sábado, maio 23, 2026

ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER (Something Bad Is Going to Happen)

 A noiva ensanguentada. Quando vi uma das imagens mais belas do cinema de horror deste ano (embora seja uma minissérie para streaming e não um filme para cinema), me veio à mente o título do filme de Vicente Aranda. Mas a imagem que fica grudada na retina é da belíssima Camila Morrone, alta e de sobrancelhas grossas e definidas, chegando a lembrar Dua Lipa, que interpreta aqui Rachel, uma jovem que está indo com o noivo, Nicky (Adam DiMarco), conhecer a casa na floresta dos pais dele, conhecer finalmente a família dele, depois de alguns anos de relacionamento. Essa casa, localizada numa região gelada e ao norte dos Estados Unidos, é enorme e luxuosa, e é lá que acontecerá o casamento, marcado para alguns dias dias após a chegada dos noivos.

O primeiro episódio de ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER (2026), criação da jovem Haley Z. Boston, mostra o casal passando por situações tensas em temperaturas geladas até chegar à casa, como a tentativa de “salvar” um bebê aparentemente abandonado dentro de um carro. É também nesse trajeto que Rachel dá de cara com um estranho homem, que passa a segui-la. Mas é na casa de Nicky que ela ficará bem pouco à vontade, já que a família parece não gostar dela e inicia-se algo que tanto parece uma paranoia quanto de fato uma conspiração para matá-la. Como a série é vista principalmente pelo ponto de vista de Rachel, tendemos a ver a história por sua ótica. Até por que, quem em sã consciência, acharia que era só brincadeira alguém roubar o vestido de noiva para fazer uma espécie de imagem digna de um filme de horror folk? Então, há, sim, algumas coisas no roteiro que parecem um pouco forçadas, mas vejo tudo como algo que dê para relevar.

Assim como dá para relevar se falar tanto em alma gêmea, com tanta verdade que fica parecendo que os roteiristas, a maioria do sexo feminino, acreditam mesmo nessa ideia. Mas é importante acreditar, uma vez que a minissérie é sobre isso, sobre acreditar, sobre confiar, e isso vai ficar mais claro em sua conclusão, que tem algumas metáforas bem bonitas. Mas até chegar ao fim a série passa por caminhos tortuosos. Embora não tenha nenhum episódio que eu tenha desgostado, foi a partir do quarto episódio que a produção ganhou o meu respeito, ao nos levar para a história dos pais de Rachel a partir de uma imagem de VHS velha, onde muita coisa será revelada.

Acho interessante que a maior parte da equipe de diretoras (uma delas, Weronika Tofilska, dirigiu alguns episódios de BEBÊ RENA) e roteiristas seja formada por mulheres, o que passa uma maior verdade no que se refere aos sentimentos das personagens femininas. Não apenas de Rachel, mas também de Nell (Karla Crome), da matriarca Victoria (Jennifer Jason Lee) e de Portia (Gus Birney). Quando a série começa a nos fazer gostar da família, bateu até uma saudade de quando vi A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL, de Mike Flanagan, que era centrada mais no amor que nutrimos pelos personagens do que na história de terror.

O que não quer dizer que ALGO HORRÍVEL VAI ACONTECER não tenha seus momentos de horror bem gráfico, muito antes do banho de sangue digno do conto “A Máscara da Morte Rubra”, de Edgar Allan Poe, algumas vezes adaptados para o cinema e a TV. O sétimo e penúltimo episódio nos deixa em estado de aflição e o uso do plano-sequência para descrever o estado de ansiedade da heroína funciona muito bem. A câmera em alguns momentos lembra EVIL DEAD, noutros, lembra O ILUMINADO, embora os corredores aqui não sejam tão iluminados, o que, aliás, eu prefiro. Há um uso muito interessante da câmera atravessando os corredores do luxuoso espaço, que às vezes passa a impressão de ser um labirinto.

Vale destacar também os personagens masculinos, que se veem mais dependentes e até dizem isso em voz alta, como é o caso do patriarca, Boris (Ted Levine), que diz que depois que a esposa, com câncer em estágio avançado, morrer, não tem ideia de como será a vida dele e dos filhos, pois é ela a sustentação daquela família. Jules (Jeff Wilbusch) também está melancólico devido a seu casamento prestes a ruir. Eis um personagem tão fácil de odiar quanto de amar. É o que mais tem uma trajetória de mudança no enredo sob nossa perspectiva. E Nicky se vê como um homem não tão nobre assim para a noiva Rachel, além de ser vítima do excesso de cuidados dos pais, por ser o filho mais novo. Eles representam uma espécie de tradição de família, muito mais do que as mulheres.

