Acho uma delícia fazer comparações entre obras, seja da obra literária para a obra cinematográfica, seja entre obras cinematográficas que partem da mesma origem. No caso, o romance La Chienne, do francês Georges de La Fouchardière, que inspirou tanto o clássico naturalista A CADELA (1931), de Jean Renoir, quanto sua adaptação em clima de film noir ALMAS PERVERSAS (1945), de Fritz Lang. Curiosamente, Lang era um admirador de Renoir, mas não havia reciprocidade da parte do cineasta francês, de acordo com análise encontrada como extra no box Filme Noir Vol. 7, da Versátil.
Pois bem. Embora eu ache uma delícia comparar filmes adaptados da mesma fonte, e ainda por cima feitas por mestres de estilos tão distintos (fiz algo parecido vendo várias versões de Madame Bovary para o cinema, anos atrás), não deixa de ser um pouco complicado ver o filme de Lang depois de se impactar com o maravilhoso trabalho de Jean Renoir. São duas propostas bem distintas. Sai o naturalismo de Renoir, entra a estilização de Lang; sai o tom leve, quase amoral e por vezes engraçado; entra o tom mais moralista e trágico.
Aliás, a questão moral em ALMAS PERVERSAS não foi nem por causa da censura (que, sim, pegou bastante no pé do filme), mas por convicções pessoais de Lang, que acreditava que o homem que matava alguém teria que pagar pelo pecado; se não pela lei dos homens, pela lei de Deus ou da própria consciência atormentada. Quanto à censura de Hollywood, já foi complicado transformar a personagem de uma prostituta em uma mulher interesseira e preguiçosa, por mais que possamos ver na Kitty de Joan Bennett algo parecido com uma garota de programa e no Johnny de Dan Duryea um cafetão. Se não uma garota de programa, algo que nos dias de hoje chamam de sugar baby, ainda que o personagem de Edward G. Robinson, Chris, seja excessivamente ingênuo para entender sua participação neste triângulo "amoroso".
O que eu vejo como algo que depõe um pouco contra o filme de Lang, em comparação com o de Renoir, é o fato de nos importarmos menos com os personagens. Em A CADELA, eu fiquei o tempo todo incomodado com cada ação dos personagens, com as variadas ações de abusos e humilhações, sejam elas percebidas ou não. Em ALMAS PERVERSAS é até fácil se deixar levar pelo charme e beleza de Kitty e não se importar muito com as implicações da esposa de Chris.
Lang constrói uma autêntica femme fatale pobre (mas com algum glamour), que não tem ideia de que está aplicando um golpe em um sujeito também pobre, que chega a roubar dinheiro da empresa para satisfazer os prazeres da amante. E pior: uma amante a quem ele nem mesmo dá sequer um beijo na boca. Algo que me deixa impressionado. (Fiquei pensando em uma nova adaptação do romance de La Fouchardière, feita aqui no Brasil nos saudosos anos 1970 e 80, principalmente na Boca.)
Mas isso tinha a ver com o Código Hays, a censura pesada aplicada nos filmes. Os censores implicaram até com a cena de Robinson se abaixando para pintar as unhas dos pés de Bennett, que usava apenas um roupão. É de fato uma cena sensual, e talvez nos anos 1940 fosse algo um tanto escandaloso, mas hoje em dia não tem todo esse peso. De todo modo, a construção por Lang de sua personagem feminina foi brilhante. Bennett mistura a sensualidade e beleza com um tipo de vulgaridade e preguiça que ajudam a enriquecer Kitty, a torná-la atraente e apaixonante, inclusive aos olhos do espectador, consciente de seu caráter.
O filme de Lang também parece mais consciente e organizado na estrutura narrativa - o roteirista Dudley Nichols havia trabalhado em vários filmes de John Ford e também em O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), de Lang. Há situações que são muito mais bem construídas, como o "autorretrato", na verdade a última pintura de um sujeito apaixonado por uma mulher, muito mais convincente e poderoso do que um autorretrato do personagem do filme de Renoir. Essa consciência também está no cuidado estético, na beleza da fotografia de Milton R. Krasner, o mesmo do filme anterior de Lang, UM RETRATO DE MULHER (1944), que pode ser considerada uma obra-irmã em muitos aspectos.
E há detalhes interessantes em ALMAS PERVERSAS, como a questão de Chris não ter um senso de perspectiva em seus quadros. Assim como também não tem na vida real, ao não perceber que está sendo manipulado, por exemplo; ou ao se deixar levar pela loucura de cometer furtos no local de trabalho, embora isso e também o assassinato de Kitty sejam manifestações de natureza passional e não relativas a uma suposta falta de honestidade do protagonista. Além do mais, seu destino final, mentalmente perturbado, não é por causa do remorso pela morte de Kitty e pela morte de Johnny, mas por um ciúme que persiste, mesmo em um plano espiritual/psicológico.
+ DOIS FILMES (CURTOS)
DOCUMENTÁRIO
Rogério Sganzerla é um dos cineastas brasileiros de quem mais eu tenho lacunas, tanto pela quantidade de títulos, quanto pelo meu afastamento por sentir um pré-requisito em cinema de Welles, muitas vezes. Aqui é seu primeiro filme. Delicioso. Mas seria melhor ainda se tivesse legendas. Infelizmente não houve uma restauração que trouxesse de volta um som minimamente bom, tão importante para a compreensão dos diálogos entre os dois rapazes que caminham pelas ruas de São Paulo à procura de um filme para ver. Nenhum aprova o que o outro quer ver e assim vão andando e conversando. Fala-se em Fuller, Hawks, Hitchcock, HELP!, dos Beatles, de O DESAFIO (filme do Saraceni), quadrinhos do Batman, dificuldades financeiras e respira-se muito o espírito da nouvelle vague francesa, especialmente Godard, tanto pelos cortes, quanto pela fotografia. Como diria o Carlão, é o filme que todos os cinéfilos gostariam de fazer. Aliás, não sei por que os cinéfilos-cineastas não fazem mais filmes sobre a cinefilia, assim de maneira tão explícita quanto este. Ano: 1966.
VEREDA TROPICAL
O melhor filme sobre sexo hortifrutigranjeiro de todos os tempos. Engraçado que na época que vi pela primeira vez, como segmento do longa CONTOS ERÓTICOS, não vi muita graça, talvez por querer que fosse um filme erótico no sentido mais comum da palavra. Na verdade, é uma comédia engraçadíssima sobre um sujeito que tem por hábito transar com melancias (dá banho nelas, passa talquinho e tudo). Mas o saboroso mesmo do filme é a conversa dos personagens de Cláudio Cavalcanti e Cristina Aché sobre as taras do amigo, sobre sexo e solidão etc. E as coisas se tornam mais saborosas ainda quando os dois vão à feira procurar uma fruta fálica pra ela. A versão que está circulando por aí, remasterizada, está linda, cristalina, de cores vivas. Direção: Joaquim Pedro de Andrade. Ano: 1980.
quinta-feira, agosto 20, 2020
quarta-feira, agosto 19, 2020
A PRIMA SOFIA (Une Fille Facile)
Alguns filmes que nos ganham a simpatia acabam por se tornarem ainda mais queridos quando passamos a saber de eventos extra-filme, ou pelo menos só conhecidos de quem leu alguma matéria em jornal ou quem está bastante familiarizado com determinado ator ou atriz, como é o caso de Zahia Dehar, que faz a personagem-título, que é bastante conhecida na França e cuja escalação pode ser vista como ousada para este A PRIMA SOFIA (2019), de Rebecca Zlotowski, diretora do charmoso e torto ALÉM DA ILUSÃO (2016).
Antes de falar um pouco da atriz/modelo, gostaria de falar um pouco sobre o sentimento que ela (a personagem/a atriz) me passou enquanto via o filme. Sua hiper-sexualidade beirando o vulgar traz algo de conflitante no modo como vemos a expressão de sua liberdade, de sua nudez, de suas transparências ou a facilidade ou vontade com que ela deseja satisfazer seus desejos. Mexe também com algo que talvez esteja relacionado a algo de mais sombrio em nosso ser, algo que está relacionado a um tipo de moralismo hipócrita e machista.
Por isso vi uma semelhança da personagem com outra mulher que lida bastante com a hiper-sexualidade em um filme de algumas décadas atrás, A MULHER PÚBLICA, de Andrzej Zulawski. Não por acaso, há uma coincidência (ou não existem coincidências?) com o fato de a diretora de A PRIMA SOFIA ser de ascendência polonesa e de ter nome até parecido com o do referido cineasta.
A polêmica em torno de Dehar se dá por ela ser bastante conhecida na França. Ela abrilhantou em 2010 os noticiários sobre escândalos envolvendo os jogadores de futebol franceses Franck Ribéry e Karim Benzema, que foram acusados de pagá-la com serviços de garota de programa quando ela ainda tinha 17 anos. Os jogadores se safaram na justiça ao afirmarem que não sabiam que ela era menor de idade. Posteriormente, ela acabou por se tornar famosa como modelo, como designer e agora como atriz também no filme de Rebecca Zlotowski.
Seu papel em A PRIMA SOFIA guarda muita similaridade com sua vida real, trazendo uma brincadeira metalinguística desconhecida de quem não é francês ou de quem desconhece os bastidores. Ela é a prima que surge na cidade de Cannes de surpresa para visitar a jovem Naïma (Mina Farid), de 16 anos, que a recebe com muita alegria e entusiasmo. Há algo nessa prima que veio de Paris que passa a ser objeto de fascínio por Naïma, como seu sex appeal, sua tranquilidade em se expor de top less e também seu ar de liberdade em relação ao aproveitar a vida. Ela tem uma tatuagem acima do bumbum com a frase em latim "Carpe diem".
Em determinado momento, as duas estão tomando sol na praia e aparecem dois rapazes, atraídos pelo corpo exuberante de Sofia. E a garota não se importa com os rapazes. Ao contrário: deixa-os desconfortáveis ao aproximar a mão de um deles em seu seios e depois falar de sua pele macia e de outra parte do corpo dela ainda mais macia. O comportamento da prima deixa Naïma um pouco escandalizada, mas seu exemplo de liberdade faz com que, mais e mais, ela se torne um exemplo de vida.
Em entrevista para o site The Hot Corn, Zahia Dehar afirma: "eu não acredito que você pode se chamar de feminista se você coloca outras mulheres em jaulas". Depois, ela diz que admira as chamadas bad girls, já que são essas mulheres as mais fortes e as mais livres. Essa percepção da sociedade em torno da personagem é muito clara no filme, a cada vez que Sofia passa, com seus trajes provocantes, seja um vestido totalmente transparente para a noite, seja um vestido leve e florido, como o que ela usa para ir a um palacete na Itália, com os rapazes que ela conhece.
Essas cenas na Itália são deliciosas, inclusive, ao lidar com a questão do julgamento, do preconceito. Em determinado momento, Sofia, na roda de pessoas ricas que estão ali, afirma que aquele lugar lhe faz lembrar Marguerite Duras. Uma das mulheres (Clotilde Courau) ri e desconfia que aquela garota com jeito de prostituta não sabe nada da escritora e faz perguntas sobre quais livros ela gosta mais de Duras. Além do mais, nada mais simbólico do que ter em cena Courau, casada com o Príncipe de Veneza, nesta cena. Outro acerto de casting de Zlotowski.
A PRIMA SOFIA é também um conto sobre a brutalidade do homem, ainda que narre isso de maneira relativamente leve - afinal, já vimos coisas como VINTE ANOS, de Fernando Di Leo, que lida com essa brutalidade diante da beleza e da liberdade sexual feminina de maneira infinitamente mais agressiva. Mas talvez tenha resultado assim, de maneira muito menos exploratória, por ser narrado por uma mulher. Além do mais, por mais que Sofia atraia demais as atenções, a história é de Naïma, do quanto ela aprende naquele breve período de férias de verão, e no quanto ela aprende para sua vida, para o seu futuro. É um filme cujas semelhanças com A COLECIONADORA, de Éric Rohmer, têm sido citadas em algumas críticas. E tem mesmo tudo a ver.
P.S: Ouçam o podcast do Cinema na Varanda desta semana. A discussão em torno do filme é muito interessante.
+ DOIS FILMES
MULHERES QUE MATAM (Women Who Kill)
Em uma das edições do For Rainbow (de 2016), vi este filme interessante, um thriller sobre duas podcasters obcecadas por assassinos seriais de mulheres. Elas foram ex-namoradas e há ainda uma chance de ainda terem sentimentos uma pela outra. Infelizmente não anotei nada sobre o filme e as lembranças dele ficaram nebulosas demais. Lembro que gostei razoavelmente e é curioso que é um desses filmes que permaneceram inéditos no país, até onde sei. Então talvez tenha sido uma das raras exibições no país. Direção: Ingrid Jungermann. Ano: 2016.
A CIDADE DO FUTURO
Outro filme que muito me agradou na programação do For Rainbow de 2016, este filme da dupla Cláudio Marques e Marília Hughes, depois de terem ganhado força com o relativo sucesso do anterior, DEPOIS DA CHUVA (2013), foi bem recebido e talvez o melhor da mostra competitiva, pelo que me lembro. Na trama, vemos uma família formada por dois homens e uma mulher no interior da Bahia. É um filme que poderia ter tido uma repercussão maior no circuito alternativo. Ano: 2016.
Antes de falar um pouco da atriz/modelo, gostaria de falar um pouco sobre o sentimento que ela (a personagem/a atriz) me passou enquanto via o filme. Sua hiper-sexualidade beirando o vulgar traz algo de conflitante no modo como vemos a expressão de sua liberdade, de sua nudez, de suas transparências ou a facilidade ou vontade com que ela deseja satisfazer seus desejos. Mexe também com algo que talvez esteja relacionado a algo de mais sombrio em nosso ser, algo que está relacionado a um tipo de moralismo hipócrita e machista.
Por isso vi uma semelhança da personagem com outra mulher que lida bastante com a hiper-sexualidade em um filme de algumas décadas atrás, A MULHER PÚBLICA, de Andrzej Zulawski. Não por acaso, há uma coincidência (ou não existem coincidências?) com o fato de a diretora de A PRIMA SOFIA ser de ascendência polonesa e de ter nome até parecido com o do referido cineasta.
A polêmica em torno de Dehar se dá por ela ser bastante conhecida na França. Ela abrilhantou em 2010 os noticiários sobre escândalos envolvendo os jogadores de futebol franceses Franck Ribéry e Karim Benzema, que foram acusados de pagá-la com serviços de garota de programa quando ela ainda tinha 17 anos. Os jogadores se safaram na justiça ao afirmarem que não sabiam que ela era menor de idade. Posteriormente, ela acabou por se tornar famosa como modelo, como designer e agora como atriz também no filme de Rebecca Zlotowski.
Seu papel em A PRIMA SOFIA guarda muita similaridade com sua vida real, trazendo uma brincadeira metalinguística desconhecida de quem não é francês ou de quem desconhece os bastidores. Ela é a prima que surge na cidade de Cannes de surpresa para visitar a jovem Naïma (Mina Farid), de 16 anos, que a recebe com muita alegria e entusiasmo. Há algo nessa prima que veio de Paris que passa a ser objeto de fascínio por Naïma, como seu sex appeal, sua tranquilidade em se expor de top less e também seu ar de liberdade em relação ao aproveitar a vida. Ela tem uma tatuagem acima do bumbum com a frase em latim "Carpe diem".
Em determinado momento, as duas estão tomando sol na praia e aparecem dois rapazes, atraídos pelo corpo exuberante de Sofia. E a garota não se importa com os rapazes. Ao contrário: deixa-os desconfortáveis ao aproximar a mão de um deles em seu seios e depois falar de sua pele macia e de outra parte do corpo dela ainda mais macia. O comportamento da prima deixa Naïma um pouco escandalizada, mas seu exemplo de liberdade faz com que, mais e mais, ela se torne um exemplo de vida.
Em entrevista para o site The Hot Corn, Zahia Dehar afirma: "eu não acredito que você pode se chamar de feminista se você coloca outras mulheres em jaulas". Depois, ela diz que admira as chamadas bad girls, já que são essas mulheres as mais fortes e as mais livres. Essa percepção da sociedade em torno da personagem é muito clara no filme, a cada vez que Sofia passa, com seus trajes provocantes, seja um vestido totalmente transparente para a noite, seja um vestido leve e florido, como o que ela usa para ir a um palacete na Itália, com os rapazes que ela conhece.
Essas cenas na Itália são deliciosas, inclusive, ao lidar com a questão do julgamento, do preconceito. Em determinado momento, Sofia, na roda de pessoas ricas que estão ali, afirma que aquele lugar lhe faz lembrar Marguerite Duras. Uma das mulheres (Clotilde Courau) ri e desconfia que aquela garota com jeito de prostituta não sabe nada da escritora e faz perguntas sobre quais livros ela gosta mais de Duras. Além do mais, nada mais simbólico do que ter em cena Courau, casada com o Príncipe de Veneza, nesta cena. Outro acerto de casting de Zlotowski.
A PRIMA SOFIA é também um conto sobre a brutalidade do homem, ainda que narre isso de maneira relativamente leve - afinal, já vimos coisas como VINTE ANOS, de Fernando Di Leo, que lida com essa brutalidade diante da beleza e da liberdade sexual feminina de maneira infinitamente mais agressiva. Mas talvez tenha resultado assim, de maneira muito menos exploratória, por ser narrado por uma mulher. Além do mais, por mais que Sofia atraia demais as atenções, a história é de Naïma, do quanto ela aprende naquele breve período de férias de verão, e no quanto ela aprende para sua vida, para o seu futuro. É um filme cujas semelhanças com A COLECIONADORA, de Éric Rohmer, têm sido citadas em algumas críticas. E tem mesmo tudo a ver.
P.S: Ouçam o podcast do Cinema na Varanda desta semana. A discussão em torno do filme é muito interessante.
+ DOIS FILMES
MULHERES QUE MATAM (Women Who Kill)
Em uma das edições do For Rainbow (de 2016), vi este filme interessante, um thriller sobre duas podcasters obcecadas por assassinos seriais de mulheres. Elas foram ex-namoradas e há ainda uma chance de ainda terem sentimentos uma pela outra. Infelizmente não anotei nada sobre o filme e as lembranças dele ficaram nebulosas demais. Lembro que gostei razoavelmente e é curioso que é um desses filmes que permaneceram inéditos no país, até onde sei. Então talvez tenha sido uma das raras exibições no país. Direção: Ingrid Jungermann. Ano: 2016.
A CIDADE DO FUTURO
Outro filme que muito me agradou na programação do For Rainbow de 2016, este filme da dupla Cláudio Marques e Marília Hughes, depois de terem ganhado força com o relativo sucesso do anterior, DEPOIS DA CHUVA (2013), foi bem recebido e talvez o melhor da mostra competitiva, pelo que me lembro. Na trama, vemos uma família formada por dois homens e uma mulher no interior da Bahia. É um filme que poderia ter tido uma repercussão maior no circuito alternativo. Ano: 2016.
terça-feira, agosto 18, 2020
A CADELA (La Chienne)
Assim como fiz com TEOREMA, na postagem anterior, ao checar os filmes do realizador presentes no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, fiz o mesmo com Jean Renoir, um dos maiores cineastas franceses de todos os tempos. Mesmo sabendo o quão querido é o cineasta, fiquei surpreso pelo número de títulos presentes: A CADELA (1931), BOUDU SALVO DAS ÁGUAS (1932), UM DIA NO CAMPO (1936), A GRANDE ILUSÃO (1937), A REGRA DO JOGO (1939) e A CARRUAGEM DE OURO (1952). Sem dúvida, um mestre; sem dúvida, seus filmes se tornaram clássicos. E mesmo já tendo visto uma meia dúzia de filmes dele, percebo que ainda é pouco para perceber sua poética.
Vi A CADELA recentemente por ocasião de minha peregrinação pelo cinema de Fritz Lang. Então, acessei o filme de Renoir de maneira indireta, já que se trata da primeira obra (de duas) do cineasta francês a ser refilmada por Lang em Hollywood. A CADELA foi refeito como ALMAS PERVERSAS (1945), a ser visto em breve.
Embora tenha visto alguns dos filmes mais aclamados de Renoir, nenhum deles havia me despertado tantos sentimentos de incômodo e de raiva, atração e repulsa, quanto este. E digo isso como um mérito do cineasta e de seus personagens. Todos eles são passíveis de nossa raiva, de nossa indignação e de nossa compreensão. Temos um cafetão, Dédé (Georges Flamant), que bate na prostituta, Lulu (Janie Marèze), que por sua vez se aproveita da bondade de Maurice Legrand (Michel Simon) para sugar tudo o que ele tem financeiramente para lhe retribuir praticamente nada em troca, apenas uma espécie de promessa de carinho. Além do mais, uma outra personagem é digna de nossa raiva, a esposa de Legrand, que o humilha e o maltrata.
