O ÁTOMO BRINCALHÃO
Confesso que tenho dificuldade de falar sobre obras assim mais experimentais, que não tem exatamente um fio de narrativa ou algo próximo disso. No caso, o que conta mais para mim é a história do curta. O diretor desenhou no intervalo de três anos este curta de quatro minutos nos próprios fotogramas. Acredito que numa revisão abstrações possam vir à mente. Direção: Roberto Miller. Ano: 1964.
AMOR SÓ DE MÃE
Na revisão, AMOR SÓ DE MÃE se mostrou ainda mais intenso e perturbador. Talvez por ver em uma televisão maior, mas diria que é mérito do filme mesmo, que se mantém forte passados alguns anos de sua realização. Na trama, homem é desafiado por uma prostituta a deixar sua mãe e ir embora com ela do povoado. Acontece que as coisas são muito mais mórbidas e macabras do que isso. As cenas de possessão são impressionantes. Um dos melhores filmes de terror já feitos no Brasil. Direção: Dennison Ramalho. Ano: 2003.
À MEIA NOITE COM GLAUBER ROCHA
Filme de colagem com a intenção de homenagear poeticamente não apenas Glauber Rocha, mas também Hélio Oiticica, Torquato Neto e outros. Cenas não apenas do Cinema Novo e dos filmes de Glauber especificamente, mas também do cinema marginal, do tropicalismo e até de obras estrangeiras. Há falas de Glauber tomando para si a fundação do Cinema Novo e elevando o cinema como a mais importante das artes. Em outro momento, ele lamenta a pobreza cultural brasileira. Direção: Ivan Cardoso. Ano: 1997.
ALMA NO OLHO
Ao mesmo tempo que se mostra uma louvação do corpo e do espírito do negro, também traz a questão da chegada no negro à cultura ocidental e no quanto isso pode representar uma volta às correntes do tempo da escravidão. Parece mais uma performance de teatro, mas, por outro lado, em um teatro não seria possível haver os cortes que no cinema tem das imagens, tanto dos closes quanto das mudanças de figurino. A música-tema é de Coltrane, homenageado explicitamente no início do filme, embora as batidas sejam bem brasileiras. Direção: Zózimo Bulbul. Ano: 1974.
AMOR!
Já tinha visto esse curta na TV (ou em VHS, talvez). Acho que talvez tenha envelhecido um pouco. Na época me parecia mais esperto, mais ácido e mais engraçado. Mas ainda é bem divertido. E as mudanças de narrações, da voz do Paulo José para a do Pereio, funcionam que é uma beleza. Até podia dizer que é um filme sem esperança, se o próprio filme parecesse se levar a sério. Acho que não é o caso. Direção: José Roberto Torero. Ano: 1994.
ANIMANDO
Teria curtido mais se fosse de menor duração. É um trabalho admirável de brincar de Deus com um pequeno boneco usando inteligentemente os recursos da animação. Dar um pouco de consciência para sua criação é o melhor momento do filme, quando o boneco se rebela com as cores/roupas que lhe são dadas/pintadas. Direção: Marcos Magalhães. Ano: 1987.
UM APÓLOGO
Um dos mais famosos contos de Machado de Assis (até as crianças o conhecem), Um Apólogo ganha uma simpática adaptação para o cinema por um de nosso pioneiros mestres. O filme tem um sabor de tesouro arqueológico pela época em que foi realizado e por parecer velho mesmo, mas justamente por isso que ganha força e até os efeitos especiais parecem muito bons. O começo, falando sobre Machado de Assis e um pouco de sua obra, dá um ar de curta-metragem feito para alguma televisão educativa governamental, embora na época ainda não existisse televisão. Direção: Humberto Mauro. Ano: 1939.
ARRAIAL DO CABO
O que mais me chamou a atenção neste curta de Saraceni e Carneiro foi o quanto as imagens mostradas na tela parecem distantes das de hoje, de nossa realidade. Talvez pelo fato de terem pegado uma humilde vila de pescadores. Aí passa-se a impressão de que um cinema feito no começo dos anos 60 parece mais primitivo do que os trabalhos de Humberto Mauro dos anos 30. O bom é que a narrativa é dispensada rapidamente e as imagens se detêm nos pescadores, muitas vezes flagrados contra a luz do sol. A música ajuda a dar um ar mais lírico. Ainda assim me incomodou o meu distanciamento a uma obra tão incensada e importante dentro da história do cinema brasileiro. Direção: Mario Carneiro e Paulo Cezar Saraceni. Ano: 1960.
ARUANDA
Uma espécie de pai de VIDAS SECAS, de Nelson Pereira dos Santos, ARUANDA é pioneiro em mostrar o povo preto e pobre do sertão nordestino, do jeito que eles são de fato. E não deixa de ser impressionante para nós, criados em cidade grande, ver o modo de vida e de sobrevivência de quem tem que se virar com o que tem, ou seja, o barro, a água barrenta e os galhos secos para fazerem tanto os potes quanto a própria casa. Uma longa jornada da escravidão até a vida de pequenos proprietários de terra na sertão. Direção: Linduarte Noronha. Ano: 1960.
DIVERSÕES SOLITÁRIAS
O ponto de vista de uma pessoa que se diverte na solidão, embora aparentemente muito feliz com seu walkman, passeando nas ruas e ouvindo um bom rock. A cidade de São Paulo é um personagem na história que praticamente só conta com um protagonista e umas duas coadjuvantes que o abordam em dois momentos distintos. Há uma espécie de crítica àqueles que condenam os que consomem cultura pop estrangeira. Direção: Wilson Barros. Ano: 1983.
A PASSAGEM DO COMETA
Cada novo filme de Juliana Rojas é uma alegria, pois todos os seus trabalhos são no mínimo ótimos. Agora, então, que já tem longas premiados e devidamente louvados, está no domínio ainda maior de seu trabalho. Aqui ela conta a história de uma jovem que vai fazer um aborto na época em que o cometa Haley está passando. É gostoso de ver e um tanto enigmático. Ano: 2017. (foto)
NOTURNO
Não me sinto apto para analisar animações mais abstratas e que principalmente foram produzidas em uma outra época, em que esse tipo de produção era mais raro no Brasil, era um feito de fato heroico. Este pequeno e belo curta de Aída Queiroz se encaixa nesse quesito. O filme ficou na posição de número 57 da lista das melhores animações segundo a Abraccine. Ano: 1986.
O PROJETO DO MEU PAI
Que desenho lindo! Encanta já desde o começo, quando a diretora/narradora conta sobre como era sua família quando ela era pequena e como ela os desenhava, com os tradicionais bonecos-palito. A questão da ausência do pai dói um pouco no tom agridoce do filme e se torna ainda mais forte nas emoções quando a narradora-personagem reencontra o pai quando adulta. De dar uma leve dor no peito. Direção: Rosaria. Ano: 2016.
O VIOLEIRO FANTASMA
Um filme que mistura elementos da cultura nordestina, como o cantador de repente, com coisas da cultura mexicana, como o culto aos mortos, e até a coisas relativas à cultura japonesa (pelo que eu entendi ou remeti), nas cenas em que o filme ganha ares de sonho, com cabeças voadoras e coisas parecidas. Só faltou eu me conectar mais com o trabalho, mesmo gostando muito do visual, das cores etc. Direção: Wesley Rodrigues. Ano: 2017.
MENINA DA CHUVA
Outra belezura de trabalho de Rosaria, que dessa vez trata da solidão através do drama de uma garotinha de cor roxa que não encontra inclusão entre as meninas da sua idade nem entre os adultos. Quem tem uma relação mais forte com a solidão é fácil entrar em sintonia tanto com o filme quanto com a personagem, no sentido de que é possível trafegar por momentos de tristeza e por outros de satisfação, mesmo sozinha, como na bela cena da chuva. Há também uma valorização da visualização da vida cotidiana como elemento de graça para a vida a sós. Ano: 2010.
quinta-feira, março 21, 2019
terça-feira, março 19, 2019
A MENINA DO LADO
Um dos filmes marcantes do início de minha cinefilia foi este A MENINA DO LADO (1987), de Alberto Salvá (embora só tenha visto na televisão). Hoje eu vejo que nem é a grande história de amor contada pelo diretor catalão naturalizado brasileiro. Sua obra-prima e seu filme-testamento, NA CARNE E NA ALMA (2012), tem muito mais impacto emocional, embora seja quase invisível para o grande público. Já A MENINA DO LADO, por outro lado, até por causa das polêmicas na época (se fossem nos dias de hoje o diretor seria apedrejado), ganhou uma fama enorme.
Vencedor de dois prêmios em Gramado, um para Reginaldo Faria e outro para a jovem atriz revelação Flávia Monteiro, o filme conta a história de amor entre uma adolescente que passa uns dias em uma casa de praia sozinha e um jornalista, um homem de meia-idade, que também passava os dias sozinho na casa ao lado, a fim de escrever um livro. A MENINA DO LADO trata de mostrar muito bem os contrastes entre a energia e o modo de ver a vida dos dois personagens.
Como se trata de um filme sem voice over, complementamos a interpretação de Faria com nosso próprio modo de ver aquela jovem doce que age com tanta naturalidade que parece impossível não se encantar, mesmo que de modo distante, ainda mais diante do aspecto proibido da relação. Assim, o personagem de Faria não é pintado como um tarado ou algo do tipo. Ao contrário, o sentimento que ele cria pela garota é de fato uma paixão intensa, paixão que pode ser muito bem compartilhada pelo espectador, causando alguma idenfiticação.
Em entrevista para o site Devo Tudo ao Cinema, a amiga e companheira de Salvá, Olga Pereira Costa, conta que o processo criativo do diretor era muito de cortar e colar experiências da vida dele e de seus amigos. Ele era um sujeito muito observador e a vida era a principal fonte de inspiração para a criação dessas obras. No caso de A MENINA DO LADO, trata-se da adaptação do conto "Alice", de sua própria autoria, que o cineasta escreveu para a revista Status, para a seção Contos Eróticos. O conto foi premiado, e ele resolveu transformar em roteiro e filme.
Flávia Monteiro nunca tinha feito cinema na vida e foi escolhida logo no teste, que consistia apenas em passar batom em frente ao espelho. Assim que a viu, Salvá logo disse para a equipe: "temos a nossa Alice!". E de fato Flávia se materializou em Alice. O conto, não sei se é fácil de conseguir ver, mas creio que se pegarmos para ler, o rosto da jovem atriz aparecerá facilmente em nossa mente. Uma pena que o diretor passou tanto tempo para realizar o seu longa-metragem seguinte, justamente o seu último.
+ TRÊS FILMES
FULANINHA
Delícia de filme do David Neves, grande cronista da vida no Rio de Janeiro. Aqui achei que o filme ia caminhar pela obsessão do personagem de Marzo pela ninfeta, que é realmente linda, mas FULANINHA acaba seguindo por outros caminhos e também enriquecendo sua fauna de personagens interessantes e simpáticos. A moça que faz a personagem-título, Mariana de Moraes, bem que podia ter feito mais sucesso. Um achado de linda. Ela tinha 17 anos na época do filme, mas sua personagem tem 14. Pela idade, não sei se cenas de nudez são proibidas hoje no ECA, ou apenas se houver algo mais apimentado. Se for proibido, é bem possível que este filme nunca ganhe uma cópia remasterizada. Ano: 1986.
RIO BABILÔNIA
Vi a famosa cópia sem cortes de RIO BABILÔNIA. Ao que parece passou nos cinemas com cortes e também quando exibida na TV paga. De ousadia temos membros masculinos eretos e em uma cena dá impressão de que houve penetração (logo na cena com a Denise Dumont!). O filme parece sofrer de uma falta de lugar para ir, mas há vários momentos muito bons e às vezes dá para rir das festas de suruba. Ainda assim, acho que a cena mais bonita plasticamente é a com a Christiane Torloni em cena de sexo suave com o Joel Barcelos. No mais, não deixa de ser curioso ver Jardel Filho no meio de tanta putaria. Mas é uma putaria que não chega a excitar mais, acredito eu. Não como nos melhores filmes da Boca do Lixo, por exemplo. Mas o cinema carioca tinha as suas vantagens, como encher o elenco de atores famosos e ter um trabalho de som muito melhor. Um luxo. Direção: Neville d'Almeida. Ano: 1982.
KARINA, OBJETO DE PRAZER
No mesmo ano da obra-prima TCHAU AMOR (1982), Jean Garrett fez esta outra parceria com a atriz Angelina Muniz. Aí é um drama muito mais carregado de erotismo, desses de dar gosto mesmo. A cena de Karina fazendo sexo com o sujeito que ela conhece no cassino é uma das melhores que eu já vi no cinema brasileiro. Aliás, o filme já começa com um caprichadíssimo striptease da protagonista. Mas pra não dizer que o filme é machista, a trama e a moral da história é justamente o contrário: Garrett fez um belo drama feminista. Ano: 1982.
Vencedor de dois prêmios em Gramado, um para Reginaldo Faria e outro para a jovem atriz revelação Flávia Monteiro, o filme conta a história de amor entre uma adolescente que passa uns dias em uma casa de praia sozinha e um jornalista, um homem de meia-idade, que também passava os dias sozinho na casa ao lado, a fim de escrever um livro. A MENINA DO LADO trata de mostrar muito bem os contrastes entre a energia e o modo de ver a vida dos dois personagens.
Como se trata de um filme sem voice over, complementamos a interpretação de Faria com nosso próprio modo de ver aquela jovem doce que age com tanta naturalidade que parece impossível não se encantar, mesmo que de modo distante, ainda mais diante do aspecto proibido da relação. Assim, o personagem de Faria não é pintado como um tarado ou algo do tipo. Ao contrário, o sentimento que ele cria pela garota é de fato uma paixão intensa, paixão que pode ser muito bem compartilhada pelo espectador, causando alguma idenfiticação.
Em entrevista para o site Devo Tudo ao Cinema, a amiga e companheira de Salvá, Olga Pereira Costa, conta que o processo criativo do diretor era muito de cortar e colar experiências da vida dele e de seus amigos. Ele era um sujeito muito observador e a vida era a principal fonte de inspiração para a criação dessas obras. No caso de A MENINA DO LADO, trata-se da adaptação do conto "Alice", de sua própria autoria, que o cineasta escreveu para a revista Status, para a seção Contos Eróticos. O conto foi premiado, e ele resolveu transformar em roteiro e filme.
Flávia Monteiro nunca tinha feito cinema na vida e foi escolhida logo no teste, que consistia apenas em passar batom em frente ao espelho. Assim que a viu, Salvá logo disse para a equipe: "temos a nossa Alice!". E de fato Flávia se materializou em Alice. O conto, não sei se é fácil de conseguir ver, mas creio que se pegarmos para ler, o rosto da jovem atriz aparecerá facilmente em nossa mente. Uma pena que o diretor passou tanto tempo para realizar o seu longa-metragem seguinte, justamente o seu último.
+ TRÊS FILMES
FULANINHA
Delícia de filme do David Neves, grande cronista da vida no Rio de Janeiro. Aqui achei que o filme ia caminhar pela obsessão do personagem de Marzo pela ninfeta, que é realmente linda, mas FULANINHA acaba seguindo por outros caminhos e também enriquecendo sua fauna de personagens interessantes e simpáticos. A moça que faz a personagem-título, Mariana de Moraes, bem que podia ter feito mais sucesso. Um achado de linda. Ela tinha 17 anos na época do filme, mas sua personagem tem 14. Pela idade, não sei se cenas de nudez são proibidas hoje no ECA, ou apenas se houver algo mais apimentado. Se for proibido, é bem possível que este filme nunca ganhe uma cópia remasterizada. Ano: 1986.
RIO BABILÔNIA
Vi a famosa cópia sem cortes de RIO BABILÔNIA. Ao que parece passou nos cinemas com cortes e também quando exibida na TV paga. De ousadia temos membros masculinos eretos e em uma cena dá impressão de que houve penetração (logo na cena com a Denise Dumont!). O filme parece sofrer de uma falta de lugar para ir, mas há vários momentos muito bons e às vezes dá para rir das festas de suruba. Ainda assim, acho que a cena mais bonita plasticamente é a com a Christiane Torloni em cena de sexo suave com o Joel Barcelos. No mais, não deixa de ser curioso ver Jardel Filho no meio de tanta putaria. Mas é uma putaria que não chega a excitar mais, acredito eu. Não como nos melhores filmes da Boca do Lixo, por exemplo. Mas o cinema carioca tinha as suas vantagens, como encher o elenco de atores famosos e ter um trabalho de som muito melhor. Um luxo. Direção: Neville d'Almeida. Ano: 1982.
KARINA, OBJETO DE PRAZER
No mesmo ano da obra-prima TCHAU AMOR (1982), Jean Garrett fez esta outra parceria com a atriz Angelina Muniz. Aí é um drama muito mais carregado de erotismo, desses de dar gosto mesmo. A cena de Karina fazendo sexo com o sujeito que ela conhece no cassino é uma das melhores que eu já vi no cinema brasileiro. Aliás, o filme já começa com um caprichadíssimo striptease da protagonista. Mas pra não dizer que o filme é machista, a trama e a moral da história é justamente o contrário: Garrett fez um belo drama feminista. Ano: 1982.
quinta-feira, março 07, 2019
CAPITÃ MARVEL (Captain Marvel)
Curioso como, mesmo tendo uma longevidade e um vigor tão grandes, a Marvel ainda não tinha uma heroína solo que rivalizasse com a Mulher Maravilha, da DC Comics. Isso levando em consideração tanto a popularidade quanto o poderio da personagem. Tanto que muitos cobravam um filme-solo de uma heroína feminina, que poderia muito bem ser da Viúva Negra, já que era uma personagem já apresentada e muito interessante. No entanto, os pensadores do Universo Cinematográfico Marvel sabem o que fazem e precisavam de alguém que fizesse um link com as histórias épicas e estelares que culminariam em VINGADORES - ULTIMATO, o filme que fechará a terceira e mais bem-sucedida fase do estúdio.
Daí tirar da manga Carol Danvers, personagem que ganhou força novamente nos anos 2000, graças à sua importância nas populares histórias dos Vingadores escritas por Brian Michael Bendis. Isso, ainda sob o nome de Miss Marvel. No entanto, por mais que fosse uma personagem querida pelo roteirista e por muitos leitores, Miss Marvel ainda não tinha uma base sólida, uma história que a tornasse tão humana quanto os melhores e mais populares heróis da Marvel. A chamada "Casa das Ideias", inclusive, se caracteriza justamente por dar esse trato mais humano a seus heróis.
A personagem passou por uma mudança drástica em 2012, quando passou a adotar a alcunha de Capitã Marvel e deixar de lado o maiô sexy e usar uma vestimenta mais compatível com os dias atuais, de menor objetificação do corpo feminino nas HQs. Assim, mesmo forçando um pouco a barra, os estúdios Marvel trazem a heroína para o universo já estabelecido e justo para um momento anterior a quase tudo que foi mostrado até então, já que a trama se passa nos anos 1990. Aliás, quem curte a década, vai se deliciar não apenas com as canções que aparecem no filme, mas também com imagens queridas daqueles anos, como a capa de Mellon Collie and the Infinite Sadness, álbum dos Smashing Pumpkins, ou um cartaz de TRUE LIES, de James Cameron.
