quinta-feira, maio 31, 2007

SUNSHINE - ALERTA SOLAR (Sunshine)



Uma pena que SUNSHINE - ALERTA SOLAR (2007) tenha saído em poucas cópias no Brasil e tenha recebido pouco espaço da mídia. O filme tem ficado pouco tempo em cartaz, mesmo em cidades grandes. Acredito que ver esse filme na tela pequena diminui muito do prazer de ver na telona. O impacto de ver o Sol, as naves e o espaço sideral na telona não tem preço. Interessante notar que o cinema de ficção científica, especialmente os que se passam dentro de naves espaciais, anda bastante sumido de nossas salas. Não sou entusiasta do gênero, mas de vez em quando sinto falta de filmes desse tipo. Os títulos que o longa de Danny Boyle guarda mais lembrança são 2001 - UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick; O ENIGMA DO HORIZONTE, de Paul Anderson; e ALIEN - O OITAVO PASSAGEIRO, de Ridley Scott. Mas é com o filme de Kubrick que SUNSHINE anda recebendo mais comparações, guardadas as devidas proporções. Isso se dá devido, principalmente, ao andamento lento de ambos e pela semelhança com o computador que monitora a nave, representado em ambos por uma voz suave.

Entre os rostos mais conhecidos do filme, temos o estranho Cillian Murphy, a bela Rose Byrne (que está no elenco de EXTERMÍNIO 2), Chris Evans (o Tocha Humana dos filmes do Quarteto Fantástico) e Michelle Yeoh, que vive revezando produções de Hong Kong com produções made in Hollywood. Lembrando que SUNSHINE não foi produzido nos Estados Unidos, é um filme independente de orçamento generoso produzido na Inglaterra.

Na trama, uma nave, a Icarus II, tripulada por seis homens e duas mulheres, tem a missão de jogar no centro do Sol uma gigantesca bomba nuclear para reavivar o astro-rei, prestes a morrer. Essa é a única chance de a Terra - vivendo num inverno permanente - sobreviver. Para isso, os tripulantes precisam agir como heróis, perdendo até mesmo suas vidas se necessário para salvar o planeta. O maior medo deles é não conseguir chegar ao seu destino, já que a primeira nave Icarus desapareceu sem cumprir a sua meta. Até chegar lá, ficamos com um fascinante visual, diálogos poucos mas bem escritos, o sentimento de solidão diante da imensidão do espaço, e o medo da morte, que se manifesta nos sonhos dos tripulantes - há o sonho recorrendo de eles sendo queimados vivos ao chegarem no Sol. O único ponto negativo do filme acontece no final, quando surge um clímax bem lugar comum e que estraga um pouco o resultado. Por causa desse clímax, SUNSHINE perde a chance de ser um grande filme.

Ainda assim, é o melhor e mais maduro filme de Danny Boyle, cineasta que começou muito bem, com o thriller COVA RASA (1994), mas que foi perdendo a força nos trabalhos seguintes. O roteirista de SUNSHINE é o mesmo Alex Garland que trabalhou com Boyle em EXTERMÍNIO (2002) e em A PRAIA (2000). Boyle não tem uma marca reconhecível nos seus trabalhos - o que seria sinal de falta de autoralidade - nem tem regularidade, mas depois de SUNSHINE, ele ganhou uma nova chance comigo.

quarta-feira, maio 30, 2007

UM SÓ PECADO (La Peau Douce)



Enquanto preparava-se para rodar FAHRENHEIT 451 (1966), François Truffaut dirigiu um filme sobre adultério: UM SÓ PECADO (1964). Trata-se de um filme que o cineasta considera como sendo um fracasso, embora a relação que ele tenha com o fracasso não seja de todo ruim. Ele falou numa entrevista - constante do livro "O Cinema segundo François Truffaut" - que o fracasso, para ele, é até estimulante, lhe dando mais vontade de acertar nas próximas vezes. Por outro lado, os filmes de sucesso, como OS INCOMPREENDIDOS (1959) e JULES E JIM (1962), lhe renderam violentas crises de depressão.

O que eu mais senti falta em UM SÓ PECADO foi da sensação de incômodo provocada pelo adultério. Eu me senti até um pouco indiferente ao drama do protagonista, um crítico literário especialista em Balzac, burguês, casado e com uma filha, que se apaixona por uma aeromoça bem mais jovem do que ele. Senti falta de uma identificação maior com ele. Essa sensação de perturbação no lar, Truffaut só iria conseguir de verdade no excepcional DOMICÍLIO CONJUGAL (1970), quando a briga do casal me incomodou bastante, a ponto de eu ir às lágrimas. (O fato de a esposa ser a Claude Jade ajudou muito.)

Quando li a entrevista do Truffaut e ele disse que gostava de personagens fracos, frágeis, eu me lembrei de quando eu cometi o meu ato de traição na época que namorava uma menina. A outra, uma escorpiana, o pivô do fim do relacionamento estável com a sagitariana, ao ver o quanto eu estava confuso em me decidir com qual das duas ficar, me falou que eu era fraco. E devo ser mesmo. Acho até que eu daria um bom personagem de um filme de Truffaut. Truffaut dizia que não gostava de filmes de heróis fortes, como os com o Errol Flynn ou os filmes do Tarzan. Eu até tenho uma certa admiração por alguns personagens fortes, como o dos filmes da juventude de Clint Eastwood, por exemplo, mas isso é exceção. Assim como Truffaut, também tenho uma necessidade de identificação, e nesse sentido, sempre me identifiquei mais com o Woody Allen do que com o Charles Bronson, por exemplo. Inclusive, até no que se refere às cantoras, tenho mais atração pelas de voz frágil, como Marina Lima e Fernanda Takai, do que por aquelas de voz forte. (Não sei se isso tem a ver com o assunto em questão, mas achei por bem mencionar.)

Um elemento que é bastante característico da obra de Truffaut - existe adjetivo para Truffaut, como "truffautiana"? - é o personagem marginal. Para acentuar essa marginalidade, em UM SÓ PECADO, há um contraste entre o mundo do protagonista, um homem que tem mais intimidade com os mortos (Balzac e outros escritores do passado) do que com os vivos, e uma jovem que tem um emprego moderno, ligado à aviação. Outro elemento forte do diretor: ele dizia que se identificava com os culpados e atribuía isso ao fato de ele ter matado as aulas para ir ao cinema diversas vezes durante a infância e a adolescência. Assim, ele se sentia atraído pela transgressão. Ele conta que, quando jovem, não gostava dos livros infantis, mas que se identificou de alguma maneira com a protagonista de "Madame Bovary". Em UM SÓ PECADO, os três personagens principais, o escritor, a amante e a esposa, de alguma forma cometem crimes ou pecados. E, apesar de Truffaut não ser um cineasta católico - pelo menos, eu acredito que não -, o final desses envolvimentos extraconjugais é quase sempre trágico. Mas isso talvez se deva mais ao fato de ele ser pessimista do que de ser religioso ou moralista. Quanto ao final, confesso que fiquei surpreso com a mudança de tom e com a forma abrupta com que o filme se encerra. A figura da mulher com um fuzil parece mais ligada a filmes exploitation do que a um drama realista sobre adultério, mas, passados alguns dias depois que vi o filme, até que eu vejo com bons olhos a ousadia de Truffaut.

terça-feira, maio 29, 2007

KEVIN SMITH EM DOIS FILMES



Cheguei à conclusão de que eu não gosto do Kevin Smith. Ver os dois CLERKS dele foi uma tarefa um tanto quanto chata. O BALCONISTA (1994) e sua continuação, CLERKS II (2006), só não são mais chatos do que DOGMA (1999) e O IMPÉRIO DO BESTEIROL CONTRA-ATACA (2001). A insistência de Smith em mostrar sempre os mesmos personagens, principalmente os chatonildos Jay e Silent Bob, chega a ser irritante. O problema não é trazer de volta seus personagens com o objetivo de imprimir uma marca autoral, o problema é que esses personagens-malas não têm a mínima graça.

O BALCONISTA (Clerks.)

Talvez um pouco da culpa dos diálogos informais de O BALCONISTA seja de Quentin Tarantino, que dois anos antes soltou o seu CÃES DE ALUGUEL, com direito a diálogos sobre música da Madonna e sobre o ato de dar gorjeta. Nada contra o Taranta; sou fã dele. O problema é quando um nerd que só entende de STAR WARS se mete a fazer algo parecido. Aí resulta nisso aqui. (Se bem que eu também senti influências de SEINFELD e dos filmes de Martin Scorsese nos diálogos.) Fotografado em preto e branco, O BALCONISTA é um filme que não vai a lugar nenhum sobre dois amigos. Um deles trabalha numa loja de conveniência (Brian O'Halloran) e o outro (Jeff Anderson), numa videolocadora. O fiapo de estória que existe gira em torno das namoradas de Dante (O'Halloran). Bem mais fraco do que eu imaginava. E não é pelo fato de não ter estória, mas pelo fato de os diálogos não sustentarem o filme.

CLERKS II

Ainda inédito no Brasil, CLERKS II surgiu de uma promessa que Kevin Smith fez ao ator Jason Mewes. Caso Mewes se afastasse das drogas, Smith o deixaria interpretar mais uma vez o personagem Jay. Bom, pelo menos pra alguma coisa o filme serviu. Se bem que se comparado com o primeiro filme, CLERKS II é até mais divertido, ainda que os diálogos nerds sejam mais incômodos. O que dizer daquela discussão besta sobre qual é a melhor trilogia: STAR WARS ou O SENHOR DOS ANÉIS? Parece coisa de menino de doze anos. E essa impressão de que Smith ainda é um adolescente se reflete no personagem de Jeff Anderson, que mesmo passados doze anos do primeiro filme, ainda tem como um dos passatempos preferidos dirigir carrinho de parque de diversão. Entre os nomes mais conhecidos do filme destacam-se Rosario Dawson, Jason Lee e Ben Affleck. Fiquei impressionado com o fato de que o filme recebeu uma ovação de oito minutos no Festival de Cannes. Será que ovação, nesse caso, foi o público jogando ovos?

