segunda-feira, dezembro 17, 2018

FIRST REFORMED

Desde o começo de minha cinefilia que sei do caso de Paul Schrader, do fato de ele ter visto o seu primeiro filme na vida aos 17 anos, devido à formação religiosa de sua família, que proibia dança ou qualquer entretenimento popular. Embora até hoje me admire com isso, ainda mais levando em consideração que Schrader se tornou um crítico, depois um roteirista e depois um cineasta, eu me identifico um bocado com isso, já que eu também era proibido de dançar por minha mãe, evangélica fervorosa. Nem mesmo a presença de meu pai, afeito aos prazeres etílicos, fez com que essa influência se confirmasse tão intensa em mim.

No caso de Schrader, é interessante como, em vez de ele lidar com filmes pendendo para a religião, como aconteceu com Ingmar Bergman, que também sofreu os traumas de uma criação religiosa rígida, o cineasta e roteirista americano preferiu simpatizar com a temática da violência. Daí até hoje ser mais lembrado pelo roteiro de TAXI DRIVER (1976). Curiosamente, é justamente o clássico personagem Travis Bickle que mais é citado como referência do novo trabalho de Schrader, o impressionantemente belo FIRST REFORMED (2017).

Em entrevista à revista americana Cineaste (Vol. XLIII), Schrader comenta sobre os caminhos de sua carreira, sobre como se identifica mais com um Kubrick do que com um Hitchcock, no sentido de que quer sempre fazer algo diferente, desafiador, e não ficar repetindo temas. Daí seus filmes aparentemente não terem um aspecto tão comum entre si. Ele revela na entrevista que sua própria carreira no cinema também foi surgindo a partir de coisas que ele acabava de ver, como quando ele viu O BATEDOR DE CARTEIRAS, de Robert Bresson, em 1968, pela primeira vez. Foi a partir daí que algo lhe acendeu o desejo e a certeza de que poderia fazer cinema também.

E é justamente de Bresson a principal referência quando assistimos a FIRST REFORMED (embora Schrader confesse ter sido influenciado por IDA, de Pawel Pawlikowski). O personagem de Ethan Hawke, o atormentado pastor Toller, é claramente inspirado no padre do filme do cultuado cineasta francês. Ambos são homens que não encontram alegria na vida e que gostam de escrever em um diário enquanto bebem tanto vinho que seus fígados já quase não existem.

A vida de Toller mudaria, porém, a partir do encontro com Mary, uma jovem mulher grávida que quer que o padre convença seu marido suicida de que ela não deve abortar. O problema é que o tal marido suicida apresenta motivos suficientes para o reverendo acreditar que não há mesmo nenhum sentido de colocar uma vida neste mundo, cujo fim já pode ser facilmente visto a partir do quanto o homem polui o meio-ambiente. O lado positivo é que a vida de Toller passa a fazer mais sentido, agora que ele se torna também um militante, agora que seus olhos foram abertos para o horror iminente do planeta.

E há Mary, vivida com um brilho quase celestial por Amanda Seyfried, que durante as filmagens estava também grávida. O fato de seu nome ser Mary já carrega uma ideia de santidade, por mais que aqui estejamos falando de um não-católico. De todo modo, isso não importa muito, até porque pastor ou padre não faz muita diferença no modo como é pintado o personagem de Hawke e sua igreja pequena.

Um dos aspectos que mais chama a atenção em FIRST REFORMED é a beleza formal. Novamente entra em cena uma ligação com Bresson, que costumava filmar uma porta por alguns segundos mesmo quando o personagem saía de cena por ela. O que acaba por criar uma estranheza. Esse tipo de "atraso" é também usado por Schrader, mas ele faz questão de quebrar algumas regras que ele mesmo cria, como o fato de não movimentar a câmera. Em certo momento, ele usa uma dolly, justamente para que o espectador perceba que existe uma regra que foi quebrada.

E temos a beleza da fotografia em 1,37:1, que privilegia os corpos. E a angústia dos personagens. E o pessimismo latente. E o fato de haver uma necessidade de um comprometimento maior por parte do espectador, devido também ao andamento lento do filme e sua intensidade. Aliás, difícil não ver FIRST REFORMED e não lamentar o fato de ele continuar inédito nos cinemas brasileiros. As chances de ele chegar às telonas talvez só se cumprissem com indicações ao Oscar. Será que resta alguma esperança? Na falta do cinema, vale ver e rever com prazer esta que talvez seja a obra-prima de Schrader como diretor.

+ TRÊS FILMES

WON'T YOU BE MY NEIGHBOR?

Um documentário sobre a história de vida e carreira de um apresentador de um programa infantil se transforma em uma história sobre gentileza, amor e sobre o quanto somos produto do amor e do desamor. Na verdade, não apenas isso: há tanta riqueza e tantos detalhes em cada gesto e em cada fala do personagem. Direção: Morgan Neville. Ano: 2018.

A PRECE (La Prière)

Belo e de certa forma até que bem simples filme sobre a dificuldade de se curar do vício em uma droga pesada. A PRECE acaba sendo mais do que isso. Gostei de pensar na questão da completude do ser humano, da necessidade de satisfazer tanto os desejos do corpo quanto do espírito. Direção: Cédric Khan. Ano: 2018.

THREE IDENTICAL STRANGERS

Eis um filme que quanto menos você souber a respeito da trama, ou seja, da história real dos três gêmeos, melhor. Nesse sentido, podemos encontrar paralelos com outros documentários, como DEAR ZACHARY - UM CASO CHOCANTE e SEARCHING FOR SUGAR MAN. É um filme que dá muito o que pensar sobre a questão da criação e dos genes como elementos na construção da personalidade da pessoa. Mas há muito mais a se discutir a partir do que somos apresentados. Direção: Tim Wardle. Ano: 2018.

sábado, dezembro 15, 2018

CORAÇÃO SELVAGEM (Wild at Heart)

Rever CORAÇÃO SELVAGEM (1990) foi recordar o momento mágico de ter visto este filme no cinema pela primeira vez. Eu era um jovem cinéfilo e também bastante entusiasmado com aquela série fantástica que a Globo tentou estragar, TWIN PEAKS (1990-1991). O filme foi feito durante as gravações da série e por isso hoje eu tenho sentimentos mistos em relação a este longa-metragem. Por mais que a experiência de vê-lo tenha sido fascinante, o conceito de obra-prima lynchiana seria mudado pelo próprio David Lynch, que se superaria enormemente nos trabalhos seguintes.

Ainda assim, CORAÇÃO SELVAGEM deve ser visto com carinho, embora possa desagradar a quem o considere excessivo ou histérico. Também é um filme que prima mais pelo bizarro e pelo cômico do que pelo assustador, coisa que Lynch faria tão melhor, inclusive na série TWIN PEAKS. Aliás, há alguns atores e atrizes da série no elenco em participações muito bem-vindas: Grace Zabriskie, Sherilyn Fenn, David Patrick Kelly, Sheryl Lee e Jack Nance.

Lembro que a cena de Sailor (Nicolas Cage) matando um homem a porrada ao som de um rock bem pesado ("Slaughterhouse", de uma banda chamada Powermad) no começo do filme muito me impressionou. Lynch consegue fazer uma ligação muito estreita entre o rock contemporâneo e o rock e o estilo de vida dos anos 1950, tão queridos em sua obra (não à toa Sailor é fã do Elvis Presley e canta duas de suas canções no filme).

Mas uma coisa que eu não lembrava era o lado safado (no bom sentido) no filme. Impressionante como Lynch gosta dessas coisas. Aliás, mesmo no recente TWIN PEAKS - O RETORNO (2017) ele arrumou um jeito de colocar sexo na história. Aqui, o ponto alto da sensualidade vem de um flashback de Sailor. Ele conta para sua amada Lula (Laura Dern, em segunda colaboração com Lynch) uma de suas primeiras experiências sexuais. O detalhe de Sailor abordando a moça é que faz toda a diferença. Eu fiquei surpreso de ter esquecido dessa cena!

Também havia me esquecido da bela sequência que mostra Isabella Rossellini pela primeira vez em cena. Aquela imagem de Rossellini havia sido capa de uma revista SET, na época, no auge criativo e intelectual. A beleza está tanto em sua presença (de cabelo curto e loiro), mas principalmente na construção da direção de arte: ela sai de uma casa simples no meio do nada. Já a participação de Willem Dafoe como Bob Peru é memorável, difícil demais de ir para o arquivo morto da memória. Sua figura grotesca combina bastante com o tom caricato que Lynch pinta nesta sua obra, vencedora da Palma de Ouro em Cannes em 1990.

Outra coisa que dá para perceber em CORAÇÃO SELVAGEM é o quanto é mais um filme com episódios quase soltos do que uma narrativa que se sustenta por um fio condutor. Há várias subtramas que têm, cada uma, a sua força, havendo espaço para mais de dois, três ou mesmo quatro vilões.

É também um filme que soma à obra de Lynch o tema da perdição do herói ou da heroína. No caso, o herói (Sailor) consegue a sua redenção. Mas não sem antes ir ao inferno duas vezes. Por mais que tenhamos uma história que mostra alguém sendo perseguido por um mundo cercado pelo mal por todos os lados, uma característica de quase toda obra de Lynch, o tom é mais leve, graças a um final feliz. E às vezes um final feliz pode ser mais ousado do que um final sombrio e triste.

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INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (Don't Look Now)

Em homenagem a Nicolas Roeg, finalmente vi este clássico moderno. Acabei não entrando muito no clima, o que também aconteceu com o filme estrelado pelo David Bowie, mas é uma obra singular, com uma montagem bem própria, e um tipo de terror que parece muito distante do que se espera encontrar. Hoje em dia rotulariam como pós-horror. Ano: 1973.

PROCURA INSACIÁVEL (Taking Off)

O filme escolhido para homenagear a passagem de Milos Forman foi a sua estreia nos Estados Unidos. Dá para perceber seu apreço pela contracultura nesta comédia sobre pais em busca de filhos que desaparecem, e o medo de eles se desencaminharem com as drogas etc. As melhores cenas ficam para o final. E a cena da aula de como fumar maconha é sensacional. Ano: 1971.

LOUCURAS DE UMA PRIMAVERA (Milou en Mai)

Um dos filmes que mais transborda vida por todos os poros. E o engraçado é que ele começa a partir da morte da matriarca e de uma espécie de disputa pelos bens etc. Mas o que transforma aquela reunião de família e de agregados numa festa é o clima de maio de 68, que contamina até mesmo a região rural da França. Mágica pura! Direção: Louis Malle. Ano: 1990.

segunda-feira, dezembro 10, 2018

O BEIJO NO ASFALTO

Impressionante a capacidade do cinema (e das outras artes também, creio eu) de buscar algo tão próprio de um tempo, o Rio de Janeiro de 1961, época em que foi encenada a peça de Nelson Rodrigues, e transformá-la em um autêntico produto de nosso momento, do Brasil de hoje. A mesma peça já havia rendido dois longas-metragens para cinema, um em 1965, de Flávio Tambellini, e um outro mais famoso, provavelmente, dirigido por Bruno Barreto em 1981. Mas agora vivemos novos tempos. Tempos mais parecidos com uma distopia.

Por isso Murilo Benício, em sua estreia na direção, prefere adotar um tom mais sombrio, próximo do kafkiano, embora humor não falte, já que estamos falando de Nelson Rodrigues, mestre em saber explorar o lado podre da família, das pessoas, da sociedade brasileira em geral. Benício também resolveu brincar com a metalinguagem, de modo a trazer mais força e enfatizar o prestígio da peça, ao trazer todo o elenco em uma roda de leitura, também aberta para fazer observações sobre a obra, sobre o dramaturgo e sobre os personagens. Fernanda Montenegro é a que mais faz observações, até por ter vivido os tempos em que a peça se passa.

