quarta-feira, setembro 29, 2010

QUATRO CURTAS



Quando tempo é artigo de luxo, temos que ser objetivos. E uma maneira de ser objetivo num blog de cinema é escrevendo textos curtos e grossos. Como vi recentemente dois curtas cearenses, em eventos relacionados à escola onde ensino, aproveitei para juntar ao pacote duas obras do início da carreira de dois grandes cineastas: Eric Rohmer e Julio Bressane. Aos filmes, que o tempo urge.

VÉRONIQUE ET SON CANCRE

Realizado imeadiatamente antes da estreia na direção de longas de Eric Rohmer com O SIGNO DO LEÃO (1959), VÉRONIQUE ET SON CANCRE (1958) ainda não carrega aquela marca forte que caracterizaria o seu cinema, mas já demonstra pleno domínio de câmera e diálogos e tem a cara da nouvelle vague. Na trama, uma mãe pede a uma moça que ajude o seu filho nas atividades escolares. O garoto vai tão mal em Matemática quanto em Francês. O menino acaba tirando onda da professora, que fica sem saber responder algumas de suas perguntas. Destaque para a câmera mostrando os pés da jovem, já antecipando o erotismo sutil que apareceria em obras posteriores.

BETHÂNIA BEM DE PERTO - A PROPÓSITO DE UM SHOW

Recorte de uma época, BETHÂNIA BEM DE PERTO - A PROPÓSITO DE UM SHOW (1966) mostra uma jovem estrela da música, já assediada por empresários para fazer shows na Europa. Ela dá à câmera de Júlio Bressane e Eduardo Escorel algumas opiniões, nem sempre audíveis, sobre preferências musicais, sobre gostar de cantar nos extremos, seja pianinho, seja quase gritado. As imagens em preto e branco das ruas são um belo e estiloso retrato do Brasil de meados dos anos 60. Caetano Veloso, o irmão atencioso, intervém bem menos do que eu esperava. Belíssima a canção final - "Apelo (Meu Amor Não Vás Embora)", composta por Baden Powell & Vinicius de Moraes.

VIDA MARIA

Se a produção de animações em CGI no Ceará ainda é incipiente, com VIDA MARIA (2006), as supostas deficiências técnicas - se compararmos com Pixar e afins -, são compensadas com criatividade e sensibilidade. A produção arrepia ao mostrar a passagem dos anos e a maldição de gerações que não têm oportunidade de estudar. O filme vai muito além da função de refletir sobre a necessidade da escola, mostrando a força impiedosa da passagem do tempo. Excelente utilização da música e da simulação das câmeras em movimento. Parabéns ao diretor Márcio Ramos.

VOCÊ VIU A ROSINHA?

Ao contrário de VIDA MARIA, VOCÊ VIU A ROSINHA? (2008) é apenas um filme que atende a seus propósitos: denunciar a exploração do trabalho infantil e servir como representação de algo comum: crianças pobres sendo levadas para casas de famílias ricas para trabalharem como domésticas, sem remuneração e sem direito a educação. Com um olhar mais exigente, vê-se uma dramaturgia pobre, mas, ainda assim, tem o mérito de prender a atenção até o fim. Direção de Célia Gurgel e Armando Praça, o curta pode ser conferido em duas partes no youtube.

segunda-feira, setembro 27, 2010

VIAGEM A RECIFE



A ideia da viagem surgiu do meu amigo Ebenézer. Estava em casa, dormindo num dia desses de crises de laringite, quando ele liga me convidando para ver o show do Dinosaur Jr. em Recife. Logo resisti, pois falta de tempo e de grana tem sido uma constante nos últimos meses. Mas ele acabou me convencendo. Aceitei. Podia ser uma boa a aventura de pegar a estrada para um local mais distante. A vida de vez em quando precisa ser semelhante a um road movie. A banda, eu nem conhecia direito. Só me lembrava de alguns clipes que passavam no saudoso Labo B, na MTV, no tempo que era apresentado pelo Fábio Massari. Mas como era uma dessas bandas que tinham pouco apelo popular e nem era tão incensada pela Bizz, acabou não sendo uma das poucas que eu cheguei a ouvir durante a explosão do grunge, no início dos anos 90. E como eu já falei para a turma pelo menos duas vezes: eu me arrependo de não ter gastado mais dinheiro com CDs naquela época. Um tempo em que uma apreciação musical era feita de uma maneira melhor, quando havia mais tempo ocioso e menos distrações.

Pois bem. A turma que ia com o Ebenezer acabou desistindo da viagem e ele me perguntou se eu conhecia alguém que poderia ir. A única pessoa que de repente entraria no perfil seria o Alex, entusiasta de rock e de shows. Ele logo aceitou. Mas faltava mais alguém para completar o quarteto. Já estava dando por perdida a viagem quando o Alex, no meio da semana, consegue alguém para ir: seu amigo Ivo. A correria começa para comprar ingresso pela internet, ter absoluta certeza que todos vão e marcar alguns detalhes via internet, já que ninguém tinha tempo para se encontrar pessoalmente. Mas acabou dando certo. Se as coisas não foram melhores, se não deu pra passear ou conhecer as praias de Pernambuco, como Porto de Galinhas, foi porque gastamos mais tempo dentro do carro e o corpo precisava descansar.

Havia falado com o amigo Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja, e lhe pedido algumas orientações, mas não imaginei que ele fosse nos ajudar tanto e eu pudesse retribuir apenas com um muito obrigado e umas poucas e aperreadas horas comprando ingresso e procurando hotel. Ele fez a gentileza de procurar um lugar barato pra gente e acabamos encontrando um hotel trash mas com tudo de que precisávamos para dormir um pouco antes e depois do show, a fim de recuperarmos as forças. (Osvaldo, meu chapa, estou em débito contigo e imensamente grato pela atenção.) O ideal, claro, seria pararmos com calma num barzinho e conversarmos durante horas sobre filmes, uma paixão em comum. No fim das contas acabei ficando com complexo de culpa por ter recebido tanto e não ter retribuído. Mas culpemos os dias atuais, ingratos, que não nos deixam muito tempo para passarmos com os amigos. Também não tive tempo de me encontrar com outra pessoa especial por lá, o Guilherme. Até porque tinha esquecido o telefone dele anotado na agenda no meu carro, durante a correria para partir.

Quanto ao evento, foi melhor do que eu esperava. Depois de nos perdermos diversas vezes naquelas ruas estranhas, escuras e cheias de contornos, conseguimos chegar lá no teatro da UFPE. O evento, o No Ar Coquetel Molotov 2010, além de bem organizado, é cheio de agrados: ganhamos um CD contendo uma faixa de cada artista do evento, massagens relaxantes e pacotinhos de biscoito. Não cheguei a ver a primeira banda do horário das 21 hs, A Banda de Joseph Tourton, mas fiquei absolutamente encantado com a Taken by Trees, banda sueca que também esteve em Fortaleza ontem, na programação Invasão Sueca. A vocalista da banda é encantadora, tem uma voz linda, o som é minimalista, mas ao mesmo tempo sofisticado, tem um ar misterioso que remete às religiões antigas que cultuavam a natureza e em certo momento eu fiquei de olhos fechados e quase entrei em transe com o som. A vocalista tem aquele jeitinho comportado e meigo, que lembra um pouco a Zooey Deschannel. Dá vontade de levá-la pra casa.

