terça-feira, julho 31, 2007

A HORA DO LOBO (Vargtimmen)



Triste e curioso ver que Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni foram para o outro plano da existência quase que no mesmo dia. Eles que foram as principais influências do cinema de Walter Hugo Khouri. Mas não estava preparado para falar de Antonioni. Talvez num outro dia. Dedico, então, esse post a Bergman. Assim que soube que ele tinha falecido, peguei a minha cópia de A HORA DO LOBO (1968), que há tempos eu havia conseguido com a amiga Carol Vieira, e o assisti ontem à noite. Inclusive, a noite é a melhor hora para se ver os filmes de Bergman, já que eles estão tão próximos dos sonhos.

Lembro que quando estava em São Paulo, na casa do Eduardo Aguilar, ele me falou algo como: "Ailton, você precisa gostar de Bergman, ver mais Bergman. Ele é o grande cineasta canceriano." E é mesmo. E se o sonho é um dos símbolos mais representativos do signo de Câncer, Bergman soube explorá-lo muito bem em seus filmes. Mas é como eu estava dizendo ontem para o Marcos por MSN: quando eu vejo os filmes de Bergman, eles meio que ficam numa zona escura do meu cérebro, como se eles se juntassem aos meus próprios sonhos, sendo, portanto, passíveis de serem esquecidos. Por isso, poucos filmes do diretor ficam vivos em minha memória. PERSONA (1966), por exemplo, eu vi duas vezes mas, curiosamente, guardo poucas lembranças do filme. Por essas e outras razões que o cinema de Bergman é um prato cheio para os estudantes de psicologia. Inclusive, já se escreveu muitos ensaios sobre Bergman e a psicologia freudiana.

Pra quem viu PERSONA, A HORA DO LOBO não é tão diferente, embora seja um filme que se destaca dos demais por sua maior aproximação com o gênero horror, ainda que bem distante do que se imagina de um tradicional filme de horror. Eu, como não tinha lido nada sobre o filme, até pensava se tratar de um filme de lobisomem. Na verdade, eu ainda continuo sem ter entendido o filme. A tal "hora do lobo" do título, conforme o próprio personagem de Max Von Sidow diz, é a hora em que os insones são perseguidos pelos seus demônios interiores, seus temores mais profundos. É também a hora em que a maioria das pessoas morrem. Talvez tanto Bergman quanto Antonioni tenham ido embora nessa "hora do lobo".

Na trama, Max Von Sidow é um pintor atormentado que sofre de insônia e que mora com a esposa (Liv Ullmann) numa casa situada numa ilha isolada. Aos poucos, ele vai se comportando de maneira estranha, fazendo desenhos sinistros, tratando mal a esposa. O pintor recebe, então, convites para participar de festas num castelo local. A partir da cena que mostra os homens e mulheres presentes na festa, com a câmera inquieta focalizando mais de perto seus rostos, mostrados com um aspecto quase monstruoso graças ao alto contraste da fotografia em preto e branco de Sven Nykvist, a partir desse momento, o filme vai entrando num clima crescente de pesadelo. Como na cena em que uma velha arranca o próprio rosto e os seus olhos - cena que me lembrou A MONTANHA SAGRADA, de Alejandro Jodorowsky - ou aquela na qual um homem sobe pelas paredes.

Woody Allen constumava dizer que Bergman - seguido de Buñuel e Kurosawa - era o maior poeta do cinema. Obviamente, ele que tanto bebeu da fonte do cineasta sueco sentiu muito a sua perda. Sobre Bergman, Allen um dia falou: "é provavelmente o maior artista de cinema desde a invenção da máquina de filmar".

P.S.: Chico Fireman preparou uma pequena homenagem ao cineasta em seu blog, convidando vários blogueiros cinéfilos para escrever um pequeno texto sobre um filme do diretor. Eu contribuí com o meu Bergman favorito: MORANGOS SILVESTRES (1957).

segunda-feira, julho 30, 2007

JERI 2007



Como estou de férias, nada como mais um post de viagem para a despedida desse agradável período de descanso. Dessa vez fui para Jericoacoara. Acho que foi a quarta ou a quinta vez que eu pisei nas terras jericoacoarenses (existe essa palavra?) e como sempre a viagem é memorável. Antes que eu me esqueça, quero agradecer à Valéria pelo convite. A Valéria tem um talento especial para organizar eventos e espero que ela continue contribuindo para o bem estar da humanidade com seus dons.

Com a desistência de alguns membros, o número de pessoas que toparam ir para Jeri ficou em dez, o que eu acho até bom, pois eu fico mais à vontade tendo poucas pessoas no grupo. Sem falar que fica bem mais fácil de se administrar as coisas. Como sempre, essa turma que eu já conheço há alguns anos tem me dado o prazer de sua companhia e de seus papos sempre inteligentes e divertidos. A Valéria, o Igor, o Murilo, a Érika e a Elis, eu já conheço há uns seis, sete anos e com o tempo a gente vai ficando cada vez mais amigo, embora eu não tenha me encontrado com eles com muita freqüência. Mesmo assim, acho que já se estabeleceu um belo elo de amizade. O Leonardo, o Rodrigo e a Marina, eu só conheci agora, nessa viagem, e espero encontrá-los mais vezes. Completa o grupo, Marlon, filho da Érika, um rapaz muito gente fina. Acho que ele curtiu a viagem também.

A boa companhia é o fundamental para o sucesso de uma viagem a passeio, mas Jeri ainda contribui com suas belezas naturais e com aquele pôr-do-sol espetacular. Eu, sinceramente, duvido que vá ver outro mais belo no mundo. Tão belo que assim que o sol desaparece da linha do horizonte, todas as pessoas presentes na grande duna aplaudem. Difícil não sentir um arrepio de emoção nessa hora. Acho que nesse momento, todos que estão ali sentem um pouco de gratidão por estarem contemplando algo tão bonito. Pra completar, enquanto o sol desaparecia, a lua cheia aparecia no outro lado.

Dessa vez, conhecemos a Lagoa do Paraíso, que por ser um pouco distante de Jeri, a gente sempre deixava pra outra oportunidade. A lagoa fica no município de Jijoca e chegamos lá no pau-de-arara. É uma viagem cansativa, principalmente pra quem fica sentado na parte de trás da caminhonete, mas vale a pena. Mas cansativo mesmo é a volta a pé pelo Serrote, depois de passarmos pela Pedra Furada, o principal cartão postal de Jeri e uma área de preservação ambiental, onde é proibido entrar de carro.

No mais, revi VIOLAÇÃO DE CONDUTA no Supercine - mais uma vez para não entender a trama complicada -, tomei novamente aquele sorvete especial da sorveteria que fica em frente ao Planeta Jeri, assisti os últimos jogos do time de vôlei masculino no Pan, saboreei o crepe numa lanchonete em frente ao mar e conversamos muito. Só não saí muito à noite, já que eu estou mais velhinho, sem muita animação para dançar, beber e azarar. Felizmente não fui o único da turma nessa condição. ;-) Da turma, as únicas pessoas que foram para a rave foram a Elis e a Marina. Espero que tenham curtido.

Quem quiser ver mais fotos da viagem, fiz uma seleção das melhores e postei aqui. Amanhã voltaremos com nossa programação normal.

quinta-feira, julho 26, 2007

MARIA STUART, RAINHA DA ESCÓCIA (Mary of Scotland)



Sempre achei fascinante o mundo dos reis e rainhas, suas lutas pelo poder e suas tentativas de manter a sua linhagem através de seus herdeiros. Apesar desse meu interesse e curiosidade, acabei vendo MARIA STUART, RAINHA DA ESCÓCIA (1936) exclusivamente por ser um filme dirigido por John Ford. Mesmo sendo um filme desprezado até pelo próprio diretor e não muito fordiano, há algumas cenas que lembram um pouco os clássicos do diretor. Outra importância do filme se dá no que aconteceu nos bastidores: Ford teve um caso com Katharine Hepburn durante as filmagens, uma relação que quase pôs fim ao seu casamento. Depois que Ford a deixou para ficar com a esposa, Katharine foi parar nos braços de outro homem casado, Spencer Tracy, que seria a grande paixão da vida dela, e que estrelaria um dos filmes tardios de Ford: O ÚLTIMO HURRAH (1958).

MARIA STUART, RAINHA DA ESCÓCIA foi feito num tempo em que Ford chegava a lançar três filmes por ano. Era ainda um jovem cineasta cheio de vitalidade e com muito prestígio em Hollywood. O filme é mais um projeto de Katharine do que dele. Inclusive, ela queria na direção George Cukor, mas os executivos não aceitaram. A estória, se comparada com os eventos reais, é cheia de erros, a começar pela maneira como mostra Maria Stuart, quase uma santa guiada pelo amor, e Elizabeth I como uma vilã perversa e impiedosa que não teve pena de levar a Rainha da Escócia à execução. A direção não é das mais inspiradas de Ford e Katharine Hepburn praticamente leva o filme nas costas. Sempre que ela sai de cena, o filme fica fraco, mas é só ela aparecer que o filme recupera o interesse e o brilho. Um dos destaques do filme são os closes no rosto da atriz, coisa de um cineasta apaixonado. Quanto à atriz que faz a rainha Elizabeth, não gostei muito dela não, tendo me incomodado desde o início. Felizmente ela aparece pouco.

Na trama, Maria Stuart está voltando para o seu país natal, a Escócia, depois que seu marido Francisco II morreu na França. Ela chega à Escócia viúva, disposta talvez a nunca mais se casar e com uma forte crença no Catolicismo, ao contrário de seus súditos e os nobres escoceses, todos protestantes. Essas são duas das razões que fazem com que logo de cara ela se torne não muito agradável aos olhos de muitos. Enquanto isso, na Inglaterra, a Rainha Elizabeth fica sabendo da chegada de Maria e teme que ela tome a sua coroa. Assim, ela aproveita as fraquezas de Maria para usar de seus planos maquiavélicos. As coisas se complicam quando Maria, não aguentando o casamento arranjado que ela mesmo aceitou, acaba assumindo o seu amor pelo chefe da Guarda, o Conde de Bothwell (Fredric March). A cena do interrogatório na qual Maria Stuart fica sabendo que seu amado morreu e sua execução é uma certeza lembra muito os filmes de Joana D'Arc. E por mais que morrer na fogueira seja uma morte horrível, ter sua cabeça cortada por um machado partindo das mãos de um carrasco não é nada agradável.