Na trama de O BEIJO NO ASFALTO (2018), já conhecida por muitos, um homem, Arandir (Lázaro Ramos), beija a boca de um homem que acabou de ser atropelado por um ônibus. Havia repórteres e testemunhas e o caso virou notícia de jornal. Uma notícia que virou a vida do pobre homem de cabeça para baixo. Afinal, ele, mesmo sendo casado, teria tido um caso com o tal homem morto? Era essa a pergunta que todos o faziam até o limite da exaustão.

A esposa, Selminha, vivida brilhantemente por Débora Falabella, apoia o marido, apesar de o pai (Stênio Garcia) sempre questioná-la sobre se ela o conhece de fato (o pai nunca chama Arandir por seu próprio nome, apenas "seu marido", "meu genro" etc.). O casal mora junto com a irmã mais jovem de Selminha, Dália (Luiza Tiso), que funciona como um elemento de atiçamento nas relações familiares.

A opção pelo preto e branco na fotografia acentua o tom sombrio de drama criminal e investigativo, mas principalmente na condução do espírito atormentado de um homem. Aliás, não só de um homem, já que outras pessoas também são conduzidas a esta teia de horror. Assim, nenhuma outra cena parece tão impactante quanto a de Selminha sendo interrogada pelo delegado (Augusto Madeira) e o repórter inescrupuloso (Otávio Müller). O texto de Nelson é tão forte que nem mesmo a revelação de uma quarta parede nos tira sua intensidade. Ao contrário, só mostra o quanto o texto do escritor é forte e o quanto foi acertada a direção de Benício. Lembrando também que Débora Falabella já havia feito muita gente se emocionar no cinema com um monónogo emocionante no melodrama O FILHO ETERNO, de Paulo Machline.

No mais, vale dizer que não é todo dia que vemos um ator se mostrar um diretor de mão cheia. O caminho que Benício traça aqui lembra o de Al Pacino, quando estrelou na direção com RICARDO III - UM ENSAIO. E se os falantes de língua inglesa têm Shakespeare, nós, brasileiros, temos Nelson Rodrigues. E isso não deixa de ser um baita motivo de orgulho.

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TUDO ACABA EM FESTA

Uma bobagem divertida. Lembra alguns filmes americanos sobre festas em empresas. Só que esse aqui parece mais amador, o que não necessariamente diminui a diversão. Marcos Veras está bem, mas gostei mesmo foi das moças, principalmente Giovanna Lancellotti, que nunca tinha visto no cinema, pelo que eu lembre. Simpatia de menina. Já Rosanne Mulholland me pareceu pouco aproveitada. Direção: André Pellentz. Ano: 2018.

O GRANDE CIRCO MÍSTICO

É o melhor filme de Cáca Diegues em muito tempo, mas isso não quer dizer muito, já que faz teeempo que ele não lança um filme decente. Este aqui me pegou positivamente pela viagem, embora eu ainda não saiba qual é o motivo final, sobre o que é o filme. Há quem diga que é sobre machismo ao longo das décadas. Tem uma relação com BYE BYE BRASIL. Gostei de muita coisa, na verdade. Mas o que é a Bruna Linzmeyer, hein? Hein? Meu Deus!! Fiquei em estado de graça. Ou sei lá que tipo de estado eu posso dizer que fiquei. Deu até para repensar a questão da nudez, que foi dita por Pedro Cardoso como algo que representa a nudez do intérprete e não do personagem. Mas que tal registrar em filme de alta qualidade, para ficar para a posteridade, a beleza de um corpo em seu auge? Direção: Carlos Diegues. Ano: 2018.

A VOZ DO SILÊNCIO

Terceiro filme de André Ristum que vejo e o terceiro de que não gosto. Esse aqui é ainda mais problemático pois é um filme-coral com histórias quase todas sem nenhuma dramaticidade eficiente. A história que quase comove é a da mãe-filho-avô, mas acaba chegando muito perto do fim. A atmosfera da solidão de São Paulo também não rende. E Marieta Severo, hein. Que papel ruim. Trata-se de uma coprodução Brasil/Argentina, com vários atores argentino em papéis importantes. Ano: 2018.

quinta-feira, novembro 08, 2018

VIDA DE SOLTEIRO (Singles)

Certos filmes precisam de um distanciamento temporal para que possam envelhecer bem. Como acontece com os discos. Na primeira vez que vi VIDA DE SOLTEIRO (1992), em VHS, não me empolguei muito. Mesmo já sendo um entusiasta da turma de Seattle, do grunge. Se bem que eu gostava bem mais do Nirvana do que de Alice in Chains, Pearl Jam e Soundgarden. E Nirvana não chega a tocar no filme. Em compensação, toca a linda “Drown”, dos Smashing Pumpkins, minha banda do coração número 1 daquela década de 90, que não é grunge, mas que havia alguma semelhança naquele primeiro momento.

Não que o longa-metragem que deu visibilidade a Cameron Crowe tenha se revelado uma pérola. Talvez o saudosismo,r em poder voltar àqueles tempos tenha me feito um pouco mais feliz nesses dias difíceis. Além do mais, as histórias de amor são boas. Ou ao menos uma delas é muito boa e envolvente, que é a história de Steve (Campbell Scott) e Linda (Kyra Sedgwick). A história deles dois lida muito com regras de namoro, sobre a maneira como o casal deve se comportar para ser mais feliz ou para fazer a relação dar certo. Por mais que as novas gerações posem de descomplicadas, isso ainda não mudou, gera identificação.

A outra história importante é a do casal Cliff (Matt Dillon) e Janet (Bridget Fonda). Ela é louca por ele, um vocalista de uma banda de garagem sem muito tutano. Ele infelizmente a esnoba, não lhe dá o devido valor. Aos poucos, ela percebe que precisa se desprender daquela relação. Dar amor sem receber em troca. E já até dá para imaginar o que acontece. Mas essa história, por mais que Bridget Fonda esteja apaixonante, acaba sendo pouco atraente, justamente por não ser aprofundada e também pelo fato de o personagem de Dillon ser um tanto bocó.

Uma coisa que nos deixa pensando ao ver agora à distância a carreira de Cameron Crowe é que é um cineasta que precisa muito de laços afetivos e da força da memória para que seus trabalhos sejam memoráveis. Como foi o caso de QUASE FAMOSOS (2000). Seus trabalhos que parecem ser de encomenda, por mais interessantes que sejam, como JERRY MAGUIRE – A GRANDE VIRADA (1996) e VANILLA SKY (2001), carecem de brilho e de amor. E nem falemos de seus últimos trabalhos para não dar vexame.

+ TRÊS FILMES

DO JEITO QUE ELAS GOSTAM (Book Club)

Um filme que eu vi com certa preguiça. Mas o elenco é de respeito e dá pra dar uma relevada em algumas coisas, se a intenção for ver uma comédia leve com atrizes na chamada "melhor idade". Diane Keaton continua sendo muito querida. E é a trama dela a mais interessante das quatro. Direção: Bill Holderman. Ano: 2018.

ANNA KARENINA – A HISTÓRIA DE VRONSKY (Anna Karenina. Istoriya Vronskogo)

É ruim não ter visto uma adaptação boa do romance clássico vinda da Rússia. As que eu gostei foram justamente em língua inglesa: a versão com a Greta Garbo e a com a Keira Knightley. Esta parece aqueles filmes do Hallmark, com a diferença que é um pouco mais classuda. Era para a personagem da Anna ficar insuportável de chata mesmo? Estava nos planos? É o tipo de filme em que a gente sente sempre vontade de mudar os rumos dos acontecimentos, para ver se dá jeito. Direção: Karen Shakhnazarov. Ano: 2017.

JULIET, NUA E CRUA (Juliet, Naked)

Só em ter visto em Miami já foi marcante, mas já era um filme que eu queria muito ver, pelo casal de protagonistas. Acho que Ethan Hawke é o ator com quem eu melhor me identifico, por ter mais ou menos a minha idade e ter no currículo filmes muito especiais pra mim. Já a Rose Byrne, é por ser encantadora mesmo. Há muito humor e sensibilidade nesta comédia romântica simples. O diretor é conhecido de quem acompanhou a série GIRLS. Direção: Jesse Peretz. Ano: 2018.

quarta-feira, novembro 07, 2018

A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting of Hill House)

Talvez o cineasta especializado no gênero horror mais brilhante da nova geração, levando em consideração a quantidade e a qualidade de seus trabalhos, Mike Flanagan encontra na minissérie (ou seria mesmo uma série?) A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (2018) o seu ponto alto, por mais que encontremos no desenvolvimento da narrativa, principalmente em sua conclusão, uma ou outra irregularidade. Mas é muito pouco mesmo diante de tanta segurança e tanta sensibilidade na condução da obra.

O traço de autoralidade de Flanagan se apresenta de maneira explícita em seu interesse por questões familiares, já presentes em filmes como O ESPELHO (2013), O SONO DA MORTE (2016) e JOGO PERIGOSO (2017), também uma produção da Netflix e talvez seu trabalho menos inspirado, mas, ainda assim, uma obra que, mesmo sabendo lidar com o medo muito bem, traz um debate sobre o abuso sexual infantil como principal elemento.

A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL impressiona por convidar o espectador para ver uma história de terror, mas que o segura mesmo pelo excelente roteiro que privilegia os dramas dos personagens, que são apresentados e aprofundados um a um ao longo dos episódios. Além de ter o mérito de conseguir lidar com tantos personagens, há duas ou três linhas temporais sendo contadas. Há a história no passado, ligada à tragédia e ao mistério que puseram fim à vida da matriarca da família (Carla Gugino), e há a história no presente, com todos os personagens já adultos.

Tanto os atores crianças quanto os mais jovens são muito bons. Especial destaque para Kate Siegel, atriz presente em vários trabalhos de Flanagan. Ela interpreta Theo, que desde criança percebe que tem uma sensibilidade nas mãos, é capaz de saber o que aconteceu apenas tocando em algo. Por isso usa sempre luvas. Ela também prefere evitar abraços ou aproximações físicas, o que prejudica sua vida íntima e a torna muito solitária.

Não é apenas Kate Siegel que apareceu em filmes de Flanagan. Henry Thomas e Carla Gugino, que interpretam os pais da família, estiveram em JOGO PERIGOSO; e Lulu Wilson e Elizabeth Reaser, a Shirley nos estágios criança e adulto, estão ambas em OUIJA – ORIGEM DO MAL (2016). Assim, o clima de familiaridade também se estende aos rostos dos atores e atrizes da série.

A trama, cheia de idas e vindas no tempo, mostra as consequências nas vidas de uma família depois de um evento sobrenatural ocorrido em uma casa mal assombrada, a Residência Hill do título. Assim, aos poucos vamos conhecendo os eventos a partir dos pontos de vista de cada um dos membros da família, até que o quebra-cabeças se solucione. Embora todos os episódios sejam muito bons, é possível destacar alguns dos mais impressionantes: “A Moça do Pescoço Torto”, que lida com o mistério da assombração que atormenta a caçula da família, Nell; e o episódio em que toda a família se reúne pouco antes do sepultamento da irmã, em uma noite tempestuosa. Esse possui um trabalho de câmera magnífico.