Para quem é fã dos quadrinhos há uma boa quantidade de personagens conhecidos em CAPITÃ MARVEL (2019), a começar pelos skrulls, a raça transmorfa verde e de queixo enrugado que costuma aparecer com mais frequência nas histórias dos Vingadores. Dos personagens já estabelecidos, apenas Nick Fury (Samuel L. Jackson) surge, ainda sem o tapa-olho, e o jovem Agente Coulson (Clark Gregg), ambos da S.H.I.E.L.D. Eles surgem quando a Capitã Marvel (Brie Larson), então chamada pela raça kree de Vers, cai no planeta Terra, dentro de uma videolocadora. A bela loira estava naquele lugar estranho também para descobrir muito de si mesma, já que havia memórias intensas, mas bastante confusas, de uma vida naquele mundo de tecnologia inferior.
Embora o filme dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck (de SE ENLOUQUECER, NÃO SE APAIXONE, 2010) tropece quando parte para a ação (que parece não ser a praia dos diretores), não estamos diante de um filme aborrecido. Talvez justamente por suas falhas e por conter elementos novos (como o gato alienígena, por exemplo), CAPITÃ MARVEL mantém o interesse. Até porque, em determinados momentos, a produção remete a ficções científicas dos tempos em que o gênero era sinônimo de filmes camp de baixo orçamento, principalmente nas cenas em que Jude Law aparece, seja no início, seja perto do final.
Em comparação com vários outros filmes do universo Marvel, CAPITÃ MARVEL é um dos mais modestos em se tratando de elenco estelar. Até porque a intenção aqui é preparar terreno para a conclusão do épico dos Vingadores e introduzir a personagem na próxima aventura. Por mais que ainda seja uma heroína com pouca personalidade (não se sabe quase nada sobre quem ela foi, na verdade), o filme trata de fazê-la brilhar o suficiente para mostrar que Brie Larson tem mais carisma do que se dizia dela, além de ter sido uma bela escolha para vestir o manto da heroína mais poderosa da Casa das Ideias. Que venha novamente Thanos e os Vingadores.
+ TRÊS FILMES
ANIMAIS FANTÁSTICOS - OS CRIMES DE GRINDELWALD (Fantastic Beasts - The Crimes of Grindelwald)
Que filme chato! Claro que quem se envolve com o universo de Harry Potter vai achar interessante. Ou não. O fato é que em nenhum momento me envolvi com nada dos personagens. Nem mesmo o charme de Katherine Waterston. Não digo que não haja nada de interessante, e não há como negar a beleza da direção de arte, mas isso não pode ser tudo num filme. E mais uma trilha sonora óbvia e tramas de família que parecem saídas de novelas das nove. Aproveitem as próximas três continuações. Estou fora. Direção: David Yates. Ano: 2018.
BUMBLEBEE
Só pelas críticas positivas que resolvi dar uma chance a esse spin-off de TRANSFORMERS. Não gosto nada dos filmes desses brinquedos. Mas é difícil não simpatizar com uma heroína vivida pela Hailee Steinfeld. E também quando o filme já começa a sua sucessão de canções dos anos 80 com "Bigmouth strikes again", dos Smiths, dá para ficar animado de cara. Só acho meio chato quando tem a briga dos robozões, e parece que o próprio diretor também não se entusiasma, pois o foco acaba sendo o sentimento de amor entre a protagonista e o Bumblebee. Confesso que queria ter gostado mais, mas já está bom demais o saldo para um filme da franquia. Direção: Travis Knight. Ano: 2018.
ALITA - ANJO DE COMBATE (Alita - Battle Angel)
Comecei a gostar do filme em sua terça parte final, talvez por começar a perceber um pouco da característica trágica da personagem e da trama. Mas Robert Rodriguez é o tipo de diretor que quase sempre deixa a gente na mão, com um produto torto e desleixado. Esse aqui, como é produção do James Cameron, parece um pouco mais caprichado, mas a falta de interesse pelos personagens logo entrega que há algo errado ali. Não conhecia o material original. Ano: 2019.
Daí tirar da manga Carol Danvers, personagem que ganhou força novamente nos anos 2000, graças à sua importância nas populares histórias dos Vingadores escritas por Brian Michael Bendis. Isso, ainda sob o nome de Miss Marvel. No entanto, por mais que fosse uma personagem querida pelo roteirista e por muitos leitores, Miss Marvel ainda não tinha uma base sólida, uma história que a tornasse tão humana quanto os melhores e mais populares heróis da Marvel. A chamada "Casa das Ideias", inclusive, se caracteriza justamente por dar esse trato mais humano a seus heróis.
A personagem passou por uma mudança drástica em 2012, quando passou a adotar a alcunha de Capitã Marvel e deixar de lado o maiô sexy e usar uma vestimenta mais compatível com os dias atuais, de menor objetificação do corpo feminino nas HQs. Assim, mesmo forçando um pouco a barra, os estúdios Marvel trazem a heroína para o universo já estabelecido e justo para um momento anterior a quase tudo que foi mostrado até então, já que a trama se passa nos anos 1990. Aliás, quem curte a década, vai se deliciar não apenas com as canções que aparecem no filme, mas também com imagens queridas daqueles anos, como a capa de Mellon Collie and the Infinite Sadness, álbum dos Smashing Pumpkins, ou um cartaz de TRUE LIES, de James Cameron.
Para quem é fã dos quadrinhos há uma boa quantidade de personagens conhecidos em CAPITÃ MARVEL (2019), a começar pelos skrulls, a raça transmorfa verde e de queixo enrugado que costuma aparecer com mais frequência nas histórias dos Vingadores. Dos personagens já estabelecidos, apenas Nick Fury (Samuel L. Jackson) surge, ainda sem o tapa-olho, e o jovem Agente Coulson (Clark Gregg), ambos da S.H.I.E.L.D. Eles surgem quando a Capitã Marvel (Brie Larson), então chamada pela raça kree de Vers, cai no planeta Terra, dentro de uma videolocadora. A bela loira estava naquele lugar estranho também para descobrir muito de si mesma, já que havia memórias intensas, mas bastante confusas, de uma vida naquele mundo de tecnologia inferior.
Embora o filme dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck (de SE ENLOUQUECER, NÃO SE APAIXONE, 2010) tropece quando parte para a ação (que parece não ser a praia dos diretores), não estamos diante de um filme aborrecido. Talvez justamente por suas falhas e por conter elementos novos (como o gato alienígena, por exemplo), CAPITÃ MARVEL mantém o interesse. Até porque, em determinados momentos, a produção remete a ficções científicas dos tempos em que o gênero era sinônimo de filmes camp de baixo orçamento, principalmente nas cenas em que Jude Law aparece, seja no início, seja perto do final.
Em comparação com vários outros filmes do universo Marvel, CAPITÃ MARVEL é um dos mais modestos em se tratando de elenco estelar. Até porque a intenção aqui é preparar terreno para a conclusão do épico dos Vingadores e introduzir a personagem na próxima aventura. Por mais que ainda seja uma heroína com pouca personalidade (não se sabe quase nada sobre quem ela foi, na verdade), o filme trata de fazê-la brilhar o suficiente para mostrar que Brie Larson tem mais carisma do que se dizia dela, além de ter sido uma bela escolha para vestir o manto da heroína mais poderosa da Casa das Ideias. Que venha novamente Thanos e os Vingadores.
+ TRÊS FILMES
ANIMAIS FANTÁSTICOS - OS CRIMES DE GRINDELWALD (Fantastic Beasts - The Crimes of Grindelwald)
Que filme chato! Claro que quem se envolve com o universo de Harry Potter vai achar interessante. Ou não. O fato é que em nenhum momento me envolvi com nada dos personagens. Nem mesmo o charme de Katherine Waterston. Não digo que não haja nada de interessante, e não há como negar a beleza da direção de arte, mas isso não pode ser tudo num filme. E mais uma trilha sonora óbvia e tramas de família que parecem saídas de novelas das nove. Aproveitem as próximas três continuações. Estou fora. Direção: David Yates. Ano: 2018.
BUMBLEBEE
Só pelas críticas positivas que resolvi dar uma chance a esse spin-off de TRANSFORMERS. Não gosto nada dos filmes desses brinquedos. Mas é difícil não simpatizar com uma heroína vivida pela Hailee Steinfeld. E também quando o filme já começa a sua sucessão de canções dos anos 80 com "Bigmouth strikes again", dos Smiths, dá para ficar animado de cara. Só acho meio chato quando tem a briga dos robozões, e parece que o próprio diretor também não se entusiasma, pois o foco acaba sendo o sentimento de amor entre a protagonista e o Bumblebee. Confesso que queria ter gostado mais, mas já está bom demais o saldo para um filme da franquia. Direção: Travis Knight. Ano: 2018.
ALITA - ANJO DE COMBATE (Alita - Battle Angel)
Comecei a gostar do filme em sua terça parte final, talvez por começar a perceber um pouco da característica trágica da personagem e da trama. Mas Robert Rodriguez é o tipo de diretor que quase sempre deixa a gente na mão, com um produto torto e desleixado. Esse aqui, como é produção do James Cameron, parece um pouco mais caprichado, mas a falta de interesse pelos personagens logo entrega que há algo errado ali. Não conhecia o material original. Ano: 2019.
quarta-feira, março 06, 2019
OITO CURTAS CEARENSES
VANGO VULGO VEDITA
Acho sempre interessantes os filmes com a assinatura do Leonardo Mouramateus. E há coisas que eu gosto muito e outras que não gosto nem tanto, mas mesmo essas coisas (como a briga dos meninos etc.) são recorrentes e a cara do diretor. Gosto da liberdade e da alegria da cena na praia, e de como isso é quebrado. Direção: Andréia Pires e Leonardo Mouramateus. Ano: 2017.
A CANÇÃO DE ALICE
Um filme cuja primeira coisa que chama a atenção é a fotografia, de uma beleza impressionante. Petrus Cariry é um de nossos melhores fotógrafos de cinema, sem dúvida. Depois tem o destaque para o lirismo das falas, do sentimento de saudade, da expressão no rosto da personagem da avó/mãe, de suas recordações. E tem o mar pontuando as emoções. Muito bonito. Direção: Barbara Cariry. Ano: 2018. (Foto)
BOCA DE LOBA
É um filme que se beneficiaria de uma revisão para poder captar melhor o que ele quer dizer com seus simbolismos e suas imagens justapostas a uma narração em voice over que não parece ter estreita relação com o que é mostrado nas cenas. Destaque para o centro de Fortaleza de madrugada, sendo explorado em toda sua glória. Ou falta de. Direção: Bárbara Cabeça. Ano: 2018.
CARTUCHOS DE SUPER NINTENDO EM ANÉIS DE SATURNO
Tenho um pouco de resistência a filmes brasileiros que utilizam a ficção científica para tratar de seus temas. Mas é interessante que este filme do Leon Reis impressiona no quesito qualidade dos efeitos. E ainda manda uma mensagem, um tanto cifrada, sobre a questão do preconceito. Direção: Leon Reis. Ano: 2018.
NEGO TEM QUE SE VIRAR
Como uma espécie de elogio à maconha e ao modo de vida mais, digamos, marginal, o filme também tem um aspecto bem desapegado às regras mais clássicas. "Cinema é charlação", aparece em determinado momento. Interessante que não tem cara de filme que quer pregar as suas verdades ao público. Direção: Mike Dutra. Ano: 2018.
PONTE VELHA
Descrito a princípio como um documentário, Ponte Velha vai aos poucos se desconstruindo. Até flerta com algum didatismo, ao mostrar uma foto de 1929 da ponte e dar algumas explicações da Fortaleza da Bélle Époque, mas depois entra numas de fantasia para depois voltar a um registro bem pessoal. Parece tatear o seu caminho o tempo todo. E isso é interessante. Direção: Victor de Melo. Ano: 2018.
SUDESTINOS
Que filme bonito e emocional. A ideia de pegar depoimentos de pessoas em um trajeto que sai de São Paulo até Fortaleza por si só já é muito boa. E o resultado acaba sendo muito positivo, pois muitos dos depoimentos são belos e emocionantes. É o caso de pensar no quanto é um universo a vida de cada um. A opção pelo preto e branco foi feliz. Direção: Germano de Sousa. Ano: 2018.
TETO
Um trabalho que privilegia o som de maneira impressionante. Em certos momentos, lembra David Lynch com o uso do som e também com o uso de uma câmera que parece estar em estado de vigília perigosa. Há também um cuidado com as texturas nas cores que impressiona. Seria interessante ver um longa do diretor. Direção: Darwin Marinho. Ano: 2018.
Acho sempre interessantes os filmes com a assinatura do Leonardo Mouramateus. E há coisas que eu gosto muito e outras que não gosto nem tanto, mas mesmo essas coisas (como a briga dos meninos etc.) são recorrentes e a cara do diretor. Gosto da liberdade e da alegria da cena na praia, e de como isso é quebrado. Direção: Andréia Pires e Leonardo Mouramateus. Ano: 2017.
A CANÇÃO DE ALICE
Um filme cuja primeira coisa que chama a atenção é a fotografia, de uma beleza impressionante. Petrus Cariry é um de nossos melhores fotógrafos de cinema, sem dúvida. Depois tem o destaque para o lirismo das falas, do sentimento de saudade, da expressão no rosto da personagem da avó/mãe, de suas recordações. E tem o mar pontuando as emoções. Muito bonito. Direção: Barbara Cariry. Ano: 2018. (Foto)
BOCA DE LOBA
É um filme que se beneficiaria de uma revisão para poder captar melhor o que ele quer dizer com seus simbolismos e suas imagens justapostas a uma narração em voice over que não parece ter estreita relação com o que é mostrado nas cenas. Destaque para o centro de Fortaleza de madrugada, sendo explorado em toda sua glória. Ou falta de. Direção: Bárbara Cabeça. Ano: 2018.
CARTUCHOS DE SUPER NINTENDO EM ANÉIS DE SATURNO
Tenho um pouco de resistência a filmes brasileiros que utilizam a ficção científica para tratar de seus temas. Mas é interessante que este filme do Leon Reis impressiona no quesito qualidade dos efeitos. E ainda manda uma mensagem, um tanto cifrada, sobre a questão do preconceito. Direção: Leon Reis. Ano: 2018.
NEGO TEM QUE SE VIRAR
Como uma espécie de elogio à maconha e ao modo de vida mais, digamos, marginal, o filme também tem um aspecto bem desapegado às regras mais clássicas. "Cinema é charlação", aparece em determinado momento. Interessante que não tem cara de filme que quer pregar as suas verdades ao público. Direção: Mike Dutra. Ano: 2018.
PONTE VELHA
Descrito a princípio como um documentário, Ponte Velha vai aos poucos se desconstruindo. Até flerta com algum didatismo, ao mostrar uma foto de 1929 da ponte e dar algumas explicações da Fortaleza da Bélle Époque, mas depois entra numas de fantasia para depois voltar a um registro bem pessoal. Parece tatear o seu caminho o tempo todo. E isso é interessante. Direção: Victor de Melo. Ano: 2018.
SUDESTINOS
Que filme bonito e emocional. A ideia de pegar depoimentos de pessoas em um trajeto que sai de São Paulo até Fortaleza por si só já é muito boa. E o resultado acaba sendo muito positivo, pois muitos dos depoimentos são belos e emocionantes. É o caso de pensar no quanto é um universo a vida de cada um. A opção pelo preto e branco foi feliz. Direção: Germano de Sousa. Ano: 2018.
TETO
Um trabalho que privilegia o som de maneira impressionante. Em certos momentos, lembra David Lynch com o uso do som e também com o uso de uma câmera que parece estar em estado de vigília perigosa. Há também um cuidado com as texturas nas cores que impressiona. Seria interessante ver um longa do diretor. Direção: Darwin Marinho. Ano: 2018.
segunda-feira, fevereiro 25, 2019
OSCAR 2019
Para um Oscar com poucos indicados ótimos dentre os oito da categoria principal, até que a festa se mostrou boa, com alguns momentos memoráveis, como a premiação a Spike Lee pelo excelente INFILTRADO NA KLAN. Ainda que tenha sido na categoria de roteiro adaptado, a alegria foi muito maior, com Lee subindo nos braços do amigo Samuel L. Jackson. A comemoração foi muito maior do que quando Alfonso Cuarón subiu para receber a estatueta de melhor direção por ROMA. Sem falar que o discurso de Lee foi o melhor da noite, metendo o dedo na ferida sem dó.
Outro momento muito bonito, talvez o mais bonito da noite, foi a apresentação de "Shallow", cantada por Lady Gaga e Bradley Cooper, de forma comovente e bem destacada das demais canções que disputadas. A cantora e Cooper não saíram de trás do palco, nem tiveram seus nomes chamados por alguém. Já começou daí a diferença. O prêmio já era garantido.
Falando em música, se na edição deste ano não tivemos um host, ao menos a festa começou ao som de Queen, com Adam Lambert substituindo Freddie Mercury, como foi quando a banda se apresentou na edição do Rock in Rio de 2015. Pena que foi muito rápido, apenas versões compactas de duas canções muito famosas ("We will rock you" e "We are the champions"). Ainda assim, o suficiente para alegrar a audiência presente e dar uma pontada de inveja de quem só viu pela televisão.
Do ponto de vista político, foi um Oscar bastante misto e muito interessado em tratar das questões raciais. Três dos oito filmes tratavam do assunto, cada um à sua maneira: PANTERA NEGRA, INFILTRADO NA KLAN e GREEN BOOK - O GUIA. E três também tratavam de relações homoafetivas: BOHEMIAN RHAPSODY, GREEN BOOK - O GUIA e A FAVORITA. E dois filmes tratam da conjuntura política do passado para falar do presente: INFILTRADO NA KLAN e VICE.
E não devemos esquecer de ROMA, que também tem tudo a ver com esse momento atual, de construção de pontes para "proteger" os americanos dos imigrantes. Quando Javier Bardem subiu ao palco para dar o prêmio de filme estrangeiro para Cuarón isso ficou muito claro. Além do mais, em determinado momento, Barbra Streisand, ao falar de Spike Lee e de INFILTRADO NA KLAN, disse "A verdade é muito importante nos dias de hoje." A gente aqui do Brasil sente na pele isso também.
No terreno das premiações, além do Oscar para Spike Lee, também foi uma surpresa boa a premiação de melhor atriz para Olivia Colman, o único Oscar para A FAVORITA. Tudo bem que o mais justo seria premiar as três atrizes do filme, já que as três são protagonistas, mas na falta dessa opção, muito melhor dar um prêmio de um trabalho ótimo de uma atriz do que um prêmio pelo "conjunto da obra" para um filme morno como A ESPOSA, o então favorito a ganhar na categoria. Foi tão surpreendente que nem Colman nem Glenn Close acreditaram.