Ou seja, é difícil ver o filme sem ficar se perguntando por que certos personagens se permitem viver em uma situação tão serviçal, tão humilhante, sem tomar uma atitude. Viver sozinho é preferível a viver em situação parecida com à dos personagens. Principalmente Legrand, o protagonista, excessivamente bondoso, aceitando tudo o que vem da "cadela" do título, até mesmo os quadros que ele pinta serem vendidos com um outro nome, com Dédé se aproveitando da situação. Ele é provavelmente a figura mais odiosa dos três, já que os outros dois ao menos são levados pela paixão.
Por isso faz sentido o filme começar com um teatrinho de marionetes falando diretamente ao espectador e dizendo-nos para não fazer julgamentos. Faz sentido. No meio do drama, é possível rir com uma situação que surge com o personagem de Michel Simon (no momento de sua primeira conversa com o primeiro marido da esposa). Trata-se de um momento especialmente importante para conferir mais leveza ao filme. Ao fim, é sim um conto moral, ainda que torto em suas vias, em seus destinos.
Não sei o quanto Fritz Lang muda nossas impressões sobre o comportamento humano, o quanto nos fará também espantados com os gestos de seus personagens, ou se trará também naturalidade a eles como Renoir faz. Os dois diretores lidam com tipos diferentes de realismo. E em Hollywood o realismo de Lang na década de 1940 já estava emoldurado com as tintas mais escuras do estilo adotado pelo cinema americano de então. Só sei que Renoir cada vez mais me atrai e desperta meu respeito.
+ TRÊS FILMES (CURTOS)
VIRAMUNDO
Por mais que a situação do povo nordestino tenha melhorado consideravelmente dos anos 1960 para cá, muita coisa não mudou. Inacreditável o depoimento de um nordestino já bem instalado em São Paulo, mas que diz que não se considera mais um "nortista", mas um paulista, e que os nordestinos só pensam em matar, ao contrário dos paulistas, que caminham para a frente. E ainda fala como um bolsonarista dos dias de hoje, reclamando das tendências esquerdistas dos sindicados. Algumas coisas não mudaram. Também me incomoda o discurso do patrão, mas já é de se esperar algo do tipo. Retrato de um período muito difícil, VIRAMUNDO ainda conta com a canção de Caetano Veloso na voz de Gilberto Gil que introduz o filme como um cordel cantado. Só me pareceu um tanto deslocada a última parte, que mostra cenas da umbanda, de cultos evangélicos, do espiritismo etc, mas dá para entender que seria uma espécie de caminho único para aqueles que sofrem de desesperança em um país em que os governantes estão pouco se lixando para os desfavorecidos. Direção: Geraldo Sarno. Ano 1965.
A RUA DAS CASAS SURDAS
Gostei da metáfora com as baratas e a resistência. E da surpresa também. Na trama, Em uma vizinhança silenciosa, durante a ditadura, dois homens acompanham um jogo de futebol pelo rádio, até que resolvem aproveitar o intervalo do primeiro tempo para voltar ao trabalho. Direção: Gabriel Mayer e Flávio Costa. Ano: 2016.
ABISSAL
Bacana esses trabalhos ligados à família, à busca pelo passado obscuro de nossos avós. O diretor cearense Arthur Leite, partindo do projeto de pesquisar a vida de um avô que nunca conheceu, começa a investigar a história da própria família. Quanto mais mergulha nela, mais se afasta da ideia original, percebendo que a personagem, na verdade, é sua avó, Rosa. Ano: 2016.
Vi A CADELA recentemente por ocasião de minha peregrinação pelo cinema de Fritz Lang. Então, acessei o filme de Renoir de maneira indireta, já que se trata da primeira obra (de duas) do cineasta francês a ser refilmada por Lang em Hollywood. A CADELA foi refeito como ALMAS PERVERSAS (1945), a ser visto em breve.
Embora tenha visto alguns dos filmes mais aclamados de Renoir, nenhum deles havia me despertado tantos sentimentos de incômodo e de raiva, atração e repulsa, quanto este. E digo isso como um mérito do cineasta e de seus personagens. Todos eles são passíveis de nossa raiva, de nossa indignação e de nossa compreensão. Temos um cafetão, Dédé (Georges Flamant), que bate na prostituta, Lulu (Janie Marèze), que por sua vez se aproveita da bondade de Maurice Legrand (Michel Simon) para sugar tudo o que ele tem financeiramente para lhe retribuir praticamente nada em troca, apenas uma espécie de promessa de carinho. Além do mais, uma outra personagem é digna de nossa raiva, a esposa de Legrand, que o humilha e o maltrata.
Ou seja, é difícil ver o filme sem ficar se perguntando por que certos personagens se permitem viver em uma situação tão serviçal, tão humilhante, sem tomar uma atitude. Viver sozinho é preferível a viver em situação parecida com à dos personagens. Principalmente Legrand, o protagonista, excessivamente bondoso, aceitando tudo o que vem da "cadela" do título, até mesmo os quadros que ele pinta serem vendidos com um outro nome, com Dédé se aproveitando da situação. Ele é provavelmente a figura mais odiosa dos três, já que os outros dois ao menos são levados pela paixão.
Por isso faz sentido o filme começar com um teatrinho de marionetes falando diretamente ao espectador e dizendo-nos para não fazer julgamentos. Faz sentido. No meio do drama, é possível rir com uma situação que surge com o personagem de Michel Simon (no momento de sua primeira conversa com o primeiro marido da esposa). Trata-se de um momento especialmente importante para conferir mais leveza ao filme. Ao fim, é sim um conto moral, ainda que torto em suas vias, em seus destinos.
Não sei o quanto Fritz Lang muda nossas impressões sobre o comportamento humano, o quanto nos fará também espantados com os gestos de seus personagens, ou se trará também naturalidade a eles como Renoir faz. Os dois diretores lidam com tipos diferentes de realismo. E em Hollywood o realismo de Lang na década de 1940 já estava emoldurado com as tintas mais escuras do estilo adotado pelo cinema americano de então. Só sei que Renoir cada vez mais me atrai e desperta meu respeito.
+ TRÊS FILMES (CURTOS)
VIRAMUNDO
Por mais que a situação do povo nordestino tenha melhorado consideravelmente dos anos 1960 para cá, muita coisa não mudou. Inacreditável o depoimento de um nordestino já bem instalado em São Paulo, mas que diz que não se considera mais um "nortista", mas um paulista, e que os nordestinos só pensam em matar, ao contrário dos paulistas, que caminham para a frente. E ainda fala como um bolsonarista dos dias de hoje, reclamando das tendências esquerdistas dos sindicados. Algumas coisas não mudaram. Também me incomoda o discurso do patrão, mas já é de se esperar algo do tipo. Retrato de um período muito difícil, VIRAMUNDO ainda conta com a canção de Caetano Veloso na voz de Gilberto Gil que introduz o filme como um cordel cantado. Só me pareceu um tanto deslocada a última parte, que mostra cenas da umbanda, de cultos evangélicos, do espiritismo etc, mas dá para entender que seria uma espécie de caminho único para aqueles que sofrem de desesperança em um país em que os governantes estão pouco se lixando para os desfavorecidos. Direção: Geraldo Sarno. Ano 1965.
A RUA DAS CASAS SURDAS
Gostei da metáfora com as baratas e a resistência. E da surpresa também. Na trama, Em uma vizinhança silenciosa, durante a ditadura, dois homens acompanham um jogo de futebol pelo rádio, até que resolvem aproveitar o intervalo do primeiro tempo para voltar ao trabalho. Direção: Gabriel Mayer e Flávio Costa. Ano: 2016.
ABISSAL
Bacana esses trabalhos ligados à família, à busca pelo passado obscuro de nossos avós. O diretor cearense Arthur Leite, partindo do projeto de pesquisar a vida de um avô que nunca conheceu, começa a investigar a história da própria família. Quanto mais mergulha nela, mais se afasta da ideia original, percebendo que a personagem, na verdade, é sua avó, Rosa. Ano: 2016.
domingo, agosto 16, 2020
TEOREMA
Já faz mais de um mês que vi TEOREMA (1968), de Pier Paolo Pasolini. Tive que checar a data, pois achava que fazia dois ou três meses. Com essa situação de isolamento social, estou perdendo muito a noção do tempo. Coisas que aconteceram ontem eu penso que foram antes, ficam dentro de uma espécie de névoa da memória, sem separação de dias, o passado imperfeito se misturando com o passado perfeito. O meu interesse em finalmente ver TEOREMA foi o fato de ser o mais aclamado filme de Pasolini, e não um outro motivo, creio eu.
Demorei a escrever a respeito por não ter me aproximado do filme em muitos aspectos. Mas entendo que se encaixa perfeitamente no espírito da época, 1968, quando certos filmes tinham ares de revolucionários como o ano, e chegam a parecer enigmáticos. E de fato este o é.
Peguei o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, e vi que dois filmes de Pasolini estão presentes na lista: aquele que possivelmente é o meu favorito dele, O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (1964), e o seu mais trabalho polêmico, SALÓ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (1975), que ainda não tive coragem de rever - quem sabe, em breve. Ou seja, TEOREMA, que eu jurava se encontrar na lista, não está. Talvez seja considerado mais um filme cultuado do que um filme clássico. No caso, uso a palavra "clássico" como "obra que fica presente" e não como estilo narrativo, já que se trata de um cinema mais moderno.
Talvez, ao ver TEOREMA, estivesse aguardando algo menos enigmático, mais simples. E até podemos dizer que há algo de muito simples na construção do enredo, durante a primeira metade. Acredito que já vimos isso em outros filmes: a figura de um homem (até pode ser uma mulher) que captura o desejo de todas as pessoas da casa (homens, mulheres, patrões e empregada). É possível lembrar de O PRINCÍPIO DO PRAZER, de Luiz Carlos Lacerda; de VISITOR Q, de Takashi Miike; de SUSANA, de Luis Buñuel; de SEXO - SUA ÚNICA ARMA, de Geraldo Vietri; e, ampliando o espectro, podemos lembrar de O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS, tanto a versão de Don Siegel quanto a de Sofia Coppola, embora a proposta de ambos seja bem diferente.
Claro que, até por ser homossexual, há elementos queer na obra, como close-ups da "parte baixa" do personagem de Terence Stamp, especialmente na cena em que ele está no jardim lendo um livro e a empregada da casa olha para ele com desejo. Stamp interpreta um homem misterioso que é recebido como hóspede em uma luxuosa casa e começa a ser objeto de desejo de todos os presentes. E Stamp de fato está muito bonito, elegante e charmoso em seus cerca de 30 anos de idade. Já Silvana Mangano já era uma estrela mais madura, ainda que belíssima, com sua maquiagem muito branca. Com Pasolini, ela já tinha feito ÉDIPO REI (1967). Do elenco também vale destacar a presença da menina que faz a filha, Anne Wiazemsky, de A GRANDE TESTEMUNHA, de Robert Bresson.
O que torna TEOREMA um filme mais cifrado é o seu "lado B", que traz um sentimento de pós-lisergia muito interessante, ao mostrar as consequências do encontro com o enigmático homem para todos da família. Há recursos simbolistas interessantes e imagens impactantes, como as da ascensão da empregada como santa em um vilarejo pobre. Ou seja, se antes havia uma dúvida se o personagem de Stamp seria um anjo ou um demônio, essa relação com essa personagem feminina o aproxima de um ser mais divino, o que não deixa de ser transgressor, já que ele desperta o desejo sexual de todos, e o sexo até hoje tem essa relação com o pecado, ainda mais em um país católico, como a Itália. Há também questões relacionadas ao comunismo, desde a primeira cena, tema caro ao cineasta. No mais, talvez eu prefira, por enquanto, ficar com uma lembrança de mistério em torno do filme.
+ TRÊS FILMES
LEMBRO MAIS DOS CORVOS
A proposta por si só já é interessante: filmar apenas o depoimento de vida da atriz trans Julia Katharine, aproveitando-se de fatos muito impactantes de sua vida, sendo que alguns, principalmente o primeiro contado, são muito difíceis para ela de compartilhar com a câmera. Retrato corajoso de uma vida e de desnudamento da alma de um ser humano, embora o caráter documental possa ser um engano, talvez tudo ou quase tudo seja fictício. O trabalho de Gustavo Vinagre merece ser visto com atenção. Direção: Gustavo Vinagre. Ano: 2018.
A ROSA AZUL DE NOVALIS
Gustavo Vinagre, agora com um codiretor, faz um outro filme em que investiga, através de entrevistas, um personagem curioso. Aqui temos a personalidade de Marcelo Diorio, um homem que conta detalhes de sua vida, suas lembranças traumáticas, suas taras, suas visões de vida e espiritualidade, mas há também cenas entre as entrevistas que acentuam o caráter de encenação, coisa que ficava menos explícita no trabalho anterior de Vinagre, LEMBRO MAIS DOS CORVOS. Aqui o que temos é um filme muito mais ousado, muito mais escandaloso. Com esses dois filmes, Vinagre vem se tornando um dos diretores mais interessantes do cinema brasileiro. Codireção: Rodrigo Carneiro. Ano: 2018.
ANTES O TEMPO NÃO ACABAVA
Pena não ter escrito nem sequer umas poucas linhas a respeito deste filme. Só sei que o vi pois deixei registrado no álbum do Facebook em novembro de 2016. Como estava fazendo parte do júri do festival For Rainbow na época, e o filme fazia parte da mostra competitiva, preferi não me expor. Na sinopse, um jovem rapaz de raízes na etnia indígena saterê, quando se muda para Manaus e vai morar na cidade grande, começa a se ver preso entre os embates culturais das tradições do mundo de onde veio e cresceu e os costumes urbanos da metrópole. Direção: Sergio Andrade e Fábio Baldo. Ano: 2016.
Demorei a escrever a respeito por não ter me aproximado do filme em muitos aspectos. Mas entendo que se encaixa perfeitamente no espírito da época, 1968, quando certos filmes tinham ares de revolucionários como o ano, e chegam a parecer enigmáticos. E de fato este o é.
Peguei o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer, e vi que dois filmes de Pasolini estão presentes na lista: aquele que possivelmente é o meu favorito dele, O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS (1964), e o seu mais trabalho polêmico, SALÓ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (1975), que ainda não tive coragem de rever - quem sabe, em breve. Ou seja, TEOREMA, que eu jurava se encontrar na lista, não está. Talvez seja considerado mais um filme cultuado do que um filme clássico. No caso, uso a palavra "clássico" como "obra que fica presente" e não como estilo narrativo, já que se trata de um cinema mais moderno.
Talvez, ao ver TEOREMA, estivesse aguardando algo menos enigmático, mais simples. E até podemos dizer que há algo de muito simples na construção do enredo, durante a primeira metade. Acredito que já vimos isso em outros filmes: a figura de um homem (até pode ser uma mulher) que captura o desejo de todas as pessoas da casa (homens, mulheres, patrões e empregada). É possível lembrar de O PRINCÍPIO DO PRAZER, de Luiz Carlos Lacerda; de VISITOR Q, de Takashi Miike; de SUSANA, de Luis Buñuel; de SEXO - SUA ÚNICA ARMA, de Geraldo Vietri; e, ampliando o espectro, podemos lembrar de O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS, tanto a versão de Don Siegel quanto a de Sofia Coppola, embora a proposta de ambos seja bem diferente.
Claro que, até por ser homossexual, há elementos queer na obra, como close-ups da "parte baixa" do personagem de Terence Stamp, especialmente na cena em que ele está no jardim lendo um livro e a empregada da casa olha para ele com desejo. Stamp interpreta um homem misterioso que é recebido como hóspede em uma luxuosa casa e começa a ser objeto de desejo de todos os presentes. E Stamp de fato está muito bonito, elegante e charmoso em seus cerca de 30 anos de idade. Já Silvana Mangano já era uma estrela mais madura, ainda que belíssima, com sua maquiagem muito branca. Com Pasolini, ela já tinha feito ÉDIPO REI (1967). Do elenco também vale destacar a presença da menina que faz a filha, Anne Wiazemsky, de A GRANDE TESTEMUNHA, de Robert Bresson.
O que torna TEOREMA um filme mais cifrado é o seu "lado B", que traz um sentimento de pós-lisergia muito interessante, ao mostrar as consequências do encontro com o enigmático homem para todos da família. Há recursos simbolistas interessantes e imagens impactantes, como as da ascensão da empregada como santa em um vilarejo pobre. Ou seja, se antes havia uma dúvida se o personagem de Stamp seria um anjo ou um demônio, essa relação com essa personagem feminina o aproxima de um ser mais divino, o que não deixa de ser transgressor, já que ele desperta o desejo sexual de todos, e o sexo até hoje tem essa relação com o pecado, ainda mais em um país católico, como a Itália. Há também questões relacionadas ao comunismo, desde a primeira cena, tema caro ao cineasta. No mais, talvez eu prefira, por enquanto, ficar com uma lembrança de mistério em torno do filme.
+ TRÊS FILMES
LEMBRO MAIS DOS CORVOS
A proposta por si só já é interessante: filmar apenas o depoimento de vida da atriz trans Julia Katharine, aproveitando-se de fatos muito impactantes de sua vida, sendo que alguns, principalmente o primeiro contado, são muito difíceis para ela de compartilhar com a câmera. Retrato corajoso de uma vida e de desnudamento da alma de um ser humano, embora o caráter documental possa ser um engano, talvez tudo ou quase tudo seja fictício. O trabalho de Gustavo Vinagre merece ser visto com atenção. Direção: Gustavo Vinagre. Ano: 2018.
A ROSA AZUL DE NOVALIS
Gustavo Vinagre, agora com um codiretor, faz um outro filme em que investiga, através de entrevistas, um personagem curioso. Aqui temos a personalidade de Marcelo Diorio, um homem que conta detalhes de sua vida, suas lembranças traumáticas, suas taras, suas visões de vida e espiritualidade, mas há também cenas entre as entrevistas que acentuam o caráter de encenação, coisa que ficava menos explícita no trabalho anterior de Vinagre, LEMBRO MAIS DOS CORVOS. Aqui o que temos é um filme muito mais ousado, muito mais escandaloso. Com esses dois filmes, Vinagre vem se tornando um dos diretores mais interessantes do cinema brasileiro. Codireção: Rodrigo Carneiro. Ano: 2018.
ANTES O TEMPO NÃO ACABAVA
Pena não ter escrito nem sequer umas poucas linhas a respeito deste filme. Só sei que o vi pois deixei registrado no álbum do Facebook em novembro de 2016. Como estava fazendo parte do júri do festival For Rainbow na época, e o filme fazia parte da mostra competitiva, preferi não me expor. Na sinopse, um jovem rapaz de raízes na etnia indígena saterê, quando se muda para Manaus e vai morar na cidade grande, começa a se ver preso entre os embates culturais das tradições do mundo de onde veio e cresceu e os costumes urbanos da metrópole. Direção: Sergio Andrade e Fábio Baldo. Ano: 2016.
sábado, agosto 15, 2020
SHE DIES TOMORROW
Ontem, ao saber da morte de um amigo de aproximadamente a minha idade, fiquei em um daqueles estados de descrédito da realidade, ainda mais agora em tempos de pandemia, quando ela parece ainda mais absurda. E ainda tem todo o cenário político, no Brasil, nos Estados Unidos, no mundo, que se encaminha para um cenário ainda mais assustador. Mas a morte do Márcio foi o que me abalou. Não que eu fosse tão próximo a ele. Talvez tenham sido as circunstâncias: a rapidez, o fato de ele estar presente e sempre alegre e fazendo piadas em nosso grupo do WhatsApp, e de repente não estar mais. Cheguei a conversar sobre isso com meu amigo Santiago, que, por sua vez, hoje pela manhã, me conta da notícia da morte da ex-namorada de um amigo nosso em comum. Essas mortes de pessoas jovens, e de maneira tão inesperada, nos deixam ainda mais fragilizados diante da vida.
E ontem, vejam só que filme eu fui escolher para ver à noite. Um filme em que uma personagem passa a acreditar piamente que morrerá no dia seguinte, e cuja certeza acaba passando para a amiga mais próxima, que por sua vez transfere esse sentimento a outros ao ir a uma festa. A primeira moça, Amy, vivida por Kate Lyn Sheil, até chega a ter sentimentos mistos com a sua condição. Não é que seja ruim a ideia da morte iminente, talvez seja ruim, mas simplesmente é. Simplesmente é algo que deve ser aceito como um fato. Um dos efeitos dessa relação de proximidade com a morte é olhar para as coisas de maneira diferente, como se fosse a primeira vez. Dizer coisas sem filtro também pode ser um efeito, assim como não se importar em lidar com relacionamentos só para agradar uma pessoa.
SHE DIES TOMORROW (2020) é dirigido por Amy Seimetz, atriz de CEMITÉRIO MALDITO e A ROTA SELVAGEM, entre outros. Ela dirigiu alguns curtas e um outro longa-metragem pouco conhecido, SUN DON'T SHINE (2012), também estrelado por Kate Lyn Sheil, provavelmente uma amiga próxima. O que vemos em SHE DIES TOMORROW pode ser estudado mais atentamente com um tipo de cinema de horror dirigido por mulheres que tem se mostrado bastante presente no circuito independente atual e que tem um tipo de enredo mais interiorizado.
