Foi amor à primeira vista (ou à primeira risada) na primeira vez que vi um filme de Emmanuel Mouret, FAÇA-ME FELIZ (2009), numa edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Mal sabia eu que, apesar de este trabalho ainda constar no rol de comédias que se tornariam a marca do cineasta até ele fazer uma virada de chave para o drama com UM NOVO DUETO (2013), mal sabia eu que ele já era um cineasta com alguns títulos já lançados anteriormente, sendo que apenas o anterior havia sido lançado no país comercialmente, o delicioso e divertidíssimo SÓ UM BEIJO, POR FAVOR (2007), que, creio eu, não chegou a ser lançado em Fortaleza. Foi um dos vários filmes do diretor que tratei de ir conhecendo por vias alternativas principalmente durante a pandemia.
E é graças a esses meios alternativos que tive o prazer de conhecer até mesmo os filmes inéditos no país, como foi o caso, recentemente, de LAISSONS LUCIE FAIRE! (2000), seu primeiro longa-metragem. Ou o segundo, se considerarmos o filme de 50 min de duração PROMÈNE-TOI DONC TOUT NU! (1999), como um longa. Atualmente se considera um longa quando se tem mais de 60 min, mas não é todo crítico que leva em consideração essa regra. De uma forma ou de outra, isso não importa muito.
Um dos dois filmes de Emmanuel Mouret que faltava eu ver, este aqui ainda tem aquele ar de quase amadorismo por parte de um diretor que viria a se tornar um dos mais interessantes deste século. LAISSONS LUCIE FAIRE! é mais irregular que o seu quase primeiro longa, PROMÈNE-TOI DONC TOUT NU! Sem falar que o anterior também é mais "safadinho", no bom sentido, ou seja, utiliza um pouco mais do erotismo presente em outros ótimos trabalhos de Mouret, como o próprio SÓ UM BEIJO, POR FAVOR ou o mais maduro AMORES INFIÉIS (2020).
E acredito que o problema de LAISSONS LUCIE FAIRE! esteja justamente na duração. Gosto muito da primeira metade. De rir e gargalhar, com muitas situações apresentadas quase em forma de esquetes, o que mais uma vez faz aproximar o realizador com Woody Allen, principalmente os primeiros trabalhos de Allen. Mas o cineasta que parece ser a sua principal referência é mesmo o francês Éric Rohmer. Há um quê de CONTO DE VERÃO ou PAULINE NA PRAIA, de Rohmer, nesta trama de jovens ambientada numa cidade litorânea francesa.
Pena que Mouret não apresente o mesmo brilho em sua conclusão. Na trama, o próprio Mouret é um rapaz de família abastada que faz concurso para ser policial, para desgosto do pai, que anda muito ocupado com a contratação de uma empregada doméstica. Porém, o protagonista acaba sendo contratado como agente secreto – algo que ele precisa fazer nessa nova profissão é não contar para ninguém a respeito.
Enquanto isso, sua doce namorada (Marie Gillain, de A ISCA, de Bertand Tavernier), que vive de vender biquínis e maiôs na praia usando o próprio corpo como modelo, cobra do namorado uma postura de completa franqueza com relação a tudo. Como se não bastasse o tal emprego que não deve ser contado a ninguém, o protagonista ainda se sente atraído por outra mulher, que se oferece a ele sexualmente. E é nesse jogo de traições (ou quase) que o filme se reveste de uma força maior. Até por saber tratar tudo com bastante leveza. Depois disso, a narrativa vai perdendo sua força, o que não quer dizer que não seja bem gostoso de ver. Essa brincadeira com triângulos (ou quadrados) amorosos seria posteriormente aperfeiçoada em outros trabalhos do realizador.
+ TRÊS FILMES
PERRENGUE FASHION
Vinda da televisão, e depois da experiência desafiadora de comandar, junto com Guel Arraes, O AUTO DA COMPADECIDA 2 (2024), Flávia Lacerda segue agora no território da comédia, mas num estilo mais usual de comédia brasileira do cinema pós-retomada, que carrega uma tendência de tratar de questões econômicas e sociais. Em PERRENGUE FASHION (2025), Ingrid Guimarães segue aproveitando sua boa verve cômica para interpretar uma influenciadora de moda que mora numa casa minúscula para conter tantos brindes recebidos de patrocinadores. Segundo seu secretário e único apoiador, vivido por um Rafa Chalub que parece aproveitar um pouco a lacuna deixada por Paulo Gustavo, ela precisa fazer de conta que já é milionária a cada vídeo que publica no Instagram ou TikTok. Um dia surge a oportunidade de ouro de ela fazer uma publicidade da Gucci, mas ela precisa ir em busca do filho (Filipe Bragança), que está na Amazônia, e agora lidando com ecologia e sustentabilidade e bastante resistente a ajudar a mãe. Assim como acontece em outras comédias que apresentam o choque cultural de alguém que veio de uma cidade cosmopolita para adentrar o Brasil profundo (lembro agora de BEM-VINDA A QUIXERAMOBIM, de Halder Gomes), a graça desta aqui está em ver como a personagem de Ingrid lida com aquilo que lhe parece estranho, como o estilo de vida daquele grupo em que o filho agora se insere e, mais engraçado, a questão da comida diferente da Amazônia. Como ouvi numa entrevista da diretora e do elenco no podcast Plano Geral, é bem provável que uma comédia como esta seja mais eficiente na conscientização de um modo de vida mais amigo do meio ambiente do que qualquer documentário mais caprichado.
MÃE FORA DA CAIXA
É importante trazer para um público maior, no caso, o público que frequenta o cinema e assiste às comédias brasileiras, o tema do puerpério, das dificuldades imensas por que a mulher passa assim que o bebê nasce. No cinema de ficção, por exemplo, eu só havia visto esse tema ser apresentado de maneira mais crua no americano TULLY, de Jason Reitman, com roteiro de Diablo Cody e atuação intensa de Charlize Theron. MÃE FORA DA CAIXA (2025) faz isso muito bem, ainda que de maneira suave, se comparado ao filme de Reitman, até porque as intenções de ambos os filmes são distintas. A diretora Manuh Fontes se sai muito bem, pelo menos até seu terço final, quando o filme por pouco põe a perder o que havia conquistado em seus 2/3. Muito da força do filme está no carisma de Miá Mello, mas também no quanto muitas situações servirão como identificação para quem já passou pela experiência de ser mãe, amamentar e acompanhar os primeiros passos de uma criaturinha totalmente dependente. Isso vale para os homens que estiveram presentes também, aqui representados por Danton Mello.
AGENTES MUITO ESPECIAIS
E Marcus Majella faz aqui um trabalho que ajuda a honrar a memória de Paulo Gustavo. AGENTES MUITO ESPECIAIS (2025), de Pedro Antônio, deveria ser um filme com os dois atores/comediantes e a ideia foi materializada num filme irregular, mas com alguns momentos muito divertidos, principalmente na primeira parte do filme, que vai do treinamento dos protagonistas até a temporada na prisão, na missão de se infiltrar numa gangue perigosa. Há toda uma brincadeira que mistura orgulho gay com uma tentativa, a princípio, de "falar grosso" na penitenciária. De um lado, temos um homem gay orgulhoso de sua orientação sexual (Majella); do outro, alguém que não se assume (Pedroca Monteiro), ou que diz ser um gay "não praticante", e essa brincadeira funciona bem na primeira metade do filme. Depois, há uma queda no interesse, por conta de uma trama burocrática que quebra o tom de brincadeira descompromissada que o filme até então adotara.
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