Ouvi falar pela primeira vez de RINCÃO DE TORMENTAS (1948), também conhecido como O PIOR DOS PECADOS, através do podcast Filmes Clássicos, de uma série de lives em que os participantes brincavam de fazer top 10s de melhores de cada década, a partir dos anos 1920. Chamou-me a atenção um filme que não estava entre os mais manjados, escolhido por uma pessoa da turma. E este filme é justamente RINCÃO DE TORMENTAS, produção britânica que não estava no meu radar, mas que estava no meu acervo – o filme está presente no box Filme Noir Vol. 9, da Versátil Home Video. Como tenho uma cacetada de boxes dessa distribuidora, o que existe de pérola lançada é que me aguarda na estante não está no gibi.
Curiosamente, num dos extras do DVD o diretor da refilmagem PIOR DOS PECADOS, de 2010, Rowan Joffe, comenta que o filme dos irmãos Boulting (Roy Boulting aqui atua como produtor) é considerado por muitos como a maior obra-prima do cinema noir britânico, o que de certa forma me surpreendeu. O filme não comparece no top 50 do livro Film Noir, da Taschen, e nem é citado por Martin Scorsese em sua entrevista para a Sight & Sound de outubro de 2024, onde menciona uma série de produções marcantes do cinema britânico. De todo modo, a Versátil coloca o filme como o carro chefe do volume 9, com o rosto de Richard Attenborough na capa, com a marca da facada em seu rosto, que se tornaria uma cicatriz a macular o belo rosto do jovem gângster.
A minha geração conheceu Attenborough como o velhinho dono do Jurassic Park nos anos 1990. Portanto, não estava preparado para uma performance tão inspirada quanto essa, como Pinkie, líder de uma gangue pequena que pratica extorsão e deseja prevalecer sobre um gângster muito mais poderoso de Brighton. A aparência quase andrógina de Pinkie já chama atenção desde a primeira vez que aparece. O personagem gosta de ficar brincando com barbantes, o que acaba passando a impressão de que ele pode usar um barbante desses para asfixiar um desafeto.
RINCÃO DE TORMENTAS é um dos filmes mais cruéis que eu já vi, especialmente no que se refere à relação entre Pinkie e a garçonete Rose (Carol Marsh), representação perfeita da doçura, da vulnerabilidade e da carência afetiva, ao aceitar ter uma relação de namoro e casamento com um sujeito como Pinkie. A cena da cabine telefônica é de doer o coração, assim como outras cenas relacionadas (o bilhete que ela deixa para Pinkie após a noite de lua de mel, a conversa com a freira).
É também incrível o modo como esse personagem se autodenomina católico, mas é tão imbuído de maldade. Talvez seja um dos personagens mais cheios de maldade que eu vi recentemente. No entanto, é um personagem muito rico em sua construção, que deve muito ao trabalho de enquadramento e movimentação de câmera que enriquece e fortalece a brilhante atuação de Attenborough. Afinal, um dos maiores méritos de apresentar uma figura má é também deixar clara não apenas sua capacidade de fazer o mal, mas também sua covardia, como nas cenas que se sente acuado e tenta fugir. Nesse sentido, a personagem de Hermione Baddeley pode ser a representação da consciência de Pinky, a mulher que ele não tem coragem de enfrentar.
RINCÃO DE TORMENTAS é uma adaptação do romance de Graham Greene, que aqui aceitou ser também roteirista, o que, imagino, deve ter contribuído para a excelência da obra cinematográfica, que tem uma beleza plástica admirável. A linda fotografia em preto e branco é de Harry Waxman, que depois ficaria mais famoso pelo seu belo trabalho (em cores) para o clássico folk horror O HOMEM DE PALHA, de Robin Hardy.