Gosto da conclusão, com uma definição satisfatória envolvendo a tal maldição. Uma maldição, aliás, muito curiosa só de ter sido imaginada. Sendo o roteiro original e não adaptação de obra literária, sente-se uma maior liberdade na condução. Os diálogos são bons, assim como o trabalho de suspense e terror, que ganha força com o visual caprichado. se e terror, que ganha força com o visual caprichado.

+ TRÊS FILMES

A NOIVA! (The Bride!)


O segundo longa dirigido por Maggie Gyllenhaal, como geralmente ocorre com filmes dirigidos por atores, privilegia mais a atuação do que a encenação. O que não chega a ser um grande problema. Mas A NOIVA! (2026) é um filme que parece perdido em suas intenções: joga no mesmo liquidificador uma história de amor, um thriller de gângsters inspirado em BONNIE E CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS, uma história de monstros que homenageia os clássicos de James Whale, um tributo feminista a Mary Shelley, e é principalmente uma obra bastante militante. E ser militante nos dias de hoje, com tanto feminicídio por aí, em tempos de maior conscientização do papel da mulher na história e do cerceamento de sua voz, é obviamente bem-vindo. O problema é que Gyllenhaal se repete muito ao longo das pouco mais de duas horas de sua obra. Como se a própria protagonista, vivida por Jessie Buckley, quisesse também lembrar a si mesma do quanto deve ser independente. A NOIVA! também nos faz perceber o quanto o romance de Shelley segue vivo e interessando a diversos artistas - lembremos que mais recentemente tivemos outras duas obras inspiradas no clássico: POBRES CRIATURAS, de Yorgos Lanthimos, e FRANKENSTEIN, de Guilhermo del Toro, cada uma escolhendo caminhos próprios. Gyllenhaal também faz suas escolhas. E são escolhas ousadas, mas me perguntava se optar por explicitar Bartebly, de Herman Melville, inúmeras vezes não seria um exagero. Entre outras repetições. De todo modo, o importante é que a voz da artista seja mantida em sua totalidade.

A MEIA-IRMÃ FEIA (Den Stygge Stesøsteren)

Confesso que o fato de ser uma reimaginação de um conto de fadas foi algo que me deixou um pouco afastado do filme por um momento. Tanto que fiquei esperando logo que aparecesse o horror corporal. Mas quando aparece não desaponta (para quem gosta do gênero, claro, quem gosta de imagens chocantes e criativas). Essa reimaginação de contos de fadas pela perspectiva de um personagem não-protagonista não é novidade: basta lembrar de MALÉVOLA, da Disney. Mas A MEIA-IRMÃ FEIA (2025), de Emilie Blichfeldt, vai além, sem falar que carrega a estranheza mais típica do cinema de gênero europeu. A história de Cinderella é aqui contada pelo ponto de vista de uma das meia-irmãs da Gata Borralheira. A jovem Elvira (Lea Myren) sofre com a pressão da mãe, que logo depois de casar com o pai de Agnes, a Cinderella, fica viúva e estabelece prioridades para a filha: Elvira deve se casar com o príncipe, que dará um baile em que escolherá sua esposa. Só assim ela conseguirá dinheiro para a família. Os meios para Elvira ficar bonita são cruéis e existe até uma filosofia propagandeada: é preciso sofrer para ficar bela, ou algo do tipo. Algumas cenas ficam mais gravadas na memória: a cena dos cílios e do flagra no estábulo estão entre elas, mas nada nos prepara para uma das cenas finais.

ZUMBIS DO MAL (Messiah of Evil)

Vendo este ZUMBIS DO MAL (1974), de Willard Huyk e Gloria Katz, fiquei imaginando como seria vê-lo numa sessão no cinema, à noite, num espaço quase vazio, de modo a experimentar melhor o clima misterioso que o filme traz. Adoro as imagens noturnas, da praia ou das ruas desertas, assim como da casa-studio cheia de cores vivas. Gosto mais do filme quando há pouca ou nenhuma presença física dos zumbis do título brasileiro, pois passa algo de Lovecraft, além de esconder melhor as deficiências orçamentárias da produção. Na trama, jovem mulher vai em busca do pai numa pequena cidade costeira, quando descobre que o lugar virou uma espécie de cidade fantasma e as coisas que descobre são principalmente através do diário do pai desaparecido. O número de personagens aumenta com a entrada em cena de uma espécie de aristocrata rodeado de garotas e há alguns coadjuvantes expressivamente aterradores, como um homem que aparece no posto de gasolina com uma caminhonete cheia de corpos degolados. Os diretores disseram que, ao receberem a proposta de fazer o filme, não tinham tanta aproximação com o cinema de horror e por isso acreditam que uma das referências principais é Michelangelo Antonioni. Visto no box Zumbis no Cinema 4.

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