Se no ano passado, a melhor série da Netflix foi o thriller MINDHUNTER, neste ano o serviço de streaming surpreende com uma séria candidata a melhor série de horror já produzida.

+ TRÊS SÉRIES

BETTER CALL SAUL – QUARTA TEMPORADA (Better Call Saul – The Fourth Season)

E depois de três acertadas temporadas, a história de Jimmy McGill começa a desandar e a ficar desinteressante neste quarto ano. Uma pena. Ainda assim, a melhor coisa da série continua sendo Kim. As tramas envolvendo os traficantes começam a ficar chatas, mesmo tendo um personagem tão cativante quanto o Mike. Quem sabe se recupere na quinta, que parece será a última. Criadores: Vince Gilligan e Peter Gould.

OBJETOS CORTANTES (Sharp Objects)

Muito interessante o andamento lento de SHARP OBJECTS. Muitos chegaram a dizer que era uma série sobre nada. Mas creio que foi necessário. Esse tipo de andamento combina com o ar de falta de vontade de viver da personagem de Amy Adams, de volta à sua cidade natal para fazer uma matéria sobre um assassinato de uma garota. O final é surpreendente e mórbido o bastante pra gente respeitar a série. Sem falar que o trio de protagonistas, a mãe e as duas filhas, são excepcionais. Criador: Marti Noxon.

THE AFFAIR – QUARTA TEMPORADA (The Affair – The Fourth Season)

Depois de uma terceira temporada fraca, THE AFFAIR volta com força e trazendo desafios imensos para seus personagens. É tudo muito intenso: morte, gravidez, câncer terminal, reencontro familiar, crise matrimonial. Vida de adulto consegue ser pior do que só pagar boleto e controlar peso. Há uma grande surpresa que mexe muito com o espectador, mas não chega a ser tão traumático, como o que aconteceu com um dos protagonistas de A SETE PALMOS, por exemplo. Ainda assim, a série está mais caprichada nos textos e na sensibilidade com que lida com os personagens. Criadores: Hagai Levi e Sarah Treem.

quinta-feira, outubro 25, 2018

LEGALIZE JÁ - AMIZADE NUNCA MORRE


É raro uma cinebiografia acertar a mão. Muitas tentam dar conta da vida completa do artista ou da pessoa em questão e acabam por tornar tanto a narrativa quanto o personagem rasos. Não é o caso de LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE (2018), dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé, que faz um recorte destacando a amizade entre Marcelo D2 e Skunk, responsáveis pela criação de uma das bandas mais importantes do cenário brasileiro dos anos 1990, o Planet Hemp.

Bastava estar vivo naquela década para lembrar o que o rolava nas rádios e nas televisões: era o boom do pagode e do axé. O surgimento de novas bandas da turma de 94 foi crucial para dar uma oxigenada no rock daquele período, ainda que as bandas da década anterior ainda estivessem ativas e interessantes. Mas era preciso sangue novo e essa nova turma em geral soube lidar com a transgressão de maneira muito mais efetiva do que a turma anterior. Colocar a legalização da maconha como principal bandeira por si só já foi um trunfo. Mas o Planet Hemp tinha muito a oferecer no que se refere à qualidade de sua música.

Uma coisa que muita gente não sabia, inclusive eu, era a importância de Skunk para a criação do conceito da banda. Marcelo não acreditava em si mesmo, embora as letras tenham partido dele desde o começo. Skunk, soropositivo, tentou lidar com a doença até onde deu. Na época, os coquetéis para combater o avanço do HIV eram muito desconfortáveis e tinham efeitos colaterais bem desagradáveis.

LEGALIZE JÁ – AMIZADE NUNCA MORRE ganhou este subtítulo justamente por ser mais um filme de amizade do que um filme sobre criação musical. As linhas paralelas das vidas de Marcelo e Skunk, com Marcelo trabalhando de camelô vendendo camiseta de banda de rock na rua, e Skunk morando com um amigo argentino dono de um bar e com uma espécie de mini-estúdio caseiro, se cruzam em um momento em que o rapa aparece para desmontar as bancas de alguns vendedores de rua.

Chega a ser tocante ver a aproximação e a ótima química entre os dois, com Skunk sempre sendo o cara que motiva Marcelo a acreditar em si, em pensar grande com a ideia de montar uma das melhores bandas de rock do país. O filme tem uma pegada leve, apesar de haver aspectos dramáticos muito fortes devido às situações nada fáceis da vida de ambos, com cenas bem divertidas, como a da igreja ou a do guitarrista chegando ao estúdio. E há também os momentos musicais, que são de arrepiar. O que dizer da primeira vez em que ouvimos “Phunky Bhuda”? O que é esse riff de guitarra, essa energia?

Vale destacar aqui as excelentes performances dos atores. Tanto Renato Góes como Marcelo quanto Ícaro Silva como Skunk estão ótimos. Principalmente o segundo, que exala um carisma impressionante. Quanto ao um dos diretores, Johnny Araújo já havia se mostrado muito interessado em rock desde seu debute, com O MAGNATA (2007), com roteiro de Chorão e participação do Marcelo Nova, e DEPOIS DE TUDO (2015), uma espécie de ode à canção “Soldados”, da Legião Urbana.

+ TRÊS FILMES

A FÁBRICA DE NADA

Coragem do pessoal do Dragão de exibir um filme tão pouco usual e com uma duração até que bem longa. A FÁBRICA DE NADA dialoga com o nosso ARÁBIA, sobre a questão do trabalho e do capitalismo, mas é um bocado mais teórico. Olhei para os relógios várias vezes, mas acho que meu mal era a fome, já que fiz dobradinha com o uruguaio UMA NOITE DE 12 ANOS . Direção: Pedro Pinho. Ano: 2017.

DJON ÁFRICA

Acho excelente a primeira metade: passa um prazer grande dentro do subgênero road movie, por mais que adote um registro realista e quase documental, com uso de não-atores. Acho que lá pelo meio dá impressão de que os diretores não sabiam o que fazer com o personagem, ou não souberam como terminar sua história. Eu teria que pegar umas entrevistas e saber mais sobre o processo criativo e os rumos do projeto para saber o que aconteceu. De todo modo, é quase uma passagem de ida e volta para Cabo Verde. E custa baratinho, hein. Direção: João Miller Guerra e Filipa Reis. Ano: 2018.

10 SEGUNDOS PARA VENCER

já fizeram tantos filmes de boxe que muitas vezes esta cinebiografia do Éder Jofre parece imitar ROCKY, UM LUTADOR sem querer disfarçar. Ou outro parecido. Só que as cenas de luta são chatas e as de preparação também. O que mais conta mesmo é a relação pai e filho e a problematização quanto à questão de ser um campeão, o significado disso. Direção: José Alvarenga Jr. Ano: 2018.

quinta-feira, outubro 04, 2018

FERRUGEM

A carreira de Aly Muritiba, nascido no interior da Bahia, é bastante curiosa. Diretor interessado na temática do presídio, até por ter trabalhado como agente penitenciário por sete anos, chegou a ganhar visibilidade nos festivais com a maneira pungente com que tratava aquele ambiente e as pessoas que lá trabalhavam, cumpriam pena ou as que visitavam os presos, como no curta A FÁBRICA (2011). Mas a virada na carreira de Muritiba se deu mais recentemente, quando ele mudou o foco de suas atenções, a partir do thriller PARA MINHA AMADA MORTA (2015) e do horror TARÂNTULA (2015).

Se em PARA MINHA AMADA MORTA o conteúdo de um vídeo seria o catalisador do destino do protagonista – ele descobre que sua esposa falecida tinha um caso com outro homem através de uma fita VHS -, no novo FERRUGEM (2018) é também um vídeo o responsável pelo estrago que acontece na vida dos dois protagonistas.

O vídeo em questão foi filmado com câmera de celular e mostra um momento de intimidade entre dois adolescentes colegiais. A primeira parte do filme foca em Tati (Tiffany Dopke), que terminou um namoro recentemente e começa a conversar com um rapaz mais tímido e arredio, Renet (Giovanni de Lorenzi). O filme parece dar a impressão de que a partir da conversa que os dois têm vai surgir uma história de amor, mas a garota fica logo assustada quando seu aparelho celular desaparece.

No entanto, isso não é nada perto do que se transformará a sua vida no dia seguinte, ao saber que o vídeo íntimo presente no celular foi viralizado e ela passa a ser vista por toda a escola como vadia ou algo parecido. Ao abordar em especial esta parte do filme, Muritiba deixa bem claro o modo diferente com que o vídeo atinge os presentes: o ex-namorado de Tati leva tudo na brincadeira. Para ela, porém, o vídeo representa um pesadelo insuportável.

Acabei lembrando do que uma professora amiga minha falou sobre a necessidade de as mulheres se unirem para ajudar a desestruturar a sociedade machista instituída e principal motor para tragédias como a mostrada no filme. Afinal, na trama, as próprias garotas se afastam de Tati, a família é ausente em apoio e as famílias das colegas incentivam o afastamento de suas filhas dessa menina de comportamento impróprio. Hipocrisia e falta de empatia imperam.

A segunda parte do filme, mais longa, mais angustiante e mais contemplativa, lança seus holofotes para Renet, o jovem com quem Tati havia conversado na primeira parte. O papel do pai de Renet, vivido pelo excelente Enrique Diaz, ganha mais força nesta segunda parte, enfatizando o aspecto. A história dessa vez se passa em uma cidade litorânea, e há a importante visita da mãe até então ausente de Renet, que aparece grávida.

Essa questão da gravidez da mãe e o fato de ela ter abandonado os filhos para viver a sua vida não é algo visto com bons olhos por Renet. Ao contrário, o rapaz evita atender os telefonemas da mãe ou qualquer contato com ela. Eis mais um elemento importante para dar pano para a manga no que se refere à maior cobrança das mulheres na sociedade machista, que vive em um momento de crescimento com a onda conservadora, na contramão de uma linha mais progressista que vinha até então se formando.

FERRUGEM pode não ser o tipo de filme que agrada imediatamente durante a metragem, mas que aos poucos vai ganhando força na memória afetiva, tanto pela beleza da construção das cenas, quanto pelas discussões que levanta.

+ TRÊS FILMES

O NOME DA MORTE

Um filme herdeiro de um tipo de cinema que se fazia muito bem no Brasil dos anos 1970. Uma pena que deve acabar sendo visto por poucas pessoas, pois tem uma narrativa muito enxuta e fluida e um veneno bem próprio nascido do drama do personagem pistoleiro. O título internacional do filme é 492, o número de mortes do protagonista. Baseado em uma história real. Direção: Henrique Goldman. Ano: 2017.

ALGUMA COISA ASSIM

Acho o curta mais redondinho e mais bem resolvido, mas o longa traz mais coisas para a discussão, como a questão do aborto. A brincadeira com os três tempos também ficou boa, ainda que não tão boa quanto gostaríamos. O problema do filme talvez seja o personagem masculino, já que Caroline Abras arrasa de novo. Nos três tempos. Direção: Esmir Filho e Mariana Bastos. Ano: 2017.

