quarta-feira, abril 30, 2003

DUAS TRAGÉDIAS ITALIANAS

Antes que eu comece a me esquecer dos filmes, comento a seguir duas tragédias dirigidas por dois grandes cineastas italianos. A primeira, mais famosa, é ROCCO E SEUS IRMÃOS, de Luchino Visconti; a outra, PAIXÃO DE AMOR, é um filme mais obscuro da bela e grande filmografia de Ettore Scola. Vamos aos comentários.

ROCCO E SEUS IRMÃOS (Rocco e i Suoi Fratelli)

Tinha assistido ao filme em vhs há muito tempo. Na época já achava a fotografia em preto e branco bastante escura. Em DVD, continua escura. Mas esse é o único problema que eu vejo no filme, que é provavelmente o melhor de Visconti. Na história, a viúva Rosaria muda-se para Milão com seus quatro filhos para tentar a vida na cidade grande. Um deles é Rocco (Alain Delon). Os outros são Vincenzo, Simone, Ciro e Luca. Os irmãos mais importantes na história, no entanto, são Rocco e Simone. Rocco é o irmão bondoso e Simone é a ovelha negra da família. A tragédia do filme acontece graças ao ciúme e inveja de Simone, quando Rocco passa a namorar uma de suas ex-amantes (a ótima atriz Annie Girardot). No filme é mostrada a sociedade italina do pós-guerra, com pessoas passando por dificuldades e lutando pela sobrevivência. Os momentos finais do filme são chapantes e devastadores.

Dos filmes de Visconti vi, além de ROCCO (1960):
- O LEOPARDO (1963), numa histórica sessão no extinto cine Fortaleza. Eu tinha saído da aula da faculdade à noite e encarei esse filme de mais de 3 horas de duração. Saí moído da sessão, mas depois as imagens cresceram na minha mente;
- MORTE EM VENEZA (1971): ótima adaptação de uma obra de Thomas Mann.
- LUDWIG (1972): Vi em VHS um tempo. O filme é muito longo e arrastaaaado...
- O INOCENTE (1976): vi na BAND há mais de dez anos, mas nunca me esqueci do final cruel.

Ah, vendo o documentário de uma hora de duração que vem no DVD duplo da Versátil, vi uma cena de VIOLÊNCIA E PAIXÃO com uma versão em italiano de uma canção do Roberto Carlos na trilha. Deu uma vontade de ver o filme...heheheh..

PAIXÃO DE AMOR (Passione D'Amore)

Mais um Ettore Scola visto. Até agora não vi um filme ruim do veterano cineasta. Esse, de 1981, é adaptado do romance "Fosca" de Tarchetti. É a história de uma mulher feia apaixonada por um capitão do exército italiano. Fiquei imaginando se a atriz (Valeria D'Obici) é feia mesmo ou se colocaram mais maquiagem pra acabar de estragar a aparência da moça. O filme é incômodo, Fosca é incômoda (Scola tem a habilidade de nos colocar na pele do homem perseguido pelo Dragão..hehehe) mas o filme é bem bonito em sua amargura e se encaminha para uma tragédia romântica. Gravado da BAND.

terça-feira, abril 29, 2003

SERIAL EXPERIMENTS LAIN

Continuo conhecendo maravilhas do anime japonês, graças ao Benuel. Dessa vez ele me emprestou um CD-R contendo os treze episódios de uma série pra tv chamada SERIAL EXPERIMENTS LAIN, e já tratei de gravar pra mim. Na história, Lain é uma garotinha que recebe um e-mail de uma menina que havia se suicidado. Nada anormal a não ser o fato de o e-mail ter sido enviado após a morte da menina. A partir daí o filme adquire ares de ficção científica misturada com sobrenatural, que lembra um pouco a história de MATRIX. Engraçado como a tecnologia está tão forte na cultura japonesa que eles misturam tecnologia com sobrenatural com a maior naturalidade. É só lembrar que O CHAMADO (The Ring) é o remake de um filme japonês.

Achei um pouco confuso, mas ainda assim vi dois dos trezes episódios que consegui na tela do computador, tal o poder enigmático de LAIN. Voltarei a comentar uma outra vez assim que tiver assistido todos os 13 episódios. Pretendo, inclusive, rever os dois primeiros pra esclarecer alguns pontos de difícil compreensão.