A atração seguinte foi o Mad Professor, que não fez muito a minha cabeça, com o seu dub e seus samplers. O show deles foi bem curto, o que eu achei estranho, mas como não estava gostando mesmo, até gostei que tenha terminado cedo. Achamos um lugar bem perto do palco, para assim podermos ver mais de perto a atração principal da noite. Mas ainda havia o show do rapper paulistano Emicida, que estava rodeado de alguns fãs que sabiam de cor as letras de suas músicas. Gostei, ainda que rap não seja a minha praia. Em alguns momentos, entusiasma mesmo.

Chega a vez do Dinosaur Jr, a banda que fez o teatro tremer. A parede sonora ensurdecedora que a banda trouxe a princípio me incomodou, mas depois que a gente fica meio surdo fica mais fácil curtir o show. Como não conheço bem o repertório da banda, não adianta ficar discorrendo sobre o que eles tocaram ou não tocaram ou coisas do tipo. O que eu conhecia eram algumas faixas que ouvi nos últimos dias no carro e "Over it", uma das novas canções, que tem um clipe muito legal no youtube. (Obrigado pela recomendação, Gustavo!) E realmente o momento em que eles tocam essa canção foi um dos mais animados da festa. Para desespero dos seguranças que não conseguiam conter o público que vez ou outra burlava a barreira e subia no palco para se jogar na pequena multidão. Eu me divertia com isso. Destaque também para o solo de quase meia-hora perto do final da apresentação.

Fim de show, ouvido surdo e fome brutal. A ideia era procurar algum lugar para comer lá pela Boa Vista. De preferência uma pizzaria. Só achamos uma cópia de McDonalds, não muito saudável, mas que serviu para aplacar a fome. Retornamos para o hotel quando já era dia. Só o tempo de dormir mais um pouco e voltar para casa. Ir à praia só ia tornar tudo mais complicado e cansativo, principalmente para quem ia dirigindo, já que tivemos que pegar mais da metade do trecho no breu da noite. No mais, a viagem em si foi regada a muito rock and roll e muito papo agradável e interessante - em geral, cinema e música, mas rolaram outros papos também. Deu pra sentir sintonia com a turma. E isso é muito bom.

Segue link para algumas fotos que complementam o relato, que já está ficando bem grandinho.

sexta-feira, setembro 24, 2010

JUDEX



Soube da existência (e da importância) de Georges Franju através de uma edição da saudosa Cine Monstro. Lá havia um belo texto sobre OLHOS SEM ROSTO (1960), considerado por muitos a obra-prima do diretor. JUDEX (1963) é o seu segundo filme mais mencionado. Ainda que não seja um filme de horror, Franju mostra o quanto ama o universo fantástico. Não o fantástico governado pela magia e afins, mas o fantástico de pessoas de carne e osso que se vestem com capas pretas ou roupas fora do comum para fazer o que acham que é certo. Ou errado. Depende do personagem e do que ele acha.

O Judex do título foi criado no início do século XX pelos franceses Louis Feuillade e Arthur Bernède. Veste-se de preto, usa uma capa e um chapéu parecidos com o do personagem Sombra. Louis Feuillade também chegou a dirigir uma série de filmes de um famoso personagem do cinema mudo: o Fantômas, que é homenageado numa cena de JUDEX, de Franju, espécie de remake de JUDEX (1916), do Feuillade. Importante dizer que tudo isso que eu estou escrevendo vem de pesquisa, pois eu mesmo não sabia da história do personagem e de sua importância dentro da cultura pop europeia. E já que estamos falando de descobertas através de pesquisa, fiquei também bastante surpreso ao saber que IRMA VEP, de Olivier Assayas, é inspirado em LES VAMPIRES, outra cinessérie de Feuillade. Assim, eis mais um nome para eu ficar de olho.

Quanto às minhas impressões sobre o filme, ele me pareceu bem estranho, no bom sentido do termo. Senti um pouco a falta de algumas cenas, como se tivessem retirado trechos durante a edição, tornando difícil às vezes entender a trama. De certa forma, isso é bom, pois nos deixa mais ligados no que está havendo e dá um ar surreal. Certamente é um filme que deve se beneficiar de uma revisão. A homenagem ao cinema mudo está presente principalmente no uso de cartelas que introduzem capítulos/sequências. Há uma cena antológica e que acontece logo no início, na cena do baile à fantasia, onde todos na festa usam cabeças de pássaros. Bizarro ver Judex entrando na festa e mostrando truques de mágica.

O filme começa com um homem rico e corrupto recebendo uma carta de Judex, que lhe dá um ultimato. A partir daí, uma série de acontecimentos movimenta a trama, mas nada disso valeria se Franju não desse ao filme uma atmosfera que une mistério, humor e aventura de um jeito que a gente, que se alimenta demais da cultura pop americana, está pouco acostumado.

quarta-feira, setembro 22, 2010

RIO, ZONA NORTE



A segunda incursão de Nelson Pereira dos Santos na direção foi bem mais tradicional que a sua estreia, com RIO, 40 GRAUS (1956), desta vez, seguindo um terreno seguro da estrutura clássica americana, mas ainda influenciado pelo neorrealismo italiano, com direito a muito sofrimento por parte do protagonista (Grande Otelo). A participação de Grande Otelo seria supostamente um chamariz para as bilheterias, já que o ator na época já era um astro das chanchadas da Atlântida, tendo feito diversos filmes em parceria com Oscarito. A participação de Ângela Maria, então uma cantora muito famosa, também era outro atrativo para o público, embora hoje em dia o tipo de música que ela faz possa soar bastante estranho aos nossos ouvidos pós-contracultura.

RIO, ZONA NORTE (1957) nasceu com a mesma equipe que fez o primeiro filme, instalada no casarão de Botafogo e vivendo com pouca grana. Desta vez, eles contaram com uma produção mais profissional, graças ao prestígio conseguido com a primeira produção de Nelson. O filme conta novamente com a presença de Jece Valadão e Zé Kéti, que participaram do filme anterior. RIO, ZONA NORTE lembra algumas obras de Vittorio De Sicca, com personagens sofridos, pobres e sem sorte na vida.