A DESTRUIÇÃO DE BERNADET

Considerado por muitos como o maior crítico de cinema do Brasil, Jean Claude Bernadet ganha aqui mais um filme em torno de si. Provavelmente o mais importante, no sentido de ser um longa-metragem sobre ele, mas também sabendo brincar com a ficção, com a performance. Achei o monólogo final um pouco cansativo, mas talvez esteja ali muito do significado do filme. Por isso é importante prestar bem atenção. Direção: Claudia Priscilla e Pedro Marques. Ano: 2016.

quarta-feira, outubro 03, 2018

UMA NOITE DE 12 ANOS (La Noche de 12 Años)

Nós, brasileiros, estamos vivendo um dos momentos mais perigosos de nossa História, com a possibilidade de eleição de um candidato à presidência que flerta com a ditadura militar e com os torturadores, tendo deixado isso bem claro em diversas declarações. Por isso que a primeira coisa que eu pensei ao sair da sessão de UMA NOITE DE 12 ANOS (2018), de Álvaro Brechner, foi: este filme deveria passar numa Tela Quente da vida, para que a maior quantidade possível de brasileiros pudesse assistir. É lamentável que ele fique relegado ao pequeno circuito, um espaço que costuma já ser frequentado por pessoas de linha progressista.

O filme conta uma história que foi repetida em quase todos os países da América Latina: o surgimento de ditaduras militares nos anos 1960 e 1970, patrocinadas pelo governo americano, com medo de uma possível transformação desses países em repúblicas comunistas. Os tempos eram outros, mas atualmente a falta de noção domina e o velho discurso anticomunista volta à tona com a ascensão da extrema direita no mundo.

Por isso a urgência de uma obra como UMA NOITE DE 12 ANOS, desde já candidato do Uruguai ao Oscar de filme estrangeiro. Muito do interesse do filme se dá pela presença de um personagem muito importante e querido dos sistemas democráticos recentes, José Mujica, ex-presidente do Uruguai. Ele e mais dois amigos foram presos e torturados durante 12 anos e o filme acompanha esse processo com muita desenvoltura narrativa. Não que seja um filme novo do ponto de vista formal. É até bastante tradicional. Mas isso é até positivo, para alcançar um público maior.

Na trama, Mujica, (Antonio de la Torre), o poeta Mauricio Rosencof (Chino Darin) e o político e jornalista Eleutério Fernández Huidobro (Alfonso Tort) passam por várias prisões diferentes ao longo dos anos, impossibilitados de se comunicar um com o outro ou com qualquer outra pessoa. São tratados como se fossem elementos extremamente perigosos para o sistema implantado. Uma vez que o ódio aos comunistas era comum entre os militares, o tratamento que eles recebiam era proporcional a esse ódio.

A cada contagem dos dias e da mudança dos espaços, sentimos a perda da esperança daqueles homens. Dos três, Mujica foi o que mais se aproximou de enlouquecer, já que não obteve um elo de comunicação como os dois outros conseguiram em determinado momento, através de batidas na parede, criando códigos. Para não ficar tão carregado de tragédia, Brechner até traz um pouco de humor, embora o riso surja às vezes do ridículo da situação, como na cena em que um dos prisioneiros está algemado e não consegue sentar na privada para defecar. Os militares imbecis não conseguem tomar uma decisão sem perguntar a seus superiores.

Rosencof até conquistou a simpatia de um sargento ao ajudá-lo a conquistar a mulher que ele desejava, através da escrita de cartas. São esses talvez os momentos mais leves do filme, cujo tom é de uma escuridão tão penetrante que até sentimos uma diferença enorme na fotografia sempre que vemos as poucas imagens de exteriores. Há uma cena em que um deles pede para que lhe tire por favor as vendas, de modo que ele possa pelo menos olhar para o céu por um minuto.

À medida que o tempo da ditadura se aproxima do fim, a partir de um plebiscito, assim como aconteceu também no Chile, vamos ganhando um pouco mais de alegria e esperança, embora esse sentimento mais positivo seja nublado pelo fato de que os 12 anos que aqueles homens perderam na prisão jamais serão recuperados novamente. Ainda assim, não deixa de haver um sentimento agridoce de vitória, principalmente quando lemos sobre os destinos desses três homens no campo da política e das artes. Mas, como o tempo é cíclico, a luta continua. As ameaças também.

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Z

O começo do filme é confuso pra caramba, mas depois, com as investigações, tudo passa a fazer mais sentido. O tom de confusão do começo era pra ser mesmo. Era o tom da França em 1968. E o filme se parece demais com o mundo de hoje. Inclusive com o Brasil de hoje. Impressionante. Direção: Costa-Gavras. Ano: 1969.

CAMOCIM

Da série de documentários que se constroem como dramas e que têm enriquecido o cinema brasileiro contemporâneo, CAMOCIM tem sua urgência, pois apresenta a imagem do Brasil dividido a partir das eleições municipais de uma pequenas cidade de Pernambuco. Ótima a protagonista, cabo eleitoral de um vereador. Bom também ver o ridículo de ambos os lados e o quanto o povo vira fantoche fácil dos políticos. Direção: Quentin Delaroche. Ano: 2017.

UMA QUESTÃO PESSOAL (Una Questione Privata)

Fui com muito interesse e muita boa vontade ver o último filme dos irmãos Taviani, mas infelizmente achei muito difícil de me sensibilizar ou mesmo de me envolver com a obra. Até fico me perguntando novamente se é uma espécie de mal do cinema italiano contemporâneo. Este filme em particular tem o problema de não trazer envolvimento emocional nas cenas de flashback do protagonista com a garota que ele ama. Acerta um pouco no que há de maior, que é a questão da guerra, enquanto ele passa por essa busca interior. Direção: Paolo Taviani. Ano: 2017.

quarta-feira, setembro 12, 2018

VIAGEM A FLÓRIDA

São tempos estranhos esses. Em 2015, quando fui aos Estados Unidos pela primeira vez, o cenário político-econômico brasileiro também estava muito ruim. Mas, desta vez, está tudo tão pior que dá até um sentimento de culpa de estar viajando para um lugar em que reina a prosperidade, enquanto o Brasil está passando por uma crise gigante. E também mexeu muito comigo o fato de o meu melhor amigo ter sido demitido e estar passando pelo que talvez seja a fase mais difícil de sua vida, em praticamente todos os aspectos, enfatizando agora a questão financeira.

Não teria feito a viagem se não fosse o convite tentador de meu cunhado Wandré, que utilizou suas milhas e chamou a mim e a minha irmã mais velha, a Ilinha, para viajarmos com ele e a Adaila para Orlando e Miami. A Ilinha, ainda por cima, conseguiu uma casa nota 10 lá em Orlando, com uma de suas clientes. A casa estaria garantida, de graça, durante o período, segundo a proprietária. Acontece que o visto da Ilinha foi recusado pela embaixada americana e tivemos que pagar o aluguel da casa, ainda assim muito mais baixo que as diárias em um hotel.

A intenção principal da viagem de Wandré e Adaila: comprar o enxoval do meu sobrinho que virá daqui a alguns meses. A presença da Ilinha seria ideal para que me acompanhasse durante os momentos de compras nas lojas de bebê, que renderiam várias horas. Sem a Ilinha, acabei desperdiçando algumas horas que poderia usar para mim, por não me organizar direito e também pelo fato de Orlando ser uma cidade com poucas opções além dos parques. Todos os estabelecimentos comerciais são distantes um do outro. Ainda assim, fiquei mais feliz que pinto no lixo quando adentrei a Barnes and Noble de lá, mesmo sendo tão menor que a de Los Angeles, que ainda tinha um departamento de música. Ao menos pude comprar umas revistas de cinema e uns livros e ficar algumas horas por lá.

Quanto aos parques, o que eu havia escolhido para conhecer acabou sendo o mais acertado, dentre os dois que visitamos. Wandré e Adaila já conheciam quase todos os outros. A minha preferência pelo Epcot foi pela parte dedicada à culinária de vários lugares do mundo, com a possibilidade de se deliciar com diferentes pratos, mas também de conhecer a parte futurista e tecnológica. Dois momentos marcantes dessa parte: o primeiro foi um brinquedo que nos leva em poucos minutos até Marte, com uma passada pela Lua. Que baita simulação. Confesso que gelei, saí de lá tremendo na base, mas ao mesmo tempo bastante impressionado com a perfeição da coisa. Principalmente na hora em que somos arremessados da Terra para a Lua. Só de lembrar já dá um frio na barriga. O outro brinquedo fantástico do parque é um passeio em que somos apresentados à evolução tecnológica do ser humano, desde a antiguidade até os dias de hoje. Este brinquedo fica exatamente dentro do globo branco que serve como cartão postal do parque. Antológico. Se eu for novamente a Orlando, vou querer ir lá nesse parque de novo.

Já o outro parque, o Animal Kingdom, não me conquistou, embora seja sim bem curioso, com a parte dos animais sendo vistos ao vivo. Porém, depois de eu ir a um brinquedo meio tosco que simula ataques de dinossauros e faz o carrinho balançar, fiquei até com medo de ir ao tal brinquedo do Avatar. Amarelei. E saímos do parque mais cedo do que o previsto para conhecer outras coisas de Orlando. Foi quando eu fui até a Barnes and Noble, enquanto o meu casal favorito fazia mais compras. Acabou sendo positivo e produtivo para todos.

Assim como foram muito positivos cada momento em que sentávamos para comer e conversar. Adoro comer e acho que restaurantes e lanchonetes são coisas essenciais em viagens. Como comíamos muito tarde, as visitas ao McDonald's e ao Burger King foram costumeiras. Por outro lado, foi uma beleza poder conhecer um restaurante de massas tão bom quanto o Olive Garden.

Apesar de ter curtido os momentos em Orlando, já estava ansioso pelos dias finais em Miami, por ser uma cidade gigante, com mais coisas para conhecer. Acontece que Miami também é uma cidade que não tem metrô e isso dificulta a vida de quem está a pé. Mas ainda assim fiquei fascinado por sua beleza. Ficamos no 18º andar de um edifício cuja janela dava para ver uma paisagem linda da cidade, tanto à noite quanto de dia. Lá na praia, em Miami Beach, tirei umas fotos lindonas também, mesmo em um dia com oscilações de sol e chuva. Lá nesse momento foi quando eu estava mais tranquilo e em paz comigo mesmo, com a companhia que tinha e aquele mar e aquele céu lindo.

No primeiro dia (ou melhor, à noite), fizemos um passeio tradicional em um Big Bus, só para dar uma geral pela cidade. O sujeito que apresentava a cidade no ônibus ficava imitando o Al Pacino em SCARFACE o tempo inteiro e fazendo graça com os passageiros. Depois comemos no Hard Rock Café lá de Miami Beach. Foi a minha primeira vez comendo lá e achei uma delícia o sanduíche gigante e também adorei o atendimento. Em Nova York, em 2015, apenas passei rapidamente para conhecer a área interna do lugar, mas desta vez pude saborear a comida.

No dia seguinte, já era o último dia da viagem, mas tínhamos um bom tempo ainda para curtir a cidade. Fomos ao maior shopping center da cidade, o Aventura. A ideia de ir ao shopping foi minha, já que não tinha outra ideia mesmo. Além do mais, tive a sorte de conhecer o maior multiplex que já vi, um que tem 24 salas de cinema. Vi lá JULIET, NAKED, de Jesse Peretz. O filme eu vi com muito prazer, tanto pela presença de Ethan Hawke, quanto pela beleza de Rose Byrne. Hawke talvez seja o ator que mais entra em sintonia comigo: tem mais ou menos a minha idade e está presente em pelo menos três dos filmes mais importantes da minha vida.

