segunda-feira, fevereiro 02, 2026

ONZE CURTAS BRASILEIROS



Ando sem tempo de escrever para o blog, mas não vou deixar de colocar registros dos curtas brasileiros vistos recentemente.

A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO

Este filme de Rodolpho de Barros (ao que parece é o seu quarto curta-metragem) já chama a atenção por sua beleza plástica: a fotografia em preto e branco em janela scope valoriza tanto as tomadas de perto, como a imagem da mosca lutando pela vida ou os close-ups dos dois únicos atores em cena, quanto a visão panorâmica do bar, onde aquele homem estudioso da vida das moscas e aquela mulher aparentemente deprimida estão. Excelente o trabalho de Luiz Carlos Vasconcelos, que é tanto o narrador quanto a pessoa que impulsiona a ação com palavras e gestos. Ele dizer, por exemplo, o detalhe de como as moscas acasalam não é algo gratuito para a conclusão da breve história kafiana que é A ARTE DE MORRER OU MARTA DÍPTERO BRAQUÍCERO (2024).

AJUDE OS MENOR

A primeira imagem de AJUDE OS MENOR (2025), de Janderson Felipe e Lucas Litrento, da moto surgindo de uma paisagem desértica ao som de uma trilha que lembra western spaghetti ajuda a dar o tom de uma ambientação tão masculina quanto hostil. O rapaz da motocicleta é um entregador que traz o almoço para um grupo de rapazes que trabalham na construção civil. O ambiente se revela tóxico com a chegada do chefe que quer mostrar que manda na base da humilhação. A semelhança das primeiras imagens com o western acaba se confirmando com a presença de uma arma e de um espírito vingativo. Não me envolvi tanto com o andamento narrativo e com os personagens, mas é um bom filme sobre luta de classes, sim.

AMERICANA

São 20 minutos que passam voando. Muito divertida esta comédia de Agarb Braga que mostra uma situação de confusão entre duas mulheres trans e o pivô da briga seria o namorado de uma delas. O que começa parecendo algo que até lembra algo da comédia cearense (o filme é paraense) ganha força com a montagem muito esperta, que nos fazer ver diversos pontos de vista e conhecer as principais personagens, sendo a mais engraçada a personagem crente. O título do filme, AMERICANA (2025), se refere a uma delas, que gosta de ser chamada pelo apelido "americana" e suspeita que o namorado a está traindo. Destaque também para a fotografia bem colorida e solar.

BOI DE SALTO

Gosto de como BOI DE SALTO (2025), de Tássia Araújo, se inicia de um jeito (um marido tentando satisfazer o desejo de sua esposa grávida) e se transforma em algo totalmente diferente e igualmente interessante, sobre um rapaz que quer desfilar no Bumba-Meu-Boi usando saltos altos brilhosos e isso não é muito bem-visto pelo mestre. Mas talvez por isso mesmo eu tenha achado sua conclusão muito brusca, com impressão de incompletude. De todo modo, acredito que a diretora tenha mandado seu recado, sim, e faz isso com um cuidado visual muito bom, e com personagens bons o suficiente para que queiramos ver mais deles.

BOIUNA

Que bom que tem chegado, ainda que de maneira tímida, filmes ambientados (e produzidos) na região norte do Brasil. Assim como o sucesso MANAS, este curta BOIUNA (2025), de Adriana de Faria, também lida com dificuldades que as meninas encontram no mundo, e que precisam contar com elas mesmas para venceram (ou não) os obstáculos que surgem. Inclusive, não me lembro de nenhum personagem masculino que tenha surgido na trama (mas posso ter me enganado). Mas BOIUNA também tem algo de misterioso: há uma cobra gigante e há pessoas que aparecem e reaparecem depois de mortas para atazanar a vida das mulheres. Aliás, lembrei de um personagem masculino, o de um homem morto. Gosto do filme, mas imagino que se visto na telona o som funcionaria mais a seu favor.