Não à toa SHE DIES TOMORROW, ainda que tenha sido produzido antes da pandemia, tem se tornado um dos exemplares mais representativos desse sentimento que atingiu o mundo inteiro. Um sentimento de fragilidade, mas também de um movimento diferente no olhar a vida, no olhar as horas. No caso de Amy, a protagonista, logo no início do filme, ao falar com a amiga por telefone, afirma que um filme tem uma hora e meia. A amiga havia lhe dito para se acalmar, para ver um filme. Para quem vai morrer talvez ver um filme não seja mesmo a melhor pedida. Ela escuta música enquanto bebe vinho, então. Repete a mesma canção várias vezes na vitrola. E pensa que gostaria que os seus restos mortais se transformassem em uma coisa útil, como uma bolsa de couro, por exemplo.
O interessante da categorização do horror na atualidade é que a abrangência do gênero se amplificou. Cinema de horror não é mais apenas o cinema de sustos, o cinema de monstros, fantasmas ou coisas do tipo. E no caso de SHE DIES TOMORROW nem se trata de ter a morte como principal inimiga (será que ela é mesmo?), mas do modo como a construção da atmosfera prefere muito mais um drama psicológico do que um território para um medo mais familiar ao gênero. É possível, inclusive, rir em muitas cenas. O senso de humor é sutil e interessante. As cenas mais próximas do horror talvez sejam as de profusão de luzes. Eu costumo ficar incomodado com essas luzes coloridas piscando. E é também mais uma prova de que estamos vendo um cinema de baixo orçamento feito com carinho e inventividade.
+ TRÊS FILMES (CURTOS)
CORAÇÃO MIGRANTE
Belo conto agridoce sobre jovem que veio do interior, ainda sonhando com a mulher amada, e deposita suas esperanças no futebol, em um time de periferia. Legal como o filme é todo despido de glamour e mostra pessoas comuns, do dia a dia. E são poucos os diretores que se atrevem a mostrar futebol no cinema. Gostei do que os diretores alcançam aqui nas cenas da partida que mostrará (ou não) o talento de Juninho Mise-en-scéne. Há uma espécie de coro grego que intercala as cenas, só que com um homem tocando violão canções populares. Direção: Leonardo Amaral e Roberto Cotta. Ano: 2020.
O ESTACIONAMENTO
Embora tenha ficado sem entender sobre o que é o curta gostei bastante da ambientação e do clima de pesadelo que ele consegue criar. Na trama, um imigrante haitiano vem para o Brasil e, para sobreviver, arruma emprego em um estacionamento de carros. Ele também passa a viver no estabelecimento, mas começa a ficar louco com algumas situações. Direção: William Biagioli. Ano: 2016.
A MOÇA QUE DANÇOU COM O DIABO
Plasticamente muito bonito e realizado e a ideia final é muito boa. Fico incomodado um pouco com o tanto que o cinema pinta os evangélicos de modo pejorativo, mas aqui houve um motivo e foi para uma conclusão inteligente. Na trama, uma garota vive sua rotina tentando encontrar o seu paraíso na Terra. Direção: João Paulo Miranda. Ano: 2016.
E ontem, vejam só que filme eu fui escolher para ver à noite. Um filme em que uma personagem passa a acreditar piamente que morrerá no dia seguinte, e cuja certeza acaba passando para a amiga mais próxima, que por sua vez transfere esse sentimento a outros ao ir a uma festa. A primeira moça, Amy, vivida por Kate Lyn Sheil, até chega a ter sentimentos mistos com a sua condição. Não é que seja ruim a ideia da morte iminente, talvez seja ruim, mas simplesmente é. Simplesmente é algo que deve ser aceito como um fato. Um dos efeitos dessa relação de proximidade com a morte é olhar para as coisas de maneira diferente, como se fosse a primeira vez. Dizer coisas sem filtro também pode ser um efeito, assim como não se importar em lidar com relacionamentos só para agradar uma pessoa.
SHE DIES TOMORROW (2020) é dirigido por Amy Seimetz, atriz de CEMITÉRIO MALDITO e A ROTA SELVAGEM, entre outros. Ela dirigiu alguns curtas e um outro longa-metragem pouco conhecido, SUN DON'T SHINE (2012), também estrelado por Kate Lyn Sheil, provavelmente uma amiga próxima. O que vemos em SHE DIES TOMORROW pode ser estudado mais atentamente com um tipo de cinema de horror dirigido por mulheres que tem se mostrado bastante presente no circuito independente atual e que tem um tipo de enredo mais interiorizado.
Não à toa SHE DIES TOMORROW, ainda que tenha sido produzido antes da pandemia, tem se tornado um dos exemplares mais representativos desse sentimento que atingiu o mundo inteiro. Um sentimento de fragilidade, mas também de um movimento diferente no olhar a vida, no olhar as horas. No caso de Amy, a protagonista, logo no início do filme, ao falar com a amiga por telefone, afirma que um filme tem uma hora e meia. A amiga havia lhe dito para se acalmar, para ver um filme. Para quem vai morrer talvez ver um filme não seja mesmo a melhor pedida. Ela escuta música enquanto bebe vinho, então. Repete a mesma canção várias vezes na vitrola. E pensa que gostaria que os seus restos mortais se transformassem em uma coisa útil, como uma bolsa de couro, por exemplo.
O interessante da categorização do horror na atualidade é que a abrangência do gênero se amplificou. Cinema de horror não é mais apenas o cinema de sustos, o cinema de monstros, fantasmas ou coisas do tipo. E no caso de SHE DIES TOMORROW nem se trata de ter a morte como principal inimiga (será que ela é mesmo?), mas do modo como a construção da atmosfera prefere muito mais um drama psicológico do que um território para um medo mais familiar ao gênero. É possível, inclusive, rir em muitas cenas. O senso de humor é sutil e interessante. As cenas mais próximas do horror talvez sejam as de profusão de luzes. Eu costumo ficar incomodado com essas luzes coloridas piscando. E é também mais uma prova de que estamos vendo um cinema de baixo orçamento feito com carinho e inventividade.
+ TRÊS FILMES (CURTOS)
CORAÇÃO MIGRANTE
Belo conto agridoce sobre jovem que veio do interior, ainda sonhando com a mulher amada, e deposita suas esperanças no futebol, em um time de periferia. Legal como o filme é todo despido de glamour e mostra pessoas comuns, do dia a dia. E são poucos os diretores que se atrevem a mostrar futebol no cinema. Gostei do que os diretores alcançam aqui nas cenas da partida que mostrará (ou não) o talento de Juninho Mise-en-scéne. Há uma espécie de coro grego que intercala as cenas, só que com um homem tocando violão canções populares. Direção: Leonardo Amaral e Roberto Cotta. Ano: 2020.
O ESTACIONAMENTO
Embora tenha ficado sem entender sobre o que é o curta gostei bastante da ambientação e do clima de pesadelo que ele consegue criar. Na trama, um imigrante haitiano vem para o Brasil e, para sobreviver, arruma emprego em um estacionamento de carros. Ele também passa a viver no estabelecimento, mas começa a ficar louco com algumas situações. Direção: William Biagioli. Ano: 2016.
A MOÇA QUE DANÇOU COM O DIABO
Plasticamente muito bonito e realizado e a ideia final é muito boa. Fico incomodado um pouco com o tanto que o cinema pinta os evangélicos de modo pejorativo, mas aqui houve um motivo e foi para uma conclusão inteligente. Na trama, uma garota vive sua rotina tentando encontrar o seu paraíso na Terra. Direção: João Paulo Miranda. Ano: 2016.
sexta-feira, agosto 14, 2020
A MULHER DO LAGO (La Donna del Lago)
Hoje não está sendo um dos melhores dias. Acordei um tanto desanimado e comecei a atualizar umas fotos que estavam/estão com problema no blog como forma de aproveitar o tempo e a pouca inspiração, mas depois até apareceu uma animação para escrever sobre o protogiallo que eu vi ontem, A MULHER DO LAGO (1965), de Luigi Bazzoni e Franco Rossellini. Mas aí soube de uma notícia que abalou minhas estruturas: a morte de um amigo querido, dos tempos do Coral do IBEU, o Márcio. Logo agora que a turma estava se reunindo para um projeto (à distância) em plena pandemia. E aí fiquei pensando no quanto ele era divertido, mas também no quanto a nossa vida é um sopro. Ontem ele estava; hoje já não está mais. Nunca vou me esquecer da viagem para o Cumbuco, quando a gente (ele, Nilberto e Paulo Hugo e eu) fomos ver a final da Copa de 94. Foi a única final de Copa divertida para mim. Tratemos de nos manter vivos nestes tempos sombrios, então.
Vamos ver, então, se consigo escrever alguma coisa sobre o filme de ontem. Curiosamente, é também um filme que lida com o espanto diante da notícia da morte de alguém. Na trama, um escritor de romances, Bernard (Peter Baldwin), viaja a um local no litoral onde costumava passar as férias no passado. Ele se instala em um hotel bastante interessado em rever uma bela mulher que ele conhecera da última vez. Essa mulher, Tilde (Virna Lisi), aparece constantemente em suas memórias. Acontece que ele descobre que Tilde está morta. Supostamente se suicidou. Sem acreditar no ocorrido, e bastante desconfiado com as circunstâncias que levaram à morte de Tilde, Bernard procura investigar.
A investigação dele não chega a ser parecida com à de um policial. E muito do que ele pensa, mesmo em situações de confusão mental, é exposto em uma voice-over que nos aproxima do personagem, de suas angústias, do desejo que nutria por Tilde, e pela crescente desconfiança de que ela teria sido de fato assassinada pelo dono do hotel ou alguém muito próximo. A fotografia em preto e branco em tons claros dá um ar etéreo para a obra. Inclusive, muitas das cenas se passam durante o período frio. Em uma delas, Bernard está esperando uma mulher que ele acredita que poderá lhe contar algum segredo e enquanto espera ele se sente com muito frio e com febre.
É interessante como o cinema italiano da década de 1960 era rico. Além dos grandes mestres, autores respeitados em festivais mundo afora, havia os chamados filmes de gênero (gialli, filmes de horror, spaghetti westerns, filmes políticos, comédias populares, sci-fies, filmes de fantasia e de aventuras passados na antiguidade etc.). E às vezes havia filmes que não se enquadravam em certos gêneros e ficavam um tanto perdidos no meio de tudo. Talvez seja o caso de A MULHER DO LAGO, que traz inúmeros elementos que seriam popularizados no giallo, mas que se aproxima mais de um thriller psicológico dramático com tintas surrealistas.
Muito do que é mostrado na ação vem dos sonhos e dos delírios do protagonista. Tudo o que vemos de Tilde vem das lembranças dele. Há até a repetida imagem do olho (figura tão recorrente nos gialli) testemunhando a mulher na cama com outro homem. E assim Virna Lisi, ainda que tenha uma participação muito pequena, é a imagem que mais é lembrada ao final da projeção. Também ficamos com a forte lembrança do som do vento frio, das imagens do hotel vazio e de um clima fantasmagórico no ar.
+ TRÊS FILMES (CURTOS)
YES, GOD, YES
Aproveitando que postaram a legenda tanto para o curta quanto para o longa da mesma diretora e com a mesma atriz, vi logo o curta, de apenas 11 minutos. Quem viveu a internet discada vai se identificar; e quem já teve bases religiosas que trouxeram culpa para a consciência por causa do sexo e da masturbação também. O filme trata isso com muito senso de humor. Adoro a cena final. Mas todo o curta é muito agradável, parecendo mesmo uma preparação para o que a diretora faria a seguir. Nem sei se ficou bom o longa ainda, mas imagino que seja no mínimo bem divertido. Direção: Karen Maine. Ano: 2017.
FIRE (POZAR)
Tentar chegar a este filme pelo caminho da razão é difícil, já que o trabalho de David Lynch, que muitas vezes já é um tanto hermético, se torna ainda mais complicado quando ele usa o recurso da animação, que possibilita mais abstrações. Assim, o melhor caminho para se aproximar deste filme é outro, o da emoção talvez. Alguns simbolismos são bem próprios do Lynch, como o fogo, tão presente e que aqui se destaca novamente. Na página de divulgação do filme, Lynch falou que, no projeto, apresentado a alunos de uma escola de música em 2015, em parceria com o compositor Marek Zebrowski, o diretor não falaria nada de suas intenções para o músico. Ele veria as imagens e comporia a trilha a partir de suas próprias interpretações. É, certamente, o caso de filme para rever algumas vezes para prestar atenção em mais detalhes. Ano: 2015.
CLANDESTINA FELICIDADE
Não sabia da existência deste curta, um dos primeiros trabalhos de Marcelo Gomes, antes de estrear em longa com CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (2005). O que muito me animou, ao ser apresentado por ele, foi o meu recente encantamento com o conto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector, uma ode ao prazer de ler como raramente se vê. E há também toda a beleza do universo infantil e o universo da própria escritora, que é explorado em pequenos momentos do filme, que não é uma adaptação cena a cena do conto, o que é até bom. O que o conto tem de lindo no modo como termina, o curta tenta emular no sorriso de felicidade da menina Luísa Phebo. Adorei! Direção: Marcelo Gomes e Beto Normal. Ano: 1998.
Vamos ver, então, se consigo escrever alguma coisa sobre o filme de ontem. Curiosamente, é também um filme que lida com o espanto diante da notícia da morte de alguém. Na trama, um escritor de romances, Bernard (Peter Baldwin), viaja a um local no litoral onde costumava passar as férias no passado. Ele se instala em um hotel bastante interessado em rever uma bela mulher que ele conhecera da última vez. Essa mulher, Tilde (Virna Lisi), aparece constantemente em suas memórias. Acontece que ele descobre que Tilde está morta. Supostamente se suicidou. Sem acreditar no ocorrido, e bastante desconfiado com as circunstâncias que levaram à morte de Tilde, Bernard procura investigar.
A investigação dele não chega a ser parecida com à de um policial. E muito do que ele pensa, mesmo em situações de confusão mental, é exposto em uma voice-over que nos aproxima do personagem, de suas angústias, do desejo que nutria por Tilde, e pela crescente desconfiança de que ela teria sido de fato assassinada pelo dono do hotel ou alguém muito próximo. A fotografia em preto e branco em tons claros dá um ar etéreo para a obra. Inclusive, muitas das cenas se passam durante o período frio. Em uma delas, Bernard está esperando uma mulher que ele acredita que poderá lhe contar algum segredo e enquanto espera ele se sente com muito frio e com febre.
É interessante como o cinema italiano da década de 1960 era rico. Além dos grandes mestres, autores respeitados em festivais mundo afora, havia os chamados filmes de gênero (gialli, filmes de horror, spaghetti westerns, filmes políticos, comédias populares, sci-fies, filmes de fantasia e de aventuras passados na antiguidade etc.). E às vezes havia filmes que não se enquadravam em certos gêneros e ficavam um tanto perdidos no meio de tudo. Talvez seja o caso de A MULHER DO LAGO, que traz inúmeros elementos que seriam popularizados no giallo, mas que se aproxima mais de um thriller psicológico dramático com tintas surrealistas.
Muito do que é mostrado na ação vem dos sonhos e dos delírios do protagonista. Tudo o que vemos de Tilde vem das lembranças dele. Há até a repetida imagem do olho (figura tão recorrente nos gialli) testemunhando a mulher na cama com outro homem. E assim Virna Lisi, ainda que tenha uma participação muito pequena, é a imagem que mais é lembrada ao final da projeção. Também ficamos com a forte lembrança do som do vento frio, das imagens do hotel vazio e de um clima fantasmagórico no ar.
+ TRÊS FILMES (CURTOS)
YES, GOD, YES
Aproveitando que postaram a legenda tanto para o curta quanto para o longa da mesma diretora e com a mesma atriz, vi logo o curta, de apenas 11 minutos. Quem viveu a internet discada vai se identificar; e quem já teve bases religiosas que trouxeram culpa para a consciência por causa do sexo e da masturbação também. O filme trata isso com muito senso de humor. Adoro a cena final. Mas todo o curta é muito agradável, parecendo mesmo uma preparação para o que a diretora faria a seguir. Nem sei se ficou bom o longa ainda, mas imagino que seja no mínimo bem divertido. Direção: Karen Maine. Ano: 2017.
FIRE (POZAR)
Tentar chegar a este filme pelo caminho da razão é difícil, já que o trabalho de David Lynch, que muitas vezes já é um tanto hermético, se torna ainda mais complicado quando ele usa o recurso da animação, que possibilita mais abstrações. Assim, o melhor caminho para se aproximar deste filme é outro, o da emoção talvez. Alguns simbolismos são bem próprios do Lynch, como o fogo, tão presente e que aqui se destaca novamente. Na página de divulgação do filme, Lynch falou que, no projeto, apresentado a alunos de uma escola de música em 2015, em parceria com o compositor Marek Zebrowski, o diretor não falaria nada de suas intenções para o músico. Ele veria as imagens e comporia a trilha a partir de suas próprias interpretações. É, certamente, o caso de filme para rever algumas vezes para prestar atenção em mais detalhes. Ano: 2015.
CLANDESTINA FELICIDADE
Não sabia da existência deste curta, um dos primeiros trabalhos de Marcelo Gomes, antes de estrear em longa com CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (2005). O que muito me animou, ao ser apresentado por ele, foi o meu recente encantamento com o conto "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector, uma ode ao prazer de ler como raramente se vê. E há também toda a beleza do universo infantil e o universo da própria escritora, que é explorado em pequenos momentos do filme, que não é uma adaptação cena a cena do conto, o que é até bom. O que o conto tem de lindo no modo como termina, o curta tenta emular no sorriso de felicidade da menina Luísa Phebo. Adorei! Direção: Marcelo Gomes e Beto Normal. Ano: 1998.
quinta-feira, agosto 13, 2020
A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (Color out of Space)
Com uma carreira bem acidentada, Richard Stanley volta à direção de longas-metragens depois de um longo período apenas trabalhando em curtas, segmentos em longas coletivos e documentários. Hollywood não foi muito gentil com ele depois de demiti-lo no meio das filmagens de A ILHA DO DR. MOREAU (1996), filme que depois foi achincalhado, mesmo tendo o nome de John Frankenheimer como diretor - ele foi o encarregado de dar seguimento às filmagens. Lembrando que Stanley era uma promessa para o cinema de horror nos anos 1990, com filmes como HARDWARE - O DESTRUIDOR DO FUTURO (1990) e O COLECIONADOR DE ALMAS (1992).
Ainda assim, mesmo tendo tanta dificuldade de conseguir entrar novamente em um grande projeto, Stanley seguiu sendo cultuado por parte de fãs do gênero. A boa notícia é que seu novo filme, A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (2019), baseado em um conto de H.P. Lovecraft, é muito possivelmente seu melhor trabalho. Não está sendo e não será nada próximo de uma unanimidade, mas é muito bonito plasticamente e tem uma atmosfera de pesadelo crescente bastante envolvente.
Chama a atenção também a participação de Nicolas Cage, ator incansável que só em 2019 tem seis produções com seu nome como ator. Este filme de Stanley é um dos que mais têm a sua cara entre as produções recentes. Ou seja, ele não economiza nos gritos, nos tiques, naquilo que já nos acostumamos a ver. E não chega a atrapalhar nenhum pouco. Cai como uma luva para o filme.
Ele interpreta um pai de família que mora em uma região rural bastante afastada da cidade. mais próxima Esse detalhe é importante para que possamos nos dar conta do distanciamento da família quando o inferno chega. E o inferno chega em cores, em especial na cor-de-rosa bem viva. Quando a família está se preparando para dormir, algo parecido com um meteorito cai no jardim, deixando uma cratera imensa e muitas dúvidas sobre o que se trata. Aos poucos, cada membro da família passa a se comportar de maneira muito estranha.
Apesar da presença de Cage, podemos dizer que a verdadeira protagonista do filme é Madeleine Arthur, uma jovem com poucos títulos marcantes no currículo, mas que aqui demonstra muito carisma. Ela faz o papel da filha de Cage. Na primeira cena do filme, ela está praticando um ritual de magia à beira de um rio quando é flagrada por um rapaz que está passando. Sua intenção é fazer um feitiço para curar definitivamente sua mãe do câncer. Sua mãe é uma mulher frágil e carinhosa vivida por Joely Richardson, e que possui outros dois filhos, um adolescente e um garotinho, cada um deles de importância pontual para a trama. Fazem parte da família também as alpacas que o patriarca cria com muito carinho.
Mas, quem espera algo parecido com uma boa construção de personagens ou diálogos ricos, pode esquecer. Não que os diálogos sejam ruins ou o roteiro seja ruim. É que não parece haver nenhuma intenção por parte de Stanley de fazer um filme com essas bases. Seu maior interesse é na beleza, tanto a beleza das cores artificiais geradas por efeitos visuais quanto a beleza da natureza. E também a beleza dos efeitos gore, que em alguns momentos remetem a O ENIGMA DO OUTRO MUNDO, de John Carpenter, e outros filmes de horror oitentistas.
