quinta-feira, março 31, 2005

ANTHONY HICKOX EM DOIS FILMES



Se o Carlão (Reichenbach) não tivesse elogiado Anthony Hickox, manifestando com entusiasmo sua descoberta, esse seria mais um diretor de filmes B que não me interessaria nenhum pouco. Passaria desapercebido por mim. Carlão gostou tanto dos filmes de Hickox que até colocou um inédito dele numa das sessões duplas do Comodoro - CONSEQUENCE (2003). Depois do interesse inicial, vi A ÚLTIMA MISSÃO (2001), excelente thriller de espionagem que me deixou com uma ótima impressão. Até diria que o filme é superior em muitos aspectos a A SUPREMACIA BOURNE, uma produção do primeiro escalão. Pena que esses dois exemplares do cinema de Hickox não confirmem pra mim sua maestria, apesar de ter gostado de um deles.

CONSPIRAÇÃO FATAL (Storm Catcher)

Esse é um dos piores filmes que eu vi nos últimos tempos. Li nos comentários sobre o filme no site da Amazon que o DVD americano do filme tem um comentário em áudio de Hickox que deve ser impagável. No comentário, o diretor esculhamba o próprio filme, dizendo o quanto ele é ruim, apontando as principais falhas e admitindo que só fez mesmo esse filme para pagar as dívidas. Não deixa de ser um bom motivo. Talvez se eu tivesse lido isso antes, eu até teria visto o filme com mais bom humor e ainda teria me divertido com os seus problemas. Teve uma hora que eu voltei a fita pra conferir se aquilo em cima do avião eram mesmo fios. Sim, o avião era uma maquete com os fios aparecendo. Antes de eu ver os tais fios até que os jatos estavam convincentes, hein. A história é tão confusa que eu não ouso resumir, mas dá pra dizer que é sobre um oficial da força aérea (o tosco Dolph Lundgren) que é alvo de uma conspiração e acusado de ter matado pessoas. No começo eu pensei que seria um filme quase hitchcockiano, sobre um inocente que é acusado de um crime que não cometeu e foge da polícia enquanto tenta obter provas de sua inocência. Mas não é bem assim. Depois que ele foge, a primeira coisa que ele faz é visitar a sua família. Que é imediatamente atacada por seus inimigos, numa cena até que interessante, cheia de fumaça e câmera lenta. O miolo de CONSPIRAÇÃO FATAL (1999) tem um ritmo bom, prende a atenção, mas o começo com aqueles diálogos ruins e o final constrangedor fazem com que a balança penda ainda mais para o lado negativo. Gravado da Globo.

CONTAMINAÇÃO (The Contaminated Man)

Só a presença de um ator como William Hurt já deixa esse filme com cara de produção A. Enriquecendo o elenco, as presenças de Natascha McElhone e Peter Weller. CONTAMINAÇÃO (2000) também tem a vantagem de ter uma história bem coesa, simples e sem complicações, e com um ritmo que me deixou grudado na telinha até o final. O prólogo do filme já chama a atenção, mostrando William Hurt chegando em casa, sem saber que estava contaminado. É quando morrem em questão de minutos sua esposa e sua filha pequena. Passam-se vários anos, e num laboratório perto de Budapeste, ocorre um acidente, e um homem contaminado com um vírus letal foge. Uma das características desse vírus é que a primeira pessoa contaminada sobrevive mais tempo, enquanto que as vítimas secundárias morrem em questão de minutos. Por onde esse homem passa, vai deixando uma trilha de morte. William Hurt, o cientista que tem imunidade ao vírus, junto com a especialista em terrorismo Natascha McElhone, tentam deter o homem. CONTAMINAÇÃO é um jogo de gato e rato bem interessante e compensa um pouco os erros de CONSPIRAÇÃO FATAL. Visto em fita selada.

Mesmo assim, não perdi o interesse pelos filmes de Hickox, não. Pretendo vê-los sempre que tiver oportunidade. Quem tem o canal Cinemax, por exemplo, pode conferir na programação os filmes FULL ECLIPSE (1993) e FEDERAL PROTECTION (2002).

quarta-feira, março 30, 2005

FÉRIAS DE AMOR (Picnic)



Mais um exercício de memória pra mim. Vi FÉRIAS DE AMOR (1955), de Joshua Logan, gravado da Globo, há uns dois meses e vou ter que contar apenas com o que me lembro do filme e com as informações que estou pegando da internet, que também vão servir pra refrescar minha memória. Esse é o problema de ver muitos filmes num curto intervalo de tempo, como aconteceu em janeiro, quando estava de férias. Ao contrário de agora, que estou sentindo falta de mais tempo livre para usufruir do prazer de ver filmes.

Quanto a FÉRIAS DE AMOR, talvez tenha sido um erro eu ter visto o filme dublado e mutilado, já que a fotografia em scope, a cargo do lendário James Wong Howe, perde muito com a tela cheia. Até porque o filme está disponível em DVD no Brasil pela Columbia. E em widescreen.

Na trama, o personagem de William Holden é um jovem de vinte e poucos anos que chega sem dinheiro e num trem de carga numa cidadezinha americana, a fim de recomeçar a vida. Em pouco tempo, com seu magnetismo, ele logo conquista muita gente, especialmente as mulheres. Kim Novak, que na época tinha 22 aninhos, faz o papel da garota mais bonita da cidade - o que não é difícil tendo em vista a beleza deslumbrante da moça - que logo fica caidinha pelo rapaz.

Se Kim Novak está perfeita como a garota bonita do interior, Holden, mesmo sendo um dos grandes atores americanos, está muito velho para o papel. Ele tinha 36 anos quando fez o filme. E não convence como um rapaz de vinte e poucos anos. Além do mais, não me identifiquei nem simpatizei com o seu personagem, o que de certa forma diminuiu minha apreciação pela obra.

O filme tem uma coadjuvante que rouba a cena: Rosalind Russell, que faz a solteirona desesperada. Numa das cenas mais tocantes do filme, ela bota o seu namorado na parede, dizendo que quer se casar com ele o quanto antes - os dois já estavam juntos há muito tempo. A bela interpretação de Rosalind nos faz sentir o medo da solidão e do abandono. No entanto, a cena mais importante de FÉRIAS DE AMOR é talvez a famosa cena da dança de Holden com Novak durante a festa, o que gera um escândalo, já que ela namorava um dos rapazes ricos da cidade.

Só achei que o apelo sensual do filme se dá principalmente ao fato de William Holden estar sem camisa em vários momentos - seria preferível pra mim que fosse a Kim Novak sem vestido, algo bem mais difícil de se ver em se tratando de cinema americano dos anos 50. Logo, esse erotismo sutil do filme talvez seja mais interessante para as mulheres (ou para o público gay). Digo isso, porque os últimos filmes que eu vi que exploravam corpos masculinos de maneira parecida foram OLHOS FAMINTOS 2 e MÁ EDUCAÇÃO, ambos dirigidos por cineastas gays.

segunda-feira, março 28, 2005

REENCARNAÇÃO (Birth)



Fim de semana bacana esse que passou. Suspeito que o melhor que eu tive no ano, junto com o feriado em que estive em São Miguel do Gostoso-RN para receber o Quepe do Comodoro. Pra começar, na quinta-feira fiz uma dobradinha no cinema com O CHAMADO 2 e REENCARNAÇÃO. Entre uma sessão e outra, achei o livro "Maldito - A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão" por uma pechincha. Do mesmo autor, já tinha lido "Barulho", que André Barcinski tinha escrito sobre o rock americano do início da virada da década de 80/90, flagrando o início do fenômeno Nirvana, entrevistando Joey Ramone, etc. Barcinski, que escreveu "Maldito" junto com Ivan Finotti, tem um estilo de escrever muito gostoso de se ler. O livro já foi lançado desde 1998 e ainda está na primeira edição, mas antes tarde do que nunca adquirí-lo. "Maldito" fez sucesso até no Porto das Dunas, onde fui passar o feriadão com uma turma muito gente fina. O pessoal ficou até querendo ir atrás dos filmes mais podreiras de Mojica, como aquele de sexo explícito com um pastor alemão. Mas falemos de REENCARNAÇÃO.

