CANGACEIRAS ERÓTICAS (1974). Depois, foi perdendo a vergonha e se tornando mais bela e mais ousada. RETRATOS BRASILEIROS – HELENA RAMOS (2009) mostra a Helena hoje, com o rosto bem diferente, como se fosse outra pessoa, exceto pela voz, que não mudou. Alguns filmes são citados em imagens e pela própria entrevistada. Entre eles: KUNG FU CONTRA AS BONECAS (1975), IRACEMA, A VIRGEM DOS LÁBIOS DE MEL (1979), MULHER, MULHER (1979), MULHER SENSUAL (1981) e MULHER OBJETO (1981), que é onde ela aparece mais bela. Deu bastante vontade de ver todos esses filmes.

LA PETIT MORT

No mesmo ano em que realizou GOTAS D'ÁGUA EM PEDRAS ESCALDANTES e SOB A AREIA, François Ozon fez este curta-metragem. LA PETIT MORT (2000) mostra um jovem homossexual cuja obsessão é tirar fotos de rostos de homens atingindo o orgasmo. O orgasmo é tratado, inclusive, por algumas religiões, como uma "pequena morte". Daí o título original. Não à toa, o sexo e a morte compartilham da mesma casa no zodíaco. Mas há também outra morte no filme, a morte do pai moribundo do protagonista. Um pai com quem ele não tem contato durante muitos anos e cujo reencontro será bem fora do comum.

VIAGEM À LUA (Le Voyage dans la Lune)

Georges Méliès é provavelmente o homem que elevou o cinema à categoria de arte, ao utilizar de truques de filmagem até então inéditos. Antes dele, o cinema tentava simplesmente documentar a realidade. Depois dele, houve um avanço nas técnicas e uma apropriação da ficção. VIAGEM À LUA (1902) tem uma das imagens mais emblemáticas da história do cinema: a cápsula atingindo o olho da lua. Na história, astrônomos resolvem fazer a tal viagem do título e são arremessados ao nosso satélite. Lá, encontram um grupo de criaturas, os selenitas. No final, eles conseguem escapar deles e retornam sãos e salvos para a Terra. A cópia que eu vi me incomodou um pouco, pois em vez dos tradicionais intertítulos há uma narração em voice-over em inglês que não deixa o filme respirar. Mas trata-se de uma versão que contém a sequência final, do retorno dos viajantes, dada como perdida até ser encontrada em 2002. Exatamente um século depois da produção do filme.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

A ESTRADA DOS HOMENS SEM LEI (The Racket)



Dentro da peregrinação pela obra de Nicholas Ray, acabei vendo no IMDB que ele dirigiu algumas cenas deste A ESTRADA DOS HOMENS SEM LEI (1951), produção de Howard Hughes para a RKO. A direção é creditada a John Cromwell, mas além dele e de Ray, também consta que passaram pela produção Mel Ferrer, Tay Garnett e Sherman Todd. Essa dança de diretores faz lembrar a produção de E O VENTO LEVOU, que milagrosamente deu tudo certo. Mas aqui, apesar de a produção ser também de um milionário, trata-se de um filme bem mais modesto, com a cara dos policiais B dos anos 40 e 50.

O destaque do filme está no embate entre dois astros, Robert Mitchum, interpretando um capitão de polícia de integridade e honestidade exemplares, e o mafioso vivido por Robert Ryan, que curiosamente está muito bem no filme. Ao contrário de em HORIZONTE DE GLÓRIAS (1951), de Ray, em que ele parece quase estragar o filme em alguns momentos. O que me faz pensar que Ray não era exatamente um grande diretor de atores. Mas posso estar enganado e deixemos esse pensamento para lá ou voltemos a ele, se necessário for, quando vir mais filmes do cineasta.

A ESTRADA DOS HOMENS SEM LEI mostra uma cidade dominada por um mafioso, Nick Scanlon (Ryan). Ele manda em todos, do juiz ao prefeito. O único que tem coragem de encarar o sujeito sem ter medo de ser morto é o Capitão McQuigg (Mitchum). Quem também se destaca, até certo ponto, é Lizbeth Scott, no papel da cantora que se envolve com o irmão do chefão. A atriz, aliás, tem uma história um tanto triste e revoltante: ela foi simplesmente varrida de Hollywood depois que assumiu a sua orientação sexual. Hollywood admitia homossexuais, contanto que eles ficassem de bico calado. Como não foi o caso de Lizbeth, sua carreira durou pouco. Ela lembra bastante Lauren Bacall.