Os únicos filmes de Smith que eu gostei foram PROCURA-SE AMY (1997) e BARRADOS NO SHOPPING (1995). E nos quadrinhos, detestei o arco que ele fez para o Demolidor, mas gostei da mini-série do Homem-Aranha com a Gata-Negra.

segunda-feira, maio 28, 2007

PRO DIA NASCER FELIZ



Muitas vezes o valor de um filme está na capacidade que ele tem de ficar grudado em nossa memória. Vi PRO DIA NASCER FELIZ (2006) na quarta-feira passada e o filme não me sai da memória. E de vez em quando eu me pego emocionado com a lembrança de algumas passagens. Engraçado que eu nem sou de comentar sobre os filmes que vejo na escola onde trabalho, mas eu comentei sobre esse doc. Tanto que uma professora de lá chegou a me perguntar se eu gostava de cinema. Eu respondi com um sorriso, achei a pergunta engraçada. Eu só citei PRO DIA NASCER FELIZ na escola porque esse filme merece ser visto por todos da escola - alunos, professores, direção. E sei também que é o tipo de filme que será exibido nas escolas quando chegar em DVD. Mas, por outro lado, eu também fico imaginando os alunos fazendo bagunça e pouco interessados no que o filme tem a dizer. Seria como dar pérolas aos porcos. Aliás, esse tipo de pensamento deve passar com freqüência pela cabeça de muitos professores que começam a dar suas aulas com todo carinho e que acabam se desestimulando com a falta de respeito e de interesse e terminam dando apenas o feijão-com-arroz básico apenas para que os alunos não se saiam tão mal nas provas. Afinal, tudo que lhes interessa são os resultados das provas...

Eu sempre estudei em escola pública. E quando passei no vestibular, também fui para uma universidade pública. E agora sou professor de escola pública - graças a Deus, não em tempo integral. Quando fazia o segundo grau, como era estudioso e interessado, vivia revoltado com o ensino público, com a falta de interesse da maioria dos alunos e dos professores. E pensar que a coisa só piorou daqueles tempos pra cá.

Essa triste realidade é um dos focos de discussão desse belíssimo documentário de João Jardim. PRO DIA NASCER FELIZ centra a atenção em quatro escolas: uma em Manari, uma das cidades mais pobres do interior de Pernambuco; outra em Duque de Caxias, Rio de Janeiro; outra em Itaquaquecetuba, interior de São Paulo; e uma escola de elite no bairro de Alto de Pinheiros, na capital paulista. O filme mostra as semelhanças e diferenças entre alunos e professores de escola pobre e de escola rica. Na verdade, o objetivo principal do filme ficou meio nebuloso. João Jardim parece atirar para todos os lados. Mas as imagens são tão poderosas que fica difícil condenar, por exemplo, as cenas que são meio que um corpo estranho do filme, em que vemos depoimentos de dois jovens que cometeram crimes. Não vemos seus rostos, mas o que eles dizem é chocante. Principalmente a menina, que conta como matou sua colega em plena escola com assustador orgulho.

Interessante que a impressão que fica, durante o filme, é que as meninas, pelo menos dentro da faixa etária mostrada, de 14 a 17 anos, são muito mais inteligentes e superiores espiritualmente que os meninos, que mais parecem uns bobões sem discernimento ou sensibilidade. Já as meninas têm uma sensibilidade tão forte que algumas delas não conseguem conter as lágrimas, como as meninas de São Paulo, que têm forte consciência da pobreza que as cerca, que sofrem com inquietações existenciais, com a pressão da família, da escola e da sociedade, que sentem falta do carinho e do abraço dos pais. A ausência dos pais, no caso dos adolescentes ricos, se manifesta de forma diferente do que acontece com os jovens pobres, filhos de mães solteiras, que já lidam com problemas mais básicos, como falta de transporte, de água, de interesse, de professores. E falando em professores, identifiquei-me com a professora de Literatura que diz que faz até psicananálise para tentar minimizar o sentimento de solidão, desprezo e abandono que sente tanto por parte dos seus alunos, quanto da direção da escola.

Em alguns momentos, PRO DIA NASCER FELIZ lembra os documentários de Eduardo Coutinho, principalmente pela proximidade que a câmera tem com os entrevistados, que abrem seus corações para nós, privilegiados expectadores do filme, que saímos com a alma lavada, depois de ouvirmos a inteligente versão da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, escrita pela aluna-poeta do interior de Pernambuco.

sábado, maio 26, 2007

LOST - A TERCEIRA TEMPORADA COMPLETA (Lost - The Complete Third Season)



Atenção. O texto abaixo é mais indicado àqueles que já terminaram de ver a terceira temporada de LOST (2006-2007). Não me responsabilizo pela porrada de spoilers que eu vou despejar a partir do segundo parágrafo. Ok, agora posso escrever mais à vontade.

Quando a terceira temporada de LOST começou, muita gente ficou bem decepcionada. Eu, inclusive. Os seis episódios iniciais não foram apenas fracos; foram um balde de água fria para os fãs. Tudo bem que a imagem do avião se partindo pela perspectiva dos "Outros" foi bom de se ver, mas depois disso vieram apenas flashbacks pra encher lingüiça e momentos chatos dos três prisioneiros - Jack, Sawyer e Kate - no QG dos "Outros". E teve aquele episódio bem ruim da morte do Eko, um dos personagens mais carismáticos da série, que bem que poderia ter recebido uma despedida à altura. Ah, e não podemos esquecer daquele episódio escrito por alguém que deve ter tomado muito ácido, quando Locke resgata Eko de uma caverna, porque ele havia sido capturado por um urso polar! Fala sério!

Felizmente, depois do hiato que se seguiu aos seis primeiros episódios, os produtores da série, Damon Lindelof e Carlton Cuse, botaram a série de novo nos eixos e mostraram porque LOST é definitivamente uma das melhores e mais importantes séries da história da televisão. O sétimo episódio ("Not in Portland") nos apresentou de forma mais aprofundada Juliet, a mulher que vive com os "Outros" e que começa a simpatizar com Jack, depois de muita conversa e de muito sanduíche na cela. Trata-se de uma personagem intrigante, que causa aos espectadores a dúvida: pode-se ou não confiar nela? Depois do flashback da Juliet, veio o flashback bem fora do comum de Desmond, com direito a viagem no tempo, tema que nunca deixou de despertar o meu interesse. Além do fato de que Desmond é um dos personagens mais interessantes de LOST, o grande herói romântico da série. Ele ganha a habilidade de ter visões do futuro nessa temporada e tenta salvar o Charlie da morte várias vezes.

Nessa terceira temporada, o triângulo amoroso Jack-Kate-Sawyer esquenta com a chegada de Juliet. As tensões existentes entre os três personagens, o amor não expresso, soma-se ao sexo. Apesar da chegada de Juliet e da gracinha da Claire, é Kate quem continua despejando a maior carga de sensualidade na série. O que dizer da cena em que ela, tentando compensar o ciúme que sente de Jack com Juliet, se entrega a Sawyer na barraca? E como eu tenho a tendência a gostar mais do Jack, vibrei quando ele confessou amá-la no último episódio. Também me emocionei com a alegria de Jack ao saber que seus amigos ainda estavam vivos, quando recebeu a ligação do Hurley. Esses momentos ternos da série são escritos com delicadeza pela equipe, sempre com o cuidado de não exagerar, já que LOST é essencialmente uma série de mistério. Se bem que eu nem falei nada do projeto Dharma e das inúmeras teorias sobre a ilha. Talvez porque isso seja menos importante pra mim do que a relação existente entre os personagens.

Quanto a Rodrigo Santoro, Paulo, seu personagem, foi uma decepção. Especialmente para o público brasileiro. Mas a culpa foi mesmo dos roteiristas, que não pensaram melhor o seu personagem, e no final, acabaram se arrependendo de tê-lo criado. Pelo menos o episódio de despedida do Santoro na série ("Exposé") foi bem legal. Ficou como um episódio especial mostrando os acontecimentos na ilha do ponto de vista de quem não faz parte da panelinha de Jack, Locke, Kate e cia. Foi bastante digno. Não deixa de ser interessante esse formato de série de televisão, que, como uma telenovela, vai se adaptando aos gostos da audiência.

E a season finale da terceira temporada conseguiu ser ainda melhor que o final da segunda. Há sempre uma grande expectativa com o episódio especial final, de duas horas. E "Through the looking glass" não apenas supera todas as expectativas como chegou a ser considerado o melhor episódio da série no site tv.com. E quem reclamou dos flashbacks fracos do Jack pôde se calar com esse flashback ao contrário, ou flashforward. Matthew Fox provou e comprovou que é o grande ator da série. Sua performance na estória fora da ilha, barbudo, deprimido, drogado, bêbado, sem rumo, é de arrepiar. Inclusive, a lentidão com que a estória do Jack no futuro é contada até me lembrou um pouco a "trilogia da morte" de Gus Van Sant! E assim, LOST fechou essa temporada com chave de ouro, deixando os fãs mais do que satisfeitos. Claro que os produtores ainda estão com muita batata quente na mão para segurar nos próximos três anos, mas vamos torcer para que os vagões continuem nos trilhos.