Primeiro filme que vejo do diretor Jonathan Glazer. Não vi SEXY BEAST (2000), que teve uma distribuição bem discreta nos cinemas e já passou na tv paga (FOX) e eu não dei muita bola pra gravar ou assistir. O diretor é mais um que vem dos videoclipes. Mas os videos que ele dirigiu são bem respeitáveis: "Street Spirit" e "Karma Police", do Radiohead; "The Universal", do Blur; "Virtual Insanity", do Jamiroquai; "Karmacoma", do Massive Attack.

Ainda há um certo preconceito dentro da crítica de cinema com diretores vindos dos videoclipes, mas acredito que aos poucos isso vai desaparecendo à medida que diretores como Michel Gondry, Mark Romanek, Spike Jonze e David Fincher vão fazendo bons filmes.

REENCARNAÇÃO (2004), apesar de privilegiar o visual, com a bela fotografia de Harris Savides, que já trabalhou com David Fincher e Gus Van Sant, não tem o ritmo acelerado dos vídeos musicais. Ao contrário, o ritmo é bem lento e estabelece um clima de mistério e estranheza bem interessante. Não se trata aqui de um clima típico de filme de horror, apesar de o tema inicialmente tratar de um assunto ligado ao mundo espiritual.

O roteiro é do grande Jean-Claude Carrière, antigo colaborador de Luis Buñuel em algumas de suas obras-primas. Não via um filme com roteiro dele desde o fim dos anos 80, com A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (1988) e VALMONT (1989). Não que ele tenha estado parado: os filmes que ele roteirizou, em sua maioria franceses, é que não têm chegado aqui.

Na intrigante história de REENCARNAÇÃO, Nicole Kidman é uma mulher que depois de ter sofrido muito com a morte do marido que amava, aceita se casar de novo. No dia em que é anunciado o casamento, durante a festa de anivesário da matriarca Lauren Bacall (ótima), um menino de dez anos (Cameron Bright) chega até o apartamento dela e lhe diz que é Sean, o seu marido morto há dez anos, e pede para que ela não se case novamente. As pessoas aos poucos vão começando a acreditar no garoto, à medida que ele vai mostrando saber de muitas coisas.

Talvez por causa da recepção fria da crítica que eu tenha me surpreendido com as qualidades desse filme de estranha beleza. Numa das seqüências mais memoráveis, a câmera fica estática, focalizando em close o rosto perturbado de Nicole Kidman quando ela vai com o noivo para o teatro. Não contei o tempo, mas acredito que ficamos olhando para o rosto de Nicole por mais de dois minutos. Com essa cena, vemos a excelência da performance de Nicole, variando suas expressões faciais e mostrando sua apreensão e mal estar diante daquele garoto que dizia ser o seu amado marido. Ela não aparece bonita no filme. Até lembra a Mia Farrow em O BEBÊ DE ROSEMARY, com aquele cabelo curtíssimo. Há quem diga que esse negócio de se enfeiar é estratégia para mostrar que é boa atriz - lembrando que ela já tinha colocado uma prótese no nariz para fazer AS HORAS -, mas acredito que no caso de Nicole, ela não precisa mais provar nada.

REENCARNAÇÃO também tem o mérito de fugir dos clichês dos filmes de horror ou do melodrama. Até por ter optado em não se enquadrar em nenhum desses gêneros.

P.S.: Pra quem se interessa em baixar alguns videoclipes de Jonathan Glazer e de outros diretores, eis um ótimo link. Ainda não chequei a qualidade dos downloads, mas fica a dica assim mesmo.

sexta-feira, março 25, 2005

O CHAMADO 2 (The Ring Two)



Por mais que digam que o cinema americano anda sem criatividade e está apelando para copiar sucessos de outros países (especialmente da Ásia), estou curtindo pra caramba esse momento. Tudo bem que vai chegar uma hora que isso vai cansar, que a gente vai ficar de saco cheio de ver cabelo preto no rosto, mas não é assim até com as melhores coisas?

Depois de conferirmos a refilmagem de O GRITO pelo mesmo diretor do original japonês (Takashi Shimizu) , chega a vez de vermos como Hideo Nakata, talvez o mais importante e popular dos diretores de terror japoneses da atualidade, se sai trabalhando em Hollywood. Devo dizer que não fiquei nada decepcionado.

O CHAMADO 2 (2005) supera em muito o original japonês e é quase tão bom quanto O CHAMADO (2002), de Gore Verbinski. Em comparação com o original japonês, essa versão americana é muito mais fácil de entender, muito melhor desenvolvida, e conseqüentemente, mais fácil de se envolver.

Quem viu RINGU 2 (1999) e acha que vai ver apenas uma cópia americanizada do original pode ficar tranqüilo: o roteiro é praticamente outro. E assim como no filme de Verbinski foi colocada aquela espetacular cena dos cavalos, nessa continuação, quem aparece para aterrorizar os personagens e a platéia são um grupo de veados. A cena dos veados é um dos pontos altos do filme. Claro que muitas cenas da versão original não podiam ficar de fora, como por exemplo, a famosa cena da "perseguição" de Samara (ou Sadako, no japonês) dentro do poço.

Em se tratando de ritmos e tons, o que mais diferencia esse segundo filme do primeiro é a abordagem mais intimista. Enquanto Verbinski colocava doses de aventura e um ritmo mais acelerado, nessa seqüência, sente-se no ar até um certo anticlímax.

A fotografia também está bem mais bonita, mas isso já era de se esperar, já que foi injetado muito mais dinheiro nessa produção. Sem falar da sorte que é ter uma atriz como Naomi Watts encabeçando o elenco. O garotinho David Dorfman tem mais destaque nessa seqüência, fazendo com que o filme lembre em certos momentos O SEXTO SENTIDO, de M. Night Shyamalan.

Diferente da versão japonesa que ainda continha várias cenas envolvendo a tal fita amaldiçoada, no remake americano, a fita é praticamente deixada de lado logo no começo do filme. O filme se concentra principalmente nas tentativas de Samara de se apossar do corpo do garoto.

Hoje saiu uma entrevista de Hideo Nakata na Folha de São Paulo e ele falou que já tem dois projetos em andamento nos EUA (é onde está a grana, né?): um deles é a refilmagem de um filme americano dos anos 80 chamado THE ENTITY; o outro se chama OUT, que é baseado num romance japonês e é sobre quatro mulheres que acobertam o crime de uma delas. Fora isso, no IMDB consta que ele já está fazendo a pré-produção da refilmagem de THE EYE, dos Pang Brothers. Isso sem falar no terceiro filme da franquia americana de O CHAMADO, que dizem que tanto pode ser o remake de RINGU 0, que no Japão, não foi dirigido por ele, como pode ser um filme totalmente novo. Desse jeito, o homem não volta mais pro Japão.

Enquanto isso, aguardemos a chegada de VISÕES (The Eye 2) - vi o trailer desse filme hoje no cinema e pelo visto não tem nada a ver com o primeiro filme - , e DARK WATER, de Walter Salles, que, quem sabe, pode até surpreender positivamente.

quinta-feira, março 24, 2005

DAMIANO DAMIANI EM DOIS FILMES



Ando bem atarefado e com pouco tempo tanto pra ver filmes quanto pra atualizar o blog. Mas como prezo muito esse espaço, vou tentar ser o mais objetivo possível para falar sobre dois filmes do diretor italiano Damiano Damiani. UMA BALA PARA O GENERAL (1967), já faz quase dois meses que vi. Portanto, vai ser um pouco um exercício de memória; já CONFISSÕES DE UM COMISSÁRIO DE POLÍCIA (1971), assisti nesse fim de semana, graças ao amigão Renato que me presenteou com um VHS do filme. A fita é uma relíquia: tão antiga que as legendas ainda eram em letra de forma, vejam vocês. Mas a qualidade da imagem está muito boa.