Em entrevista à revista britânica Sight & Sound, Stanley conta que teve que fazer algumas alterações na adaptação do conto, já que Lovecraft carrega de maneira quase explícita seu racismo e sua misoginia. Quanto aos aspectos niilistas do escritor, eles seguem presentes na adaptação, em especial quando a família vai se desintegrando mais e mais, tornando-se, literalmente, monstros sob o efeito da radiação alienígena.
Stanley também se sente muito grato a Nicolas Cage, um grande fã de Lovecraft. O cineasta afirma que ele foi o homem que restaurou sua fé em Hollywood novamente. Depois do trauma de A ILHA DO DR. MOREAU, poder filmar tudo com tranquilidade, em uma região rural de Portugal, e com todo o apoio dos atores e dos técnicos, e ter um resultado muito tão favorável não tem preço. As coisa foram tão bem que Stanley planeja duas novas adaptações de Lovecraft para breve. Aguardemos.
+ TRÊS FILMES
HOST
Com o tempo que esta pandemia está demorando a ir embora, daqui a pouco teremos um bom número destes filmes de horror que se passam no momento atual. HOST nem é tão original assim - lembrei de AMIZADE DESFEITA, lá do longínquo 2014, mas certamente há outros exemplos. Na trama, um grupo de jovens resolve fazer uma comunicação com uma entidade em uma webconferência via zoom com auxílio de uma médium. As coisas acontecem como se espera que aconteçam nesses filmes. O legal é esperar pela surpresa, pela originalidade. Pelo menos, fica a lição: nada de chamar pelos mortos durante encontros via web. Ainda mais se você não leva a sério a coisa. O filme tem pouco menos de uma hora, mas conto como longa-metragem. Direção: Rob Savage. Ano: 2020.
O SALÁRIO DO MEDO (Le Salaire de la Peur)
Um daqueles casos de filmes imperdíveis, mas que eu, como cinéfilo estava perdendo há muito tempo. A chance de ver no cinema, em cópia remasterizada, foi uma beleza. Interessante o quanto o filme passa de uma crônica divertida e cruel sobre uma sociedade pobre de um país latino-americano para um thriller de causar muita tensão em sua segunda metade. A longa duração nem é sentida. Outra coisa que chama muito a atenção é o modo como Clouzot escala sua esposa para ser uma mulher que sofre terríveis humilhações, o que só aumenta ainda mais a polêmica de sujeito cruel e sádico. Direção: Henri-Georges Clouzot. Ano: 1953.
VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI (Sorry We Missed You)
Uma paulada este filme de Ken Loach. Diferente de EU, DANIEL BLAKE (2016), este aqui parece acertar no tom até mesmo quando as desgraças na vida da família se acentuam de modo que sequer acreditamos. Além de tudo, contar a história e comover sem utilização de música já ganha o meu respeito. E o carinho com que ele trata esses personagens sofridos da classe trabalhista para fazer uma crítica do capitalismo da era Uber é sensacional. Mesmo quando determinado personagem pode ser encarado como o grande problema da família, Loach nos lembra que o buraco é mais embaixo. Eu não costumo dizer isso, mas diria que este filme é obrigatório, principalmente para pensar o atual momento político-econômico-social. Filme saído da safra de Cannes-2019.
Ainda assim, mesmo tendo tanta dificuldade de conseguir entrar novamente em um grande projeto, Stanley seguiu sendo cultuado por parte de fãs do gênero. A boa notícia é que seu novo filme, A COR QUE CAIU DO ESPAÇO (2019), baseado em um conto de H.P. Lovecraft, é muito possivelmente seu melhor trabalho. Não está sendo e não será nada próximo de uma unanimidade, mas é muito bonito plasticamente e tem uma atmosfera de pesadelo crescente bastante envolvente.
Chama a atenção também a participação de Nicolas Cage, ator incansável que só em 2019 tem seis produções com seu nome como ator. Este filme de Stanley é um dos que mais têm a sua cara entre as produções recentes. Ou seja, ele não economiza nos gritos, nos tiques, naquilo que já nos acostumamos a ver. E não chega a atrapalhar nenhum pouco. Cai como uma luva para o filme.
Ele interpreta um pai de família que mora em uma região rural bastante afastada da cidade. mais próxima Esse detalhe é importante para que possamos nos dar conta do distanciamento da família quando o inferno chega. E o inferno chega em cores, em especial na cor-de-rosa bem viva. Quando a família está se preparando para dormir, algo parecido com um meteorito cai no jardim, deixando uma cratera imensa e muitas dúvidas sobre o que se trata. Aos poucos, cada membro da família passa a se comportar de maneira muito estranha.
Apesar da presença de Cage, podemos dizer que a verdadeira protagonista do filme é Madeleine Arthur, uma jovem com poucos títulos marcantes no currículo, mas que aqui demonstra muito carisma. Ela faz o papel da filha de Cage. Na primeira cena do filme, ela está praticando um ritual de magia à beira de um rio quando é flagrada por um rapaz que está passando. Sua intenção é fazer um feitiço para curar definitivamente sua mãe do câncer. Sua mãe é uma mulher frágil e carinhosa vivida por Joely Richardson, e que possui outros dois filhos, um adolescente e um garotinho, cada um deles de importância pontual para a trama. Fazem parte da família também as alpacas que o patriarca cria com muito carinho.
Mas, quem espera algo parecido com uma boa construção de personagens ou diálogos ricos, pode esquecer. Não que os diálogos sejam ruins ou o roteiro seja ruim. É que não parece haver nenhuma intenção por parte de Stanley de fazer um filme com essas bases. Seu maior interesse é na beleza, tanto a beleza das cores artificiais geradas por efeitos visuais quanto a beleza da natureza. E também a beleza dos efeitos gore, que em alguns momentos remetem a O ENIGMA DO OUTRO MUNDO, de John Carpenter, e outros filmes de horror oitentistas.
Em entrevista à revista britânica Sight & Sound, Stanley conta que teve que fazer algumas alterações na adaptação do conto, já que Lovecraft carrega de maneira quase explícita seu racismo e sua misoginia. Quanto aos aspectos niilistas do escritor, eles seguem presentes na adaptação, em especial quando a família vai se desintegrando mais e mais, tornando-se, literalmente, monstros sob o efeito da radiação alienígena.
Stanley também se sente muito grato a Nicolas Cage, um grande fã de Lovecraft. O cineasta afirma que ele foi o homem que restaurou sua fé em Hollywood novamente. Depois do trauma de A ILHA DO DR. MOREAU, poder filmar tudo com tranquilidade, em uma região rural de Portugal, e com todo o apoio dos atores e dos técnicos, e ter um resultado muito tão favorável não tem preço. As coisa foram tão bem que Stanley planeja duas novas adaptações de Lovecraft para breve. Aguardemos.
+ TRÊS FILMES
HOST
Com o tempo que esta pandemia está demorando a ir embora, daqui a pouco teremos um bom número destes filmes de horror que se passam no momento atual. HOST nem é tão original assim - lembrei de AMIZADE DESFEITA, lá do longínquo 2014, mas certamente há outros exemplos. Na trama, um grupo de jovens resolve fazer uma comunicação com uma entidade em uma webconferência via zoom com auxílio de uma médium. As coisas acontecem como se espera que aconteçam nesses filmes. O legal é esperar pela surpresa, pela originalidade. Pelo menos, fica a lição: nada de chamar pelos mortos durante encontros via web. Ainda mais se você não leva a sério a coisa. O filme tem pouco menos de uma hora, mas conto como longa-metragem. Direção: Rob Savage. Ano: 2020.
O SALÁRIO DO MEDO (Le Salaire de la Peur)
Um daqueles casos de filmes imperdíveis, mas que eu, como cinéfilo estava perdendo há muito tempo. A chance de ver no cinema, em cópia remasterizada, foi uma beleza. Interessante o quanto o filme passa de uma crônica divertida e cruel sobre uma sociedade pobre de um país latino-americano para um thriller de causar muita tensão em sua segunda metade. A longa duração nem é sentida. Outra coisa que chama muito a atenção é o modo como Clouzot escala sua esposa para ser uma mulher que sofre terríveis humilhações, o que só aumenta ainda mais a polêmica de sujeito cruel e sádico. Direção: Henri-Georges Clouzot. Ano: 1953.
VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI (Sorry We Missed You)
Uma paulada este filme de Ken Loach. Diferente de EU, DANIEL BLAKE (2016), este aqui parece acertar no tom até mesmo quando as desgraças na vida da família se acentuam de modo que sequer acreditamos. Além de tudo, contar a história e comover sem utilização de música já ganha o meu respeito. E o carinho com que ele trata esses personagens sofridos da classe trabalhista para fazer uma crítica do capitalismo da era Uber é sensacional. Mesmo quando determinado personagem pode ser encarado como o grande problema da família, Loach nos lembra que o buraco é mais embaixo. Eu não costumo dizer isso, mas diria que este filme é obrigatório, principalmente para pensar o atual momento político-econômico-social. Filme saído da safra de Cannes-2019.
quarta-feira, agosto 12, 2020
UM RETRATO DE MULHER (The Woman in the Window)
É curioso o quanto a questão do sonho e o modo como Fritz Lang termina UM RETRATO DE MULHER (1944) ainda é motivo de controvérsia, de crítica, de desaprovação. Eu mesmo fiquei um tanto desapontado com a solução final, que soube que foi tomada pelo próprio Lang, mudando, assim, o final do romance no qual o filme se baseia. De todo modo, é bom lembrar que o título anterior de Lang foi QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944), que tem uma atmosfera de sonho fascinante que permeia toda a obra, do início ao fim. E é justamente um dos motivos pelos quais o filme me agrada tanto. O problema de UM RETRATO DE MULHER é que tem um pé no realismo também e isso pode distorcer ou incomodar um pouco.
Deixando essa questão do final de lado, UM RETRATO DE MULHER é um dos mais representativos noirs do período, embora a figura da femme fatale aqui não seja de uma mulher perigosa, mas de uma mulher que desencadeia uma situação perigosa. Na trama, Edward G. Robinson é um professor de psicologia e especialista em criminologia que sai para dar uma volta à noite, enquanto a esposa e seus filhos estão viajando. Ele encontra uma bela mulher (Joan Bennett), justamente a mulher que foi modelo de uma linda pintura exposta em uma vitrine, que o convida para beber e depois ir até o apartamento dela. De repente, entra um sujeito na casa, o amante dessa mulher, e tenta estrangulá-lo. Ele consegue se defender, dando tesouradas nas costas do homem. A tesoura foi dada pela morena.
Os dois ficam perturbados com a situação e a tentação de esconder o corpo do homem surge como uma ideia. Eles acreditam que seriam desacreditados pela polícia se contassem a verdade. E, então, algumas das melhores cenas do filme ocorrem: quando Robinson se esforça para levar o cadáver até o carro e depois até um matagal distante. Como ele e a mulher e o morto não têm nenhuma relação em comum haveria chance de ninguém descobrir. E toda a ação que se desenrola na tentativa de se livrar do corpo é marcante em todos os detalhes. Mas o bacana é que o filme vai se tornando mais divertido quando o amigo de Robinson, um procurador de justiça vivido por Raymond Massey, revela a ele notícias sobre o andamento das investigações do morto, que é um homem mais importante e famoso do que ele imaginara.
Como é fácil se colocar na posição de preocupação do protagonista, o filme se desenvolve bem nesse aspecto, embora o ritmo seja um pouco prejudicado com a entrada em cena do chantagista (Dan Duryea). Aliás, o surgimento do chantagista e a mudança do ponto de vista para o da personagem de Bennett não deixam de ser uma espécie de contradição para o final proposto por Lang. No entanto, isso é algo que pode ser relevado. "Deixemos de lado, cuidemos da vida".
A dobradinha Edward G. Robinson e Joan Bennett deu tão certo que Lang repetiria no filme seguinte, ALMAS PERVERSAS (1945). E é importante lembrar que Bennett já havia trabalhado com Lang em O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), com a diferença que no filme anterior ela era uma mulher mais ingênua, enquanto aqui é uma mulher com ar sedutor, ainda que não tão segura de si. Bennett ainda apareceria em mais um Lang: O SEGREDO DA PORTA FECHADA (1947). Quanto a Robinson, é interessante vê-lo saindo do tradicional papel de homem malvado ou de gângster, que foi o que mais o marcou, desde que fez ALMA NO LODO, no começo dos anos 1930.
+ TRÊS FILMES
TEOBALDO MORTO, ROMEU EXILADO
Acho que foi o filme mais chato e maçante que vi em 2016. Não quer dizer que tenha sido o pior, mas eu não entrei em sintonia em momento algum. Só queria que as duas horas se passassem logo. Chegou uma hora que estava pouco me importando para a lógica, para o drama ou para qualquer coisa. Das cerca de 10 pessoas em sala, só restaram eu e mais outro cara. Eu sou bravo e vou sempre até o fim. Direção: Rodrigo de Oliveira. Ano: 2015.
JOVENS INFELIZES OU UM HOMEM QUE GRITA NÃO É UM URSO QUE DANÇA
Acho difícil fazer um julgamento de bom ou ruim deste filme. É interessante e há uma passagem brincando com Becket, que é engraçadíssima. Sem falar que a estrutura é interessante, bem como o espírito anárquico, além do gesto de homenagem ao Carlão e também a Tonacci. Direção: Thiago B. Mendonça. Ano: 2016.
ATAQUE A LONDRES (London Has Fallen)
Eu comecei a desgostar do filme desde o começo, com sua edição e direção grosseiras e desleixada. Mas aí terminei o odiando, com o discurso imperialista do protagonista contra os terroristas. Os EUA são uma grande potência. Não precisam ficar alardeando isso, não. Ainda mais em filme ruim como esse. Pega mal. Detalhe: eu tinha gostado do primeiro filme, dirigido pelo Antoine Fuqua. Direção: Babak Najafi. Ano: 2016.
Deixando essa questão do final de lado, UM RETRATO DE MULHER é um dos mais representativos noirs do período, embora a figura da femme fatale aqui não seja de uma mulher perigosa, mas de uma mulher que desencadeia uma situação perigosa. Na trama, Edward G. Robinson é um professor de psicologia e especialista em criminologia que sai para dar uma volta à noite, enquanto a esposa e seus filhos estão viajando. Ele encontra uma bela mulher (Joan Bennett), justamente a mulher que foi modelo de uma linda pintura exposta em uma vitrine, que o convida para beber e depois ir até o apartamento dela. De repente, entra um sujeito na casa, o amante dessa mulher, e tenta estrangulá-lo. Ele consegue se defender, dando tesouradas nas costas do homem. A tesoura foi dada pela morena.
Os dois ficam perturbados com a situação e a tentação de esconder o corpo do homem surge como uma ideia. Eles acreditam que seriam desacreditados pela polícia se contassem a verdade. E, então, algumas das melhores cenas do filme ocorrem: quando Robinson se esforça para levar o cadáver até o carro e depois até um matagal distante. Como ele e a mulher e o morto não têm nenhuma relação em comum haveria chance de ninguém descobrir. E toda a ação que se desenrola na tentativa de se livrar do corpo é marcante em todos os detalhes. Mas o bacana é que o filme vai se tornando mais divertido quando o amigo de Robinson, um procurador de justiça vivido por Raymond Massey, revela a ele notícias sobre o andamento das investigações do morto, que é um homem mais importante e famoso do que ele imaginara.
Como é fácil se colocar na posição de preocupação do protagonista, o filme se desenvolve bem nesse aspecto, embora o ritmo seja um pouco prejudicado com a entrada em cena do chantagista (Dan Duryea). Aliás, o surgimento do chantagista e a mudança do ponto de vista para o da personagem de Bennett não deixam de ser uma espécie de contradição para o final proposto por Lang. No entanto, isso é algo que pode ser relevado. "Deixemos de lado, cuidemos da vida".
A dobradinha Edward G. Robinson e Joan Bennett deu tão certo que Lang repetiria no filme seguinte, ALMAS PERVERSAS (1945). E é importante lembrar que Bennett já havia trabalhado com Lang em O HOMEM QUE QUIS MATAR HITLER (1941), com a diferença que no filme anterior ela era uma mulher mais ingênua, enquanto aqui é uma mulher com ar sedutor, ainda que não tão segura de si. Bennett ainda apareceria em mais um Lang: O SEGREDO DA PORTA FECHADA (1947). Quanto a Robinson, é interessante vê-lo saindo do tradicional papel de homem malvado ou de gângster, que foi o que mais o marcou, desde que fez ALMA NO LODO, no começo dos anos 1930.
+ TRÊS FILMES
TEOBALDO MORTO, ROMEU EXILADO
Acho que foi o filme mais chato e maçante que vi em 2016. Não quer dizer que tenha sido o pior, mas eu não entrei em sintonia em momento algum. Só queria que as duas horas se passassem logo. Chegou uma hora que estava pouco me importando para a lógica, para o drama ou para qualquer coisa. Das cerca de 10 pessoas em sala, só restaram eu e mais outro cara. Eu sou bravo e vou sempre até o fim. Direção: Rodrigo de Oliveira. Ano: 2015.
JOVENS INFELIZES OU UM HOMEM QUE GRITA NÃO É UM URSO QUE DANÇA
Acho difícil fazer um julgamento de bom ou ruim deste filme. É interessante e há uma passagem brincando com Becket, que é engraçadíssima. Sem falar que a estrutura é interessante, bem como o espírito anárquico, além do gesto de homenagem ao Carlão e também a Tonacci. Direção: Thiago B. Mendonça. Ano: 2016.
ATAQUE A LONDRES (London Has Fallen)
Eu comecei a desgostar do filme desde o começo, com sua edição e direção grosseiras e desleixada. Mas aí terminei o odiando, com o discurso imperialista do protagonista contra os terroristas. Os EUA são uma grande potência. Não precisam ficar alardeando isso, não. Ainda mais em filme ruim como esse. Pega mal. Detalhe: eu tinha gostado do primeiro filme, dirigido pelo Antoine Fuqua. Direção: Babak Najafi. Ano: 2016.
segunda-feira, agosto 10, 2020
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (The Unbearable Lightness of Being)
Na época que A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER (1988) foi lançado nos cinemas, ele foi festejado como uma das produções americanas que melhor ousaram tratar do sexo de maneira tão aberta. Tanto que nem parece filme americano. A trinca de atores principais não é americana: Daniel Day-Lewis é inglês, Juliette Binoche é francesa e Lena Olin é sueca. Mesmo o diretor, Philip Kaufman, americano, depois deste filme, começou a namorar mais a cultura europeia, em HENRY & JUNE - DELÍRIOS ERÓTICOS (1990) e CONTOS PROIBIDOS DO MARQUÊS DE SADE (2000). Seu filme mais celebrado pela crítica talvez ainda seja OS ELEITOS (1983), presente em diversas listas de melhores dos anos 1980.
Mas minha intenção era fazer um texto daqueles mais memorialistas, já que este filme foi um dos mais importantes para o início da minha cinefilia. Enquanto aguardava o lançamento nos cinemas (o filme estreou em minha cidade no saudoso Cine Fortaleza), eu lia o romance de Milan Kundera e ficava muito intrigado em como seria feita a adaptação, já que não se trata de um romance tão focado na trama, mas mais em discussões filosóficas. A trama e seus personagens são mostrados com o carinho devido, mas é como se fossem um meio para que o escritor tcheco pudesse nos apresentar discussões sobre o mito do eterno retorno, o kitsch, a representação da imagem de Deus, entre outros tantos debates interessantes.
Alguns desses debates são colocados no filme na boca dos personagens em alguns momentos, e até podem parecer por vezes artificiais, mas foi uma forma que Kaufman e o célebre roteirista Jean-Claude Carrière encontraram para colocar um pouco do muito que há de questões filosóficas no livro de Kundera. Por outro lado, há coisas no filme que são de natureza extremamente cinematográfica, como a linda cena em que as duas mulheres, Tereza (Binoche) e Sabina (Olin), fazem sessões fotográficas de seus corpos nus. Tereza sabia que Tomas (Day-Lewis) era amante de Sabina e ter a oportunidade de ver em detalhes o corpo nu daquela mulher provavelmente traria muitos sentimentos conflitantes em sua mente. E o filme explora isso de maneira muito bonita, destacando tanto a sensualidade e a autoconfiança de Sabina, quanto a timidez e a difícil entrega de Tereza à nudez.
Na época que vi o filme, em 1989 ou 1990, não lembro exatamente, estava na escola ainda e minha excitação em vê-lo se dava por diferentes motivos: havia já um texto excelente do Eugenio Bucci publicado nos áureos tempos da revista SET que me serviu como um aperitivo, havia o interesse pelos corpos nus daquelas mulheres lindas e pelo erotismo, havia a admiração pelo aspecto sedutor de Tomas e havia o interesse em fazer essa comparação entre a obra literária e a obra cinematográfica. Mal sabia eu que eu faria um mestrado em literatura comparada décadas depois e estudaria o assunto para a minha dissertação.