Entre os demais momentos agradáveis da viagem, as várias passagens de madrugada pelo Walmart foram marcantes, com aquela imensidão de produtos e aquela calmaria da madrugada. A casa de Orlando era tão boa que dava até pena de só estar lá para dormir. A cama, então, era uma delícia. Dava vontade de ficar muito tempo dormindo. Desconfortáveis mesmos só os voos, mas nem dá para reclamar muito, já que o avião é o meio mais rápido para chegar aos lugares. Foi bom voltar para casa, mesmo com uns quilos a mais depois de tanta junk food, mas depois de alguns dias já comecei a sentir saudade da lá de novo. Deve ser por isso que tantas pessoas são viciadas em viagens. Elas nos mudam internamente, trazem alegria para nossas vidas, ampliam nossos horizontes. Preciso fazer mais viagens. Seja só ou acompanhado. No Brasil ou no exterior.

quarta-feira, agosto 29, 2018

CAFÉ COM CANELA


Impressionante como um filme consegue ser ao mesmo tempo experimental em sua linguagem e tão popular, tão capaz de falar ao grande público. CAFÉ COM CANELA (2017), o premiado trabalho de Glenda Nicácio e Ary Rosa, que também nos apresenta a uma baianidade muito gostosa, traz duas histórias paralelas: a de duas mulheres negras e de diferentes idades e situações.

A jovem Violeta (Aline Brunne, encantadora) ganha a vida vendendo coxinhas e cuidando da avó muito velhinha e acamada, além de também cuidar com muita alegria e amor do marido, dos filhos e dos amigos. A outra linha paralela mostra um cenário mais sombrio, o de Margarida (Valdinéia Soriano), uma mulher que vive presa na própria casa, pela depressão causada pela perda do filho pequeno.

O contraste das duas vidas é bem explícito e é natural sentirmos certo mal estar quando estamos na casa de Margarida, tão triste e tão abandonada. Mais do que isso: um lugar assombrado. Por isso o gosto pela vida de Violeta nos pega tão fortemente: que lindo que é vê-la cantando para a avó doente e que só se comunica pelos olhos e pelo sorriso. Ela canta com muito carinho, dá-lhe massagens nas mãos. Claro que nem tudo são flores e Violeta testemunha também a triste partida de um de seus vizinhos em outra passagem muito emocionante e também cheia de amor.

Há algumas cenas que se destacam e que, ao serem lembradas, falam forte ao coração: uma cena muito simples e que pode ser vista como apenas um detalhe, envolvendo o cachorro e a avó de Violeta; o cantar de um dos personagens coadjuvantes em uma razão de aspecto diferente (uma dentre três diferentes); a descrição antecipada e triste da perda de um grande amor do personagem de Babu Santana; e a cena da bicicleta. Meus Deus, o que dizer da cena da bicicleta, como se não algo tão capaz de encher nossos corações de amor?

E no meio de tudo isso, no meio de uma celebração da vida como poucos filmes são capazes, ainda temos um quase monólogo fantástico de Margarida sobre a magia do cinema. Sim, a vida pode ser maravilhosa, mas o cinema é fantástico. Há até uma brincadeira com a quebra da quarta parede. Além do mais, é um filme inteiramente feito com atores e atrizes negros, grande maioria da população da Bahia. No caso, as cenas de CAFÉ COM CANELA se passam no Recôncavo Baiano.

Há ainda espaço para a celebração da riqueza da cultura afrobrasileira. Mas o que conta mesmo nem são esses detalhes - se é que podemos chamar de detalhes, inclusive os formais -, mas o quanto o filme mexe com as emoções da audiência. Um presente que se não tomarmos cuidado pode passar desapercebido, como tantas outras joias recentes do nosso cinema.

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UNICÓRNIO

É até interessante de ver, mas impressionante como cansa, mesmo com toda a beleza e a linda fotografia em ultrascope. O diretor quer passar sensações e sentimentos através da imagem, mas não consegue, como nas cenas das angústias da garota no bosque. Mas curiosamente gosto da parte final, que lembra uma fábula. Pena que demora demais a chegar lá. Patrícia Pillar continua linda. Direção: Eduardo Nunes. Ano: 2017.

HILDA HILST PEDE CONTATO

Gosto bem mais da primeira parte do filme, que nos faz quase tão ávidos de boa literatura quanto a própria Hilda, além de ser mais interessante na questão da busca angustiante da escritora por vida além do plano terreno. É um filme bem singular. E a diretora tem um cuidado todo especial com os planos. Faz bem ver. Direção: Gabriela Greeb. Ano: 2017.

UMA QUASE DUPLA

É um filme que deve muito à Tatá Werneck a força que tem, ainda que não seja muita. Cauã está quase como um escada na dupla. É Tatá que fornece os momentos mais engraçados e memoráveis do filme. Que poderia ser menor e mais redondo. Faltou ao diretor timing para dominar a narrativa. Ainda assim é divertido e relaxante. Direção: Marcus Baldini. Ano: 2018.

quinta-feira, agosto 23, 2018

À SOMBRA DE DUAS MULHERES (L'Ombre des Femmes)


Grandes histórias de relacionamentos amorosos nem sempre precisam de trilhas sonoras grandiloquentes, atores com padrão Oscar de qualidade ou um tipo de direção cheia de virtuosismos. O que o veterano cineasta Philippe Garrel entrega em À SOMBRA DE DUAS MULHERES (2015) é justamente o contrário disso. E o que nos impressiona é o tanto de sensibilidade que ele é capaz de oferecer com textos aparentemente econômicos. Vale lembrar que o roteirista Jean-Claude Carrière, celebrado principalmente por sua parceria com Luis Buñuel, está entre os responsáveis pela construção dos diálogos naturalistas e tão capazes de nos envolver.

Na trama, acompanhamos a rotina de um casal de documentaristas, vividos por Stanislas Merhar e Clotilde Courau. Eles são, respectivamente, Pierre e Manon, um casal que já passou da fase da paixão e agora vive uma relação mais estável e de certa maneira monótona. O que faz com que Pierre acabe se interessando por outra mulher, Elisabeth (Lena Paugam), que preenche essa lacuna do desejo sexual que estava ausente na relação com Manon.

Elisabeth sabe que Pierre é casado, mas ainda tem esperança de que ele largue a esposa para ficar com ela. Uma oportunidade chega quando Elisabeth flagra Manon com outro homem em um encontro às escondidas. Ou seja, o que parecia apenas um triângulo amoroso em que só uma pessoa era a traída acaba se revelando uma espécie de quadrado de traições. Sem conseguir guardar essa informação por muito tempo, em um dos dias de crise entre os amantes, Elisabeth conta a Pierre do affair de sua mulher. A revelação cai como uma bomba.

Por mais que Pierre não tenha muita razão para reclamar da esposa - seria o sujo falando do mal lavado - não é assim que ele age. Há uma tradição machista já há muito enraizada de que se for o homem o traidor, tudo bem, já quando é a mulher... Assim, ele culpa Manon a ponto de a relação entrar em colapso, já que Pierre tem dificuldade em perdoar a mulher. Todo esse mal estar do casal é também sentido pela audiência, remetendo a um dos melhores trabalhos de François Truffaut, DOMICÍLIO CONJUGAL, que também trata da questão da infidelidade.

Ainda assim, o filme de Garrel mais lembra as cirandas de amor e desamor e os contos de natureza moral de Eric Rohmer, o que só torna a experiência de ver À SOMBRA DE DUAS MULHERES uma joia para os espectadores dos dias atuais, carentes de diretores que explorem tão bem tais questões. Aliás, por mais que possamos lembrar também do sul-coreano Hong Sang-soo nesse debate, são os franceses que aparentemente parecem ter mais expertise no assunto. Só lembrar de CIÚME – O INFERNO DO AMOR POSSESSIVO, em que Claude Chabrol destrincha a mente perturbada de um homem atormentado pelo medo e insegurança de perder a bela mulher.

O que Garrel faz, porém, é fugir do registro over da dramaticidade e apontar para um caminho mais sutil, e talvez por isso mesmo capaz de despertar as emoções dos espectadores que provavelmente já viveram situações parecidas com aquelas dos personagens. Além do mais, o filme nos presenteia com a atuação sublime de Clotilde Courau, que faz a esposa traída e em busca também de prazer, fora de um casamento em que ela se sente infeliz pelo desinteresse do homem que ama.

Acompanhar seus dramas é uma tarefa tão dolorosa quanto deliciosa, já que a precisão da direção, da atuação, dos diálogos, da linda fotografia em preto e branco contribui para uma das mais pungentes experiências emocionais na sala escura dos últimos anos.

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NOS VEMOS NO PARAÍSO (Au Revoir Là-haut)

Um filme que tem seus momentos, e que se destaca pela bela produção, pelas imagens. Queria mais cenas das trincheiras, mas o filme trata de outra coisa: a relação de amizade entre dois homens depois de uma situação na Primeira Guerra. Há um problema de música demais, de personagens pouco carismáticos, e isso complica um bocado. Direção: Albert Dupontel. Ano: 2017. 

PROMESSA AO AMANHECER (La Promesse de l'Aube)

Taí um filme que poderia não existir. Não que seja de todo ruim, mas é muito chato, muito aborrecido. A aventura do protagonista só falta não acabar mais. Há coisas interessantes, já que poucos filmes falam de uma figura materna tão presente, mas a trama se perde e se arrasta, mesmo tendo seus momentos. A mesma história foi filmada por Jules Dassin em 1970. Certamente deve ser muito melhor. Direção: Éric Barbier. Ano: 2017.

MARVIN (Marvin ou la Belle Éducation)

Anne Fontaine tem feito filmes bem diferentes, mas tenho gostado de todos os trabalhos dela. Este aqui trata com delicadeza da história de um rapaz que viveu a dificuldade de ser gay numa sociedade machista e que agora tem a chance de falar sobre isso em seu trabalho como ator e dramaturgo. Gosto do jeito como a diretora se arrisca e deixa o filme respirar. Muito bom o ator que faz o personagem criança também. Direção: Anne Fontaine. Ano: 2017.

domingo, agosto 19, 2018

DISTÚRBIO (Unsane)

Apesar da irregularidade e de parecer não haver tantos pontos claros em comum para uma análise de sua autoralidade, seja do ponto de vista temático, seja do formal, a carreira de Steven Soderbergh é uma das mais interessantes dentre os cineastas surgidos do cenário indie nos últimos 30 anos. Trata-se de um diretor que se mostrou interessado nos mais diversos assuntos, sendo suas obsessões bastante fragmentadas.

Surgir com uma história sobre um homem com dificuldades de se relacionar sexualmente com as mulhres (SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, 1989), para depois brincar com uma história envolvendo um célebre escritor tcheco (KAFKA, 1991) e depois partir para um drama mais convencional (O INVENTOR DE ILUSÕES, 1993) e embarcar depois de um tempo dentro de um cinema mais comercial, por assim dizer, fazer esse trânsito com frequência e ainda seguir sendo um caso interessante não é para qualquer um.

DISTÚRBIO (2018) é o segundo filme para cinema de Soderbergh depois de uma anunciada aposentadoria que não se concretizou. O anterior foi a divertida comédia LOGAN LUCKY – ROUBO EM FAMÍLIA (2017), que volta ao tema do roubo inteligente, celebrado em ONZE HOMENS E UM SEGREDO (2001). Em DISTÚRBIO o diretor volta a outro tema que lhe interessa: a questão da sanidade mental, abordada em um registro mais dramático em TERAPIA DE RISCO (2013). No novo trabalho, temos um suspense bem eficiente.