+ TRÊS FILMES
OS OLHOS AZUIS DA BONECA DE VIDRO (Los Ojos Azules de la Muñeca Rota)
Na época do auge do giallo, na primeira metade dos anos 1970, outros países buscaram também fazer produções similares às italianas visando o mercado internacional. Muito provavelmente a Espanha foi o país que melhor sobre emular o espírito dos gialli italianos, e este OS OLHOS AZUIS DA BONECA DE VIDRO (1974), de Carlos Aured, traz até um título que se assemelha ao dos italianos. O diretor é companheiro de filmes de um dos maiores nomes do cinema de gênero da Espanha, Paul Naschy, nome internacional de Jacinto Molina, que aqui interpreta o protagonista, um forasteiro que chega a uma cidadezinha rural à procura de trabalho. Acaba conseguindo como um jardineiro e um faz-tudo de uma família de três irmãs solteiras. O filme, a princípio, me fez lembrar O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS, de Don Siegel, já que o sujeito é objeto de desejo das três irmãs solteironas. E ele não precisa esperar que elas insistam muito para ir para a cama com qualquer uma delas. Em paralelo, uma onda de assassinatos começa a acontecer, em que o assassino arranca os olhos geralmente azuis de suas vítimas. Acho que o filme cai um pouco lá perto do final, quando se torna um giallo mais convencional, mas até lá se apresenta como uma obra elegante e de cores bem bonitas. Há um apelo sensual interessante e gosto até da bagunça do final, para descobrir a identidade do assassino.Visto no box Giallo Vol. 9.
A SEMANA DO ASSASSINO (La Semana del Asesino)
Este filme é uma pérola do terror e do suspense que mereceria ser mais conhecida. Eis a importância de uma bela curadoria. No caso, a curadoria dos DVDs temáticos da Versátil. A SEMANA DO ASSASSINO (1972), de Eloy de la Iglesia, consta no box Obras-Primas do Terror – Horror Espanhol e é impressionante e envolvente. Somos apresentados ao drama, ou melhor, ao pesadelo de Marcos (Vicente Parra), um operário de um frigorífico que mata acidentalmente um motorista de táxi e depois passa a matar aqueles que são uma ameaça para que ela seja preso. Um dos destaques do filme é o seu aspecto visual cru, em especial a casa pobre onde Marcos vive, e que se tornaria um lugar terrível também para quem passasse por perto, já que o protagonista não é exatamente um expert em se livrar dos cadáveres. Um dos personagens cruciais para a trama é Néstor (Eusebio Poncela), um homem rico e homossexual que busca conversar com Marcos de vez em quando e o vigia com um binócolo do auto de seu apartamento luxuoso. É dele a frase que pode fazer com que nos sintamos um pouco solidários com o terror cotidiano vivido pelo personagem principal. A SEMANA DO ASSASSINO é um dos filmes de gênero que conseguiram nascer mesmo com a censura da época do franquismo.
ANTÁRTIDA
O que eu gosto em ANTÁRTIDA (2026), de Bruno Safadi, é o clima que frequentemente lembra o de O ENIGMA DE OUTRO MUNDO, de John Carpenter. Inclusive, o roteiro é de Dennison Ramalho, que bem que podia estar dirigindo, mas está atualmente mais envolvido em roteiros. E esta produção, feita nos estúdios da Rede Globo, não deixa de apresentar uma trama de mistério. Numa estação brasileira na Antártida, acontece um crime e os homens, principalmente, são os principais suspeitos. Trata-se de um whodunit que traz o tema do e3tupr0 como mote. Tem algo de dramaturgia televisiva da Globo que me incomoda um pouco, mas há um número considerável de ótimos atores que ajuda a manter o interesse pela narrativa do início ao fim. Há também o necessário uso de pistas falsas, e também certa coragem em colocar alguns personagens em situação de quase vilania, uma vez que bater em mulher é feio pra caramba. Gosto da ambientação no frio extremo e os efeitos são bem convincentes. Há um interesse bem claro de fazer um filme que trate de dois assuntos bem urgentes, a violência contra as mulheres e as mudanças climáticas, mas como o filme faz isso com uma vontade de deixar uma mensagem (no caso, duas mensagens), acabou me ganhando um pouco menos. De todo modo, é, sem dúvida, um filme que merece ser visto.
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