Rever o filme neste fim de semana foi novamente muito prazeroso, por mais que estivesse bem mais distante da memória da obra de Kundera. Ainda assim, admirei a sensibilidade com que Kaufman e Carrière fecharam a narrativa, antecipando a tristeza para, em seguida, nos deixar apenas com a eternidade da felicidade do casal Tomas-Tereza. Achei que deram muito pouco espaço para Franz, personagem importantíssimo do livro, mas talvez tivessem que fazer isso por causa da duração - o filme tem quase três horas, talvez muita coisa tenha ficado na mesa de edição, um problema comum em se tratando de adaptações de romances.
Uma coisa que ainda me deixa muito impressionado é o luxo do filme. E quando falo em luxo nem me refiro à direção de arte, que é sim muito boa, mas em poder contar com artistas de primeiro escalão como Daniel Day-Lewis, que na época ainda não tinha se consagrado com três Oscars e sido considerado um dos melhores do mundo; Juliette Binoche, que talvez ainda fosse só vista como um rosto (e corpo) bonito, mas que depois seria respeitada como uma atriz fantástica que é; e nomes de peso, tanto no roteiro (Carrière, mais conhecido como parceiro de Luis Buñuel na fase francesa), quanto na direção de fotografia (Sven Nykvist, colaborador habitual do grande Ingmar Bergman). Ou seja, não dava para dizer que eles não contavam com gente de primeiríssima linha na equipe.
O espírito do tempo (1968) é mostrado em cenas da invasão dos tanques às ruas estreitas da cidade, na mistura de cenas em preto e branco documentadas com cenas filmadas incluindo Tomas e Tereza, destacando as tentativas (vãs) da população de tirarem os invasores de seu país. A versão tcheca de "Hey Jude", dos Beatles, é cantada por Marta Kubišová, muito popular na época em seu país e com canções que se tornaram símbolos da resistência, tanto que seus álbuns foram todos banidos das lojas tchecas em 1969. Quem viu o filme NO INTENSO AGORA, de João Moreira Salles, vai logo se lembrar da cena dos tanques e da proibição das fotografias e filmagens no país.
Se eu fosse citar as cenas de que mais gosto, gastaria muito tempo aqui, embora já tenha destacado a cena da sessão de fotos. Mas toda a interpretação de Day-Lewis como Tomas é brilhante. Faz-nos ter um pouco de inveja dele, de seu personagem, de seu olhar capaz de, tão facilmente, levar para a cama mulheres dos mais variados tipos. No romance, a mulher que se encanta com ele enquanto ele está lavando janelas é citada como de pescoço de girafa. Ou seja, ele gostava também da variedade. As cenas de intimidade de Tomas, tanto com Sabina, uma amiga-amante adorável, quanto com Tereza, sua esposa um tanto triste com suas saídas com outras mulheres, mas lindamente carinhosa, são também destaques.
Adoro uma cena em que ela acorda de um sonho ruim e Tomas a abraça, dizendo: "Você pode dormir, durma em meus braços, durma como um passarinho". É lindo isso. E há a cena do retorno dele a Praga, mesmo um tanto contrariado com a fuga da esposa, com o fato de agora os dois estarem presos em um país com um regime totalitário cruel, agora que os russos tomaram de conta. O olhar dele, o dela. A cachorrinha Karenin correndo para buscá-lo na porta. Aliás, o quanto Karenin é representativa do amor que o filme traz, hein. Belíssima obra, que cresceu ainda mais na revisão, e mais ainda agora enquanto estou lhe dedicando essas linhas.
Agradecimentos à Paula, que mais uma vez topou ver um filme da minha "curadoria", em esquema simultâneo.
+ TRÊS FILMES
EMMA.
Que bom que o pessoal do Cinema na Varanda resolveu escolhê-lo para a discussão da semana, já que foi o empurrãozinho que eu precisava para dar-lhe uma segunda chance (havia desistido depois de uma noite de impaciência). EMMA. é um filme que vai se tornando melhor à medida que a trama se desenrola, que os personagens deixam de se esconder atrás de afetações e leves arrogâncias para se mostrarem como realmente são. Como é o caso principalmente de Emma, tão lindamente interpretada por Anya Taylor-Joy, tão radiante quanto a bela fotografia, que destaca o amarelo das flores e o verde da grama. A maior parte das cenas se passa durante o dia, inclusive. Muito sol. Mas o filme me ganhou mesmo nas cenas em que alguns personagens mostram ao máximo suas fragilidades e uma diretora então especializada em videoclipes se mostra bem sensível aos espíritos apaixonados. Direção: Autumn de Wilde. Ano: 2020.
A CAUDA DO ESCORPIÃO (La Codda dello Scorpione / The Case of the Scorpion's Tail)
Não há como negar o charme deste belo giallo e as surpresas que ele traz com os caminhos que a trama vai tomando, à medida que os assassinatos vão se somando. O ideal é ver o filme sem saber nada a respeito, para não estragar um pouco essas surpresas. A trama inicialmente acompanha uma mulher que é beneficiada com uma soma em dinheiro de um milhão de dólares, do seguro deixado pelo marido, morto em um acidente aéreo. Curiosamente, este seria o filme que eu veria em homenagem a George Hilton, falecido no ano passado, mas que acabei não vendo por algum motivo. Foi bom só ter visto agora, pois só depois surgiram cópias restauradas. A cópia constante no box Giallo Vol. 6, da Versátil, está lindona. Há ainda dois extras sobre o filme para ver. Quanto às mulheres, destaque para a sueca Anita Strindberg, que no ano seguinte faria outro filme com Martino, NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972). Direção: Sergio Martino. Ano: 1971.
PEDRO SOB A CAMA
Filme pequeno, mas com potencial para gerar emoções fortes envolvendo a distância e a reaproximação de um pai na vida de seus dois filhos. Os meninos estão muito bem, e Fernando Alves Pinto também. Na trama, Pedro é um menino sonhador que não fala, abandonado pelo pai tão logo nasceu. Ao saber que o pai retornou à cidade, ele toma uma decisão ousada: invade a casa dele e se esconde debaixo da cama, a fim de acompanhar um pouco a rotina do homem que pouco conhece. Visto no Cine Ceará de 2017. Direção: Paulo Pons. Ano: 2017.
Mas minha intenção era fazer um texto daqueles mais memorialistas, já que este filme foi um dos mais importantes para o início da minha cinefilia. Enquanto aguardava o lançamento nos cinemas (o filme estreou em minha cidade no saudoso Cine Fortaleza), eu lia o romance de Milan Kundera e ficava muito intrigado em como seria feita a adaptação, já que não se trata de um romance tão focado na trama, mas mais em discussões filosóficas. A trama e seus personagens são mostrados com o carinho devido, mas é como se fossem um meio para que o escritor tcheco pudesse nos apresentar discussões sobre o mito do eterno retorno, o kitsch, a representação da imagem de Deus, entre outros tantos debates interessantes.
Alguns desses debates são colocados no filme na boca dos personagens em alguns momentos, e até podem parecer por vezes artificiais, mas foi uma forma que Kaufman e o célebre roteirista Jean-Claude Carrière encontraram para colocar um pouco do muito que há de questões filosóficas no livro de Kundera. Por outro lado, há coisas no filme que são de natureza extremamente cinematográfica, como a linda cena em que as duas mulheres, Tereza (Binoche) e Sabina (Olin), fazem sessões fotográficas de seus corpos nus. Tereza sabia que Tomas (Day-Lewis) era amante de Sabina e ter a oportunidade de ver em detalhes o corpo nu daquela mulher provavelmente traria muitos sentimentos conflitantes em sua mente. E o filme explora isso de maneira muito bonita, destacando tanto a sensualidade e a autoconfiança de Sabina, quanto a timidez e a difícil entrega de Tereza à nudez.
Na época que vi o filme, em 1989 ou 1990, não lembro exatamente, estava na escola ainda e minha excitação em vê-lo se dava por diferentes motivos: havia já um texto excelente do Eugenio Bucci publicado nos áureos tempos da revista SET que me serviu como um aperitivo, havia o interesse pelos corpos nus daquelas mulheres lindas e pelo erotismo, havia a admiração pelo aspecto sedutor de Tomas e havia o interesse em fazer essa comparação entre a obra literária e a obra cinematográfica. Mal sabia eu que eu faria um mestrado em literatura comparada décadas depois e estudaria o assunto para a minha dissertação.
Rever o filme neste fim de semana foi novamente muito prazeroso, por mais que estivesse bem mais distante da memória da obra de Kundera. Ainda assim, admirei a sensibilidade com que Kaufman e Carrière fecharam a narrativa, antecipando a tristeza para, em seguida, nos deixar apenas com a eternidade da felicidade do casal Tomas-Tereza. Achei que deram muito pouco espaço para Franz, personagem importantíssimo do livro, mas talvez tivessem que fazer isso por causa da duração - o filme tem quase três horas, talvez muita coisa tenha ficado na mesa de edição, um problema comum em se tratando de adaptações de romances.
Uma coisa que ainda me deixa muito impressionado é o luxo do filme. E quando falo em luxo nem me refiro à direção de arte, que é sim muito boa, mas em poder contar com artistas de primeiro escalão como Daniel Day-Lewis, que na época ainda não tinha se consagrado com três Oscars e sido considerado um dos melhores do mundo; Juliette Binoche, que talvez ainda fosse só vista como um rosto (e corpo) bonito, mas que depois seria respeitada como uma atriz fantástica que é; e nomes de peso, tanto no roteiro (Carrière, mais conhecido como parceiro de Luis Buñuel na fase francesa), quanto na direção de fotografia (Sven Nykvist, colaborador habitual do grande Ingmar Bergman). Ou seja, não dava para dizer que eles não contavam com gente de primeiríssima linha na equipe.
O espírito do tempo (1968) é mostrado em cenas da invasão dos tanques às ruas estreitas da cidade, na mistura de cenas em preto e branco documentadas com cenas filmadas incluindo Tomas e Tereza, destacando as tentativas (vãs) da população de tirarem os invasores de seu país. A versão tcheca de "Hey Jude", dos Beatles, é cantada por Marta Kubišová, muito popular na época em seu país e com canções que se tornaram símbolos da resistência, tanto que seus álbuns foram todos banidos das lojas tchecas em 1969. Quem viu o filme NO INTENSO AGORA, de João Moreira Salles, vai logo se lembrar da cena dos tanques e da proibição das fotografias e filmagens no país.
Se eu fosse citar as cenas de que mais gosto, gastaria muito tempo aqui, embora já tenha destacado a cena da sessão de fotos. Mas toda a interpretação de Day-Lewis como Tomas é brilhante. Faz-nos ter um pouco de inveja dele, de seu personagem, de seu olhar capaz de, tão facilmente, levar para a cama mulheres dos mais variados tipos. No romance, a mulher que se encanta com ele enquanto ele está lavando janelas é citada como de pescoço de girafa. Ou seja, ele gostava também da variedade. As cenas de intimidade de Tomas, tanto com Sabina, uma amiga-amante adorável, quanto com Tereza, sua esposa um tanto triste com suas saídas com outras mulheres, mas lindamente carinhosa, são também destaques.
Adoro uma cena em que ela acorda de um sonho ruim e Tomas a abraça, dizendo: "Você pode dormir, durma em meus braços, durma como um passarinho". É lindo isso. E há a cena do retorno dele a Praga, mesmo um tanto contrariado com a fuga da esposa, com o fato de agora os dois estarem presos em um país com um regime totalitário cruel, agora que os russos tomaram de conta. O olhar dele, o dela. A cachorrinha Karenin correndo para buscá-lo na porta. Aliás, o quanto Karenin é representativa do amor que o filme traz, hein. Belíssima obra, que cresceu ainda mais na revisão, e mais ainda agora enquanto estou lhe dedicando essas linhas.
Agradecimentos à Paula, que mais uma vez topou ver um filme da minha "curadoria", em esquema simultâneo.
+ TRÊS FILMES
EMMA.
Que bom que o pessoal do Cinema na Varanda resolveu escolhê-lo para a discussão da semana, já que foi o empurrãozinho que eu precisava para dar-lhe uma segunda chance (havia desistido depois de uma noite de impaciência). EMMA. é um filme que vai se tornando melhor à medida que a trama se desenrola, que os personagens deixam de se esconder atrás de afetações e leves arrogâncias para se mostrarem como realmente são. Como é o caso principalmente de Emma, tão lindamente interpretada por Anya Taylor-Joy, tão radiante quanto a bela fotografia, que destaca o amarelo das flores e o verde da grama. A maior parte das cenas se passa durante o dia, inclusive. Muito sol. Mas o filme me ganhou mesmo nas cenas em que alguns personagens mostram ao máximo suas fragilidades e uma diretora então especializada em videoclipes se mostra bem sensível aos espíritos apaixonados. Direção: Autumn de Wilde. Ano: 2020.
A CAUDA DO ESCORPIÃO (La Codda dello Scorpione / The Case of the Scorpion's Tail)
Não há como negar o charme deste belo giallo e as surpresas que ele traz com os caminhos que a trama vai tomando, à medida que os assassinatos vão se somando. O ideal é ver o filme sem saber nada a respeito, para não estragar um pouco essas surpresas. A trama inicialmente acompanha uma mulher que é beneficiada com uma soma em dinheiro de um milhão de dólares, do seguro deixado pelo marido, morto em um acidente aéreo. Curiosamente, este seria o filme que eu veria em homenagem a George Hilton, falecido no ano passado, mas que acabei não vendo por algum motivo. Foi bom só ter visto agora, pois só depois surgiram cópias restauradas. A cópia constante no box Giallo Vol. 6, da Versátil, está lindona. Há ainda dois extras sobre o filme para ver. Quanto às mulheres, destaque para a sueca Anita Strindberg, que no ano seguinte faria outro filme com Martino, NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972). Direção: Sergio Martino. Ano: 1971.
PEDRO SOB A CAMA
Filme pequeno, mas com potencial para gerar emoções fortes envolvendo a distância e a reaproximação de um pai na vida de seus dois filhos. Os meninos estão muito bem, e Fernando Alves Pinto também. Na trama, Pedro é um menino sonhador que não fala, abandonado pelo pai tão logo nasceu. Ao saber que o pai retornou à cidade, ele toma uma decisão ousada: invade a casa dele e se esconde debaixo da cama, a fim de acompanhar um pouco a rotina do homem que pouco conhece. Visto no Cine Ceará de 2017. Direção: Paulo Pons. Ano: 2017.
domingo, agosto 09, 2020
A MORTE CANSADA (Der Müde Tod)
Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas.
(Cantares 8.6)
Continuando minha peregrinação pelo cinema de Fritz Lang utilizando o método de ir e voltar no tempo, por conta de minha dificuldade em adentrar os filmes silenciosos da mesma forma que os sonoros, chego agora em A MORTE CANSADA (1921), considerado por muitos como a primeira obra-prima de Fritz Lang. Ou pelo menos ou o seu primeiro grande filme. Foi a partir deste trabalho que o cineasta passou a ser valorizado como um dos mais importantes da Alemanha. Da Europa, na verdade.
Interessante notar o quanto o realismo tão presente no início do cinema falado não era exatamente uma característica do cineasta em seus filmes silenciosos, que traziam o romantismo (como é o caso deste filme aqui), o futurismo, histórias de espiões e de super-vilões extraordinários, como é o caso do Dr. Mabuse, que surgiria na produção seguinte do realizador, e este sim, eu posso considerar como sua primeira obra-prima.
Essa relação de seus heróis e heroínas com a morte, ele chegou a levar para LILIOM (1934), seu único filme francês, e que também traz um personagem conversando com pessoas do mundo espiritual, discutindo possibilidades pós-morte. Soube, lendo um texto de um livro sobre Lang (de Lotte H. Eisner) que o cineasta, quando criança, enquanto esteve doente, teve um sonho sobre a morte chegando até ele de maneira atraente.
Em A MORTE CANSADA, então, surge essa figura da morte materializada em forma humana, como posteriormente veríamos em O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman, inclusive no modo como a morte também negocia a vida de uma pessoa. Sendo que no filme de Lang é a vida de uma pessoa amada que está sendo negociada e não a própria. Uma jovem tem seu namorado levado pela morte e, ao tentar o suicídio, vai parar em um lugar em que faz esse trato com a morte: ela teria três chances de salvar pessoas que estão prestes a morrer em tempos e locais distintos. Se ela salvar uma dessas pessoas, a morte dará seu amado de volta.
Não sou muito fã da parte dos episódios. Talvez por que já fico imaginando que, pelo menos nas duas primeiras histórias, ela não conseguirá salvar a pessoa. A dúvida é se conseguirá na terceira. E, como essas histórias são responsáveis pela maior parte da duração do filme, acabei me desinteressando um pouco, embora admire muito os aspectos técnicos e o quanto Lang decidiu fazer uma obra de narrativa mais simples, mas enriquecendo nos detalhes, como efeitos visuais inovadores, cenografia impressionante, cenas que parecem de grandes produções etc. E há também a beleza plástica da fotografia e dos enquadramentos, que muitas vezes são valorizadas pelo efeito de tintura na fotografia, algo comum nos filmes da virada dos anos 1910 e 1920.
Quando à história, acho que o que mais me chamou a atenção foi o último ato, quando a mulher vai em busca de alguém que queira dar a vida por uma outra pessoa - a morte ainda dá essa colher de chá pra ela. Assim, ela faz o pedido a um velhinho mendigo, a um grupo de velhinhas que reclama da vida em um asilo e de outro idoso, mas nenhuma dessas pessoas têm a coragem de se desapegar da vida. E aí há a cena ótima do incêndio, em que um bebê corre perigo de vida e muda os rumos dos acontecimentos para a protagonista. Todo esse trecho tem um poder imenso. Não à toa que Luis Buñuel chegou a dizer que foi A MORTE CANSADA que abriu seus olhos para a expressividade poética do cinema.
+ TRÊS FILMES
NASCIDA PARA O MAL (In This Our Life)
O filme escolhido por mim para homenagear Olivia de Havilland foi este, em que ela faz a irmã boa da família, enquanto Bette Davis, pra variar, é aquela mulher com o cão nos couros. Depois de roubar o marido da irmã e fazer outras presepadas, a personagem chega a cometer outros atos terríveis no meio do caminho. Incomodou-me um pouco a trilha sonora que não dá trégua, mas achei este melodrama noir bem interessante. Inclusive, há uma questão que eu não tinha notado em filmes dessa época, até então: uma visão mais crítica e progressista quanto à questão do negro nos Estados Unidos. Há um personagem negro que lava o carro da família e que tem a intenção de estudar direito e ser um advogado. Hattie McDaniel, a mulher negra que ganhou o Oscar por ...E O VENTO LEVOU novamente trabalha com Olivia num mesmo filme, em um papel, infelizmente, ainda muito semelhante ao que a projetou. Curioso como essa questão do racismo acaba sendo tão forte (em especial dentro da discussão atual), que superou, pra mim, a história principal. Este foi o segundo filme dirigido por John Huston, que teve um caso tórrido com Olivia durante as filmagens. Raoul Walsh, não creditado, assumiu as filmagens na última semana, por motivos não explicados. Ano: 1942.
THE ROOM
O filme é mesmo ruim pra cacete e não saberia de sua existência se não fosse James Franco. Por isso me diverti posteriormente vendo O ARTISTA DO DESASTRE. Foi pensando nisso que eu até curti THE ROOM em diversos momentos. É quase um filme pornô sem pornografia. Não à toa virou um objeto de culto. Direção: Tommy Wiseau. Ano: 2003.
COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (How to Train Your Dragon - The Hidden World)
Ah, eu e minha relação com as animações. Como elas geralmente despertam em mim um sono muito incômodo. Engraçado que alguns filmes da Disney e da Pixar são uma exceção. Mas esses da Dreamworks, meu Deus... Tive que gastar com pipoca pra me manter acordado. Engraçado que eu tenho pouca lembrança dos outros dois e não tenho uma relação de afeto como muitos têm. Enfim, não me arrependo de ter ido vê-lo, mas acho que se fosse ver o filme ruim da Jennifer Lopez talvez eu não tivesse passado por isso. Direção: Dean DeBlois. Ano: 2019.
(Cantares 8.6)
Continuando minha peregrinação pelo cinema de Fritz Lang utilizando o método de ir e voltar no tempo, por conta de minha dificuldade em adentrar os filmes silenciosos da mesma forma que os sonoros, chego agora em A MORTE CANSADA (1921), considerado por muitos como a primeira obra-prima de Fritz Lang. Ou pelo menos ou o seu primeiro grande filme. Foi a partir deste trabalho que o cineasta passou a ser valorizado como um dos mais importantes da Alemanha. Da Europa, na verdade.
Interessante notar o quanto o realismo tão presente no início do cinema falado não era exatamente uma característica do cineasta em seus filmes silenciosos, que traziam o romantismo (como é o caso deste filme aqui), o futurismo, histórias de espiões e de super-vilões extraordinários, como é o caso do Dr. Mabuse, que surgiria na produção seguinte do realizador, e este sim, eu posso considerar como sua primeira obra-prima.