Na Amazon, há comentários de várias pessoas entusiastas pela série. Em alguns deles, os usuários do site comentam de similiridades da série com ARQUIVO X e os filmes de David Lynch, dada a sua natureza enigmática.

domingo, abril 27, 2003

ENCONTRO DE AMOR (Maid in Manhattan)



Os cinemas estão cheios de filmes descartáveis, e a gente fica até sem muito ânimo pra ir ver. Por isso, vi um único filme no cinema no fim de semana. E estava arriscado a nem vê-lo. Mas a companhia agradável e a surpresa do filme fez a diferença. O título foi ENCONTRO DE AMOR, de Wayne Wang, com Jennifer Lopez e Ralph Finnes, que é bem melhor do que eu esperava. O forte do filme é a direção segura de Wang, que dirigiu, em 1993, O CLUBE DA FELICIDADE E DA SORTE. Na época, eu achava que ele e Ang Lee iriam se especializar em cinema chinês made in USA. (Ang Lee dirigiu BANQUETE DE CASAMENTO.) Mas ambos trilharam caminhos diferentes, dirigindo filmes encomendados pelos produtores de Hollywood. Mesmo com todos os problemas que um filme como ENCONTRO DE AMOR pode ter, a direção segura e a competência do elenco o tornam uma diversão divertida e agradável. Na história já conhecida por todos, J.Lo é uma camareira de hotel que é confundida com uma hóspede por um deputado perseguido por paparazzi (Fiennes). Ele se apaixona pela moça e a partir daí rolam as confusões conhecidas dessa típica comédia de situações romântica. Se bem que nesse filme, o forte não é o humor, até um pouco fraco, e sim, o lado mais... PRETTY WOMAN. Na trilha sonora tem uma canção linda da premiada Norah Jones ("Come away with me"), em momentos bonitos do filme.

Depois do cinema, teve a festinha aí da foto, lá na barraca Biruta. O legal é que eu estou me entrosando mais com o pessoal. Antes ainda me comportava como um estranho, mas o tempo trata de trazer mais intimidade e amizade às pessoas. A festa foi boa, com dois ambientes, um de música mais "underground" e outro mais pop de canções dos anos 70 e 80.

No domingo dormi até tarde e não rolou mais nada a não ser ver um filme do Visconti em video pra espantar a onda de filmes ruins. Heheheheh.. Em breve comento essa obra-prima do velho mestre.

quarta-feira, abril 23, 2003

OS FILMES DO FERIADÃO

Ontem não deu mas hoje pretendo comentar um pouco os filmes do feriado. O que mais achei estranho foi que com todo o tempo que eu tive, eu não aproveitei muito bem. Não foi um feriado produtivo. Não fiz nada muito importante além de descansar. Tem fins de semana normais que vejo mais filmes na telinha. Nesse, só vi dois, que comento a seguir junto com os filmes da telona:

RECÉM-CASADOS (Just Married)

Um dos filmes mais constrangedores do ano. Fui sozinho num sábado à noite pra ver esse filme. Além de o filme ser bem ruinzinho, na sala só tinha casal. Fiquei me sentindo o Steve Martin no filme O RAPAZ SOLITÁRIO. Hehehehe.. Constrangedor também na hora de sair da sala. Sábado não foi um dia bom, passei o dia deprimido e o filme só me fez rir na cena da barata. Acho Brittany Murphy uma gracinha e ela é bem sexy, mas o filme é censura livre. O rapaz, Ashton Kutcher, também não é ruim. Ele estava no bem mais engraçado CARA, CADÊ MEU CARRO. Pelo trailler, achei que o filme era mais comédia besteirol pastelão, mas vendo o filme, vimos que não é bem assim. É uma espécie de FÉRIAS FRUSTRADAS (do Chevy Chase), só que com mais açúcar. Melhor mesmo é rever FÉRIAS FRUSTRADAS NA EUROPA.

FRIDA

Domingo eu já estava melhor de espírito, fui me encontrar com o casal de amigos Santiago e Arisa pra gente ir ver o já arrasado pela crítica FRIDA, de Julie Taymor. É a tal coisa, depois de tanta crítica negativa, acabei gostando do filme mais do que esperava. Salma Hayek pegou o papel da vida dela, sua melhor performace até agora. Sem falar que ela aparece nua algumas vezes. A Frida de verdade não tinha metade da beleza de Salma, que para o bem e para o mal só aparece de bigode no começo e no final do filme. A tragédia da vida dela, o acidente de ônibus na adolescência, é bem contado, mas surte pouco efeito dramático. O filme bem que poderia se dar ao luxo de carregar nas tintas da tragédia, já que o povo mexicano é tão passional e exagerado. Não seria mal. Fico imaginando esse filme nas mãos do Pedro Almodóvar. Seria perfeito. Mesmo assim, FRIDA foi o melhor filme do feriadão.

JOHNNY ENGLISH

Nesse dia fui com uma turma bem legal ver o filme do "Mr. Bean", que nesse filme não é Mr. Bean. O filme com o Rowan Atkinson tem bons momentos, mas o estilo de herói trapalhão querendo se passar por sabichão dá mesmo é saudade do detetive Frank Debrin em CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ. Mesmo assim, o filme tem piadas irresistíveis que o torna melhor que o último Austin Powers, pra comparar com outro filme que satiriza James Bond. O filme tem participações especiais de John Malkovich e da bela Natalie Imbruglia.