Pra fechar, meu top 5 episódios:

1. "Through the looking glass" - Jack nos mostrando a dor de ser um Moisés dos tempos modernos.
2. "Greatest Hits" - O que dizer do abraço de Charlie em Hurley, dizendo "I love you, brotha", enquanto se prepara para a morte?
3. "Flashes before your eyes" - Desmond e as viagens no tempo.
4. "The Man from Tallahassee" - Finalmente soubemos como Locke ficou paralítico. O flashback mais esperado da série.
5. "The Man behind the curtain" - Ben, o grande vilão de LOST, e seu passado negro.

sexta-feira, maio 25, 2007

24 HORAS - SEXTA TEMPORADA (24 - Season Six)



A sexta temporada (2007) de 24 HORAS tinha tudo para ser uma das melhores da história da série. A temporada anterior terminou com Jack Bauer sendo raptado pelos chineses, que descobriram que ele estava vivo e o levaram para a prisão. O que ninguém esperava é que ele passaria três anos numa prisão na China, à base de muita tortura. Três anos depois ele retorna aos Estados Unidos. O clima no país está muito pior, com os ataques de terrorismo e a paranóia atingindo níveis absurdos. Barbudo, cansado, deprimido, cheio de marcas de queimadura no corpo, Jack Bauer voltou. Mas o pior é que ele só voltou para ser usado como um cordeiro para o sacrifício. Quer dizer, o seu próprio país, a quem ele tanto defendeu e salvou, quer dá-lo em sacrifício para um de seus inimigos árabes que querem a sua cabeça em troca de bombas atômicas. Achei muito interessante essa premissa inicial. Jack Bauer se aproximando da figura de Jesus Cristo. Ele, que tantas vezes salvou o mundo, agora vai ser sacrificado para mais uma vez salvar a humanidade ingrata. Sensacional.

Por isso que eu achei uma pena que essa temporada, que começou assim tão bem, tenha desandado e se tornado a mais fraca de todas até então. Dentro de poucas horas, isto é, de poucos episódios, Jack Bauer voltaria a ser o mesmo sujeito confiante e bom de briga que a gente conhece e todo aquele rancor e os três anos de sofrimento na China parece até que nem existiram. E a série foi repetindo os seus velhos clichês e até mesmo as mortes de conhecidos personagens acabaram não tendo nenhum impacto. Um dos momentos de maior impacto da série aconteceu quando uma bomba atômica explode próximo a Los Angeles, mas mesmo isso depois é praticamente esquecido nos episódios seguintes.

Se na quinta temporada, os principais destaques foram o Presidente Charles Logan e a Primeira-Dama meio maluca Martha Logan, nessa, dois novos e belos rostos se destacam: Nadia Yassir (a latina Marisol Nichols), na CTU, e a cunhada de Jack, Marilyn Bauer (Rena Sofer, a esposa de Nathan Petrelli em HEROES). No mais, há bem poucos personagens que chamam a atenção.

Talvez uma das principais razões de a série ter desandado nesse ano tenha sido a ausência de Jon Cassar da direção dos episódios da segunda metade da série. Cassar participou ativamente da série, tendo dirigido os episódios mais importantes desde a segunda temporada. No entanto, ele foi sumindo dessa temporada, depois de dirigir seis episódios, e passou a bola para outro nome familiar da série: Brad Turner. David Fury, um dos produtores da série, admitiu que essa temporada foi mesmo problemática e de resultado pouco satisfatório, correndo, inclusive, o perigo de perder alguns fãs nas duas temporadas seguintes. Parece que a intenção dos executivos da FOX é mudar na sétima temporada. Pra mim, o ideal seria a série sair definitivamente da CTU e mostrar Jack Bauer vivendo aventuras em outros lugares. Talvez assim 24 HORAS ganhe novo fôlego.

quinta-feira, maio 24, 2007

HEROES - 1ª TEMPORADA (Heroes - Season 1)



E vão chegando ao final as temporadas das séries mais badaladas da atualidade. De todas essas séries, HEROES foi talvez a que teve maior sucesso de público. Tanto que mal começou, a segunda temporada já estava garantida pela NBC. Eu, particularmente, não sou muito fã da série. Me incomodam os diálogos toscos e os desempenhos canastrões dos atores. Talvez ver A SETE PALMOS tenha me deixado mal acostumado com séries bem escritas e com grandes performances. Se bem que eu gosto de PRISON BREAK, que nem é uma série que prima pelos bons textos. Mas sei lá, tem algo em HEROES que me incomoda. Ainda assim, não chego a desgostar totalmente. Senão, nem teria chegado ao final dessa primeira temporada (2006-2007) que durou 23 episódios. E não deixa de ser curioso eu, um fã de quadrinhos de super-heróis, não gostar muito dessa série e nem ter a mínima vontade de assistir SMALVILLE.

E HEROES tem uma estreita relação com os quadrinhos. Até o Stan Lee fez uma participação especial num episódio. Jeph Loeb, conhecido roteirista de quadrinhos da Marvel, é um dos produtores executivos, ao lado do criador da série, Tim Kring. A idéia da série parece chupada de "Rising Stars", de J. Michael Straczynzki, que é sobre a misteriosa aparição de várias pessoas com super-poderes. Assim, temos um japonês que pode parar o tempo, uma chearleader cujo corpo se regenera em questão de segundos, um rapaz que é capaz de absorver os poderes de outros, um político que tem a capacidade de voar, um policial que lê pensamentos, um pintor que retrata o futuro em seus quadros, uma stripper que tem dupla personalidade, sendo que uma delas tem super-força e é malvada, meio como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, entre outros.

No começo, a série é bem chata, mas aos poucos os episódios vão melhorando. Pra mim, um dos primeiros episódios interessantes é aquele em que a Claire Bennet, a chearleader indestrutível, acorda num necrotério. O personagem Peter Petrelli, um dos principais da série, também vai ganhando a simpatia do público aos poucos. No começo, ele só parece um emo chato. Se bem que o irmão dele é ainda mais chato. Até a season finale, Nathan Petrelli, o político voador, é uma antipatia só, um sujeito que não se pode confiar, como, aliás, todo político. Hiro Nakamura, o japonês capaz de parar o tempo e viajar no tempo e no espaço, é o responsável por alguns dos melhores momentos da série, como quando ele viaja para cinco anos no futuro e se encontra consigo mesmo e com os demais personagens da série, levando suas vidas depois que uma explosão atômica mata milhões de pessoas em Nova York.

A frase mais famosa da série, "save the chearleader, save the world", não é de levar muito a sério, por isso, é preciso primeiro "comprar a idéia", para ao menos poder se divertir um pouco com a trama. Há um supervilão, o Sylar, que é quem faz a trama andar durante praticamente todos os episódios. O objetivo principal dos personagens é matar Sylar e impedir que o "homem que explode" mate milhões de pessoas. Na verdade, eu achei esse enredo um pouco desinteressante e senti falta de um maior aprofundamento dos personagens - como em LOST -, e a opção pela narrativa "dinâmica" torna a série bem fria. O que mais se destaca em HEROES é o visual, realmente bem caprichado e que chama a atenção desde os créditos iniciais e o título do episódio, sempre mostrado de forma bastante inventiva. Analisando os prós e os contras, resta a dúvida: acompanhar ou não acompanhar a segunda temporada? Eis a questão. Não que eu esteja preocupado com isso. Quero mesmo é ver a season finale de LOST e a minha conexão está com problema. :(

quarta-feira, maio 23, 2007

PELÍCULAS PARA NO DORMIR: PARA ENTRAR A VIVIR



PELÍCULAS PARA NO DORMIR é uma antologia de filmes de horror produzida pela televisão espanhola. Uma espécie de MASTERS OF HORROR da terra do Buñuel. Dos seis títulos produzidos pela série, inicialmente me interessei por este PARA ENTRAR A VIVIR (2006), do catalão Jaume Balagueró, diretor de A SÉTIMA VÍTIMA (2002), um filme que eu simplesmente adorei mas que quase todo mundo malhou, xingou e avacalhou. Como admirador confesso e entusiasta dessa bela e incompreendida obra e, conseqüentemente, interessado em outros filmes do diretor, baixei PARA ENTRAR A VIVIR para dar uma conferida. Felizmente, minhas expectativas se confirmaram e deparei-me com um excelente trabalho de direção, uma bela e estilosa fotografia e o principal: a construção de uma atmosfera de horror e suspense que só os grandes mestres do gênero conseguiriam criar, lembrando, inclusive, os melhores títulos de Dario Argento.

PARA ENTRAR A VIVIR não se destaca por ter uma trama muito intrincada ou cerebral. Na verdade, a história é muito simples, deixando espaço para a tensão e o medo que surge na estória de um casal à procura de um apartamento para iniciar uma vida a dois. A mulher (Macarena Gómez) está grávida e sentindo-se um pouco enjoada. Mesmo assim, o namorado (Adrià Collado) a leva para verem um apartamento. Ao chegarem lá, cai uma chuva torrencial e os dois são recebidos pela dona do prédio (Nuria González) que lhes apresenta o imóvel. Dizer mais é estragar as surpresas que virão nesse pequeno filme de pouco mais de uma hora de duração, que bem que poderia ter mais uma meia hora de metragem e ainda assim não ficaria cansativo.

Geralmente costuma-se criticar os diretores que usam muito o recurso da câmera tremida, mas no caso desse filme em particular, além da tremida ser bem diferente, ela sempre vem nos momentos de maior tensão. Há também um exemplar uso do som, para provocar maior incômodo no espectador. Há quem diga que o filme exagera um pouco no sangue esguichando, mas até que eu o achei bem discreto nesse quesito.