Essa relação de seus heróis e heroínas com a morte, ele chegou a levar para LILIOM (1934), seu único filme francês, e que também traz um personagem conversando com pessoas do mundo espiritual, discutindo possibilidades pós-morte. Soube, lendo um texto de um livro sobre Lang (de Lotte H. Eisner) que o cineasta, quando criança, enquanto esteve doente, teve um sonho sobre a morte chegando até ele de maneira atraente.
Em A MORTE CANSADA, então, surge essa figura da morte materializada em forma humana, como posteriormente veríamos em O SÉTIMO SELO, de Ingmar Bergman, inclusive no modo como a morte também negocia a vida de uma pessoa. Sendo que no filme de Lang é a vida de uma pessoa amada que está sendo negociada e não a própria. Uma jovem tem seu namorado levado pela morte e, ao tentar o suicídio, vai parar em um lugar em que faz esse trato com a morte: ela teria três chances de salvar pessoas que estão prestes a morrer em tempos e locais distintos. Se ela salvar uma dessas pessoas, a morte dará seu amado de volta.
Não sou muito fã da parte dos episódios. Talvez por que já fico imaginando que, pelo menos nas duas primeiras histórias, ela não conseguirá salvar a pessoa. A dúvida é se conseguirá na terceira. E, como essas histórias são responsáveis pela maior parte da duração do filme, acabei me desinteressando um pouco, embora admire muito os aspectos técnicos e o quanto Lang decidiu fazer uma obra de narrativa mais simples, mas enriquecendo nos detalhes, como efeitos visuais inovadores, cenografia impressionante, cenas que parecem de grandes produções etc. E há também a beleza plástica da fotografia e dos enquadramentos, que muitas vezes são valorizadas pelo efeito de tintura na fotografia, algo comum nos filmes da virada dos anos 1910 e 1920.
Quando à história, acho que o que mais me chamou a atenção foi o último ato, quando a mulher vai em busca de alguém que queira dar a vida por uma outra pessoa - a morte ainda dá essa colher de chá pra ela. Assim, ela faz o pedido a um velhinho mendigo, a um grupo de velhinhas que reclama da vida em um asilo e de outro idoso, mas nenhuma dessas pessoas têm a coragem de se desapegar da vida. E aí há a cena ótima do incêndio, em que um bebê corre perigo de vida e muda os rumos dos acontecimentos para a protagonista. Todo esse trecho tem um poder imenso. Não à toa que Luis Buñuel chegou a dizer que foi A MORTE CANSADA que abriu seus olhos para a expressividade poética do cinema.
+ TRÊS FILMES
NASCIDA PARA O MAL (In This Our Life)
O filme escolhido por mim para homenagear Olivia de Havilland foi este, em que ela faz a irmã boa da família, enquanto Bette Davis, pra variar, é aquela mulher com o cão nos couros. Depois de roubar o marido da irmã e fazer outras presepadas, a personagem chega a cometer outros atos terríveis no meio do caminho. Incomodou-me um pouco a trilha sonora que não dá trégua, mas achei este melodrama noir bem interessante. Inclusive, há uma questão que eu não tinha notado em filmes dessa época, até então: uma visão mais crítica e progressista quanto à questão do negro nos Estados Unidos. Há um personagem negro que lava o carro da família e que tem a intenção de estudar direito e ser um advogado. Hattie McDaniel, a mulher negra que ganhou o Oscar por ...E O VENTO LEVOU novamente trabalha com Olivia num mesmo filme, em um papel, infelizmente, ainda muito semelhante ao que a projetou. Curioso como essa questão do racismo acaba sendo tão forte (em especial dentro da discussão atual), que superou, pra mim, a história principal. Este foi o segundo filme dirigido por John Huston, que teve um caso tórrido com Olivia durante as filmagens. Raoul Walsh, não creditado, assumiu as filmagens na última semana, por motivos não explicados. Ano: 1942.
THE ROOM
O filme é mesmo ruim pra cacete e não saberia de sua existência se não fosse James Franco. Por isso me diverti posteriormente vendo O ARTISTA DO DESASTRE. Foi pensando nisso que eu até curti THE ROOM em diversos momentos. É quase um filme pornô sem pornografia. Não à toa virou um objeto de culto. Direção: Tommy Wiseau. Ano: 2003.
COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3 (How to Train Your Dragon - The Hidden World)
Ah, eu e minha relação com as animações. Como elas geralmente despertam em mim um sono muito incômodo. Engraçado que alguns filmes da Disney e da Pixar são uma exceção. Mas esses da Dreamworks, meu Deus... Tive que gastar com pipoca pra me manter acordado. Engraçado que eu tenho pouca lembrança dos outros dois e não tenho uma relação de afeto como muitos têm. Enfim, não me arrependo de ter ido vê-lo, mas acho que se fosse ver o filme ruim da Jennifer Lopez talvez eu não tivesse passado por isso. Direção: Dean DeBlois. Ano: 2019.
sábado, agosto 08, 2020
QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE
Quem me conhece já deve imaginar que meu interesse pela obra de Jean-Claude Brisseau se deu através, inicialmente, por seus filmes mais eróticos dos anos 2000, os excelentes COISAS SECRETAS (2002), OS ANJOS EXTERMINADORES (2006) e ERÓTICA AVENTURA (2009). Mas como Brisseau também é um cineasta interessado na espiritualidade, os interesses mais densos do plano material se unem de maneira tal, que é quase como se ele conseguisse misturar água e óleo. Ele traz transcendência para o sexo, o elevando a uma experiência religiosa, inclusive com o uso da música, que de forma geral é usada de maneira econômica em seus filmes, nas sequências de diálogos.
Assim, como eu tenho uma lacuna considerável para preencher nos filmes das décadas de 1970-1990 do cineasta, sua visão de realismo social e de poeta dos subúrbios que vejo em alguns textos ainda me foge um pouco. Portanto, a relação que faço de seu filme de despedida do plano material, QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE (2018), é com seus trabalhos realizados no novo milênio. Se em seu trabalho anterior, A GAROTA DE LUGAR NENHUM (2012), esse erotismo era deixado um bocado de lado, agora ele retorna para namorar novamente o aspecto espiritual.
A história começa em tons rohmerianos, com Camille (Fabiene Babe) esperando ônibus em um terminal e atendendo a ligação de um celular que se encontra no banco. Do outro lado da linha, uma outra mulher, Suzy (Isabelle Prim), pede para que ela guarde o telefone pra ela, leve-o com ela para sua casa, que logo ela passará para pegar. O primeiro encontro das duas mulheres, no apartamento, parece carregado de sexualidade logo de início, quando Camille, usando apenas um vestido confortável, se mostra atraída por aquela mulher bem mais jovem que ela que afirma ter vários amantes, e que o homem que envia vídeos eróticos para o seu telefone é uma pessoa que está perdidamente louca por ela.
Logo essa atração se torna mútua, com um diálogo que une o naturalismo com uma espécie de estranheza, Suzy mostra os vídeos que ela faz transando com estranhos em público, e Camille a apresenta seus vídeos eróticos caseiros, mas feitos com efeitos especiais e muito bem trabalhados como arte. O sexo entre as duas é inevitável. A dona do apartamento e amiga íntima de Camille, Clara (Anna Sigalevitch), chega, flagra as duas na cama e se junta a elas na festa. O sexo funciona como elo inicial entre aquelas três mulheres.
Clara tem ajudado Camille em uma difícil fase de depressão em sua vida. E Suzy depois se mostrará bem menos femme fatale do que se apresentara inicialmente. Seu único amante na verdade é um homem que a persegue na casa de Clara, Fabrice (Fabrice Deville). As outras mulheres ajudam-na a se livrar do homem, que fica bêbado, usa uma arma e faz uma confusão do lado de fora. Quem mais ajuda a contornar a situação é Clara, que se sente na obrigação de fazer com que Fabrice esqueça Suzy. A cena de Clara fazendo sexo com Fabrice é um dos momentos mais eróticos e também de exposição de fragilidades do cinema de Brisseau. Muito lindo.
O caminho das três mulheres se conduz de maneira diferente. Suzy encontra a espiritualidade com um senhor septuagenário que mora no quinto andar. E Clara encontra o amor romântico pela primeira vez na figura de Fabrice. Já Camille tem conseguido força espiritual e independência depois de tantos anos de necessidade da presença da amiga. Das três, a que mais me encanta é Clara, com sua beleza, sua generosidade, sua sensualidade e seu amor que se expande por todos os níveis.
Como um cineasta profundamente religioso, Brisseau nos traz em seu filme-testamento momentos de gratidão poucas vezes vistos em outras obras para cinema. Ele começa com o amor físico, carnal; depois vai para o amor mais próximo da amizade; depois o amor romântico, e em seguida o amor transcendental. O fato de termos personagens aquebrantados ajuda muito a nos identificarmos em com um ou mais deles.
Li em um ótimo texto sobre o filme que suas personagens femininas são representações das feridas do cineasta. E achei muito interessante essa interpretação. Assim como a ideia de que, em seus trabalhos mais maduros, do fim de sua vida, ele estaria mais interessado na cura do que na fúria, algo bem mais presente em suas obras iniciais, pelo que li e pelo que vi em UM JOGO BRUTAL (1983). É uma forma reconfortante de deixar o mundo material, ainda que continuando com um pé firme nos desejos e nos prazeres supostamente menos nobres.
+ TRÊS FILMES
TRANSTORNO EXPLOSIVO (Systemsprenger)
Impressionante e comovente história de uma garotinha de nove anos que, por conta de um problema de explosão emocional constante, não consegue encontrar um lugar para ficar. Em alguns momentos é até possível ficar um tanto irritado com a garota, mas o filme tem um olhar muito carinhoso com ela e isso faz muita diferença. Apesar de a mãe não conseguir ficar com ela, seu sonho é voltar para a casa de sua mãe. E talvez isso seja o que mais emociona, assim como sua relação de afeto com outras pessoas, como o rapaz que se identifica com ela e tenta ajudá-la profissionalmente. Impressionante a garotinha, Helena Zengel. Daqueles casos de interpretação mirim que deixa a gente de boca aberta. Com o sucesso que teve, ela estará no próximo filme de Paul Greengrass, junto com Tom Hanks, em fase de pós-produção. Direção: Nora Fingscheidt. Ano: 2019.
VIVA - A VIDA É UMA FESTA (Coco)
Já não consigo mais diferenciar o que é Pixar e o que é Disney Animation, mas não tem problema. O que importa é que ver mais um acerto da Pixar/Disney é sempre um prazer. Este filme é daqueles que envolvem tanto e impressionam tanto com seu visual que merece todos os prêmios. Não sei o quanto os roteiristas roubaram da animação FESTA NO CÉU, mas é muito bom ver uma apropriação tão bonita de uma cultura alheia, como a mexicana, e o fascinante Día de los Muertos e a questão da lembrança como elemento de manutenção da vida no pós-vida. E tem também o amor pela arte e um certo ar de rebeldia do jovem protagonista. Tudo isso junto dá um caldo muito bonito. Sem falar no mundo dos mortos. Direção: Lee Unkrich e Adrian Molina. Ano: 2017.
INSUBSTITUÍVEL (Médecin de Campagne)
Eu até que tinha gostado do filme anterior de médico de Thomas Lilti, HIPÓCRATES (2014), mas este me pareceu tão anêmico e sem graça. Não que seja ruim; só não me disse nada e nem oferece nenhuma novidade formal (mas disso eu já sabia). Na trama, depois que um médico é diagnosticado com câncer, um novo médico se junta a ele para atender seus pacientes em uma região rural da França. Ano: 2016.
Assim, como eu tenho uma lacuna considerável para preencher nos filmes das décadas de 1970-1990 do cineasta, sua visão de realismo social e de poeta dos subúrbios que vejo em alguns textos ainda me foge um pouco. Portanto, a relação que faço de seu filme de despedida do plano material, QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE (2018), é com seus trabalhos realizados no novo milênio. Se em seu trabalho anterior, A GAROTA DE LUGAR NENHUM (2012), esse erotismo era deixado um bocado de lado, agora ele retorna para namorar novamente o aspecto espiritual.
A história começa em tons rohmerianos, com Camille (Fabiene Babe) esperando ônibus em um terminal e atendendo a ligação de um celular que se encontra no banco. Do outro lado da linha, uma outra mulher, Suzy (Isabelle Prim), pede para que ela guarde o telefone pra ela, leve-o com ela para sua casa, que logo ela passará para pegar. O primeiro encontro das duas mulheres, no apartamento, parece carregado de sexualidade logo de início, quando Camille, usando apenas um vestido confortável, se mostra atraída por aquela mulher bem mais jovem que ela que afirma ter vários amantes, e que o homem que envia vídeos eróticos para o seu telefone é uma pessoa que está perdidamente louca por ela.
Logo essa atração se torna mútua, com um diálogo que une o naturalismo com uma espécie de estranheza, Suzy mostra os vídeos que ela faz transando com estranhos em público, e Camille a apresenta seus vídeos eróticos caseiros, mas feitos com efeitos especiais e muito bem trabalhados como arte. O sexo entre as duas é inevitável. A dona do apartamento e amiga íntima de Camille, Clara (Anna Sigalevitch), chega, flagra as duas na cama e se junta a elas na festa. O sexo funciona como elo inicial entre aquelas três mulheres.
Clara tem ajudado Camille em uma difícil fase de depressão em sua vida. E Suzy depois se mostrará bem menos femme fatale do que se apresentara inicialmente. Seu único amante na verdade é um homem que a persegue na casa de Clara, Fabrice (Fabrice Deville). As outras mulheres ajudam-na a se livrar do homem, que fica bêbado, usa uma arma e faz uma confusão do lado de fora. Quem mais ajuda a contornar a situação é Clara, que se sente na obrigação de fazer com que Fabrice esqueça Suzy. A cena de Clara fazendo sexo com Fabrice é um dos momentos mais eróticos e também de exposição de fragilidades do cinema de Brisseau. Muito lindo.
O caminho das três mulheres se conduz de maneira diferente. Suzy encontra a espiritualidade com um senhor septuagenário que mora no quinto andar. E Clara encontra o amor romântico pela primeira vez na figura de Fabrice. Já Camille tem conseguido força espiritual e independência depois de tantos anos de necessidade da presença da amiga. Das três, a que mais me encanta é Clara, com sua beleza, sua generosidade, sua sensualidade e seu amor que se expande por todos os níveis.
Como um cineasta profundamente religioso, Brisseau nos traz em seu filme-testamento momentos de gratidão poucas vezes vistos em outras obras para cinema. Ele começa com o amor físico, carnal; depois vai para o amor mais próximo da amizade; depois o amor romântico, e em seguida o amor transcendental. O fato de termos personagens aquebrantados ajuda muito a nos identificarmos em com um ou mais deles.
Li em um ótimo texto sobre o filme que suas personagens femininas são representações das feridas do cineasta. E achei muito interessante essa interpretação. Assim como a ideia de que, em seus trabalhos mais maduros, do fim de sua vida, ele estaria mais interessado na cura do que na fúria, algo bem mais presente em suas obras iniciais, pelo que li e pelo que vi em UM JOGO BRUTAL (1983). É uma forma reconfortante de deixar o mundo material, ainda que continuando com um pé firme nos desejos e nos prazeres supostamente menos nobres.
+ TRÊS FILMES
TRANSTORNO EXPLOSIVO (Systemsprenger)
Impressionante e comovente história de uma garotinha de nove anos que, por conta de um problema de explosão emocional constante, não consegue encontrar um lugar para ficar. Em alguns momentos é até possível ficar um tanto irritado com a garota, mas o filme tem um olhar muito carinhoso com ela e isso faz muita diferença. Apesar de a mãe não conseguir ficar com ela, seu sonho é voltar para a casa de sua mãe. E talvez isso seja o que mais emociona, assim como sua relação de afeto com outras pessoas, como o rapaz que se identifica com ela e tenta ajudá-la profissionalmente. Impressionante a garotinha, Helena Zengel. Daqueles casos de interpretação mirim que deixa a gente de boca aberta. Com o sucesso que teve, ela estará no próximo filme de Paul Greengrass, junto com Tom Hanks, em fase de pós-produção. Direção: Nora Fingscheidt. Ano: 2019.
VIVA - A VIDA É UMA FESTA (Coco)
Já não consigo mais diferenciar o que é Pixar e o que é Disney Animation, mas não tem problema. O que importa é que ver mais um acerto da Pixar/Disney é sempre um prazer. Este filme é daqueles que envolvem tanto e impressionam tanto com seu visual que merece todos os prêmios. Não sei o quanto os roteiristas roubaram da animação FESTA NO CÉU, mas é muito bom ver uma apropriação tão bonita de uma cultura alheia, como a mexicana, e o fascinante Día de los Muertos e a questão da lembrança como elemento de manutenção da vida no pós-vida. E tem também o amor pela arte e um certo ar de rebeldia do jovem protagonista. Tudo isso junto dá um caldo muito bonito. Sem falar no mundo dos mortos. Direção: Lee Unkrich e Adrian Molina. Ano: 2017.
INSUBSTITUÍVEL (Médecin de Campagne)
Eu até que tinha gostado do filme anterior de médico de Thomas Lilti, HIPÓCRATES (2014), mas este me pareceu tão anêmico e sem graça. Não que seja ruim; só não me disse nada e nem oferece nenhuma novidade formal (mas disso eu já sabia). Na trama, depois que um médico é diagnosticado com câncer, um novo médico se junta a ele para atender seus pacientes em uma região rural da França. Ano: 2016.
quinta-feira, agosto 06, 2020
QUANDO DESCERAM AS TREVAS (Ministry of Fear)
Alguns filmes parecem feitos de um tipo diferente de matéria. Por mais que digam que o cinema é a forma de arte que mais se aproxima dos sonhos, certos filmes conseguem se aproximar ainda mais dessa sensação. E eu, por algum motivo, tenho uma especial atração por esse tipo de obra. Por isso fiquei tão encantado com QUANDO DESCERAM AS TREVAS (1944), que eu esperava que fosse "apenas" o terceiro filme anti-nazista de Lang realizado em Hollywood, ainda no calor da Segunda Guerra Mundial Não esperava algo tão onírico, tão kafkiano, tão estranho e tão cheio de loucuras.
E acho curioso o fato de Fritz Lang não gostar do filme. Na entrevista que o cineasta deu a Peter Bogdanovich contida no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, seu desdém com relação à obra é bem explícito. Conta que aceitou a proposta de dirigi-lo porque gostava de Graham Greene (o filme é uma adaptação do livro O Ministério do Medo, de 1943, do romancista inglês), mas que ficou chateado com o roteiro e com a impossibilidade de mudá-lo e que quis pular fora do projeto. Não conseguiu pois já havia assinado o contrato com a Paramount. E que bom que não conseguiu! O impressionante é Lang ter feito o filme sem tanto carinho e ainda ter resultado em algo tão bonito.
A minha primeira simpatia pelo filme foi de uma talvez acidental semelhança da imagem do protagonista, vivido por Ray Milland, com ERASERHEAD, de David Lynch, graças à projeção de uma sombra na cabeça de Stephen Neale, o personagem de Milland. Ele aguarda alguém e ficamos sabendo que ele estava preso e agora está livre. Quando sai dessa prisão, vemos o nome da instituição, um centro para doentes mentais. Mais tarde saberemos mais um pouco sobre o motivo de Neale ter parado ali, mas, por enquanto, não sabemos nada de seu passado, só de sua alegria por estar finalmente livre.
Sua alegria é tanta que não se importa em ir embora para Londres, o principal centro dos ataques de bombardeiros alemães. Sua atenção é voltada para uma festa que acontece ali perto, uma festa de senhoras, aparentemente bem familiar. É interessante a disposição dele para dizer sim a experiências novas, como adivinhar o peso exato de um bolo, entrar na tenda de uma vidente, ou, mais adiante, participar de uma sessão espírita. Aliás, a cena da sessão mediúnica é uma das melhores do filme, uma das que Lang melhor explora as sombras, e a que melhor justifica o título brasileiro. Mas antes mesmo dessa sessão, outras coisas malucas já haviam acontecido, como na cena do encontro com o "cego" no trem. É dessas cenas que me fazem arregalar os olhos para o que estou vendo e dar um sorriso de satisfação.
Mas é durante a tal sessão espírita que Neale passa a ser perseguido, tanto por espiões nazistas quanto pela polícia, depois que um homem é morto enquanto as luzes estão apagadas e Neale é acusado de tê-lo assassinado. Ajudado por um dos irmãos austríacos que conhecera antes, ele consegue fugir e é ajudado pela irmã austríaca (Marjorie Reynolds). Sim, a trama é confusa e bem maluca, mas isso faz parte da graça da obra. Diria que o filme perde um pouco a graça quando tenta trazer explicações e se transformar em um thriller de espionagem mais convencional a partir de determinado momento, mas mesmo assim há uma agilidade na narrativa que faz com que essas questões supostamente mais sérias sejam também motivo de diversão.