Anos depois, Ford adaptaria outra peça de Maxwell Anderson: SANGUE POR GLÓRIA (1952).

quarta-feira, julho 25, 2007

O HOSPEDEIRO (Gwoemul / The Host)



Ontem eu tive o prazer de ver o melhor filme do ano. Pelo menos até o momento. Fiz muito bem em resistir à tentação de ver O HOSPEDEIRO (2006) em divx, preferindo esperar pela exibição do filme nos cinemas locais. Há muito tempo não via um filme de monstro tão bom, tão prazeroso e tão belo. Imaginei que o filme tenderia mais para a comédia, mas nem mesmo a cena em que a família da garotinha chora copiosa e exageradamente a sua suposta morte eu achei engraçada. O HOSPEDEIRO, apesar de ter mesmo um senso de humor bem próprio foi encarado por mim como um drama sério sobre um monstro que apavora a Coréia do Sul. Há, claro, a forte e relevante crítica social, mas a força do filme está mesmo na aventura e no terror envolvendo a criatura. O tal monstro, aliás, é um primor de perfeição. Desde JURASSIC PARK que não fico tão encantado com uma criatura feita em computação gráfica.

E diferente de JURASSIC PARK e TUBARÃO, que demoram a mostrar seus "monstros", o filme de Bong Joon-ho já entrega o monstro nos primeiros dez minutos de filme e em plena luz do dia, para que possamos ver com detalhes o seu corpo, desenvolvido pela Weta, a empresa que fez os efeitos especiais de O SENHOR DOS ANÉIS. O HOSPEDEIRO foi a produção mais lucrativa da história do cinema sul-coreano e foi baseado num incidente real acontecido há alguns anos, quando bases americanas derramaram detritos químicos no rio Han. E no filme os americanos são tão criticados quanto o próprio governo da Coréia do Sul, que é mostrado como inventor de mentiras e ignorador dos apelos do povo. Há outras sutis críticas ao governo coreano.

Mas nada disso seria importante se a trama tão bem amarrada a partir do drama da família de losers não fosse tão crível e a busca pela garotinha não se tornasse uma prioridade até mesmo para nós, espectadores. O filme começa mostrando um cientista americano pedindo para seu subordinado coreano jogar dezenas de vidros contendo uma substância tóxica no rio Han. Segundo ele, o rio é muito grande e não vai ter nenhuma importância jogar um pouco de veneno nas águas. Anos depois, num quiosque de alimentação perto do rio o monstro ataca. A cena do primeiro ataque do monstro é de cair o queixo. Os personagens principais são os membros de uma família: um pai idoso, um filho abobalhado que cria uma filha pequena abandonada pela mãe, um rapaz desempregado e uma competidora de arco e flecha. Durante o ataque, a garotinha é levada pelo monstro e dada como morta. O filme ganha novo e dramático fôlego quando se descobre que a menina ainda está viva.

Fiquei tão encantado com o monstro, com a beleza plástica, com a excelência narrativa e com os personagens, que preciso ver mais filmes de Bong Joon-ho, a começar pelo também bastante elogiado MEMÓRIAS DE UM ASSASSINO (2003), já disponível em DVD pela Europa. É o cinema sul-coreano mais uma vez mostrando a sua força.

terça-feira, julho 24, 2007

DE VOLTA AO VALE DAS BONECAS (Beyond the Valley of the Dolls)



Difícil resistir ao ver nas prateleiras de uma locadora a caixinha de DE VOLTA AO VALE DAS BONECAS (1970), de Russ Meyer. Tanto pela oportunidade inédita de se alugar alguma coisa do diretor, quanto pela beleza do elenco encabeçado por coelhinhas da Playboy com uns peitões de dar gosto, marca do cineasta. Foi a primeira vez que Meyer trabalhou com um orçamento grande, para uma major, no caso a Fox. Vendo os extras presentes no dvd duplo, nota-se que as filmagens foram uma festa para todos os envolvidos. A surpresa é saber que quem fez o roteiro do filme foi Roger Ebert, hoje um dos mais famosos críticos de cinema dos Estados Unidos. DE VOLTA AO VALE DAS BONECAS foi apenas inspirado em VALLEY OF THE DOLLS (1967), de Mark Robson. Não se trata de uma continuação, como é explicitado nos créditos iniciais. Ainda bem, já que eu não vi mesmo o filme de Robson. Aliás, eu até pensava que VALLEY OF THE DOLLS também era do Meyer.

O filme de Meyer é uma salada que mistura musical, sexo, comédia e horror. Eu nunca vi nada parecido antes. O começo do filme é bem alegre. Um grupo de rock feminino é convidado para ser gerenciado por um empresário meio maluco, levemente inspirado em Phil Spector. Ao adentrar as portas de Hollywoody, elas entram em contato com um universo de sexo, drogas, rock'n'roll e excentricidades. Difícil descrever o enredo do filme em poucas linhas, já que há vários personagens e várias subtramas e a estória parece não importar muito. O que mais importa são os belos peitões das meninas e o clima de liberdade/libertinagem do final dos anos 60. E o engraçado é que Meyer mostra isso sem parecer vulgar. O diretor tem uma classe, um estilo, que deixa tudo muito bonito. A fotografia, em belo technicolor, é também um grande destaque.

Há um forte contraste entre o começo e o final do filme. O leve e o pesado. Coincidência ou não, durante as filmagens, ocorridas no final de 1969, o mundo todo ficou horrorizado com o massacre cometido pelo grupo do psicopata Charles Mason, no qual foi vitimada Sharon Tate, que por coincidência estava no elenco do primeiro VALLEY OF THE DOLLS. Assim, a década de 60, que começou ingênua, foi passando por experimentações psicodélicas e sexuais e acabou num massacre sangrento. Assim é DE VOLTA AO VALE DAS BONECAS. No final, o filme se transforma num festival de horror, com cenas de decapitação, tiro na boca e homem com peitos. Não chega a chocar no sentido que se espera de um filme de horor, causa mais é um certo estranhamento pela mudança drástica de rumo. Também não dá pra levar muito a sério o filme, que se fosse feito no Brasil seria chamado de pornochanchada, tanto pelo sexo quanto pelos atores canastrões, que só não aparentam ser tão ruins por causa da montagem bem picotada de Meyer, que disfarça os erros - não que Meyer não conseguisse fazer um suspense sem abrir mão de seu estilo e de suas mulheres peitudas, como pode ser comprovado em FASTER, PUSSYCAT! KILL! KILL! (1965). A impressão que fica é que, em DE VOLTA AO VALE DAS BONECAS, ele queria apenas gastar o dinheiro da Fox sem se preocupar com muita coisa e nos presentear com um desfile de beldades nuas em cenas pra lá de sensuais. E pensar que ele teria apimentado ainda mais o filme se soubesse que ganharia classificação X pela censura americana...

segunda-feira, julho 23, 2007

TRANSFORMERS



Quando vi o trailer de TRANSFORMERS (2007) achei curioso o fato de, pela primeira vez, um filme de Michael Bay ter me deixado entusiasmado para ir ao cinema. Talvez o nome de Steven Spielberg diretamente associado ao dele tenha contribuido para isso. O trailer também quis vender uma idéia de que o nome de Bay estaria ligado a uma diversão de qualidade, sendo que os nomes "Michael Bay" e "filme de qualidade" dificilmente aparecem juntos. Aliás, o nome de Bay acabou virando piada entre cinéfilos, como o exemplo maior de diretor ruim de grandes produções. Com TRANSFORMERS a coisa não muda muito, mas até que o filme é melhorzinho que os seus trabalhos anteriores. Ainda assim é aquela barulheira dos diabos, aquela incômoda câmera tremida, aquela tentativa frustrada de emocionar, aquela música chata e insistente que não pára um segundo.

Acho que muita gente vai concordar comigo que a melhor coisa de TRANFORMERS é a beleza de Megan Fox, essa jovem atriz vinda da televisão e que com sorte deve ainda fazer muito sucesso no cinema. E pode até ser que Michael Bay seja um pouco responsável pelo modo como ela aparece na tela, já que A ILHA (2005) é um dos filmes que melhor aproveitam a beleza de Scarlett Johansson. Quanto aos carros que se transformam em robôs, talvez se o filme fosse direcionado a uma faixa etária maior e pudesse trabalhar um pouco mais com a violência, talvez assim eu teria me interessado mais. Mas como se trata de personagens criados a partir de brinquedos, não dá pra fugir muito das origens. Além do mais, são as crianças e os adolescentes os principais interessados. Além dos adultos nostálgicos da série animada dos anos 80.

A trama trata basicamente de uma batalha entre duas facções de robôs alienígenas. Os Autobots são os bons, os Decepticons, como o próprio nome dá a entender, são os maus. Simples assim. Os bons são completamente bons, os maus são bem maus. Não há tons de cinza. Além do mais, há aqueles diálogos que parecem saídos dos desenhos animados infantis, o que não é de todo ruim, levando em consideração a origem do filme. Os protagonistas do filme são Shia LaBeouf, o jovem que ganha do pai um carro, um Chevrolet Camaro - que não por acaso é um dos autobots -, e a gostosa da escola, interpretada pela supra-citada Megan Fox. Há também o núcleo de personagens ligados à Secretaria de Defesa dos Estados Unidos, que investigam o ataque dos decepticons a uma base americana.

Bom ver que o filme foi feito numa época em que o uso dos efeitos especiais computadorizados está num grau avançado de sofisticação. Assim, obtém-se um resultado bastante satisfatório nas cenas de transformação dos carros (ou aviões, ou aparelhos de som) em robôs. As cenas de ação também são bem convincentes, bem como as cenas de interação dos humanos com os robôs, que são perfeitas. Mas não tem jeito: é Michael Bay na direção, o que ainda é sinônimo de filme chato e muitas vezes irritante. Bom seria poder ver uma versão adulta do filme, dirigida pelo Paul Verhoeven. Pensando bem, melhor deixar o Verhoeven de fora. Um só TRANSFORMERS já basta.