Quanto aos filmes da telinha, como eu disse, o saldo não foi dos melhores:

VAMPYROS LESBOS

Cinema de horror europeu, mesmo tendo muitas obras-primas, às vezes é um samba do crioulo doido. O diretor Jesus Franco, que dizem faz montes de filmes-escremento, dirigiu esse filme-enganação, que é um dos mais conhecidos dele. Agora que já vi o filme, até que guardo uma boa memória e impressão dele. Culpa das mulheres lindas e nuas que ele coloca nesse horror erótico, que não tem clima de horror de jeito nenhum e o erotismo é frio. A história é ridícula e envolve uma vampira que se diz herdeira do Conde Drácula (a lindíssima Soledad Miranda) que atormenta e seduz uma loira. O filme não leva a lugar nenhum. Vejam a quantidade de títulos diferentes que esse filme tem, de acordo com o IMDB:


Las Vampiras (1970)
Heiress of Dracula, The (1970)
Heritage of Dracula, The (1970)
Im Zeichen der Vampire (1970) (West Germany: working title)
Lesbian Vampires (1970)
Lesbian Vampires: The Heiress of Dracula (1970)
Mal des Vampirs, Das (1970) (West Germany: working title)
Schlechte Zeiten für Vampire (1970) (West Germany: working title)
Sign of the Vampire, The (1970)
Signo del vampiro, El (1970)
Strange Adventure of Jonathan Harker, The (1970)
Vampire Women, The (1970)
Vampyros Lesbos: Die Erbin des Dracula (1971) (West Germany)

ENIGMA DO ESPAÇO (The Astronaut's Wife)

O casal de protagonistas eu gosto: Johnny Depp e Charlize Theron. O filme é uma espécia de BEBÊ DE ROSEMARY, só que em vez do demônio é um alienígena que engravida a protagonista. Nem precisa dizer que o filme passa muito longe da obra-prima de Polanski. Não é de todo ruim, já que não aborrece, mas do meio pro final, a história vai ficando mal contada. Depp e Charlize nunca vi piores. Primeiro filme fraco que vi com o Depp. O final é bem clichezão. Falar mais o que??

Como eu disse, o saldo de filmes não foi dos melhores.

sábado, abril 19, 2003

O MUNDO MARAVILHOSO DOS ANIMES



Só recentemente venho conhecendo animes de primeira linha, verdadeiras maravilhas made in Japan. Comento a seguir dois filmes belíssimos, bastante diferentes um do outro, mas que são verdadeiras jóias para quem gosta de cinema, seja ele retratando a realidade na Segunda Guerra Mundial, seja ele um universo de fantasia cheio de lobos e javalis gigantes e falantes. Eis os filmes:

CEMITÉRIO DE VAGALUMES (Hotaru no Haka)

Filme de Isao Takahata, que conta de maneira sensível e realista a história de duas crianças tentando sobreviver no Japão de 1945, ainda em guerra com os aliados e sofrendo bombardeios constantes. O garoto de uns doze anos e a sua irmãzinha pequena têm sua casa bombardeada e sua mãe morta por causa dos bombardeios. Eles partem para outra cidade, onde mora a tia. Mas lá eles não são tratados com o devido respeito, não se alimentam direito e acabam abandonando a casa da tia. A partir daí é só tristeza e o filme vira um melodrama de verter lágrimas. Ver um filme como esse e nos lembrar que aconteceu algo bem parecido em países como Iraque e Afeganistão há pouco tempo, é perceber que o mundo não mudou nada e que continua cada dia mais cruel. Consegui essa fita graças ao Benuel, que já me havia emprestado também LAPUTA: O CASTELO NAS NUVENS, do Miyazaki. Benuel, 'brigadão, velho!

PRINCESS MONONOKE (Mononoke-hime)

Mais um filme de Hayao Miyazaki, PRINCESS MONONOKE é um dos mais cotados filmes do japonês, que agora virou superstar graças aos prêmios de A VIAGEM DE CHIHIRO. Esse filme foi gravado pelo Renato em CD-R e enviado para o Fab Rib, que fez a gentileza de fazer uma cópia em VHS. Bacana. A história cheia de fantasia é fascinante: rapaz luta contra um javali dominado por um demônio e tem o braço ferido na batalha. A sábia do vilarejo diz pra ele que a morte é inevitável, que a ferida no braço irá consumi-lo. A não ser que ele vá de encontro ao mal. Ele abandona o vilarejo e no meio do caminho encontra lobos e javalis gigantes, uma guerreira que quer destruir o espírito da floresta (um animal mágico parecido com um alce), uma menina criada por lobos (a princesa do título), entre outras coisas. O clima de fantasia e o apelo ecológico lembra um pouco O SENHOR DOS ANÉIS, ainda que a semelhança pare por aí. A versão que eu vi é dublada em inglês por um elenco que inclui Billy Crudup, Billy Bob Thornton, Minnie Driver, Claire Danes e Gilliam Anderson; e os diálogos foram adaptados para o inglês por Neil Gaiman.