Grande Otelo faz o papel de Espírito da Luz, um sambista talentoso, mas que acaba sendo alvo dos espertinhos de plantão, que se aproveitam de sua ingenuidade para capitalizar em cima de seu trabalho. O filme já começa em tom trágico, com a imagem de Espírito da Luz caído inconsciente em cima de um vagão de trem. Seu passado recente é descortinado através do velho uso dos flashbacks. Ao contrário do que eu pensava, as sequências musicais mais agradam do que aborrecem. Inclusive, alguns sambas, compostos pelo Zé Kéti, são mesmo muito bonitos. Pena que o filme teve uma distribuição muito ruim, o que acarretou em um tremendo fracasso de bilheteria, não chegando sequer a se pagar. Mas o tempo tratou de dar a devida importância à obra.

terça-feira, setembro 21, 2010

O QUE RESTA DO TEMPO (The Time that Remains)



Não consigo evitar de fazer comparações entre Elia Suleiman e Amos Gitai. Nem sei se os dois cineastas têm alguma rixa, mas sei que os seus povos têm. Suas maneiras de abordar a questão "judeus vs palestinos" na panela de pressão que é o Estado de Israel e arredores são também distintas. Enquanto Gitai parece encarar essa briga como ridícula e que poderia ser utopicamente resolvida de maneira pacífica (vide a cena do trem em APROXIMAÇÃO), Suleiman prefere meter o dedo na ferida, escancarar a brutal invasão que foi o acordo imposto em 1948, que deu origem ao Estado de Israel e que transformou os palestinos em marginais. Os mais revoltados preferiram ficar e iniciar uma luta armada e de nervos que se estende até os dias de hoje.

Em O QUE RESTA DO TEMPO (2009), Suleiman usa de seu humor sarcástico, que com apenas dois filmes vistos já é possível se familiarizar, para mostrar mais uma vez o ponto de vista dos palestinos no conflito. E comparando com INTERVENÇÃO DIVINA (2002), o novo filme é muito mais pessoal. Afinal, ele trata da história de vida de seu pai e dele mesmo, embora sua participação no último ato do filme, já como adulto, seja quase um banho de água fria num filme que estava indo muito bem. Mas ainda que eu não tenha gostado da última parte, acredito que ela não tenha sido gratuita. Mostrar, por exemplo, a morte da própria mãe, não deve ser uma experiência muito agradável.

O filme começa com um prólogo intrigante: um motorista de taxi atende um cliente e uma tempestade inesperada faz com que ele se perca do caminho. O misterioso cliente (o próprio Suleiman) não fala uma palavra. Começam os créditos de abertura, em árabe e em inglês. Resta ao espectador entender o que representa essa sequência para o filme. Que é composto de quatro momentos, todos ocorrendo em Nazaré: 1948, 1970, 1976 e os dias de hoje. Ele recorre a situações inverossímeis, ao humor à Jacques Tati e a situações até violentas e surpreendentes, como a cena do soldado que em vez de se render aos israelitas prefere tirar a própria vida com um tiro na cabeça. Há também uma clara admiração para com o pai, que é visto como uma espécie de herói hollywoodiano. Inclusive, ele é mostrado de pele clara, o que mostra não apenas a influência da cultura pop americana em Suleiman como uma certa romantização da figura paterna. No mais, ainda que nem sempre seja agradável - e ele não está aí para agradar, mas para incomodar mesmo -, o cinema de Suleiman é bem vindo.

segunda-feira, setembro 20, 2010

JORNADA NAS ESTRELAS II - A IRA DE KHAN (Star Trek: The Wrath of Khan)



Ao contrário do que eu esperava, não gostei mais de JORNADA NAS ESTRELAS II - A IRA DE KHAN (1982) do que do primeiro filme, de 1979. O que é uma pena, tendo em vista que este é o filme mais incensado pelos fãs. Se não me falha a memória, eu já tinha visto antes, na era do vhs. A cena da "morte" do Spock no final me pareceu tão canastrona por parte de William Shatner e Leonard Nimoy que parece teatrinho de escola. Aliás, o filme já começa com um tom propositalmente canastra, quando a personagem de Kirstie Alley, a capitã Saavik, também uma vulcana como Spock, participa de uma simulação com os demais membros da tripulação. Todos estavam fingindo e logo se percebe que há algo de estranho ali. Quando vemos que aquilo ali não é de verdade é que o filme ganha o tom que nos é familiar.

Ainda assim, as cenas em que Spock e Kirk demonstram a sua amizade soam um pouco forçadas, tentando dar suporte às cenas finais. Quanto ao eixo principal da trama, que é a briga entre a tripulação da Enterprise e um velho inimigo de Kirk, Khan (Ricardo Montalban), que sequestra Chekov e outro tripulante da Enterprise, quando eles faziam uma missão de reconhecimento para um projeto chamado Gênesis, não me pareceu tão empolgante. Gênesis, como o próprio nome indica, trata-se de um projeto de criação de vida em questão de minutos dentro de um planeta inabitado. Vida semelhante à vida na Terra. Interessante que mais uma vez a série trata de lidar com assuntos de natureza metafísica. Neste segundo filme, o homem se assemelha a Deus, graças à sua inteligência evoluída e aos progressos da ciência.

Nos extras do dvd, o compositor James Horner esclarece os temas de Kirk e Khan, que funcionam bem, principalmente na sequência final de batalha entre as duas naves, quando os dois temas se misturam numa harmonia curiosa, mas que passa desapercebida por quem está ligado apenas na ação. Alguns extras só interessam a trekkers, como aquele que mostra as roupas e armas usadoa pelos personagens dos filmes e da série. O tributo a Ricardo Montalban é apenas o diretor Nicholas Meyer falando de seu respeito pelo ator, velho conhecido de quem se lembra de A ILHA DA FANTASIA. A remasterização digital fez com que o filme ficasse novo de novo e mostra a importância de vê-lo no cinema. Ou numa televisão de tamanho maior.

P.S.: Ontem foi a estreia de BOARDWALK EMPIRE na HBO americana, com o primeiro episódio dirigido por Martin Scorsese. Logo, é uma série que deve atrair a atenção até de quem não acompanha séries. Vamos ver se é tudo que se espera.

domingo, setembro 19, 2010

RESIDENT EVIL 4: RECOMEÇO (Resident Evil: Afterlife)



Eis a melhor experiência que eu tive com o 3D até o momento. Sem dor de cabeça ou náuseas, efeitos especiais de primeira linha, sem muito exagero no uso de coisas sendo arremessadas para a plateia, excelente uso da profundidade de campo e a volta de Paul W.S. Anderson à direção da franquia que ele iniciou a partir dos populares games de Shinji Mikami. E já sei que boa parte dos apreciadores dos jogos não gostam nada dos filmes. Como não conheço os jogos e não sou nem pretendo ser um conhecedor deles, fico só com os filmes mesmo. E olhe lá, pois com a distância entre um e outro, eu acabo me esquecendo das tramas. Quer dizer, a cinessérie é mesmo para ser curtida e depois esquecida. Por isso, quem não espera uma trama profunda, complexa e inteligente de RESIDENT EVIL 4: RECOMEÇO (2010) pode muito bem curtir a sua narrativa movimentada.

A franquia, por si só, já tem um ótimo apelo comercial para o público, especialmente o masculino: em primeiro lugar, a presença estonteante de Milla Jovovich como a Alice, a moça que foi pega pela corporação Umbrella e que agora deseja se vingar. No final do terceiro filme, ela tinha adquirido a capacidade de se multiplicar, entre outros poderes impressionantes. Após a luta contra o grande vilão do filme, ela acaba por perder esses poderes, mas isso torna o filme até mais interessante. O que não quer dizer que os efeitos à MATRIX do início não voltem aqui e ali.