P.S.: Toca o pedacinho de uma das canções novas dos Smashing Pumpkins no filme. Mas eles só aproveitam o bom riff de guitarra de "Doomsday Clock" numa das cenas finais.

domingo, julho 22, 2007

INFERNO (L'Enfer)



Em 1994 Emmanuelle Béart protagonizou um filme também de nome L'ENFER que no Brasil foi batizado de CIÚME - O INFERNO DO AMOR POSSESSIVO. Esse brilhante filme de Claude Chabrol mostrava um homem perturbado pelo ciúme, pela desconfiança para com a sua bela esposa. Em INFERNO (2005), de Danis Tanovic, os papéis se invertem e é Béart quem sente ciúme do marido, ainda que dessa vez seja com razão, já que o sujeito estava realmente a traindo.

O inferno é o outro, como dizia Sartre. Geralmente, a gente está sempre sofrendo por causa de alguém ou por não ter alguém. Quando estamos sozinhos e contentes, mesmo estando sós, há um sentimento de paz bastante acolhedor. Eu mesmo estava experimentando essa paz quando parti para a sessão matutina de sábado. Mas foi só eu olhar para um espetacular decote de uma jovem que estava perto da fila da bilheteria que essa paz foi meio que perturbada pelo desejo. A paixão e o desejo são necessários, pois são eles que nos movem. Sem eles, talvez a nossa vida sequer mudasse, talvez não saísse do lugar. Mas a paixão e o desejo também são responsáveis pela descida ao inferno de muitas e muitas pessoas.

INFERNO é o segundo filme da trilogia idealizada por Krzystof Kieslowski e Krzysztof Piesiewicz, inspirada n"A Divina Comédia", de Dante Alighieri. O primeiro filme do projeto, PARAÍSO (2002), não foi muito bem recebido pela crítica, mas eu gostei bastante, ainda que o espírito dos filmes de Kieslowski não tenha sido muito bem assimilado. O segundo título, assinado pelo bósnio Danis Tanovic, de TERRA DE NINGUÉM (2001), emula muito mais o trabalho do cineasta polonês, até por ser falado em francês, língua utilizada na Trilogia das Cores.

INFERNO conta a história de três irmãs que vivem distanciadas e que guardam em comum uma tragédia familiar. Céline (Karin Viard), a mais velha é a que mais toma conta da mãe, visitando-a com freqüência num asilo para idosos. Ela é solitária e devido ao longo tempo sozinha fica assustada com a aproximação de um certo rapaz. Emmanuelle Béart, já não mais tão bonita quanto na época de A BELA INTRIGANTE, é Sophie, uma mulher que se humilha diante do marido que a trai. Alguns dos melhores momentos do filme são dela, como na cena em que ela vai até o motel e sente o cheiro da amante do marido, que se encontra dormindo na cama; ou quando ela sai do chuveiro, nua, e se encosta no corpo do esposo. A terceira e mais nova irmã é Anne (Marie Gillain), uma jovem que está perdidamente apaixonada por um homem bem mais velho do que ela, um professor universitário, pai de uma de suas amigas. Quando esse homem desiste dessa relação para não prejudicar o seu casamento, ela enlouquece e passa a perseguí-lo por todos os lugares.

A ligação entre as três se dá a partir do surgimento de Sebastien, o tal rapaz que persegue Céline. Ele é o elo da reunião das três irmãs e do esclarecimento de um trauma que as perturba desde a infância. Os homens com que essas três mulheres se relacionam ligam-se de uma forma ou de outra com a relação de seus pais. A paixão de Anne por um homem mais velho talvez se dê pela carência, pela saudade que ela tem do pai morto, ou pela necessidade de mais tempo com ele. Mas como eu não sou psicólogo, páro por aqui. O mais importante é que o filme é ótimo e de uma elegância e sensibilidade de dar gosto.

sábado, julho 21, 2007

THE OFFICE - TERCEIRA TEMPORADA (The Office - Season Three)



Impressionante como nos últimos dias eu não consegui assistir a outra coisa aqui em casa que não fosse um episódio de THE OFFICE - e uns três ou quatro de ENTOURAGE. E não descansei até acabar de ver toda a terceira temporada (2006-2007), que começou esclarecendo o que acontece depois daquele notável gancho da temporada anterior: o beijo entre Jim e Pam.

Mas o que há de tão bom assim em THE OFFICE que deixa milhares de pessoas viciadas, ávidas pelo próximo episódio, como um viciado em drogas? Por mais que eu considere SEINFELD a melhor série de comédia de todos os tempos, a série de Jerry Seinfeld, por não nos deixar envolvidos emocionalmente e por não utilizar ganchos, não tem o mesmo poder de THE OFFICE, que emociona e faz rir, imitando um reality show, isto é, com uso de câmera na mão e a não inclusão de música como recurso para comover a audiência, o que aliás é um dos vários méritos da série.

A terceira temporada tenta não se ligar muito no caso mal resolvido de Jim e Pam e se concentra mais em episódios mais cômicos. Seria um desperdício não aproveitar o talento de Steve Carell. Além do mais, essa temporada tem 23 episódios, sendo que uns são estendidos para 30 minutos e outros dois, especiais, para 42 minutos, ou uma hora, se contarmos com os comerciais. Não dá pra apressar a história do casal Jim e Pam, sob o risco de diminuir o interesse dos espectadores pela série.

No começo da temporada, Jim havia sido transferido para a filial de Stramford, onde ele conhece Karen, que passa a ser sua namorada. Mas essa distância entre Jim e Pam acaba por criar uma tensão ainda maior entre os dois, fazendo com que um simples telefonema de Jim e a expressão de "oh, my God", de Pam, seja um momento especial, empolgante, tanto para os dois quanto para o espectador. Eu diria que não vejo uma tensão tão grande nesse sentido desde ANTES DO AMANHECER e ANTES DO PÔR-DO-SOL, de Richard Linklater. Talvez até maior, já que uma série tem mais tempo de aprofundar melhor os personagens, de torná-los mais íntimos de nós. Quanto a Michael, muito legal vê-lo numa festa com duas prováveis pretendentes: Carol e Jan. Logo ele, que parece ser tão ridículo e "sem noção". O outro caso da série é o romance secreto entre Dwight e Angela, que por serem tão freaks se merecem.

Mas nem só de romance vive THE OFFICE. Na verdade, a série vive mais das piadas e das situações constrangedoras criadas. Talvez os episódios mais engraçados dessa temporada sejam "Business School" e "Gay Witch Hunt". O primeiro pela impagável cena de Michael rasgando o livro do aluno na universidade, meio que imitando Robin Williams em SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, e o segundo, que tem a inacreditável cena do beijo entre Michael e Oscar. Inclusive, esse episódio foi indicado ao Emmy esse ano. Espero que ganhe, ainda que não conheça os outros concorrentes. Essa temporada também contou com mais nomes conhecidos na direção. Harold Ramis, diretor do ótimo FEITIÇO DO TEMPO, aparece nos créditos como diretor em três episódios, enquanto que Joss Whedon (BUFFY) e J.J. Abrams (LOST, ALIAS), aparecem em um episódio, cada.

A quarta temporada começa a ir ao ar nos Estados Unidos a partir do dia 27 de setembro. Enquanto isso, vou tentar voltar a ver mais filmes. :-)

Top 5 da temporada:

1. "Gay Witch Hunt". Todos descobrem que Oscar é gay e Michael tenta - daquela maneira desastrosa que só ele tem - acabar com o preconceito contra os homossexuais na empresa. Episódio indicado ao prêmio Emmy desse ano.

2. "Beach Games". A declaração de Pam na praia me deixou com falta de ar. Não tem como não se apaixonar por essa menina.

3. "Business School". Michael é convidado por Ryan para fazer uma palestra em sua universidade.

4. "Back from Vacation". Michael volta das férias na Jamaica, em companhia de Jan. Pra mostrar o quanto é fodão, passa uma foto bem sexy dele com a Jan para um colega. Acontece que ele utiliza o comando errado e o e-mail com a tal foto vai parar em tudo quanto é lugar, virando até poster.

5. "The Negotiation". Roy fica sabendo da verdadeira razão pelo qual seu casamento com Pam ter ido por água abaixo e vai até o escritório dar uma porrada no Jim. O que ninguém esperava é que Dwight seria o herói do dia. Enquanto isso, Michael vai em busca de aumento salarial.

sexta-feira, julho 20, 2007

VIAGEM A NATAL



Tanta coisa aconteceu nesses três dias que eu estive fora. O acidente com o avião da TAM, a notícia do disco novo do Pato Fu, chamado DAQUI PRO FUTURO, o vazamento na internet de dois episódios da nova temporada de DEXTER, a chegada do meu caixãozinho dos clássicos de horror da Universal, a notícia de que O ALBERGUE 2 não vai mais passar nos cinemas. E acabei de ouvir agora sobre a morte de Antônio Carlos Magalhães. O acidente com a TAM, eu acompanhei pela televisão de lá. Uma tristeza até pra quem não tem nenhum amigo ou familiar envolvido. Pelo menos eu não voltei de avião, já que os aeroportos devem estar um caos ainda pior do que já estavam, com a já tradicional rotina dos atrasos nos vôos.

Mas nem posso reclamar mais de atraso, já que foi por causa de um atraso que eu pude viajar. Explico: assim que eu cheguei no aeroporto com o meu sobrinho, o Lucas, perguntei a ele sobre a carteira de identidade. Ele falou que não estava com ela. Liguei pra casa e ninguém sabia onde estava o documento. E tinham perdido até a Certidão de Nascimento. Só encontraram uma cópia. Minha irmã trouxe às pressas a tal cópia, mas não aceitaram. Fomos ao juizado de menores do aeroporto e nada feito. Aí eu me lembrei de um amigo meu que tinha um conhecido num cartório e que podia conseguir uma xerox autenticada da certidão, sem a necessidade do original - sim, eu sei, não é legal, mas era a nossa única chance. Aí saí do aeroporto, de mototaxi, mais rápido que uma bala, para o centro, conseguir essa cópia autenticada. De posse dela, conseguimos embarcar, de última hora, com um bendito atraso no avião de uma hora e meia. Ufa! A bela moça do check-in até perguntou como foi que eu consegui tão rápido aquela cópia, mas eu desconversei, perguntando que horas o avião iria sair.

