quarta-feira, março 18, 2026

BLUE MOON – MÚSICA E SOLIDÃO (Blue Moon)



O cinema de Richard Linklater é geralmente verborrágico. E muitas vezes a gente adora, mesmo assim. Na verdade, o que a gente ama mesmo são os filmes da trilogia “Before”, mas a filmografia do “Rohmer texano” tem coisas muito interessantes, como sua busca por recortes na vida de personagens históricos. Foi assim com NEWTON BOYS – IRMÃOS FORA-DA-LEI (1998), com EU E ORSON WELLES (2008), e nesse 2025 Linklater fez uma dobradinha, já que lançou NOUVELLE VAGUE, sobre os bastidores de ACOSSADO, de Godard, que acabei não vendo ainda, e este BLUE MOON – MÚSICA E SOLIDÃO, indicado ao Oscar de ator.

O que me agradou bastante neste filme foi o quanto comecei a me solidarizar com um personagem que a princípio me parecia quase insuportável, um compositor de clássicos do cancioneiro americano, que está na pior, já que seu parceiro de composição está em cartaz com uma peça musical que está dando o que falar, feita com outro letrista. Ele se sente traído, mas também se sente velho, feio, sua baixa estatura mexe com sua autoestima e, em determinado momento, quando seu parceiro começa a falar um pouco de sua obra ele fica bastante incomodado: fala para não dizer nada de seu trabalho artístico, pois é a única coisa que lhe restou.

Ethan Hawke faz esse homem de 47 anos, Lorenz Hart, co-compositor de “Blue Moon” e outros clássicos da música, atualmente interessado numa jovem numa jovem de cerca de 20 anos, vivida por Margaret Qualley. Ao ser questionado sobre suas preferências sexuais, já que tem fama de gostar de rapazes, ele diz que é um apreciador da beleza. E aí não importa o gênero.

Aliás, a conversa de Hart com essa jovem é um dos momentos mais bonitos do filme. Lá estava aquele homem mendigando o amor daquela linda mulher, ouvindo detalhes íntimos sobre o rapaz por quem ela se apaixonou. É uma cena de doer o coração. Destaco também a cena em que ele conversa na escada com seu parceiro Richard Rogers (Andrew Scott), que também enfatiza o momento de tristeza imensa desse homem, que se sente traído, mas que também tem consciência de que muito de seu declínio veio do alcoolismo.

Do ponto de vista formal, não há tantas qualidades assim em BLUE MOON. Os movimentos de câmera são sutis o suficiente para ficarmos interessados só nas conversas e na alma de Hart. E Hawke faz um belo papel. Um dos melhores de sua carreira de ator. Além do mais, ele deve ter gostado, já que é um entusiasta de boa música.

+ TRÊS FILMES

BUGONIA

Emma Stone em sua quarta parceria com Yorgos Lanthimos segue fazendo sucesso, por mais que não repita a mesma excelência de POBRES CRIATURAS (2023). Estaria mais para um episódio estendido de TIPOS DE GENTILEZA (2024), seu filme em segmentos. Isso porque passa a impressão às vezes que BUGONIA (2025) se estende mais do que deveria em sua duração, mas pode ser só uma impressão mesmo, já que considero absolutamente brilhante o jogo de nervos que existe entre os personagens de Stone e Jesse Plemons, um dos grandes atores de sua geração. Aqui ele interpreta um sujeito que tem a convicção que uma empresária (Stone) é uma alienígena com a intenção de dominar o planeta Terra. Junto com seu fiel escudeiro, um sujeito com pouca capacidade de pensar vivido por Aidan Delbis, os dois conseguem capturar a mulher, raspando sua cabeça e passando-lhe um creme no corpo. A gente vê o personagem de Plemons e imediatamente pensa num desses solteirões revoltados que se alimentam de teorias da conspiração, muitos deles associados à extrema direita. Lanthimos, porém, tem um senso de humor todo próprio e sabe usá-lo mesmo quando sua narrativa intensifica a tensão e o desconforto, como na cena da tortura. Gosto do plot twist, até por não se levar tão a sério. O domínio de direção, narrativa e de atuações de Lanthimos segue sendo admirável.