Outra personagem muito bem vinda da série é Claire, vivida pela bela Ali Larter, que apareceu em RESIDENT EVIL 3: A EXTINÇÃO (2007). Ela está presente em alguns momentos de ação bem interessantes. Destaque para a sequência da luta contra um monstro gigantesco segurando um machado igualmente gigantesco. Outra coisa legal do filme são esses monstros criativos. Inclusive, para quem gostou dos bizarros cachorros do primeiro filme, eles estão de volta nesta quarta parte. E outro nome, dessa vez masculino, que também contribui para tornar a diversão quase que uma festa, é o de Wentworth Miller, que ficou famoso pelo papel de Michael Scofield na já saudosa série PRISON BREAK. E não deixa de ser uma ironia ele aparecendo pela primeira vez dentro de uma jaula. Parece que não tem jeito: o ator foi feito pra viver encarcerado.

Os zumbis até que aparecem pouco, o que dá ao filme um ar ainda mais apocalíptico, especialmente quando tudo o que Alice vê, ao sobrevoar cidades com um pequeno avião é deserto. A não ser em Los Angeles, onde ela encontra multidões de zumbis famintos e um grupo esperando ser resgatado. No mais, o filme deixa um gancho para mais uma produção, o que é natural, já que os games também não param de sair. Mas recebo muito bem essa série. Deve ser a junção "mulheres bonitas + armas" (o que por si só já tem algo de bem fetichista) + zumbis + monstros originais que acaba por atrair a mim e a uma multidão de fãs. Ainda assim, o filme tem o seu momento NOSSO LAR. Não custa avisar. ;)

sexta-feira, setembro 17, 2010

AMOR À DISTÂNCIA (Going the Distance)



Quase toda semana tem uma comédia romântica estreando nos cinemas. É um filão que tem sido explorado à exaustão pelas distribuidoras, cada vez mais necessitadas de público, nesses tempos de competitividade com a internet e ingresso caro. E nada contra o gênero. Ao contrário: quem me conhece sabe que eu sou um apreciador, um sujeito sentimental. Mas é uma pena que a qualidade dos últimos exemplares tenha deixado tanto a desejar. É o caso também deste AMOR À DISTÂNCIA (2010), estrelada por Drew Barrymore e Justin Long. E Drew em comédia romântica já rendeu bons frutos. Quem não se emocionou com AMOR EM JOGO, LETRA E MÚSICA e COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ?

Mas o tempo passa e nem sempre os projetos que a atriz escolhe são os melhores. O tema do filme é até bem interessante e pontual: o dos relacionamentos à distância, nesses tempos de facilidade maior de contato virtual, com internet de banda larga e celulares com várias funções. Porém, a necessidade de contato físico é essencial quando se ama, não é? Aquela ligação telefônica (ou chat, ou mensagem etc.) que você tanto espera da pessoa amada não passa de um consolo. E, com um tema tão interessante e presente na vida de tantas pessoas em mãos, o filme resultou num romance bem água com açúcar e com diálogos constrangedores de tão ruins. Há também algumas situações de humor escatológico, mas até nesses momentos o filme não vai longe, como na cena do almoço após a noite de sexo em cima da mesa.

Os amigos do personagem de Justin Long também não parecem nada interessantes ou engraçados, como deveriam ser. A cena da primeira conexão entre o casal através de gostos musicais ou cinematográficos também é bem fraca. Por mais que algumas referências à década de 80 sejam legais, como "Take my breath away", canção tema de TOP GUN, ou quando tocam "Just like heaven" (The Cure), na trilha, AMOR À DISTÂNCIA é um filme que está aquém do talento de seus protagonistas. E querem ver um texto muito legal sobre o filme? Confiram as poucas mas belas palavras de Tiago Superoito em seu blog. Nem é bem sobre o filme, mas sobre amores à distância. E olha que ele nem aprofundou.

quinta-feira, setembro 16, 2010

RIO, 40 GRAUS



Fui inventar de fazer o trabalho de conclusão do curso de especialização sobre "Vidas Secas", o livro e o filme, e ainda estou bem enrolado na problematização. Enquanto isso, estou lendo o livro "Nelson Pereira dos Santos - O Sonho Possível do Cinema Brasileiro", de Helena Salem. E tenho achado a biografia de Nelson bastante interessante. Em geral, as biografias têm a vantagem de nos apresentar o contexto histórico em que se insere o biografado. E ler sobre o antes e o durante das filmagens de RIO, 40 GRAUS (1956) é bem mais do que ler sobre as dificuldades de produção, que se sabe serem muitas. Mas o que eu mais achei interessante no momento anterior à estreia de NPS na direção foi a sua ligação com o Partido Comunista.

Impressionante como grande parte dos intelectuais da época eram ligados ao comunismo. E no momento em que o filme foi rodado, o Partido Comunista foi contra a sua exibição. Eles achavam que uma obra de caráter tão popular como essa deveria ser lançada apenas depois da revolução, já que havia, de fato, uma conspiração para mudar radicalmente o sistema político brasileiro. Nelson não quis saber e foi rebaixado de seu cargo no partido por causa de sua desobediência. Ele em geral não gostava muito das imposições radicais do partido.

Quanto ao filme, não cheguei a gostar de verdade, ainda que reconheça seus valores, principalmente levando em consideração a precariedade da produção e as dificuldades encontradas. Do jeito que ficou, parece uma obra amadora. Mas não uma obra amadora da grandeza de um LADRÕES DE BICICLETA. Até as cenas de futebol são mal filmadas. Mas o nosso cinema ainda estava tateando por um caminho. A sequência musical no final ainda têm algo de chanchada da Atlântida e o drama dos personagens não é suficientemente forte para provocar comoção. Na verdade, não só vi o filme com certo distanciamento, mas incomodado com a cópia ruim. Tive que ver, inclusive, na tela do meu computador, pois nenhum dos meus players liam. Talvez isso tenha prejudicado um pouco a apreciação.

RIO, 40 GRAUS é um filme-painel que mostra a rotina difícil de garotos vendedores de amendoins e de pessoas pobres do morro. Foi o primeiro filme a mostrar o negro com realismo. Nelson, aproveitou os obstáculos que teve, quando foi obrigado a interromper as filmagens logo nos dois primeiros dias, para fazer amizade com os moradores do morro de Cabuçu. Moradores esses que seriam seus futuros atores, que contracenariam com profissionais como Jece Valadão e Glauce Rocha. A trama se desenrola em cinco pontos turísticos do Rio: Quinta da Boa Vista, Copacabana, Maracanã, Pão de Açúcar e Corcovado. No final, difícil não ficar com a canção "A voz do morro", de Zé Keti, na cabeça.

quarta-feira, setembro 15, 2010

ENTOURAGE - A SÉTIMA TEMPORADA COMPLETA (Entourage - The Complete Seventh Season)



E ENTOURAGE tomou novos rumos nesta sensacional sétima temporada (2010). Se na anterior, a série parecia mais uma agradável comédia romântica, focando menos no astro de cinema Vince Chase e mais em seus parceiros e suas aventuras amorosas, nesta sétima temporada, Vince teve todo o foco, graças à participação especial de Sasha Grey, a estrela pornô que se tornou conhecida dentro do mainstream depois que protagonizou CONFISSÕES DE UMA GAROTA DE PROGRAMA, de Steven Soderbergh. E devo dizer que ela mandou muito bem. É uma ótima atriz. Podem até dizer que é porque ela está interpretando a si mesma, mas as coisas não são bem assim. A menina é inteligente, esperta e eu acabei a seguindo no twitter.