Ao chegar em Natal, fomos recepcionados pelo "fella da gaita" Marcos Felipe, um dos caras mais gente-finas que eu já tive o prazer de encontrar na internet e um dos mais hospitaleiros também. Do aeroporto, fomos ao restaurante Camarões lá na praia de Ponta Negra, que era onde eu e o Lukinha ficaríamos hospedados. No restaurante comemos um delicioso peixe servido dentro de um jerimum (o mesmo que abóbora, pra quem não sabe). Mas que almoço gostoso aquele, hein. Quanto ao hotel, ele era bem legal, com uma janela com vista para o mar e piscina. À noite, fomos ao cinema ver RATATOUILLE, no Shopping Midway. Natal não tem um circuito muito diversificado de filmes, mas foi uma boa ver esse filme numa sala do Cinemark.

No dia seguinte, foi a vez de passearmos pelas praias da zona norte do estado. Dessa vez, também na companhia da simpática esposa do Marcos, a Tathyana. Fomos em Genipabu, que é o lugar onde tem os já famosos passeios de dromedário e passeios de buggy nas dunas. Como tudo era muito caro, melhor ficar só na barraca, onde comemos "ginga com tapioca", uma iguaria local. Trata-se daquele peixinho pequeno torrado com tapioca. Bem baratinho. Um real apenas. Não sou muito fã de tapioca, pois me dá azia, mas só uma não faz mal. A próxima parada foi Jacumã, uma praia que a gente teve que ir atravessando numa balsa. Muito bom sentir a brisa do mar de cima da balsa. Em Jacumã, como já era hora do almoço, ficamos num restaurante bem bacana, cheio de fotos de celebridades, e self-service à vontade. A próxima parada foi o centro de turismo lá em Natal, mesmo. Depois disso, o Marcos foi nos deixar lá no hotel. No final da tarde, pra não ter que dormir e perder o sono mais tarde, eu e o Lukinha fomos atrás de um shopping. Pegamos um ônibus e fomos até o Shopping Natal, onde demos um rolê e jantamos. O dia foi tão agitado que dormimos cedo e acordamos tarde no dia seguinte, quando eu consegui adiantar o horário da nossa vinda pra Fortaleza para meio-dia. Oito horas de viagem de ônibus não é mole. Ainda bem que a gente estava bem descansado. Antes de eu sair, o Marcos ainda passou pelo hotel pra me deixar uns DVDs: LIMITE, de Mario Peixoto; O OVO DA SERPENTE, de Ingmar Bergman; e PARIS, TEXAS, de Wim Wenders. Como diria o Borat: Nice!

Quem quiser ver mais fotos da viagem, é só visitar essa página.

segunda-feira, julho 16, 2007

O AMIGO DA MINHA AMIGA (L'Ami de Mon Amie)



O AMIGO DA MINHA AMIGA (1987) talvez seja o menor dos títulos do ciclo "Comédias e Provérbios", mas ainda assim é desses filmes cujo final é capaz de levantar o espírito do mais triste dos mortais. Ok, estou exagerando, mas as figuras de linguagem estão liberadas por essas bandas. Depois, os filmes de Eric Rohmer alegram de verdade. É por isso que de todos os cineastas franceses, é Rohmer quem me atrai mais atualmente. Eu adoro ver seus personagens em busca da felicidade, sendo que a felicidade, nesse caso, está no encontrar a pessoa certa.

Em O AMIGO DA MINHA AMIGA, Blanche, uma jovem meio tristinha, faz amizade com Lea, uma moça bem mais alegre e expansiva. Talvez por ter um namorado. Nos filmes de Rohmer - e não apenas neles - ter um namorado é ítem de primeira necessidade. Quando Blanche fica amiga de Lea, essa lhe apresenta o seu namorado, Fabien, um rapaz um pouco possessivo e que de início não lhe pareceu tão simpático. Na piscina, Blanche conhece um amigo de Lea, Alexandre, e fica logo bastante interessada pelo sujeito. Lea se esforça para fazer com que Alexandre se interesse por Blanche, mas as coisas não são tão fáceis e o destino tem outros planos para os quatro.

Talvez seja essa a lição da maioria dos filmes de Rohmer. Não adianta a gente querer de um jeito, que o destino faz de outro. Um dos momentos mais legais do filme - depois da seqüência final, claro - é a cena do passeio de Blanche com Fabien. A luta da razão contra o sentimento assombra Blanche e traz tensão para a trama. Esse é o momento chave que surge a mesma pergunta que aparece em praticamente todas as comédias de Rohmer, que é: "e agora?". Interessante notar que Blanche é uma personagem até que bem equilibrada, se compararmos, por exemplo, com a excessivamente otimista protagonista de UM CASAMENTO PERFEITO (1982) ou a excessivamente deprimida heroína de O RAIO VERDE (1986). Desse modo, Blanche fica mais perto do espectador comum e por isso esse filme talvez seja um dos mais adequados para se apresentar a alguém que nunca viu nada do diretor.

Depois de ver O AMIGO DA MINHA AMIGA, do ciclo "Comédias e Provérbios" só está faltando eu ver agora A MULHER DO AVIADOR (1981). No mais, fico esperando que a Europa ou outra distribuidora lance por aqui os "Seis Contos Morais", lançados nos Estados Unidos pela Criterion, em edição de luxo. Para o lançamento brasileiro, eu nem faço questão de muito luxo, só os seis longas já estariam de bom tamanho.

domingo, julho 15, 2007

TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (Twin Peaks - Fire Walk with Me)



Bom demais rever esse longa pela quarta vez, depois de ter finalmente visto pela primeira vez a série completa. Muita coisa ficou mais clara agora pra mim. David Lynch gostava tanto do universo de Twin Peaks que resolveu dirigir esse excepcional prequel da série. E TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER (1992) é mais uma obra-prima desse que eu considero o maior cineasta vivo. Para os apreciadores da série, o filme é ainda mais excitante. Imagina só: ver aqueles personagens que a gente aprendeu a amar num filme sem censura, feito para o cinema e com direito a cenas de sexo pra lá de picantes. Tudo que Lynch tinha vontade de fazer na televisão e não podia. O único porém do filme é a ausência de Lara Flynn Boyle no papel de Donna Hayward. Parece que na época ela estava com a agenda bem ocupada, não podendo voltar ao fascinante universo de Twin Peaks. Uma pena. No lugar dela, entrou a jovem Moira Kelly. No começo eu achei estranho, mas depois me acostumei. E pensando bem até que a Moira tem mais cara de garota inocente, coisa que é bem mais difícil de imaginar de Lara.

Vi no IMDB que vários personagens da série estiveram presentes no primeiro corte, mas foram limados na edição final. Assim, ficaram de fora do filme depois do corte: o xerife Truman e seus dois ajudantes, Josy Packard, Big Ed, o Major Brigs, Pete Martell, o Dr. Jacoby, entre outros. Mas ainda tenho esperança de que apareça no futuro uma edição estendida do filme, que deve ter com certeza mais de três horas de duração. Do jeito que ficou, o filme é centrado principalmente no núcleo jovem da série. Aliás, o filme se foca exclusivamente em Laura Palmer e no drama de ela ser possuída por uma entidade maligna desde os doze anos de idade e de ter se transformado aos poucos em prostituta e viciada em drogas. Na verdade, essa entidade maligna, o BOB, e seu pai se confudem.

TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER já me empolgou desde os créditos iniciais, quando vi os nomes dos atores e atrizes tão familiares aparecendo um por um na tela, ao som da espetacular música de Angelo Badalamenti. Alguns nomes novos mas conhecidos aparecem, como os de David Bowie, Chris Isaak e Kiefer Sutherland. Ao fundo, a imagem de uma televisão fora de sintonia, que é quebrada por uma marreta depois que aperece o nome do diretor do filme. Uma provocação de Lynch, que na época já não estava mais se dando tão bem com os executivos das emissoras de tv.

A primeira meia-hora de filme é um exemplo de liberdade de criação. Lynch simplesmente não tem pressa. Só depois que o reloginho passa dos trintas minutos é que entraremos de verdade em Twin Peaks. A meia hora inicial é dedicada à investigação do assassinato de Teresa Banks por um agente do FBI interpretado por Chris Isaak. O crime aconteceu numa cidadezinha próxima de Twin Peaks. A brincadeira em torno dos códigos é muita engraçada e mostra o quanto Lynch tem um senso de humor apurado e único.

CIDADE DOS SONHOS (2001) é a obra-prima máxima do diretor, mas o filme deve muito a TWIN PEAKS, já que um é derivação do outro. A cena em que Laura Palmer adentra o inferninho, vê Julee Cruise cantando com aquele seu timbre angelical e se desmancha em lágrimas é uma dos melhores provas disso. Se bem que se voltarmos um pouco mais no tempo, podemos nos lembrar do psicopata interpretado por Dennis Hopper chorando, ao ouvir uma canção de Roy Orbison, em VELUDO AZUL (1986). A música tem um poder demolidor de aquebrantar os corações das almas perdidas.

Não posso deixar de dizer mais uma vez o quanto os filmes de Lynch me deixam aterrorizado. Talvez esse longa não chegue a me assustar tanto quanto A ESTRADA PERDIDA (1997) ou CIDADE DOS SONHOS ou até RABBITS (2002), mas dois momentos em especial são arrepiantes. A primeira delas é a seqüência em que Laura vai dormir depois de ter levado para casa um quadro onde se vê uma porta entreaberta. O clima de suspense que se cria com essa porta é impressionante. A impressão que se tem é que dessa porta virá alguma entidade sinistra ou algo do tipo. Outro momento perturbador é quando Laura vai até a sua casa à tarde e ao entrar no seu quarto lá está BOB no cantinho. Claro que a música, nessa cena, ajuda um bocado a assustar, mas não acho que isso seja um recurso desonesto. Poderia também lembrar dos momentos extremamente sensuais do filme, como quando Laura beija James e deixa seus seios à mostra, embora esse momento não seja nada em comparação com as cenas de Laura e Donna no bar, do outro lado da fronteira com o Canadá, onde tudo é permitido.

TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER é uma mistura de tragédia, horror, humor e sensualidade de um jeito que só Lynch é capaz de produzir.

sábado, julho 14, 2007

AO RUFAR DOS TAMBORES (Drums along the Mohawk)



Hoje um dos meus amigos virtuais, o Marcos, falou pra mim via orkut: "Acho que vc deveria postar no blog aos sabados e domingos também, assim teria mais leitura para meus dias de folga,hehe!" Fiquei feliz com o recado, já que o blog é uma das coisas que mais me dá prazer e fico feliz que alguém curta o que eu escrevo, pois eu faço isso de coração. Além do mais, já estava pensando em escrever algo hoje mesmo, já que vou passar uns dias em Natal na próxima semana e ficarei uns dias sem atualizar o blog. Esse mês de julho - que está sendo pra mim cheio de variações de humor -, eu estou dedicando ao "Homero do cinema", o grande John Ford. Consegui mais um filme dele pra acabar de atrapalhar a suposta ordem cronológica que eu tentava impor de inicialmente.

AO RUFAR DOS TAMBORES (1939) foi produzido naquele que é considerado o ano de ouro de Hollywood. Henry Fonda é o protagonista do filme, tendo trabalhando anteriormente com Ford no excelente A MOCIDADE DE LINCOLN (1939), mas o primeiro nome que aparece nos créditos, digo, o nome que aparece na parte de cima, é o de Claudette Colbert, que era uma estrela muito mais conhecida na época, tendo feito sucesso com o clássico de Frank Capra ACONTECEU NAQUELA NOITE. A estória se passa durante a Guerra da Revolução. Fonda e Colbert são um jovem que casal que logo após a cerimônia de casamento parte para o Vale de Mohawk River para reconstruir as suas vidas como fazendeiros. Para eles, a principal preocupação é o constante ataque dos índios, que haviam se aliado aos britânicos. Inclusive, o grande vilão do filme é Caldwell, um sujeito sinistro que usa um tapa-olho, interpretado por John Carradine.

Impressionante a direção de Ford nas cenas de ação, na luta dos americanos contra os índios e os ingleses, que tentavam a todo custo invadir o forte. Destaque também para a cena de Claudette Colbert procurando desesperada pelo marido, quando do retorno dos homens de uma sangrenta batalha. Vale destacar também a personagem de Edna May Oliver como a viúva durona que se recusa a deixar a sua cama, mesmo sendo atacada por dois índios com tochas nas mãos, prontos para incendiar a sua casa. Edna foi indicada ao Oscar por esse papel.

AO RUFAR DOS TAMBORES foi o primeiro filme em technicolor de Ford e é um tributo aos pioneiros americanos que foram responsáveis pela construção do país. O filme termina com a notícia de que a Independência havia sido conquistada, a bandeira dos Estados Unidos é hasteada e ouvimos o hino nacional ao fundo. Muito bonito. Só Ford mesmo pra fazer esse tipo de coisa e não ficar aquela papagaiada patriota. E como eu vi esse filme logo após FOMOS OS SACRIFICADOS (1945), que é um tributo aos militares que lutaram no Pacífico na Segunda Guerra, deu pra perceber o quanto o sentimento de patriotismo faz parte do espírito de Ford. Agora, deu muita vontade de rever A MOCIDADE DE LINCOLN, que deve ter um tom parecido.

Vi o filme em divx, mas vale lembrar que AO RUFAR DOS TAMBORES foi lançado em DVD no Brasil pela Wonder Multimedia.

sexta-feira, julho 13, 2007

THE OFFICE - SEGUNDA TEMPORADA (The Office - Season Two)



E por mais que Steve Carell seja, indiscutivelmente, um dos melhores comediantes da atualidade e que seu personagem de chefe de um escritório em THE OFFICE seja perfeito, quem conquista mesmo o público é Pam e Jim, com sua história de amor impossível. Impossível em termos, já que quando se quer alguém de verdade, não há barreira que não possa ser derrubada. E me desculpem aqueles que ainda não viram a a segunda temporada da série pela foto-spoiler que eu coloquei aí em cima. Não resisti quando a encontrei no Google Images.

A segunda temporada de THE OFFICE (2005/2006) já diz a que veio logo no emocionante primeiro episódio, "The Dundies", aquele em que o chefe Michael organiza a sua tradicional festinha anual de distribuição de prêmios para os seus empregados. Os tais prêmios são só pra descontrair, mas há quem ache Michael um sujeito chato e bastante incoveniente. O tal prêmio, inclusive, é a cara dele. Pam lembrou que no ano passado ele lhe deu o prêmio de noivado mais longo e já temia que neste ano a coisa se repetisse. Para Kevin, por exemplo, ele dá o prêmio de banheiro mais fedido, ou algo do tipo, em homenagem ao jeito como ele deixa o toalete logo depois de ele "passar os seus faxes". Difícil para o Michael é agüentar o puxa-saco do Dwight do lado dele e estragando as suas piadas, que já nem são muito boas.

Falando no Dwight, às vezes eu fico com pena dele. Acho que a turma, principalmente a Pam e o Jim, pegam pesado demais com o coitado. Pegar o birô dele e levá-lo para o banheiro não é lá brincadeira que se faça, nem enganá-lo deixando que ele acredite que é sexta-feira, quando se ainda é quinta. Às vezes isso lembra as brincadeiras que o personagem do Mel Gibson fazia com o Danny Glover na série MÁQUINA MORTÍFERA. Mas acho que o meu lado bondoso, ou pouco perverso, faz com que eu me incomode com esse tipo de brincadeira. Também não gostei nada quando o Jim não convidou o Michael para uma festinha na sua casa, mesmo sabendo o quanto ele estava carente de amizades e de companhias.

A segunda temporada serviu, entre outras coisas, para definir melhor os personagens principais e ir apresentando aos poucos os coadjuvantes. Desse modo, o Michael, ainda que continue sendo um sujeito inconveniente, sem noção e que não sabe guardar segredo, passa a ser visto como um bom companheiro e um homem de bom coração. Inclusive, um dos melhores momentos dessa temporada é o episódio em que ele tem de demitir um dos empregados e simplesmente não sabe como fazer isso. Nessa temporada, a câmera também está mais ativa, chegando até a participar da ação, deixando de ser apenas uma entidade voyeur e inibidora. Se bem que o único personagem que parece se incomodar com a câmera é a Jan, a chefa carrasca e sensual de Michael. A câmera esteve presente no dia em que ela e Michael tomaram um porre e se beijaram e desde então ela se sente totalmente incomodada com a sua presença.

Meu top 5 dessa temporada:

1. "Casino Night". O episódio que fecha com chave de ouro a temporada. Jim confessando seu amor a Pam, Michael com duas pretendentes. Jan linda. Perfeito.

2. "The Dundies". Episódio importante para o relacionamento de Pam e Jim. Pam fica bêbada e alegre, depois de se livrar de Roy. Tocante vê-la apoiando Michael quando a bola dele começa a cair na festa.

3. "Booze Cruise". Jim conta a Michael o que ele sente por Pam, quando o noivo dela anuncia a data do casamento.

4. "Michael's Birthday". No dia do aniversário de Michael, Kevin teme estar com câncer de pele e deixa todo mundo preocupado.

5. "The Secret". Oscar falta ao trabalho dizendo que está doente. Dwight, como bom puxa-saco que é, vai investigar se o colega não está só "gazeando". Enquanto isso, Michael deixa escapar pra todo mundo o que Jim havia lhe contado no cruzeiro.

quinta-feira, julho 12, 2007

HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX (Harry Potter and the Order of the Phoenix)



Continuo achando que a série Harry Potter só tem mesmo valor para aqueles que acompanham os livros de J.K. Rowling. Com exceção do ótimo HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (2004), dirigido habilmente por Alfonso Cuarón, todos os demais episódios da série só me provocaram sono e tédio. O novo título, HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX (2007), dessa vez sob a batuta do inglês David Yates, infelizmente não é mais uma bem vinda exceção. Pelo contrário, pra quem não tem intimidade com os livros, o novo filme é ainda mais chato e cheio de referências, acumuladas ao longo dos volumes anteriores e rapidamente esquecidas por quem não se liga no universo da escritora.

Outro problema do filme - ou pelo menos algo que deve ser psicologicamente esperado pelo espectador - é o excesso de discussões políticas em Hogwarts. Parece que David Yates pegou uma batata quente ao ter que adaptar justamente esse livro, considerado por vários leitores como sendo o mais fraco da série. Assim como aconteceu com o anterior, HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (2005), incomodou-me nesse filme a fotografia enevoada e pouco nítida, típica das produções inglesas. Se bem que alguém pode até dizer que isso é proposital, para que o crescente clima sombrio da série seja mais explicitado.

Nesse quinto filme da série, a personagem principal, além do próprio Harry Potter, é a megera sorridente Dolores Umbridge (Imelda Staunton) que usa de suas artimanhas para tomar o poder de Hogwarts das mãos do diretor Dumbledore. O que tira um pouco o filme do marasmo é justamente a tentativa de Harry e seus amigos de se rebelarem contra Umbridge, através de reuniões secretas para praticar a magia. Nessas reuniões, na falta de um professor, Harry é o escolhido para ser o facilitador dos treinamentos.

Talvez por falta de tempo e pra que o filme não fique com uma duração quilométrica e ainda mais chato (138 minutos já é tempo demais, não?), o diretor preferiu não se ater muito aos personagens, concentrando-se mais na trama. Nesse sentido, até que o cineasta fez bem em cortar também várias das possíveis discussões políticas, através do recurso das manchetes de jornais e das decisões de Umbridge pregadas na parede. Porém, não dá pra se gostar de um filme cujo clímax - o momento supostamente mais trágico e que envolve a morte de um dos personagens importantes da série - é um verdadeiro balde de água fria. Para acabar de esfriar o que estava apenas morno.