Outra zebra da noite foi o prêmio de melhores efeitos visuais para O PRIMEIRO HOMEM, que desbancou o favorito, o épico da Marvel/Disney VINGADORES - GUERRA INFINITA. A Disney também perdeu na categoria de animação para a animação da Sony HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, que já era a favorita na categoria e de fato apresenta algo novo.
E é isso. Para quem reclamava do Oscar so white, tivemos até o momento a premiação com o maior número de Oscars para atores e técnicos negros em muito tempo. Sem falar nos prêmios para ROMA (se bem que no fim das contas, Cuarón foi quem subiu ao palco as três vezes, já que a direção de fotografia também era dele).
Uma pena, porém, que a Academia resolveu premiar como melhor filme uma obra tão ultrapassada como GREEN BOOK - O GUIA, uma versão pouco inteligente e muito demasiadamente pacificadora da questão racial. Depois de alguns prêmios acertados, ver a equipe do filme de Peter Farrelly subindo ao palco deixou um amargo na boca. Talvez, afinal, fosse querer demais da Academia uma postura ao mesmo tempo progressista e revolucionária. Raramente isso é possível.
Os Premiados
Melhor Filme – GREEN BOOK - O GUIA
Direção – Alfonso Cuarón (ROMA)
Ator – Rami Malek (BOHEMIAN RHAPSODY)
Atriz – Olivia Colman (A FAVORITA)
Ator Coadjuvante – Mahershala Ali (GREEN BOOK - O GUIA)
Atriz Coadjuvante –Regina King (SE A RUA BEALE FALASSE)
Roteiro Original – GREEN BOOK - O GUIA
Roteiro Adaptado – INFILTRADO NA KLAN
Fotografia – ROMA Montagem – BOHEMIAN RHAPSODY
Trilha Sonora Original – PANTERA NEGRA
Canção Original - "Shallow", de NASCE UMA ESTRELA
Mixagem de Som – BOHEMIAN RHAPSODY
Edição de Som – BOHEMIAN RHAPSODY
Efeitos Visuais – O PRIMEIRO HOMEM
Design de produção – PANTERA NEGRA
Figurino – PANTERA NEGRA
Maquiagem e cabelos – VICE
Filme Estrangeiro – ROMA (México)
Longa de Animação – HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
Curta de Animação – BAO
Curta-metragem – SKIN
Documentário – FREE SOLO Curta Documentário – ABSORVENDO O TABU
Outro momento muito bonito, talvez o mais bonito da noite, foi a apresentação de "Shallow", cantada por Lady Gaga e Bradley Cooper, de forma comovente e bem destacada das demais canções que disputadas. A cantora e Cooper não saíram de trás do palco, nem tiveram seus nomes chamados por alguém. Já começou daí a diferença. O prêmio já era garantido.
Falando em música, se na edição deste ano não tivemos um host, ao menos a festa começou ao som de Queen, com Adam Lambert substituindo Freddie Mercury, como foi quando a banda se apresentou na edição do Rock in Rio de 2015. Pena que foi muito rápido, apenas versões compactas de duas canções muito famosas ("We will rock you" e "We are the champions"). Ainda assim, o suficiente para alegrar a audiência presente e dar uma pontada de inveja de quem só viu pela televisão.
Do ponto de vista político, foi um Oscar bastante misto e muito interessado em tratar das questões raciais. Três dos oito filmes tratavam do assunto, cada um à sua maneira: PANTERA NEGRA, INFILTRADO NA KLAN e GREEN BOOK - O GUIA. E três também tratavam de relações homoafetivas: BOHEMIAN RHAPSODY, GREEN BOOK - O GUIA e A FAVORITA. E dois filmes tratam da conjuntura política do passado para falar do presente: INFILTRADO NA KLAN e VICE.
E não devemos esquecer de ROMA, que também tem tudo a ver com esse momento atual, de construção de pontes para "proteger" os americanos dos imigrantes. Quando Javier Bardem subiu ao palco para dar o prêmio de filme estrangeiro para Cuarón isso ficou muito claro. Além do mais, em determinado momento, Barbra Streisand, ao falar de Spike Lee e de INFILTRADO NA KLAN, disse "A verdade é muito importante nos dias de hoje." A gente aqui do Brasil sente na pele isso também.
No terreno das premiações, além do Oscar para Spike Lee, também foi uma surpresa boa a premiação de melhor atriz para Olivia Colman, o único Oscar para A FAVORITA. Tudo bem que o mais justo seria premiar as três atrizes do filme, já que as três são protagonistas, mas na falta dessa opção, muito melhor dar um prêmio de um trabalho ótimo de uma atriz do que um prêmio pelo "conjunto da obra" para um filme morno como A ESPOSA, o então favorito a ganhar na categoria. Foi tão surpreendente que nem Colman nem Glenn Close acreditaram.
Outra zebra da noite foi o prêmio de melhores efeitos visuais para O PRIMEIRO HOMEM, que desbancou o favorito, o épico da Marvel/Disney VINGADORES - GUERRA INFINITA. A Disney também perdeu na categoria de animação para a animação da Sony HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, que já era a favorita na categoria e de fato apresenta algo novo.
E é isso. Para quem reclamava do Oscar so white, tivemos até o momento a premiação com o maior número de Oscars para atores e técnicos negros em muito tempo. Sem falar nos prêmios para ROMA (se bem que no fim das contas, Cuarón foi quem subiu ao palco as três vezes, já que a direção de fotografia também era dele).
Uma pena, porém, que a Academia resolveu premiar como melhor filme uma obra tão ultrapassada como GREEN BOOK - O GUIA, uma versão pouco inteligente e muito demasiadamente pacificadora da questão racial. Depois de alguns prêmios acertados, ver a equipe do filme de Peter Farrelly subindo ao palco deixou um amargo na boca. Talvez, afinal, fosse querer demais da Academia uma postura ao mesmo tempo progressista e revolucionária. Raramente isso é possível.
Os Premiados
Melhor Filme – GREEN BOOK - O GUIA
Direção – Alfonso Cuarón (ROMA)
Ator – Rami Malek (BOHEMIAN RHAPSODY)
Atriz – Olivia Colman (A FAVORITA)
Ator Coadjuvante – Mahershala Ali (GREEN BOOK - O GUIA)
Atriz Coadjuvante –Regina King (SE A RUA BEALE FALASSE)
Roteiro Original – GREEN BOOK - O GUIA
Roteiro Adaptado – INFILTRADO NA KLAN
Fotografia – ROMA Montagem – BOHEMIAN RHAPSODY
Trilha Sonora Original – PANTERA NEGRA
Canção Original - "Shallow", de NASCE UMA ESTRELA
Mixagem de Som – BOHEMIAN RHAPSODY
Edição de Som – BOHEMIAN RHAPSODY
Efeitos Visuais – O PRIMEIRO HOMEM
Design de produção – PANTERA NEGRA
Figurino – PANTERA NEGRA
Maquiagem e cabelos – VICE
Filme Estrangeiro – ROMA (México)
Longa de Animação – HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
Curta de Animação – BAO
Curta-metragem – SKIN
Documentário – FREE SOLO Curta Documentário – ABSORVENDO O TABU
segunda-feira, fevereiro 18, 2019
O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE? (Cosa Avete Fatto a Solange?)
Acabei esbarrando neste giallo porque no box da Versátil que eu comprei tem uma espécie de continuação do filme. Aí resolvi ver primeiro este aqui. Qual não foi minha surpresa quando me deparo com o melhor exemplar do gênero que eu já vi. Talvez melhor até que os filmes do Argento e do Bava, mas teria que rever vários para ter certeza.
É o tipo de filme que conquista o espectador desde a cena inicial, com o professor e a aula em um rio, namorando, quando acontece um assassinato. Depois disso, há todo um mistério em torno de mais mortes que surgem. O filme tem um visual lindo, um andamento narrativo de dar gosto, um pouco de sexo e violência e muitos elementos clássicos dos gialli - o assasino de luvas pretas, o seu ponto de vista.
O diretor é Massimo Dallamano, que tem um currículo maior como diretor de fotografia e assumiu a carreira de cineasta já na virada dos anos 50 para 60, tendo feito tanto spaghetti westerns quanto dramas eróticos, filmes de horror e comédias. Mas o que marcou mesmo sua carreira foram os gialli, sendo O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE? (1972) o seu trabalho mais festejado, presente em várias listas de melhores filmes do gênero de todos os tempos.
Eu confesso que não sabia da fama desta obra e estava um tanto afastado do cinema de gênero italiano. Nem sei dizer o motivo. O fato é que atualmente estou passando por uma fase de revalorização das obras italianas que possuem um toque pulp – tanto é que estou adorando os fumetti de Dylan Dog e sentindo mais vontade de ler mais coisas parecidas também.
Os italianos têm (e nas décadas de 60 e 70 eram especialmente ótimos nisso) uma capacidade impressionante de pegar criações de outros países e transformar em algo diferente e envolvente, ainda que com um leve toque de imitação. No caso dos filmes policiais, a atração que eles têm por países de língua inglesa é algo que já deve ter sido objeto de estudo por muitos acadêmicos. Afinal, por que motivo a história teria que se passar na Inglaterra e não na Itália? De todo modo, eles tinham um fino faro para negócios e sabiam que o mercado era mais receptivo para obras de gênero saídas dos Estados Unidos e da Inglaterra. Por isso, as dublagens em inglês eram tão populares no mercado internacional.
Hoje em dia, porém, há uma preferência pelo áudio em italiano pelos aficionados pelos gialli e filmes de horror produzidos na Itália. Há um encanto todo particular que essas produções provocam. No caso de O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE?, temos uma narrativa envolvente do início ao fim. O que é admirável, levando em consideração os caminhos que a obra percorre, dando a imaginar que alguma coisa vai sair muito errado no filme a qualquer momento, levando em consideração a trama em que não se sabe quem é o assassino de luvas pretas que mata as mulheres com uma facada na genitália.
Para nossa alegria, Massimo Dallamano conduz de maneira magistral a narrativa, brincando com as expectativas do espectador, tanto em relação a Elizabeth, personagem vivida pela bela e jovem espanhola Cristina Galbó, quanto pela introdução da personagem Solange, do título. Há que se destacar também a força do protagonista, vivido pelo italiano Fabio Testi. Ele faz o papel do professor de Educação Física casado que tem um caso com uma de suas alunas. A personagem da esposa, interpretada pela alemã Karin Baal, também tem uma importância fundamental no enredo, e há uma reviravolta interessante na personagem.
O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE faz parte de uma trilogia inacabada de Dallamano sobre jovens estudantes em perigo. O segundo filme foi O QUE ELES FIZERAM A SUAS FILHAS? (1974), também presente em um dos boxes da Versátil. Infelizmente, o diretor morreu em 1976, antes de completar a trilogia.
+ TRÊS FILMES
ESCAPE ROOM
Um filme que tem os seus méritos, principalmente antes de chegar à sua conclusão. Até então funciona como boa distração. Mas depois bate até saudade de O ALBERGUE e JOGOS MORTAIS, já que segue-se a mesma linha, só que sem o gore e os excessos, que se tornaram coisa de mau gosto nos dias atuais. Mas até que eu me divertia. Foi bom também para rever Deborah Ann Woll, a melhor personagem de TRUE BLOOD. Direção: Adam Robitel. Ano: 2019.
O TERCEIRO ASSASSINATO (Sandome No Satsujin)
Hirokazu Koreeda se sai muito melhor quando trata de dramas familiares. Aqui ele trata de uma investigação sobre um assassinato. Em alguns momentos do filme eu fiquei um tanto desinteressado ou pensando em outras coisas. O que eu vejo como um problema (meu em relação ao filme, ao menos). Mas há uma discussão interessante sobre sentir-se impotente diante do que o destino nos reserva e também sobre justiça. Ano: 2017.
MUSEU (Museo)
O grande barato de MUSEU é procurar fugir dos clichês de filmes de roubo. Principalmente na cena do roubo, por mais tensa que ela seja. Depois vemos que não é exatamente um filme de roubo, talvez seja mais sobre frustrações e tentativas toscas de seguir um caminho grandioso, no caso, conseguindo dinheiro "fácil" com um roubo inédito. Destaque também para várias tomadas atípicas. Só achei que podia ser um pouco mais curto. Direção: Alonso Ruizpalacios. Ano: 2018.
quinta-feira, fevereiro 14, 2019
CLIMAX
Às vezes basta uma cena para que um filme se torne memorável. Mesmo quando esse filme é cheio de problemas e que provoca mais insatisfações do que alegrias. Aliás, falar de alegrias quando o assunto é Gaspar Noé é até um pouco complicado, ainda que as intenções do diretor de provocar náuseas e outras reações ruins dêem com os burros n’água. Com relação à tal cena marcante de CLIMAX (2018), trata-se de uma sucessão de performances solo dos dançarinos e dançarinas, mostrada através de uma câmera que visualiza a ação de cima. Aquilo é tão belo e sensual e a música é tão intensa e envolvente que, por alguns minutos, até parece que estamos vendo um dos melhores filmes do ano.
A cena acontece depois que vamos conhecendo um grupo relativamente grande de dançarinos prontos a participar de uma experiência um tanto misteriosa, mas apresentada de uma maneira interessante e ao mesmo tempo dispersiva que abre o filme. É dispersiva principalmente para quem gosta de livros, filmes e estantes. Do lado de uma televisão há duas prateleiras que completam a tela scope da janela com livros e capas de VHS (o filme se passa nos anos 90) relacionados a cinema ou a temas ao gosto do diretor: Buñuel, Argento, Fassbinder, Pasolini, Nietzsche, entre outros.
Falando em Buñuel, o fato de as pessoas não poderem sair daquele espaço em que estão (só depois atentei para uma ligação da cena que serve de prólogo, de uma mulher agonizando no gelo, com o espaço em que eles se encontram confinados), o fato de que elas estão naquele espaço lembra um pouco O ANJO EXTERMINADOR, do mais talentoso dos cineastas espanhóis. Mas esse elemento acaba sendo esquecido ao longo das conversas entre os personagens, muitas delas sobre sexo. Destaque para o papo entre dois homens sobre quais mulheres do grupo eles já transaram e quais desejam transar e como vão fazer.
Uma pena que Noé tenha essa obsessão quase infantil por querer chocar a plateia e transforma algo que poderia ser impactante do ponto de vista formal, sensual e poético em algo que vai para uma linha do desagradável, como já é tradicional no cinema do diretor, desde antes de ele ficar famoso mundialmente pela cena prolongada de estupro de IRREVERSÍVEL (2002). Assim, o terceiro ato do filme tenta emular o estado de perturbação dos personagens, depois de terem sido drogados por uma substância alucinógena, abrindo espaço para cenas de câmeras rodopiantes e algumas cenas de violência gráfica e brutal (não é nada agradável ver uma mulher grávida receber chutes na barriga).
Ainda assim, a lembrança que guardarei desta experiência filmada apenas com um fiapo de roteiro de cinco páginas e muita vontade de fazer algo diferente, será das referidas danças sensuais ao som de um áudio poderoso. Lembrarei de como esse filme poderia ser tão mais gostoso se não precisasse efetivamente contar uma história.
+ TRÊS FILMES
CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite)
Não tenho acompanhado todos os filmes do Christophe Honoré. Só vi os que passaram nos cinemas da cidade. Os três de homenagem à Nouvelle Vague dos anos 2000 e mais o BEM AMADAS (2011). Este é certamente um dos melhores dele. E provavelmente um dos mais pessoais (minha suspeita apenas). O filme parece ter umas gorduras e uma duração maior do que eu gostaria, mas não sei o que tiraria. Ele cresce na memória e seus personagens são fortes e simpáticos o bastante para nos envolvermos com seus dramas. A questão da AIDS no início dos anos 1990 o aproxima bastante de 120 BATIMENTOS POR MINUTOS (que prefiro). Ano: 2018.
A NOSSA ESPERA (Nos Batailles)
Que baita filme lindo! Apresenta a porrada da vida real sem nos dar muito espaço para chorar e descarregar as emoções de tanta emoção. Aí o que fica é um nó na garganta. A história não é apenas a de um homem que é abandonado pela esposa e tem que cuidar dos dois filhos pequenos. Isso é apenas o tronco de uma árvore que apresenta diversos galhos, diversas dores. Adoro uma cena do Duris com a personagem da irmã (que linda!), as cenas de apoio dos amigos que também passam por situação difícil etc. Meus agradecimentos a todos os envolvidos. Direção: Guillaume Senez. Ano: 2018.
O VALOR DE UM HOMEM (La Loi du Marché)
O diretor Stéphane Brizé parece ter se especializado em dramas sobre pessoas vivendo os piores momentos de suas vidas. Bom que está cercado sempre de atores e atrizes muito bons, como é o caso aqui de Vincent Lindon. Na trama, ele é um homem de meia idade que está enfrentando uma dificuldade de encontrar emprego. E mesmo quando consegue, o filme se torna ainda mais incômodo. Ano: 2015.
A cena acontece depois que vamos conhecendo um grupo relativamente grande de dançarinos prontos a participar de uma experiência um tanto misteriosa, mas apresentada de uma maneira interessante e ao mesmo tempo dispersiva que abre o filme. É dispersiva principalmente para quem gosta de livros, filmes e estantes. Do lado de uma televisão há duas prateleiras que completam a tela scope da janela com livros e capas de VHS (o filme se passa nos anos 90) relacionados a cinema ou a temas ao gosto do diretor: Buñuel, Argento, Fassbinder, Pasolini, Nietzsche, entre outros.
Falando em Buñuel, o fato de as pessoas não poderem sair daquele espaço em que estão (só depois atentei para uma ligação da cena que serve de prólogo, de uma mulher agonizando no gelo, com o espaço em que eles se encontram confinados), o fato de que elas estão naquele espaço lembra um pouco O ANJO EXTERMINADOR, do mais talentoso dos cineastas espanhóis. Mas esse elemento acaba sendo esquecido ao longo das conversas entre os personagens, muitas delas sobre sexo. Destaque para o papo entre dois homens sobre quais mulheres do grupo eles já transaram e quais desejam transar e como vão fazer.
Uma pena que Noé tenha essa obsessão quase infantil por querer chocar a plateia e transforma algo que poderia ser impactante do ponto de vista formal, sensual e poético em algo que vai para uma linha do desagradável, como já é tradicional no cinema do diretor, desde antes de ele ficar famoso mundialmente pela cena prolongada de estupro de IRREVERSÍVEL (2002). Assim, o terceiro ato do filme tenta emular o estado de perturbação dos personagens, depois de terem sido drogados por uma substância alucinógena, abrindo espaço para cenas de câmeras rodopiantes e algumas cenas de violência gráfica e brutal (não é nada agradável ver uma mulher grávida receber chutes na barriga).