Sua presença em ENTOURAGE trouxe mais "veneno" para a série. Afinal, Vince não estava apenas namorando e completamente apaixonado por uma estrela pornô, mas também começou a pirar de vez, a experimentar drogas e a desleixar do trabalho. A sétima temporada, portanto, pode-se dizer que é sobre uma paixão doentia, uma obsessão. E é fantástico que isso esteja finalmente ocorrendo na série, afinal todo mundo sabe que nesse ramo do show business já rolou esse tipo de relação e, quanto às drogas, já estava mais do que na hora de algum dos personagens partir para uma mais pesada, a fim de dar mais realismo ao show. Por mais que a tarefa de ENTOURAGE seja de entreter e que a série tenha um formato de meia hora, isto é, um formato de comédia, o envolvimento que criamos com os personagens ao longo dos anos e a qualidade dos textos e dos diálogos conta pontos para que a série se torne uma de nossas favoritas. Eu, pelo menos, posso afirmar isso sem dúvida.

A sétima temporada começou meio como quem não quer nada, com os personagens aparentemente seguindo uma rotina de vida mais ou menos tranquila, dentro do que pode ser tranquilo - já que todos, exceto Vince, são estressados ou neuróticos. Drama, o irmão mais velho de Vince que sonha em ser estrela de uma série de tv, recebe mais tarde a oferta de dublar um desenho animado; Turtle se envolve com uma garota latina, vai parar no México e fica todo enrolado com negociações com uma marca de tequila; Ari está cada vez mais psicótico e nervoso e isso afeta o seu casamento; e E. está um pouco apagado na temporada, mas serve como exemplo de equilíbrio.

Alguns episódios se destacam pela diversão, como o que trata de sexo anal. No seguinte, o tema é pêlos pubianos. Mas nada como os episódios finais, com Vince ficando cada vez mais pirado. As pontas se juntam no final, lindamente arquitetado por Doug Ellin. De arrepiar. Participações especiais de Christina Aguilera e Eminem em alguns dos momentos mais emocionantes da série.

O único problema desta temporada é que foi curta demais. Apenas dez episódios! E notícias dizem que a próxima será menor ainda (só seis!) e que será a última. Vai deixar saudades.

terça-feira, setembro 14, 2010

TRUE BLOOD - A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (True Blood - The Complete Third Season)



É uma pena que uma série que começou tão bem tenha chegado a uma situação tão lastimável, a ponto de denegrir o nome de Alan Ball, criador de uma de minhas séries favoritas de todos os tempos, A SETE PALMOS. O distanciamento de Ball em relação à série ficou evidente nesta terceira temporada de TRUE BLOOD (2010). O próprio criador parecia estar envergonhado de sua criação, tendo em vista a fraca segunda temporada.

E com esse negócio de colocar lobisomens junto com vampiros em tudo quanto é canto, aí é que a comparação de TRUE BLOOD com a "Saga Crepúsculo" se torna ainda mais evidente. Com a diferença que há uma pouco mais de pimenta no molho da série, pelas cenas de sexo e gore espalhafatoso. Mesmo os bons episódios da terceira temporada acabaram servindo apenas como mero entretenimento de quase uma hora que logo seria esquecido no dia seguinte. Nem mesmo as namoradas de Jason, que eram um espetáculo à parte nas temporada anteriores foram interessantes. Apareceu uma loira chata e sem graça por quem ele ficou apaixonada numa subtrama totalmente descartável. Aliás, todos os novos personagens são totalmente despitos de interesse. Quem ainda desperta simpatia sempre que aparece é a jovem vampira Jessica.

O triângulo amoroso entre Bill, Sookie e Eric poderia ter sido mais ousado. Acabou não rendendo nada de bom. Talvez estejam guardando para a próxima temporada, quando já estará em cena o parrudão lobisomem como mais um possível interesse amoroso para a Sookie. O mundo mágico, agora também habitado por homens-panteras, bruxos e fadas, vai perdendo cada vez mais a verossimilhança que existia na bem conduzida primeira temporada. Ainda assim, diria que o único episódio escrito por Alan Ball, o último da temporada, trouxe algo de interessante, ganchos mais ou menos intrigantes com relação ao destino de quatro personagens importantes da série: Sookie, Bill, Sam e Tara. Mas nada que nos deixe ansiosos para ver logo a próxima. Ao contrário, fica a dúvida se vale a pena continuar investindo tempo numa série tão desleixada. Será que eles ainda conseguem se reerguer? Acho difícil.

segunda-feira, setembro 13, 2010

NAS GARRAS DO VÍCIO (Le Beau Serge)



E o domingo amanheceu cinza ontem. Depois do nosso querido Eric Rohmer partir, outro grande realizador da Nouvelle Vague se foi: Claude Chabrol (1930-2010). E é importante ressaltar que ele estava em seu auge criativo. Ou pelo menos, num de seus melhores momentos. Da turma de Chabrol, seguem sobrevivendo Jean-Luc Godard, Alain Resnais e Jacques Rivette. Em homenagem a Chabrol, escolhi para ver o seu filme de estreia, NAS GARRAS DO VÍCIO (1959), que já mostrava a sua excelência como diretor. Está entre os melhores filmes de estreia já feitos, segundo uma eleição feita pela extinta e saudosa revista Paisà. E, apesar de não ser um típico Chabrol, que virou sinônimo de suspense requintado, com mortes e tramas intrincadas, trata-se de um drama humano sobre amizades, superações e frustrações.

O filme é estrelado por um dos mais famosos rostos do movimento, o de Jean-Claude Brialy, que interpreta o jovem François, que volta para o vilarejo onde nasceu, depois de um período de doze anos. Ele volta para se recuperar de uma doença que não é explicitada, mas que dá a entender que se trata de uma tuberculose. A primeira coisa que lhe chama a atenção quando ele chega na cidade é ver que o seu melhor amigo, Serge (Gérard Blain), tornou-se um alcóolatra. Ele fica obcecado em ajudar o amigo, que agora está casado e com uma mulher grávida. Uma personagem feminina marca esse retorno de François ao lugar, a sensual Marie, vivida por Bernadette Lafont, atriz muito interessante que estaria também em outros trabalhos de Chabrol, como QUEM MATOU LEDA? (1959), MULHERES FÁCEIS (1960) e LES GODELUREAUX (1961).