Procurei na internet por um dossiê sobre a obra de Damiani, como aqueles que têm no Senses of Cinema, mas não achei. Talvez porque o diretor ainda está vivo e não anda dirigido filmes tão bons quanto no passado. Vamos aos filmes.

UMA BALA PARA O GENERAL (¿Quien sabe? / A Bullet for the General)

Esse filme disputa pau a pau com O VINGADOR SILENCIOSO aka O SILÊNCIO DA MORTE, de Sergio Corbucci, pelo título de melhor western spaghetti não dirigido por Sergio Leone que eu já vi. Acho que perde por pouco. Em comum, os dois filmes têm a presença de Klaus Kinski, ainda que sua participação em UMA BALA PARA O GENERAL seja bem menor. Mas o que o filme lembra mesmo é QUANDO EXPLODE A VINGANÇA, de Leone, mostrando todo o clima de guerra que havia no México no início do século XX.

Na história, o bandido mexicano El Chuncho, brilhantemente interpretado por Gian Maria Volonté, é chefe de um grupo que rouba armas para Elias, um líder revolucionário. Num assalto a um trem, numa cena espetacular com muito tiroteio e sangue, El Chuncho conhece o americano El Gringo (Lou Castel) que se junta ao seu grupo por ter conquistado a simpatia de Chuncho. O que o mexicano não sabe é que o americano planeja se infiltrar no grupo de rebeldes com a missão de matar Elias. Ele é um assassino de aluguel contratado pelo governo mexicano.

O filme desenvolve muito bem o relacionamento dos dois homens, que se respeitam apesar das diferenças - enquanto o americano é frio e com aspecto aristocrático, El Chuncho é bruto, emotivo e um pouco ingênuo. As cenas de ação e violência também são pontos altos do filme. Não esquecendo da belíssima trilha sonora de Luiz Bacalov. Quem ouviu a faixa que Tarantino escolheu desse compositor para pôr na trilha sonora de KILL BILL sabe do que estou falando. Coisa fina.

O DVD da ClassicLine está excelente, privilegiando a bela fotografia em scope. Se não me engano, na capinha do disco consta que ele está em formato standard, mas podem locar sem medo e se deliciar com essa maravilha cheia de sons de bala misturados com Bacalov.

CONFISSÕES DE UM COMISSÁRIO DE POLÍCIA (Confessione di un Commissario di Polizia al Procuratore della Repubblica)

Apesar da bela oportunidade de ter visto esse filme em VHS, fiquei um pouco incomodado com o corte da imagem para a tela cheia. Em alguns momentos, os personagens mal aparecem, porque ficam justamente nos cantos da tela cortados - suspeito que a janela do filme seja 2,35.

Assim como UMA BALA PARA O GENERAL, CONFISSÕES DE UM COMISSÁRIO DE POLÍCIA também tem uma trilha sonora linda, dessa vez por conta de Riz Ortolani, que por coincidência também tem uma faixa sua na trilha de KILL BILL - esse Tarantino tem bom gosto, hein.

Outra semelhança com UMA BALA PARA O GENERAL é que aqui temos dois personagens que de certa forma se enfrentam e se respeitam. Temos o juiz Traini (Franco Nero), que está investigando a participação do comissário Bonavia (Martin Balsan) na tentativa de assassinato do mafioso Lommuno. No começo do filme, vemos o comissário mandando soltar de um hospício um sujeito que o mafioso havia mandado prender. Sua intenção era ver o sujeito se vingando do chefe da máfia. A trama vai ficando mais complicada, mas se esclarece perto do final, com a bela cena de confissão do comissário para o juiz. Um belo filme que merece uma edição em DVD de respeito.

terça-feira, março 22, 2005

ROBÔS (Robots)



No fim de semana que eu estava em Salvador, as estréias pouco interessantes de lá foram as mesmas daqui. As principais, mercadologicamente falando, foram ROBÔS e O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA. Entre os dois filmes, escolhi o que recebeu melhores críticas, mas depois fiquei me perguntando se não deveria ter escolhido o filme nacional, até pra prestigiar o cinema brasileiro, apesar da minha insatisfação em torno da dificuldade de ver os filmes brasileiros que mais me interessam. De qualquer forma, se der, ainda verei o longa do Bruno Barreto, mesmo não estando tão empolgado e com a falta de tempo e o excesso de trabalho me impossibilitando de ir mais vezes ao cinema.

Uma coisa que eu achei absurda foi o preço do ingresso nos cinemas UCI de Salvador. No final de semana, o ingresso chega a custar R$ 16,00. Aqui, até semana passada era R$ 14,00. Será que aumentou também? Onde vamos parar desse jeito? Depois reclamam das pessoas que baixam filmes da internet. Por falar nisso, sabiam que agora existem dois modelos de DVD player que tocam divx? Além do já conhecido modelo da Philips (DVP642), agora tem o modelo da Pioneer (DV-578-Divx). Os dois são importados, mas com a baixa do dólar, eles estão com preços até acessíveis.

Bom, mas eu estou enrolando, enrolando, e não falei ainda da nova animação do estúdio Blue Sky, o mesmo que produziu o divertido A ERA DO GELO (2002). Os diretores também são os mesmos: Chris Wedge e o brasileiro Carlos Saldanha. Ao contrário do que andam dizendo por aí, esse segundo filme deles não é melhor que A ERA DO GELO, que pra mim foi, além de muito engraçado, emocionante, de chorar até. Não que ROBÔS (2005) não seja bom. É um filme bem simpático, divertido, tecnicamente superior, mas fica muito a dever especialmente se você for ao cinema com as expectativas causadas pela maioria das críticas que estão pipocando por aí. Não vi nada de empolgante ou emocionante na história do robô Rodney Lataria. Até dá a impressão que os críticos repetem a opinião dos outros e assim cria-se a idéia de que tal filme é mesmo ótimo, como se fosse um fato.

Mas eu sei que não tenho o mesmo gosto da maioria em se tratando dessas animações por computador. Afinal, eu sou um dos poucos que odiaram os dois SHREKs e não me interesso muito pra ver animações no cinema. Exceção, talvez, para OS INCRÍVEIS, que fui assistir com grandes expectativas. Mas isso deve ser coisa da idade mesmo. Devo estar me tornando um velho chato e ranzinza.

Na história de ROBÔS, Rodney Lataria é um robô pobre, construído a partir de sobras de outros robôs. A história da mudança da lataria dele a cada ano que passa é uma das melhores sacadas do filme. Como ele tem aptidão para inventar coisas e não quer terminar como o pai, que trabalha como lavador de pratos num restaurante, ele vai para Robópolis, a fim de conhecer o Grande Soldador. Ao chegar nessa cidade grande, ele vê que as coisas por lá não andam boas para os robôs pobres.

Os filmes da Blue Sky talvez não tenham a mesma qualidade técnica de suas concorrentes Pixar e Dreamworks, mas tem outras coisas a seu favor. Além da falta de vergonha de ser emotivo (diferente do cinismo de SHREK), poucas vezes tantos astros do cinema estiveram presentes como dubladores numa animação. Em ROBÔS, entre os nomes mais conhecidos, temos: Ewan McGregor, Robin Williams, Greg Kinnear, Stanley Tucci, Diane Wiest, Mel Brooks, Jim Broadbent, Halle Berry, Paul Giamatti, Drew Carey e James Earl Jones. Eu, pelo menos, nunca vi tanto ator conhecido junto em filme de animação. Quem mais se destaca é, claro, Robin Williams, no papel do desengonçado Manivela. Por isso, nem precisa dizer que é preferível ver o filme na versão legendada. Ou será que alguém quer ver o filme com a voz do Reynaldo Giannechinni?

P.S.: Tem outro texto meu no Projeto 365. Dessa vez, O PALÁCIO DOS ANJOS, do saudoso Walter Hugo Khouri.

domingo, março 20, 2005

PARA SEMPRE LILYA (Lilja 4-ever)



Essa última viagem que fiz para Salvador teve umas preliminares bastante conturbadas e que mexeram comigo psicologicamente. O principal problema foi o choque de horários com a nova escola onde eu ia começar a trabalhar nessa semana. Por causa dessa viagem, houve uma pequena confusão com a organização educacional do município. O sentimento de culpa que me invade nessas ocasiões é sempre perturbador.