Agora é esperar pra ver em breve A VIAGEM DE CHIHIRO no cinema e NAUSICÃA, que o Benuel pode conseguir pra mim.
O HORROR DE KASDAN E OS CURTAS DE ANIMATRIX

O APANHADOR DE SONHOS (Dreamcatcher)

Ontem fui ver O APANHADOR DE SONHOS, de Lawrence Kasdan. Estava esperando não uma obra-prima, mas pelo menos um filme bom e cheio de climas. O filme é bom até a aparição dos militares e a quarentena. A partir daí, Kasdan perde o controle e o filme vai ficando chato e o final está tão forçado que dá impressão que o diretor já estava de saco cheio e queria terminar logo o quanto antes.

Lawrence Kasdan até este filme era um cineasta regular e que se deu bem em diversos gêneros: western (WYATT EARP, SILVERADO), drama (O REENCONTRO, O TURISTA ACIDENTAL, GRAND CANYON), comédia (TE AMAREI ATÉ TE MATAR), filme noir (CORPOS ARDENTES). Uma das características marcantes no cinema de Kasdan é a lentidão e a firmeza na direção de cenas e de atores. Cria-se uma atmosfera condizente com o tempo cronológico e a psicologia dos personagens. É como se ele precisasse de mais tempo para contar as suas histórias. Por isso, eu esperava tanto de um filme de terror atmosférico dirigido por Kasdan.

Acredito que O APANHADOR DE SONHOS ficaria melhor se fosse uma mini-série, com Kasdan dirigindo apenas o piloto - exatamente até onde o filme acerta. È claro que o filme tem ótimos momentos. O início com aqueles personagens problemáticos, lidando com poderes especiais, é ótimo. Os flashbacks da infância dos quatro amigos também é intrigante, a aparição do primeiro homem já apresentando as manchas vermelhas também é muito bom. Sem falar nos monstros e o lugar inconveniente de onde eles saíam. Destaco a cena da privada como uma das melhores do filme. Um dos grandes erros do filme é o personagem de Morgan Freeman, que não serve pra muita coisa naquela história furada.

A melhor coisa da sessão acaba sendo o curta-metragem em animação da série ANIMATRIX, que comento a seguir:

O VÔO FINAL DE OSIRIS (The Final Flight of Osiris)

Excelente trabalho de animação dos criadores de FINAL FANTASY. O desenho está super-realista, os traços da garota oriental estão lindos, as cenas de luta estão fantásticas e o filme ainda traz cenas das máquinas perseguindo os rebeldes. O final é chapante e nos faz lembrar o quanto o conceito de Matrix é ousado e inteligente.

Aproveito que estou com mais dois filmes da série ANIMATRIX no meu HD e comento:

PROGRAM

Esse desenho, além de também ter cenas de lutas espetaculares (uma marca da franquia), ainda traz como tema básico o saber a verdade. O personagem masculino planeja voltar para Matrix e levar a companheira, que não admite esquecer tudo o que sabe e voltar para um mundo de mentira, dominado pelas máquinas. Os traços do desenho lembram animes japoneses.

THE SECOND RENAISSANCE - PART 1

Os traços do desenho achei meio borrados e pouco claros, mas a história é bastante interessante: mostra como as máquinas começaram a dominar os homens e criar o mundo de Matrix. Infelizmente essa é só a primeira parte. Agora que comecei a ver, quero ver a segunda também.

Pra quem está interessado em ver os curtas, alguns deles já estão disponíveis no site www.intothematrix.com .

quinta-feira, abril 17, 2003

AMOR À SEGUNDA VISTA (Two Weeks Notice)



O expediente na empresa acabou mais cedo - véspera de feriado - e aí não resisti a um cineminha esperto antes de vir pra casa. O filme que eu escolhi - AMOR À SEGUNDA VISTA - foi mais pelo horário e pela distância da sala do que propriamente porque este era "o" filme que eu queria ver. Tinha esnobado esse filme, que já tá há um tempão em cartaz.

Não sei porque esnobamos tanto as comédias. Repararam que tirando as comédias clássicas de Charles Chaplin, Billy Wilder, irmãos Marx etc quase a crítica e os cinéfilos pouco se lembram de comédias em listas de filmes mais importantes? Até mesmo Howard Hawks é mais respeitado pelos filmes de gângster e westerns do que por suas comédias. Dos anos 80 pra cá, alguns atores se especializaram em comédias - e com bom resultado. Nesse caso, me refiro às "comédias românticas", sub-gênero meio bobinho, mas que às vezes é irresistível. Eu mesmo tenho uma comédia romântica entre os meus cinco filmes favoritos de todos os tempos. Nem preciso dizer qual é o filme.

AMOR À SEGUNDA VISTA traz dois dos melhores atores desse gênero. Hugh Grant está cada dia melhor. No ano passado ele protagonizou o delicioso UM GRANDE GAROTO, um dos melhores filmes do ano. Fora isso, o cara já fez um monte de comédias acima da média: QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL, NOTTING HILL, TRAPACEIROS, O DIÁRIO DE BRIDGET JONES, NOVE MESES. Sandra Bullock, ainda que não desfrute da mesma qualidade de filmes, tem uma marca registrada, e acabou se tornando uma atriz do gênero com o belo ENQUANTO VOCÊ DORMIA, até agora o melhor filme que ela já fez. Os outros (MISS SIMPATIA, FORÇAS DO DESTINO) não são lá grande coisa.

