Quanto sangue, quanta luta, quanto amor. Rever – ou melhor, ver, já que é bem nova a experiência de ter os dois filmes juntos mais uns minutos adicionais, inclusive com uma animação excelente contando a história de Oren Ishi-i (Lucy Liu), além de outra no pós-créditos, que me pegou de surpresa. E pensar que eu quase não via KILL BILL – THE WHOLE BLOODY AFFAIR (2004) por causa da longa duração e por uma série de complicações de logística. Que bom que deu certo ver, nos 40 minutos do segundo tempo, quando só restava mais uma sessão do filme nos cinemas. E que bom que foi na gloriosa sala 2 do Cinema do Dragão. (Re)ver este que eu considero desde muito tempo como a melhor obra de Quentin Tarantino só a torna mais épica, mais dramática, mais cheia de sentimento.
Além do mais, como já faz uns anos que chamam o Tarantino de misógino, eu diria que basta ver KILL BILL para repensar essa afirmativa, já que são as mulheres as grandes estrelas deste épico pós-moderno, feito a partir de uma salada que inclui muita coisa produzida principalmente nos anos 1970, que fizeram a cabeça do realizador. Tarantino mistura filme japonês de samurai (Kenji Fukasaku ganha uma dedicatória logo no começo), filmes de kung fu de Hong Kong, westerns spaghetti (principalmente na trilha sonora), filmes de horror mais sangrentos, policiais americanos da época da Nova Hollywood e, mais uma vez, um pouco de blaxploitation. Sem falar nos animes.
E ele faz isso com uma vontade de realizar o melhor filme de pancadaria de todos os tempos que o resultado é muito empolgante. Eu sempre fico muito emocionado com a cena inicial, com o tiro na cabeça de Beatrix Kiddo (Uma Thurman), seguido dos créditos ao som de "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)", na voz de Nancy Sinatra. E o filme inicia depois disso com a incrível sequência de luta com a personagem de Vivica A. Fox, uma brica de facas maravilhosa. E aqui Tarantino também injeta aquele sentimento que faz com que aquela luta se torne também dolorosa para nós, espectadores, a presença de uma filha de quatro anos da personagem de Fox, que chega da escola quando o pau estava comendo na sala de estar.
Tarantino foi tão esperto em colocar esta cena no início, desobedecendo, mais uma vez as regras da linha temporal, como havia feito em PULP FICTION – TEMPO DE VIOLÊNCIA (1994), que fica óbvio que a cena de luta com a personagem de Lucy Liu, por ser maior e cheia de preparativos, teria mesmo que acontecer perto do final da primeira parte. Aliás, toda essa preparação para enfrentar a personagem de Liu ganha ainda mais força dramática com a cena em animação adicionada. Ela deixa de ser só uma adversária perigosa e passa a ser alguém que também sofreu quando criança até galgar à posição de muito poder dentro da Yakuza, mesmo sendo sino-americana. A câmera de Tarantino passeia pela parte de cima daquele ambiente, regado a rock cantando por uma banda feminina de moças com os pés descalços, e tudo é apresentado com muita elegância, inclusive as split-screens, que devem ter deixado o De Palma com inveja (ou batendo palmas).
A minha lembrança da segunda parte era de um momento menos dinâmico, mas não foi isso que vi. Até aquela conversa final com Bill (David Carradine) é também muito bom, cheio de emoção, pois estamos diante ali de duas pessoas que tiveram um envolvimento amoroso no passado. Aliás, a cena de Kiddo sorrindo para Bill na igreja, em momento anterior à chacina, é de cortar o coração. Ela linda, grávida, sorrindo para ele, com um sorriso incrível, enquanto a morte estava a caminho. Acho que Tarantino nunca mais fez uma heroína tão incrível quanto Beatrix Kiddo, nem mesmo Shosanna Dreyfus em BASTARDOS INGLÓRIOS (2009), até por ela não ser a única protagonista, ao contrário de Uma Thurman. De todo modo, são duas heroínas adoráveis.
Há tanto o que elogiar no filme, seja a fotografia linda de Robert Richardson, a montagem de Sally Menke, o número imenso (e maravilhoso) de pedaços de trilhas sonoras, principalmente do cinema italiano, mas também do cinema japonês, a quantidade incrível de piscadelas de olho que estão mais para declarações de amor ao cinema popular, algumas cenas que nos dão um misto de aflição e excitação, como a cena do cemitério e a luta contra a jovem Gogo (Chiaki Kuriyama) e as cenas com a personagem de Daryl Hannah, tudo isso é assustador, cada cena à sua maneira.