Ainda assim, a lembrança que guardarei desta experiência filmada apenas com um fiapo de roteiro de cinco páginas e muita vontade de fazer algo diferente, será das referidas danças sensuais ao som de um áudio poderoso. Lembrarei de como esse filme poderia ser tão mais gostoso se não precisasse efetivamente contar uma história.
+ TRÊS FILMES
CONQUISTAR, AMAR E VIVER INTENSAMENTE (Plaire, Aimer et Courir Vite)
Não tenho acompanhado todos os filmes do Christophe Honoré. Só vi os que passaram nos cinemas da cidade. Os três de homenagem à Nouvelle Vague dos anos 2000 e mais o BEM AMADAS (2011). Este é certamente um dos melhores dele. E provavelmente um dos mais pessoais (minha suspeita apenas). O filme parece ter umas gorduras e uma duração maior do que eu gostaria, mas não sei o que tiraria. Ele cresce na memória e seus personagens são fortes e simpáticos o bastante para nos envolvermos com seus dramas. A questão da AIDS no início dos anos 1990 o aproxima bastante de 120 BATIMENTOS POR MINUTOS (que prefiro). Ano: 2018.
A NOSSA ESPERA (Nos Batailles)
Que baita filme lindo! Apresenta a porrada da vida real sem nos dar muito espaço para chorar e descarregar as emoções de tanta emoção. Aí o que fica é um nó na garganta. A história não é apenas a de um homem que é abandonado pela esposa e tem que cuidar dos dois filhos pequenos. Isso é apenas o tronco de uma árvore que apresenta diversos galhos, diversas dores. Adoro uma cena do Duris com a personagem da irmã (que linda!), as cenas de apoio dos amigos que também passam por situação difícil etc. Meus agradecimentos a todos os envolvidos. Direção: Guillaume Senez. Ano: 2018.
O VALOR DE UM HOMEM (La Loi du Marché)
O diretor Stéphane Brizé parece ter se especializado em dramas sobre pessoas vivendo os piores momentos de suas vidas. Bom que está cercado sempre de atores e atrizes muito bons, como é o caso aqui de Vincent Lindon. Na trama, ele é um homem de meia idade que está enfrentando uma dificuldade de encontrar emprego. E mesmo quando consegue, o filme se torna ainda mais incômodo. Ano: 2015.
sexta-feira, fevereiro 08, 2019
BOY ERASED - UMA VERDADE ANULADA (Boy Erased)
Os dias estão cada vez mais sombrios em nosso país e no mundo. Por isso que certos filmes que uma década atrás teriam um peso menor adquirem um gesto político muito mais intenso e cheio de fúria. BOY ERASED - UMA VERDADE ANULADA (2018) ganhou os holofotes recentemente por ter tido sua estreia nos cinemas cancelada no Brasil pela Universal, sua distribuidora, que não quis se arriscar com um filme menor e que não recebeu nenhuma indicação ao Oscar - Lucas Hedges havia recebido uma indicação de ator no Globo de Ouro.
Não é a primeira vez que Hedges, 22, interpreta um jovem gay tendo que esconder do mundo o que ele é - pudemos ver em menor escala no ótimo LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig um papel parecido, quase uma prévia do que ele faria no filme de Joel Edgerton.
O impacto de BOY ERASED para o espectador, principalmente o espectador de linha progressista, é de raiva mesmo, a cada sessão que o protagonista tem que passar na terrível terapia de reorientação sexual. Há igrejas que não chegam ao cúmulo de fazer ou criar tais terapias, mas acabam por também fazer com que as pessoas vivam em negação e auto-enfrentamento de seus desejos, ao pensar que tudo o que pensam e querem é fruto do pecado, de tentações demoníacas.
Na trama, Jared Eamons (Hedges) é um jovem que inicia a vida universitária e é quase estuprado por um colega. O tal colega, passando por um momento difícil, deseja se confessar para Eamons, mas depois começa a achar que o rapaz será um perigo para ele. Por isso, o garoto prefere dizer mentiras sobre Eamons aos pais dele, que começam a questionar o filho sobre sua orientação sexual. Detalhe: o pai de Jared, vivido por Russell Crowe, é um pastor evangélico.
Na mesma noite, Jared resolve contar aos pais que tem pensamentos com homens, e que acredita ser homossexual. A mãe (Nicole Kidman) também fica muito transtornada. A solução que o pai encontra é chamar homens da igreja para orar e tomar medidas que possam "ajudar" o filho. A ajuda, então, vem na forma da terapia de reorientação sexual. Cada cena que se passa nesse lugar é carregado de uma aura tão pesada que é impossível não ficar com raiva de tudo aquilo.
Jared Eamons é o alter-ego de Garrard Conley, autor do livro de memórias que deu origem ao filme. Pelo que vemos, ele chegou a testemunhar pouca coisa. Poderia ter ficado mais tempo para contar mais detalhes dos bastidores terríveis desse lugar. Mas o que viu foi suficiente para escrever um artigo para o The Times e depois um livro.
Há uma cena em BOY ERASED, de diálogo entre pai e filho, que dá para fazer uma paralelo com o diálogo do pai do garoto de ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino. A diferença é que aqui a realidade dói mais, pois temos um pai com uma dificuldade muito grande de aceitar o filho como ele é, devido à sua formação moral e religiosa.
+ TRÊS FILMES
A ROTA SELVAGEM (Lean on Pete)
Do mesmo diretor de 45 ANOS (2015), este filme segue a tortuosa vida de um jovem adolescente que mora só com o pai que não tem dinheiro para lhe sustentar. É então que ele resolve trabalhar como ajudante de um homem que cuida de cavalos de corrida. O elenco é bom e o rapaz que faz o protagonista é ótimo. Há pelo menos três cenas muito boas e fortes. Pena que eu estava muito cansado no dia. Direção: Andrew Haigh. Ano: 2017.
EU NÃO SOU UMA BRUXA (I Am Not a Witch)
Depois de ver PERSONA, de Bergman, ver este filme aqui é um balde de água fria. Não que não tenha sua importância no quesito de denúncia sobre um caso absurdo. Mas é tão absurdo que parece surreal o que é mostrado na tela. Ainda não tive a chance de ver se o que apresentam na trama acontece de fato na Zâmbia. Acho que me incomodei também com o país. Mesmo o Brasil de hoje fica parecendo um paraíso. Direção: Rungano Nyoni. Ano: 2017.
MEU QUERIDO FILHO (Weldi)
O filme, pela temática, lembra um pouco OS COWBOYS, de Thomas Bidegain, mas tem menos força na hora de nos colocar no lugar dos personagens. Mesmo o personagem do pai parece um tanto bobo em sua busca pelo melhor para o filho. E o filho, do modo como é pintado, acaba sendo visto por nós como digno de nosso desprezo e do destino ruim que ele escolheu. Embora haja esse pano de fundo da situação na Síria, o filme é até bem universal, na questão de pais e filhos. Direção: Mohamed Ben Attia. Ano: 2018.
Não é a primeira vez que Hedges, 22, interpreta um jovem gay tendo que esconder do mundo o que ele é - pudemos ver em menor escala no ótimo LADY BIRD - A HORA DE VOAR, de Greta Gerwig um papel parecido, quase uma prévia do que ele faria no filme de Joel Edgerton.
O impacto de BOY ERASED para o espectador, principalmente o espectador de linha progressista, é de raiva mesmo, a cada sessão que o protagonista tem que passar na terrível terapia de reorientação sexual. Há igrejas que não chegam ao cúmulo de fazer ou criar tais terapias, mas acabam por também fazer com que as pessoas vivam em negação e auto-enfrentamento de seus desejos, ao pensar que tudo o que pensam e querem é fruto do pecado, de tentações demoníacas.
Na trama, Jared Eamons (Hedges) é um jovem que inicia a vida universitária e é quase estuprado por um colega. O tal colega, passando por um momento difícil, deseja se confessar para Eamons, mas depois começa a achar que o rapaz será um perigo para ele. Por isso, o garoto prefere dizer mentiras sobre Eamons aos pais dele, que começam a questionar o filho sobre sua orientação sexual. Detalhe: o pai de Jared, vivido por Russell Crowe, é um pastor evangélico.
Na mesma noite, Jared resolve contar aos pais que tem pensamentos com homens, e que acredita ser homossexual. A mãe (Nicole Kidman) também fica muito transtornada. A solução que o pai encontra é chamar homens da igreja para orar e tomar medidas que possam "ajudar" o filho. A ajuda, então, vem na forma da terapia de reorientação sexual. Cada cena que se passa nesse lugar é carregado de uma aura tão pesada que é impossível não ficar com raiva de tudo aquilo.
Jared Eamons é o alter-ego de Garrard Conley, autor do livro de memórias que deu origem ao filme. Pelo que vemos, ele chegou a testemunhar pouca coisa. Poderia ter ficado mais tempo para contar mais detalhes dos bastidores terríveis desse lugar. Mas o que viu foi suficiente para escrever um artigo para o The Times e depois um livro.
Há uma cena em BOY ERASED, de diálogo entre pai e filho, que dá para fazer uma paralelo com o diálogo do pai do garoto de ME CHAME PELO SEU NOME, de Luca Guadagnino. A diferença é que aqui a realidade dói mais, pois temos um pai com uma dificuldade muito grande de aceitar o filho como ele é, devido à sua formação moral e religiosa.
+ TRÊS FILMES
A ROTA SELVAGEM (Lean on Pete)
Do mesmo diretor de 45 ANOS (2015), este filme segue a tortuosa vida de um jovem adolescente que mora só com o pai que não tem dinheiro para lhe sustentar. É então que ele resolve trabalhar como ajudante de um homem que cuida de cavalos de corrida. O elenco é bom e o rapaz que faz o protagonista é ótimo. Há pelo menos três cenas muito boas e fortes. Pena que eu estava muito cansado no dia. Direção: Andrew Haigh. Ano: 2017.
EU NÃO SOU UMA BRUXA (I Am Not a Witch)
Depois de ver PERSONA, de Bergman, ver este filme aqui é um balde de água fria. Não que não tenha sua importância no quesito de denúncia sobre um caso absurdo. Mas é tão absurdo que parece surreal o que é mostrado na tela. Ainda não tive a chance de ver se o que apresentam na trama acontece de fato na Zâmbia. Acho que me incomodei também com o país. Mesmo o Brasil de hoje fica parecendo um paraíso. Direção: Rungano Nyoni. Ano: 2017.
MEU QUERIDO FILHO (Weldi)
O filme, pela temática, lembra um pouco OS COWBOYS, de Thomas Bidegain, mas tem menos força na hora de nos colocar no lugar dos personagens. Mesmo o personagem do pai parece um tanto bobo em sua busca pelo melhor para o filho. E o filho, do modo como é pintado, acaba sendo visto por nós como digno de nosso desprezo e do destino ruim que ele escolheu. Embora haja esse pano de fundo da situação na Síria, o filme é até bem universal, na questão de pais e filhos. Direção: Mohamed Ben Attia. Ano: 2018.
segunda-feira, fevereiro 04, 2019
A FAVORITA (The Favourite)
O grego Yorgos Lanthimos é o caso de cineasta que conseguiu prestígio internacional através, primeiramente, do caráter único de seus filmes. O indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira DENTE CANINO (2009) foi a obra que deu início ao domínio mundial desse cineasta cheio de idiossincrasias. Nesse filme já se percebia um gosto tanto pelo bizarro quanto por um senso de humor muito particular. Afinal, por mais que alguém ache o filme um tanto perturbador em diversos aspectos, há ali tantos momentos desconcertantes que às vezes o que nos resta é rir.
O gosto pelo surreal inundou o seu primeiro filme em língua inglesa, O LAGOSTA (2015), que contou com astros de Hollywood de primeiro escalão (Colin Farrell e Rachel Weisz).Trata-se de uma obra difícil de classificar, embora alguns possam imaginá-la como uma comédia romântica perversa e bizarra. A trama nos apresenta a um mundo em que pessoas que não conseguem um par são condenadas a se transformarem em animais. Detalhe: elas tem o direito de escolher que animal se tornar.
O trabalho seguinte de Lanthimos, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), já se encaminhava mais para o gênero horror, embora fuja dos clichês e seja igualmente estranho. Mas é inegável o flerte pela atmosfera de medo, que intensifica os climas dos trabalhos anteriores do diretor. O filme contou novamente com Colin Farrell, no papel de um cirurgião, e mais uma vez em um trabalho de dramaturgia estranha, como pede o diretor, e também com Nicole Kidman, no papel da esposa. Os dois são perturbados por um jovem adolescente com sede de vingança.
Eis que o cineasta grego chuta a porta com os dois pés em seu mais recente trabalho, já que A FAVORITA (2018) recebeu 10 indicações ao Oscar. Trata-se de um filme bem mais acessível, do ponto de vista das esquisitices, mas ainda assim pega desprevenido muitos espectadores que vão ao cinema ver um drama de época inglês típico. Para começar, há quem entre na sala sem saber que o filme também lida com a temática do relacionamento homossexual. Como estamos vivendo um período em que o conservadorismo está mais forte, isso pode incomodar a alguns desavisados.
Mas A FAVORITA é, antes de tudo, um filme sobre o jogo de poder. E há tempos não vemos um trio de atrizes tão fortes representando seus papéis com tanta beleza que até parece que o jogo de poder também acontece por trás das câmeras, no sentido de que Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman, que se tornou famosa nos Estados Unidos com este filme, parecem disputar não apenas o seu papel, mas também o nosso respeito e admiração.
Na trama, Emma Stone é uma jovem pobre que é recebida para trabalhar no palácio de Anne (Colman), Rainha da Inglaterra do início do século XVIII. Além de ela chegar toda cheia de lama e fezes, ainda é ridicularizada pela mulher que é o braço direito da rainha (Weisz, inspirada). O que a jovem descobre, graças à sua inteligência e luta pela sobrevivência naquele ninho de cobras, é que as personagens de Colman e Weisz também são amantes. É então que ela percebe o caminho para conquistar o seu lugar ao sol, através daquela rainha que na maioria das vezes mais parece uma criança mimada.
Para contar essa história, Lanthimos usa lente grande angular que se destaca principalmente nos interiores. Há também cenas com utilização apenas de luz natural, o que só aumenta a comparação que o filme vem recebendo com BARRY LYNDON, de Stanley Kubrick. Há também uma suntuosidade nos cenários e figurinos que é de dar gosto, mesmo a quem não está muito interessado no enredo. Se bem que é difícil não se divertir com a trama e com o show de interpretação das três atrizes. Gostei especialmente de Stone, que ganha talvez até mais tempo de cena que a Olivia Colman. As cenas dela tentando seduzir um dos nobres do castelo a base de porrada são muito engraçadas.
Em tempos de safra fraca de filmes indicados à categoria principal do Oscar, A FAVORITA é um alívio e tanto.
A FAVORITA recebeu indicações ao Oscar nas categorias de filme, direção, atriz (Olivia Colman), atrizes coadjuvantes (Emma Stone e Rachel Weisz), roteiro original, desenho de produção, figurino, direção de fotografia e montagem.
+ TRÊS FILMES
GREEN BOOK - O GUIA (Green Book)
Que safra horrível a do Oscar deste ano, hein! O que é isso, meu Deus? Há tempos eu não vejo um filme tão medíocre assim. Não é que seja ruim, mas tem toda pinta de filme ultrapassado, que até se costumava a ver em premiações dos anos 80, por exemplo. E que discussões rasas que o filme provoca. Um desperdício de uma dupla de atores ótimos. Na trama, homem branco e rude de origem italiana é contratado para ser o chofer de um músico negro nos Estados Unidos dos anos 1960. Indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Viggo Mortensen), ator coadjuvante (Mahershala Ali), roteiro original e montagem. Direção: Peter Farrelly. Ano: 2018.
A ESPOSA (The Wife)
Perde na originalidade e na construção dramática para o MONSIEUR & MADAME ADELMAN, de Nicolas Bedos, mas não dá para negar que é um filme que consegue capturar o espectador do início ao fim. Gosto bastante das cenas de flashback e da personagem jovem. Como não é uma história real, mas baseado em um romance, fica difícil comprar às vezes a trama. Ainda mais em pelo século XX. Indicado ao Oscar de melhor atriz para Glenn Close. Direção: Björn L Runge. Ano: 2017.
ASSUNTO DE FAMÍLIA (Manbiki Kazoku)
Difícil não gostar do Koreeda e do modo sensível com que ele aborda os dramas familiares. Acho que ainda gosto mais de PAIS & FILHOS e DEPOIS DA TEMPESTADE, mas este aqui tem algo em comum com o primeiro. O interessante é que primeiro o filme faz com que a gente goste daquelas pessoas imperfeitas para depois fazê-las entrar em situações mais dramáticas, longe da rotina de comer e se socializar em família. O último frame é lindo. Indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira. Direção: Hirokazu Koreeda. Ano: 2018.
O gosto pelo surreal inundou o seu primeiro filme em língua inglesa, O LAGOSTA (2015), que contou com astros de Hollywood de primeiro escalão (Colin Farrell e Rachel Weisz).Trata-se de uma obra difícil de classificar, embora alguns possam imaginá-la como uma comédia romântica perversa e bizarra. A trama nos apresenta a um mundo em que pessoas que não conseguem um par são condenadas a se transformarem em animais. Detalhe: elas tem o direito de escolher que animal se tornar.
O trabalho seguinte de Lanthimos, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (2017), já se encaminhava mais para o gênero horror, embora fuja dos clichês e seja igualmente estranho. Mas é inegável o flerte pela atmosfera de medo, que intensifica os climas dos trabalhos anteriores do diretor. O filme contou novamente com Colin Farrell, no papel de um cirurgião, e mais uma vez em um trabalho de dramaturgia estranha, como pede o diretor, e também com Nicole Kidman, no papel da esposa. Os dois são perturbados por um jovem adolescente com sede de vingança.
Eis que o cineasta grego chuta a porta com os dois pés em seu mais recente trabalho, já que A FAVORITA (2018) recebeu 10 indicações ao Oscar. Trata-se de um filme bem mais acessível, do ponto de vista das esquisitices, mas ainda assim pega desprevenido muitos espectadores que vão ao cinema ver um drama de época inglês típico. Para começar, há quem entre na sala sem saber que o filme também lida com a temática do relacionamento homossexual. Como estamos vivendo um período em que o conservadorismo está mais forte, isso pode incomodar a alguns desavisados.
Mas A FAVORITA é, antes de tudo, um filme sobre o jogo de poder. E há tempos não vemos um trio de atrizes tão fortes representando seus papéis com tanta beleza que até parece que o jogo de poder também acontece por trás das câmeras, no sentido de que Emma Stone, Rachel Weisz e Olivia Colman, que se tornou famosa nos Estados Unidos com este filme, parecem disputar não apenas o seu papel, mas também o nosso respeito e admiração.