O filme é até legal. Quer dizer, tem um monte de clichês, o final é previsível, Miss Bullock está repetindo os papéis anteriores, e por aí vai. Mas ainda assim, saí do cinema com um sorriso no rosto, mesmo sabendo que o efeito dura pouco. A história: Sandra Bullock é uma advogada "do bem", sempre defendendo os interesses dos mais necessitados e apoiando causas ecológicas e tal. Hugh Grant é o empresário que divide com o irmão a liderança de uma grande empresa imobiliária. Os dois se encontram, ela passa a trabalhar pra ele, e o resto todo mundo já sabe. É o tipo do filme pra ir ver sem esperar muita coisa, mas as risadas estão garantidas e dá pra alimentar um pouco aquele nosso lado que quer mesmo é estar com a menina da sua preferência tomando sorvete e andando de mãos dadas, depois do cineminha.

terça-feira, abril 15, 2003

O CRIME DO PADRE AMARO (El Crimen del Padre Amaro)

O segundo filme do final de semana que vi foi esse filme de Carlos Carrera, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro esse ano. O filme só aborrece um pouco nas partes políticas, mas no geral é um filme bom. O problema que ele é um pouco venenoso, um desses filmes que não tem fé na natureza humana, sempre mostrada de maneira ruim. Inclusive o personagem principal de Gael Garcia, o Padre Amaro do título, é egoísta e cúmplice da lavagem de dinheiro e dos pecados dos outros membros do clero. Logo quando ele chega na cidadezinha, ele conhece Amélia, uma jovem muito bonita, que logo o conquista. O romance se encaminha para uma tragédia. O filme tem algumas contradições: ao mesmo tempo que critica a igreja e a hipocrisia da sociedade católica, ele traz como fundo musical músicas sacras inapropriadas para os momentos. O negócio é sair do cinema e procurar algum lugar pra cuspir.

ROGER E EU (Roger and Me)

Finalmente, depois de tantas vezes que passou no SBT, dessa vez eu pude gravar esse interessante documentário de Michael Moore, o cineasta que chamou o Bush de presidente fictício na festa do Oscar. O cara é mesmo muito bom e o trabalho árduo e longo de feitura desse documentário demonstra que ele quando quer mesmo uma coisa, ele vai atrás. ROGER E EU é a tentativa de Michael Moore de falar com Roger Smith, presidente da GM, empresa de carros que fechou fábricas na cidade natal de Moore, Flint. A situação virou uma tragédia, já que a base financeira e toda a riqueza da cidade existia graças à fábrica. Resultado: demissões em massa, pessoas abandonando a cidade, outras despejadas por não poder pagar o aluguel etc. Taí um bom exemplo de filme de esquerda e que exige uma atitude de responsabilidade do governo e dos empresários para com o povo, em detrimento da política neo-liberal reinante.

ROCCO PAPALEO ( Permete? Rocco Papaleo)

Filme de 1971 de Ettore Scola, um dos grandes cineastas ainda em atividade na Itália. Nesse filme, Marcelo Mastroianni é o Rocco Papaleo do título. Ele é um sujeito bem bobão, que se apresenta pra todo mundo na rua, dizendo "muito prazer, Rocco Papaleo". O filme se passa na Nova York psicodélica do início dos anos 70. Rocco se apaixona por uma modelo e fica obcecado pela moça. Ao mesmo tempo encontra mendigos, prostitutas e homossexuais, sempre agindo de maneira bondosa ou ingênua com as pessoas que encontra. Engraçada a cena em que ele conhece um rapaz e só vai perceber que ele é gay depois de alguns minutos num clube gay com homem dançando com homem. Heheheh.. Um dos filmes mais simpáticos e, ao mesmo tempo, mais amargos de Scola. Gravado da BAND.

Meu top 5 de filmes do Scola:

1. UM DIA ESPECIAL (1977)
2. OS NOVOS MONSTROS (1978)
3. A VIAGEM DO CAPITÃO TORNADO (1991)
4. CONCORRÊNCIA DESLEAL (2001)
5. FEIOS, SUJOS E MALVADOS (1976)


NA MIRA DA MORTE (Targets)

Estréia de Peter Bogdanovich no cinema de ficção (1968), NA MIRA DA MORTE é excelente. Traz Boris Karloff como o velho ator de filmes de terror que está cansado da profissão e quer se aposentar. Paralelamente, um atirador maluco inicia sua carreira de crimes na cidade, praticando tiro ao alvo em pessoas. O final é espetacular. É interessante ver esse filme nos dias de hoje, assombrados por loucos como o assassino do shopping durante a sessão de CLUBE DA LUTA aqui no Brasil, ou o atirador misterioso nos EUA. Gravado da BAND. Quem não viu, não deixem de ver ou gravar essa preciosidade na próxima oportunidade.