Quanto ao trio de protagonistas, Emma Watson continua uma graça (queria vê-la em outros filmes), Rupert Grint continua com a mesma cara de amigo boboca e Daniel Radcliffe está cada vez maior, com cara de adulto. Por causa disso, os próximos filmes precisam ser feitos às pressas; senão daqui a pouco o rapaz vai aparecer barbado. O próximo da série, HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE, já está agendado para o ano que vem, tendo novamente o insosso David Yates na direção.

quarta-feira, julho 11, 2007

SOMOS MARSHALL (We Are Marshall)


Quando aluguei SOMOS MARSHALL (2006), a única coisa que eu sabia era que o filme era dirigido pelo McG, estrelado por Matthew Fox e Matthew McConaughey e que era sobre futebol americano. Na verdade, até tinha lido assim por cima algumas resenhas, mas como minha memória é curta, esqueci rapidinho. Por isso, fiquei surpreso com o início do filme, já que eu não tinha idéia de que o time quase completo de Marshall morreria num acidente de avião. A seqüência é impactante, principalmente pra quem, como eu, não esperava isso. Não que o filme traga uma cena de acidente tão explícita como a do piloto de LOST. O impacto está nas conseqüências que esse acidente traz para a vida dos familiares, amigos e amores daquelas pessoas que perderam a vida no fatídico vôo. Disso eu sou suficientemente sensível para compreender ou pelo menos imaginar. O que eu não consigo entender e gostar é mesmo do futebol americano. Por isso que depois de uma hora o filme perde um pouco da graça pra mim.

Por mais que eu tente achar interessante ou exótico, pra mim esse esporte não passa de um jogo idiota com um bando de sujeitos se esbarrando uns nos outros e deslocando seus ombros ou quebrando seus braços e cabeças. Totalmente diferente do esporte de mesmo nome criado pelos britânicos e aprimorado pelos brasileiros. Porém, isso não impede que eu admire várias qualidades do filme, dirigido por McG de maneira bem elegante. Bem diferente do estilo videoclípico de AS PANTERAS (2000) e AS PANTERAS DETONANDO (2003). Não que eu não goste desses filmes, pelo contrário, mas acredito que SOMOS MARSHALL mereceria mesmo um tratamento diferente, mais clássico, mais careta até, já que se trata de um melodrama.

Muito provavelmente o filme não passou nos cinemas brasileiros, indo direto pras locadoras, por causa do esporte. Tanto o futebol americano quanto o beisebol não são bem aceitos ou entendidos pelos brasileiros - eu incluso. E assim como o time de beisebol que perdia quase todas mas tinha os seus fãs ardorosos de AMOR EM JOGO, o time de futebol da Universidade de Marshall também não tinha fama de ser dos melhores. Mas eles tinham amor à camisa, um sentimento de camaradagem e um treinador simpático e carismático (Robert Patrick). Depois do acidente que mata o treinador e quase todos os jogadores, o filme focaliza a atenção no assistente do técnico (Matthew Fox, que aprendeu a não entrar mais em avião depois de LOST); num importante jogador que não estava no avião (Anthony Mack); no reitor da universidade (David Strathairn); no pai de um dos jogadores mortos (Ian McShane) e na namorada do mesmo rapaz (Kate Mara). Se não fosse o esforço do personagem de Mack, o time jamais renasceria das cinzas e não despertaria a atenção de alguém que não tinha nada a ver com aquele time, o personagem de Matthew McConaughey, que no filme fala com a boca torta como um autêntico caipira americano. SOMOS MARSHALL também é tipicamente americano, no sentido de que há uma tendência a apegar-se, o máximo possível, ao ser um vencedor, em conseguir, não driblar, mas passar por cima dos desafios, como é característica do próprio esporte e dos próprios Estados Unidos.

terça-feira, julho 10, 2007

O SEGUNDO ROSTO (Seconds)



Nos anos 60, John Frankenheimer era um dos diretores mais quentes de Hollywood, tendo feito sucessos de público e crítica como O HOMEM DE ALCATRAZ (1962), SOB O DOMÍNIO DO MAL (1962), SETE DIAS EM MAIO (1964) e GRAND PRIX (1966). O SEGUNDO ROSTO (1966) foi mais um marco na carreira de Frankenheimer, ainda que não tenha sido tão bem sucedido nas bilheterias. Dizem até que depois desse filme, Frankenheimer deixou de ser o garoto de ouro de Hollywood. Talvez o público não estivesse preparado para ver um filme de horror tão anticonvencional e sombrio.

Comecei a ver O SEGUNDO ROSTO achando que se tratava de um suspense à Hitchcock, já que os créditos iniciais lembram UM CORPO QUE CAI. Os notáveis e expressivos ângulos de câmera do lendário James Wong Howe e a trilha sonora de Jerry Goldsmith que emula os melhores momentos de Bernard Hermann contribuem para esse aspecto hitchcockiano. Isso se completa com os sempre criativos créditos criados por Saul Bass, famoso colaborador de Hitchcock. Eu tive a sorte de assistir o filme sem ler nada a respeito. Assim, fui beneficiado pelas várias surpresas que O SEGUNDO ROSTO nos reserva.

Na trama, Arthur, um entediado homem de meia idade (John Randolph) passa a receber misteriosas ligações de um amigo do passado, dado como morto há vários anos. No começo, ele pensa se tratar de um trote, mas como o sujeito demonstra saber tudo sobre o passado dos dois, ele passa a acreditar e até aceita ir ao endereço que o tal amigo lhe indicou. Ao chegar lá, depois de muito mistério e muitas complicações, Arthur descobre que o tal lugar é uma empresa clandestina chamada "Seconds", que oferece a pessoas insatisfeitas com suas vidas uma chance de mudá-la radicalmente. O "cliente" seria dado como morto, faria uma cirurgia plástica para modificar suas feições e começaria a vida com uma outra identidade em um outro lugar. Apesar de ficar com medo de deixar a esposa, ele aceita dar adeus à sua vida e dar um novo rumo à sua existência. Assim, Arthur se transforma em Tony Wilson (Rock Hudson), um pintor de vida boêmia.

Um dos principais sentimentos que O SEGUNDO ROSTO desperta no espectador é o sentimento de angústia, já que o filme é narrado todo do ponto de vista do protagonista. Algumas vezes nem sequer vemos o seu rosto, mas uma câmera que o segue por trás. Ou uma câmera subjetiva, como na cena do pileque na festa, quando vemos os rostos dos reborns olhando para ele (ou para nós) ameaçadoramente. Outro momento de destaque e que faz a gente ter um gostinho do espírito da contracultura dos anos 60 está na cena em que Hudson vai com a nova namorada a uma festa de adoração ao deus Baco. Mas nada nos prepara para o impactante e perturbador final.

Agradecimentos especiais ao Renato, que foi quem me enviou o filme.

segunda-feira, julho 09, 2007

PATO FU - TODA CURA PARA TODO MAL



Vendo hoje os extras do dvd PATO FU - TODA CURA PARA TODO MAL (2007) deu vontade de escrever a respeito, ainda que eu não tenha o hábito de escrever sobre vídeos musicais para o blog. A vontade aumentou enquanto eu ouvia agora há pouco, no carro, GOL DE QUEM? (1995), o clássico segundo álbum deles. Se alguém me perguntasse hoje qual a melhor banda brasileira da atualidade, eu responderia, sem pestanejar: Pato Fu. Esse grupo de Belo Horizonte me conquistou há mais de dez anos e é uma das poucas bandas que me fazem gastar dinheiro com cds em tempos de decadência da indústria fonográfica. E o mais recente álbum da banda, TODA CURA PARA TODO MAL (2005), talvez seja o melhor trabalho da banda de John Ulhoa, Fernanda Takai e cia.

Desde TELEVISÃO DE CACHORRO (1998) já se notava que a melancolia estava substituindo aos poucos a molecagem, o espírito de brincadeira que a banda tanto preza desde os primeiros discos - basta lembrar de "Pinga", de "Qualquer Bobagem", da cover de "A volta do boêmio", da música dos Flintstones ou das loucuras do primeiro disco. John deve ter percebido o seu incrível poder de criar baladas de intensa força emocional e do quanto essas canções se revestem de delicadeza na frágil e bela voz de Fernanda Takai. Às vezes, por exemplo, eu não consigo evitar de me emocionar quando escuto "Canção pra você viver mais", faixa que faz parte de um momento especial de minha vida. Mas mesmo faixas que não resgatam lembranças de meu baú de memórias também me emocionam.

Em TODA CURA PARA TODO MAL, disco que o próprio John produziu, assumindo definitivamente a independência, as duas palavras mais presentes são "sorte" e "azar". Essas duas palavras aparecem explicitamente em 3 das 13 faixas do disco e implicitamente em quase todas as outras. Escrever o que isso significa levaria tempo pra pensar. Uma das minhas faixas preferidas do disco é "Agridoce", que apareceu numa bela seqüência scorsesiana de OS 12 TRABALHOS, de Ricardo Elias. A faixa, bem melodramática, lembra-me de imediato as canções de Roberto Carlos, tanto na letra quanto na música. É também uma faixa irmã de "Imperfeito", do álbum ISOPOR (1999), só que ainda melhor.

O videoclipe que "Agridoce" ganhou, dirigido por Conrado Almada, é o melhor do dvd. Vemos Fernanda de longe, no fundo branco, cantando. "Por que você às vezes / se faz de ruim? / Tenta me convencer / Que não mereço viver / Que não presto, enfim...". A expectativa que criamos ao ver o começo desse clipe é de que a câmera vai se aproximar aos poucos de Fernanda até focalizar em close seu rosto. Em vez disso, há um corte direto para o close e movimentos bruscos do rosto da cantora, fazendo lembrar o clipe de "Ava Adore", dos Smashing Pumpkins. Mas antes desse close, vemos uma nuvem negra se aproximando e enchendo a tela branca, obviamente representando o triste, que "está em todo lugar", como diz a letra. Achei esse vídeo fantástico.

Outro vídeo que eu gostei bastante e que ajuda a valorizar ainda mais a canção é o de "Simplicidade". É a faixa que mais faz lembrar dos tempos de brincadeira e de experimentação dos primeiros discos, mas ainda assim impregnado de melancolia. E olha que a letra fala de felicidade, de viver em paz e com a pessoa amada no interior, refúgio dos problemas da cidade grande. Gosto também do vídeo de "Amendoim", apesar da extrema simplicidade com que foi realizado. Só achei uma pena que o vídeo de "Vida Diet", uma das melhores faixas do disco, não tenha ficado bom. Mas tudo bem, levando em consideração o fato inédito (?) no Brasil de uma banda lançar um dvd de videoclipes de um álbum completo.