Outro rosto conhecido do filme é o de William Talman. Dois anos depois ele faria o psicopata de O MUNDO ODEIA-ME, de Ida Lupino. Aqui, ele é um policial honesto, mas um tanto vaidoso, o que acaba custando-lhe a vida. A cena da morte do personagem é uma das mais impactantes do filme, mas ainda assim é tratada com certa frieza pelos demais personagens. No fim das contas, a esposa aceita estranhamente o sacrifício do marido pela causa e tudo termina bem. No mais, A ESTRADA DOS HOMENS SEM LEI tem boas cenas de perseguição e tiroteios. Diria que até acima da média para os films noirs do período.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

MAMUTE (Mammuth)



Muito do mérito de MAMUTE (2010) está na caracterização de Gerard Depardieu como um homem em busca de sua aposentadoria, mas tendo que lidar com a burocracia e com o natural desrespeito das empresas para com seus empregados, pagando-os "por fora" para não ter que arcar com as despesas com a previdência. Depardieu, no filme, é Serge Pilardosse, conhecido como "Mamute". Pelo tamanho exagerado, ainda mais acentuado pelo excesso de peso que o ator ganhou nos últimos anos, o apelido é mais do que justificado. E ao vermos o protagonista tentando passar um carrinho de supermercado por um espaço entre dois carros num estacionamento, vemos que lhe falta também inteligência.

E é essa falta de inteligência que faz com que ele aceite muitas ofensas, se mostre passivo diante dos demais, talvez por se achar quase sempre inferior. Em flashback da esposa, vemos que ela casou com ele por pena. Mas, assim como o personagem de Mickey Rourke em O LUTADOR, é graças a essa persona meio loser que passamos a gostar de Serge. E a sua busca pelos comprovantes de que trabalhou em dez empresas, guiando sua motocicleta, acaba por se tornar uma espécie de redescoberta do mundo. Em cada lugar que ele passa, em cada aventura vivida, é como se a vida estivesse lhe mostrando o que ele estava perdendo enquanto trabalhava durante anos e anos para empresários inescrupulosos.

MAMUTE tem algo de surreal e também de fantástico, ao mostrar o fantasma de uma mulher que ele acidentalmente matou no passado, vivida por Isabelle Adjani. Sua primeira aparição causa uma sensação de deslocamento. Como se um filme de horror estivesse invadindo o território de uma comédia. Mas aos poucos, essa impressão se dissipa e o tom do filme vai tomando forma própria. Pode não ser um grande filme, mas é honesto e interessante. E tem uma cena que deve pegar muita gente de surpresa e até chocar outros.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

MISSÃO: IMPOSSÍVEL – PROTOCOLO FANTASMA (Mission: Impossible – Ghost Protocol)



E não é que um diretor especializado em animação conseguiu fazer um trabalho muito bom na sua estreia na direção com atores! E numa produção de grande porte! Tudo bem que Tom Cruise e J.J. Abrams, como produtores, estavam ali ao lado para ajudar, mas ainda assim não deixa de ser surpreendente o resultado. Pelo que comentam, desde o primeiro MISSÃO: IMPOSSÍVEL (1996), dirigido por Brian De Palma, Tom Cruise já dava os seus pitacos. Mas sempre respeitando o autor. Cada um dos filmes da cinessérie tem a cara de seu diretor e por isso destoam, por exemplo, dos filmes de James Bond, seus parentes mais próximos, que em geral são dirigidos por cineastas sem muita personalidade.