Cheguei em Salvador na quinta-feira e fiquei feliz ao saber que o aguardado filme (pelo menos pra mim) PARA SEMPRE LILYA (2002), de Lukas Moodysson, estava em cartaz numa única sessão na Sala de Arte - Cine XIV, que fica no Pelourinho. Era o último dia de exibição do filme na cidade e fiquei admirado com o taxista, que não sabia onde era o lugar. Até poderia tirar sarro do jeito bahiano de ser, já que ao chegar lá, faltando apenas dez minutos para começar o filme, a moça da bilheteria falou pra mim: "aguarda um minutinho que eu ainda estou abrindo o caixa". Isso, com aquele sotaque bem calmo. Mas o filme começou sem atraso - tinha pouca gente mesmo na sessão. O cinéfilo de Salvador que costuma vez "filmes de arte" tem bem mais opções do que o de Fortaleza. Lá em Salvador tem quatro salas dedicadas a filmes fora do circuitão.

Quanto ao filme, de tanto o amigo Daniel "the Walrus" ter recomendado entusiasticamente, fiquei um pouco ansioso para ver o filme. Tinha visto os dois filmes anteriores do diretor - MENINAS DE COLÉGIO (1998) e BEM VINDOS (2000), os dois muito bons. O primeiro deles, inlusive, é um dos favoritos de outro amigo meu: o Pablo, de Brasília.

Ao contrário de BEM VINDOS, que é um filme bem "pra cima", PARA SEMPRE LILYA é um dos filmes mais pessimistas que eu já vi. O que mais passava pela minha cabeça eram frases como "ninguém presta" ou "a vida é uma bosta mesmo". Mesmo com um final que tenta reverter essa idéia, o mal já estava feito. O clima geral do filme acaba sendo niilista, "mundo cão".

Na história, Lilya é uma garota russa de 16 anos que mora num lugar triste e desolado. Sua esperança de ir para os EUA com a mãe cai por terra quando a mãe diz que não vai levá-la, que vai deixá-la lá sozinha. Com o tempo, a solução que ela encontra para conseguir dinheiro é ser prostituta. O destino faz com que a esperança cruze novamente o caminho de Lilya, quando ela encontra um rapaz gentil e carinhoso que lhe promete um emprego na Suécia e uma vida que ela pediu a Deus. Mas as coisas no novo país não vão ser como ela gostaria que fosse.

Impossível não lembrar de outro filme sueco, o exploitation THRILLER - A CRUEL PICTURE, de Bo Arne Vibenius, que ficou famoso recentemente graças às referências em KILL BILL, de Tarantino. Vendo esses dois filmes e pensando no clima depressivo das obras de Bergman, a impressão que fica da Suécia é de que se trata de um dos piores lugares do mundo pra se viver. Não é esse o país que é campeão em número de suicídios? Ouvi falar que era. É difícil viver num mundo tão frio. Claro que isso é só uma impressão e que o país deve ser melhor do que eu imagino. A comparação com o filme de Vibenius não é gratuita. O longa de Moodysson mesmo não sendo tão violento, é talvez ainda mais cruel com sua protagonista, que não tem a menor chance de se defender.

A atriz que faz a Lilya, Oksana Akinshina, é bastante convincente nos diversos momentos em que interpreta a personagem. Seja em momentos de desespero ou de alegria, difícil não torcer pelo sucesso de Lilya. Talvez seja por isso mesmo que o filme é tão triste. Tocante também o personagem do garotinho amigo de Lilya. Ele é constantemente espancado em casa e as suas válvulas de escape são: conversar com Lylia, jogar basquete sozinho e cheirar cola.

Até se poderia comparar esse filme, por causa de todos esses sofrimentos que Lilya passa, com aqueles dois repugnantes filmes do também escandinavo Lars Von Trier - DANÇANDO NO ESCURO e DOGVILLE. O filme de Moodysson até poderia ser acusado também de manipulativo, mas PARA SEMPRE LILYA flui melhor, parece mais real, não passa aquela sensação de que o diretor está procurando mais e mais desgraças para a coitada da personagem. A falta de esperança dói mais no filme de Moodysson e o filme é desaconselhável para pessoas com depressão.

P.S.: No Projeto 365, tem texto meu desde quinta-feira sobre 44 MINUTES. Quem quiser conferir, está dado o recado.

terça-feira, março 15, 2005

TRÊS MELODRAMAS



Prosseguindo com a fase "cochilando no cinema", resolvi não fazer um post único para JORNADA DA ALMA, filme que vi no Espaço Unibanco esse fim de semana. Em vez disso, vou colocá-lo junto com outros dois melodramas bem melhores, vistos na telinha há algum tempo, no velho esquema três em um.

FIQUE COMIGO (Touch Me)

Meu principal interesse por esse filme chama-se Amanda Peet. Fiquei apaixonado por essa moça desde que vi MEU VIZINHO MAFIOSO. Acho-a deslumbrante, com aqueles belos olhos grandes e expressivos. FIQUE COMIGO (1997) é um melodrama sobre moça que tem uma vida saudável e normal até o dia em que descobre que tem AIDS. Já estava esperando um filme pra se assistir acompanhado de muitos lenços, mas no fim das contas, apesar de ter chorado um pouco, o filme é menos melodramático do que eu esperava. Até o final eu achei otimista. Não é um grande filme, mas tem o carisma e a beleza da protagonista, fala de um assunto de interesse geral e não cansa em nenhum momento. Gravado da Globo.

TEMPO DE RECOMEÇAR (Life as a House)

Outro filme "de doença". Dessa vez, temos o sempre ótimo Kevin Kline como um homem divorciado que é diagnosticado com um câncer terminal. Sabendo disso, ele sai do emprego e resolve destruir sua velha casa e reconstruir uma nova com a ajuda pouco espontânea de seu filho, um adolescente junkie (Hayden Christensen). Sua nova maneira de encarar a vida - inicialmente ele não conta pra ninguém sobre sua doença -, conquista até sua ex-esposa, interpretada por Kristin Scott Thomas. Também no elenco, Jena Malone, num papel encantador, e Mary Steenburgen, como sua mãe. TEMPO DE RECOMEÇAR (2001) é um filme bonito e as lágrimas são quase inevitáveis. No DVD, tem alguns extras, incluindo uma faixa de comentário do diretor Irwin Winkler, mas não gostei do filme o suficiente pra ficar interessado em detalhes sobre a produção e coisas do tipo. Vi trechos dos mini-documentários, mas não achei tão bons.

JORNADA DA ALMA (The Soul Keeper / Prendimi L'Anima)

O caso de JORNADA DA ALMA (2002) foi mais ou menos parecido com o de CONSTANTINE, com direito a mais cochiladas ainda. É o tipo do programa que me causa arrependimento. Poderia ter ficado em casa vendo coisa melhor (ou dormindo). Em vez disso, encarei o difícil acesso da minha casa até o Dragão do Mar em pleno domingo, de ônibus, pra dormir no cinema vendo filme "de arte" pretencioso e chato. O filme conta a história de Sabina Spielrein, uma paciente de um sanatório com um caso de histeria que foi cuidada pelo Dr. Carl Jung, que na época adotava os métodos de seu mestre Sigmund Freud. Jung, casado, se envolve sentimental e sexualmente com sua paciente, que mais tarde se torna especialista em tratamentos alternativos para pessoas com problemas mentais na Rússia. Várias coisas tornam o filme chato: 1) a história é contada a partir da investigação de duas pessoas no presente, tornando o ritmo do filme bastante quebrado; 2) não há como se envolver ou torcer pela paixão de Jung com a tal doidinha; e 3) no final, o filme lembra o horroroso OLGA, com a chegada dos nazistas. JORNADA DA ALMA foi uma co-produção Itália/Inglaterra/França. Foi lançado recentemente em DVD.

segunda-feira, março 14, 2005

CONSTANTINE



Infelizmente, nos últimos dias um problema de saúde tem prejudicado minha apreciação dos filmes. Por conta de uma garganta inflamada, que tem me provocado uma sonolência bastante incômoda, algumas idas ao cinema não têm sido experiências agradáveis, já que o ar condicionado piora ainda mais a situação. Por causa disso, minhas impressões sobre alguns filmes vistos recentemente poderão soar ranzinzas. Não sei dizer se por causa do filme em si, ou por causa dessa sonolência, eu não gostei do filme. Como não pretendo revê-lo tão cedo, vai um texto assim mesmo.