FRANKENSTEIN

Os filmes de Guillermo del Toro são sempre uma surpresa pra mim, no que se refere ao meu amor ou desamor por eles. Na verdade, equilibrando a balança há mais filmes de que pouco gosto do que filmes que amo. Amo O LABIRINTO DO FAUNO (2006), A COLINA ESCARLATE (2015) e um lá do início de sua carreira, CRONOS (1992). Há aqueles que considero aborrecidos e aqueles que são simpáticos, e que até são exemplares de sucesso, como A FORMA DA ÁGUA (2017), mas que não me dizem nada. Gosto de seu amor pelos monstros, acho louvável ter alguém dentro de Hollywood que tenha conseguido financiamento para seus projetos mais pessoais, como é o caso de FRANKENSTEIN (2025), que não se propõe a ser uma adaptação fiel ao romance de Mary Shelley, e vejo isso como algo bom. Tanto que fiquei feliz quando vi que seu monstro é diferente, é mais humanizado e mais trágico e existencialista. Em alguns momentos me lembrei dos quadrinhos do Surfista Prateado da época do Stan Lee e do John Buscema. Fiquei até me perguntando se teria sido uma inspiração. Por outro lado, como bom apreciador do cientista mais frio e diabólico dos Frankensteins da Hammer, fiquei um tanto desapontado com esse Victor Frankenstein do Oscar Isaac. Não que o ator esteja ruim: ele segue as orientações e a criação de Del Toro. De todo modo, como em todo filme do realizador mexicano, há uma fotografia esplêndida e uma direção de artista lindíssima. Aqui o uso do verde e do vermelho nas vestimentas e nos cenários está de dar gosto. Pena que a história se arraste de forma tediosa, apesar da boa presença de cena de Mia Goth, sempre que aparece. Achei difícil comprar o amor dela pela criatura; mas talvez esse seja o ponto fraco do realizador, por mais que alguém vá discordar lembrando justamente do oscarizado A FORMA DA ÁGUA. Que foi seu último filme com roteiro original: depois desse, só adaptações de clássicos da literatura, uma espécie de remake (O BECO DO PESADELO, 2021). Não que isso limite um autor. Mas a verdade é que de nada adiantam boas ideias se o resultado carece de força.

MARTY SUPREME

Ainda não aprendi a relaxar com os filmes dos Safdy. O fim das sessões de BOM COMPORTAMENTO (2017) e JOIAS BRUTAS (2019) me deixaram um bocado desnorteado e até com dor de cabeça. Com a “separação” dos irmãos em diretores-solo, percebe-se que vem de Josh a ansiedade, que se repete de maneira mais ambiciosa em MARTY SUPREME (2025), um filme maior, mais longo e com um ator também mais interessado na grandiloquência, o jovem Timothée Chalamet, aqui vivendo um obcecado jogador de ping pong, que quer provar ser não apenas o melhor de seu país, mas o melhor do mundo. Mas menos importa a história e mais o estilo com que Josh Safdy opta por usar, seja pela câmera na mão e nervosa, pelos personagens histéricos, ou pela fotografia (em película) escura e com menos nitidez do iraniano Darius Khondji. Fiquei feliz quando vi o nome de Abel Ferrara nos créditos (como ator) e não me decepcionei, já que sua presença ocasiona algumas das melhores e mais intensas cenas, como a cena da banheira ou a do tiroteio. Ter Ferrara como ator é como ter um padrinho de primeira. O personagem de Chalamet não é exatamente um herói para ser gostado. Ele é naturalmente egoista, mas tem, sim, suas qualidades, como a obsessão por lutar por aquilo que deseja, mesmo que para isso tenha que roubar ou se humilhar. Gosto das cenas com Gwyneth Paltrow, mas também acho que houve uma ótima química com a jovem Odessa A'zion, que aparece numa das primeiras cenas como um interesse amoroso/sexual com Marty, e puxa os créditos com “Forever Young”, do Alphaville. Aliás, é interessante o filme se passar nos anos 1950 e trazer canções dos anos 1980. Isso traz um estranho sentimento de deslocamento.

segunda-feira, março 16, 2026

OSCAR 2026



Na melhor das hipóteses, pensando agora com meus botões (embora não esteja usando nada que tenha botões no momento), podemos dizer que o Oscar 2026 foi uma celebração de certo passado de Hollywood. Mais especificamente os anos 1970. Senão vejamos: o grande vencedor da noite foi UMA BATALHA APÓS A OUTRA, de Paul Thomas Anderson, filme que se passa nessa década e que deve muito ao cinema daquele período. Até o nosso O AGENTE SECRETO, de Kleber Mendonça Filho, também destaca TUBARÃO e aquele momento mágico para o cinema americano, embora muito difícil politicamente para os países da América Latina.