Dos outros filmes da antologia, fiquei interessado em ver LA HABITACIÓN DEL NIÑO, de Álex de la Iglesia, apesar de ele não ser dos meus diretores favoritos, talvez por ser por demais irreverente. Mas ainda assim é um cineasta interessante e de personalidade. Os outros quatro filmes são: ADIVINA QUIÉN SOY, de Enrique Urbizu; CUENTO DE NAVIDAD, de Francisco Plaza; LA CULPA, de Narciso Ibáñez Serrador, diretor do clássico ¿QUIÉN PUEDE MATAR A UN NIÑO?; e REGRESO A MOIRA, de Mateo Gil. Quem tiver visto algum desses filmes e quiser tecer algum comentário ou dar alguma dica, eu ficaria bastante agradecido.

E pra quem, como eu, curte o trabalho do Balagueró, vale lembrar que FRÁGILES (2005), o longa dele protagonizado pela Calista Flockhart, já está disponível na grande rede. Como já fazem dois anos que o filme foi lançado na Espanha e no Festival de Veneza, é bem provável que nenhuma distribuidora lance o filme em DVD no Brasil. Portanto...

terça-feira, maio 22, 2007

PROIBIDO PROIBIR



Eis um filme cheio de falhas, mas cujas qualidades acabam conquistando o espectador. Bom, ao menos essas qualidades me conquistaram. Inclusive, cheguei ao final da sessão com os olhos marejados, sensibilizado com o plano final. PROIBIDO PROIBIR (2006) é o segundo longa-metragem de Jorge Durán, o cineasta que há mais de vinte anos realizou A COR DO SEU DESTINO (1986). Não sei porque ele demorou tanto para fazer o seu segundo longa, mas num país onde fazer cinema é coisa de herói, nem é preciso procurar saber a razão dessa demora. O importante é que ele fez um belo trabalho.

A presença de Caio Blat dá força ao filme. Atualmente, o jovem ator tem sido figurinha constante nos nossos cinemas. Só nesse ano, é possível vê-lo também em BAIXIO DAS BESTAS e BATISMO DE SANGUE. É um ator que tem se destacado pela coragem em abraçar produções ousadas, mesmo que o resultado de alguns desses filmes não seja lá grande coisa, como foi o caso de CAMA DE GATO (2002). Em PROIBIDO PROIBIR, é ele quem muitas vezes precisa carregar o filme nas costas, tentando compensar a pouca força de interpretação de seus parceiros Alexandre Rodrigues e Maria Flor. A bela Maria Flor até tem momentos de dramaticidade bastante comoventes, mas não chega a convencer como namorada de Rodrigues ou quando ela fica sensibilizada com os problemas de um adolescente pobre da favela que corre o risco de ser assassinado pela própria polícia.

Muita gente acha, tanto por causa do título, quanto pelo aspecto bicho-grilo de Caio Blat, que PROIBIDO PROIBIR é um filme que se passa na década de 60. Não é. Apesar de muitos dos valores e ideologias que ganharam mais força naquela década serem novamente postos em discussão, o clima geral do filme é de desencanto. Agora que temos a nossa democracia, vemos que as coisas não melhoraram muito. Assim, vemos um monumento fantástico como o Museu de Arte Moderna de Niterói estar quase que destruído por vândalos e pelo descaso do Governo; vemos os pobres morrendo tanto nos hospitais quanto nas ruas e ninguém se importar; vemos a polícia se confundindo com os bandidos. E isso é o Brasil atual.

Tudo isso é muito importante, mas o eixo principal do filme gira em torno do triângulo amoroso dos três amigos. Temos o estudante de medicina que adora fumar uns baseados e tomar umas bolas que divide o apartamento com seu melhor amigo, um rapaz negro estudante de sociologia que está namorando uma bela estudante de arquitetura. Nem é preciso dizer o que acontece, mas o que importa é que o filme não entra no lugar comum e explora muito bem a tensão que existe na tal paixão "proibida" que surge. Em vários momentos, o filme parece que vai naufragar de vez mas sempre acaba ressurgindo e mostrando que ainda tem momentos bonitos, como a delicada seqüência final.

segunda-feira, maio 21, 2007

ESCOLA DE IDIOTAS (School for Scoundrels)



Acabei vendo esse filme meio que por acaso. Não que ele não estivesse na minha lista de títulos a assistir, mas é que ele estava no final da minha fila de prioridades. Porém, por causa de uma informação errada do jornal local sobre o horário de SUNSHINE - ALERTA SOLAR, eu não tive outra opção a não ser encarar este ESCOLA DE IDIOTAS (2006). O enredo e a presença de Ben Stiller no cartaz até que me despertaram alguma simpatia. Em geral, gosto muito dos filmes protagonizados por Stiller, por mais que alguns deles sejam bem esquecíveis. O problema é que ele só aparece lá pelo finalzinho do filme - se eu não engano, seu nome não aparece nos créditos iniciais - e seu papel não tem a menor graça. Quem encabeça o elenco de ESCOLA DE IDIOTAS é Jon Heder, conhecido por seu papel-título em NAPOLEON DYNAMITE, e Billy Bob Thornton, que tem se revelado um bom comediante. Mas o que fazer quando uma comédia não faz rir e seus personagens não despertam a simpatia do espectador? Pra mim, isso pode ser o primeiro sinal de que houve uma falha no filme.

Na trama, Jon Heder é um jovem muito tímido e que sofre de crises de pânico, de ansiedade e de baixa auto-estima que trabalha como guarda de trânsito. Vendo a sua situação difícil, um amigo lhe recomenda um curso que vai lhe ajudar a superar o seu problema e até mesmo conquistar a garota dos seus sonhos (Jacinda Barrett, de UM BEIJO A MAIS). O curso é de caráter ultra-secreto. Ninguém deve saber. Além do mais, o preço é bem salgado. Mas para alguém desesperado, dinheiro é a menor das preocupações, principalmente se o objetivo fosse alcançado. O professor do curso é o Dr. P (Billy Bob Thornton), cujos métodos chegam a ser um bocado violentos, praticamente uma terapia de choque. Tudo para que o aluno consiga despertar o seu leão interior. Uma das cenas mais divertidas é quando os alunos, ao sinal de um bip, são obrigados a arranjarem alguma briga. Mas esse é um dos poucos momentos realmente engraçados do filme.

A falta de auto-estima e as crises de pânico são problemas cada vez mais comuns nos dias de hoje e não duvido que alguém acredite que os métodos impostos pelo Dr. P podem mesmo surtir algum efeito. Bom, se até assistindo ao episódio "The Opposite", de SEINFELD, eu cheguei a cogitar uma luz para os meus problemas, a fuga pelo caminho da mentira e da cafagestagem ministrada pelo Dr. P não deveria ser de todo ruim. Os fins justificam os meios, principalmente quando não se acredita em karma, pecado ou algo do tipo - o que não é o meu caso. Mas seria tão bom se o filme fizesse o público rir em vez de ficar aborrecido. Será que o filme não desperta os risos porque o tema é sério demais para o público deprimido dos dias atuais? No meu caso, achei bem mais fácil sentir algo próximo de um sentimento de pena do personagem de Jon Heder do que uma vontade deliciosamente sádica e libertadora de rir dele. Mas vai ver a culpa é mesmo do diretor/roteirista Todd Phillips, que teve a sorte de acertar a mão em CAINDO NA ESTRADA (2000), que era uma comédia até de "mau gosto", mas que funciona. Não cheguei a ver STARSKY & HUTCH (2004), mas sei que é um filme que tem os seus fãs.

Para os admiradores de Sarah Silverman, vale avisar que ela está no filme no papel da colega de quarto de Jacinda Barrett. O problema é que a sua personagem é tão irritante e chata que acredito que nem os fãs da comediante gostarão.

sexta-feira, maio 18, 2007

VÊNUS (Venus)



Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:

Sometimes too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair sometimes declines,
By chance, or nature's changing course, untrimm'd;

But the eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou owest;
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,

When in eternal lines to time thou growest;
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.


Esse é um dos mais belos e famosos sonetos de William Shakespeare. Tive a oportunidade de estudar o Shakespeare poeta na faculdade, na cadeira de Literatura Inglesa (poesia), e eu aprendi que a grande obsessão de Shakespeare era a morte, a decadência do corpo, a perda da beleza jovial. Coincidência ou não, Shakespeare era taurino, um dos signos do zodíaco que não lida muito bem com a velhice. A maior parte dos sonetos de Shakespeare são tentativas de eternizar a beleza e a juventudade de suas amadas - ou da amada, já que pouco se conhece da vida do escritor.

Quem não assistiu VÊNUS (2006) e me vê iniciando esse post com um soneto tão especial do genial escritor até pode pensar que o filme merece tal homenagem. Mas só resolvi postar esse poema porque ele é citado integralmente por Peter O'Toole. E porque ele é maravilhoso e vai ajudar a embelezar e enobrecer esse espaço, ora. Quanto ao filme de Roger Michell, ele é bem chatinho, ficando anos-luz do prazer que é ver UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL (1999), que contava com o brilho todo especial do casal Hugh Grant e Julia Roberts.

Já em VÊNUS, o melhor que se tem é um Peter O'Toole de aspecto moribundo interpretando um sujeito às portas da morte em conseqüência de um câncer de próstata. Apesar desse grave problema, ele não desiste de sentir novamente o gostinho da paixão ou, pelo menos, o aroma de um pescoço feminino. Por mais que o filme tente a todo o instante evitar o sentimento de comiseração, essa tentativa acaba se tornando uma tarefa um tanto quanto difícil quando olhamos para a expressão acabada de O'Toole. A impressão que fica é que o filme se aproveita de sua condição "pé-na-cova" para benefício próprio. Mas acho que O'Toole fez mais ou menos como Clint Eastwood fez em MENINA DE OURO, isto é, ele tentou parecer ainda mais velho do que realmente é. Inclusive, olhando para a filmografia de O'Toole, dá pra notar que ele não para de trabalhar. Depois de VÊNUS, ele trabalhou em simplesmente mais sete filmes!