MAHLER

Antes de dirigir a opera rock TOMMY, Ken Russel fez MAHLER (1974), cinebiografia pouco ortodoxa do músico Gustav Mahler. Os filmes de Ken Russel tem um gostinho de diferente sempre. Não sou muito fã do trabalho dele, mas alguns filmes são realmente notáveis. Esse não é dos melhores, mas só em ser uma experiência que foge da mesmice das cinebiografias comportadas, já vale ver. Russel gosta muito de música. Em sua filmografia há filmes sobre Lisz, Tchaikovski, sobre música folk, opera rock etc. Gravado do canal Mundo.

sábado, abril 12, 2003

CARANDIRU

"Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita; tu não serás atingido."
Salmo 91.7


Acabei de vir de uma sessão de cinema que vai entrar pra história. Isto é, entre os melhores momentos que eu tive dentro de uma sessão de cinema. Não sei ainda porque há tanta gente falando mal do filme. Teve gente que disse que Babenco fez isso pelo dinheiro; outros disseram que a fotografia de Walter Carvalho deixava o filme meio...pasteurizado; outros chamaram até de novela mexicana de má qualidade. O que é isso, meu povo? CARANDIRU é foda, muito foda. Nem sei por onde começar pra falar sobre o filme. Posso começar falando que 2003 está sendo um ano bem sangrento, é verdade. Depois de um sensacional filme que cospe sangue de Mr. Scorsese (GANGS DE NOVA YORK), de uma guerra imoral que está se desenrolando no Golfo, que já é motivo pra mais onzes de setembro acontecerem, chega o filme do Babenco dando porrada na concorrência.

Interessante que foi nesse filme que eu mais senti a distância entre o filme que eu assisti e o filme que as outras pessoas que estavam na sala assistiram. Vi gente rindo pra caramba dos personagens gays, principalmente do casal formado por Lady Di (Rodrigo Santoro) e Sem Chance (Gero Camilo). E até vi gente dançando com a música final que tocou (acho que era "Aquarela do Brasil"). Eu não. Eu chorei pra caramba. Senti todo o carinho que Babenco (e acredito que Dráuzio Varela também) sentiram por todos aqueles personagens, cheios de tragédias pessoais. Até mesmo os evangélicos, sempre mostrados de forma preconceituosa em filmes e novelas, são tratados com respeito no filme. Há duas passagens realmente emocionantes envolvendo o tema: a conversão do pistoleiro "Peixeira" e aquele trecho da Bíblia lá de cima. Aquele Salmo eu sabia decorado há um tempo atrás. Hoje em dia esqueço trechos, troco os versículos. As palavras são poderosas.

Os atores do filme não poderiam estar melhor. Como o filme tem muitos personagens, costumam sempre comparar com SHORT CUTS, do Altman. Bom, ainda bem que a comparação é com um filme ótimo. Mas tirando essa semelhança, não há muita coisa em comum entre os dois filmes. O universo é outro, sem dúvida. Há personagens mais fáceis de a gente se identificar, como o garoto Deusdete (Caio Blat), que mesmo não sendo um bandido, foi parar lá no presídio. Mas há personagens fortes como o pirado Zico (Wagner Moura ), o xará Ailton Graça fazendo o papel do malandro Majestade (o cara parece com o Denzel Washington, vejam vocês!); o Barba (André Cecatto); Antonio (Floriano Peixoto); Ezequiel (Lázaro Ramos, que já tinha mostrado o seu talento em MADAME SATÃ); o médico vivido por Luiz Carlos Vasconcelos; Dalva (Maria Luiz de Mendonça); Peixeira (Milhem Cortaz); Seu Chico (o grande Milton Gonçalves); Claudiomiro (Ricardo Blat, que já tinha feito um papel brilhante em O PRÍNCIPE). Entre outros.

Mas se o elenco está de parabéns, o que de dizer de Hector Babenco? Ele é o cara que driblou a morte, sobrevivendo a um transplante de medula, prestou contas com ela no belo e enigmático CORAÇÃO ILUMINADO, e está aí pra trazer de volta os excluídos pra esse Brasil que não tem mais vergonha de mostrar que a prioridade é combater a fome.

E sabe de uma coisa? CARANDIRU é o melhor filme de 2003 até agora. Quero saber qual vai ser o outro filme que vai peitar.

Grande abraço!

terça-feira, abril 08, 2003

DRÁCULA - PRÍNCIPE DAS TREVAS (Dracula - Prince of Darkness)