Na trama, Claire Foy é Sawyer Valentini, uma jovem mulher que sofre de uma fobia que só aos poucos vai sendo descortinada. Ela mora em uma cidade distante de sua família, a fim de fugir de um homem obcecado. Certo dia, após uma consulta com uma psicóloga, ela acaba assinando papéis em que concorda em ficar detida em um sanatório por um determinado período de tempo. Ao chegar lá, afirma que um dos funcionários é o tal homem que a persegue. Demora um pouco para sabermos se o que ela diz é fruto de sua imaginação ou algo real. Até então, a personagem segue em uma espiral de medo e perturbação que é acentuada por imagens às vezes desfocadas, às vezes em enquadramentos pouco usuais, filmadas em uma câmera de um iPhone 7 Plus.

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TERROR CEGO (See No Evil)


Preciso conhecer mais o trabalho de Fleischer. Este TERROR CEGO é brilhante. A pobre da Mia Farrow faz um trabalho excepcional, inclusive físico, no papel de uma mulher cega e sozinha fugindo de um assassino. Já vi filme parecido, mas este talvez seja o melhor. Direção: Richard Fleischer. Ano: 1971.

HANNAH

Achei muito bom como um exercício de seguir uma personagem prestes a desabar. Mas o filme não me pegou, não me senti tocado pela personagem. Talvez por não haver uma maior clareza sobre o que de fato estava acontecendo entre ela e o filho e o que aconteceu com o marido. É muita responsabilidade nos ombros da Charlotte Rampling. Direção: Andrea Pallaoro. Ano: 2017.

RÉQUIEM PARA A SRA. J. (Rekvijem za Gospodju J)

Um interessante retrato da Sérvia, que ainda é uma nação em ruínas, pela visão de uma senhora com depressão e que planeja a própria morte. Pena que eu não me envolvi seu drama e achei mais interessante do ponto de vista formal apenas. Dá pra imaginar o Brasil com mais um ano de governo Temer vendo o filme. Direção: Bojan Vuletic. Ano: 2015.

quinta-feira, agosto 09, 2018

BAIXO GÁVEA

Ah se todos os filmes brasileiros que quiséssemos ver estivessem tão facilmente à mão. Com o cinema estrangeiro, principalmente o americano, tudo é tão mais simples. Ainda assim, não devemos reclamar tanto assim. Há meios para conseguir certas preciosidades que nem sequer estavam na lista de prioridades até pouco tempo atrás. É o caso de BAIXO GÁVEA (1986), de Haroldo Marinho Barbosa, que esteve entre os títulos que ganharam uma remasterização decente do Canal Brasil e que pode ser encontrado no mundo abençoado dos sites de compartilhamento também.

O meu interesse pelo filme aumentou depois que li o delicioso texto de Andrea Ormond publicado no livro Ensaios de Cinema Brasileiro – Os Anos 1980 e 1990. Vale dizer que cada texto deste livro nos faz querer ver o filme em questão imediatamente. Mesmo quando a autora diz que o filme tem problemas sérios. Vale dizer que não é o caso de BAIXO GÁVEA, que mesmo tendo uma cena de estupro muito mal encenada, nem isso chega a macular a beleza desta pequena pérola.

O filme trata da amizade de duas jovens mulheres que dividem o mesmo apartamento. Lucélia Santos (adorável!) é Clara, diretora de teatro; Louise Cardoso é Ana, atriz que está atuando no papel do poeta português Mário de Sá Carneiro em peça dirigida pela amiga sobre a vida de Fernando Pessoa. Só o fato de termos um filme que aborda a vida trágica do maior poeta da língua portuguesa já chama a atenção. E há várias cenas que se passam no teatro, nos ensaios.

Mas o que mais ganha o espectador mesmo é a vida real e contemporânea das duas amigas, principalmente de Clara, uma mulher em busca de amor e que acaba não tendo muita sorte com seus parceiros. No começo do filme ela amanhece na casa de um completo estranho, fruto de uma aventura regada a álcool na noite anterior. Sai de lá, um tanto aflita, direto para o trabalho, o teatro. Depois sabemos que Ana, apesar de amiga exemplar, tem uma queda pela amiga dramaturga e de vez em quando brinca, querendo levá-la para a cama. Como não há interesse mútuo, as duas compartilham diferentes tipos de solidão.

Essa busca de Clara por um amor lembra, inclusive, o recente DEIXE A LUZ DO SOL ENTRAR, de Claire Denis, que traz Juliette Binoche no papel de uma mulher com fome de amor. Em uma de suas investidas, Clara encontra com um homem muito estranho, que a leva para seu apartamento. O tal homem é vivido por José Wilker, em participação especial, e em registro que une o cômico com o assustador.

BAIXO GÁVEA também tem o sabor de uma deliciosa máquina do tempo que nos leva para o Rio de Janeiro da década de 1980. Basta lembrar da cena em que Ana sai para dar uma passeada pelos bares do bairro, em busca de uma “gatinha”. Como é um filme mais de personagens e atmosferas do que de plot, o trabalho de Haroldo Marinho Barbosa tem um ritmo cadenciado, que não tem pressa em chegar a lugar algum, mas que ainda assim nos traz um misto de excitação e desespero, o que só prova que estamos diante de uma obra que fala às nossas almas por caminhos misteriosos. E que ainda dialoga com o teatro e a poesia de maneira muito bela, trazendo ainda um dos finais mais lindamente amargos do cinema brasileiro.

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BETE BALANÇO

Certamente Lael Rodrigues não sabia a importância do filme que estava fazendo quando filmou BETE BALANÇO. Certamente não é um grande filme. Longe disso. Há um bocado de problemas. Mas só em ter Cazuza em música e como ator e o espírito daquele momento do rock brazuca dos 80 já é uma maravilha. Sem falar na Débora Bloch, que está encantadora. Pena que perderam a chance de incluir uma cena de sexo da Débora com a Maria Zilda. No mais, foi a primeira vez que eu ouvi a versão original de "Carente profissional" (pelo Barão Vermelho). Só conhecia a versão (muito melhor) da Marina Lima. Direção: Lael Rodrigues. Ano: 1984.

O GOSTO DO PECADO

Cláudio Cunha sabe caprichar nas cenas de sexo, mas este filme é bem irregular em sua narrativa. Poderia ser mais enxuto, mais dinâmico. O personagem do Jardel Mello é difícil de gostar. Mas aí tem a Simone Carvalho, que é apaixonante sem fazer muito esforço. Direção: Cláudio Cunha. Ano: 1980.

MULHERES ALTERADAS

Filme que se destaca bastante no quesito visual (gosto muito das cores e dos ângulos) e também por lidar com a questão da sororidade e de diferentes estilos de vida e posicionamentos em relação à vida. Queria mais Monica Iozzi. Fiquei feliz que ela finalmente esteve em um bom filme. Quem acaba tendo mais espaço no filme é Deborah Secco e Alessandra Negrini. Direção: Luis Pinheiro. Ano: 2018.

terça-feira, agosto 07, 2018

ANA E VITÓRIA

A primeira cena de ANA E VITÓRIA (2018) mostra um grupo de pessoas em uma festa intimista olhando para os seus próprios aparelhos celulares em meio a uma pequena multidão. Quando não, estão usando os celulares para filmar a moça que está cantando. Essa mudança de hábitos que faz com que as pessoas estejam quase o tempo todo com a cabeça voltada para baixo, como se estivessem tristes, ainda que vez ou outra estejam sorrindo e conversando com alguém, é mostrada em tom agridoce no que se refere ao sentimento.

Afinal, a solidão e a necessidade de encontrar uma pessoa para amar continua sendo algo intenso no espírito humano. O que pode ter mudado é a sensação falsa de estar menos só por causa das pessoas com quem se pode conversar no ambiente virtual. Há também uma mudança de valores muito interessante da juventude moderna. As duas meninas, Ana e Vitória, vivendo a si mesmas, têm relações com pessoas do mesmo sexo com certa naturalidade. Ana, inclusive, até prefere as meninas, como dá a entender desde o começo.

Mas ANA E VITÓRIA é um filme, acima de tudo, sobre amizade feminina, com foi, anos atrás, o belíssimo BAIXO GÁVEA, de Haroldo Marinho Barbosa. Mas aqui temos uma outra pegada, um outro diretor com uma familiaridade com a linguagem jovem no comando. Matheus Souza, que já havia trabalhado com outra estrela da música e do mundo pop, Clarice Falcão, em EU NÃO FAÇO A MENOR IDEIA DO QUE EU TÔ FAZENDO COM A MINHA VIDA (2012), desta vez se arrisca a fazer um musical com as jovens cantoras de Tocantins, que estão fazendo um sucesso popular bem considerável.

Por mais que Souza pareça ter um jeito quase amador de lidar com a dramaturgia e com os diálogos, eles são espirituosos e não buscam ser intelectuais. Na verdade, o filme consegue ser inteligente justamente porque suas personagens agem de maneira muito natural e falam muita bobagem. Uma das primeiras conversas de Ana com Vitória sobre comer formiga ser bom para a vista é um exemplo disso. E essa é apenas uma dentre as várias outras passagens que exploram o jeito simples das duas meninas que se aventuram pelo Rio de Janeiro.

O filme acompanha a jornada de união e sucesso das duas jovens que começam a cantar juntas e a partir dessa união passam a fazer sucesso e a arrebanhar uma legião de fãs. Para a surpresa delas. Há algumas passagens cantadas e que apresentam novas canções do duo, e algumas delas são cointerpretadas por Clarissa Müller, que faz par romântico com Ana. Pena que as novas canções não são tão inspiradas quanto as do primeiro disco, mas isso não tira o brilho e a beleza do filme.

No fim das contas, ANA E VITÓRIA apresenta mais uma história sobre chegas e partidas, encontros e desencontros amorosos do que a história profissional das duas meninas. O que é ótimo, pois acaba por flagrar um momento muito especial da vida humana, aquele momento em que tudo é muito incerto e doloroso, mas também muito excitante e cheio de vida.

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TENTAÇÃO NA CAMA

Como história de crime é bem ruim. Já quando vai mostrar as cenas de sexo com as três mulheres, é bom de ver. Infelizmente a maior parte da história é sobre a trama chata que só é revelada lá pelo final e deixar tudo no suspense só piora as coisas. A participação de Ari Toledo contando duas piadas podia ser dispensada. No mais, dá pra entender por que David Cardoso chora de saudade sempre que fala de seus tempos áureos. Direção: Ody Fraga. Ano: 1984.

NUNCA FOMOS TÃO FELIZES

Interessante fase do cinema brasileiro, que não precisava mais mostrar cenas de sexo para chamar a atenção, ainda que este aqui até possua. Mas o que mais importa mesmo é a espera, a eterna espera do garoto pelo pai envolvido com guerrilha na época da ditadura. Queria ter visto em melhores condições físicas. Direção: Murilo Salles. Ano: 1984.

SOL ALEGRIA 

Viva a anarquia! Abaixo a caretice! Uma beleza poder ter esses lemas em comum e ver SOL ALEGRIA. Por isso gosto tanto do miolo do filme, que se passa numa espécie de convento onde reina a depravação. Chega uma hora em que o sexo e a nudez estão tão naturais que se integram quase que sem estranhamento. Já acho problemática a terceira e última parte. Direção: Tavinho Teixeira e Mariah Teixeira. Ano: 2018.

domingo, julho 29, 2018

MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT (Mission: Impossible - Fallout)

Primeira vez que um filme da franquia MISSÃO: IMPOSSÍVEL repete o diretor, o sexto filme da série traz mais uma parceria do produtor e ator Tom Cruise com o diretor Christopher McQuarrie, com quem havia trabalhado em JACK REACHER - O ÚLTIMO TIRO (2012) e em MISSÃO: IMPOSSÍVEL - NAÇÃO SECRETA (2015). A amizade, porém, deve ter surgido quando da produção de OPERAÇÃO VALQUÍRIA (2008), em que McQuarrie aparece como roteirista.