CASULO

Eis um tipo de curta que funciona como curta em seus 20 minutos, mas que também dá vontade de acompanhar os personagens, como numa série de televisão. Acompanhamos Joana, uma mulher com um filho pequeno sofrendo o que parece ser um distúrbio pós-parto. Ela está preocupada com a visita de uma assistente social e somos convidados a viver um pouco desse seu inferno interior, ainda que saibamos bem pouco de sua história pregressa. Mas por isso mesmo CASULO (2024), de Aline Flores, é brilhante, pois aquilo que é mostrado, naquele universo pequeno que é um apartamento, aquilo parece bastar. Grande desempenho de Aline Flores, que é diretora e atriz principal. Grande talento!

COMO NASCE UM RIO

A animação é um ótimo meio para contar uma história de maneira mais poética, num estado mental próximo ao uso de um alucinógeno, quando é o caso. Em COMO NASCE UM RIO (2025), de Luma Flôres, acompanhamos uma jovem mulher descobrindo uma outra mulher, tão gigante que parece um monte. Um monte que jorra água, como um rio. Mas à frente, as metáforas ficarão mais óbvias e o final é bem bonito em sua representação do amor físico.

CANTO

Um filme que destaca o não-dito, mas que é representado na fala, na fragilidade, no sentimento de cuidado, este CANTO (2025), de Daniel Daher. Uma jovem mãe que se atribui solteira, um menino com o braço quebrado, uma vizinha que ajuda na cama molhada de xixi, o dono de um quartinho que precisa do aluguel, uma agente de empregos exercendo sua função burocrática e um mundo que parece não destinado a cuidar daqueles que mais precisam. O uso do close-up na cena das perguntas na agência de empregos é o ponto alto.

RÉQUIEM PARA MOÏSE

Susanna Lira é uma cineasta incansável. É impressionante o quanto ele tem produzido por ano. Se acham que estou exagerando, basta dar uma olhada em seu currículo no IMDB. Uma diretora que tem trabalhado tanto com a ficção quanto com o documentário. Inclusive sou fã de seu documentário FERNANDA YOUNG – FOGE-ME AO CONTROLE (2024), lindíssimo. Em RÉQUIEM PARA MOÏSE (2025), trabalhando em parceria com Caio Barretto Briso, estreando na direção, apresenta o revoltante caso do espancamento de Moïse Kabagambe, imigrante congolês de 24 anos, num quiosque na Barra da Tijuca em 2022. Infelizmente se trata de um daqueles casos revoltantes, mas que, com o surgimento de outros casos revoltantes neste país, acabou sendo um pouco esquecido. Ter um pequeno filme que traga este assunto novamente e dando voz aos amigos de Moïse se faz necessário.

SAMBA INFINITO

Fiquei encantado com este SAMBA INFINITO (2025, foto), de Leonardo Martinelli. Já começa mostrando o quanto é chique ao anunciar nos créditos a participação especial de Camila Pitanga e Gilberto Gil. Mas depois, quando se revela uma espécie de drama lynchiano, misterioso e cheio de afeto, aí me encantou de vez. Ainda mais quando brinca com a própria forma para alcançar o sublime, como que trazendo uma nova chance de vida para o gari que no passado se perdeu da mãe. A última fala da personagem de Camila Pitanga é muito comovente. Além do mais, que movimentação de câmera elegante e que fotografia linda, feita por João Atala, o mesmo de MEDUSA e NOSSO SONHO.

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

O formato adotado por este filme não é original. Até tem sido usado com frequência, principalmente em curtas, como uma forma de trazer para o espectador um olhar afetuoso causado principalmente pela narração, embora as imagens que passam por nossos olhos também complementem, muitas vezes por causa de um tipo de contraste, aquilo que estamos ouvindo. O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO (2025), de Felipe Casanova, só foi me ganhar já perto do final de seus 20 e poucos minutos. Foi quando o sentimento que eu geralmente carrego quando o assunto é a dor de uma mãe finalmente me pegou. Foi quando o contraste quase perverso do carnaval carioca com a morte de adolescentes e crianças pobres e pretas pelo estado passou a ter um impacto maior em mim.