Na trama, Emma Stone é uma jovem pobre que é recebida para trabalhar no palácio de Anne (Colman), Rainha da Inglaterra do início do século XVIII. Além de ela chegar toda cheia de lama e fezes, ainda é ridicularizada pela mulher que é o braço direito da rainha (Weisz, inspirada). O que a jovem descobre, graças à sua inteligência e luta pela sobrevivência naquele ninho de cobras, é que as personagens de Colman e Weisz também são amantes. É então que ela percebe o caminho para conquistar o seu lugar ao sol, através daquela rainha que na maioria das vezes mais parece uma criança mimada.
Para contar essa história, Lanthimos usa lente grande angular que se destaca principalmente nos interiores. Há também cenas com utilização apenas de luz natural, o que só aumenta a comparação que o filme vem recebendo com BARRY LYNDON, de Stanley Kubrick. Há também uma suntuosidade nos cenários e figurinos que é de dar gosto, mesmo a quem não está muito interessado no enredo. Se bem que é difícil não se divertir com a trama e com o show de interpretação das três atrizes. Gostei especialmente de Stone, que ganha talvez até mais tempo de cena que a Olivia Colman. As cenas dela tentando seduzir um dos nobres do castelo a base de porrada são muito engraçadas.
Em tempos de safra fraca de filmes indicados à categoria principal do Oscar, A FAVORITA é um alívio e tanto.
A FAVORITA recebeu indicações ao Oscar nas categorias de filme, direção, atriz (Olivia Colman), atrizes coadjuvantes (Emma Stone e Rachel Weisz), roteiro original, desenho de produção, figurino, direção de fotografia e montagem.
+ TRÊS FILMES
GREEN BOOK - O GUIA (Green Book)
Que safra horrível a do Oscar deste ano, hein! O que é isso, meu Deus? Há tempos eu não vejo um filme tão medíocre assim. Não é que seja ruim, mas tem toda pinta de filme ultrapassado, que até se costumava a ver em premiações dos anos 80, por exemplo. E que discussões rasas que o filme provoca. Um desperdício de uma dupla de atores ótimos. Na trama, homem branco e rude de origem italiana é contratado para ser o chofer de um músico negro nos Estados Unidos dos anos 1960. Indicado ao Oscar nas categorias de filme, ator (Viggo Mortensen), ator coadjuvante (Mahershala Ali), roteiro original e montagem. Direção: Peter Farrelly. Ano: 2018.
A ESPOSA (The Wife)
Perde na originalidade e na construção dramática para o MONSIEUR & MADAME ADELMAN, de Nicolas Bedos, mas não dá para negar que é um filme que consegue capturar o espectador do início ao fim. Gosto bastante das cenas de flashback e da personagem jovem. Como não é uma história real, mas baseado em um romance, fica difícil comprar às vezes a trama. Ainda mais em pelo século XX. Indicado ao Oscar de melhor atriz para Glenn Close. Direção: Björn L Runge. Ano: 2017.
ASSUNTO DE FAMÍLIA (Manbiki Kazoku)
Difícil não gostar do Koreeda e do modo sensível com que ele aborda os dramas familiares. Acho que ainda gosto mais de PAIS & FILHOS e DEPOIS DA TEMPESTADE, mas este aqui tem algo em comum com o primeiro. O interessante é que primeiro o filme faz com que a gente goste daquelas pessoas imperfeitas para depois fazê-las entrar em situações mais dramáticas, longe da rotina de comer e se socializar em família. O último frame é lindo. Indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira. Direção: Hirokazu Koreeda. Ano: 2018.
quarta-feira, janeiro 23, 2019
VIDRO (Glass)
Atualmente não há outro cineasta que desperte tanto o interesse nos debates quanto M. Night Shyamalan. Seja a favor ou contra, há sempre espaço para um pitaco por parte de alguém sobre a obra do cineasta nascido na Índia e criado na Filadélfia, Estados Unidos. Talvez não haja nem mesmo fãs que concordem 100% entre si sobre as preferências dentro da filmografia do diretor. VIDRO (2019), o terceiro de uma trilogia que começou lá em 2000 com CORPO FECHADO e continuou, de forma aparentemente acidental, com FRAGMENTADO (2016), não tem agradado a maioria dos críticos (hoje, nota 42 no Metacritic), ao mesmo tempo que tem recebido apoio apaixonado de certo grupo de fãs.
Como não fiz uma pesquisa acurada sobre as defesas e ataques, é melhor então me ater apenas às minhas impressões sobre a obra. Ao contrário da grande maioria das obras de Shyamalan, VIDRO não me trouxe prazer em seu desenvolvimento narrativo. Talvez por deixar de lado o aspecto de terror e suspense que predominava em FRAGMENTADO, um filme sobre um psicopata com múltiplas personalidades que sequestra meninas indefesas, e queira defender uma espécie de tese sobre super-heróis de histórias em quadrinhos.
Não sei o quanto Shyamalan é conhecedor de super-heróis a ponto de querer explicar seus arquétipos, mas o fato é que em vários momentos do filme soam muito básicas, muito bobas suas descobertas, como o fato de dizer que a Metrópolis do Superman seria na verdade Nova York, ou outras coisas que ele vende ao longo do miolo, que se passa em um manicômio, espaço em que ficam enclausurados os três personagens com habilidades super-humanas: David Dunn (Bruce Willis), que tem o corpo indestrutível; Elijah Price (Samuel L. Jackson), que tem o corpo todo quebrado, mas uma mente extremamente inteligente; e o múltiplo psicopata vivido por James McAvoy, que também traz dentro de si a chamada "fera".
A impressão que fica ao longo da narrativa é que Shyamalan não sabia direito o que fazer quando teve a ideia de juntar os três personagens para formar um universo compartilhado. A ideia em si parece interessante e deixou muita gente entusiasmada ao final de FRAGMENTADO, mas o fato é que McAvoy está exageradamente irritante; a personagem de Sarah Paulson, a cientista que estuda os três homens, funciona mais como um narrador incômodo (embora mais à frente descubramos se tratar de mais do que isso), e a trama vai ficando cada vez mais desinteressante, à medida que pouca coisa acontece durante a estadia dos três naquele manicômio.
Falta também em VIDRO aquela beleza plástica tão característica da maior parte das obras de Shyamalan. Além disso, a personagem mais interessante, a adolescente vivida por Anya Taylor-Joy, tem pouca participação na trama, como se aparecesse só para trazer uma maior ligação com FRAGMENTADO. Não falta uma reviravolta no final, que é até curiosa, mas, a essa altura, quem não havia embarcado no filme já estava torcendo para o seu final. Aliás, o destino dos personagens até parece uma espécie de vontade divina de seu criador, após um sentimento forte de desapego.
Além do mais, por mais que a defesa de Shyamalan da fantasia em detrimento da realidade seja algo bonito de ver e também coerente com sua obra autoral, ela já havia sido problematizada de maneira muito mais inteligente em outros de seus trabalhos. Na torcida por futuros trabalhos que façam jus à fama de gênio (muitas vezes injustiçado) do cineasta.
+ TRÊS FILMES
UNDER THE SILVER LAKE
O novo filme do diretor de CORRENTE DO MAL (2014). Só por isso já deveria ser tratado de maneira especial. É um filme bem estranho, mas uma vez que a gente aceita seu viés mais surrealista, uma coisa meio Alice no País das Maravilhas mais dark, a coisa vai ficando ainda mais intrigante. No começo, parece só uma homenagem a UM CORPO QUE CAI e a Hitchcock em especial, mas depois as coisas vão mudando. A duração talvez seja um empecilho para o filme chegar ao nosso circuito, quem sabe. Nem nos EUA teve estreia comercial ainda, embora já tenha sido lançado em blu-ray não sei onde. Direção: David Robert Mitchell. Ano: 2018.
O RETORNO DE MARY POPPINS (Mary Poppins Returns)
Até gosto do filme até sua metade, mas chega uma hora que cansa demais tanta cantoria e pouca empolgação. Emily Blunt está ótima e quase salva o filme e o drama da família que está para perder a casa chega a envolver, mas isso acaba sendo pouco importante. E como as canções são fracas, aí perde-se o interesse, por mais que o colorido seja bonito e tal. Rob Marshall segue sendo um dos diretores de que eu menos gosto. Se bem que, perto de CAMINHOS DA FLORESTA, esse aqui é uma obra-prima. Ano: 2018.
BIRD BOX
Um dos filmes mais vistos do ano, graças à propaganda massiva da Netflix. Infelizmente não chega a ser bom, embora seja razoável. Acho que tem uma boa premissa e se tivesse uma direção melhor talvez fosse um belo filme. Ainda assim, Sandra Bullock tem um carisma gigante e o filme tem os seus momentos de aflição, o que é normal levando em consideração a trama. Direção: Susanne Bier. Ano: 2018.
Como não fiz uma pesquisa acurada sobre as defesas e ataques, é melhor então me ater apenas às minhas impressões sobre a obra. Ao contrário da grande maioria das obras de Shyamalan, VIDRO não me trouxe prazer em seu desenvolvimento narrativo. Talvez por deixar de lado o aspecto de terror e suspense que predominava em FRAGMENTADO, um filme sobre um psicopata com múltiplas personalidades que sequestra meninas indefesas, e queira defender uma espécie de tese sobre super-heróis de histórias em quadrinhos.
Não sei o quanto Shyamalan é conhecedor de super-heróis a ponto de querer explicar seus arquétipos, mas o fato é que em vários momentos do filme soam muito básicas, muito bobas suas descobertas, como o fato de dizer que a Metrópolis do Superman seria na verdade Nova York, ou outras coisas que ele vende ao longo do miolo, que se passa em um manicômio, espaço em que ficam enclausurados os três personagens com habilidades super-humanas: David Dunn (Bruce Willis), que tem o corpo indestrutível; Elijah Price (Samuel L. Jackson), que tem o corpo todo quebrado, mas uma mente extremamente inteligente; e o múltiplo psicopata vivido por James McAvoy, que também traz dentro de si a chamada "fera".
A impressão que fica ao longo da narrativa é que Shyamalan não sabia direito o que fazer quando teve a ideia de juntar os três personagens para formar um universo compartilhado. A ideia em si parece interessante e deixou muita gente entusiasmada ao final de FRAGMENTADO, mas o fato é que McAvoy está exageradamente irritante; a personagem de Sarah Paulson, a cientista que estuda os três homens, funciona mais como um narrador incômodo (embora mais à frente descubramos se tratar de mais do que isso), e a trama vai ficando cada vez mais desinteressante, à medida que pouca coisa acontece durante a estadia dos três naquele manicômio.
Falta também em VIDRO aquela beleza plástica tão característica da maior parte das obras de Shyamalan. Além disso, a personagem mais interessante, a adolescente vivida por Anya Taylor-Joy, tem pouca participação na trama, como se aparecesse só para trazer uma maior ligação com FRAGMENTADO. Não falta uma reviravolta no final, que é até curiosa, mas, a essa altura, quem não havia embarcado no filme já estava torcendo para o seu final. Aliás, o destino dos personagens até parece uma espécie de vontade divina de seu criador, após um sentimento forte de desapego.
Além do mais, por mais que a defesa de Shyamalan da fantasia em detrimento da realidade seja algo bonito de ver e também coerente com sua obra autoral, ela já havia sido problematizada de maneira muito mais inteligente em outros de seus trabalhos. Na torcida por futuros trabalhos que façam jus à fama de gênio (muitas vezes injustiçado) do cineasta.
+ TRÊS FILMES
UNDER THE SILVER LAKE
O novo filme do diretor de CORRENTE DO MAL (2014). Só por isso já deveria ser tratado de maneira especial. É um filme bem estranho, mas uma vez que a gente aceita seu viés mais surrealista, uma coisa meio Alice no País das Maravilhas mais dark, a coisa vai ficando ainda mais intrigante. No começo, parece só uma homenagem a UM CORPO QUE CAI e a Hitchcock em especial, mas depois as coisas vão mudando. A duração talvez seja um empecilho para o filme chegar ao nosso circuito, quem sabe. Nem nos EUA teve estreia comercial ainda, embora já tenha sido lançado em blu-ray não sei onde. Direção: David Robert Mitchell. Ano: 2018.
O RETORNO DE MARY POPPINS (Mary Poppins Returns)
Até gosto do filme até sua metade, mas chega uma hora que cansa demais tanta cantoria e pouca empolgação. Emily Blunt está ótima e quase salva o filme e o drama da família que está para perder a casa chega a envolver, mas isso acaba sendo pouco importante. E como as canções são fracas, aí perde-se o interesse, por mais que o colorido seja bonito e tal. Rob Marshall segue sendo um dos diretores de que eu menos gosto. Se bem que, perto de CAMINHOS DA FLORESTA, esse aqui é uma obra-prima. Ano: 2018.
BIRD BOX
Um dos filmes mais vistos do ano, graças à propaganda massiva da Netflix. Infelizmente não chega a ser bom, embora seja razoável. Acho que tem uma boa premissa e se tivesse uma direção melhor talvez fosse um belo filme. Ainda assim, Sandra Bullock tem um carisma gigante e o filme tem os seus momentos de aflição, o que é normal levando em consideração a trama. Direção: Susanne Bier. Ano: 2018.
domingo, janeiro 20, 2019
TCHAU AMOR
Dilacerador. É o primeiro adjetivo que vem à mente quando terminamos de ver TCHAU AMOR (1982), obra-prima subestimada de Jean Garrett, um de nossos mais talentosos cineastas. Um dos méritos do diretor neste que é considerado seu último grande filme é nos colocar no lugar do personagem de Antônio Fagundes, um homem desiludido com a vida e que parece querer pular de um viaduto, quando é abordado por uma moça rica e linda vivida por Angelina Muniz.
E o filme já nos ganha a partir daí, quando começa a história de amor de Paulo (Fagundes) e Rejane (Angelina). Afinal, imagina só você estar na merda e aparecer um anjo que além de lhe propor salvação na vida ainda traz sexo gostoso! Paulo é um homem casado, de meia-idade, que trabalha de radialista, mas que acaba perdendo o emprego por ter um estilo considerado ultrapassado. Ela é uma moça que está longe de ser careta e que faz o que bem entende da vida. Vive em um apartamento sofisticado, às custas do pai milionário. Tinha tudo para dar errado entre eles. E muitas vezes dá. Mas a moça insiste em manter um relacionamento com aquele homem.
E o amor dos dois é bonito, mas também perigoso, pois machuca primeiramente a esposa de Paulo, vivida por Selma Egrei, aqui em papel de mulher dedicada e tolerante - pelo menos até certo ponto. O filme trata de mostrar as variações de poder dentro da relação e isso vai mudando à medida que o interesse e a paixão vão pesando mais para determinado lado da balança. E é assim que Paulo se vê completamente apaixonado por Rejane, a ponto de fazer as maiores loucuras para tê-la para si. Em determinado momento, lembra um pouco o segmento "Lições de Vida", de Martin Scorsese, para o filme CONTOS DE NOVA YORK. Mas aqui o fundo do poço é ainda mais despido de glamour, com uma São Paulo suja de pano de fundo e quase personagem da história.
E o filme de Garrett não é simplista a ponto de apresentar seus personagens unilaterais em seus sentimentos e vontades. Paulo passa por oscilações de pensamento. É capaz de suportar, com muita dor, sua namorada transando com outro homem e ainda beijar-lhes os pés, para depois perceber que deve deixá-la para conservar sua sanidade mental. São variações totalmente normais na mente confusa de qualquer pessoa que se apaixona por alguém complicado e se vê nesse movimento pendular e angustiante.
Ao final de TCHAU AMOR a sensação não é das melhores para o espírito, apesar da catarse. Sentimos vontade de respirar fundo de tão intenso que é todo esse processo, que dura apenas uma hora e meia. Cineasta genial é assim: não tem apenas o domínio da narrativa; tem o domínio de nossos corações e mentes.
+ TRÊS FILMES
O FOTÓGRAFO
Engraçado como este filme consegue trazer tantos sentimentos e sensações conflitantes, como é um pouco a cabeça do protagonista, vivido por Roberto Miranda. O sexo, o amor, a solidão, a frustração, a poesia, a força das imagens do Garrett. Os créditos de abertura já apontam para uma beleza de filme. Pena que não exista uma cópia boa disponível. Mas esse VHSrip quebra o galho. Na trama, Roberto Miranda é um fotógrafo especializado em nus femininos e que passa a se apaixonar pela jovem vizinha vivida por Aldine Muller. Destaque para as belas cenas de sexo, que ainda hoje excitam e inspiram. Direção: Jean Garrett. Ano: 1980.
BLUE JAY
Um filme que passaria desapercebido por mim se não fosse a indicação do amigo Renato Doho. É produção da Netflix, o que já me deixaria de pé atrás, mas tem a Sarah Paulson e a indicação e o fato de ser uma história de amor. Ou melhor, a história de duas pessoas que foram namorados e que se reencontram depois de vários anos. Gosto do modo como o filme vai nos apresentando aos poucos o drama dos personagens até sabermos mais deles. Chega a machucar para quem já teve alguma relação parecida e que pode muito facilmente se identificar. Como sou do tipo sentimental e que guardo as boas recordações de relacionamentos passados (os mais importantes), não tive como não ficar emocionado, por mais que em um ou outro momento o filme perca um pouco o passo. Mas termina muito bem. Direção: Alex Lehmann. Ano: 2016.
CUBA LIBRE
Não gosto da primeira metade, centrada no personagem masculino. Quando o filme foca mais na mulher e em seu drama, trazendo a questão da vingança, da mudança física e na dúvida quanto ao amor, o filme cresce bastante, e só revela o quanto as obsessões de Petzold já estavam presentes desde os seus primeiros trabalhos. Na trama, homem tenta se redimir de mulher que magoou no passado. Ela, que vive na pior e fazendo programa para sobreviver de vez em quando, tenta dar uma segunda chance a ele. Direção: Christian Petzold. Ano: 1996.
E o filme já nos ganha a partir daí, quando começa a história de amor de Paulo (Fagundes) e Rejane (Angelina). Afinal, imagina só você estar na merda e aparecer um anjo que além de lhe propor salvação na vida ainda traz sexo gostoso! Paulo é um homem casado, de meia-idade, que trabalha de radialista, mas que acaba perdendo o emprego por ter um estilo considerado ultrapassado. Ela é uma moça que está longe de ser careta e que faz o que bem entende da vida. Vive em um apartamento sofisticado, às custas do pai milionário. Tinha tudo para dar errado entre eles. E muitas vezes dá. Mas a moça insiste em manter um relacionamento com aquele homem.
E o amor dos dois é bonito, mas também perigoso, pois machuca primeiramente a esposa de Paulo, vivida por Selma Egrei, aqui em papel de mulher dedicada e tolerante - pelo menos até certo ponto. O filme trata de mostrar as variações de poder dentro da relação e isso vai mudando à medida que o interesse e a paixão vão pesando mais para determinado lado da balança. E é assim que Paulo se vê completamente apaixonado por Rejane, a ponto de fazer as maiores loucuras para tê-la para si. Em determinado momento, lembra um pouco o segmento "Lições de Vida", de Martin Scorsese, para o filme CONTOS DE NOVA YORK. Mas aqui o fundo do poço é ainda mais despido de glamour, com uma São Paulo suja de pano de fundo e quase personagem da história.