Quando assistimos ao In Memoriam, o quadro tradicional que homenageia os atores, atrizes, diretores e outros artistas e técnicos relacionados ao cinema (principalmente o americano), notamos que os dois astros mais celebrados foram Robert Redford, que até ganha uma canção na voz de Barbra Streisend, com quem contracenou em NOSSO AMOR DE ONTEM, de Sydney Pollack; Diane Keaton, que ganha uma fala de destaque de Rachel McAdams, e também Robert Duvall, outro ator importantíssimo, curiosamente colega de elenco de Keaton em O PODEROSO CHEFÃO.

Porém, voltemos para o presente. Um duro presente em que tivemos uma cerimônia tão morna quanto acovardada. Os Estados Unidos atacando o Irã, ajudando no genocídio da Palestina, invadindo a Venezuela para roubar petróleo e fazendo do próprio país um inferno com sua polícia anti-imigração e o máximo que se vê são piadas muito sutis por parte de Conan O’Brien e um “não à guerra” e “Palestina Livre”, por parte de Javier Bardem. Foi ele quem anunciou, ao lado de Priyanka Chopra, o prêmio mais aguardado para os brasileiros, o de melhor filme internacional, o que mais o Brasil teria chance de ganhar, repetindo o feito do ano passado, já que na categoria de ator estava concorridíssimo – até Leonardo DiCaprio e Timothée Chalamet saíram de mãos abanando, vencendo Michael B. Jordan, por PECADORES.

A noite começou até bem animada, com o prêmio de atriz coadjuvante para Amy Madigan, por A HORA DO MAL, que poderia ter sido um filme indicado nas categorias principais, se a academia não tivesse tanto preconceito com filme de terror. Sabemos que PECADORES conseguiu essa vaga tão difícil, mas aconteceu porque metade do filme é sobre a questão da apropriação cultural e do racismo sistêmico nos Estados Unidos. Então, havia ali um tema considerado de prestígio.

Sobre a derrota de O AGENTE SECRETO, já é uma alegria que o filme tenha ganhado tal visibilidade e tenha chegado até entre os dez da categoria principal, como aconteceu no ano passado também com AINDA ESTOU AQUI. Ou seja, aos poucos o cinema brasileiro vai ganhando uma penetração maior num território que costuma ser muito resistente ao cinema que não é produzido nem nos Estados Unidos nem no Reino Unido. Havia no passado alguns casos de indicações de filmes de outra língua que não o inglês às categorias principais, mas era um fura-bolha ocasional. Neste ano, no entanto, outro conseguiu também furar a bolha, VALOR SENTIMENTAL, de Joachim Trier, que eu considero um sub-Bergman bem desavergonhado, mas que acabou agradando muitos espectadores. Além do mais, ter uma atriz de Hollywood no elenco (Elle Fanning) é meio que marmelada, hein.

No mais, deixo aqui meu beijo para meu grande amor Giselle. Foi a primeira vez que assistimos juntos a cerimônia. Ela estava preocupada com a qualificação de mestrado (que foi um sucesso, a próposito), e não viu com tanta atenção assim, mas estava lá do meu lado. Também contei com gente muito legal nos grupos de bolão, que não deixaram o sono chegar. O fato de a premiação ter começado bem mais cedo desta vez, aliás, foi um diferencial e tanto. Terminou antes de meia-noite, fato inédito até então.



Os Premiados

Melhor Filme – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Direção – Paul Thomas Anderson (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Ator – Michael B. Jordan (PECADORES)
Atriz – Jessie Buckley (HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET)
Ator Coadjuvante – Sean Penn (UMA BATALHA APÓS A OUTRA)
Atriz Coadjuvante – Amy Madigan (A HORA DO MAL)
Roteiro Original – PECADORES
Roteiro Adaptado – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Fotografia – PECADORES
Montagem – UMA BATALHA APÓS A OUTRA
Trilha Sonora Original – PECADORES
Canção Original – “Golden” (GUERREIRAS DO K-POP)
Som – F1 – O FILME
Efeitos Visuais – AVATAR – FOGO E CINZAS
Direção de arte – FRANKENSTEIN
Figurino – FRANKENSTEIN
Maquiagem e cabelos – FRANKENSTEIN
Seleção de elenco – UMA BATALHA APÓS A OUTRA 
Filme Internacional – VALOR SENTIMENTAL (Noruega)
Longa de Animação – GUERREIRAS DO K-POP
Curta de Animação – THE GIRL WHO CRIED PEARLS
Curta-metragem (live action) – OS CANTORES e TWO PEOPLE EXCHANGING SALIVA (empate)
Documentário – UM ZÉ NINGUÉM CONTRA PUTIN
Curta Documentário – QUARTOS VAZIOS