Diria que QUANDO DESCERAM AS TREVAS faz parte daquele tipo de filme noir que prefere se distanciar um pouco do realismo para adentrar um tipo de surrealismo, seja pela trama kafkiana, seja por alguns elementos de mistério. Poderia lembrar de A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich, por causa do mistério que seria depois inspiração para Lynch; mas também poderia lembrar de À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks, cuja trama é incompreensível. E tudo bem. O senso de humor do filme de Lang se torna ainda mais evidente na última cena. E toda a combinação que o diretor alemão faz de realismo com fantasia, como ele já havia feito em DR. MABUSE, O JOGADOR (1922) e em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), funciona que é uma beleza neste que é, aparentemente, um dos seus filmes mais subestimados.
+ TRÊS FILMES
O PARAÍSO DEVE SER AQUI (It Must Be Heaven)
Em determinado momento deste novo filme de Elia Suleiman, ele está em um escritório de uma produtora de filmes, que nega o seu trabalho afirmando não ser suficientemente palestino. Ou seja, o que querem dele é algo mais próximo de uma visão exótica e sofrida. E não uma comédia, por mais agridoce que seja este novo trabalho. É praticamente um filme de esquetes, em que o próprio realizador testemunha o que lhe aparece pela frente sem expressar nenhuma palavra. Assim, é quase um filme mudo, em certo sentido. Mas há uma importância grande do som e também da música. Inclusive, em dois momentos que parecem videoclipes: quando toca Nina Simone e ele está em Paris, e quando toca Leonard Cohen e ele está em algum lugar dos Estados Unidos. A cena do supermercado é um sarro, assim como a cena com o Gael García Bernal. Senti muita vontade de saber mais sobre a questão da convivência entre palestinos e israelenses dentro do Estado de Israel. No caso do filme, em Nazaré. Ano: 2019.
TOY STORY 4
Este quarto filme da série mantém o padrão de qualidade, graças, principalmente, à força de seus personagens, principalmente de Woody e depois de Buzz. Mas aqui temos outros dois personagens de muita força e importância para a trama, a boneca de porcelana Beth e o garfinho, criado pela garotinha em momento de ócio gerado pela solidão na escolinha. Acho que o filme cansa um pouco em seu terceiro ato, com tantas mudanças de planos nas aventuras dos heróis, mas não dá para reclamar muito. Até porque há aqueles bonecos aterrorizantes de filmes de terror da loja de antiguidades. Direção: Josh Cooley. Ano: 2019.
FRANCOFONIA - LOUVRE SOB OCUPAÇÃO (Francofonia)
Continuo não sendo fã de Aleksandr Sokurov e seus filmes são um convite ao sono. Mas como vi o filme com um pouco de febre, é provável que gostasse em outras circunstâncias. Há algo de bastante interessante, nem que seja para pensar o papel do museu e o momento da ocupação alemã na França. Ano: 2015.
E acho curioso o fato de Fritz Lang não gostar do filme. Na entrevista que o cineasta deu a Peter Bogdanovich contida no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, seu desdém com relação à obra é bem explícito. Conta que aceitou a proposta de dirigi-lo porque gostava de Graham Greene (o filme é uma adaptação do livro O Ministério do Medo, de 1943, do romancista inglês), mas que ficou chateado com o roteiro e com a impossibilidade de mudá-lo e que quis pular fora do projeto. Não conseguiu pois já havia assinado o contrato com a Paramount. E que bom que não conseguiu! O impressionante é Lang ter feito o filme sem tanto carinho e ainda ter resultado em algo tão bonito.
A minha primeira simpatia pelo filme foi de uma talvez acidental semelhança da imagem do protagonista, vivido por Ray Milland, com ERASERHEAD, de David Lynch, graças à projeção de uma sombra na cabeça de Stephen Neale, o personagem de Milland. Ele aguarda alguém e ficamos sabendo que ele estava preso e agora está livre. Quando sai dessa prisão, vemos o nome da instituição, um centro para doentes mentais. Mais tarde saberemos mais um pouco sobre o motivo de Neale ter parado ali, mas, por enquanto, não sabemos nada de seu passado, só de sua alegria por estar finalmente livre.
Sua alegria é tanta que não se importa em ir embora para Londres, o principal centro dos ataques de bombardeiros alemães. Sua atenção é voltada para uma festa que acontece ali perto, uma festa de senhoras, aparentemente bem familiar. É interessante a disposição dele para dizer sim a experiências novas, como adivinhar o peso exato de um bolo, entrar na tenda de uma vidente, ou, mais adiante, participar de uma sessão espírita. Aliás, a cena da sessão mediúnica é uma das melhores do filme, uma das que Lang melhor explora as sombras, e a que melhor justifica o título brasileiro. Mas antes mesmo dessa sessão, outras coisas malucas já haviam acontecido, como na cena do encontro com o "cego" no trem. É dessas cenas que me fazem arregalar os olhos para o que estou vendo e dar um sorriso de satisfação.
Mas é durante a tal sessão espírita que Neale passa a ser perseguido, tanto por espiões nazistas quanto pela polícia, depois que um homem é morto enquanto as luzes estão apagadas e Neale é acusado de tê-lo assassinado. Ajudado por um dos irmãos austríacos que conhecera antes, ele consegue fugir e é ajudado pela irmã austríaca (Marjorie Reynolds). Sim, a trama é confusa e bem maluca, mas isso faz parte da graça da obra. Diria que o filme perde um pouco a graça quando tenta trazer explicações e se transformar em um thriller de espionagem mais convencional a partir de determinado momento, mas mesmo assim há uma agilidade na narrativa que faz com que essas questões supostamente mais sérias sejam também motivo de diversão.
Diria que QUANDO DESCERAM AS TREVAS faz parte daquele tipo de filme noir que prefere se distanciar um pouco do realismo para adentrar um tipo de surrealismo, seja pela trama kafkiana, seja por alguns elementos de mistério. Poderia lembrar de A MORTE NUM BEIJO, de Robert Aldrich, por causa do mistério que seria depois inspiração para Lynch; mas também poderia lembrar de À BEIRA DO ABISMO, de Howard Hawks, cuja trama é incompreensível. E tudo bem. O senso de humor do filme de Lang se torna ainda mais evidente na última cena. E toda a combinação que o diretor alemão faz de realismo com fantasia, como ele já havia feito em DR. MABUSE, O JOGADOR (1922) e em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), funciona que é uma beleza neste que é, aparentemente, um dos seus filmes mais subestimados.
+ TRÊS FILMES
O PARAÍSO DEVE SER AQUI (It Must Be Heaven)
Em determinado momento deste novo filme de Elia Suleiman, ele está em um escritório de uma produtora de filmes, que nega o seu trabalho afirmando não ser suficientemente palestino. Ou seja, o que querem dele é algo mais próximo de uma visão exótica e sofrida. E não uma comédia, por mais agridoce que seja este novo trabalho. É praticamente um filme de esquetes, em que o próprio realizador testemunha o que lhe aparece pela frente sem expressar nenhuma palavra. Assim, é quase um filme mudo, em certo sentido. Mas há uma importância grande do som e também da música. Inclusive, em dois momentos que parecem videoclipes: quando toca Nina Simone e ele está em Paris, e quando toca Leonard Cohen e ele está em algum lugar dos Estados Unidos. A cena do supermercado é um sarro, assim como a cena com o Gael García Bernal. Senti muita vontade de saber mais sobre a questão da convivência entre palestinos e israelenses dentro do Estado de Israel. No caso do filme, em Nazaré. Ano: 2019.
TOY STORY 4
Este quarto filme da série mantém o padrão de qualidade, graças, principalmente, à força de seus personagens, principalmente de Woody e depois de Buzz. Mas aqui temos outros dois personagens de muita força e importância para a trama, a boneca de porcelana Beth e o garfinho, criado pela garotinha em momento de ócio gerado pela solidão na escolinha. Acho que o filme cansa um pouco em seu terceiro ato, com tantas mudanças de planos nas aventuras dos heróis, mas não dá para reclamar muito. Até porque há aqueles bonecos aterrorizantes de filmes de terror da loja de antiguidades. Direção: Josh Cooley. Ano: 2019.
FRANCOFONIA - LOUVRE SOB OCUPAÇÃO (Francofonia)
Continuo não sendo fã de Aleksandr Sokurov e seus filmes são um convite ao sono. Mas como vi o filme com um pouco de febre, é provável que gostasse em outras circunstâncias. Há algo de bastante interessante, nem que seja para pensar o papel do museu e o momento da ocupação alemã na França. Ano: 2015.
quarta-feira, agosto 05, 2020
O CONVITE AO PRAZER

Quem gosta (quem ama, na verdade) o cinema de Walter Hugo Khouri sente sempre a necessidade de voltar às suas obras. Elas funcionam tanto isoladamente quanto dentro do corpo de seu trabalho. E também mudam bastante, à medida que nossa compreensão de mundo também muda, como costuma acontecer com qualquer obra de arte. Porém, no caso das obras de Khouri que trazem nudez e cenas de sexo mais gráficas, como as da fase da Boca, essa diferença de visão da obra pode ser ainda mais sentida.
É o caso de O CONVITE AO PRAZER (1980), filme que antecipa a obra-prima EROS - O DEUS DO AMOR (1981) e que é geralmente considerado um filme menor do diretor. Pelo grande número de cenas de sexo e de mulheres lindas desfilando pela tela, a primeira impressão que eu tive do filme, na minha adolescência, quando o vi pela televisão, foi de uma obra cujo destaque maior é o sexo. Sim, o sexo é fundamental para o filme, mas não como um elemento de diversão, como pude ver agora, com os olhos da maturidade. E também com os olhos mais atentos com coisas como o machismo e a objetificação da mulher.
Nesse sentido, O CONVITE AO PRAZER é um dos filmes mais masculinos de Khouri, embora ele soubesse também fazer muito bem obras totalmente centradas em mulheres. Não à toa é tido como o nosso Bergman. Mas não é o caso deste trabalho em particular, cuja primeira mulher apresentada, a jovem e lindíssima Sonia (Aldine Müller), é quase uma boneca de pano pronta para ser aproveitada sexualmente pelo dentista Luciano (Serafim Gonzalez) e depois por Marcelo (Roberto Maya, o melhor de todos os Marcelos de Khouri). Os dois transam com ela, uma garota de programa, na cadeira de dentista de Luciano.
O filme começa mostrando a rotina de trabalho desse personagem próximo do patético que é Luciano. Um homem que tem por hábito liberar a secretária para usar o seu espaço de trabalho para o prazer, sem precisar pagar mais por isso, como motel, bebidas etc. Além do mais, ele tem a preocupação de não chegar tão tarde em casa. Mesmo assim, sua relação com a esposa Anita, vivida por Helena Ramos, ainda continua firme e forte.
O mesmo não se pode dizer do casamento de Marcelo, que passa por uma crise terrível. Ele não suporta a esposa, embora diga que a ama para o amigo. A mulher, Ana (Sandra Bréa, cheia de charme, mais uma vez), já parece cansada de tudo, mas é ele que a provoca mais. Aliás, é interessante como a casa deles, um palácio, se parece com um lugar que exala tristeza, especialmente quando contrastada com o espaço que Marcelo reserva para as orgias, a sua garçonniére. Ali é um espaço de exacerbação dos sentidos, dos prazeres, das possibilidades do sexo. Um espaço sem paredes, onde quem está na cama de baixo pode muito bem assistir à performance de quem está na cama de cima e vice-versa.
O lugar é quase um personagem para o filme, mas nada que vá eclipsar a força da presença de Marcelo, um homem que se sente bem ao se mostrar um sábio cínico e pessimista, mas também muito rico e elegante, especialmente quando se espelha à frente do pouco sedutor Luciano, que está ali para aproveitar aquela oportunidade de ouro, mesmo já estando, como o próprio Marcelo observou, bastante judiado pelo tempo. Aliás, a presença quase simiesca de Luciano perto das mulheres lindas que aparecem pelo filme é de um contraste impressionante.
E quanto às mulheres, que elenco! Além das já citadas Helena Ramos, Sandra Bréa e Aldine Müller, o filme ainda conta com Kate Lyra, como a funcionária inglesa de Marcelo; Nicole Puzzi, como a amiga da filha do protagonista; Alvamar Taddei, como uma das garotas de programa mais atraentes; sem falar em outras famosas atrizes do cinema brasileiro do período que aparecem em papéis menores, como Patricia Scalvi e Rossana Ghessa. São tantas beldades que a comparação de Marcelo com o próprio Khouri acaba por ser bastante pertinente.
Mas CONVITE AO PRAZER também é um filme em que o sentimento de mal estar se sobressai. Marcelo é um personagem que não se importa em causar transtorno a pessoas que ele conhece no cotidiano, como na cena em que convida sua secretária Miss Harriet (Kate Lyra) para a sua garçonniére. E o problema maior nem parece ser a bela mulher transar com Marcelo e com Luciano em esquema de revezamento na mesma cama, ao mesmo tempo, parecendo estupro, mas ter que dar de cara com colegas de trabalho, logo em seguida, e ter toda a sua reputação perdida.
Quanto ao uso deslumbrante de luz e sombras no filme, é em Kate Lyra que elas recaem de maneira mais linda, ressaltando o seu sentimento conflitante e também o sentimento conflitante do espectador, diante de situação cujo grau de incômodo luta contra algum sentimento de prazer voyeurístico e de encantamento com a beleza que persiste.
E por isso cada obra de Khouri merece uma reavaliação constante. Um filme como este, cujos créditos se iniciam com a pintura Os Amantes, de René Magritte, e se encerra com a mesma pintura, tem muito a dizer. Na pintura, vemos dois amantes se beijando totalmente cobertos por um pano que os impede de tocarem os lábios um do outro. Pode haver uma infinidade de visões dessa pintura, mas creio que uma delas pode ser a quase impossibilidade de se alcançar o amor.
As orgias que Marcelo empreende não são suficientes para trazê-lo prazer, satisfação. Sua necessidade de sentir é tanta que ele se deixa ser agredido fisicamente pelo amigo em um dos momentos finais do filme, como se aquela surra fosse para ele um presente; fosse, enfim, uma forma de sentir a vida.
Agradecimentos à Paula, que topou ver o filme simultaneamente comigo.
+ TRÊS FILMES
BRASIL S/A
Quando um filme não nos pega a gente fica até desinteressado em tentar descobrir os signos, os simbolismos. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo e BRASIL S/A. Mas é um filme interessante e bonito de ver, embora seja necessário um pouco mais de disposição por parte do espectador. Direção: Marcelo Pedroso.
MAIS FORTE QUE O MUNDO - A HISTÓRIA DE JOSÉ ALDO
É muita firula e muito efeito pra pouca emoção. Mas é interessante o modo como a questão paterna é colocada. O começo em Manaus também é interessante, mas toda a trajetória para chegar às vitórias são muito rápidas e parecem um trailer, além de parecer também com aqueles filmes publicitários que se costuma ver em academias de musculação. A personagem de Cleo Pires também é fraca. Se a atriz não tivesse uma beleza e um charme próprios ficaria ainda pior. Mas é um filme a se conferir. Direção: Afonso Poyart. Ano: 2016.
O OUTRO LADO DO PARAÍSO
Acho que tenho um pouco de problema com filmes protagonizados por crianças. Por algum motivo esses filmes me dão sono, em sua maioria. Embora este título em si seja correto e tal, não consigo enxergar nada além disso, mesmo levando em consideração o cenário de golpe de 2016. De todo modo, as cenas dos amores do garotinho são legais. Minha preferida é a cena do cinema. Direção: André Ristum. Ano: 2014.
O filme começa mostrando a rotina de trabalho desse personagem próximo do patético que é Luciano. Um homem que tem por hábito liberar a secretária para usar o seu espaço de trabalho para o prazer, sem precisar pagar mais por isso, como motel, bebidas etc. Além do mais, ele tem a preocupação de não chegar tão tarde em casa. Mesmo assim, sua relação com a esposa Anita, vivida por Helena Ramos, ainda continua firme e forte.
O mesmo não se pode dizer do casamento de Marcelo, que passa por uma crise terrível. Ele não suporta a esposa, embora diga que a ama para o amigo. A mulher, Ana (Sandra Bréa, cheia de charme, mais uma vez), já parece cansada de tudo, mas é ele que a provoca mais. Aliás, é interessante como a casa deles, um palácio, se parece com um lugar que exala tristeza, especialmente quando contrastada com o espaço que Marcelo reserva para as orgias, a sua garçonniére. Ali é um espaço de exacerbação dos sentidos, dos prazeres, das possibilidades do sexo. Um espaço sem paredes, onde quem está na cama de baixo pode muito bem assistir à performance de quem está na cama de cima e vice-versa.
O lugar é quase um personagem para o filme, mas nada que vá eclipsar a força da presença de Marcelo, um homem que se sente bem ao se mostrar um sábio cínico e pessimista, mas também muito rico e elegante, especialmente quando se espelha à frente do pouco sedutor Luciano, que está ali para aproveitar aquela oportunidade de ouro, mesmo já estando, como o próprio Marcelo observou, bastante judiado pelo tempo. Aliás, a presença quase simiesca de Luciano perto das mulheres lindas que aparecem pelo filme é de um contraste impressionante.
E quanto às mulheres, que elenco! Além das já citadas Helena Ramos, Sandra Bréa e Aldine Müller, o filme ainda conta com Kate Lyra, como a funcionária inglesa de Marcelo; Nicole Puzzi, como a amiga da filha do protagonista; Alvamar Taddei, como uma das garotas de programa mais atraentes; sem falar em outras famosas atrizes do cinema brasileiro do período que aparecem em papéis menores, como Patricia Scalvi e Rossana Ghessa. São tantas beldades que a comparação de Marcelo com o próprio Khouri acaba por ser bastante pertinente.
Mas CONVITE AO PRAZER também é um filme em que o sentimento de mal estar se sobressai. Marcelo é um personagem que não se importa em causar transtorno a pessoas que ele conhece no cotidiano, como na cena em que convida sua secretária Miss Harriet (Kate Lyra) para a sua garçonniére. E o problema maior nem parece ser a bela mulher transar com Marcelo e com Luciano em esquema de revezamento na mesma cama, ao mesmo tempo, parecendo estupro, mas ter que dar de cara com colegas de trabalho, logo em seguida, e ter toda a sua reputação perdida.
Quanto ao uso deslumbrante de luz e sombras no filme, é em Kate Lyra que elas recaem de maneira mais linda, ressaltando o seu sentimento conflitante e também o sentimento conflitante do espectador, diante de situação cujo grau de incômodo luta contra algum sentimento de prazer voyeurístico e de encantamento com a beleza que persiste.
E por isso cada obra de Khouri merece uma reavaliação constante. Um filme como este, cujos créditos se iniciam com a pintura Os Amantes, de René Magritte, e se encerra com a mesma pintura, tem muito a dizer. Na pintura, vemos dois amantes se beijando totalmente cobertos por um pano que os impede de tocarem os lábios um do outro. Pode haver uma infinidade de visões dessa pintura, mas creio que uma delas pode ser a quase impossibilidade de se alcançar o amor.
As orgias que Marcelo empreende não são suficientes para trazê-lo prazer, satisfação. Sua necessidade de sentir é tanta que ele se deixa ser agredido fisicamente pelo amigo em um dos momentos finais do filme, como se aquela surra fosse para ele um presente; fosse, enfim, uma forma de sentir a vida.
Agradecimentos à Paula, que topou ver o filme simultaneamente comigo.
+ TRÊS FILMES
BRASIL S/A
Quando um filme não nos pega a gente fica até desinteressado em tentar descobrir os signos, os simbolismos. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo e BRASIL S/A. Mas é um filme interessante e bonito de ver, embora seja necessário um pouco mais de disposição por parte do espectador. Direção: Marcelo Pedroso.
MAIS FORTE QUE O MUNDO - A HISTÓRIA DE JOSÉ ALDO
É muita firula e muito efeito pra pouca emoção. Mas é interessante o modo como a questão paterna é colocada. O começo em Manaus também é interessante, mas toda a trajetória para chegar às vitórias são muito rápidas e parecem um trailer, além de parecer também com aqueles filmes publicitários que se costuma ver em academias de musculação. A personagem de Cleo Pires também é fraca. Se a atriz não tivesse uma beleza e um charme próprios ficaria ainda pior. Mas é um filme a se conferir. Direção: Afonso Poyart. Ano: 2016.
O OUTRO LADO DO PARAÍSO
Acho que tenho um pouco de problema com filmes protagonizados por crianças. Por algum motivo esses filmes me dão sono, em sua maioria. Embora este título em si seja correto e tal, não consigo enxergar nada além disso, mesmo levando em consideração o cenário de golpe de 2016. De todo modo, as cenas dos amores do garotinho são legais. Minha preferida é a cena do cinema. Direção: André Ristum. Ano: 2014.
terça-feira, agosto 04, 2020
MACABRO
Marcos Prado tem uma carreira como diretor bastante curiosa. Sua maior experiência é na produção, tendo sido, inclusive, produtor executivo dos dois Tropas de Elite, do José Padilha, além de outros dois documentários famosos desse cineasta. Mas seu trabalho na direção começou com o documentário. Seu primeiro documentário para o cinema, ESTAMIRA (2004), é o retrato de uma mulher que vive em um lixão do Rio de Janeiro, que tem problemas mentais e filosofa sobre o mundo. Confesso que esse filme me deixou um tanto perturbado. Fiquei ao mesmo tempo temeroso de entender o pensamento da personagem e olhar para seus olhos.