Falemos então, primeiramente, do personagem de John Constantine, criado por Alan Moore como coadjuvante numa história do Monstro do Pântano. Aqui no Brasil, ele teve várias histórias publicadas de maneira bastante irregular por diversas editoras (Abril, TEQ, Atitude, MP, Brainstore). A Brainstore, a última editora a lançar material do personagem, já faz mais de um ano que não lança mais nada - já nem sei se a editora existe. Os preços altíssimos para edições fininhas não ajudavam a vender o título. Soube através do site Hellblazer.net que a Devir irá lançar uma edição especial de Hellblazer ainda esse mês. Quanto ao criador de Constantine, o excêntrico e genial Alan Moore preferiu não ser creditado como criador do personagem no filme. Moore não está nem aí para os filmes baseados em seus quadrinhos, como foi também o caso de DO INFERNO e A LIGA EXTRAORDINÁRIA.

Meu primeiro contato com o personagem foi através da revista Vertigo, publicação voltada para o público adulto e que durou apenas 12 edições em sua "primeira encarnação", pela Editora Abril. As primeiras histórias que li eram bem impactantes. Tratava-se do arco "Maus Hábitos", escrito pelo maluco do Garth Ennis. Na trama, o mago descobre que está com câncer de pulmão depois de anos de uso abusivo do cigarro, e vai ter que fazer alguns joguetes com demônios para poder se livrar da morte e das chamas do inferno.

A história de CONSTANTINE (2005), o filme, dirigido pelo videoclipeiro e estreante nas telas Francis Lawrence, tem como base o arco "Maus Hábitos", com John Constantine descobrindo que está com câncer, mas há uma mistura com outras tramas. Paralelamente ao drama de John, vivido pelo inexpressivo Keanu Reeves, temos a bela Rachel Weisz cuja irmã gêmea se suicidou saltando do alto de um prédio. Ela acredita que sua irmã não se suicidou, mas que foi assassinada por algum demônio. Pra completar a história, temos o aparecimento da lança que perfurou Jesus na crucificação. Segundo a Bíblia do Inferno (uma das coisas mais engraçadas do filme a existência dessa bíblia), Jesus foi morto pela perfuração com a tal lança, que transforma quem a encontrou numa criatura que atrai a morte por onde ela passa.

Quando o filme começou eu fiquei até empolgado, principalmente por causa de seu visual. A fotografia do francês Philippe Rousselot, que trabalhou em A RAINHA MARGOT, PEIXE GRANDE e no novo Tim Burton A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE, entre outros, é de dar gosto. Pena que com o tempo a gente vai se acostumando com as imagens e nem a história nem o clima sustentam o filme.

Tentei separar o Constantine dos quadrinhos com o do cinema, mas não sei se consegui, já que me incomodei com várias liberdades tomadas pelo filme. Em primeiro lugar, mostrar o nosso anti-herói cínico como uma versão moderna do exorcista não é lá uma boa idéia. Depois, tem aquele personagem ridículo do anjo Gabriel (interpretado pela Tilda Swinton), falando o quanto Constantine era pecador e que seu destino era mesmo o inferno.

Bom, como eu disse, estava com muito sono e o que tenho, por enquanto, é essa primeira (má) impressão do filme. Quem sabe numa revisão, a coisa não muda? Afinal, enquanto tem crítico de jornal que chegou a dizer que CONSTANTINE é o pior filme do ano até agora (refiro-me ao Merten, do Estadão), os críticos pop tem elogiado até elogiado a estréia de Lawrence.

domingo, março 13, 2005

O HOMEM ERRADO (The Wrong Man)



Um dos momentos mais engraçados do livro Hitchcock / Truffaut é quando o cineasta francês, ao falar dos problemas de O HOMEM ERRADO (1957), comenta que uma das falhas do filme de Hitchcock é ter estilizado a realidade. Truffaut falou: "Quem sabe não seria possível filmá-lo de modo mais neutro, com a câmera na altura de um homem, como um documentário, como uma reportagem jornalística?" Hitchcock responde: "Mas, me diga, você quer me fazer trabalhar para os cinemas de arte?". Anos depois, sendo entrevistado dessa vez por Peter Bogdanovich (no livro Afinal, Quem Faz os Filmes), ele parecia aceitar o ponto de vista de Truffaut.

Por mais que não seja um dos filmes mais queridos pelo próprio Alfred Hitchcock, O HOMEM ERRADO é, sem dúvida, um de seus grandes filmes, e um dos mais cultuados hoje em dia. A história é uma das mais envolventes e a interpretação dos atores é a que mais se aproxima da realidade, com um nível de verossimilhança que nenhum outro de seus filmes tinha. Até por que, ser verossímil não era o forte do grande Hitch.

O HOMEM ERRADO é um dos filmes mais estranhos à sua filmografia, por ser baseado em fatos reais, e pelo tom muito sério, talvez até mais do que A TORTURA DO SILÊNCIO (1952), mas que tem muitos dos temas recorrentes de sua obra. A transferência da culpa, um homem inocente acusado de um crime que não cometeu, o catolicismo, o medo da polícia, está tudo lá.

A mulher se sentia culpada pela falta de sorte do marido. Seu sentimento de culpa, junto com o excesso de pessimismo, leva-a à loucura. Ela pensava: se ela tivesse administrado melhor as finanças da casa, o marido não teria precisado ir pedir um empréstimo e não seria confundido com um criminoso. O filme não deixa explícito, mas ficava no ar uma certa dúvida da mulher com relação à inocência do marido, lembrando um pouco SUSPEITA (1941), ainda que de maneira bem mais sutil.

Não sei se o filme cresceu nessa revisão que eu fiz no DVD da Warner. Acho que se manteve quase tão bom quanto da primeira vez que o assisti, gravado de um Corujão da Globo. Digo quase, porque o impacto de ver a primeira vez foi maior. O DVD vem com o costumeiro documentário de 20 minutos de Laurent Bouzereau, o que por si só já vale uma olhada.

sábado, março 12, 2005

RAY



Pela primeira vez, em quinze anos, eu não vejo todos os cinco indicados à categoria principal do Oscar antes da cerimônia. Isso porque RAY foi lançado com poucas cópias no Brasil e Fortaleza acabou ficando de fora do lançamento nacional do filme. Só agora estréia aqui.

RAY (2005), dirigido pelo bom operário Taylor Hackford, é um filme correto, bonito, com um ritmo fluido que faz com que a gente não sinta as quase três horas de duração passando. O maior trunfo do filme, sem dúvida, é a performance de Jamie Foxx, que parecia ter encarnado o próprio Ray Charles, fenômeno que me fez lembrar de Val Kilmer em THE DOORS.

Como não sou um conhecedor da obra e da vida do cantor, pra mim todos os eventos mostrados no filme foram uma surpresa atrás da outra. Não sabia de seu vício com a heroína, de seu lado mulherengo, de seus traumas de infância e nem de como ele havia ficado cego.

O diretor e o roteirista optaram por mostrar a infância de Ray Charles através de flashbacks que invadem a história de vez em quando. Não é um recurso original, mas acredito que foi bem empregado. Por exemplo, quando o filme mostrou primeiro ele brincando com o irmãozinho pequeno e enxergando, claro que fiquei curioso pra saber como ele tinha perdido a visão. E o filme mostra isso de uma maneira muito especial. A cena é bela e triste, com a mãe alertando o filho para que ele aprenda a conviver com a cegueira. Graças a ela, que tentou não ser superprotetora, que ele se tornou uma pessoa praticamente independente - todos se admiravam pelo fato de ele andar sozinho por todo lugar, sem ter precisar de uma bengala ou um cachorro.