O caso de McQuarrie é interessante, pois nota-se um crescimento dele como cineasta, provavelmente a partir das exigências do Cruise produtor e homem cada vez mais centrado na adrenalina e nos filmes de ação. Pode-se dizer que o diretor e roteirista chegou ao status de excelência neste MISSÃO: IMPOSSÍVEL - EFEITO FALLOUT (2018), com cenas de ação de cair o queixo de tão boas. É possível que seja o melhor filme da franquia desde o primeiro, dirigido por Brian De Palma em 1996.

A brincadeira com as máscaras continuam e aumentaram ainda mais os perigos, presentes, inclusive, no set de filmagens, quando Cruise, ao rejeitar o uso de dublês nas cenas de ação, quebrou o próprio pé em uma sequência em que pula de um prédio para o outro. Toda essa sensação de verdade e de materialidade é sentida no filme, que se distingue bastante das atuais aventuras de ação que usam e abusam do CGI. Mesmo em uma sequência como a dos helicópteros, tudo parece muito palpável, pesado, real.

Por real, não há por que pensar que o filme é do tipo verossímil. Não há necessidade disso uma vez que se aceite o jogo, as brincadeiras que a franquia proporciona, como a velha tensão em cortar o fio de uma bomba nos últimos instantes. Aqui a diferença é que os realizadores intensificam esse momento, colocando não apenas uma, mas três bombas ao mesmo tempo, em um projeto de equipe.

E por falar em equipe, EFEITO FALLOUT talvez seja o filme que melhor soube trabalhar com a questão do grupo. Apesar de nunca deixar de ser o grande protagonista, Tom Cruise divide a tela com o "Superman" Henry Cavill desta vez, em participação muito importante - a cena do banheiro, com uma luta corpo a corpo entre eles dois e um asiático, é sensacional. E é quando surge também Rebecca Ferguson, que havia brilhado no filme anterior e que retorna como uma espécie de membro não filiada da equipe, já que ela é uma espiã de outra organização. Ving Rhames e Simon Pegg também retornam como fiéis parceiros de Ethan Hunt (Cruise) e Michelle Monaghan aparece pouco, como a ex-esposa que teve que sair da vida do agente por causa do perigo.

A sensação de familiaridade se dá não apenas pelo retorno de toda essa turma - até o vilão do filme anterior retorna - mas por uma parceria que foi azeitada para resultar em uma obra que merece figurar entre as melhores produções de ação do novo século. Assim, se a princípio alguém pode ficar triste com o fato de não haver um novo diretor para deixar a sua marca na franquia, esse sacrifício foi feito por um motivo justo. Além do mais, Cruise não anda querendo mais muitas intervenções de cineastas-autores em suas produções. Felizmente ele é um ótimo produtor e aqui pelo menos parece saber o que está fazendo.

A trama é talvez a mais intrincada dos seis filmes da série, mas isso não constitui um problema: até dá um charme a mais. Até porque é uma trama que não é difícil de acompanhar. E mesmo se fosse difícil, ficar perdido em filmes de espionagem faz parte do jogo. E no caso de EFEITO FALLOUT, então, temos tantas cenas de ação ótimas que mesmo que nada fizesse sentido o filme seria ótimo ainda assim. A cena do paraquedas, a já citada cena de luta no banheiro de uma boate, a cena de perseguição na moto, a corrida no prédio, a perseguição de helicópteros são os melhores exemplos. É quase um aviso para os produtores dos filmes do James Bond: pronto, agora façam melhor do que isso, se são capazes!

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LUA DE JÚPITER (Jupiter Holdja)

Quando vi que este filme estava cotado para a Palma de Ouro em Cannes fiquei imaginando o porquê. Agora vi que foi por causa do sucesso de WHITE GOD (2014), que eu considero um filmão. Mas este aqui, meu Deus do céu, o que é isso? Essa fascinação por efeitos especiais e pela história do rapaz que é capaz de voar é de cansar a paciência. E há uma trama toda confusa que chega um momento que desisti de tentar entender. É um pouco longo, mas parece ainda mais longo. Direção: Kornél Mundruczó. Ano: 2017.

BASEADO EM FATOS REAIS (D'Après une Histoire Vraie)

O quanto desceu Roman Polanski, hein? Não dá nem pra imaginar que é baseado em um romance. O romance deve ser bem vagabundo, é o que dá para pensar. As atrizes nem estão de todo ruins, se a ideia é mesmo fazer um suspense tipo Supercine. Nesse sentido, dá pra se divertir com a Eva Green mais uma vez vilanesca. Ano: 2017.

GEMINI

Estou virando um stalker da Lola Kirke. Foi por ela que vi este GEMINI, que pintou nos torrents da vida e nem sei se vai aparecer nos streamings. O filme é mais charmoso do que realmente bom, com uma trama intrincada e que se perde e desaponta quando chega ao seu desfecho. Mas até lá é intrigante, explorando bastante a noite escura e as mansões luxuosas de Los Angeles/Hollywood. Direção: Aaron Katz. Ano: 2017.

segunda-feira, julho 23, 2018

A PATRULHA DA MADRUGADA (The Dawn Patrol)

Tempos atrás eu fiz uma peregrinação muito gostosa pela obra de Howard Hawks. Ia em busca de todos os filmes disponíveis em DVD ou para download com legendas pelo menos em inglês ou até em espanhol e fazia a festa. Alguns filmes acabaram ficando de fora pela indisponibilidade nesses meios. Agora alguns deles estão começando a surgir. A PATRULHA DA MADRUGADA (1930) é um deles. Embora não seja um dos melhores do cineasta, é um de seus trabalhos mais importantes. É o primeiro filme a definir alguns aspectos que se repetiriam como marca do autor em diversos outros trabalhos.

Antes de HERÓIS DO AR (1936), O PARAÍSO INFERNAL (1938) e ÁGUIAS AMERICANAS (1943), Hawks já havia prestado o seu tributo e demonstrado o seu amor à aviação neste que é tido como o primeiro filme sonoro realizado sem excessos de dramatização. Isso nas próprias palavras do diretor, em entrevista a Peter Bogdanovich, mas que pode muito bem ser quase uma unanimidade naqueles tempos em que os cineastas ainda tateavam na transição de uma era para a outra.

O filme também tem muito a ver com uma época em que o próprio Hawks era entusiasta da aviação e tinha uma relação de amizade com o milionário excêntrico Howard Hughes, que no mesmo ano fez um filme de aviação mais ambicioso do ponto de vista da produção, ANJOS DO INFERNO. Mas Hawks sabia lidar melhor com as emoções e por isso se tornou o gigante cultuado que é até hoje.

A PATRULHA DA MADRUGADA começa logo com a morte de dois pilotos durante uma missão durante a Primeira Guerra Mundial. Não conhecemos os pilotos, mas o filme sabe como deixar a situação trágica o suficiente, ao mesmo tempo em que os personagens principais tentam ser durões o o bastante para encarar aquela situação quase como uma rotina. Ainda que uma rotina muito cruel.

Um dos detalhes interessantes é que o próprio Hawks pilotou um dos aviões, filmou algumas cenas no ar. Cenas que depois seriam aproveitadas descaradamente em outra produção, da Warner, com praticamente o mesmo título. Por isso que hoje em dia, mesmo com tantos recursos, não conseguem fazer algo tão realista quanto o que se fazia nos anos 1930 e 1940.

Do ponto de vista das emoções, o ápice do filme é certamente a cena em que os pilotos cantam juntos no bar uma canção sobre aqueles que morreram e aqueles que ainda morrerão. É bem triste, mas é suficiente também para trazer uma relação de amizade masculina que se tornaria uma das marcas dos filme de Hawks. Quem é fã do cineasta certamente não pode ficar sem ver este A PATRULHA DA MADRUGADA. Até por que uma cena maravilhosa como a dos dois pilotos atacando a base dos alemães não se vê todo dia.

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HORIZONTE PROFUNDO - DESASTRE NO GOLFO (Deepwater Horizon)

Belo filme que nos oferece um pouco do que foi o maior desastre ecológico envolvendo petróleo da história dos Estados Unidos. Eficiente e no final a gente fica até bem emocionado. (Esse foi meu comentário na época que vi o filme, 11 de novembro de 2016. Com distanciamento, já vejo com excessos na parte do heroísmo.) Direção: Peter Berg. Ano: 2016.

UM ESTADO DE LIBERDADE (Free State of Jones)

A história em si eu não conhecia e achei fascinante! Mas o filme era pra ter virado uma minissérie. Acabou não dando conta de caber em 2 horas e 20 minutos e a segunda metade é bem corrida e apressada, recorrendo a vários textos explicativos. Mas há muitos momentos sensacionais. Direção: Gary Ross. Ano: 2016.

A LEI DA NOITE (Live by Night)

O amigo de Matt Damon, Ben Affleck, também se saiu mal dessa vez. A LEI DA NOITE podia ter rendido um puta filme, se feito sob a direção de um Scorsese, um De Palma, um Michael Mann... Há um material tão rico e é tão mal construído... Ano: 2016.

quarta-feira, julho 18, 2018

ARRANHA-CÉU - CORAGEM SEM LIMITE (Skyscraper)

Eis um filme que nos faz ter saudades das aventuras de ação tanto dos anos 1980 quanto da década seguinte. Isso porque ARRANHA-CÉU - CORAGEM SEM LIMITE (2018) acaba remetendo, inevitavelmente, ao hoje clássico DURO DE MATAR, que para muitos é considerado um divisor de águas entre o tipo de filme de ação que se fazia nos anos da Era Reagan e o que surgiria com mais sofisticação e mais diretores renomados na década seguinte. A lembrança tem a ver principalmente com a figura de um herói passando por situações perigosas em um prédio alto.

Acontece que tudo é anabolizado e o efeito para o espectador que até tenta embarcar com boa vontade no filme é de certa indiferença. Talvez por Dwayne Johnson ser uma figura tão forte e tão cheia de músculos que parece um super-herói já pronto e capaz até mesmo de passar de um lado a outro de um prédio com auxílio de fitas adesivas nas mãos, como um Homem-Aranha. Em DURO DE MATAR, Bruce Willis, por sua vez, encarna a figura de uma pessoa normal, que até sangra bastante.

Deixando as comparações de lado, o que temos é um filme em que não se espera nenhuma sutileza. O que o diretor Rawson Marshall Thurber, que já havia trabalhado com Johnson em UM ESPIÃO E MEIO (2016), poderia fazer era usar os exageros a seu favor. Uma pena que nem a equipe de efeitos especiais tenha se preocupado em deixar as cenas críveis a ponto de as aproximarem do espectador. Não se trata, portanto, de uma produção feita no capricho como um MISSÃO: IMPOSSÍVEL. E nem tem a pretensão de ser, na verdade. De todo modo, há pontos positivos a destacar.

Um deles é ter novamente Neve Campbell em ação depois de passarmos quase uma década vendo-a como protagonista da antológica cinessérie PÂNICO, de Wes Craven, nos anos 1990. Em ARRANHA-CÉU ela interpreta a esposa do protagonista. Curiosamente, veremos que ela é mais do que apenas uma esposa em perigo cuidando de seus dois filhos. Ter um protagonista com uma deficiência física (o herói perde a perna em ação no início do filme) acaba por tornar Johnson não um sujeito com pontos fracos. Ao contrário, ele se torna ainda mais invencível com aquela perna que lhe será útil em determinadas situações de perigo.