E é interessante ver que Prado, depois de uma primeira experiência na ficção, com PARAÍSOS ARTIFICIAIS (2012), tenha voltado a lidar com o medo (a experiência do medo que eu falei no parágrafo anterior é puramente subjetiva), desta vez deliberadamente, ao contar a história dos "irmãos necrófilos" de Nova Friburgo, que foram notícia nos jornais na década de 1990. MACABRO (2019) foi o primeiro filme inédito a ser lançado comercialmente nestes tempos de pandemia, no circuito dos drive-ins. E só por isso creio que já chame a atenção.
Por mais que não esteja sendo recebido com tapete vermelho pela crítica, diria que MACABRO tem a cara de filme que será, no futuro, reavaliado e visto como um exemplar de suspense/terror/policial marcante e com aspectos valorosos. Prado aproveita uma onda bastante positiva de filmes de gêneros que cresceram consideravelmente no Brasil nos últimos anos. Sem falar que, em comparação com a maioria dos muitos exemplares de horror e suspense estrangeiros que têm chegado ao circuito, o filme de Prado ainda ganha pontos por nos aproximar dos acontecimentos.
O modo como o filme se inicia, com o protagonista vivido por Renato Góes, o Sargento Téo, cometendo um erro ao atirar em um homem em uma operação na favela, confundindo uma furadeira elétrica com uma arma (baseado em um incidente recente real), é uma maneira de o filme começar já abordando os erros da polícia e a situação de racismo e violência que marcam a sociedade brasileira e que, a partir do que veremos na trama propriamente dita, é um racismo que persiste de maneira muito forte no Brasil profundo. Talvez nem precisasse que o cabo vivido por Guilherme Ferraz dissesse duas vezes que ele era o único negro daquela cidade, além da família dos irmãos assassinos procurados, mas talvez sim, seja necessário, para tornar mais didática a situação.
Fosse em outra época, muito provavelmente, essa questão étnica não seria sequer abordada e o filme focaria especificamente na busca pelos assassinos e estupradores e também em seus atos brutais. Há um pouco de fragilidade no modo como o filme parece querer justificar os atos dos irmãos como atos de vingança após anos de maus tratos. Isso é compensado com a construção de uma atmosfera de medo herdada do cinema de horror, como nas cenas de ataque às vítimas, mostradas sempre no escuro e tornando a aparência de um deles próxima de um monstro, a partir também do depoimento de uma sobrevivente. Isso ajuda a enriquecer o mistério, ao trazer a feitiçaria para os crimes.
O filme é feliz ao estabelecer um vínculo entre dois personagens em especial: o do Sargento Téo e uma ex-namorada da adolescência, Dora (Amanda Grimaldi). Essa relação ajuda a nos aproximar dos personagens e a aumentar a dramaticidade na cena em que Dora é abordada por um dos irmãos. É uma das melhores cenas do filme. Destaco também a cena de briga de Téo com o coronel da região, com uso de câmera na mão. Há também que se destacar a beleza da fotografia, a cargo de Azul Serra (TURMA DA MÔNICA - LAÇOS), que enfatiza a exuberância da paisagem natural de Nova Friburgo.
+ TRÊS FILMES
O CHALÉ (The Lodge)
O novo filme da dupla de BOA NOITE, MAMÃE (2014) novamente brinca com o terror dentro de ambientes fechados. Um dos pontos mais fortes aqui é a capacidade de nos surpreender desde o início. Por isso, é o tipo de obra que é interessante ver sem saber nada a respeito. Vejo como problemática a descida à loucura da protagonista. Como se fosse necessário que o espectador entrasse em seus sapatos para que o resultado fosse mais eficiente. Quanto à culpa, o modo como ela é trabalhada é boa, mas também senti falta de mais força. Riley Keough é uma jovem atriz que tem bastante carisma e acho que isso ajuda. Outro ponto positivo são os ângulos de câmera dentro da casa. Em determinado momento, sentimos que a casa está se inclinando para o lado. De todo modo, ainda não foi dessa vez que eu comprei com todo o amor o trabalho da dupla de cineastas austríacos. Mas vou ficar de olho para os próximos. Direção: Severin Fialan e Veronika Franz. Ano: 2019.
O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)
Tim Burton juntou um monte de gente legal e ingredientes interessantes, mas não soube montar um bom trabalho. E quando o filme começa a ficar interessante, o sono já chegou e a vaca já foi pro brejo. Mas a Eva Green e o Asa Butterfield estão ótimos. A menina que voa é muito legal. Mas a verdade é que eu já vou ver Tim Burton com um pouco de má vontade. E olha que gostei dos dois anteriores. Ano: 2016.
SALA VERDE (Green Room)
Puxa, fazia um tempo que eu não via um filme tão tenso e tão "sangue nos zóio". Mas é melhor entrar nele sem saber nada da trama. O jovem e há pouco tempo falecido Anton Yelchin está sensacional. Na trama, uma banda de punk rock é forçada a lutar pela sobrevivência depois de testemunhar um assassinato em um bar neo-nazista. Direção: Jeremy Saulnier. Ano: 2015.
E é interessante ver que Prado, depois de uma primeira experiência na ficção, com PARAÍSOS ARTIFICIAIS (2012), tenha voltado a lidar com o medo (a experiência do medo que eu falei no parágrafo anterior é puramente subjetiva), desta vez deliberadamente, ao contar a história dos "irmãos necrófilos" de Nova Friburgo, que foram notícia nos jornais na década de 1990. MACABRO (2019) foi o primeiro filme inédito a ser lançado comercialmente nestes tempos de pandemia, no circuito dos drive-ins. E só por isso creio que já chame a atenção.
Por mais que não esteja sendo recebido com tapete vermelho pela crítica, diria que MACABRO tem a cara de filme que será, no futuro, reavaliado e visto como um exemplar de suspense/terror/policial marcante e com aspectos valorosos. Prado aproveita uma onda bastante positiva de filmes de gêneros que cresceram consideravelmente no Brasil nos últimos anos. Sem falar que, em comparação com a maioria dos muitos exemplares de horror e suspense estrangeiros que têm chegado ao circuito, o filme de Prado ainda ganha pontos por nos aproximar dos acontecimentos.
O modo como o filme se inicia, com o protagonista vivido por Renato Góes, o Sargento Téo, cometendo um erro ao atirar em um homem em uma operação na favela, confundindo uma furadeira elétrica com uma arma (baseado em um incidente recente real), é uma maneira de o filme começar já abordando os erros da polícia e a situação de racismo e violência que marcam a sociedade brasileira e que, a partir do que veremos na trama propriamente dita, é um racismo que persiste de maneira muito forte no Brasil profundo. Talvez nem precisasse que o cabo vivido por Guilherme Ferraz dissesse duas vezes que ele era o único negro daquela cidade, além da família dos irmãos assassinos procurados, mas talvez sim, seja necessário, para tornar mais didática a situação.
Fosse em outra época, muito provavelmente, essa questão étnica não seria sequer abordada e o filme focaria especificamente na busca pelos assassinos e estupradores e também em seus atos brutais. Há um pouco de fragilidade no modo como o filme parece querer justificar os atos dos irmãos como atos de vingança após anos de maus tratos. Isso é compensado com a construção de uma atmosfera de medo herdada do cinema de horror, como nas cenas de ataque às vítimas, mostradas sempre no escuro e tornando a aparência de um deles próxima de um monstro, a partir também do depoimento de uma sobrevivente. Isso ajuda a enriquecer o mistério, ao trazer a feitiçaria para os crimes.
O filme é feliz ao estabelecer um vínculo entre dois personagens em especial: o do Sargento Téo e uma ex-namorada da adolescência, Dora (Amanda Grimaldi). Essa relação ajuda a nos aproximar dos personagens e a aumentar a dramaticidade na cena em que Dora é abordada por um dos irmãos. É uma das melhores cenas do filme. Destaco também a cena de briga de Téo com o coronel da região, com uso de câmera na mão. Há também que se destacar a beleza da fotografia, a cargo de Azul Serra (TURMA DA MÔNICA - LAÇOS), que enfatiza a exuberância da paisagem natural de Nova Friburgo.
+ TRÊS FILMES
O CHALÉ (The Lodge)
O novo filme da dupla de BOA NOITE, MAMÃE (2014) novamente brinca com o terror dentro de ambientes fechados. Um dos pontos mais fortes aqui é a capacidade de nos surpreender desde o início. Por isso, é o tipo de obra que é interessante ver sem saber nada a respeito. Vejo como problemática a descida à loucura da protagonista. Como se fosse necessário que o espectador entrasse em seus sapatos para que o resultado fosse mais eficiente. Quanto à culpa, o modo como ela é trabalhada é boa, mas também senti falta de mais força. Riley Keough é uma jovem atriz que tem bastante carisma e acho que isso ajuda. Outro ponto positivo são os ângulos de câmera dentro da casa. Em determinado momento, sentimos que a casa está se inclinando para o lado. De todo modo, ainda não foi dessa vez que eu comprei com todo o amor o trabalho da dupla de cineastas austríacos. Mas vou ficar de olho para os próximos. Direção: Severin Fialan e Veronika Franz. Ano: 2019.
O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children)
Tim Burton juntou um monte de gente legal e ingredientes interessantes, mas não soube montar um bom trabalho. E quando o filme começa a ficar interessante, o sono já chegou e a vaca já foi pro brejo. Mas a Eva Green e o Asa Butterfield estão ótimos. A menina que voa é muito legal. Mas a verdade é que eu já vou ver Tim Burton com um pouco de má vontade. E olha que gostei dos dois anteriores. Ano: 2016.
SALA VERDE (Green Room)
Puxa, fazia um tempo que eu não via um filme tão tenso e tão "sangue nos zóio". Mas é melhor entrar nele sem saber nada da trama. O jovem e há pouco tempo falecido Anton Yelchin está sensacional. Na trama, uma banda de punk rock é forçada a lutar pela sobrevivência depois de testemunhar um assassinato em um bar neo-nazista. Direção: Jeremy Saulnier. Ano: 2015.
domingo, agosto 02, 2020
MISSISSIPI EM CHAMAS (Mississipi Burning)
O primeiro Oscar a gente nunca esquece. Já tinha visto anteriormente trechos da premiação ao vivo ou em reprises, mas foi em 1989, o ano do início de minha cinefilia, que eu comecei a ver prestando atenção em todos os indicados, embora ainda cometesse o descaso de ter perdido no cinema alguns filmes das categorias principais. E MISSISSIPI EM CHAMAS (1988) foi um deles, que só vi quando saiu em VHS. Mas lembro que ele passou no Cine Diogo, enquanto RAIN MAN, de Barry Levinson, o vencedor daquele ano, passou no Cine São Luiz. UMA SECRETÁRIA DE FUTURO, de Mike Nichols, também foi exibido no São Luiz. LIGAÇÕES PERIGOSAS, de Stephen Frears, vi no Cine Fortaleza. E o mais "alternativo" e melhor dos cinco indicados, O TURISTA ACIDENTAL, de Lawrence Kasdan, se não me engano passou no Cine Center Um. Não foi exatamente um ano tão bom para o Oscar, mas é o único ano que eu me lembro de cor todos os indicados.
Acabei revendo MISSISSIPI EM CHAMAS por ocasião da morte de seu diretor, Alan Parker, que deixou nosso plano na última sexta-feira, 31. E foi interessante constatar que muitos dos problemas sociais relatados no filme continuam muito presentes na sociedade americana, que durante a Era Obama talvez tenha ficado na surdina, não demonstrando de forma tão explícita o seu ódio e o seu preconceito contra os negros e também contra latinos, asiáticos etc. Pelo menos agora estamos vendo essas pessoas sem as suas máscaras, sem aquela fantasia de Halloween usada pelos membros da Ku Klux Klan.
Se fosse feito nos dias de hoje talvez MISSISSIPI EM CHAMAS desse mais protagonismo aos negros, mas eu diria que o resultado foi muito mais feliz do que eu lembrava, inclusive com cenas de destaque do elenco negro que vão bem além dos cultos e das passeatas de protesto. Há a cena de um agente do FBI negro que tem aquela conversa séria com o prefeito e que muda os rumos de tudo; e a há o posicionamento corajoso do menino que ousa falar com o agente vivido por Willem Dafoe, quando havia uma pressão imensa dos grupos racistas para que a comunidade negra não falasse nada para os forasteiros.
MISSISSIPI EM CHAMAS tem aquela coisa bem característica dos filmes de parcerias de policiais, que tratam de acentuar os contrastes entre os estilos de cada um. Aqui, temos um agente mais velho e mais cínico, vivido por Gene Hackman, um homem nascido no Mississipi, e que sabe como é a relação entre brancos e negros naquele lugar. Ele é também o agente que não tem tanto problema em fugir da cartilha para conseguir aquilo que julga necessário. Já o personagem de Willem Dafoe é um agente mais jovem, idealista e mais confiante em sua capacidade de mudar o mundo. Ele acredita que pode sim conseguir, através de meios legais, não apenas solucionar o caso dos três jovens desaparecidos, como fazer com que todos os responsáveis pagassem pelo que fizeram. Um meio termo acaba sendo necessário para a solução do caso.
Engraçado que eu percebi algo no filme que me fez lembrar da Velha Hollywood, dos filmes noir dos anos 1940 e 50, em especial no ato final, quando os agentes já estavam cercando os membros da Klan, inclusive os policiais. Destaque para a cena da barbearia, uma das mais memoráveis, e que mais traz à tona a força dramática de Gene Hackman, definitivamente um dos melhores atores a passar por Hollywood. As cenas em que seu personagem conversa com a mulher do policial, vivida por Frances McDormand, são também ótimas.
Quanto ao Oscar, das sete indicações que o filme recebeu, ganhou apenas a de melhor fotografia, realizada por Peter Bizou, que havia trabalhado com Parker em QUANDO AS METRALHADORAS COSPEM (1976) e PINK FLOYD - THE WALL (1982).
+ TRÊS FILMES
SEBERG CONTRA TODOS (Seberg)
Este filme já me ganhou por pelo menos dois motivos: 1) adoro a Kristen Stewart; e 2) tenho muito interesse na história de Jean Seberg. Até pouco tempo atrás não sabia nada sobre ela que não fosse sua atuação em filmes do Godard e do Preminger. Agora sei sobre o mistério em torno de sua morte, as queimaduras durante as filmagens de SANTA JOANA, o envolvimento com os Panteras Negras, o quanto o governo americano quis destruir essa mulher. Não sei o quanto do filme foi fiel aos fatos, mas creio que o que foi mostrado deve ter sido pelo menos muito próximo do que aconteceu. E Kristen não tenta imitar Jean, o que é ótimo. Ela tem seu próprio brilho. Depois de cinebiografias sobre Grace Kelly, Marilyn Monroe e mais recentemente sobre Judy Garland, esta é a que melhor conseguiu não apenas captar o espírito da personagem e da época, como também funcionar como thriller, drama e estudo da personagem. Uma bela surpresa. E que linda que é a canção que a Nina Simone canta nos créditos, hein? Direção: Benedict Andrews. Ano: 2019.
O RETORNO DE BEN (Ben Is Back)
Filme-irmão de QUERIDO MENINO, de Felix van Groeningen, este O RETORNO DE BEN junta o drama com um pouco de suspense em seu terceiro ato. Achei bem comovente, final acertado e tudo, e há uma cena linda demais, a cena da igreja. Mais uma ótima composição de Julia Roberts e também do jovem Lucas Hedges, que tem se arriscado em alguns papéis de garoto fora dos trilhos. Direção: Peter Hedges. Ano: 2018.
O CÍRCULO (The Circle)
Sempre bom ver a Emma Watson e o filme não chega a ser chato em nenhum momento, mas a gente percebe que é uma adaptação corrida de um livro, que muita coisa fica faltando explicar ou explorar de maneira mais interessante. Acaba sendo uma espécie de versão light de um episódio de BLACK MIRROR. Não deixa de ter o seu interesse. Direção: James Ponsoldt. Ano: 2017.
Acabei revendo MISSISSIPI EM CHAMAS por ocasião da morte de seu diretor, Alan Parker, que deixou nosso plano na última sexta-feira, 31. E foi interessante constatar que muitos dos problemas sociais relatados no filme continuam muito presentes na sociedade americana, que durante a Era Obama talvez tenha ficado na surdina, não demonstrando de forma tão explícita o seu ódio e o seu preconceito contra os negros e também contra latinos, asiáticos etc. Pelo menos agora estamos vendo essas pessoas sem as suas máscaras, sem aquela fantasia de Halloween usada pelos membros da Ku Klux Klan.
Se fosse feito nos dias de hoje talvez MISSISSIPI EM CHAMAS desse mais protagonismo aos negros, mas eu diria que o resultado foi muito mais feliz do que eu lembrava, inclusive com cenas de destaque do elenco negro que vão bem além dos cultos e das passeatas de protesto. Há a cena de um agente do FBI negro que tem aquela conversa séria com o prefeito e que muda os rumos de tudo; e a há o posicionamento corajoso do menino que ousa falar com o agente vivido por Willem Dafoe, quando havia uma pressão imensa dos grupos racistas para que a comunidade negra não falasse nada para os forasteiros.
MISSISSIPI EM CHAMAS tem aquela coisa bem característica dos filmes de parcerias de policiais, que tratam de acentuar os contrastes entre os estilos de cada um. Aqui, temos um agente mais velho e mais cínico, vivido por Gene Hackman, um homem nascido no Mississipi, e que sabe como é a relação entre brancos e negros naquele lugar. Ele é também o agente que não tem tanto problema em fugir da cartilha para conseguir aquilo que julga necessário. Já o personagem de Willem Dafoe é um agente mais jovem, idealista e mais confiante em sua capacidade de mudar o mundo. Ele acredita que pode sim conseguir, através de meios legais, não apenas solucionar o caso dos três jovens desaparecidos, como fazer com que todos os responsáveis pagassem pelo que fizeram. Um meio termo acaba sendo necessário para a solução do caso.
Engraçado que eu percebi algo no filme que me fez lembrar da Velha Hollywood, dos filmes noir dos anos 1940 e 50, em especial no ato final, quando os agentes já estavam cercando os membros da Klan, inclusive os policiais. Destaque para a cena da barbearia, uma das mais memoráveis, e que mais traz à tona a força dramática de Gene Hackman, definitivamente um dos melhores atores a passar por Hollywood. As cenas em que seu personagem conversa com a mulher do policial, vivida por Frances McDormand, são também ótimas.
Quanto ao Oscar, das sete indicações que o filme recebeu, ganhou apenas a de melhor fotografia, realizada por Peter Bizou, que havia trabalhado com Parker em QUANDO AS METRALHADORAS COSPEM (1976) e PINK FLOYD - THE WALL (1982).
+ TRÊS FILMES
SEBERG CONTRA TODOS (Seberg)
Este filme já me ganhou por pelo menos dois motivos: 1) adoro a Kristen Stewart; e 2) tenho muito interesse na história de Jean Seberg. Até pouco tempo atrás não sabia nada sobre ela que não fosse sua atuação em filmes do Godard e do Preminger. Agora sei sobre o mistério em torno de sua morte, as queimaduras durante as filmagens de SANTA JOANA, o envolvimento com os Panteras Negras, o quanto o governo americano quis destruir essa mulher. Não sei o quanto do filme foi fiel aos fatos, mas creio que o que foi mostrado deve ter sido pelo menos muito próximo do que aconteceu. E Kristen não tenta imitar Jean, o que é ótimo. Ela tem seu próprio brilho. Depois de cinebiografias sobre Grace Kelly, Marilyn Monroe e mais recentemente sobre Judy Garland, esta é a que melhor conseguiu não apenas captar o espírito da personagem e da época, como também funcionar como thriller, drama e estudo da personagem. Uma bela surpresa. E que linda que é a canção que a Nina Simone canta nos créditos, hein? Direção: Benedict Andrews. Ano: 2019.
O RETORNO DE BEN (Ben Is Back)
Filme-irmão de QUERIDO MENINO, de Felix van Groeningen, este O RETORNO DE BEN junta o drama com um pouco de suspense em seu terceiro ato. Achei bem comovente, final acertado e tudo, e há uma cena linda demais, a cena da igreja. Mais uma ótima composição de Julia Roberts e também do jovem Lucas Hedges, que tem se arriscado em alguns papéis de garoto fora dos trilhos. Direção: Peter Hedges. Ano: 2018.
O CÍRCULO (The Circle)
Sempre bom ver a Emma Watson e o filme não chega a ser chato em nenhum momento, mas a gente percebe que é uma adaptação corrida de um livro, que muita coisa fica faltando explicar ou explorar de maneira mais interessante. Acaba sendo uma espécie de versão light de um episódio de BLACK MIRROR. Não deixa de ter o seu interesse. Direção: James Ponsoldt. Ano: 2017.
Assinar:
Postagens (Atom)