Entre os vários extras, o destaque vai para os trechos de shows da turnê. De arrepiar. Lembrei-me do ano de 2000, quando assisti um show da banda na Praça Verde do Dragão do Mar, na época do álbum ISOPOR. Foi o melhor show que eu já vi na vida e eu estava muito feliz. E ver a alegria contagiante do público e o sorriso de satisfação de Fernanda quando ela sobe no palco para cantar "Anormal" não tem preço. O dvd também traz um documentário sobre a realização do disco; um clipe de "Noite Enluarada", daquele projeto das três irmãs cegas do filme A PESSOA É PARA O QUE NASCE; apresentações ao vivo de "Simplicidade" (cantada pelo mascote Silício) e de "Boa Noite Brasil", entre outros agrados.

P.S: Como eu fui incumbido de participar de uma corrente literária pelo nosso amigo e blogueiro Sergio Andrade (:-)) segue minha lista de livros preferidos, não necessariamente em ordem de preferência:

1. CEM ANOS DE SOLIDÃO, de Gabriel Garcia Marquez
2. A SEMENTE DE MOSTARDA, de Osho
3. DO INFERNO, de Alan Moore e Eddie Campbell
4. TODOS OS NOMES, de José Saramago
5. A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, de Nikos Kazantzákis

Passo a bola agora para os amigos Murilo, Alessandra, Michel, Valéria e Érika. Espero que não se importem. É uma maneira interessante de se descobrir quais seus livros preferidos. :-)

domingo, julho 08, 2007

A NOIVA ESTAVA DE PRETO (La Mariée Était en Noir / La Sposa in Nero)



Paralelamente à minha peregrinação por John Ford, sempre que posso vejo um filme de Truffaut que seja inédito pra mim para que eu possa ler com mais prazer o livro de entrevistas "O Cinema Segundo François Truffaut". E por falar em grandes livros, ontem, justamente no dia do meu aniversário, chegou o meu exemplar de "Meu Último Suspiro", de Luis Buñuel, um dos meus cineastas favoritos. O livro está fora de catálogo e o encontrei num sebo virtual, graças à ajuda do amigo Marcelo Reis. Está usado mas em ótimo estado. Mas voltemos a Truffaut.

Chegamos, então, neste A NOIVA ESTAVA DE PRETO (1968), que é talvez o filme que eu menos gostei do diretor. O filme é uma adaptação de um romance noir que Truffaut leu na adolescência, escondido da mãe. Curiosamente, o cineasta falou numa entrevista que esse é o filme de que ele menos gosta. Pra mim, ficou parecendo um KILL BILL de quinta categoria, totalmente destituído de emoção e encantamento. Se há uma qualidade no filme é a facilidade de ele ser acompanhado pela própria premissa, extremamente simples. Se bem que isso não é lá uma boa qualidade, já que excesso de simplicidade às vezes pode significar preguiça, burrice. Claro que em se tratando de Truffaut as coisas podem não ser tão simples quanto aparentam, mas, mesmo assim, senti falta de algo que me deixasse minimamente intrigado.

Outra coisa que eu não gostei foi do desempenho de Jeanne Moreau, atriz que eu descobri não simpatizar durante a revisão de JULES E JIM (1962). Mas se no filme dos dois amigos cornos, ela pelo menos era simpática e interessante, em A NOIVA ESTAVA DE PRETO, Moreau, sem dar um sorriso sequer, parece mais um Charles Bronson de saias. Ok, melhor não pensar muito num Charles Bronson de saias pra não se ter um pesadelo, mas o que eu quis dizer é que Moreau tem uma expressão excessivamente rude em seu rosto, potencializada pelo papel. No filme, ela é uma mulher cujo noivo morreu baleado no dia do seu casamento. Anos depois, ela descobre o grupo responsável pela morte do marido e sai à procura de cada um deles, como um anjo da vingança. Assim, ela seduz e mata cada um dos homens de maneira diferente. Talvez pra não ficar entediada. Ou talvez para que o espectador não fique entendiado, o que acaba sendo difícil de evitar. Felizmente, no mesmo ano, Truffaut pôde se redimir com o maravilhoso BEIJOS PROIBIDOS (1968), esse sim, estrelado por uma musa deslumbrante: Claude Jade. Que me desculpem os fãs de Jeanne Moreau.

P.S.: Saiu a nova edição da Revista Paisà, infelizmente apenas em formato digital. A vantagem é que agora ela está à disposição de todos que queiram. Um dos grandes destaques dessa edição é o top 20 de filmes nacionais, comentado por vários colaboradores da revista. É cada filme essencial que eu ainda não vi... Também vale destacar a filmografia comentada de Alain Resnais, por ocasião do lançamento de MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS.

sexta-feira, julho 06, 2007

FOMOS OS SACRIFICADOS (They Were Expendable)



FOMOS OS SACRIFICADOS (1945) foi o primeiro filme que Ford dirigiu depois de voltar da Segunda Guerra Mundial, quando recebeu a comissão de Tenente-Comandante da Reserva Naval. Ele tinha, portanto, experiência de sobra para dirigir esse drama sobre a ação das lanchas-torpedeiras no conflito contra os japoneses no Pacífico, que se seguiu logo após o ataque à base de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941. Estrelando o filme, ao lado de John Wayne, Robert Montgomery, que assim como Ford, é creditado com sua patente de oficial da marinha. Também no elenco, como coadjuvante, uma espécie de "ator-fetiche" dos filmes de Ford, o rude e simpático Ward Bond. Já o vi em tantos filmes de Ford que eu já suspeito que ele seja o ator que mais apareceu em filmes do diretor, mas acho que é só impressão minha. O par romântico de John Wayne é Donna Reed, no papel da enfermeira Sandy Davis.

O filme é narrado sempre pelo ponto de vista dos americanos e não vemos o rosto dos japoneses nas cenas de batalha. A cena de ação mais empolgante é aquela que mostra os americanos lançando torpedos nos barcos inimigos à noite. Há quem diga que o filme tem pouca ação, mas só fala isso quem não conhece John Ford e sua preferência pelo aprofundamento dos personagens. E isso se dá em cenas mais calmas, de muita conversa e momentos mais intimistas. Pena que eu vi o filme com legendas em espanhol, as únicas que eu encontrei. Ainda bem que FOMOS OS SACRIFICADOS não tem tantas falas quanto O LONGO CAMINHO DE VOLTA (1940), que até por ser baseado numa peça, é mais dependente dos diálogos.

Interessante notar o tom solene do filme desde os créditos iniciais, homenageando o heroísmo dos combatentes. FOMOS OS SACRIFICADOS é um tributo a uma campanha perdida, quando os japoneses entravam com força total nas ilhas do Pacífico e muitos americanos morreram ou se feriram no combate. Inclusive, tem uma cena bastante comovente de um dos soldados feridos no hospital pedindo para o personagem de Montgomery levar cartas de despedida para seus familiares. Diferente de outros filmes de guerra mais recentes, em nenhum momento de FOMOS OS SACRIFICADOS os homens são tratados como vítimas, mas como heróis, como homens honrados que tiveram a glória de lutar pelo seu país. O hino da batalha da república ("Glory! Glory! Hallelujah!...) é constantemente usado em seqüências arrepiantes de preparação para a batalha e que passam com força o sentimento de patriotismo. Nunca vi nada parecido antes. Sem dúvida, um dos melhores trabalhos de Ford.

quinta-feira, julho 05, 2007

UM CASAMENTO PERFEITO (Le Beau Marriage)



Hoje eu fui acometido por uma tristeza e uma angústia tão grande que eu já estou torcendo pra que essa quinta-feira passe rápido. Acho que por baixo desse meu pessimismo machadiano, ainda existe um pouco de otimismo, já que eu costumo acreditar que o dia seguinte sempre pode ser melhor. Aliás, quem sabe até à noite eu já esteja me sentindo bem. Geralmente a aproximação do dia do meu aniversário me deixa assim, mas tenho a impressão que isso tem piorado à medida que os anos vão se passando. Talvez isso tudo seja fruto das inúmeras frustrações, da minha sensação de impotência em não conseguir construir o meu próprio caminho. Na maioria das vezes, pequenas ligações que eu faço tentando construir novas amizades, novos relacionamentos, simplesmente não funcionam. É como se eu tivesse que me contentar com o que Deus, o acaso, o universo ou os planetas me oferecem. Tenho inveja daqueles que se sentem donos de seu próprio destino. Só que essas pessoas que se acham capazes de mudar o próprio futuro apenas com a força de vontade às vezes acabam quebrando a cara e sofrendo pra caramba. Ah, mas quem não sofre?

No filme, UM CASAMENTO PERFEITO (1982), de Eric Rohmer, temos o caso de Sabine - Béatrice Romand, de CONTO DE OUTONO (1998) -, uma moça insatisfeita com o atual relacionamento. De uma hora pra outra ela larga o namorado, que de vez em quando precisa dar assistência aos seus filhos, fruto de um casamento que não deu certo, e resolve encontrar alguém para casar. Seu desejo é conhecer um homem, que haja paixão recíproca entre eles e que ele sinta vontade de casar com ela. Sua melhor amiga é Clarisse - Arielle Dombasle, a loira gostosa de PAULINE NA PRAIA (1983). E Clarisse lhe apresenta o seu primo, por quem ela se apaixona. E Sabine é doida e excessivamente otimista o suficiente para começar a falar pra todo mundo que vai se casar e que já sabe com quem. Acontece que o sujeito não dá a mínima pra ela e fica o tempo todo se esquivando dos encontros.

Como é comum nos filmes de Rohmer, suas personagens - em sua maioria, mulheres - vivem angustiadas e ansiosas para mudarem suas vidas para melhor. Uma das imagens mais recorrentes nos seus filmes é ver essas mulheres caminhando pelas ruas. O tempo urge e é preciso sempre tomar uma iniciativa. Ficar parado é que não pode. UM CASAMENTO PERFEITO é também um dos filmes de Rohmer que melhor retratam a sua época, no caso o início dos anos 80 - a new wave e aqueles cabelos e roupas horrorosos.