E o filme de Garrett não é simplista a ponto de apresentar seus personagens unilaterais em seus sentimentos e vontades. Paulo passa por oscilações de pensamento. É capaz de suportar, com muita dor, sua namorada transando com outro homem e ainda beijar-lhes os pés, para depois perceber que deve deixá-la para conservar sua sanidade mental. São variações totalmente normais na mente confusa de qualquer pessoa que se apaixona por alguém complicado e se vê nesse movimento pendular e angustiante.
Ao final de TCHAU AMOR a sensação não é das melhores para o espírito, apesar da catarse. Sentimos vontade de respirar fundo de tão intenso que é todo esse processo, que dura apenas uma hora e meia. Cineasta genial é assim: não tem apenas o domínio da narrativa; tem o domínio de nossos corações e mentes.
+ TRÊS FILMES
O FOTÓGRAFO
Engraçado como este filme consegue trazer tantos sentimentos e sensações conflitantes, como é um pouco a cabeça do protagonista, vivido por Roberto Miranda. O sexo, o amor, a solidão, a frustração, a poesia, a força das imagens do Garrett. Os créditos de abertura já apontam para uma beleza de filme. Pena que não exista uma cópia boa disponível. Mas esse VHSrip quebra o galho. Na trama, Roberto Miranda é um fotógrafo especializado em nus femininos e que passa a se apaixonar pela jovem vizinha vivida por Aldine Muller. Destaque para as belas cenas de sexo, que ainda hoje excitam e inspiram. Direção: Jean Garrett. Ano: 1980.
BLUE JAY
Um filme que passaria desapercebido por mim se não fosse a indicação do amigo Renato Doho. É produção da Netflix, o que já me deixaria de pé atrás, mas tem a Sarah Paulson e a indicação e o fato de ser uma história de amor. Ou melhor, a história de duas pessoas que foram namorados e que se reencontram depois de vários anos. Gosto do modo como o filme vai nos apresentando aos poucos o drama dos personagens até sabermos mais deles. Chega a machucar para quem já teve alguma relação parecida e que pode muito facilmente se identificar. Como sou do tipo sentimental e que guardo as boas recordações de relacionamentos passados (os mais importantes), não tive como não ficar emocionado, por mais que em um ou outro momento o filme perca um pouco o passo. Mas termina muito bem. Direção: Alex Lehmann. Ano: 2016.
CUBA LIBRE
Não gosto da primeira metade, centrada no personagem masculino. Quando o filme foca mais na mulher e em seu drama, trazendo a questão da vingança, da mudança física e na dúvida quanto ao amor, o filme cresce bastante, e só revela o quanto as obsessões de Petzold já estavam presentes desde os seus primeiros trabalhos. Na trama, homem tenta se redimir de mulher que magoou no passado. Ela, que vive na pior e fazendo programa para sobreviver de vez em quando, tenta dar uma segunda chance a ele. Direção: Christian Petzold. Ano: 1996.
quarta-feira, janeiro 16, 2019
15 CURTAS BRASILEIROS
ESTAMOS TODOS AQUI
Pungente retrato da miséria e da luta de um grupo de pessoas que vive em barracos prestes a serem derrubados pela prefeitura. Foco em duas personagens LGBTs que precisam lutar ainda mais que as demais para ter um emprego ou um meio decente de sobrevivência. Há um ótimo trabalho de som. Direção: Chico Santos e Rafael Mellin. Ano: 2017. SP.
GUAXUMA
Quando a técnica e a delicadeza se unem para produzir uma obra de encher o coração. Como gosto muito de coisas que lidam com a memória, o filme acabou falando muito para mim, embora seja uma história bem pessoa da diretora. Ela contou com a ajuda de gente muito boa e também teve ideias muito boas para contar essa história com os mais diferentes meios de se fazer animação. Prêmio de melhor curta do júri Aceccine. Nara Normande. Ano: 2018. PE.
IMAGINÁRIO
Uma seleção de imagens e uma seleção de comunicados oficiais da história política do Brasil. Dá um certo mal estar em pensar que a nossa história gira em círculos, mas o fato de podermos estar vendo este filme com um pouco mais de consciência ajuda, até pelo prazer estético, pela inteligência com que foi pensado este filme. Direção: Cristiano Burlan. Ano: 2018. SP.
INCONFISSÕES
Uma sobrinha que faz uma espécie de recorte da vida do tio homossexual a partir de fotografias íntimas de sua vida antes e principalmente durante a estadia nos Estados Unidos. As cartas e as trocas de afeto são bem bonitas e dá o que pensar no quanto a vida pode ser um túmulo também depois que a pessoa morre. Direção: Ana Galizia. Ano: 2018. RJ.
KRIS BRONZE
Muito bacana esse universo do bronzeamento com fita, que eu só fui saber que existia graças à Anitta. O filme tem um olhar observador, como um documentário (seria um documentário), mas tem essa cara desses novos trabalhos contemporâneos, com cara de ficção, que trazem os personagens interpretando a si mesmos. Direção: Larry Machado. Ano: 2018. GO.
LIBERDADE
Não lembro onde foi que eu vi (foi em algum filme) que todo dia a gente aprende alguma coisa. Às vezes tem dias que eu acho que não aprendo nada. De todo modo, o que eu quero dizer é que neste Liberdade, dá pra, além de curtir o filme como obra de arte, também aprender sobre a história do bairro da Liberdade, em São Paulo. Coisas que eu não sabia, nem meus amigos de lá me disseram. O filme acompanha um rapaz africano em sua condição de estrangeiro no Brasil, em um bairro que antes abrigava mais asiáticos e que agora também tem abrigado gente de outros lugares do mundo. Direção: Pedro Nishi e Vinícius Silva. Ano: 2018. SP.
MESMO COM TANTA AGONIA
Um filme que procura captar a angústia da existência humana, mesmo quando alguns momentos são aparentemente de alegria, como é o caso da cena do aniversário da filha. Ou a saída para casa para pegar o metrô com a colega de trabalho. Direção: Alice Andrade Drummond. Ano: 2018. MG.
NOME DE BATISMO - ALICE
O fascínio de procurar saber mais sobre suas origens. Ainda mais sendo essas origens tão escondidas, como no caso da família da diretora, vinda de Angola. O filme acompanha sua viagem ao país de seus antepassados e sua tentativa de entender sua história. Há coisas um tanto sombrias, como a questão de sua família ser real e escravizar outros. Há o questionamento sobre como seria Angola antes da evangelização. Direção: Tila Chintunda. Ano: 2018. PE.
NOVA IORQUE
Bom ter uma atriz como Hermila Guedes para dar mais força e credibilidade às interpretações. Mas o filme também deve muito à sensibilidade da direção e ao ator mirim. Seu personagem acha uma caixa de música que lhe desperta a curiosidade e o aproxima da professora. Filme sobre sonhos e desencantos feito com muito carinho. Queria um desenlace mais impactante, mas do jeito que ficou está bem bom. Vale também destacar a edição. Mal dá pra sentir a duração. Direção: Leo Tabosa. Ano: 2018. PE. (Foto)
O ÓRFÃO
Filme bem redondo na condução narrativa e bem comovente na história do garoto que é levado do orfanato para tentar a sorte com um casal. Há um subtexto gay na história, mas é melhor não saber muita coisa antes de ver. Ótima participação de Clarisse Abujamra. Direção: Carolina Markovicz. Ano: 2018. SP.
PLANO CONTROLE
Um barato isso aqui. A ideia é bem inventiva e envolve viagens no tempo e no espaço. Como adoro essas coisas e o filme tem um senso de humor muito afiado e inteligente, me diverti à beça. Interessante o fato de ser a mesma diretora de Baronesa, que tem um senso de humor tão diferente. Direção: Juliana Antunes. Ano: 2018. MG.
REFORMA
Um rapaz gay e gordo incomodado com sua gordice e as dificuldades em manter relacionamentos estáveis. O filme é bom tanto nas cenas íntimas dele com os parceiros, quanto nas conversas que ele tem com a melhor amiga. Direção: Fábio Leal. Ano: 2018. PE.
CALMA
O próprio título do filme meio que pede paciência por parte do espectador, devido ao andamento bem lento da narrativa. Há uma bela sequência inicial, de uma mulher caminhando até uma casa pobre que é impressionante na construção do desenho de produção. E depois o filme se detém em explicitar o seu caráter de distopia brasileira, fazendo pontes com acontecimentos absurdos recentes e um futuro destruidor que pode estar se avizinhando. Direção: Rafael Simões. Ano: 2018. RJ.
CONTE ISSO ÀQUELES QUE DIZEM QUE FOMOS DERROTADOS
Vejo mais méritos neste filme como gesto político, como expressão de resistência, do que como cinema mesmo. Durante a metragem fiquei pensando no quanto certos curtas, ou a maioria dos mais sérios, são muito mais difíceis de digerir em grande quantidade do que longas. Mas isso vale para contos em oposição a romances também, creio eu. Direção: Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cris Araújo e Pedro Maia de Brito. Ano: 2018. MG/PE.
RETIRADA PARA UM CORAÇÃO BRUTO
Um desses filmes bem singulares, que enganam pelo que mostram a princípio. É a história de um senhor que perdeu sua companheira e que tenta levar a vida mesmo assim. Mas aí a trama segue por caminhos inusitados. Tá na cara que o diretor adora um rock. Direção: Marco Antônio Pereira. Ano: 2017. MG.
Pungente retrato da miséria e da luta de um grupo de pessoas que vive em barracos prestes a serem derrubados pela prefeitura. Foco em duas personagens LGBTs que precisam lutar ainda mais que as demais para ter um emprego ou um meio decente de sobrevivência. Há um ótimo trabalho de som. Direção: Chico Santos e Rafael Mellin. Ano: 2017. SP.
GUAXUMA
Quando a técnica e a delicadeza se unem para produzir uma obra de encher o coração. Como gosto muito de coisas que lidam com a memória, o filme acabou falando muito para mim, embora seja uma história bem pessoa da diretora. Ela contou com a ajuda de gente muito boa e também teve ideias muito boas para contar essa história com os mais diferentes meios de se fazer animação. Prêmio de melhor curta do júri Aceccine. Nara Normande. Ano: 2018. PE.
IMAGINÁRIO
Uma seleção de imagens e uma seleção de comunicados oficiais da história política do Brasil. Dá um certo mal estar em pensar que a nossa história gira em círculos, mas o fato de podermos estar vendo este filme com um pouco mais de consciência ajuda, até pelo prazer estético, pela inteligência com que foi pensado este filme. Direção: Cristiano Burlan. Ano: 2018. SP.
INCONFISSÕES
Uma sobrinha que faz uma espécie de recorte da vida do tio homossexual a partir de fotografias íntimas de sua vida antes e principalmente durante a estadia nos Estados Unidos. As cartas e as trocas de afeto são bem bonitas e dá o que pensar no quanto a vida pode ser um túmulo também depois que a pessoa morre. Direção: Ana Galizia. Ano: 2018. RJ.
KRIS BRONZE
Muito bacana esse universo do bronzeamento com fita, que eu só fui saber que existia graças à Anitta. O filme tem um olhar observador, como um documentário (seria um documentário), mas tem essa cara desses novos trabalhos contemporâneos, com cara de ficção, que trazem os personagens interpretando a si mesmos. Direção: Larry Machado. Ano: 2018. GO.
LIBERDADE
Não lembro onde foi que eu vi (foi em algum filme) que todo dia a gente aprende alguma coisa. Às vezes tem dias que eu acho que não aprendo nada. De todo modo, o que eu quero dizer é que neste Liberdade, dá pra, além de curtir o filme como obra de arte, também aprender sobre a história do bairro da Liberdade, em São Paulo. Coisas que eu não sabia, nem meus amigos de lá me disseram. O filme acompanha um rapaz africano em sua condição de estrangeiro no Brasil, em um bairro que antes abrigava mais asiáticos e que agora também tem abrigado gente de outros lugares do mundo. Direção: Pedro Nishi e Vinícius Silva. Ano: 2018. SP.
MESMO COM TANTA AGONIA
Um filme que procura captar a angústia da existência humana, mesmo quando alguns momentos são aparentemente de alegria, como é o caso da cena do aniversário da filha. Ou a saída para casa para pegar o metrô com a colega de trabalho. Direção: Alice Andrade Drummond. Ano: 2018. MG.
NOME DE BATISMO - ALICE
O fascínio de procurar saber mais sobre suas origens. Ainda mais sendo essas origens tão escondidas, como no caso da família da diretora, vinda de Angola. O filme acompanha sua viagem ao país de seus antepassados e sua tentativa de entender sua história. Há coisas um tanto sombrias, como a questão de sua família ser real e escravizar outros. Há o questionamento sobre como seria Angola antes da evangelização. Direção: Tila Chintunda. Ano: 2018. PE.
NOVA IORQUE
Bom ter uma atriz como Hermila Guedes para dar mais força e credibilidade às interpretações. Mas o filme também deve muito à sensibilidade da direção e ao ator mirim. Seu personagem acha uma caixa de música que lhe desperta a curiosidade e o aproxima da professora. Filme sobre sonhos e desencantos feito com muito carinho. Queria um desenlace mais impactante, mas do jeito que ficou está bem bom. Vale também destacar a edição. Mal dá pra sentir a duração. Direção: Leo Tabosa. Ano: 2018. PE. (Foto)
O ÓRFÃO
Filme bem redondo na condução narrativa e bem comovente na história do garoto que é levado do orfanato para tentar a sorte com um casal. Há um subtexto gay na história, mas é melhor não saber muita coisa antes de ver. Ótima participação de Clarisse Abujamra. Direção: Carolina Markovicz. Ano: 2018. SP.
PLANO CONTROLE
Um barato isso aqui. A ideia é bem inventiva e envolve viagens no tempo e no espaço. Como adoro essas coisas e o filme tem um senso de humor muito afiado e inteligente, me diverti à beça. Interessante o fato de ser a mesma diretora de Baronesa, que tem um senso de humor tão diferente. Direção: Juliana Antunes. Ano: 2018. MG.
REFORMA
Um rapaz gay e gordo incomodado com sua gordice e as dificuldades em manter relacionamentos estáveis. O filme é bom tanto nas cenas íntimas dele com os parceiros, quanto nas conversas que ele tem com a melhor amiga. Direção: Fábio Leal. Ano: 2018. PE.
CALMA
O próprio título do filme meio que pede paciência por parte do espectador, devido ao andamento bem lento da narrativa. Há uma bela sequência inicial, de uma mulher caminhando até uma casa pobre que é impressionante na construção do desenho de produção. E depois o filme se detém em explicitar o seu caráter de distopia brasileira, fazendo pontes com acontecimentos absurdos recentes e um futuro destruidor que pode estar se avizinhando. Direção: Rafael Simões. Ano: 2018. RJ.
CONTE ISSO ÀQUELES QUE DIZEM QUE FOMOS DERROTADOS
Vejo mais méritos neste filme como gesto político, como expressão de resistência, do que como cinema mesmo. Durante a metragem fiquei pensando no quanto certos curtas, ou a maioria dos mais sérios, são muito mais difíceis de digerir em grande quantidade do que longas. Mas isso vale para contos em oposição a romances também, creio eu. Direção: Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cris Araújo e Pedro Maia de Brito. Ano: 2018. MG/PE.
RETIRADA PARA UM CORAÇÃO BRUTO
Um desses filmes bem singulares, que enganam pelo que mostram a princípio. É a história de um senhor que perdeu sua companheira e que tenta levar a vida mesmo assim. Mas aí a trama segue por caminhos inusitados. Tá na cara que o diretor adora um rock. Direção: Marco Antônio Pereira. Ano: 2017. MG.
domingo, janeiro 13, 2019
HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO (Spider-Man: Into the Spider-Verse)
Que bom que a fonte de inspiração para os filmes da Marvel não secou nos anos 2000, já que a divertida animação HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO (2018) bebe principalmente da criação de Dan Slott publicada em 2014 mostrando diversos Homens-Aranhas de múltiplas realidades alternativas se encontrando. Para a versão para o cinema, produzida pela Sony Pictures Animation, tiveram que limar vários desses personagens, até para poder ficar minimamente possível a construção de uma trama em cerca de duas horas de narrativa.
A história se passa no universo de Miles Morales, o jovem adolescente negro que é picado por uma aranha radiotiva após Peter Parker, poucos antes desse morrer pelas mãos do Duende Verde. Essa também foi uma história inspirada nos quadrinhos, na famosa versão Ultimate do Aranha, nascida da mente de Brian Michael Bendis, e que chegou a contagiar até mesmo o filme anterior do cabeça-de-teia, HOMEM-ARANHA - DE VOLTA AO LAR (2017), com um protagonista mais jovem e um melhor amigo gordinho.
Está havendo um hype curioso em relação a esta animação, que realmente deve ser vista como importante. Inclusive, talvez seja a melhor animação de super-heróis já feita para o cinema. Isso levando em consideração principalmente os aspectos técnicos, e não exatamente o modo como é desenvolvida a trama. A animação é muito boa, o conceito do aranhaverso é divertido por si só, mas o filme fica um tanto monótono ao optar por uma ação non-stop, faltando tempo para um respiro, inclusive para que certas passagens dramáticas ganhassem peso, como é o caso do que ocorre com um dos familiares de Miles Morales.
Mas tudo bem se a intenção é fazer um filme em que o entretenimento, aliado à inteligência e a uma vontade grande de dialogar com os fãs do personagem, estão à frente da dramaticidade e da profundidade dos personagens. Até porque há personagens demais para dar conta e o modo como cada um deles se apresenta é divertido e flerta com diferentes estilos, como é o caso de Peni Parker, explicitamente inspirada em um anime/mangá e se destacando da animação como um todo. Até mais do que o Porco-Aranha, que só por sua existência no filme já é um sarro. No mais, algumas piadas funcionam bem, como todas as que envolvem o Peter Parker barrigudo e loser.
Outro personagem divertido é o Homem-Aranha Noir, justamente pela voz de Nicolas Cage sendo tão fácil de ser reconhecida. Os demais atores famosos (Hailee Stenfield, Marheshala Ali, Zoë Kravitz, Chris Pine, Liev Schreiber) não têm uma voz tão facilmente reconhecíveis. Falando em Liev Schreiber, é ele quem faz a voz de Wilson Fisk, o Rei do Crime, que na animação é mostrada como uma homenagem explícita ao traço de Bill Sienkiewicz para a graphic novel clássica Demolidor - Amor e Guerra, de 1986, recentemente republicada.
Como vemos, são referências e homenagens (inclusive há uma participação do já saudoso Stan Lee) que por si só já valem a ida ao cinema, tanto para quem é leitor dos quadrinhos quanto para quem só conhece o herói pelo cinema e pela TV. E com o prêmio de melhor animação no Globo de Ouro, já não vai ser uma surpresa que ele ganhe o Oscar também. E quem sabe até uma sequência.