Foi bom ver a sua evolução musical e seu sucesso ascendente. Ele começou num barzinho fuleiro e no final já tocava para platéias enormes, com direito a grandes orquestras sinfônicas e canções nos primeiros lugares das paradas (se bem que o filme mostrava também o lado do jabá, com o empresário pagando para o radialista tocar). Também acho muito curioso e ao mesmo tempo inacreditável de tão repugnante a questão da segregação racial no sul dos EUA. Já tinha visto em outros filmes esse negócio de lugar para branco e para preto em ônibus, mas sempre que vejo de novo, custo a acreditar que isso realmente tenha acontecido. Se bem que há quem diga que essa divisão entre brancos e negros tenha um aspecto positivo dentro da sociedade negra americana, já que eles puderam crescer economica e culturalmente dentro desses guetos, algo mais difícil de acontecer dentro da realidade social brasileira.

sexta-feira, março 11, 2005

PELO AMOR E PELA MORTE (Dellamorte Dellamore / Cemetery Man)



"My name is Francesco Dellamorte. Weird name, isn't it ? Frances Of Death. Saint Frances Of Death. I've often thought of having it changed. Andre Dellamorte would be much better."

Comparando com muitos dos filmes resenhados pelos amigos do Projeto 365, Pelo Amor e Pela Morte de Michele Soavi, é um filme até famoso. É a obra-prima do diretor e o filme que fechou, junto com Síndrome Mortal, de Dario Argento, a era de ouro do horror gótico italiano.

Pelo Amor e Pela Morte é o meu filme de zumbis preferido. Talvez por não ser apenas um filme de zumbis - deixando claro que eu adoro os zumbis do Romero -, mas um filme esteticamente deslumbrante que fala do amor e da morte, com um humor negro único e um final existencialista e poético. O filme é diferente de todos os filmes de horror italianos que costumamos ver. Inclusive, diferente também dos outros filmes de Soavi, como Pássaro Sangrento e A Catedral.

O personagem Francesco Dellamorte é interpretado pelo ator inglês Rupert Everett e foi inspirado no herói das HQs italianas Dylan Dog. Curiosamente, quando Tiziano Sclavi criou o personagem dos quadrinhos, ele se inspirou no visual do ator inglês. Deve ter sido uma alegria quando os produtores do filme conseguiram o ator para o papel.

O filme pode ser dividido em três atos. E cada ato correponde a cada uma das três mulheres que aparecem na vida de Francesco. As três são interpretadas pela mesma atriz, a bela e voluptuosa Anna Falchi. O destaque do primeiro ato do filme é justamente a cena em que ela, uma viúva que acabara de perder o esposo, transa com Francesco em cima do túmulo do velho marido, numa seqüência pra lá de sensual. A excitação se transforma em uma espécie de êxtase estético quando, no momento em que os dois fazem sexo, o marido levanta do túmulo. (E essa é apenas uma das várias cenas bizarras do filme.)

No segundo ato, o amor é ainda mais difícil de se alcançar. Os obstáculos são muitos. Ainda mais se você se apaixona por uma mulher que prefere que você seja impotente(!). A cena de Dellamorte indo para o médico e pedindo para que ele lhe arranque o pênis é de dar calafrios.

O terceiro ato mostra o lado psicótico do personagem, quando ele passa a matar não apenas os mortos e começa a enlouquecer. O amor, quando aparece é apenas uma máscara, uma mentira. Assim como o mundo em que ele vive, como descobrimos no final.

Enquanto isso, o parceiro de Francesco, Gnaghi (François-Hadji Lazaro), um sujeito gordo e meio retardado, se apaixona pela filha do prefeito, que morre decapitada numa cena bem gráfica, apesar de pouco realista. Impagável a cena do pai da moça chegando no cemitério e dando de cara com a cabeça de sua filha falando bem mais que as cabeças falantes de Trauma, do Argento.

Desde que terminou esse filme, Michele Soavi não fez mais outra produção para cinema. De lá pra cá, ele fez seis filmes para a televisão italiana, incluindo São Francisco, sobre a vida do santo que falava com os bichos, que foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil. A expectativa pela volta de Soavi ao cinema de horror é grande. Diria que até maior que a expectativa em torno dos novos filmes de Dario Argento.

Texto originalmente publicado no Projeto 365.

quarta-feira, março 09, 2005

O AMIGO OCULTO (Hide and Seek)



Quando vi o trailer de O AMIGO OCULTO (2005) no cinema, minhas impressões não foram muito boas. Um amontoado de clichês de filmes de terror com a garotinha Dakota Fanning gritando e um Robert De Niro vindo do fracasso de O ENVIADO, filme que foi tão malhado que eu acabei nem indo ver. Talvez por causa dessa expectativa negativa que acabei gostando mais do que esperava de O AMIGO OCULTO, filme dirigido por John Polson, um sujeito que não tem muito do que se orgulhar no seu currículo - seu filme mais famoso é FIXAÇÃO (2002), thriller adolescente, meio que chupação de ATRAÇÃO FATAL.

Mas O AMIGO OCULTO é um filme que se sustenta muito bem. Pelo menos até a revelação final, que é realmente ridícula. Eu diria que qualquer outra solução para o filme seria melhor do que essa. Até mesmo terminá-lo sem explicar nada. A revelação final, além de irritar o expectador, ainda não funciona se formos ver o filme numa revisão. As coisas não se encaixam direito como acontece com O SEXTO SENTIDO, por exemplo.

Mas como todo mundo já malhou o filme, vamos então falar de suas qualidades. A primeira coisa que agrada em O AMIGO OCULTO é a bela fotografia do polonês Dariusz Wolski, que tem no currículo seus trabalhos em O CORVO, CIDADE DAS SOMBRAS e A MEXICANA. A fotografia de O AMIGO OCULTO não é tão estilizada quanto a desses três filmes, mas é muito boa de se ver. Funciona tanto na iluminação de interiores, quanto na claridade do lago e da floresta, onde fica a casa onde se concentra a maior parte da trama.

Na história, a esposa de Robert DeNiro (Amy Irving) se suicida na banheira. Para começar uma nova vida e se livrar do trauma, ele prefere se mudar com a filha (Dakota Fanning) para uma casa de campo. Chegando lá, a garotinha começa a dizer que está brincando com Charlie, provavelmente um amigo imaginário, algo relativamente comum com as crianças. O problema é que a tal presença do Charlie começa a ficar cada vez mais perturbadora. Também no elenco, as belas Famke Janssen e Elisabeth Shue.

Dizem que John Polson homenageou vários filmes em O AMIGO OCULTO. Clássicos como PSICOSE, O ILUMINADO, O BEBÊ DE ROSEMARY, A MARCA DA MALDADE e até SOBERBA foram citados em algumas críticas que li sobre o filme. Não percebi esssa citações, mas em algumas cenas dá mesmo essa sensação de deja vu, o que não me incomodou de forma alguma (pelo menos até a tal revelação). As minhas cenas preferidas são aquelas que mostram De Niro acordando sempre na mesma hora da madrugada, depois de ter um pesadelo envolvendo sua esposa, para depois descobrir que alguma tragédia tinha acontecido tinha acabado de acontecer na casa.

terça-feira, março 08, 2005

LADRÃO DE DIAMANTES (After the Sunset)



Filmes de roubos inteligentes geralmente não me atraem tanto. Até o filmes dos onze/doze homens de Soderbergh não me dizem nada, ainda que o segundo tenha as suas qualidades. É que prefiro os filmes de assalto a banco, mais pesados e violentos, como PARCEIROS DO CRIME, de Roger Avary, ou UM DIA DE CÃO, de Sidney Lumet. Desses de roubos inteligentes, o meu preferido continua sendo UMA SAÍDA DE MESTRE, de F. Gary Gray, mais por suas qualidades fílmicas do que pela "genialidade" do roubo.

