domingo, setembro 29, 2013

O TEMPO E O VENTO























Pra quem fez um filme tão fraco quanto OLGA (2004), até que O TEMPO E O VENTO (2013) não é ruim. Na verdade, o segundo trabalho para cinema de Jayme Monjardim tem as suas qualidades e os seus momentos dignos de nota. Mais conhecido como diretor de telenovelas, Monjardim tem pelo menos um grande título em seu currículo: a marcante novela ROQUE SANTEIRO (1985), uma das mais memoráveis da história da teledramaturgia brasileira.

Quanto à sua ambiciosa intenção de adaptar o primeiro da série de livros O Tempo e o Vento, de Erico Veríssimo, ela resulta com falhas, mas ao menos é um filme que flui, embora só ganhe especial força quando entra em cena o Capitão Rodrigo, vivido por Thiago Lacerda. O ator está muito à vontade no papel. E é de fato um personagem fascinante, com seu excesso de autoconfiança, seu sorriso quase constante e sua paixão pela bela Bibiana, vivida pela encantadora Marjorie Estiano.

Aliás, Marjorie nem precisa se esforçar muito para compor o seu papel. Basta estar lá para ser motivo suficiente para que dois homens lutem para ter como prêmio ser seu marido. E é justamente na cena da luta entre o Capitão Rodrigo e o então noivo de Bibiana que o filme ganha uma força que até então não tinha. Nem teria mais, em sua conclusão.

Trata-se do momento em que o espectador pode finalmente se sentir mais próximo dos personagens, ao contrário dos primeiros atos, por mais que Cléo Pires convença quando está ardente de desejo pelo índio que aparecera nas terras de sua família. Assim como o Capitão Rodrigo, que ganhou um filme chamado UM CERTO CAPITÃO RODRIGO (1971), de Anselmo Duarte, Ana Terra, a personagem de Cléo, ganhou também um filme com seu nome, dirigido por Durval Garcia, no mesmo ano.

Uma coisa que se destaca bastante em O TEMPO E O VENTO é a bela fotografia de Affonso Beato, o brasileiro que já trabalhou três vezes com Pedro Almodóvar. As imagens são belíssimas. Não necessariamente as do exterior, com excesso de pôr-do-sol e aurora, mas as cenas nos interiores. Muitas vezes se nota um cuidado em aproveitar ao máximo a janela scope, fazendo com que o filme seja, de fato, melhor apreciado na telona. Assim, junto com a fotografia, a direção de arte também é caprichada.

Os problemas estão principalmente na dramaturgia, ainda um tanto ligadas à linguagem da televisão. E certas coisas que funcionam na televisão, no cinema tem suas falhas mais notadas. Trazer Fernanda Montenegro para ser a narradora da história não deixa de ser válido, mas há um excesso de uso dos termos "tempo" e "vento" na maneira da personagem ver a vida e a passagem dos anos. Ainda assim, trata-se de um filme agradável de ver, principalmente pelo que há de mais importante, que é o que envolve o Capitão Rodrigo. Até porque os personagens menos expressivos acabam passando muito rapidamente ao longo da narrativa, que se estende por cerca de 150 anos. Talvez seja por isso que o filme não chegue a aborrecer nem mesmo em seus momentos mais problemáticos.

Quanto à representação do passado de lutas sangrentas no Rio Grande do Sul, O TEMPO E O VENTO dá a sua contribuição, mas só um gaúcho poderia responder se ficou ou não bom o retrato e o recorte do filme. Pelo menos três guerras são vistas ao longo da narrativa, sendo a mais conhecida delas, a Guerra dos Farrapos.

No mais, há que se dar o devido crédito à coragem de Monjardim em condensar um livro que já havia sido adaptado pela Rede Globo em formato de minissérie de 25 episódios, em 1985. Condensar tudo isso em apenas duas horas e poucos minutos é tarefa complicada. Não por acaso tantos personagens sofrem com isso. Afinal, alguma coisa deve ser enfatizada.

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