MISSÃO: IMPOSSÍVEL – PROTOCOLO FANTASMA (2011) traz Brad Bird, diretor das belíssimas animações O GIGANTE DE FERRO (1999), OS INCRÍVEIS (2004) e RATATOUILLE (2007), se saindo melhor do que a encomenda e provando que a distância entre a animação e o live action não é tão grande assim. No filme, o agente Ethan Hunt (Cruise) está numa prisão na Rússia e é resgatado pelo seu colega Benji (Simon Pegg) e pela bela agente Jane (Paula Patton) para participar de mais uma daquelas missões. Como a missão foi considerada fracassada pelo Governo americano, o seu grupo, o IMF, está por conta própria. Desativado e clandestino. Mesmo assim, em off, uma missão muito perigosa lhes é passada.

E assim o grupo formado por Hunt, Benji, Jane e Brandt (Jeremy Renner) passam por lugares como a Rússia,os Emirados Árabes Unidos e a Índia, a fim de salvar o mundo de uma bomba nuclear. Mais detalhes são tão irrelevantes quanto pedir que o filme seja verossímil. O barato de MISSÃO: IMPOSSÍVEL é justamente a inverossimilhança. E ainda ser capaz de nos fazer ficar com as mãos grudadas na cadeira como se estivéssemos numa montanha-russa, como na cena em que Tom Cruise escala o prédio mais alto do mundo, em Dubai. Só de olhar para o prédio, já dá vertigem. E os efeitos digitais capricham bastante na criação dessa sequência.

A escolha de lugares mais exóticos para as locações foram bem acertadas e dá um colorido especial ao filme. A ideia de colocar uma tempestade de areia em plena sequência do edifício foi uma bela sacada. Assim como os momentos na Índia, onde podemos testemunhar de olhos bem abertos a sensualidade de Paula Patton na cena da festa. O elenco de apoio também ajuda a fazer-nos crer que há de fato um trabalho de equipe, principalmente na tal cena da troca dos diamantes pelos códigos – ou seja lá o que for, afinal, trata-se de um mcguffin. Menos dramático do que o terceiro filme (2006), que lidava com a esposa de Hunt, este quarto se assume como uma divertida aventura. Embora possa até ser mais do que isso.

terça-feira, dezembro 20, 2011

DEXTER – A SEXTA TEMPORADA COMPLETA (Dexter – The Complete Sixth Season)



A mais frágil das temporadas de DEXTER, esta sexta (2011) mais do que demonstra sinais de cansaço com uma história de um serial killer um tanto fraca e que já repete o mesmo padrão de praticamente todas as outras temporadas. Se na quarta (2009), Dexter conseguiu um antagonista à altura, o Trinity, na interpretação brilhante de John Lithgow, e na quinta (2010), o serial killer "do bem" encontrou o que parecia ser a sua cara-metade (Julie Stiles), a sexta temporada não teve muito a fazer a não ser se repetir, inventando uma história bem mal contada sobre um assassino do apocalipse, um sujeito que usa os sinais do livro bíblico em suas vítimas. A história consegue chegar ao fundo do poço quando imita descaradamente o filme CLUBE DA LUTA.

Há também outro problema. Além da já tradicional narração em voice over pra lá de didática de Dexter, nesta temporada há um personagem religioso que tenta mostrar para ele o caminho do bem e persuadi-lo a abandonar o seu lado sombrio. Vivido por Mos Def, o "brother Sam" não deve ter feito muito sucesso, já que sua participação vai até metade da temporada. A série tem cada vez mais se encaminhado para uma "purificação" do personagem. Até o sangue, mesmo quando ele corta o pescoço de suas vítimas, não jorra mais. Em outra vítima, ele prefere usar um travesseiro em vez da tradicional facada no peito. Enfim, a série está se rendendo às reprises nas televisões abertas e diminuindo cada vez mais a violência e o aspecto frio do personagem. Enquanto isso, na delegacia, Debra recebe o título de tenente. Mas não muda muita coisa, pois ela prefere ficar nas ruas, com os colegas.

Pra não dizer que só falei mal da temporada, confesso que percebi que ela conseguiu se reerguer bem nos episódios finais, que trazem momentos de intenso suspense e um final impactante. De tal modo que mesmo os fiéis espectadores da série que estavam pensando em desistir depois da baixa qualidade dessa temporada terão pelo menos mais um motivo para continuar vendo DEXTER no próximo ano: saber o que acontece depois do gancho final.