No final de semana assisti DRÁCULA - PRÍNCIPE DAS TREVAS (Dracula - Prince of Darkness), de Terence Fisher, de 1965. O filme é ótimo, mas como o primeiro Drácula da Hammer a gente nunca esquece, acabei gostando mais do menos cotado O CONDE DRÁCULA (Scars of Dracula), de Roy Ward Baker, de 1970. Apesar de os dois filmes terem o mesmo Drácula, interpretado por Christopher Lee, no filme de Fisher ele é mais misterioso, e assim como no NOSFERATU de Murnau, permanece mudo o filme inteiro. Isso torna o personagem mais misterioso, claro. Sem falar que PRINCE OF DARKNESS é mais sério, ainda não tinha se transformado em uma caricatura, graças a repetição. Os dois filmes tem tramas bem parecidas: um irmão volta ao castelo para caçar o vampiro e vingar a morte do outro; uma das moças é seduzida (nesse filme, mais correto seria hipnotizada) pelo Conde; há sempre um padre ou conhecedor dos vampiros que auxilia na caça à criatura; a carruagem e os cavalos são uma constante nos filmes e um charme que não se pode deixar de lado. Mas o que me agradou mais em SCARS OF DRACULA foi o tom das cores, mais vermelhas, o sangue mais exposto e a nudez das mulheres. Mas deixando um pouco a comparação e centrando mais em PRINCE OF DARKNESS, o filme começa bem com cara de continuação, mostrando o final do filme VAMPIRO DA NOITE (Horror of Dracula), o primeiro da série, de 1958, antes de iniciar com os créditos de abertura. O mordomo do Conde é tão sinistro quanto o seu mestre e aparece até mais que ele no filme. A maneira de ressucitar o vampiro, derramando sangue nas cinzas, é bem melhor do que o mostrado em SCARS, com um vampiro de borracha cuspindo sangue no cadáver. Ainda pretendo ver os outros filmes da série de Dráculas da Hammer. E quem sabe um dia eu ponho aqui um ranking, quando tiver visto todos. Ainda bem que tem gente boa colocando esses filmes no mercado de DVD no Brasil.

segunda-feira, abril 07, 2003

THE CORE, CINEMA DE RUA, FESTA DOS 80'S E DILÚVIO



Cine São Luiz

O final de semana não foi dos mais produtivos em se tratando de quantidade de filmes. O único filme que vi no cinema foi O NÚCLEO - VIAGEM AO CENTRO DA TERRA (The core). Minha intenção no sábado era assistir A TEIA DE CHOCOLATE, de Claude Chabrol pela manhã. Acontece que eu perdi a hora, a chuva me confundiu cobrindo o sol e não pude conferir mais uma performance de Isabelle Huppert. Aí foi quando tive a infeliz idéia de ir ao Centro da cidade ver O NÚCLEO. Infeliz por dois motivos: 1) o filme não é bom e 2) A sala do centro da cidade está entregue às baratas. Uma pena, já que foi lá no Cine São Luiz que assisti meu primeiro filme no cinema. Era um filme dos Trapalhões. O lugar é um palácio. Infelizmente não tenho nenhuma foto do interior do lugar pra mostrar pras pessoas que não conhecem. Mas como todo cinema de rua das grandes cidades brasileiras, esse está em decadência faz tempo. A última vez que eu tinha ido ver um filme lá foi na época do Cine Ceará do ano passado. Pretendo voltar lá novamente durante a edição desse ano, mas a coisa está triste. O preço é o melhor da cidade: 6,00 inteira; 3,00 meia. Mas não vale muito a pena: o som está ruim e estridente e a imagem não tem a mesma nitidez da vista nos cinemas de shopping. O ar condicionado está tão fraco que a cabeça da gente esquenta e o suor toma conta do corpo. Assim não dá. É um verdadeiro descaso o que eu vi ontem. Sei que eu sou um pouco culpado de o cinema estar em decadência, mas uma coisa leva a outra. Se eu não tivesse me decepcionado ontem, eu iria mais vezes ao lugar. Mas a gente vai ao cinema pra esquecer coisas como qualidade de som e de ar condicionado e curtir o espetáculo.

O NÚCLEO - VIAGEM AO CENTRO DA TERRA (The Core)

O filme não ajudou muito. THE CORE é um filminho onde mais uma vez os americanos salvam o planeta Terra. Muito bonito ver um filme desses em plena era Bush. Mas esquecendo esse "detalhe", o filme até que convence como um filme de aventura. Quer dizer, o roteiro tem coisas absolutamente inverossímeis disfarçadas de física nuclear, mas esquecendo esse outro detalhe, dá pra assistir o filme. O fime tem um elenco até bom. Tem o Delroy Lindo, que está a cara do Martinho da Vila, tem a oscarizada Hilary Swank e Aaron Eckhart e Stanley Tucci. O personagem de Tucci é o mais interessante, já que ele é o único que é egoísta e não está a fim de se sacrificar pra salvar o mundo. Mas no final vimos que ele também é gente fina. É uma pena o filme não ser bom, já que a idéia é bem bacana. E em alguns minutos o fime faz lembrar aquelas ficções científicas dos anos 60. Acredito que se eu tivesse visto o fime numa sala de cinema melhor teria gostado mais. Ah, o filme traz uma citação explícita de OS PÁSSAROS.