Agora Tarantino está preso nessa promessa besta que fez de encerrar a carreira com o décimo filme e não sabe que grande filme será esse. Enquanto ele se vê enrascado e sai publicando livros e fazendo peças de teatro por aí, ter a sorte de rever KILL BILL integral nos cinemas é para glorificar de pé.
+ TRÊS FILMES
A QUADRILHA (The Outfit)
O livro Especulações Cinematográficas, de Quentin Tarantino, tem rendido boas dicas e belas descobertas. Não que esses filmes estivessem escondidos, tanto que boa parte deles eu encontro nas coleções da Versátil, que contêm inúmeras pérolas que ainda não vi. A QUADRILHA (1973), de John Flynn, ganhou um capítulo à parte no livro de Tarantino. No livro, ele destaca principalmente a série de romances de Richard Stark com o personagem Parker, um fora-da-lei casca grossa que enfrenta uma quadrilha que comanda um império. O personagem, no filme com o nome de Earl Macklin (parece que o romancista não permitia que usassem o nome Parker, ou algo assim), é vivido por Robert Duvall. A trama, que é uma continuação da trama de À QUEIMA ROUPA, de John Boorman, se inicia com ele saindo da cadeia depois de um par de anos em reclusão. Ele é recebido do lado de fora pela esposa (Karen Black). Mais à frente conheceremos seu parceiro de crime Cody (Joe Don Baker). Os dois farão um inferno na vida dos chefões dessa quadrilha, mais especificamente do chefão-mor, vivido por um Robert Ryan muito bom. O legal de ver A QUADRILHA é perceber o quanto o faroeste, o filme noir e o cinema policial moderno estão intrincados, como eles são quase a mesma coisa, com a diferença que no cinema dos anos 1970 havia uma possibilidade maior de explorar a violência em doses mais brutais. O diretor John Flynn equilibra elegância e brutalidade e nos presenteia com uma obra visceral e muito divertida.
COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (Coffy)
Não sei o que passava pela minha cabeça de não ter visto ainda algum filme desse cinema blaxploitation maravilhoso. Havia visto só BLÁCULA, mas não sei se conta tanto. E digo “maravilhoso” levando em consideração essa belezura que é COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973), de Jack Hill, um dos títulos estrelados pela diva Pam Grier. Este e também FOXY BROWN estão disponíveis na Mubi, então não façam como eu para deixar pra ver só depois. Além do mais, a Versátil já lança há algum tempo a coleção Blaxploitation. Então, hoje em dia o acesso a esses filmes é mais facilitado. Na trama de COFFY, a personagem-título é uma mulher com um desejo de vingança aos homens que deram heroína para sua irmã pequena. Então, ela começa o filme dando cabo de um traficante e um “avião”. Depois disso ela ainda ingressaria no submundo da prostituição para pegar mais peixes graúdos nesse seu projeto. O filme possui diversas cenas antológicas e que de fato me impressionaram, não apenas por seu aspecto apelativo, mas pelo quanto também funcionam nos registros de drama, suspense, ação, espionagem e até comédia. Quero mais!!
FOXY BROWN
Embora não seja tão bom quanto COFFY – EM BUSCA DA VINGANÇA (1973), FOXY BROWN (1974) sabe usar o melhor da fórmula acertada da primeira parceria do diretor Jack Hill (do cultuado SPIDER BABY, 1967) com a atriz Pam Grier, novamente interpretando uma mulher que segue numa cruzada de vingança, penetrando espaços perigosos, como os habitados por traficantes e casas de prostituição. Ainda acho que COFFY vai mais longe na exploração da violência e do sexo que FOXY BROWN, mas é difícil não pensá-los como filmes irmãos. Aqui, Foxy quer se vingar da rede de criminosos que mataram seu namorado, um agente federal que teve que fazer uma cirurgia plástica para poder escapar de uma rede de crime que havia se expandido para a esfera judicial. Algumas cenas memoráveis incluem Foxy humilhando um juiz, depois Foxy sendo abusada sexualmente para depois se vingar de homens brutos; e Foxy aparecendo para ajudar o irmão logo no início do filme. Assim como COFFY este filme também valoriza a música soul na trilha sonora de modo tanto a trazer dinamismo quanto a evidenciar e valorizar a rica música pop negra vigente naqueles incríveis anos 1970.