Atenção! Não saia do cinema antes dos créditos: há uma divertida cena extra.
+ TRÊS FILMES
VENOM
Pra quem não gosta nada do personagem e estava de saco cheio de ver o trailer, até que não achei tão ruim assim VENOM. Aliás, até pode ser ruim, mas o diretor consegue dar um andamento interessante a esse misto de filme de terror e sci-fi com filme de super-herói (ou super-vilão, no caso). O curioso é eles apostarem em uma continuação, a julgar pela cena extra. Direção: Ruben Fleischer. Ano: 2018.
AQUAMAN
James Wan, meu filho, volte para o cinema de horror, que não tá dando ficar ganhando muito dinheiro e sujando sua reputação, não. AQUAMAN é um dos filmes de super-heróis mais chatos ever e pelo visto ajudará a aumentar a ideia de uma maldição dos filmes do universo DC. E olha que eu gosto de BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA e de MULHER-MARAVILHA. Há uma parte do filme que me agradou, que é justamente quando Wan usa sua expertise de diretor de horror, que é a tal cena do barco, que é seguida por uma sequência visualmente linda. Quanto às encenações, eu até relevaria, mas não consigo imaginar que um roteiro como esse já não fosse deixado de lado desde o início. Tudo bem que os heróis da DC não têm muito essa aproximação com a humanidade e o lance é mais aventura, mas isso é mais um motivo para caprichar na empolgação das cenas de ação. Ano: 2018.
WIFI RALPH - QUEBRANDO A INTERNET (Ralph Breaks the Internet)
Achei bem melhor que o primeiro filme, pois as referências são mais próximas e feitas de maneira muito inteligente. Fora as brincadeiras com a internet, há também questões bem delicadas como a insegurança e a carência. Podiam ser melhor aprofundadas, mas até que ficou bem decente. Além disso, fica explícito o atual poderio da Disney em diversos momentos. Direção: Phil Johnston e Rich Moore. Ano: 2018.
A história se passa no universo de Miles Morales, o jovem adolescente negro que é picado por uma aranha radiotiva após Peter Parker, poucos antes desse morrer pelas mãos do Duende Verde. Essa também foi uma história inspirada nos quadrinhos, na famosa versão Ultimate do Aranha, nascida da mente de Brian Michael Bendis, e que chegou a contagiar até mesmo o filme anterior do cabeça-de-teia, HOMEM-ARANHA - DE VOLTA AO LAR (2017), com um protagonista mais jovem e um melhor amigo gordinho.
Está havendo um hype curioso em relação a esta animação, que realmente deve ser vista como importante. Inclusive, talvez seja a melhor animação de super-heróis já feita para o cinema. Isso levando em consideração principalmente os aspectos técnicos, e não exatamente o modo como é desenvolvida a trama. A animação é muito boa, o conceito do aranhaverso é divertido por si só, mas o filme fica um tanto monótono ao optar por uma ação non-stop, faltando tempo para um respiro, inclusive para que certas passagens dramáticas ganhassem peso, como é o caso do que ocorre com um dos familiares de Miles Morales.
Mas tudo bem se a intenção é fazer um filme em que o entretenimento, aliado à inteligência e a uma vontade grande de dialogar com os fãs do personagem, estão à frente da dramaticidade e da profundidade dos personagens. Até porque há personagens demais para dar conta e o modo como cada um deles se apresenta é divertido e flerta com diferentes estilos, como é o caso de Peni Parker, explicitamente inspirada em um anime/mangá e se destacando da animação como um todo. Até mais do que o Porco-Aranha, que só por sua existência no filme já é um sarro. No mais, algumas piadas funcionam bem, como todas as que envolvem o Peter Parker barrigudo e loser.
Outro personagem divertido é o Homem-Aranha Noir, justamente pela voz de Nicolas Cage sendo tão fácil de ser reconhecida. Os demais atores famosos (Hailee Stenfield, Marheshala Ali, Zoë Kravitz, Chris Pine, Liev Schreiber) não têm uma voz tão facilmente reconhecíveis. Falando em Liev Schreiber, é ele quem faz a voz de Wilson Fisk, o Rei do Crime, que na animação é mostrada como uma homenagem explícita ao traço de Bill Sienkiewicz para a graphic novel clássica Demolidor - Amor e Guerra, de 1986, recentemente republicada.
Como vemos, são referências e homenagens (inclusive há uma participação do já saudoso Stan Lee) que por si só já valem a ida ao cinema, tanto para quem é leitor dos quadrinhos quanto para quem só conhece o herói pelo cinema e pela TV. E com o prêmio de melhor animação no Globo de Ouro, já não vai ser uma surpresa que ele ganhe o Oscar também. E quem sabe até uma sequência.
Atenção! Não saia do cinema antes dos créditos: há uma divertida cena extra.
+ TRÊS FILMES
VENOM
Pra quem não gosta nada do personagem e estava de saco cheio de ver o trailer, até que não achei tão ruim assim VENOM. Aliás, até pode ser ruim, mas o diretor consegue dar um andamento interessante a esse misto de filme de terror e sci-fi com filme de super-herói (ou super-vilão, no caso). O curioso é eles apostarem em uma continuação, a julgar pela cena extra. Direção: Ruben Fleischer. Ano: 2018.
AQUAMAN
James Wan, meu filho, volte para o cinema de horror, que não tá dando ficar ganhando muito dinheiro e sujando sua reputação, não. AQUAMAN é um dos filmes de super-heróis mais chatos ever e pelo visto ajudará a aumentar a ideia de uma maldição dos filmes do universo DC. E olha que eu gosto de BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA e de MULHER-MARAVILHA. Há uma parte do filme que me agradou, que é justamente quando Wan usa sua expertise de diretor de horror, que é a tal cena do barco, que é seguida por uma sequência visualmente linda. Quanto às encenações, eu até relevaria, mas não consigo imaginar que um roteiro como esse já não fosse deixado de lado desde o início. Tudo bem que os heróis da DC não têm muito essa aproximação com a humanidade e o lance é mais aventura, mas isso é mais um motivo para caprichar na empolgação das cenas de ação. Ano: 2018.
WIFI RALPH - QUEBRANDO A INTERNET (Ralph Breaks the Internet)
Achei bem melhor que o primeiro filme, pois as referências são mais próximas e feitas de maneira muito inteligente. Fora as brincadeiras com a internet, há também questões bem delicadas como a insegurança e a carência. Podiam ser melhor aprofundadas, mas até que ficou bem decente. Além disso, fica explícito o atual poderio da Disney em diversos momentos. Direção: Phil Johnston e Rich Moore. Ano: 2018.
sábado, janeiro 12, 2019
INFILTRADO NA KLAN (BlacKkKlansman)
O retorno de Spike Lee aos grandes holofotes depois de vários anos como um cineasta visto por um grupo seleto de cinéfilos e interessados em questões raciais se dá novamente com um filme de gênero - seu último grande sucesso de público foi O PLANO PERFEITO (2006). Seu novo trabalho, INFILTRADO NA KLAN (2018), é um filme policial com toques de humor baseado no livro de memórias do policial Ron Stallworth, interpretado no filme por John David Washington, filho de Denzel Washington, que foi durante um bom tempo um colaborador assíduo dos trabalhos de Lee.
O que há de extraordinário na história de Stallworth é o fato de ele ter conseguido, sendo ele negro, se infiltrar na Ku Klux Klan em 1979. Claro, ele teria que ter um agente branco em seu lugar. No filme, o agente branco e que na versão de Lee é também um judeu não-praticante é Flipp, vivido por Adam Driver. Stallworth foi o primeiro policial negro de Colorado Springs.
INFILTRADO NA KLAN brinca com o visual dos filmes da década de 1970, trazendo também referências fortes ao blaxploitation, com citações de filmes-chave do movimento, em uma agradável conversa do protagonista com seu interesse amoroso, Patrice (Laura Harrier), uma líder de um grêmio estudantil negro. Curiosamente, Spike Lee prefere não mostrar nada da intimidade física do casal.
Um dos momentos mais fortes do filme acontece quando Stallworth vai infiltrado a uma reunião de um grupo de jovens negros que trouxeram para uma palestra um importante ativista político, Kwame Ture (Corey Hawkins, em papel marcante). A cena é boa tanto pelas palavras do orador quanto pela bela edição, que enfatiza o impacto daquelas palavras para aqueles jovens, sobre ser negro e ser lindo. E Spike Lee toma cuidado para que de fato as pessoas mostradas no filme estejam mesmo muito bonitas, com destaque, obviamente, para Laura Harrier, que além de bela é um exemplo de mulher forte e convencida de suas ideias. O debate que ela tem com Stallworth sobre ter um negro dentro da polícia é interessante.
O que torna INFILTRADO NA KLAN uma obra muito bem-vinda para esses dias tão sombrios e absurdos, com homens perniciosos como Donald Trump, nos Estados Unidos, e agora Jair Bolsonaro, no Brasil, é que a história que Lee conta não é apenas a história do passado dos Estados Unidos, uma história que remonta ao século XIX e a alguns filmes clássicos, como E O VENTO LEVOU e O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO, mas também a eventos recentes, mostrados ao fim da projeção, como que para nos alertar sobre os velhos perigos que têm voltado com um ódio acumulado de décadas. Como diz Renato Russo em uma de suas canções mais pungentes: "Estejamos alertas / Porque o terror continua / Só mudou de cheiro / E de uniforme".
+ TRÊS FILMES
PONTO CEGO (Blindspotting)
Sucesso de crítica no Festival de Sundance deste ano, PONTO CEGO vem engrossar os ótimos filmes que discutem questões raciais nos Estados Unidos. No caso, o tratamento diferenciado que um negro recebe, em comparação com um branco. É um drama com momentos de suspense tão fortes que é difícil não se colocar no lugar do protagonista, em seus últimos dias de liberdade condicional e com um medo terrível de que alguma merda venha a acontecer. Direção: Carlos López Estrada. Ano: 2018.
AS VIÚVAS (Widows)
A direção segura de Steve McQueen mantém sempre o interesse e o filme parece estar quase sempre acima da média - às vezes até bem mais do que isso -, mas tem uma coisa de querer ser um filme de prestígio que me incomoda um pouco, ainda mais quando vira uma espécie de versão pra Oscar de OITO MULHERES E UM SEGREDO. Mas há surpresas boas e momentos muito bons. Ano: 2018.
MY NAME IS NOW, ELZA SOARES
Não sou muito fã de Elza Soares. Na verdade, não conheço direito seu trabalho e nem me sinto atraído pelo pouco que vi. Acho o trabalho da diretora aqui muito harmônico com a personalidade e o tipo de música (ao menos das mais jazz que ela canta), já que o trabalho é de improviso. O problema é que, assim como a minha relação com a cantora, a relação com o filme é de também não me sentir convencido de que estou vendo boa arte. Mas isso pode ser só ignorância minha mesmo, não sei.. De todo modo, gostei da hora que ela canta uma canção do repertório da Núbia Lafayete. Direção: Elizabete Martins Campos. Ano: 2014.
O que há de extraordinário na história de Stallworth é o fato de ele ter conseguido, sendo ele negro, se infiltrar na Ku Klux Klan em 1979. Claro, ele teria que ter um agente branco em seu lugar. No filme, o agente branco e que na versão de Lee é também um judeu não-praticante é Flipp, vivido por Adam Driver. Stallworth foi o primeiro policial negro de Colorado Springs.
INFILTRADO NA KLAN brinca com o visual dos filmes da década de 1970, trazendo também referências fortes ao blaxploitation, com citações de filmes-chave do movimento, em uma agradável conversa do protagonista com seu interesse amoroso, Patrice (Laura Harrier), uma líder de um grêmio estudantil negro. Curiosamente, Spike Lee prefere não mostrar nada da intimidade física do casal.
Um dos momentos mais fortes do filme acontece quando Stallworth vai infiltrado a uma reunião de um grupo de jovens negros que trouxeram para uma palestra um importante ativista político, Kwame Ture (Corey Hawkins, em papel marcante). A cena é boa tanto pelas palavras do orador quanto pela bela edição, que enfatiza o impacto daquelas palavras para aqueles jovens, sobre ser negro e ser lindo. E Spike Lee toma cuidado para que de fato as pessoas mostradas no filme estejam mesmo muito bonitas, com destaque, obviamente, para Laura Harrier, que além de bela é um exemplo de mulher forte e convencida de suas ideias. O debate que ela tem com Stallworth sobre ter um negro dentro da polícia é interessante.
O que torna INFILTRADO NA KLAN uma obra muito bem-vinda para esses dias tão sombrios e absurdos, com homens perniciosos como Donald Trump, nos Estados Unidos, e agora Jair Bolsonaro, no Brasil, é que a história que Lee conta não é apenas a história do passado dos Estados Unidos, uma história que remonta ao século XIX e a alguns filmes clássicos, como E O VENTO LEVOU e O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO, mas também a eventos recentes, mostrados ao fim da projeção, como que para nos alertar sobre os velhos perigos que têm voltado com um ódio acumulado de décadas. Como diz Renato Russo em uma de suas canções mais pungentes: "Estejamos alertas / Porque o terror continua / Só mudou de cheiro / E de uniforme".
+ TRÊS FILMES
PONTO CEGO (Blindspotting)
Sucesso de crítica no Festival de Sundance deste ano, PONTO CEGO vem engrossar os ótimos filmes que discutem questões raciais nos Estados Unidos. No caso, o tratamento diferenciado que um negro recebe, em comparação com um branco. É um drama com momentos de suspense tão fortes que é difícil não se colocar no lugar do protagonista, em seus últimos dias de liberdade condicional e com um medo terrível de que alguma merda venha a acontecer. Direção: Carlos López Estrada. Ano: 2018.
AS VIÚVAS (Widows)
A direção segura de Steve McQueen mantém sempre o interesse e o filme parece estar quase sempre acima da média - às vezes até bem mais do que isso -, mas tem uma coisa de querer ser um filme de prestígio que me incomoda um pouco, ainda mais quando vira uma espécie de versão pra Oscar de OITO MULHERES E UM SEGREDO. Mas há surpresas boas e momentos muito bons. Ano: 2018.
MY NAME IS NOW, ELZA SOARES
Não sou muito fã de Elza Soares. Na verdade, não conheço direito seu trabalho e nem me sinto atraído pelo pouco que vi. Acho o trabalho da diretora aqui muito harmônico com a personalidade e o tipo de música (ao menos das mais jazz que ela canta), já que o trabalho é de improviso. O problema é que, assim como a minha relação com a cantora, a relação com o filme é de também não me sentir convencido de que estou vendo boa arte. Mas isso pode ser só ignorância minha mesmo, não sei.. De todo modo, gostei da hora que ela canta uma canção do repertório da Núbia Lafayete. Direção: Elizabete Martins Campos. Ano: 2014.
sexta-feira, janeiro 11, 2019
HOMECOMING - PRIMEIRA TEMPORADA (Homecoming - Season One)
É uma pena que Sam Esmail, um dos maiores talentos revelados na televisão, tenha feito tão pouca coisa para cinema. Digo isso porque seu trabalho é muito mais cinematográfico, ousado e estiloso do que a grande maioria dos filmes que são feitos direto para cinema. Sua obra máxima talvez seja ainda MR. ROBOT, sem data ainda para estrear a quarta temporada, mas com a popularidade de Rami Malek ganhou com BOHEMIAN RHAPSODY a série deve convidar uma audiência ainda maior, por mais exigente que ela seja com seu espectador.
Assim como acontece com MR. ROBOT, acontece também com HOMECOMING (2018), que demanda um pouco mais de atenção, especialmente em seus dois primeiros episódios, mas uma vez que estamos enredados juntos com a trama, estamos prontos para entrar na perturbadora história de uma mulher, Heidi Bergman (Julia Roberts), que trabalha supostamente como facilitadora na reabilitação de homens que voltaram da guerra. Ao mesmo tempo, em uma outra janela de aspecto, muito parecida com a câmera de um celular na vertical, acompanhamos o futuro da mulher, desta vez trabalhando como garçonete em um modesto estabelecimento de uma modesta cidadezinha da Califórnia. Ela é questionada por um homem estranho, que está investigando coisas sobre seu emprego anterior, na tal Homecoming do título. Ela diz para o homem que não conhece e nem lembra dos nomes que ele cita.
Presente e futuro vão se alternando nesta história baseada em um podcast, o que não deixa de ser algo original. Para quem está habituado com MR. ROBOT, já sabe que Sam Esmail gosta de câmeras colocadas em locais diferentes, fotografias com tonalidades distintas para passar certa atmosfera, entre outras coisas. Tod Campbell, mesmo diretor de fotografia de MR. ROBOT trabalha com Esmail nesta nova série. Mas até que em HOMECOMING ele não abusa tanto disso não.
Até porque a trama vai se tornando cada vez mais angustiante e empolgante e o espectador fica mais interessado em saber os segredos escondidos no passado daquela mulher e também o destino em particular de um de seus pacientes, vivido pelo ótimo Stephan James, que até dá um ar de CORRA! à narrativa, tanto pela interpretação quanto pelo que há de horror na trama. Mas quem rouba a cena mesmo é Bobby Cannavale, que interpreta o chefe de Heidi.
Cannavale já tinha se mostrado um ótimo personagem de poucos escrúpulos em MR. ROBOT. Em HOMECOMING, porém, ele ganha muito mais espaço para brilhar, com um papel maior. Destaque para o episódio em que ele tenta abordar a personagem de Roberts no futuro. Aliás, não posso terminar o texto sem elogiar a bela performance da atriz, que não se importa de mostrar suas marcas do tempo, em especial nas cenas que se passam no futuro. A idade chega para todos, mas com isso vem uma maior entrega e uma maturidade em lidar com personagens mais desafiadoras.
Assim como acontece com MR. ROBOT, acontece também com HOMECOMING (2018), que demanda um pouco mais de atenção, especialmente em seus dois primeiros episódios, mas uma vez que estamos enredados juntos com a trama, estamos prontos para entrar na perturbadora história de uma mulher, Heidi Bergman (Julia Roberts), que trabalha supostamente como facilitadora na reabilitação de homens que voltaram da guerra. Ao mesmo tempo, em uma outra janela de aspecto, muito parecida com a câmera de um celular na vertical, acompanhamos o futuro da mulher, desta vez trabalhando como garçonete em um modesto estabelecimento de uma modesta cidadezinha da Califórnia. Ela é questionada por um homem estranho, que está investigando coisas sobre seu emprego anterior, na tal Homecoming do título. Ela diz para o homem que não conhece e nem lembra dos nomes que ele cita.
Presente e futuro vão se alternando nesta história baseada em um podcast, o que não deixa de ser algo original. Para quem está habituado com MR. ROBOT, já sabe que Sam Esmail gosta de câmeras colocadas em locais diferentes, fotografias com tonalidades distintas para passar certa atmosfera, entre outras coisas. Tod Campbell, mesmo diretor de fotografia de MR. ROBOT trabalha com Esmail nesta nova série. Mas até que em HOMECOMING ele não abusa tanto disso não.