Ainda que muitos lembrem mais de ACOSSADO, de Godard, e de OS INCOMPREENDIDOS, de Truffaut, NAS GARRAS DO VÍCIO estreou antes. É, portanto, o primeiro filme da Nouvelle Vague, ainda que siga uma estrutura um pouco mais clássica do que os trabalhos dos seus colegas. Se bem que o final não é nada clássico. Felizmente, Chabrol nos deixou um legado de muitos filmes. E uma obra ainda inédita em nosso circuito comercial, BELLAMY (2009), mais um thriller criminal.

sexta-feira, setembro 10, 2010

PIRANHA



Com a expectativa em torno de PIRANHA 3D, o remake de Alexandre Aja, previsto para estrear ainda este ano, bem como o novo filme de Joe Dante, THE HOLE (2009) - previsto para o ano que vem e também em 3D -, senti-me na obrigação de ver o PIRANHA (1978) original. Mas "obrigação" é um termo que não se aplica para a delícia que é ver este belo thriller que aproveita descaradamente o sucesso de TUBARÃO, de Steven Spielberg, para entrar no filão dos filmes que mostram bichos assassinos das águas. Eu mesmo subvalorizava o filme, acreditando ser apenas um apanhado de cenas de jovens nadando no rio e sendo devorados pelas criaturas carnívoras. Mas a trama do filme, o seu bom desenvolvimento e a dimensão mais profunda criada para os personagens de Heather Menzis e Bradford Dillman tornam PIRANHA um pequeno clássico de sua época. A produção, vale dizer, é de Roger Corman, o rei dos filmes B, e o filme ainda conta com a participação especial da rainha dos filmes italianos de horror, Barbara Steele.

O filme começa com um casal de jovens que ultrapassam uma cerca à noite. Eles estão em busca de aventuras e nadar nus naquela piscina proibida poderia ser uma boa ideia. Mas que nada. Deles, só restam as roupas. Semanas depois, Heather Menzis é enviada para saber o paradeiro dos dois jovens e faz amizade com um sujeito pouco disposto a socializar, vivido por Bradford Dillman. Os dois vão parar no tal lugar que foi palco da morte dos dois jovens. E acabam descobrindo que ali funciona um laboratório científico que estuda mutações. Inclusive, em determinada cena, até vemos rapidamente um monstrinho passeando pelo laboratório. Difícil não lembrar de GREMLINS (1984), que Dante faria anos depois.

PIRANHA até hoje é um entretenimento de qualidade. E ao contrário do que se pode prever, as piranhas de Joe Dante são até mais convincentes do que o tubarão que pouco aparece de Spieberg. Há um cuidado bem maior com efeitos especiais. Os peixinhos de carinha antipática importados do Brasil e transformados em monstrinhos aterrorizam mesmo. Principalmente na cena em que eles atacam a balsa usada pelos protagonistas, entre outras sequências memoráveis. Ah, e a trilha sonora, se não é tão memorável quanto a do John Williams para TUBARÃO (sempre comparando), é até mais sofisticada, feita pelo grande maestro Pino Donaggio. Coisa linda, hein!

quinta-feira, setembro 09, 2010

A ESTRELA NUA



A lembrança que eu guardava de A ESTRELA NUA (1984) era da famosa cena do baseado feito dos pêlos pubianos de Carla Camurati. Em minha mente perversa de adolescente, eu queria saborear aquele cigarrinho artesanal, feito sob os efeitos loucos e ébrios da mente da personagem. Apesar das cenas de sexo e nudez (não deixei de reparar que os seios da Carla estão maiores neste filme do que nos anteriores da dupla José Antonio Garcia e Ícaro Martins), este não é dos mais eróticos filmes da "trilogia".

O OLHO MÁGICO DO AMOR (1981) e ONDA NOVA (1983) tinham uma carga erótica muito maior. Já A ESTRELA NUA, é um dos poucos exemplares do cinema brasileiro que flertam com o fantasmagórico, com o sobrenatural. Na trama, Glorinha (Camurati) é convidada a assumir a dublagem de Ângela (Cristina Aché), uma atriz que acabara de se suicidar. A voz das duas são semelhantes e tudo parece perfeito para a finalização do filme. Acontece que Glorinha passa a ser perturbada por visões de Ângela. O filme que está sendo rodado tem uma temática à Nelson Rodrigues, com escândalos familiares, incestos e grandes tragédias.

Glorinha passa a assimilar essa carga trágica e a ver coisas, sem encontrar auxílio dos amigos e tendo que lidar com a difícil vida de mulher separada e com um filho pequeno. Alguns momentos são memoráveis e ao mesmo tempo fáceis de irem para o subconsciente, tendo em vista seu caráter onírico, como a cena de Glorinha na banheira rodeada de velas. Ou quando ela tenta espantar o espírito de Ângela colocando alhos nas frestas da porta.

A ESTRELA NUA, ainda que não alcance uma profundidade maior no aspecto sobrenatural e nem no sensual, é um filme muito gostoso de ver, como eram também os anteriores de Garcia e Martins. Sem dúvida, uma dupla que rendeu três obras totalmente distintas em tom, mas que trazem o prazer de se ver um bom filme. Coisa que poucos conseguem hoje em dia em nosso cinema.

Agradecimentos a Adilson Marcelino pela ótima cópia.

quarta-feira, setembro 08, 2010

QUANDO ESTRANHOS CHEGAM (When Strangers Appear)



Um dia desses uma colega de trabalho me falou que tinha visto durante a madrugada no Corujão um filme de suspense chamado QUANDO ESTRANHOS CHEGAM (2001). Ela perguntou se eu já tinha visto e eu, a princípio, achei que devia se tratar de QUANDO UM ESTRANHO CHAMA, de Simon West - que eu adoro. Mas quando ela falou que a protagonista era uma loirinha, logo vi que não era. Pesquisei na internet e quando vi que era com a Radha Mitchell, fiquei logo feliz, e vi que era possível consegui-lo através de download. QUANDO ESTRANHOS CHEGAM chegou a ser lançado em dvd no Brasil, sem muito alarde, já que se trata de uma produção de baixo orçamento. Não sei em que ano foi lançado e talvez seja fácil de ser encontrado em locadoras, mas cheguei a ver num site que o dvd é raro e que cobram uma pequena fortuna por uma cópia original. O que é uma bobagem se a edição nacional não tiver respeitado a janela correta do filme, em scope.

Pois bem. Lembram quando eu disse que Radha Mitchell dá sorte em filmes de terror e suspense, quando escrevi sobre A EPIDEMIA e sobre MORTE SÚBITA? A regra continua valendo para QUANDO ESTRANHOS CHEGAM, um desses thrillers de deixar o espectador se segurando na cadeira, com a frequência cardíaca alterada e talvez até com as mãos frias. O filme também tem aquele jeitão de noir dos anos 40 misturado com aquele clima de western, já que se passa numa cidadezinha no meio do nada do interior dos Estados Unidos. Radha Mitchell trabalha num café, desses que vivem vazios. Por isso ela trabalha sozinha. Mais tarde veremos que ela também dirige um motel na cidade, lugar também praticamente deserto. O que faz lembrar PSICOSE, de Alfred Hitchcock.