LADRÃO DE DIAMANTES (2004), de Brett Ratner, seria o típico filme desse subgênero leve, que gosta de zombar dos menos inteligentes e elogiar a inteligência e o crime pacífico e sem armas. Seria, se não tivesse entre seus subtemas a vontade da mulher de encontrar a paz e o sossego, em oposição à vontade do homem de continuar a "guerrear".

Aqui, temos a história do ladrão de diamantes Pierce Brosnan (sempre interpretando o mesmo personagem) que após o roubo de um valioso diamante, parte para uma suposta aposentadoria num ilha do Caribe, com sua bela namorada (Salma Hayek). Isso, depois de ter humilhado o agente do FBI vivido por Woody Harrelson.

Não sei se por culpa do filme ou de uma gripe que estava começando a me pegar, mas ver esse filme não foi das melhores experiências, já que eu estava me esforçando para não dormir. Como o filme é muito leve, acabamos não ligando muito para os personagens. Até mesmo a porção "comédia matrimonial" do filme, que poderia me despertar maior interesse, acabou não me envolvendo o bastante. E olha que a musa do filme é a supersexy Salma Hayek. Outro problema é que o diretor, o medíocre Brett Ratner, nem sequer teve a boa vontade de nos presentear com uma cena de nudez de Salma.

Os melhores momentos do filme são aqueles que privilegiam as belezas naturais de seu corpo e da ilha paradisíaca, valorizados pela bela fotografia de Dante Spinotti.

P.S.: Por falar em ilha, empolgante mesmo foi a estréia ontem de LOST, a nova série de J.J.Abrams, sobre sobreviventes de um desastre aéreo que caem numa ilha deserta. Pena que eu não tenho o canal AXN no meu pacote pra ficar acompanhando toda semana. Vou ter que esperar a Sony reprisar ou então esperar o lançamento da caixa com a primeira temporada.

P.P.S.: As salas do Shopping Benfica, que agora são três, me surpreenderam com sua qualidade. Da última vez que fui ver um filme lá (EU, ROBô), a projeção estava péssima, e o ar condicionado parecia quebrado. Agora, achei tudo muito bom. Tanto que vi filme lá dois dias seguidos. A sala 3, a mais nova, é bem agradável.

P.P.P.S: Fica como homenagem ao Dia Internacional da Mulher, como bem lembrou o Bruno Amato, a foto da belíssima Salma Hayek encabeçando o blog hoje.

domingo, março 06, 2005

ANTES DO PÔR-DO-SOL (Before Sunset)



Finalmente, depois de tanto tempo esperando, chega a Fortaleza ANTES DO PÔR-DO-SOL (2004), de Richard Linklater, continuação do maravilhoso ANTES DO AMANHECER (1995). Estava evitando ler qualquer matéria sobre o filme para que ninguém estragasse as surpresas dessa continuação. Preferi não saber de nada até ver o filme. Perguntava-me: será que Jesse e Celine se encontraram seis meses depois como combinado? Ou será que um deles deixou de ir? Nesse caso, o que pode ter havido? Ou será que ambos desistiram? Será que começaram a achar que aquilo tinha sido só uma história romântica boba e juvenil e perfeitamente fácil de esquecer? Pouco provável essa hipótese.

O fato é que eles se encontram novamente nove anos depois - os dois juntos na cama no filme WAKING LIFE (2001) não conta, já que era apenas um sonho do protagonista. Jesse agora é um escritor de sucesso. Ele acabou de escrever um livro sobre um certo encontro romântico num trem, seguido de um passeio pelas ruas de Viena até o dia amanhecer, e está em Paris dando autógrafos e entrevistas numa livraria, quando aparece Celine. Vê-la foi um impacto tão grande que deve ter sido difícil botar as idéias em ordem. Tanto que logo que eles começam a conversar, há tanto o que falar um para o outro e em tão pouco tempo (Jesse teria que pegar o avião de volta para os EUA em uma hora), que eles não sabem por onde começar. E haja conversa. Mas uma conversa deliciosa, como a do primeiro filme, ou como acontece sempre nos filmes de Eric Rohmer, a principal influência de Linklater.

São 88 minutos de agradável bate-papo, mas vez ou outra, surgem alguns emocionantes momentos de silêncio. O que dizer da cena da escada, por exemplo? Lembra a cena do primeiro beijo de ANTES DO AMANHECER, onde uma tensão é criada entre os dois. Nesse sentido, a cena dos dois no carro seria um equivalente à cena da loja de discos do primeiro filme, com a vontade que se tem de tocar o outro. (Ou seria o contrário?)

Interessante que, nesse filme, eu me identifiquei tanto com o Jesse quanto com a Celine - no primeiro, eu só me identificava com o Jesse, me colocando no lugar dele e tentando viver através do personagem a fantasia de encontrar uma alma gêmea. Na época, cerca de dez anos atrás, quando vi ANTES DO AMANHECER no cinema, eu era parecido com eles: cheio de esperança, achava que tinha a vida inteira pela frente, que seria fácil me entrosar com as pessoas. Agora, com 32 anos (como Celine), tenho de enfrentar o desencanto da vida e a dificuldade de se apaixonar de novo.

Identifiquei-me com Jesse, quando ele falou sobre a possibilidade de ver a vida com uma postura meio budista, procurando eliminar o desejo para evitar a dor e as decepções. Mas por outro lado, também vejo o lado dela, que diz que o desejo é essencial para que nos sintamos mais vivos, que deixar de desejar parece ser algo meio depressivo.

Pode-se dizer que ANTES DO PÔR-DO-SOL é mais realista e menos romântico que o primeiro filme, o que não quer dizer que o que aconteceu entre os dois, o encontro no trem, seja algo impossível de acontecer na vida real. Na verdade, é um evento muito raro, que só acontece uma vez na vida. Quando acontece, já que muitas vezes deixamos passar oportunidades de ouro por causa do medo, da timidez ou mesmo da estupidez. Imaginem se Jesse não tivesse convidado Celine para descer com ele do trem no primeiro filme? O encontro mágico de duas almas gêmeas deixaria de ter acontecido.

E é engraçado como eu falo disso como se fosse um fato real e não apenas um filme. Mas acontece que isso tudo acaba sendo bastante real pra mim. Como deve ser mais real ainda para Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy, que colocaram um pouco de suas vidas nesse filme, quando se juntaram durante cinco dias para elaborar o roteiro. Dessa forma, o personagem de Hawke, assim como o próprio, é escritor, casado (agora parece estar separado de Uma Thurman) e tem um filho que significa muito pra ele; do mesmo modo, Julie Delpy está solteira e tem dificuldades com relacionamentos amorosos, não conseguindo ficar com alguém por mais de um ano e meio.

O novo filme faz oposição ao primeiro também pelo fato de se passar durante o dia. A noite está para o romantismo, assim como o dia está para o realismo, para a clareza dos fatos. À noite, há a possibilidade de nos enganarmos, ou de nos deixarmos enganar a fim de criarmos uma fantasia, um momento de sonho. E o filme se aproxima mais ainda do realismo ao optar pelo uso do tempo real.

O plano final é um dos mais belos que eu já vi na vida, deixando em aberto o destino do casal, e ficando por conta do espectador imaginar se eles ficarão ou não juntos.

Acho espetacular esse cruzamento do cinema com a vida. ANTES DO PÔR-DO-SOL é cheio de vida: da vida no sentido geral e da mistura das vidas de três pessoas que criam personagens tão fortes que parecem reais. Algo parecido com um certo personagem de François Truffaut. E a nós resta a dúvida: como será o terceiro encontro de Jesse e Celine? Não sei, mas quero estar vivo para presenciar. Enquanto isso, fico ouvindo "A Waltz for a Night", cantada pela apaixonante Julie Delpy.

sexta-feira, março 04, 2005

O PÂNTANO (La Ciénaga)



Assisti a esse filme de estréia de Lucrecia Martel na mesma época que vi O ESPELHO, de Tarkovski, e apesar de serem filmes totalmente diferentes um do outro, ambos me deixaram bastante desconsertado. Se já na época que vi o filme (final de janeiro), eu já não sabia o que escrever a respeito, agora que já se passou todo esse tempo é que fica difícil mesmo. Seria necessário, então, rever o filme para procurar absorver mais e entender mais. Mesmo assim, vou tentar descrever minhas confusas impressões sobre essa intrigante obra.