A festa

À noite, teve uma festinha anos 80 pra eu ir. A festa foi muito legal. A banda não era lá grande coisa - Hanoi Hanoi - mas ela até que é representativa. A banda já tinha acabado e só se reuniu exclusivamente para essa festa. Parece que foi o melhor que conseguiram arranjar. Heheheh.. O som que rolava era: Legião Urbana, Titãs, Ultraje a Rigor, Michael Jackson, Madonna, Gretchen, Sidney Magal ("Meu sangue serve por você" me fez lembrar da infância, quando eu me balançava na rede com a minha irmã, ao som do vinil dele..heheheh), Technotronics, C+C Music Factory, Information Society, Paralamas etc. Mas a parte mais engraçada da noite foi quando eu, o Murilo e o Guerra jogamos uma garrafa de cachaça do outro lado da festa pra pegar de volta quando entrarmos. Mas os seguranças não deixaram. Heheheh..Ainda bem que não tinha mais muita cana na garrafa. Outro destaque da festa foi a grande quantidade de mulheres bonitas por lá. A parte ruim é voltar com o dia amanhecendo e sem ter agarrado ninguém. Vida de solteiro às vezes é dolorosa..heheh

O dilúvio

No domingo pretendia ir ver um filme italiano - O ÚLTIMO BEIJO - no Espaço Unibanco, mas bateu uma chuva tão forte que pra sair de casa eu teria que arranjar um barco. A chuva foi tão grande que aconteceram três mortes na cidade por ocasião do dilúvio: um menino de 9 anos e um senhor de 64 anos cairam dentro de um bueiro e morreram afogados, outra morte foi de uma moça que estava com a família e o carro caiu dentro de um canal. Maior tragédia. Por isso talvez tenha sido melhor ter ficado em casa. O mar de água suja não tava nem pra peixe.
CHAPLIN E MONSIEUR VERDOUX



Recentemente, lendo no blog da Fernanda, vi que ela colocou o Chaplin entre os diretores/atores que mais odeia. Coincidentemente acabei de assistir MONSIEUR VERDOUX, ótimo filme de Chaplin a partir de idéia de Orson Welles, e resolvi fazer uma espécie de homenagem a ele, como uma resposta a ela. Mas antes de escrever sobre ele, vou falar um pouco sobre os filmes dele que já tinha visto. O meu preferido, talvez por provocar mais emoção, mais choro, é LUZES DA RIBALTA(1952), filme auto-biográfico mostrando a decadência de um comediante. É um filme triste que fala sobre a velhice, a decadência, o suicídio, o sentido da vida. É um filme que eu gostaria muito que lançassem em DVD pra eu poder rever. Depois desse vem LUZES DA CIDADE(1931), o melhor filme da fase muda de Chaplin. A cena clássica da cega que se apaixona pelo vagabundo Carlitos é fantástica. E aquilo é cinema puro. Chaplin evitou a todo custo se utilizar de explicações escritas. Uma obra-prima. O mais engraçado, no entanto, é O CIRCO (1928). Nele, o humor visual está em seu auge. E toda a herança de palhaços de circo encontra na telona do cinema uma verdadeira declaração de amor. (Aqui no Brasil algo muito bonito foi feito em OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES.) Outro da fase muda, que traz tanto cenas engraçadas quanto tristes e melodramáticas é O GAROTO (1921), filme curtinho e que dá um gosto de "quero mais" que só vendo. Outro clássico do cinema mudo é EM BUSCA DO OURO (1925), em que aparece a célebre cena do jantar: Carlitos se esforçando para comer uma bota. Chaplin era sempre preocupado com os problemas sociais e acreditava piamente na humanidade. Era um humanista, criticava os governos e sociedades que tratavam as pessoas como máquinas ou, pior ainda, apenas como uma peça na grande máquina. Um dos melhores filmes sobre o tema é TEMPOS MODERNOS (1936), que também marca o fim da fase muda e a despedida do personagem Carlitos. Um filme memorável da fase falada é UM REI EM NOVA YORK (1957), destaque para a cena em que Chaplin, após uma cirurgia plástica, não se aguenta de rir. Nunca vi completo O GRANDE DITADOR (1940), mas pretendo ver em breve.

Mas como o meu estoque de filmes de Chaplin vistos acaba por aqui, comento um pouco o filme que está mais fresco em minha memória: MONSIEUR VERDOUX (1947). Nesse filme, o humor de Chaplin está afiadíssimo. Há uma mistura de humor negro e uma afeição estranha pelo personagem central. Chaplin é Verdoux, um verdadeiro Barba-Azul. Ele casava com as mulheres, as matava e ficava com a grana. Ele encarava isso como um negócio, já que tinha perdido tudo quando trabalhava de bancário. O que torna o filme bastante interessante é o fato de Chaplin estar mostrando um assassino como alguém digno de nossa compreensão e até estima. E o pior é que ele consegue. Uma das cenas de maior destaque é uma em que Chaplin quer testar um veneno que mata sem deixar vestígios no cadáver; escolhe uma mulher que está na rua, sem dinheiro, sem teto e sem comida para ser a cobaia do experimento. O humor desastrado e os trejeitos um pouco efeminados de Chaplin continuam presentes ainda nesse filme da fase madura. Chovendo no molhado: MONSIEUR VERDOUX é mais uma obra-prima de um dos maiores cineastas do mundo.