Jodie Whittaker, a jovem atriz que interpreta a "Venus" vai trabalhar em GOOD, o novo filme de Vicente Amorim, o diretor brasileiro de CAMINHO DAS NUVENS. O cinema está se tornando cada vez mais globalizado.

quinta-feira, maio 17, 2007

RASTROS DE ÓDIO (The Searchers)



Quase tão bom quanto ver RASTROS DE ÓDIO (1956) é ver o pequeno documentário de cerca de meia hora de duração que vem no segundo disco da edição especial do filme - tem outro documentário de mesma duração no dvd, mas esse primeiro é bem melhor. Como é bom ver Martin Scorsese falando de cinema com tanto entusiasmo e paixão. Para ele, John Ford representa o que de melhor há na sétima arte. Algo que me chamou bastante a atenção foi o fato de Scorsese ter dito que o Vistavision, o formato usado na produção desse filme, foi o melhor formato já utilizado no cinema. Ele conta que nunca o cinema foi tão bonito quanto naquela época. Havia uma maior nitidez de imagem e uma maior profundidade de campo. Infelizmente não temos sequer chance de um dia poder conferir essa qualidade, já que ver o filme no cinema, só se for no tradicional 35 mm. E olhe lá.

Impressionante também, ao assistir RASTROS DE ÓDIO, é notar a semelhança desse filme com os últimos de Clint Eastwood, em especial, A CONQUISTA DA HONRA. Já tinha reparado essa semelhança também com SANGUE DE HERÓIS (1948), mas em RASTROS DE ÓDIO essa semelhança se extende até em planos-chave, como aquele em que John Wayne entra na caverna para ver o corpo de sua cunhada, assassinada pelos comanches, bem como a discussão sobre o rascismo e o índio americano. Já a carta lida por Vera Miles lembra diversos momentos de CARTAS DE IWO JIMA. Há também a economia de movimentos de câmera, que também se tornou uma marca do cinema de Clint. E no caso de RASTROS DE ÓDIO, há também o pouco uso de closes. Tanto é que quando os closes surgem, eles ganham um significado todo especial, como naquele zoom no rosto de John Wayne, quando ele fica possesso de raiva com os índios. Quem também participa, além de Scorsese, desse mini-documentário é Curtis Hanson e John Millius, dois cineastas estudiosos do cinema de John Ford.

RASTROS DE ÓDIO é um dos filmes mais especiais de Ford. Para muitos, é a sua obra-prima maior. John Wayne, tantas vezes subestimado como ator, tem talvez a sua maior interpretação nesse trabalho. Ele levou muito a sério o papel. O amigo Harry Carrey Jr. contou que Wayne não brincava mais como antes durante as filmagens. Ele se entregou de verdade ao papel de Ethan Edwards, o sombrio personagem cheio de amargura. Seu ódio contra os índios é tanto que ele é capaz de tirar os escalpos de seus inimigos e de mandar bala nos olhos dos índios mortos. Ele podia não acreditar no que eles acreditavam, mas sua intenção maior era ferir os nativos através de suas crenças. Ethan odeia os índios ou qualquer um que tenha qualquer relação com eles. Incluindo o seu sobrinho Martin (Jeffrey Hunter), por ter sangue cherokee, ou a sua sobrinha raptada Debbie, pela possibilidade de ela ter feito sexo com Scar (Henry Brandon), o líder indígena que liderou a chacina de sua família.

A questão hoje em dia de que se Debbie (Natalie Wood) fez sexo ou não com Scar pode parecer irrelevante, mas na época, o fato de só pensar nisso já era no mínimo bastante incômodo. Talvez se tentarmos nos colocar um pouco naquele tempo, a fim de procurarmos entender a moral e os costumes daquela época, talvez possamos nos aproximar um pouco mais da personalidade complexa e paradoxal de Ethan Edwards. No final, ele até consegue vencer o ódio, o monstro interior que o consome, já que ele acaba deixando a sua herança para o seu sobrinho mestiço e deixando escapar da morte Debbie, talvez por ela se parecer demais com a mãe.

RASTROS DE ÓDIO tem algumas sutilezas e segredos que vão se revelando aos poucos através de novas revisões, como o fato de que Ethan e sua cunhada serem apaixonados. E quem sabe, Debbie era até sua filha. Isso explicaria um pouco a sua profunda solidão e amargura. A porta se fechando para ele no final do filme é um bom exemplo disso. Ethan prefere não incomodar a felicidade recém-conquistada daquela família e curtir sozinho a sua solidão, na vastidão daquele deserto, com o Monument Valley ao fundo. Ao menos algo bonito ele podia contemplar.

quarta-feira, maio 16, 2007

FOI DEUS QUEM MANDOU (Gold Told me to)



Só vim prestar atenção de verdade nos filmes de Larry Cohen mais recentemente, ao me deliciar com pérolas como TÃO BOM QUANTO A MORTE (1995) e o seu mais recente trabalho ESTRADA DA MORTE (2006), feito para a antologia MASTERS OF HORROR. Ambos são filmes que têm um ritmo dos mais saborosos e mostram que mesmo fazendo mais roteiros e dirigindo menos filmes, Cohen continua em plena forma. Por falar no diretor, hoje comprei o DVD de A COISA (1985), naquele esquema dois em um. O filme vem junto com o picareta JACK-O - DEMÔNIO DO HALLOWEEN, que nada tem a ver com o Cohen, quero deixar claro.

FOI DEUS QUEM MANDOU (1976) foi lançado em DVD no Brasil pela Aurora e como eu não encontrei o filme nas locadoras daqui, aproveitei-me da boa vontade do amigão Thomaz e pedi pra ele copiar o filme pra mim. E falando em Aurora, parece que a distribuidora pernambucana foi mesmo pro saco. Uma pena, já que eles haviam prometido o lançamento de GALO DE BRIGA, do Monte Hellmann, e parece que o filme não chegou a ser lançado. Inclusive, saiu até resenha do filme na Paisà - alô, pessoal da revista, o DVD saiu ou não saiu? Ou o resenhista viu o filme num DVD importado ou outros meios alternativos?

A trama de FOI DEUS QUEM MANDOU é bem intrigante. Começa com uma cena externa nas ruas de Nova York. Um sujeito, do alto de um prédio, atira em quinze pedestres com uma arma de fogo de longo alcance. Quando um policial consegue subir no edifício e pergunta a ele porque ele fez aquilo o homem diz: "foi Deus quem mandou". E assim outros assassinos dizem a mesma coisa, deixando no ar um clima de pânico e terror. Tony Lo Bianco é o protagonista, no papel de um detetive da polícia de fortes crenças católicas que fica obcecado pelo estranho caso, correndo o risco até mesmo de perder a própria sanidade. O modo como a trama se desenvolve é bem interessante. Se no início, o filme parece mais do gênero policial, a mudança para o horror vai se acentuando aos poucos.

Tem dois filmes de Cohen que eu tenho muita vontade de assistir desde os tempos das colunas do Carlão Reichenbach. São eles: FBI - ARQUIVO SECRETO (1977) e ESPECIAIS EFEITOS (1985). O primeiro parece que só saiu em VHS e hoje é um título difícil de encontrar nos sebos. O segundo, parece que saiu em DVD numa dessas distribuidoras baratas, mas também não achei em nenhum site de venda.

FOI DEUS QUEM MANDOU foi dedicado ao excepcional músico Bernard Hermann, que havia trabalhado com Cohen em NASCE UM MONSTRO (1974).

terça-feira, maio 15, 2007

UM CRIME DE MESTRE (Fracture)



Gregory Hoblit não chega a ser um grande diretor - provavelmente nunca será -, mas de vez em quando ele aparece com bons filmes, como foi o caso de POSSUÍDOS (1998), talvez o seu melhor trabalho. Seu novo filme, UM CRIME DE MESTRE (2007), é narrado com uma elegância admirável. Tudo bem que fica no ar uma certa picaretagem por parte dos produtores ao se aproveitarem de Anthony Hopkins, meio que trazendo de volta um pouco da sua interpretação de Hannibal Lecter. Mas o que importa é que o jeitão malvado e confiante de Hopkins se ajusta perfeitamente à trama do filme.

Na trama, Hopkins é um marido traído que planeja se vingar da esposa. Ela havia lhe colocado um par de chifres, estava tendo um caso com um detetive da polícia. Ele atira na mulher, a polícia chega na sua casa, ele confessa o crime e decide ele mesmo ser o seu próprio advogado. Enquanto isso, a mulher fica em estado de coma no hospital. Ryan Gosling - cada vez melhor - é o promotor, famoso por não ter perdido nenhum caso e por isso mesmo seu excesso de autoconfiança o transforma num sujeito vaidoso e descuidado. Ele acredita que o caso vai ser fácil, mas as coisas não se mostram nada simples. O personagem de Gosling é o de mais fácil identificação com o público. Ele é dotado de uma ética profissional que é posta em xeque em determinado momento do filme. Afinal, deve-se forjar provas com a finalidade de prender um assassino?