Não vou dizer aqui se Sabine consegue ou não se casar - quem quiser que alugue o DVD e assista - mas acredito que quando procuramos com vontade e determinação por algo, pode até ser que não consigamos exatamente aquilo que queremos, mas o caminho percorrido não será em vão. Preciso pensar nisso mais vezes.

quarta-feira, julho 04, 2007

THE OFFICE - PRIMEIRA TEMPORADA (The Office - Season One)



A primeira temporada de THE OFFICE (2005) tem apenas seis episódios, mas esses poucos episódios de menos de meia hora de duração são suficientes para deixar o espectador imediatamente viciado na série, louco para ver os próximos. Felizmente, aqueles que como eu estão descobrindo a série agora poderão se esbaldar com a segunda temporada nas locadoras e a terceira na internet - ou as duas na internet. Mas afinal, o que há de tão interessante assim nessa série? Bom, além de ser engraçada pra caramba, os personagens vão nos conquistando aos poucos. O frontman da série é Steve Carell, grande humorista, mas como não ficar encantado com a Pam (Jenna Fischer)? Seu amor platônico por Jim (John Krasinski) é um dos motores da série e os produtores sabem disso e tenho certeza que isso ainda vai render muito nas temporadas seguintes - já comecei a ver a segunda e sei que sim.

THE OFFICE é a versão americana de uma série de mesmo nome produzida na Inglaterra. Não conheço a série inglesa, mas duvido que seja tão boa quanto a yankee. A série tem formato de sitcom, mas sem as tradicionais risadinhas, e é um pseudo-documentário sobre alguém estudando o comportamento dos funcionários de um escritório de vendas. Michael, o personagem de Carell, tenta parecer sempre o mais engraçado e simpático dos chefes. Rainn Wilson é Dwight, o sujeito mais chato e metido a ser chefe do grupo. O ator já havia aparecido em A SETE PALMOS, fazendo um personagem até que parecido. Sua aparência de nerd facilita. Os outros são meros coadjuvantes que servem mais para serem zoados por Michael e seu humor completamente "sem noção" - o cara faz piada até com a mulher que retirou o útero!

Entre os seis episódios dessa curta temporada, destacam-se: 1) "Health Care", quando Michael incumbe Dwight de procurar um plano de saúde para os empregados e ele, como bom puxa-saco da empresa que é, escolhe o mais vagabundo, deixando todo mundo "tiririca"; 2) "The Alliance", aquele em que Michael inventa de fazer uma festa de aniversário para uma de suas empregadas só porque havia prometido uma surpresa para a turma - o detalhe é que o aniverário dela era só no mês seguinte; e 3) "Hot Girl", quando aparece uma vendedora nova e bonita no escritório, o que acaba despertando o ciúme de Pam. Bom, são poucos episódios e não dá pra fazer um top 5 de uma temporada de seis, não é? :) E a segunda temporada começa ainda melhor. Mas sobre isso a gente conversa depois.

Agradecimentos ao amigo Zezão, que me emprestou o DVD.

terça-feira, julho 03, 2007

PERIGO: DIABOLIK (Diabolik / Danger: Diabolik / Danger: Diabolik!)



Diz a lenda que Dino De Laurentiis deu a Mario Bava 3 milhões de dólares para ele fazer esse filme e Bava só usou 40 mil! Acho que nem Roger Corman seria capaz disso, hein. E o mais interessante é que DIABOLIK (1968) é um filme perfeito. Tudo bem que os cenários têm cara de filme B e os efeitos especiais nem sempre são realistas, mas isso está a favor do filme. Geralmente quem viu DIABOLIK costuma dizer que se trata da melhor adaptação de uma história em quadrinhos jamais feita. E eu tendo a concordar. O uso das cores vivas da fotografia em technicolor; o visual dos personagens; as cenas de ação; o tom de voz meio canastra de todos os atores (inclusive de Michel Piccoli); a espetacular ambientação dos loucos anos 60, que nos faz lembrar imediatamente dos filmes do Austin Powers; tudo isso conta pontos a favor.

DIABOLIK (melhor ignorar dessa vez o título nacional, já que quase ninguém usa) é a adaptação dos quadrinhos italianos sobre um criminoso que é tratado como um super-herói. Como no final da década de 60 a contracultura veio para botar de cabeça para baixo os valores da sociedade capitalista, Diabolik, um terrorista, é tratado como um super-herói. Suspeito que hoje em dia o filme não seria visto com bons olhos, já que mais recentemente V DE VINGANÇA foi recebido com ressalvas por muitos. E é impressionante como a gente torce por Diabolik, pelo seu charme à James Bond, e pelo modo como ele faz a polícia comer poeira a cada ação sua. E como não ficar de queixo caído com a beleza estonteante de Marisa Mell, que faz a assistente e amante de Diabolik? Logo no começo do filme ela aparece com uma roupa capaz de deixar qualquer marmanjo em estado, digamos, elevado - se é que você me entende. O filme tem uma sensualidade impressionante.

Quem interpreta Diabolik é John Philip Law, mais conhecido pelo papel de anjo em BARBARELLA, de Roger Vadin, filme também produzido por De Laurentiis e que também explorava a sensualidade e o clima de contracultura do final da década. Só que o que BARBARELLA tem de chato, DIABOLIK tem de divertido, empolgante e criativo. O que dizer da seqüência em que Diabolik coloca uma imagem falsa na estrada para que o carro da polícia caia no precipício? Aquilo ali é puro quadrinho - e puro desenho animado da Warner também. E a famosa seqüência do sexo entre milhões de dólares? Aliás, é impressão minha ou os italianos têm fixação por dólares, já que o filme aparentemente se passa na Inglaterra? Poderiam ser libras, não?

Comecei a ver esse filme lá na casa do Thomaz, junto com a Luciane e o Michel e eu gostei tanto que pedi pra ele fazer uma cópia do DVD pra mim. O dvd americano, lançado pela Paramount - que bem que podia lançar no Brasil também - vem com comentário em áudio de John Phillip Law e Tim Lucas, o maior especialista em Bava do mundo e autor de sua biografia; um documentário de quase meia hora sobre a adaptação dos fumetti para a telona, dois trailers e um videoclipe dos Beastie Boys totalmente inspirado no filme. Ah, e antes que eu me esqueça: Ennio Morricone arrebenta. Faz simplesmente uma das suas melhores trilhas!

Agradecimentos especiais ao amigão Thomaz Albornoz pela valiosa cópia.

segunda-feira, julho 02, 2007

BATALHA REAL (Batoru Rowaiaru / Battle Royale)



Começaram minhas férias e a primeira coisa que eu ganhei foi uma gripe hardcore, que me deixou com febre e acamado o fim de semana inteiro. Pelo menos, eu pude me aquietar e "dormir que só gato em bica". Estava precisando muito disso. Como férias sem alugar vídeos não são férias, peguei alguns filmes na locadora e vi alguns que eu já tinha por aqui em divx. Entre os alugados, o destaque vai para BATALHA REAL (2000), de Kinji Fukasaku. Foi o primeiro filme do cultuado diretor japonês que vi, meio que "empurrado" pelo fato de eu estar acompanhando o mangá "Battle Royale", que está sendo publicado no Brasil pela Conrad - já saiu o volume 7.

Quando Quentin Tarantino exibiu KILL BILL no Japão, sem cortes, ele o dedicou a Fukasaku, influência confessa para o épico da noiva vingativa. Tanto pela série de filmes BATTLES WITHOUT HONOR AND HUMANITY (1973-1974) quanto pela participação de Chiaki Kuriyama, que faz uma estudante com instintos assassinos em BATALHA REAL e que aparece manejando uma assustadora arma em KILL BILL, também em trajes de colegial. Por curiosidade, procurando pela internet por títulos brasileiros de filmes de Fukasaku, pesquei estes: DELIQÜENTES EM PLENO DIA (1961), POLICIAIS CONTRA BANDOLEIROS (1975), ALUGADOS PELO INFERNO (1975) E CEMITÉRIOS DE BANDOLEIROS (1976). Bom sempre anotar pra ir atrás na internet, já que os filmes de Fukasaku são bem difíceis de encontrar em vídeo no Brasil. Se bem que se for pra pegar na internet, o melhor mesmo são os títulos em inglês, não é? :)

Quanto a BATALHA REAL, pra falar a verdade, eu esperava que fosse tão violento e explícito quanto o mangá. Não que isso tire os méritos do filme, que tem entre suas inúmeras qualidades a agilidade narrativa, que não deixa o interesse do espectador cair em momento algum e não tem nenhuma cena descartável - ao contrário, fica a impressão de que várias cenas foram cortadas. Eu só fui dormir perto das três da manhã essa noite, pois não queria dormir sem saber quem seria o vencedor da batalha. Pra quem ainda não sabe, BATALHA REAL é uma espécie de Big Brother sádico e violento, onde os participantes do jogo são estudantes adolescentes que estão num jogo patrocinado pelo próprio governo japonês. Eles devem matar um ao outro, até que no final só exista um sobrevivente.

Todos os estudantes são "presenteados" com uma arma diferente e com um colar preso no pescoço que possibilita que os organizadores do jogo saibam onde eles estão e escutem o que eles dizem. Alguns desses jovens ficam em estado de choque e acabam se entregando ou mesmo se suicidando logo no início do jogo. Como eles estão prestes a morrer, muitos deles resolvem revelar o que sentem por alguns dos seus colegas. Por isso, BATALHA REAL também tem sua forte porção de melodrama. As lágrimas aparecem no filme quase na mesma proporção que o sangue. Uma das frases de efeito usada para divulgar o filme é "Você mataria o seu melhor amigo?". Essa frase dá uma dimensão do que é o sofrimento e a aflição desses meninos e meninas. Ah, e antes que eu me esqueça: Takeshi Kitano interpreta o professor sádico e assassino que organiza o jogo.

Se teve uma desvantagem para mim em ver BATALHA REAL agora foi saber quem é o vencedor do jogo. Meio que um spoiler pra mim, mas acho que isso não vai tirar o prazer de continuar acompanhando o mangá, que têm muito mais tempo para explorar em detalhes a personalidade de cada personagem e trazer mais flashbacks dos jogadores.

Foi produzida uma continuação de BATALHA REAL, mas Fukasaku, que lutava contra um câncer de próstata, morreu logo no início das filmagens, passando a bola para o seu filho, Kenta Fukasaku. A julgar pelos comentários, BATTLE ROYALE 2 (2003) não é tão bom quanto o original, mas deve ser interessante mesmo assim.