Uma das principais dificuldades que senti vendo O PÂNTANO (2001) foi por causa do grande número de personagens e da ausência de uma linha narrativa convencional, de não se enxergar um objetivo nas ações desses personagens, que agem feito zumbis. Também não estava preparado para ver uma Argentina totalmente diferente do que eu estava acostumado. A exemplo de HISTÓRIAS MÍNIMAS, de Carlos Sorin, que nos apresentou o Deserto da Patagônia, em O PÂNTANO, passamos a conhecer a cidade de Salta, no nordeste da Argentina, um lugar que mais parece o Brasil ou a Bolívia - até o Carnaval de lá parece com o Carnaval do Nordeste brasileiro.

Logo no início do filme vemos um grupo de velhos bebendo e tomando sol à beira de uma piscina suja. Uma das senhoras do grupo levanta-se bêbada e cai, ferindo-se com o copo de vidro quebrado. O marido age de maneira estranha, praticamente ignorando o acidente da esposa e entrando calmamente para dentro de casa, enquanto nuvens negras no horizonte parecem prenunciar a chegada de uma tempestade. Nessa cena e em algumas outras, o filme adquire um ar surrealista. Interessante o cuidado visual do filme, tanto pelo uso de filtros na fotografia, quanto pela posição pouco usual da câmera.

A sensação de calor, umidade e preguiça impregna o ambiente, com os personagens freqüentemente deitados ou encostados na cama dos outros, se escorando pelos cantos, sem fazer nada de produtivo. Mesmo as pequenas tragédias parecem ser quase que ignoradas pelos familiares, como se não valesse a pena se preocupar, ou então as angústias são suavizadas pelo torpor. Mas as preocupações existem, como a da mulher que se cortou na piscina e teme não poder mais usar roupas decotadas, do garoto que perdeu um olho, do rapaz que levou porrada numa briga no carnaval, ou do garotinho que cai da escada, de longe a cena que mais mexeu comigo de todo o filme, e nesse caso, a preocupação parte do próprio espectador, que fica sensibilizado com a situação.

Durante o filme, vê-se com freqüência a notícia e a repercussão do aparecimento da Virgem Maria num determinado lugar da cidade. Isso é, com certeza, um dos pontos chave do filme, principalmente por ser o assunto da última linha de diálogo do filme, o que dá a entender que seja o assunto que resume o filme.

Lucrecia Martel é considerada hoje, ao lado de Pablo Trapero, um dos principais nomes da chamada nova onda do cinema argentino. Aguarda-se a estréia de MENINA SANTA (2004), o segundo filme da diretora, no circuito comercial.

quarta-feira, março 02, 2005

VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (To Live and Die in L.A.)



William Friedkin é mais famoso por ter dirigido dois filmes muito importantes da década de 70: o horror O EXORCISTA (1973) e o thriller policial OPERAÇÃO FRANÇA (1971). Apesar de ainda ter dirigido mais um filme de horror - o interessante e climático A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (1990) - e um episódio da série ALÉM DA IMAGINAÇÃO (versão anos 80), sua especialidade é mesmo o filme policial de ação. O homem é fera em mostrar cenas de perseguição de carros. Virou uma marca sua a partir do sucesso de OPERAÇÃO FRANÇA, e ele acabou repetindo isso em outros filmes como JADE (1995), CAÇADO (2002) e nesse clássico dos anos 80 chamado VIVER E MORRER EM LOS ANGELES (1985). Minha memória não está muito boa pra lembrar de OPERAÇÃO FRANÇA, mas se eu não me engano, a cena de perseguição de VIVER E MORRER EM LOS ANGELES é bem melhor.

Friedkin nos joga no meio do submundo da falsificação de dinheiro e de policiais que não seguem as regras de conduta como manda a cartilha. Na trama, William Petersen (que não virou um astro do cinema, mas hoje faz sucesso na TV com a série C.S.I.) é um agente do serviço secreto que tem seu parceiro assassinado pelo falsificador Willem Dafoe. Ele continua na trilha do falsificador, dessa vez do lado de um novo parceiro (John Pankow). Como o novo parceiro é mais correto, eles encontram dificuldades de se entenderem e acabam entrando numa grande enrascada. Melhor não dizer mais nada da história pra não estragar as surpresas, mas dá pra adiantar que Friedkin não economiza na violência. Outros nomes conhecidos do elenco incluem John Turturro e Dean Stockwell.

O clima anos 80 é evidente no filme, com a trilha sonora com sintetizadores e visual de videoclipe - sem falar na maquiagem e no cabelo das pessoas. A fotografia ficou a cargo de Robby Muller, o grande profissional responsável pela fotografia da maioria dos filmes de Jim Jarmusch, e que tinha acabado de fazer PARIS, TEXAS (1984), de Wim Wenders. VIVER E MORRER EM LOS ANGELES é marcado por tomadas curtas, muitos cortes, ritmo ágil.

A edição especial da MGM que saiu em DVD no Brasil valoriza bastante o filme, que é realmente uma jóia. O DVD traz a versão restaurada, em widescreen 1.85, e com vários extras. O mais importante deles é o documentário sobre o making of do filme, quando ficamos sabendo dos problemas que Friedkin teve com o FBI por causa da cena de falsificação de dinheiro, bem realista e baseada em pesquisa feita com falsificadores de verdade. Há também um final alternativo bem menos ousado que o usado na versão definitiva para cinema, mas que não deixa de ser curioso.

terça-feira, março 01, 2005

O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chainsaw Massacre)



Desde o início do ano passado que se esperava a estréia de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (2003), remake do clássico de 1974 de Tobe Hopper. Já tinham me falado que o filme era bem violento, mais até que o original, mas não esperava que fosse tanto. Aqui a violência não tem uma beleza gráfica como a de PREMONIÇÃO 2, por exemplo, que por sua vez é inspirado no visual estilizado dos filmes de Fulci e Argento; no novo massacre, a violência incomoda tanto quanto o som da motosserra ecoando pela sala escura do cinema.

Como no filme original, os personagens parecem ter sido jogados num pesadelo sem fim. Aliás, o único final para o pesadelo é através da morte, como implora por ela um dos personagens, ao pedir para sua amiga o matar, estando ele pendurado num gancho pelas costas, depois de ter tido o pé amputado pela maldita serra.

Um dos destaques do filme é a bela Jessica Biel. Durante os primeiros minutos do filme, quase me esqueci que estava vendo um thriller de horror, graças às curvas da moça, que fica desfilando com elegância e sensualidade antes de começar a correr feito doida do Leatherface. Como scream queen, não é tão boa quanto a original Marilyn Burns, mas vai melhorando à medida que o filme vai evoluindo num crescendo de terror. A cena em que transpareceu mais sua ineficiência como atriz (ou algo do tipo) foi na cena do suicídio da caroneira na van. Quando ela começa a gritar, não convence - parece estar se divertindo e não com medo. Ainda assim, essa cena em si é um dos pontos altos do filme, com a câmera atravessando o buraco na cabeça da garota.

O xerife psicopata, interpretado por R. Lee Erney - o sargento maníaco de NASCIDO PARA MATAR, de Kubrick -, é tão malvado que supera o Leatherface no quesito "vilão mais odiável do filme" - se bem que a senhora gorda do trêiler, eu achei aterrorizante, lembrando até aquela velhinha sorridente de CIDADE DOS SONHOS. A cena do xerife na van com um dos rapazes, fazendo tortura psicológica e incitando ao suicídio é uma das mais incômodas do filme. É nesse clima de tortura psicológica que o filme nos leva até o final, quando somos contaminados pelo sentimento de violência. Pena que o diretor Marcus Nispel preferiu um final mais convencional, diferente daquele final brusco e charmoso do clássico de Hooper. Mesmo assim, é um filme surpreendentemente bom, principalmente levando-se em consideração que foi produzido por Michael Bay, o horrível.