UM CRIME DE MESTRE lembra outro thriller de tribunal de Hoblit, AS DUAS FACES DE UM CRIME (1996), filme conhecido por revelar o talento de Edward Norton. Parece que A GUERRA DE HART (2002), que eu não vi, também tem uma cena-chave que se passa num tribunal. Pelo visto, o diretor é bastante interessado em Direito. Ou então, ele recorre ao tema como um porto seguro, já que um de seus primeiros sucessos foi o telefilme ROE VS WADE (1989), que abordava a questão do aborto nos Estados Unidos.

segunda-feira, maio 14, 2007

OS 12 TRABALHOS



Aproveitando a discussão em torno da qualidade do cinema brasileiro contemporâneo, nada melhor do que falar sobre um dos melhores filmes dessa boa safra: OS 12 TRABALHOS (2006), o segundo trabalho de Ricardo Elias. Ainda não cheguei a ver DE PASSAGEM (2003), o filme anterior de Elias, mas depois de ter visto a saga do motoboy Heracles (Sidney Santiago), da próxima vez que der um pulinho na videolocadora, lembrarei de pegar o filme de estréia do diretor. Isso porque eu fiquei bastante sensibilizado com o carinho e o respeito com que o diretor e o roteirista trataram seus personagens, sejam os mais próximos de Heracles, sejam aqueles que apenas passam pela sua vida. São pessoas que sofreram traumas em algum momento de suas vidas, que quebraram alguma coisa dentro de suas almas. A narração em off contando em poucas palavras o que aconteceu com essas pessoas dá um tom melancólico que dá ao filme uma beleza ímpar.

OS 12 TRABALHOS mostra o primeiro dia de trabalho de um jovem recém-saído da Febem. Heracles consegue, com a ajuda de seu primo Jonas (Flávio Bauraqui), um emprego de motoboy numa empresa de entregas em São Paulo. Ele já começa o trabalho enfrentando o preconceito dos novos colegas que não vêem com bons olhos o seu passado de crime e detenção. Um momento ao mesmo tempo triste e engraçado é quando os rapazes descobrem que Heracles é um bom desenhista. Um deles, ao pegar o seu caderno, pergunta se foi ele quem desenhou mesmo ou se ele roubou.

Um dos meus momentos preferidos do filme é o do travelling ao som de "Agridoce", do Pato Fu. Essa cena, além de ter toda uma carga de tristeza e beleza, me fez lembrar imediatamente do passeio da câmera pela cozinha de um restaurante em OS BONS COMPANHEIROS, do Scorsese. E falando em citações - ou seriam apenas coincidências? - poderíamos dizer que o final do filme é uma homenagem do diretor aos instantes finais de OS INCOMPREENDIDOS, do Truffaut. Mas já li um crítico lembrar de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, do Glauber Rocha, e de ABRIL DESPEDAÇADO, do Walter Salles, já que ambos também terminam com o protagonista de frente para o mar.

P.S.: Atendendo a pedidos, postei mais fotos de Porto Alegre. Não são tão boas quanto aquelas primeiras, algumas ficaram bem escuras, mas valem a espiada. Enjoy! Só clicar no link.

sexta-feira, maio 11, 2007

O CHEIRO DO RALO



Um fenômeno curioso que eu tenho notado no meio cinéfilo atual é uma certa cisma que um grupo de pessoas tem expressado contra o cinema brasileiro contemporâneo. E isso até vem de pessoas que eu admiro e respeito. Inclusive, Inácio Araújo, considerado por muitos o melhor crítico de cinema do Brasil da atualidade, escreveu em seu blog que "a gente está fazendo bomba atrás de bomba". Bom, eu sinceramente não consigo ver tanto filme brasileiro ruim. Só nesse ano, o que eu vi e gostei: BATISMO DE SANGUE, CAIXA DOIS, Ó PAÍ, Ó, EU ME LEMBRO, ANTÔNIA. E olha que nem entrou em cartaz aqui ainda SERRAS DA DESORDEM, HÉRCULES 56, PROIBIDO PROIBIR, CARTOLA: MÚSICA PARA OS OLHOS... Hoje, mais dois importantes filmes entram em cartaz no circuito comercial: O BAIXIO DAS BESTAS, de Cláudio Assis, e CÃO SEM DONO, de Beto Brant. Pena que nenhum dos dois chegou em Fortaleza ainda.

No meio dessa boa safra, outro filme notável é O CHEIRO DO RALO (2006), de Heitor Dhalia. O filme é outro que não chegou em Fortaleza ainda, mas que eu tive oportunidade de ver quando estive em Porto Alegre. Mesmo aqueles que não gostaram do filme tecem ao menos elogios à atuação de Selton Mello ou à simpatia da "bunda", a garçonete de nome esquisito vivida por Paula Braun. NINA (2004), o trabalho anterior de Dhalia, apesar de um tanto quanto irritante, já demonstrava grande potencial para trabalhos futuros, coisa que se confirma e se repete nesse segundo filme.

Baseado em romance de Lourenço Mutarelli, O CHEIRO DO RALO é coerente com os personagens das obras do escritor/quadrinhista. Assim como o personagem da HQ "Transubstanciação", o protagonista do filme de Dhalia é uma pessoa atormentada por angústias, desesperanças e desencantos. Inclusive, se o filme fosse um pouco menos cômico e mais melancólico, eu até teria me identificado com o protagonista, já que estou vivendo um momento bem amargo de minha vida. Em vez de instaurar uma melancolia no ar, Dhalia prefere um registro mais engraçado, mais modernoso, mais tarantinesco - até a brincadeira com o nome da "bunda" remete diretamente à noiva de KILL BILL.

Na trama, Selton Mello é Lourenço, um homem amargo que trabalha como comprador de uma loja de objetos usados. Ele se sente bastante incomodado com o mau cheiro proveniente do ralo do banheiro de seu escritório. Para evitar que os clientes pensem que o fedor vem dele mesmo, ele sempre comenta que o cheiro vem do ralo. Uma galeria de personagens esquisitos aparecem para negociar com Lourenço. Nas horas vagas, ele faz o sacrifício de comer os sanduíches horríveis de uma lanchonete, só para apreciar a bunda da garçonete.

Três musas de filmes anteriores aparecem no filme não tão bonitas: Sílvia Lourenço, que havia chamado a atenção em CONTRA TODOS, aparece nua, mas feia e magra no papel de uma viciada em drogas; Susana Alves, a tiazinha, também não aparece tão gostosa e atraente como em MANDRAKE; e Alice Braga também não está tão boa quanto em CIDADE BAIXA. Talvez isso aconteça com a intenção de valorizar o tempo de Paula Braun no filme. E até que essa estratégia funciona, pois quando ela passou um bom tempo sem aparecer no filme eu perguntei logo: "cadê a bunda?".

quarta-feira, maio 09, 2007

O HOMEM DUPLO (A Scanner Darkly)



Nesses tempos nebulosos e de poucas alegrias, assistir O HOMEM DUPLO (2006) não me ajudou muito a ver o mundo com outros olhos. A impressão que eu tive ao término do filme foi de que à humanidade está destinado um futuro cada vez pior. É como se só encontrássemos segurança e paz nas lembranças do passado e ao futuro fosse reservado só a dor e a tristeza. Peço perdão aos leitores por esse meu pessimismo, mas como a minha intenção também é usar o blog como uma espécie de terapia, prefiro vomitar um pouco - mas só um pouco - do que tem me incomodado. E não falo do futuro de maneira gratuita. O HOMEM DUPLO tem tudo a ver com um futuro negro.

A trama, baseada num conto de Philip K. Dick, se passa cinco anos no futuro, quando um policial (Keanu Reeves) se infiltra num grupo de amigos drogados (entre eles, Robert Downey Jr., Woody Harrelson e Winona Ryder) para descobrir a origem da "substância D", droga da moda que acaba com os neurônios e com a vida de muitas pessoas, que se tornam rapidamente dependentes da droga. O filme já começa com um dos drogados tomando banho, tentando desesperadamente se livrar das pulgas imaginárias que o perturbam.

O diretor Richard Linklater retorna à rotoscopia, técnica de animação que consiste em fazer desenho animado por cima de uma filmagem com pessoas de carne e osso. Houve progresso na técnica se compararmos com o realizado em WAKING LIFE (2001), mas eu ainda prefiro o primeiro, que me deixou bem mais entusiasmado com os inúmeros convites à filosofia. Em O HOMEM DUPLO, não há muito espaço para digressões filosóficas, já que Linklater, nesse filme, prefere, aparentemente, ser fiel à obra original.

Um dos problemas de O HOMEM DUPLO é o fato de ser um pouco confuso. Se a trama fosse um pouco mais clara, eu provavelmente teria gostado mais. Uma pena também que Richard Linklater não seja um cineasta mais regular; uma pena que ele não faça tantas maravilhas quanto ANTES DO AMANHECER (1995) e ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004). Se ele exercitasse mais a sua porção Rohmer, com certeza estaria entre os melhores cineastas contemporâneos. Mesmo assim, trata-se de um diretor de respeito e que merece ter seus trabalhos sempre conferidos com atenção.

Como perdi a sessão do filme na telona, tive de apelar mais uma vez para o divx - já tem dvdrip nos sites de torrent.

P.S.: Está no ar a nova edição da Zingu que, nesse mês, conta como principal destaque um dossiê com entrevistas e textos de Edu Janks, crítico da revista Big Man Internacional na época do auge do sexo explícito na Boca do Lixo.

terça-feira, maio 08, 2007

ANTOINE E COLETTE (Antoine et Colette)



Dos episódios descrevendo as aventuras de Antoine Doinel, ANTOINE E COLETTE (1962) era o único que faltava eu assistir. Na época que passou nos cinemas daqui, juntamente com OS PIVETES (1957), eu não quis assistir por achar que dois curtas não valiam o preço do ingresso de um longa. Só agora, graças às maravilhas do mundo do divx, que eu tive a chance de ver essa pequena pérola. Além de muito bom, o filme é de fundamental importância para a existência de um dos meus títulos favoritos de todos os tempos - DOMICÍLIO CONJUGAL (1970), obviamente também é o filme que eu mais gosto de François Truffaut. Diferente do que ocorreu durante as filmagens de JULES E JIM (1962), bastante conturbadas para Truffaut, quando o cineasta estava filmando o sketch ANTOINE E COLETTE para o longa-metragem multinacional em segmentos O AMOR AOS VINTE ANOS, ele estava muito feliz e autoconfiante, já que JULES E JIM havia tido uma ótima repercussão de público e de crítica.