Sua personagem é Beth, uma linda e ousada mulher que não teme sujeitos suspeitos como Jack, um rapaz que aparece sozinho com um carro contendo uma prancha de surfe em sua parte de cima. Ela começa a lhe fazer perguntas, o que o faz se sentir como se estivesse num interrogatório. As coisas se complicam quando entra em cena um grupo de sujeitos encabeçados por Peter, o personagem de Josh Lucas. O grupo de deliquentes desrespeitam Beth e se sentem os donos do pedaço. Jack se esconde e pede para ela ficar em silêncio, pois esse grupo está à sua procura. Quanto mais as coisas se complicam, melhor o enredo se desenvolve, com personagens canalhas, como o xerife da cidade.

QUANDO ESTRANHOS CHEGAM é desses pequenos filmes que merecem ser descobertos. Uma pequena joia escondida e subvalorizada em alguma seção de filmes de suspense em alguma locadora ou, com sorte, em algum balaio de um grande magazine. O diretor neozelandês, Scott Reynolds, é pouco conhecido e trabalha mais na região da Oceania. Tanto que QUANDO ESTRANHOS CHEGAM é uma co-produção Austrália-Nova Zelândia-Estados Unidos. E, apesar de a trama se passar nos Estados Unidos, a produção foi toda rodada na Nova Zelândia.

terça-feira, setembro 07, 2010

[REC] - POSSUÍDOS / [REC]2 - POSSUÍDOS ([REC]²)



Há uma resistência muito grande por parte do público brasileiro a filmes falados em outra língua que não o inglês. Ou que não sejam dublados em nossa língua. Acredito que se os westerns spaghetti não fossem distribuídos em língua inglesa não teriam tido o mesmo sucesso internacional que tiveram. Os filmes de horror orientais também tiveram que ter um empurrãozinho dos americanos e seus remakes para que fossem descobertos. E não sei como era no tempo em que passavam nos cinemas filmes de kung fu: se eram dublados ou legendados, quando faziam sucesso nos extintos cinemas de cidadezinhas do interior. Claro que eu estou me referindo ao circuito mais comercial, ao que o público médio geralmente gosta. As salas alternativas estão aí cheias de filmes de todas as nacionalidades, com o franceses dominando na frente.

Por isso que eu acredito que a distribuidora PlayArte ficou pisando em ovos, procurando um meio de tornar mais bem sucedido o lançamento da continuação de [REC] (2007), de Jaume Balagueró e Paco Plaza. O original não foi tão bem nas bilheterias brasileiras principalmente por ter se tornado um sucesso nos sites de compartilhamento, bem antes de chegar aos cinemas nacionais. Daí vieram os adiamentos da estreia da continuação e, de última hora, a mudança do título nacional para [REC] - POSSUÍDOS (2009), sem o número 2 que aparecia antes. O resultado é que ficou um filme com dois títulos, pois já haviam sido distribuidos vários cartazes com o número 2. Aí seria tarde demais para enganar um público que poderia desistir de vê-lo por se tratar de uma continuação, o público que não viu o original. Coisas de marketing. Que no fim das contas talvez nem ajude o filme a ficar mais tempo em cartaz. Até porque o resultado final de [REC] - POSSUÍDOS não é muito satisfatório. Passa longe da carga de tensão e originalidade que o anterior possuía.

Mas como fazer, então, uma continuação de um filme do tipo sem não cair na repetição? De certa forma, Paco Plaza e Jaume Balagueró até conseguiram trazer novidades. Mas isso não quer dizer que elas vieram para o bem do filme. Em [REC], vimos uma repórter fazendo uma matéria sobre a rotina noturna de um grupo de bombeiros. Eles vão parar num edifício, que apresentava pessoas contaminadas e raivosas, como zumbis. Quer dizer, era um filme de zumbis na tradição de George A. Romero, com a diferença que era usada a câmera na mão para dar mais realismo, como em CLOVERFIELD e A BRUXA DE BLAIR.

Mas o que dizer quando resolvem dar uma explicação demoníaca para os zumbis? Os contaminados seriam, então, possuídos por entidades diabólicas. E um padre está lá para assumir a missão de levar um grupo de policiais - que também levam uma câmera ligada o tempo todo - para uma solução meio estapafúrdia. Mas se ao menos a história fraca não atrapalhasse o clima de tensão que era tão bom no primeiro filme. Aqui parece ser tudo feito no piloto automático. Nem mesmo quando o filme muda o ponto de vista, ele se recupera. Uma pena. Mais sorte nos próximos projetos de Balagueró, que é um cineasta do meu interesse desde A SÉTIMA VÍTIMA (2002). Já vi que seu próximo projeto se chamará MIENTRAS DORME, previsto para o próximo ano. Já Paco Plaza, esse sim, continuará com a franquia [REC] sozinho. Agora, com uma prequela.

segunda-feira, setembro 06, 2010

NOSSO LAR



"Comamos e bebamos, que amanhã morreremos".
(I Coríntios 15:32b)


Como diz o texto do apóstolo Paulo, acima, eu cheguei a pensar, vendo os espíritos dos mortos só tomando água e sopa sem gosto na colônia Nosso Lar, que devemos aproveitar mesmo os prazeres sensoriais enquanto estamos vivos. Mas ao mesmo tempo, não devemos nos apegar demais ao físico. É algo que parece contraditório, mas tudo depende da consciência. Lembro das palavras de Osho, que dizia que poderíamos fazer o que quiséssemos, mas que estivéssemos conscientes. Estar consciente parece ser a chave para se ter uma boa travessia. Mas não apenas, de acordo com o que vemos no segundo filme espírita brasileiro do ano.

NOSSO LAR (2010), se não tem a mesma qualidade de dramaturgia e de direção de CHICO XAVIER, de Daniel Filho, também não é um filme que deva ser desprezado ou visto apenas como veículo de divulgação do Espiritismo Kardecista. Claro que o filme possui inúmeros problemas. Como as cenas no purgatório, por exemplo, que destoam das cenas na cidade de luz que acolhe os espíritos desencarnados. Essas contaram com efeitos visuais da equipe de WATCHMEN. Ao mesmo tempo, fica algo de brega ou datado no modo como aquele cenário de ficção científica é mostrado, com suas camas suspensas e seus computadores de "última geração", com direito a arquivos contendo as orações das pessoas na Terra pelo morto.

O protagonista de NOSSO LAR é André Luiz, interpretado pelo ator de teatro Renato Prieto. Ele é um médico dos anos 30/40 que, como muitos profissionais da área, não prestam serviços gratuitos à comunidade. Depois de passar um longo tempo numa espécie de purgatório, sentindo dores no corpo e na alma, ele é resgatado por espíritos de luz, que o levam para um lugar onde poderá ser tratado. Ele acorda atordoado, sendo monitorado por Lisias (Fernando Alves Pinto), que diz que todas as respostas para suas perguntas aparecerão no devido tempo.

