domingo, outubro 03, 2021

UMA GAROTA SOLITÁRIA (La Fille Seule)



O advento dos streamings, de alguns anos para cá, tem começado a trazer benefícios para o público mais exigente. Resgates de filmes pouco conhecidos ou de alguns que sequer chegaram a ser exibidos comercialmente no Brasil podem ser vistos na MUBI, por exemplo. Vejamos o caso do cineasta Benoît Jacquot, que me pareceu sempre interessante desde os primeiros filmes que vi dele, ADEUS, MINHA RAINHA (2012), O DIÁRIO DE UMA CAMAREIRA (2015) e O ÚLTIMO AMOR DE CASANOVA (2019).

Mas acontece que Jacquot já tem uma carreira de 48 créditos, entre produções para a televisão e para o cinema, sendo que seus primeiros trabalhos foram nos anos 1970. Ou seja, estamos diante de um cineasta que já era interessante desde o começo ou que só foi se tornando um grande artesão com a maturidade? Isso seria o caso de ver os filmes para só então descobrir. Esse tipo de situação pode acontecer com inúmeros outros diretores que só descobrimos a partir de suas realizações mais recentes.

Eis que tive a chance de ver, então, UMA GAROTA SOLITÁRIA (1995), um trabalho mais ousado formalmente do que os seus últimos trabalhos, que têm a vantagem de ter mais dinheiro na produção, mas que não necessariamente parecem tão inventivos quanto este filme estrelado pela belíssima Virginie Ledoyen. A primeira vez que vi Virginie foi em A PRAIA, estrelado por Leonardo DiCaprio, mas ela é só uma moça bonita que aparece e depois esquecemos. Aliás, o próprio filme, eu nem lembro mais. Depois, em 8 MULHERES, de François Ozon, ela aparece no meio de atrizes de tão alto gabarito que acaba sendo facilmente eclipsada.

Mas eis que ela aparece em dois excelentes filmes de Emmanuel Mouret, SÓ UM BEIJO POR FAVOR e UM NOVO DUETO, em papéis de destaque e muito fáceis de causar paixão nos espectadores. Porém, nenhum desses filmes a mostrou de maneira tão intensa quanto UMA GAROTA SOLITÁRIA, em que a câmera a segue em praticamente 100% da metragem.

No filme, ela é uma jovem que está prestes a entrar no seu primeiro expediente em um hotel quatro estrelas. Ela acabou de descobrir que está grávida e marca um encontro com o namorado desempregado em um bar para contar as boas novas. O rapaz não recebe a notícia com muita alegria; ela, no entanto, planeja ter a criança, com ou sem a participação dele. Ficam de se encontrar pouco depois para conversarem melhor, no mesmo local, já que ela precisa se apresentar ao novo trabalho imediatamente. A câmera a segue atravessando a rua até o hotel, sem cortes. Eu diria que, com um pouco de criatividade, é possível sentir o cheiro da noite e da ambientação das ruas.

UMA GAROTA SOLITÁRIA é um filme que antecipou em algumas décadas debates dos dias atuais, como a questão do assédio às mulheres no ambiente de trabalho e a hoje chamada cultura do estupro. Isso é visto com incômodos detalhes, ao longo dos minutos que vemos a protagonista em seu trabalho. Há também a conversa com a chefe, que vê o fato de ela ser muito bonita um possível empecilho para o trabalho.

Um dos destaques do filme, do ponto de vista formal, é que ele se passa, quase que completamente, em tempo real. Isso passa um senso de urgência e de estresse que contagia a obra. Temos aqui um filme que tem um frescor que não veríamos em obras posteriores do cineasta e que chega a remeter aos filmes do Godard dos anos 1960. Eis filme que se vê com muito prazer.

P.S.: A MUBI está com um outro filme dos anos 1990 estrelado por Virginie Ledoyen: LATE AUGUST, EARLY SEPTEMBER, um dos poucos trabalhos de Olivier Assayas até então inéditos no Brasil. A ver em breve.

+ DOIS FILMES

SUK SUK - UM AMOR EM SEGREDO (Suk Suk)

Como são raros os filmes de temática LGBT com personagens mais maduros presentes em nosso circuito exibidor (o último de que me lembro é O AMOR É ESTRANHO, de Ira Sachs), SUK SUK – UM AMOR EM SEGREDO (2019), de Ray Yeung, é muito bem-vindo. O fato de a sociedade de Hong Kong ser mais conservadora do que a brasileira faz com que seja ainda mais frequente pais de família esconderem suas orientações sexuais e só aproveitarem um pouco mais quando já estão mais velhos. Não me envolvi tanto com o romance dos protagonistas, mas fiquei tocado com o quanto eles sofrem com esse segredo, especialmente o que tem um filho bem religioso.

ANA. SEM TÍTULO

Um filme que tem uma ousadia e um papel importante como resistência (racial, de gênero) neste momento de ensaios de retorno de uma extrema direita e que também brinca com a opção por um documentário falso, que busca a verdade por meio da ficção. Os depoimentos de várias senhoras em alguns países da América Latina são sim, creio eu, inserções documentais na narrativa, mas ainda assim ANA. SEM TÍTULO (2020), de Lúcia Murat, é uma obra que pode enganar a muitos espectadores, que se pegam intrigados e possivelmente interessados na história de busca por uma mulher chamada Ana, artista plástica e militante de esquerda. Gosto do discurso final, embora acredite que poderia ter ficado melhor se fosse materializado.

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