Até porque a trama vai se tornando cada vez mais angustiante e empolgante e o espectador fica mais interessado em saber os segredos escondidos no passado daquela mulher e também o destino em particular de um de seus pacientes, vivido pelo ótimo Stephan James, que até dá um ar de CORRA! à narrativa, tanto pela interpretação quanto pelo que há de horror na trama. Mas quem rouba a cena mesmo é Bobby Cannavale, que interpreta o chefe de Heidi.
Cannavale já tinha se mostrado um ótimo personagem de poucos escrúpulos em MR. ROBOT. Em HOMECOMING, porém, ele ganha muito mais espaço para brilhar, com um papel maior. Destaque para o episódio em que ele tenta abordar a personagem de Roberts no futuro. Aliás, não posso terminar o texto sem elogiar a bela performance da atriz, que não se importa de mostrar suas marcas do tempo, em especial nas cenas que se passam no futuro. A idade chega para todos, mas com isso vem uma maior entrega e uma maturidade em lidar com personagens mais desafiadoras.
terça-feira, janeiro 08, 2019
HISTÓRIAS QUE NOSSO CINEMA (NÃO) CONTAVA
Em PALÁCIO DE VÊNUS (1980), de Ody Fraga, um dos vários filmes mostrados em HISTÓRIAS QUE NOSSO CINEMA (NÃO) CONTAVA, um velho cliente de um bordel pergunta a uma jovem profissional do sexo vestida de colegial o que mais lhe interessa nas histórias. A garota logo responde, em tom desavergonhado: "as sacanagens".
Eis o ponto de partida deste jogo em que a sensualidade e a liberdade sexual do cinema daquele período dão o tom neste trabalho da cineasta Fernanda Pessoa, em que são discutidos política e comportamento no Brasil dos anos 1970.
Logo em seguida, como que apresentando o "elenco", vemos títulos de alguns dos filmes que serão vistos no projeto. Quem conhece pelo menos um pouco desse cinema já fica salivando. Quem não conhece, fica intrigado e interessado em conhecer. Ou pelo menos deveria.
O fato de esses filmes terem sido realizados durante o regime militar é um prato cheio para as cenas que brincam com a perseguição ao comunismo ou com qualquer ideia contrária à do regime instituído. A Copa do Mundo de 1970 e certos ufanismos servem para mostrar a complexidade deste país cheio de contradições. Quantos sentimentos emanam da cena em que um grupo de jovens canta "Eu Te Amo, Meu Brasil", em DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM (1977), de David Cardoso?
Mas o mais interessante, além de ver as cenas que mostram o espírito festivo, galhofeiro e malandro do brasileiro, é perceber como o filme vai se costurando bem em eixos temáticos, às vezes inteligentemente mudados a partir de uma simples fala. Assim, entre os temas, há a mistura de classes sociais, a tortura, o abuso do corpo da mulher, o uso da maconha, a maior visibilidade dos grupos gays, a chegada da discotheque, o divórcio, o aborto, a economia, a agitação feminista, as greves e o início da discussão sobre a anistia aos presos políticos.
Tudo isso visto através de filmes considerados por muitos como menores ou vulgares, mas prontos a serem melhor apreciados ou descobertos. É cinema que se alimenta de cinema e que não tem interesse em ser didático, mas de mostrar uma sociedade de outrora que dialoga com essa em que estamos vivendo.
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de 3 de setembro de 2018. Edição de uma versão maior, publicada na revista Movimento #1.
+ TRÊS FILMES
DUAS ESTRANHAS MULHERES
O primeiro segmento, Diana, é o melhor e mais instigante. Além do mais, Patricia Scalvi é sempre um espetáculo. Aqui ela é uma mulher que fica confusa com a dupla personalidade do marido. Baita história. A segunda história apela mais para a nudez gratuita, mas isso não é nada ruim. E há o surrealismo da trama, que é interessante. John Doo tem o seu carisma também. Direção: Jair Correia. Ano: 1981.
FELIZ ANO VELHO
É um filme sobre a perda, mas é impressionante como a maior perda que eu sinto vendo este filme nem é a perda da mobilidade do protagonista, devido a um acidente, mas a perda do amor de sua vida. E sendo este amor vivido por Malu Mader, esse peso se torna ainda maior. Malu era talvez a mais bela atriz brasileira dos anos 80. E sem precisar se esforçar em nada. As cenas em que ele briga com ela e rompe o relacionamento são muito mais dilacerantes que qualquer cena do acidente. Direção: Roberto Gervitz. Ano: 1987.
STELINHA
Finalmente, depois de anos e anos, consegui ver o famoso STELINHA, premiado em um tempo de vacas magras para o cinema brasileiro. O filme tem uma elegância que briga com a carência de recursos daquela virada de década. A história da cantora decadente que encontra um rapaz jovem e se apaixona é triste e um tanto desoladora. Roteiro ótimo do Rubem Fonseca, direção de arte simples e bonita, interpretações muito boas, direção do feria Faria Jr. Só não gostei das partes musicais. Ainda assim, um belo filme. Direção: Miguel Faria Jr. Ano: 1990.
Eis o ponto de partida deste jogo em que a sensualidade e a liberdade sexual do cinema daquele período dão o tom neste trabalho da cineasta Fernanda Pessoa, em que são discutidos política e comportamento no Brasil dos anos 1970.
Logo em seguida, como que apresentando o "elenco", vemos títulos de alguns dos filmes que serão vistos no projeto. Quem conhece pelo menos um pouco desse cinema já fica salivando. Quem não conhece, fica intrigado e interessado em conhecer. Ou pelo menos deveria.
O fato de esses filmes terem sido realizados durante o regime militar é um prato cheio para as cenas que brincam com a perseguição ao comunismo ou com qualquer ideia contrária à do regime instituído. A Copa do Mundo de 1970 e certos ufanismos servem para mostrar a complexidade deste país cheio de contradições. Quantos sentimentos emanam da cena em que um grupo de jovens canta "Eu Te Amo, Meu Brasil", em DEZENOVE MULHERES E UM HOMEM (1977), de David Cardoso?
Mas o mais interessante, além de ver as cenas que mostram o espírito festivo, galhofeiro e malandro do brasileiro, é perceber como o filme vai se costurando bem em eixos temáticos, às vezes inteligentemente mudados a partir de uma simples fala. Assim, entre os temas, há a mistura de classes sociais, a tortura, o abuso do corpo da mulher, o uso da maconha, a maior visibilidade dos grupos gays, a chegada da discotheque, o divórcio, o aborto, a economia, a agitação feminista, as greves e o início da discussão sobre a anistia aos presos políticos.
Tudo isso visto através de filmes considerados por muitos como menores ou vulgares, mas prontos a serem melhor apreciados ou descobertos. É cinema que se alimenta de cinema e que não tem interesse em ser didático, mas de mostrar uma sociedade de outrora que dialoga com essa em que estamos vivendo.
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de 3 de setembro de 2018. Edição de uma versão maior, publicada na revista Movimento #1.
+ TRÊS FILMES
DUAS ESTRANHAS MULHERES
O primeiro segmento, Diana, é o melhor e mais instigante. Além do mais, Patricia Scalvi é sempre um espetáculo. Aqui ela é uma mulher que fica confusa com a dupla personalidade do marido. Baita história. A segunda história apela mais para a nudez gratuita, mas isso não é nada ruim. E há o surrealismo da trama, que é interessante. John Doo tem o seu carisma também. Direção: Jair Correia. Ano: 1981.
FELIZ ANO VELHO
É um filme sobre a perda, mas é impressionante como a maior perda que eu sinto vendo este filme nem é a perda da mobilidade do protagonista, devido a um acidente, mas a perda do amor de sua vida. E sendo este amor vivido por Malu Mader, esse peso se torna ainda maior. Malu era talvez a mais bela atriz brasileira dos anos 80. E sem precisar se esforçar em nada. As cenas em que ele briga com ela e rompe o relacionamento são muito mais dilacerantes que qualquer cena do acidente. Direção: Roberto Gervitz. Ano: 1987.
STELINHA
Finalmente, depois de anos e anos, consegui ver o famoso STELINHA, premiado em um tempo de vacas magras para o cinema brasileiro. O filme tem uma elegância que briga com a carência de recursos daquela virada de década. A história da cantora decadente que encontra um rapaz jovem e se apaixona é triste e um tanto desoladora. Roteiro ótimo do Rubem Fonseca, direção de arte simples e bonita, interpretações muito boas, direção do feria Faria Jr. Só não gostei das partes musicais. Ainda assim, um belo filme. Direção: Miguel Faria Jr. Ano: 1990.
segunda-feira, janeiro 07, 2019
GLOBO DE OURO 2019
Foi uma das premiações mais entendiantes em muito tempo. Estava sentindo no ar um clima de pouca empolgação para essa, que costuma ser uma das festas mais divertidas da temporada de prêmios. Muitas vezes, melhor do que o Oscar. A melhor coisa da noite foi o prêmio Cecil B. DeMille para Jeff Bridges. Como o Globo de Ouro não costuma passar muitos trechos de filmes ou apresentações musicais, ao menos eles compensaram com um belo clipe que dá uma dimensão da ótima e rica carreira desse ator que é muitas vezes subestimado. Talvez por não ser tão versátil. Mas é só assistir o clipe que você logo vê que é digno de respeito, tendo trabalhado em filmes de grandes diretores. Inclusive, Jeff lembrou de Peter Bogdanovich e de Michael Cimino em seu discurso. Além de agradecer também aos irmãos Coen.
Quanto às premiações dos filmes do ano, o Globo de Ouro só confirmou sua característica mais pop (principalmente pela indicação de PANTERA NEGRA). Assim, os grandes vencedores da noite na categoria cinema foram BOHEMIAN RHAPSODY, GREEN BOOK - O GUIA e ROMA. Fiquei sem saber quem era Olivia Colman, a vencedora por A FAVORITA, mas é só questão de tempo para eu me familiarizar com essa atriz que parece ser bem talentosa.
Uma boa surpresa pra mim foi o prêmio para animação para HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, que desbancou os filmes da Disney, da Pixar e do Wes Anderson, só para citar os mais populares. Confesso que meu interesse pelo filme aumentou. Eu que já estava animado para vê-lo.
Engraçado quando você começa a falar sobre uma noite de premiação e cita justamente os premiados, em vez das coisas que acontecem. É sinal de que não houve muita coisa interessante mesmo. E de fato, tirando o prêmio de Bridges e a beleza de várias atrizes da noite, pouca coisa me entusiasmou.
Quanto à categoria televisão, ela me interessa mais por me deixar com vontade de conhecer certos trabalhos que até então eu não sabia que existiam ou não tive tempo de pesquisar. Entre as séries e minisséries que me animaram a ver, a primeira delas que pretendo conferir é A VERY ENGLISH SCANDAL, minissérie em três episódios dirigida por Stephen Frears, sendo que meu interesse maior é pela presença do querido Hugh Grant. A minissérie ganhou o prêmio de ator coadjuvante para Ben Wishaw.
Outra minissérie que me deixou curioso foi ESCAPE AT DANNEMORA, de Ben Stiller, que ganhou prêmio de atriz para Patricia Arquette. É uma história de amor e de fuga de prisão. Não deve ser ruim, hein. Também bateu aquela vontade de conferir KILLING EVE, vencedora do prêmio de atriz para Sandra Oh.
No mais, a atriz que eu mais torcia na categoria televisão ganhou seu segundo prêmio: a incrível Rachel Brosnahan pela excelente THE MARVELOUS MRS. MAISEL, série que continuou ótima em sua segunda temporada.
Ao final, com BOHEMIAN RHAPSODY ganhando o prêmio mais cobiçado, e com a ausência de Bryan Singer, o diretor do filme, acusado de pedofilia e afastado durante as gravações, impressionante como ele não teve sequer uma citação por parte de quem esteve lá para fazer seus discursos. Enfim, não é questão de proteger o sujeito, mas fico um pouco incomodado com esse julgamento.
Falando nesses novos tempos, levando em consideração os vários discursos das mulheres vencedoras, nesse sentido, Regina King foi a que fez o discurso mais poderoso: falou que trabalharia a partir de então em equipes que tivesse mínimo de 50% de mulheres e teve apoio de algumas atrizes mais engajadas.
Prêmios da noite
Cinema
Melhor Filme (Drama): BOHEMIAN RHAPSODY
Melhor Filme (Comédia/Musical): GREEN BOOK - O GUIA
Melhor Direção: Alfonso Cuarón (ROMA)
Melhor Ator (Drama): Rami Malek (BOHEMIAN RHAPSODY)
Melhor Ator (Comédia/Musical): Christian Bale (VICE)
Melhor Atriz (Drama): Glenn Close (A ESPOSA)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Olivia Colman (A FAVORITA)
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali (GREEN BOOK - O GUIA)
Melhor Atriz Coadjuvante: Regina King (SE A RUA BEALE FALASSE)
Melhor Roteiro: GREEN BOOK - O GUIA
Melhor Trilha Sonora: O PRIMEIRO HOMEM
Melhor Canção Original: "Shallow" (NASCE UMA ESTRELA)
Melhor Animação: HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
Melhor Filme Estrangeiro: ROMA (México)
Televisão
Melhor Série (Drama): THE AMERICANS
Melhor Série (Comédia/Musical): THE KOMINSKY METHOD
Melhor Minissérie ou Telefilme: THE ASSASSINATION OF GIANNI VERSACE - AMERICAN CRIME STORY
Melhor Ator de Série (Drama): Richard Madden (SEGURANÇA EM JOGO)
Melhor Ator de Série (Comédia): Michael Douglas (THE KOMINSKY METHOD)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Darren Criss (THE ASSASSINATION OF GIANNI VERSACE - AMERICAN CRIME STORY)
Melhor Atriz de Série (Drama): Sandra Oh (KILLING EVE)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Rachel Brosnahan (THE MARVELOUS MRS. MAISEL)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Patricia Arquette (ESCAPE AT DANNEMORA)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Ben Wishaw (A VERY ENGLISH SCANDAL)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Patricia Clarkson (SHARP OBJECTS)
Quanto às premiações dos filmes do ano, o Globo de Ouro só confirmou sua característica mais pop (principalmente pela indicação de PANTERA NEGRA). Assim, os grandes vencedores da noite na categoria cinema foram BOHEMIAN RHAPSODY, GREEN BOOK - O GUIA e ROMA. Fiquei sem saber quem era Olivia Colman, a vencedora por A FAVORITA, mas é só questão de tempo para eu me familiarizar com essa atriz que parece ser bem talentosa.
Uma boa surpresa pra mim foi o prêmio para animação para HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO, que desbancou os filmes da Disney, da Pixar e do Wes Anderson, só para citar os mais populares. Confesso que meu interesse pelo filme aumentou. Eu que já estava animado para vê-lo.
Engraçado quando você começa a falar sobre uma noite de premiação e cita justamente os premiados, em vez das coisas que acontecem. É sinal de que não houve muita coisa interessante mesmo. E de fato, tirando o prêmio de Bridges e a beleza de várias atrizes da noite, pouca coisa me entusiasmou.
Quanto à categoria televisão, ela me interessa mais por me deixar com vontade de conhecer certos trabalhos que até então eu não sabia que existiam ou não tive tempo de pesquisar. Entre as séries e minisséries que me animaram a ver, a primeira delas que pretendo conferir é A VERY ENGLISH SCANDAL, minissérie em três episódios dirigida por Stephen Frears, sendo que meu interesse maior é pela presença do querido Hugh Grant. A minissérie ganhou o prêmio de ator coadjuvante para Ben Wishaw.
Outra minissérie que me deixou curioso foi ESCAPE AT DANNEMORA, de Ben Stiller, que ganhou prêmio de atriz para Patricia Arquette. É uma história de amor e de fuga de prisão. Não deve ser ruim, hein. Também bateu aquela vontade de conferir KILLING EVE, vencedora do prêmio de atriz para Sandra Oh.
No mais, a atriz que eu mais torcia na categoria televisão ganhou seu segundo prêmio: a incrível Rachel Brosnahan pela excelente THE MARVELOUS MRS. MAISEL, série que continuou ótima em sua segunda temporada.
Ao final, com BOHEMIAN RHAPSODY ganhando o prêmio mais cobiçado, e com a ausência de Bryan Singer, o diretor do filme, acusado de pedofilia e afastado durante as gravações, impressionante como ele não teve sequer uma citação por parte de quem esteve lá para fazer seus discursos. Enfim, não é questão de proteger o sujeito, mas fico um pouco incomodado com esse julgamento.
Falando nesses novos tempos, levando em consideração os vários discursos das mulheres vencedoras, nesse sentido, Regina King foi a que fez o discurso mais poderoso: falou que trabalharia a partir de então em equipes que tivesse mínimo de 50% de mulheres e teve apoio de algumas atrizes mais engajadas.
Prêmios da noite
Cinema
Melhor Filme (Drama): BOHEMIAN RHAPSODY
Melhor Filme (Comédia/Musical): GREEN BOOK - O GUIA
Melhor Direção: Alfonso Cuarón (ROMA)
Melhor Ator (Drama): Rami Malek (BOHEMIAN RHAPSODY)
Melhor Ator (Comédia/Musical): Christian Bale (VICE)
Melhor Atriz (Drama): Glenn Close (A ESPOSA)
Melhor Atriz (Comédia/Musical): Olivia Colman (A FAVORITA)
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali (GREEN BOOK - O GUIA)
Melhor Atriz Coadjuvante: Regina King (SE A RUA BEALE FALASSE)
Melhor Roteiro: GREEN BOOK - O GUIA
Melhor Trilha Sonora: O PRIMEIRO HOMEM
Melhor Canção Original: "Shallow" (NASCE UMA ESTRELA)
Melhor Animação: HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
Melhor Filme Estrangeiro: ROMA (México)
Televisão
Melhor Série (Drama): THE AMERICANS
Melhor Série (Comédia/Musical): THE KOMINSKY METHOD
Melhor Minissérie ou Telefilme: THE ASSASSINATION OF GIANNI VERSACE - AMERICAN CRIME STORY
Melhor Ator de Série (Drama): Richard Madden (SEGURANÇA EM JOGO)
Melhor Ator de Série (Comédia): Michael Douglas (THE KOMINSKY METHOD)
Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme: Darren Criss (THE ASSASSINATION OF GIANNI VERSACE - AMERICAN CRIME STORY)
Melhor Atriz de Série (Drama): Sandra Oh (KILLING EVE)
Melhor Atriz de Série (Comédia): Rachel Brosnahan (THE MARVELOUS MRS. MAISEL)
Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme: Patricia Arquette (ESCAPE AT DANNEMORA)
Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Ben Wishaw (A VERY ENGLISH SCANDAL)
Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme: Patricia Clarkson (SHARP OBJECTS)
Assinar:
Postagens (Atom)



