Uma das razões desse segmento existir se deve à vontade de Truffaut de resgatar Jean-Pierre Léaud do ostracismo. Depois de OS INCOMPREENDIDOS (1959), Léaud não havia conseguido nenhum outro papel de destaque no cinema e a chance de ele voltar como Antoine Doinel foi um verdadeiro presente para o ator. ANTOINE E COLETTE narra o primeiro interesse amoroso de Antoine. Durante um concerto de música, Antoine conhece Colette. No início os dois ficam apenas se olhando à distância, até que um dia ele cria coragem e vai falar com ela. Antoine fica tão interessado na menina que resolve se mudar para um apartamento de frente à casa dela. O problema é que não há reciprocidade da parte de Colette e ele acaba tendo que se contentar com uma paixão platônica.

Como, dentre os personagens de Truffaut, Antoine Doinel é o que mais se parece com o próprio diretor, é de se imaginar que, antes de ter um relacionamento mais carnal, Truffaut teve uma experiência marcante de amor platônico. Truffaut gostou tanto de ANTOINE E COLETTE que depois lamentou o fato de não tê-lo transformado num longa-metragem, coisa que ele faria com facilidade. Para compensar esse arrependimento, Truffaut faria anos depois o excelente BEIJOS PROIBIDOS (1968), ampliando em formato "comédia romântica" o que havia iniciado em ANTOINE E COLETTE.

segunda-feira, maio 07, 2007

HOMEM-ARANHA 3 (Spider-Man 3)



Por mais que Sam Raimi seja um dos melhores diretores dos atuais filmes de super-heróis, não sou de ficar muito entusiasmado com os filmes do Homem-Aranha. Com esse terceiro, principalmente, pois trazia três vilões, entre eles, o Venom, o vilão mais representativo dos excessos dos quadrinhos de heróis dos anos 90. HOMEM-ARANHA 3 (2007) começa bem, com uma impressionante cena de luta entre o Aranha e Harry Osborn (James Franco) entre os prédios de Nova York. Esse talvez seja o melhor momento do filme. Não sei se estaria exagerando em dizer que naquele momento, o Homem-Aranha parecia ter nascido mais para o cinema do que para os quadrinhos. O mesmo se pode dizer da seqüência do Homem-Areia se formando. E é bonito de ver a fidelidade e o carinho com que os produtores desenvolveram esse vilão, que nem é de todo mau, na verdade.

A cena do simbionte alienígena chegando na Terra também foi bem idealizada e desenvolvida. Na verdade, o filme começa cheio de bons momentos e de boas intenções. Pena que aos poucos, ele vai perdendo a força e o número excessivo de vilões faz lembrar os filmes do Batman dirigidos pelo Joel Schumacher. A música também é outro ponto negativo, tornando as cenas sentimentais entre Peter e MJ bem piegas. Danny Elfman, que havia feito a trilha sonora do segundo filme, não aceitou participar do terceiro e foi chamado outro sujeito - Christopher Young.

Além do mais, o cabelinho emo do Peter Parker "bad boy" foi motivo de chacota do público, que ficou o chamando de "emo", atualmente uma das ofensas da moda. Ainda assim, não é de todo ruim esse Aranha mais dark. O visual ao menos ficou muito bom e os efeitos especiais do simbionte invadindo o corpo do herói também estão entre os pontos positivos. Aliás, essa onda de tornar os heróis mais sombrios até daria pano pra manga pra se fazer alguma comparação com o atual clima hostil dos Estados Unidos da era Bush, mas acredito que o filme mostra isso de maneira tão superficial que talvez fosse perda de tempo elaborar essas metáforas, já um tanto quanto manjadas.

Quanto às meninas, eu gostei da Gwen Stacy, interpretada por Bryce Dallas Howard, mais bela do que nunca de cabelos loiros. Kirsten Dunst também tem se mostrado cada vez melhor e mais atraente como a Mary Jane. Não chega a ter a perfeição estética dos quadrinhos, mas qual mulher poderia competir com a MJ dos traços de, digamos, Mike Deodato? Já Tobey Maguire, ele pode não se parecer com o Peter Parker dos quadrinhos, mas hoje é difícil imaginar um outro ator que funcione tão bem para o papel. Em resumo: HOMEM-ARANHA 3 é o mais fraco dos filmes do herói aracnídeo até agora, mas que possui vários pontos positivos, inclusive, momentos superiores às melhores seqüências dos seus antecessores. Vamos ver o que o quarto filme nos reservará. Provavelmente trará uma luta do Aranha contra o Lagarto.

sexta-feira, maio 04, 2007

GÊMEAS



Não estou conseguindo falar sobre O CHEIRO DO RALO, mas enquanto eu me decido se gostei ou não do filme, falemos de GÊMEAS (1999), o trabalho de estréia de Andrucha Waddington, marido de Fernanda Torres, bem sucedido diretor de publicidade e um dos sócios da Conspiração Filmes. Antes de entrar para o cinema, Andrucha já havia dirigido um monte de comerciais para a televisão, além de videoclipes para artistas como Caetano Veloso, Skank, Djavan, Paralamas do Sucesso e Marina Lima. Por mais que não se goste do seu trabalho, não se pode negar que ele tem um ótimo faro para boas estórias. Afinal, como não dizer que a história de uma mulher que teve três maridos no interior do Nordeste não é das mais interessantes? E dessa história real, Andrucha fez o seu EU TU ELES (2000), que ainda é o seu campeão de bilheteria. Depois, teve o ótimo CASA DE AREIA (2005), que também conta com um enredo dos mais interessantes sobre pessoas que moram distantes da civilização, num lugar cercado por areia por todos os lados. E sem falar que dessa vez o resultado cinematográfico foi um sucesso.

Mas geralmente se começa por baixo e a estréia de Andrucha com GÊMEAS não chega a ser um bom filme. Porém, mais uma vez se pode notar o faro para uma boa estória. Beber na fonte de Nelson Rodrigues é quase certeza de que um trabalho no mínimo interessante vai sair. Na trama de GÊMEAS, Fernanda Torres interpreta duas irmãs gêmeas de personalidades distintas. Uma delas é mais recatada e tímida, enquanto a outra tem o diabo no corpo. As duas têm o costume de usar o mesmo namorado. Elas são tão parecidas que nenhum de seus namorados notava. Porém, um dia a mais recatada se apaixona por um rapaz (Evandro Mesquita) e não quer que a outra se aproxime. Inclusive, ela planeja se casar com ele. O pai (o ótimo Francisco Cuoco) já avisa pro rapaz que ele teria que ficar com as duas e mostra incredulidade ao fato de que uma delas vai conseguir se casar. Como é de se esperar numa tragédia de Nelson Rodrigues, as coisas não vão terminar nada bem.

Um dos principais destaques do filme é o bom uso dos efeitos de "duplicação" de Fernanda Torres. Na verdade, o recurso não é nem tão sofisticado, já que na maioria das vezes - se não em todas - é utilizada uma dublê para a atriz. Mesmo assim, o resultado ficou muito bom e o fato de Fernanda Torres ser uma boa atriz contribuiu para o sucesso do projeto. Mesmo se tratando de uma interpretação over, já que o texto era de Rodrigues. O problema é que o filme, apesar de ser relativamente curto, ficou parecendo uma versão esticada de um curta, o que na verdade é mesmo, já que inicialmente GÊMEAS seria um segmento de TRAIÇÃO (1998). Por isso, o filme sofre uma quebra de ritmo perto do final. Quem aparece no filme em papéis curtos são a Fernanda Montenegro e o Matheus Nachtergaele.

Agradecimentos ao Hugo Leonardo pela cópia em divx do filme.

quinta-feira, maio 03, 2007

O MANÍACO DO OLHO BRANCO (White of the Eye)



Voltamos com nossa programação normal para falar de O MANÍACO DO OLHO BRANCO (1987), um dos filmes mais cultuados de Donald Cammell, cineasta que só tem quatro longas em seu currículo e que cometeu suicídio em 1996, logo após ter dirigido NAS GARRAS DO CRIME (1995), trabalho montado sem a sua aprovação. Até dizem que ele se matou por causa disso, mas eu não acredito nisso. Cammell é também diretor do videoclipe de "Pride", do U2, coisa que eu só fui descobrir agora, graças ao IMDB. Inclusive, tive chance de rever o clipe recentemente no dvd U2: 18 VIDEOS.

Quanto aO MANÍACO DO OLHO BRANCO, trata-se de um dos mais originais filmes de psicopata já feitos. O enredo é contado de forma cadenciada e sem pressa nenhuma e vai se formando um quebra-cabeças que só seria resolvido no clímax final. Em alguns momentos, o filme lembra os gialli de Dario Argento, principalmente nas seqüências que o maníaco - cujo rosto a princípio não é mostrado - pratica seus crimes. Sua especialidade é atacar donas de casa e retalhá-las. O protagonista do filme é Paul White (David Keith), o principal suspeito de ser o serial killer. O filme não entrega tão cedo a identidade do assassino, mas como existem poucos suspeitos é até fácil saber quem é. O Thomaz me falou que o livro no qual o filme se baseia tem um ponto de vista bem diferente, narrando a estória pelo ponto de vista da mulher de Paul White, interpretada no filme por Cathy Moriarty, a atriz que interpretou a esposa de Robert De Niro em TOURO INDOMÁVEL.