Uma das personagens mais interessantes e que pelo menos destoa daquele cenário cheio de gente vestida de branco é Eloisa, vivida por Rosane Mulholland, que aliás, é a única que não aparece de branco, entre os já recuperados, se eu não me engano. Ela também parece ser uma das poucas que se rebelam com o fato de estar morta e quer voltar para a Terra, para o seu namorado. A personagem seria melhor aproveitada se as suas falas e a direção de atores não fosse tão ruim.

O responsável pela direção do filme, cujo nome só aparece nos créditos finais, é Wagner de Assis, diretor de A CARTOMANTE (2004) e roteirista de quatro filmes da Xuxa. Mas creio que ele prefira que não espalhem isso pra ninguém, a fim de não queimar o filme do filme. A seu favor, além dos já citados efeitos visuais, também são importados a trilha sonora, de Phillip Glass, e a direção de fotografia, de Ueli Steiger, de O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, entre outros trabalhos para Roland Emmerich. Werner Schünemann é o famoso espírito Emmanuel e Othon Bastos é o Governador da colônia, que conta com uma sala com símbolos de várias religiões. Afinal, o filme tem a intenção de falar a todos.

sexta-feira, setembro 03, 2010

OBRERAS SALIENDO DE LA FÁBRICA



Listas de filmes favoritos, feitas por cineastas, sempre são objeto de curiosidade. De repente até pode ser uma chance de se buscar uma chave para a temática do diretor, mas também para descobrirmos um filme novo, desconhecido, um objeto estranho para nós. Quando foi disponibilizado o top 10 de Apichatpong Weerasethankul, logo após ele ter ganhado a Palma de Ouro em Cannes por UNCLE BOONMEE WHO CAN RECALL HIS PAST LIVES, um dos filmes que mais me chamou a atenção foi o desconhecido (pelo menos para mim) OBRERAS SALIENDO DE LA FÁBRICA (2005), curta-metragem chileno de José Luis Torres Leiva.

E eu já comentei aqui sobre a falta de tempo para ver filmes que eu estou tendo. "Muito trabalho e pouca diversão fazem de Ailton um bobão", um certo personagem diria. Por isso optei por um curta-metragem para manter o blog vivo. Mas quando faço isso, não opto por um curta-metragem qualquer, mas um especial, como esse, um dos favoritos de um cineasta incensado pela crítica mundial. E não deixa de ser uma ironia eu estar vendo um dos favoritos de Weerasethakul sem ter visto sequer um trabalho do diretor tailandês.

Como não dá pra dizer muita coisa de um curta-metragem sem estragar o prazer de vê-lo, é preciso ser sucinto. OBRERAS SALIENDO DE LA FÁBRICA, em seus quase vinte minutos, mostra, sem diálogos, um pouco da rotina de um grupo de mulheres que trabalham numa fábrica de tecelagem. Na primeira cena, vemos uma senhora idosa, tentando respirar, enquanto deixa seus pertences no armário. As mais jovens parecem estar mais dispostas naquele ambiente barulhento e fechado. Trata-se de um filme que valoriza a necessidade de respirar. Mas também pode ser bem mais do que isso. Curtas têm essa capacidade de síntese que faz com que seja necessário uma ou mais revisões para que possamos apreender seus temas e significados. É como uma poesia, que também necessita de um estado de espírito aberto para se entrar em sintonia. Claro que me refiro a curtas especiais.

Para quem não sabe e ficou curioso com o top 10 do tailandês de nome difícil de pronunciar, ei-lo (só vi três):

THE UNCHANGING SEA (D.W. Griffith, 1910)
SON OF THE NORTHEAST (Vichit Kounavudhi, 1982)
OBRERAS SALIENDO DE LA FÁBRICA (José Luis Torres Leiva, 2005)
A CONVERSAÇÃO (Francis Ford Coppola, 1974)
VALENTIN DE LAS SIERRAS (Bruce Baillie, 1971)
AMANTES (John Cassavetes, 1984)
ADEUS, DRAGON INN (Tsai Ming-liang, 2003)
SATANTANGO (Béla Tarr, 1994)
SALÒ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (Pier Palo Pasoloni, 1975)
CHELSEA GIRL (Andy Warhol, 1966)

quinta-feira, setembro 02, 2010

CORRIDA CONTRA O DESTINO (Vanishing Point)



O Presidente do Festival de Veneza de 2010 Quentin Tarantino, em seu À PROVA DE MORTE, acabou me dando um empurrãozinho para que eu finalmente visse esta importante obra, talvez o mais importante filme sobre carros já feito. CORRIDA CONTRA O DESTINO (1971), de Richard C. Sarafian, não é apenas um filme para cultuadores de carros, mas também uma obra que lida com o sentimento de busca pela liberdade, não necessariamente do ponto de vista do protagonista, pois dele nós pouco sabemos. Sabemos que ele quer chegar a algum lugar, quer cruzar do Colorado até San Francisco, num território basicamente deserto, na velocidade mais rápida que puder, em seu Dodger Challenger, de 1970. Aliás, o filme pode funcionar como uma bela e longa propaganda do carro, que deixa todos os seus perseguidores no mínimo comendo poeira.

A busca pelo espírito libertário é representada principalmente pelo DJ cego Supersoul. Ao ter acesso à sintonia das rádios da polícia rodoviária sobre o misterioso motorista que não consegue ser parado por ninguém, ele vê em Kowalski (Barry Newman) a figura do herói injustamente ameaçado pelo sistema. Em CORRIDA CONTRA O DESTINO, há pouco espaço para diálogos ou mesmo para uma introdução da trama. Só aos poucos vemos alguns flashbacks que ajudam a entender apenas um pouco os motivos de um homem que é piloto de corridas estar empreendendo essa corrida. Há também algumas pessoas que cruzam o seu caminho, como o velhinho que pega serpentes no deserto. Mas a mais memorável mesmo é a moça que dirige nua uma motocicleta. Sua presença, ainda que pudesse ser descartada da trama principal, é além de bela e sensual, bastante intrigante. Surreal até. Outra personagem que chama a atenção no pouco tempo de cena que aparece é a de Charlotte Rampling. Eu, que só conheci a atriz em sua fase madura, não sabia de sua beleza quando jovem.

A homenagem que Tarantino faz ao filme no seu À PROVA DE MORTE foi mais do que justa. E vendo CORRIDA CONTRA O DESTINO percebemos o quanto os filmes dos anos 70 eram contestadores e adultos. Ainda mais levando em consideração que o comportamento suicida de Kowalski não é lá um exemplo a se seguir, ainda que não deixe de ser admirável. Mas aqueles eram outros tempos e o cinema tinha conquistado uma liberdade de expressão com a nova Hollywood que até parece que os cineastas queriam botar pra fora tudo o que não podiam falar durante os anos de censura.

CORRIDA CONTRA O DESTINO ganhou um remake em 1997, estrelado por Viggo Mortesen, mas muitos dizem ser bem descartável.