Outro ponto positivo é a locação. Hong Kong é um charme e foi um grande polo dos filmes de ação por décadas. Parte do elenco é composta por atores de lá. Além do homem que idealizou o prédio mais alto do mundo, vivido por Chin Han, há uma personagem coadjuvante, do grupo dos vilões, que poderia ter sido melhor aproveitada, a jovem e bela Hannah Quinlivan. Ela e Neve Campbell tem um momento juntas, mas é muito pouco.

O que sobra mesmo é espaço para a inteligência e as habilidades do protagonista, que passa a ter suas ações acompanhadas por uma multidão através de uma imensa tela de televisão, enquanto o prédio está em chamas e sua família corre perigo. A trama é o de menos: envolve os inimigos do empresário que planejam por em chamas o prédios mais alto do mundo. As cenas não deixam de passar uma lembrança do 11 de setembro. Talvez a ideia de Thurber tenha sido esta: fazer um grande épico de ação que remetesse a um grande drama americano.

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SICÁRIO - DIA DO SOLDADO (Sicario - Day of the Soldado)

Pra ser sincero, tenho pouca lembrança do primeiro filme, apesar de lembrar de ter gostado. Deste, gostei bastante da força do personagem do Del Toro, e de sua grande presença em cena, assim como de sua relação com a garota sequestrada. Interessante terem colocado um diretor italiano para dirigir esta sequência, que tem várias cenas memoráveis. A maioria delas, claro, roubadas por Del Toro. Destaque também para o ótimo roteiro bem costurado do Taylor Sheridan, que é praticamente um roteirista-autor. Caso raro atualmente em Hollywood. Talvez por isso Villeneuve não tenha querido dirigir mais este. Direção: Stefano Sollima. Ano: 2018.

OITO MULHERES E UM SEGREDO (Ocean's Eight)

Muito divertido este filme de roubo com a presença de um time de estrelas que a gente ama. Bullock, Blanchett, Hathaway e Paulson, em primeiro lugar. Mas Rihanna está sensacional também. Nem gosto muito do primeiro filme do Soderbergh, por isso fui achando que não ia gostar deste. Diversão despretensiosa e que honra a subcategoria. Direção: Gary Ross. Ano: 2018.

NO OLHO DO FURACÃO (The Hurricane Heist)

Filme bem ordinário, mas que não chega a ser exatamente ruim, sobre assalto a banco que acontece em um cenário de furacão intenso. Maggie Grace está muito à vontade como agente federal. Aliás, nunca a vi tão à vontade e tão bela. Direção: Rob Cohen. Ano: 2018.

quarta-feira, julho 11, 2018

CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO

Chega a ser impossível ver este documentário e não sentir saudade da época das videolocadoras, mesmo sabendo que hoje, em termos de qualidade de som e imagem e de oferta, as coisas estão muito melhores. E nós mesmos, tão entusiastas de uma era, fomos de certa forma responsáveis pelo fim das lojas. Eu mesmo há tempos não fazia uma visita a uma locadora. A oferta e a qualidade dos arquivos para download eram tentadores demais.

Mas o que sentimos vendo CINEMAGIA - A HISTÓRIA DAS VIDEOLOCADORAS DE SÃO PAULO (2017), de Alan Oliveira, é difícil até de por em palavras, já que vêm à mente um entusiasmo muito grande. Eu, por exemplo, ficava tão alegre ao entrar em uma grande locadora, como a King Vídeo ou a Distrivídeo, ou mesmo em uma que tinha aqui no bairro vizinho, que tinha uma oferta até generosa, que batia até uma dor de barriga, tal era o entusiasmo. É como deixar uma criança em uma loja de doces e dizer que ela pode ficar à vontade e escolher muitos para levar.

Eu já lia revistas sobre cinema e vídeo e cheguei a ler a revista do Rubens Ewald Filho também, a Video News, antes mesmo de ter um aparelho de videocassete. O primeiro que eu tive só foi em 1992, com o dinheiro das minhas primeiras férias. Então, não cheguei a ver essa coisa de fita pirata em locadoras, embora todas as fitas que eu alugasse já falassem bastante da questão da obrigatoriedade das fitas seladas.

O documentário acaba sendo gostoso pois nos faz viajar no tempo, desde os primórdios das primeiras videolocadoras, que começaram de uma maneira bem ousadas, muito fruto da vontade e do amor dessas pessoas. A história da Omni Vídeo, por exemplo, a primeira de São Paulo e possivelmente do Brasil, é para dar boas risadas. Assim, conhecemos as primeiras locadoras e também acompanhamos as primeiras emocionadas histórias e, depois, as primeiras distribuidoras oficializadas.

Também não deixa de ser emocionante ver os depoimentos do crítico Christian Petermann, falecido prematuramente no ano passado. Ele passa uma paixão em suas memórias de consumidor de vídeo que deve contagiar até mesmo o pessoal da geração do novo milênio, que não chegou a acompanhar esse processo, ou que chegou já em um momento em que essas lojas estão em extinção.

Por essas e por outras razões, como a bela montagem e a ótima escolha de pessoas a entrevistar, além do forte toque de emoção, já que as pessoas entrevistadas dedicaram muitos anos (décadas) de suas vidas unindo negócio e prazer, que CINEMAGIA é uma das produções brasileiras mais bem-vindas da atualidade, especialmente nesses tempos de streaming e novos hábitos de consumo de filmes. É sempre bom lembrar que as coisas já foram bem diferentes. E quem viveu aqueles momentos viveu momentos mágicos.

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LUMIÈRE! A AVENTURA COMEÇA (Lumière)

É bom que o espectador vá ao cinema preparado para ver 108 curtas de 50 segundos dos irmãos Lumière. Mas mesmo com a possibilidade de cansar, a edição é muito boa, e a análise do diretor é excelente. Se fossem apenas os filmes para serem vistos e sem comentário algum certamente deixaríamos de prestar atenção em muitas coisas. Legal que a sala tinha bastante gente e muita gente se divertiu e riu de vários curtas. Ah, e eu achei incrível aquele com uso de três cinemascopes numa só imagem. Direção: Thierry Frémaux. Ano: 2016.

GATOS (Kedi)

Pra quem gosta de gatos é uma beleza. Mas o filme tem algo de muito interessante em mostrar Istambul, uma cidade cheia de gatos por todos os lados. Tem até o seu lado triste, pois muitos deles vivem nas ruas, sem donos. Muito bonitos os depoimentos de pessoas que conseguiram superar problemas sérios graças aos gatos. Sem falar que eles são de uma beleza incrível. É como um dos entrevistados diz: é como se eles fossem super-heróis. Admiráveis no que conseguem fazer e ainda serem tão elegantes. Gosto também de uma moça, que fala sobre a questão de os gatos permitirem ser belos e elegantes mas não permitirem que qualquer pessoa os toque. Direção: Ceyda Torun. Ano: 2016.

SPIELBERG

Levei meses para terminar de ver este documentário, pois ele não é tão fluido, é meio truncado, não sei. Mas há muita coisa a se aprender sobre o homem e o artista vendo este filme. Alguns filmes passaram batido, mas acho que a maior parte das escolhas foi acertada. Talvez o problema seja de montagem. Direção: Susan Lacy. Ano: 2017.

segunda-feira, julho 09, 2018

VINGANÇA (Revenge)

O fato de VINGANÇA (2017) ser um filme de estupro e vingança dirigido por uma mulher nos dias de hoje faz bastante diferença na hora de perceber detalhes importantes, principalmente se já temos como referência outros filmes desse subgênero em mente, como A VINGANÇA DE JENNIFER, de Meir Sarchi, e seu remake DOCE VINGANÇA, de Steven M. Monroe, THRILLER - A CRUEL PICTURE, de Bo Arne Vibenius, SEDUÇÃO E VINGANÇA, de Abel Ferrara, SEDUZIDA AO EXTREMO, de Robert M. Young, entre outros.

Em comum em todos esses filmes está o aspecto exploitation. São menos feitos para fazer uma reflexão sobre o ato terrível perpetrado pelos estupradores e mais feitos para mostrar as cenas violentas, às vezes até com um pouco de sadismo. O exemplar que leva essa característica às últimas consequências talvez seja IRREVERSÍVEL, de Gaspar Noé, ainda que seja uma obra que, ao nos fazer olhar por vários minutos todo o estupro, também traz um sentimento de mal estar enorme.

De todo modo, ao vermos VINGANÇA, primeiro longa da diretora e roteirista Coralie Fargeat, entendemos o fato de ela não mostrar a cena do estupro em si. Acaba não sendo necessário, já que o mal estar provocado pela tensão provocada pelo estuprador nos momentos imediatamente anteriores à ação já é motivo mais do que suficiente para que torçamos por sua vingança. Até porque o que acontece em seguida só torna os seus motivos ainda mais aceitáveis.

Ao contrário do que se poderia imaginar em uma obra dirigida por uma mulher e feita em tempos em que se procura não mais objetificar o corpo feminino, VINGANÇA destaca sim o belo corpo de sua protagonista, vivida pela italiana Matilda Anna Ingrid Lutz. Assim como traz motivo para algum espectador chegar e dizer: "mas ela não deu motivo para o estuprador fazer o que fez?". Aí é que está: a protagonista, ao brincar e se sentir desejada por aqueles três homens, tinha o direito de esbanjar sensualidade e beleza. Então, o que temos aqui é também uma espécie de filme-manifesto sobre esse direito.

Trazer esses questionamentos em uma embalagem de um filme de suspense sangrento (e haja sangue!) e cheio de filtros e com fotografia estilizada é um mérito que VINGANÇA tem. É possível ver o filme empolgado com o jogo de gato e rato e também se divertir com certas cenas que vão parecer bem inverossímeis, como as duas que envolvem um isqueiro. Ainda assim, não deixam de ser inteligentes no modo como encontram uma solução para que a vingança da jovem mulher fosse efetuada no calor do momento, e não um prato que se come frio, como se costuma dizer em provérbio popular.

Outro elemento muito importante que o filme destaca é a ênfase dada à covardia do estuprador (Vincent Colombe). Ele é covarde não só em ser um estuprador, mas é covarde também quando tem que enfrentar aquele anjo de vingança que escapa da morte para persegui-lo. Esses e outros detalhes contam nesta produção que sabe brincar com um tipo de história tantas vezes narrada por um homem e que traz consigo tanto a vulgaridade quanto a leitura rica e as questões tão em voga nos dias de hoje.

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7 DIAS EM ENTEBBE (Entebbe)

Acho que este filme do José Padilha vale mais por apresentar uma história real impressionante de maneira até decente do que pelo modo como a narrativa se dá efetivamente. Gosto de como o casal principal trabalha com os conflitos internos. Do ponto de vista político, será que Padilha quis ser imparcial? Ano: 2018.

AOS TEUS OLHOS

Uma das boas surpresas dentre os filmes brasileiros a estrear neste ano. AOS TEUS OLHOS também se beneficia em saber lidar com um assunto muito presente nos dias de hoje, que é o julgamento que se faz de alguém a partir da internet. Aliás, não só esse tema. Carolina Jabor consegue manter um clima de tensão do início ao fim. Ano: 2017.

COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR

Como dá para ver o filme como sendo uma produção B de ação, acaba parecendo aquelas produções feitas diretas para vídeo nos tempos do VHS, embora a curiosidade esteja no fato de ser um filme basicamente moçambicano. É possível perceber tanto as falhas quanto as qualidades, mas não consegui me envolver e fiquei ligado mais nas falhas mesmo. E na falta de mais força dramática. Diretor: Licínio Azevedo. Ano: 2016.