O MANÍACO DO OLHO BRANCO eleva o que seria um filme próximo de um trash em um filme elegante e sofisticado. Pelo menos até os instantes finais, que diminuem um pouco o valor do filme com um clímax convencional. Mas até chegar esse momento, o filme se beneficia de um clima muito interessante, um virtuosismo técnico com uso de travellings e uma fotografia estilosa que faz com que imaginemos como seria ver o filme no cinema. Um dos momentos mais fortes é quando Cathy Moriarty descobre partes de um corpo humano atrás da banheira e ainda assim tem coragem de conversar com o marido sobre o assunto e de fazer sexo com ele. A locação em Tucson e a visão do deserto do Arizona também são pontos altos. Outro destaque é a garotinha que faz o papel da filha de Keith e Moriarty, que tem um jeitão bem sinistro.

Até o momento, O MANÍACO DO OLHO BRANCO só saiu no Brasil em VHS pela América Vídeo, que distribuía por aqui os filmes produzidos pela Canon, produtora da dupla Golum/Globus, conhecidos por produzirem filmes de baixo orçamento como aqueles protagonizados por Charles Bronson e Chuck Norris na década de 80. A produtora deles faliu e foi investigada por lavagem de dinheiro. Apesar de tudo, muita gente tem saudade desse tempo.

Agradecimentos especiais a Don Thomazzo.

quarta-feira, maio 02, 2007

VIAGEM A PORTO ALEGRE


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Com tanta coisa chata acontecendo na minha vida ultimamente, essa viagem para Porto Alegre foi um verdadeiro oásis. E espero que seja o início de uma nova fase. Mas, independente do que o futuro possa reservar pra mim, aqueles três dias que passei em companhia de amigos tão queridos ficarão guardados na minha lembrança como um momento dos mais especiais que já passei. Quero agradecer muito a hospitalidade que o Thomaz, a Luciene, o Fabrício e a Fer nos mostrou. Comecemos o relato.

Sábado

Acordar de madrugada não é bem o meu forte e cheguei no aeroporto por volta das cinco da manhã para embarcar para Porto Alegre. Sentia um pouco de dor de cabeça e torcia para que o avião chegasse logo para que eu pudesse dormir mais um pouco. Pena que o teco-teco da Gol saiu com quase três horas de atraso. E o serviço de bordo deles não é dos melhores. O que eles oferecem para os passageiros é só uma barrinha de cereal com alguma bebida. Bem diferente da Tam. Depois de ler um pouco a Paisà e o gibi dos Vingadores e de ter cochilado um pouco, cheguei ao destino desejado. Lá estavam a Fer, o Fabrício, o Thomaz e o Michel - que já havia chegado desde cedo - me esperando. E foi uma festa esse momento. Tentei tirar uma foto dos quatro me esperando, mas a máquina estava desajustada. Vou ficar com a foto desse momento só na minha memória. A Fer já tinha armado um passeio turístico pela cidade num ônibus de dois andares. Nunca tinha visto nada parecido a não ser em filme americano. Não sei se tem algo parecido aqui em Fortaleza. Acho que não tem. Sei que depois de meia hora de passeio, começou a esfriar bastante. Depois disso, o Thomaz voltou para nos pegar e a gente foi para um boteco bem legal, cheio de frases de para-choque de caminhão. Depois, rolou uma caminhada pela cidade - esqueci o nome do bairro - e em seguida fomos a uma churrascaria-rodízio que conta com shows de danças típicas. Muito legal. A estadia foi melhor do que eu imaginava. O Thomaz tinha dito que eu e o Michel íamos dormir nos sofás da sala, mas quando a gente chegou lá havia duas camas no quarto. Uma beleza. O Thomaz tem tanto DVD, CD, VHS e livro que três estantes não são suficientes para guardar tudo. Ele até gravou uns filminhos pra mim. Saí de lá com cópias de DIABOLIK, do Mario Bava, e de FOI DEUS QUEM MANDOU, do Larry Cohen. E eu gostei muito da Luciene, a simpática e atenciosa esposa do Thomaz.

Domingo

Quando acordamos já eram quase onze da manhã e o Thomaz nos levou lá para o Brique da Redenção, um lugar muito bonito onde as pessoas passeiam com seus cachorros e suas garrafas de chimarrão e onde se vende bugigangas e comida e onde artistas populares se apresentam. As pessoas da cidade são muito bonitas. É cada mulher linda passando pelas ruas que eu tive vontade de ficar por lá mesmo. A Fer e o Fabrício encontraram a gente lá no Brique e de lá fomos experimentar o cachorro-quente mais famoso da cidade. Além de gostoso, o hot dog é enorme. Tão grande quanto o "xis" que eu havia comido no sábado. Inclusive, essa é outra característica do povo gaúcho: comer muito. Depois do hot dog e do ataque das abelhas assassinas, o Thomaz nos levou para outro passeio, lá pelos lados do Rio e do Gasômetro. A parada seguinte foi num cinema onde estava sendo exibido o festival "É Tudo Verdade", onde vimos três curtas do Kieslowski. Depois fomos ao Panchos, um restaurante uruguaio que serve uma das comidas mais deliciosas que eu já comi na vida. E olha que eles servem a carne mal passada, que eu normalmente não gosto, mas que dessa vez eu não resisti. Experimentei um pouco da cerveja uruguaia também. Depois de comer bem muito, ainda fomos para um bar inspirado em gibis europeus. Bem legal lá. Pena que não conseguimos comer mais nada. Como esse bar era pertinho do apartamento da Fer e do Fabrício, a noite terminou com alguns episódios de SEINFELD.

Segunda-feira

Era aniversário do Thomaz e como a terça-feira era feriado, muita gente não estava trabalhando. Pela manhã, assistimos O MANÍACO DO OLHO BRANCO, que eu tinha vontade de ver desde os tempos que o Carlão o elogiava em sua saudosa coluna. Depois teve outra refeição farta. Perto da casa do Thomaz tem esse restaurante com rodízio de churrasco. E eu fiquei impressionado como a comida é barata lá. A gente não visitou os cemitérios, como o Christian depois sugeriu, mas pôde visitar um hospital. É que a Fer estava com o pé inchado e doendo e tivemos que dar um pulinho lá - quer dizer, a Fer não podia dar pulinho nenhum com o pé daquele jeito. Com o Thomaz indo trabalhar e a Fer doente, o Fabrício teve que aturar a gente. Fomos ao Shopping Bourbon ver algum filme. Pena que as opções de lá não eram tão atraentes. Mesmo assim, estava passando O CHEIRO DO RALO lá e na falta de outra opção, o Michel aceitou rever o filme. Depois disso, parada pra fazer uma boquinha num café no shopping. E conversar bastante. A hora da festa do Thomaz estava perto e voltamos pra casa. A festa foi a maior reunião de pessoas da Cinefelia - ou que já fizeram parte da lista - que eu já vi. Além do quinteto reunido, encontramos por lá o Christian, o Gustavo, o Tiagón e o Matheus, que também estava aniversariando. Pena que nem o Rodrigo, nem o Marcus Mello e nem o Davi Pinheiro apareceram por lá. Eu custei a me enturmar, já que lugar onde tem muita gente me deixa um pouco desnorteado, mas depois fui me adaptando. O Christian é uma grande figura. Conhecê-lo pessoalmente aumentou a admiração que eu já tinha por ele. Torço pra que ele consiga publicar aqueles contos geniais que ele escreve. O relato de que uma senhora foi procurar um filme chamado "O Segredo de Mountain Bike" na locadora onde ele trabalha foi memorável. O Gustavo é gente finíssima. E de uma gentileza... E até que a gente conversou um bocado. O Tiago teve que sair mais cedo, e quando ele estava na mesa eu ainda estava em "fase de adaptação" ao ambiente, me sentindo meio deslocado. Por isso, não pudemos conversar direito. Sei que na hora que a gente saiu de lá já eram quase quatro da manhã e um nevoeiro havia invadido a cidade.

Terça-feira

Como já estava perto de amanhecer, o Thomaz achou melhor a gente ficar conversando e vendo o show dos Mutantes, com a Zélia Duncan na formação. Gostei bastante. Mas, como diriam os teletubbies, era hora de dar tchau. Na hora de pegar o avião, vi que o aeroporto estava fechado por causa da forte neblina. O tempo só iria limpar duas horas depois e o atraso no vôo acabou prejudicando a conexão em São Paulo. Resultado: teria que pegar o vôo para Fortaleza apenas às 20h50. Como eu estava cansado pra caramba e sonhando com uma cama macia, fiquei triste com a notícia. Mas tentei levar pelo lado bom e já estava pensando em pegar umas duas sessões de cinema enquanto esperava a hora. A sorte é que eu vi que a Gol estava oferecendo uma hospedagem num hotel para os clientes prejudicados pelo atraso. Assim, fui parar num hotel de luxo, o Dobly, lá em Guarulhos mesmo. Chegando no hotel, a fome era tanta que eu perguntei logo onde ficava o restaurante. A comida era deliciosa, o banho foi dez e a cama era um sonho. Pra quem estava cansado, com fome e com sono aquilo era tudo que se podia querer na vida. E eu ainda ia ter direito ao jantar também, mas não estava com fome e preferi comer no aeroporto mesmo. Só cheguei em Fortaleza à meia-noite e minha irmã foi me buscar. Com tanta gente me tratando tão bem de uma ponta à outra do país, eu me senti, naquele momento, um sujeito de muita sorte.

Quem quiser ver as fotos em tamanho maior, é só clicar no link.